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24.2.18

Cecília Meireles (De que são feitos os dias)





De que são feitos os dias?
- De pequenos desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças.
Entre mágoas sombrias,
momentâneos lampejos:
vagas felicidades,
inactuais esperanças.

De loucuras, de crimes,
de pecados, de glórias
- do medo que encadeia
todas essas mudanças.

Dentro deles vivemos,
dentro deles choramos,
em duros desenlaces
e em sinistras alianças.

Cecília Meireles

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5.5.16

Cecília Meireles (Ai palavras, ai palavras)





Ai, palavras, ai palavras,
que estranha potência, a vossa!
Ai, palavras, ai palavras,
sois o vento, ides no vento,
e, em tão rápida existência,
tudo se forma e transforma!
Sois de vento, ides no vento,
e quedais, com sorte nova!
Ai, palavras, ai palavras,
que estranha potência, a vossa!
Todo o sentido da vida
principia à vossa porta;
o mel do amor cristaliza
seu perfume em vossa rosa;
sois o sonho e sois audácia,
calúnia, fúria, derrota…
A liberdade das almas,
ai! com letras se elabora…
E dos venenos humanos
sois a mais fina retorta:
frágil como o vidro
e mais que o são poderosa!
Reis, impérios, povos, tempos,
pelo vosso impulso rodam…



Cecília Meireles

[Lusografias]

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26.9.13

Cecília Meireles (Morro do que há no mundo)





Morro do que há no mundo:
do que vi, do que ouvi.
Morro do que vivi.
Morro comigo, apenas:
com lembranças amadas,
porém desesperadas.
Morro cheia de assombro
por não sentir em mim
nem princípio nem fim.
Morro: e a circunferência
fica, em redor, fechada.
Dentro sou tudo e nada.


Cecília Meireles

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5.6.11

Cecília Meireles (Metamorfose)





METAMORFOSE



Súbito pássaro
dentro dos muros
caído,

pálido barco
na onda serena
chegado.

Noite sem braços!
Cálido sangue
corrido.

E imensamente
o navegante
mudado.

Seus olhos densos
apenas sabem
ter sido.

Seu lábio leva
um outro nome
mandado.

Súbito pássaro
por altas nuvens
bebido.

Pálido barco
nas flores quietas
quebrado.

Nunca, jamais
e para sempre
perdido

o eco do corpo
no próprio vento
pregado.


Cecília Meireles


[Poesia de Cecília]


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25.11.10

Cecília Meireles (Canção do amor-perfeito)






CANÇÃO DO AMOR-PERFEITO




O tempo seca a beleza.
seca o amor, seca as palavras.
Deixa tudo solto, leve,
desunido para sempre
como as areias nas águas.


O tempo seca a saudade,
seca as lembranças e as lágrimas.
Deixa algum retrato, apenas,
vagando seco e vazio
como estas conchas das praias.


O tempo seca o desejo
e suas velhas batalhas.
Seca o frágil arabesco,
vestígio do musgo humano,
na densa turfa mortuária.


Esperarei pelo tempo
com suas conquistas áridas.
Esperarei que te seque,
não na terra, Amor-Perfeito,
num tempo depois das almas.



Cecília Meireles


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3.9.10

Cecília Meireles (Canção mínima)





CANÇÃO MÍNIMA




No mistério do sem-fim
equilibra-se um planeta.


E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro;
no canteiro uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,


entre o planeta e o sem-fim,
a asa de uma borboleta.



Cecília Meireles




[Releituras]

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27.7.10

Cecília Meireles (Motivo)








MOTIVO




Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.


Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.


Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou se desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.


Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno e asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.



Cecília Meireles

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18.6.10

Cecília Meireles (Canção)






CANÇÃO




Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
— depois, abri o mar com as mãos,
para meu sonho naufragar.


Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre dos meus dedos
colore as areias desertas.


O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...


Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.


Depois, tudo estará perfeito:
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e minhas duas mãos quebradas.



Cecília Meireles

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13.9.09

Cecília Meireles (Ou isto ou aquilo)









OU ISTO OU AQUILO





Ou se tem chuva e não se tem sol,
ou se tem sol e não se tem chuva!


Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!


Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.


É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo nos dois lugares!


Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.


Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...
e vivo escolhendo o dia inteiro!


Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranqüilo.


Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.



Cecília Meireles


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16.8.09

Cecília Meireles (Lua adversa)









LUA ADVERSA





Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.



Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.



E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...


