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4.2.21

Luís Amaro (Fuga)

 


FUGA
 

 
Numa nuvem de esquecimento
passar a vida,
sem mágoas, sem um lamento,
água correndo, impelida
pelo vento.
 
Ouvir a música do instante que passa
e recolhê-la no coração,
olhos fechados à dor e à desgraça,
os ouvidos atentos à canção
do instante que passa.
 
Beber a luz doirada que irradia
dos vastos horizontes,
e ver escoar-se o dia
entre pinhais e montes...
Doce melancolia.
 
Esquecer todas as agruras
que lá vão
e este negro mar de desventuras
em que voga ao sabor de torvas ondas
meu coração.

 
Luís Amaro

.

21.6.17

Luís Amaro (Tarde)




TARDE



Vago sabor de outono
E de coisas extintas.
Nem desejos nem dor...
Meu coração esquece.

No ar parado voga
Talvez uma saudade
De tudo que perdi,
De tudo que não fui.

Ninguém chama por mim
Nem chamo por ninguém.
Instante calmo e triste...
Como a vida está longe!

No dia húmido cai
Um silêncio dormente.
Uma música ausente
Meu coração embala.


Luís Amaro


.


5.12.14

Luís Amaro (Dádiva)





DÁDIVA



Lá muito ao fundo
daquela estrada
uma luz cintila.
Será a vida?
A meio da noite
escura que existe
dentro de nós mesmos,
uma luz cintila.
Densa névoa envolve
minha sombra indecisa:
mas, pura, lá surge
a luz que cintila.
Tudo a vida nega
à sede antiga e ardente.
Só não se apaga nunca
a pequenina estrela.

Luís Amaro

[Luz & sombra]

.

28.5.14

Luís Amaro (Liberdade)





LIBERDADE



Viver sem alarde,
obscuramente,
suportar sozinho
o peso dos sonhos,

fugir do tumulto
que os outros impõem
turvando o silêncio
do nosso mistério;

sem gritos nem gestos
ou palavras vãs
ir por entre as turbas
dos olhos vendados,

ouvir só a voz
do nosso segredo
(mas nunca indiferente
às lágrimas doutrem)

e erguido bem alto
o muro dos sonhos,
ah! poder* enfim
passar livremente.

Luís Amaro


[Luz & sombra]



(*) Corrigido: pode>poder.


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10.12.13

Luís Amaro (Lápide)





LÁPIDE



Procuro teu rosto
nos confins da memória.

Palavras que um dia
ouvi, ou sonhei,
súbito iluminam
minha solidão.
Com elas componho
o segredo oculto
do nosso destino.
Com elas invento
e reconstituo
teu perfil de névoa,
tua voz ausente
e sempre guardada
no meu coração.
Fluis, permaneces
à flor dos dias
que correm sem nome:
O tempo desgasta
o sonho submerso
na noite, minha alma
sem luz... e a viver.
Por ínvios caminhos
me perco, à procura
de ti, que passaste
um dia, cruzando
o céu sem estrelas
nem amanhecer.

Passaste e perduras
nesse breve instante
longínquo e tão perto.
Não sei onde paira
teu perfil de névoa,
tua voz ausente,
velada, indecisa...
Mas da luz que doira
as coisas em volta
ressurges, e inundas
a vida de esperança,
ó rosto impalpável,
ó voz pressentida
lá no mais secreto
da alma, do ser.


Luís Amaro



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