Cecília Meireles



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26.6.09

Cecília Meireles (Voo)










VOO






Alheias e nossas as palavras voam.
Bando de borboletas multicores, as palavras voam
Bando azul de andorinhas, bando de gaivotas brancas,
as palavras voam.


Voam as palavras como águias imensas.
Como escuros morcegos, como negros abutres,
as palavras voam.


Oh! alto e baixo em círculos e retas acima de nós,
em redor de nós as palavras voam.
E às vezes pousam.



Cecília Meireles



[Zeze Pina]


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15.3.09

Cecília Meireles (Murmúrio)









MURMÚRIO





Traze-me um pouco das sombras serenas
que as nuvens transportam por cima do dia!
Um pouco de sombra, apenas,
- vê que nem te peço alegria.



Traze-me um pouco da alvura dos luares
que a noite sustenta no teu coração!
A alvura, apenas, dos ares:
- vê que nem te peço ilusão.



Traze-me um pouco da tua lembrança,
aroma perdido, saudade da flor!
- Vê que nem te digo - esperança!
- Vê que nem sequer sonho - amor!



Cecília Meireles


[Casa do bruxo]



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13.11.08

Cecília Meireles (Cântico II)









CÂNTICO II





Não sejas o de hoje.
Não suspires por ontens...
Não queiras ser o de amanhã.
Faze-te sem limites no tempo.
Vê a tua vida em todas as origens.
Em todas as existências.
Em todas as mortes.
E sabe que serás assim para sempre.
Não queiras marcar a tua passagem.
Ela prossegue:
É a passagem que se continua.
É a tua eternidade.
És tu.



Cecília Meireles





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5.7.07

Cecília Meireles (Cântico XIII)







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CÂNTICO XIII






Renova-te.
Renasce em ti mesmo.
Multiplica os teus olhos, para verem mais.
Multiplica os teus braços para semeares tudo.
Destrói os olhos que tiverem visto.
Cria outros, para as visões novas.
Destrói os braços que tiverem semeado,
Para se esquecerem de colher.
Sê sempre o mesmo.
Sempre outro. Mas sempre alto.
Sempre longe.
E dentro de tudo.



Cecília Meireles



>>  Camerata Antiqua de Curitiba (Dimitri Cervo)
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Outras: Mulheres-que-amo (22p) / Projecto Releituras (bio-biblio+verso+prosa) / Jornal de Poesia (37p+bio-bilio+critica) / Casa do Bruxo (78p)

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Antes, aqui: Cântico IV / Um verso / Retrato (com sinopse)
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28.4.06

Cecília Meireles (Retrato)





RETRATO



Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.


Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.


Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida
a minha face?



Cecília Meireles






Biografia

Cecília Benevides de Carvalho Meireles nasceu a 7 de novembro de 1901, no Rio de Janeiro.
Órfã de pai e mãe desde os três anos de idade foi criada pela avó materna.
Em 1917 forma-se na Escola Normal do Rio, dedicando-se ao magistério primário.
A partir da década de 30, leciona literatura brasileira em várias universidades.
Estudou canto e violino.
Empenhou-se na renovação da Educação, tendo organizado a primeira biblioteca infantil do país. Publicou seu primeiro livro em 1919, "Espectros", de tendência parnasiana.
A partir de 1922, passou a integrar a corrente espiritualista, ala católica do movimento modernista, e que teria na revista Festa (fundada em 1927) seu principal veículo de expressão. Em 1935, o suicídio do marido força-a a ampliar suas atividades de professora e jornalista, para educar as filhas.
Alcança a maturidade como poeta em 1938 com a publicação de "Viagem", premiado pela Academia Brasileira de Letras.
Casada novamente, inicia-se um período de intensa atividade profissional e literária, e de freqüentes viagens ao exterior, o que se refletiria em obras como "Doze Noturnos de Holanda" e "Poemas Escritos na Índia".
Em 1953, após anos de minuciosa pesquisa histórica, publica o "Romanceiro da Inconfidência". Cecília Meireles morreu a 9 de novembro de 1964, no Rio de Janeiro.
No ano seguinte, a ABL concede-lhe postumamente o prémio Machado de Assis, pelo conjunto de sua obra.



Fonte / Iconografia / Bibliografia / Mais poemas

Outros poemas

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4.3.06

Um verso (7)





Um verso de Cecília Meireles
(do outro lado do mar):




“Aprendi com a primavera a deixar-me cortar e a voltar sempre inteira”.


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25.2.06

Cecília Meireles (Cântico-IV)





CÂNTICO-IV




Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acabas todo dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.



Cecília Meireles

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