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7.10.24

Luís Filipe Castro Mendes (Do medo)




DO MEDO

 

1 

Não pode o poema 
circunscrever o medo, 
dar-lhe o rosto glorioso 
de uma fábula 
ou crer intensamente na sua aura. 
Nós permanecemos, quando 
escurece à nossa volta o frio 
do esquecimento 
e dura o vento e uma nuvem leve 
a separar-se das brumas 
nos começa a noite. 

Não pode o poema 
quase nada. A alguns inspira 
uma discreta repugnância. 
Outras vezes inclinamo-nos, reverentes, ante os epitáfios 
ou demoramo-nos a escutar as grandes chuvas 
sobre a terra. 
Quem reconhece a poesia, esse frio 
intermitente, essa 
persistência através da corrupção? 
Quase sempre a angústia 
instaura a luz por dentro das palavras 
e lhes rouba os sentidos. 
Quase sempre é o medo 
que nos conduz à poesia. 

2 

Voltando ao medo: as asas 
prendem mais do que libertam; 
os pássaros percorrem necessariamente 
os mesmos caminhos no espaço, 
sem possibilidades de variação 
que não estejam certas com esse mesmo voo 
que sempre descrevem. 

Voltando ao medo: o poema 
desenha uma elipse em redor da tua voz 
e cerca-se de angústia 
e ervas bravias — nada mais 
pode fazer. 


LUIS FILIPE CASTRO MENDES
A Ilha dos Mortos
(1991)

 .

27.4.24

Luís Filipe Castro Mendes (Anunciação)

 



ANUNCIAÇÃO 

 

Não fujo ao poema.
Espero-o com a alegria de quem caminha
sobre brasas e destroços
e dele espero a música, toda a música
que não sei dar nem receber. 

Antes de fechar as contas, digo eu,
espero o poema
como um riso atrás da cortina
da vida.

 

LUÍS FILIPE CASTRO MENDES
 A Misericórdia dos Mercados
Assírio & Alvim (2014)

 

[Poema possivel]

 

.

26.11.23

Luís Filipe Castro Mendes (Acordar)




ACORDAR

 

Estranho as manhãs:
saímos do sono e do sonho para entrar num mundo
estrangeiro e diverso,
feito de ângulos rectos e de névoa densa.

Só o costume nos vai convencendo devagar
que esta é a realidade.
Pode ser.


Luis Filipe Castro Mendes

 .

24.6.23

Luís Filipe Castro Mendes (A misericórdia dos mercados)




A MISERICÓRDIA DOS MERCADOS

 

Nós vivemos da misericórdia dos mercados.
Não fazemos falta.
O capital regula-se a si próprio e as leis
são meras consequências lógicas
dessa regulação,
tão sublime que alguns vêem nela o dedo de Deus.
Enganam-se.
Os mercados são simultaneamente o criador
e a própria criação.
Nós é que não fazemos falta.

Luís Filipe Castro Mendes

.

24.3.22

Luís Filipe Castro Mendes (Regresso)

 



REGRESSO

 

Já voltei a casa, as portas rangem,
o pó tomou conta de todos os móveis, 
deixando-me de pé, a balançar as chaves,
e a interrogar-me sobre o que não fiz.

O tempo que resta não é para confissões
nem para ajustes de contas:
pois quem guarda o guardião,
quem despe a roupa das vestais do templo?
A água corre ainda, um fio sequer, de torneiras
em desuso. Respiro e não deixarei de olhar.

Que trabalho é este, oculta e extinta miséria 
sob os nossos passos?
As janelas com vidros quebrados, o plástico
por cima dos horizontes perdidos
da transparência. Porque insistes? Porque ficas
à entrada da casa, perdido no olhar
e na memória do que nunca chegou a ser?

LUÍS FILIPE CASTRO MENDES
Outro Ulisses Regressa a Casa
(2015)

.

3.2.19

Luís Filipe Castro Mendes (Camões na Índia-2)




CAMÕES NA ÍNDIA-2


Penso nele sem acrimónia.
O mundo que o português criou
foi tão mau ou tão bom como o mundo
que o resto da Humanidade foi criando.

Sonharmo-nos Império?
Mas todos os grandes o fizeram:
o Camões, o Vieira, o Pessoa,
até Cesário de um certo modo,
nas nossas ruas ao anoitecer...

Só Pessanha viu ao certo o que finalmente ficou de nós:
pedras, conchinhas, pedacinhos de osso...


Luís Filipe Castro Mendes


6.2.18

Luís Filipe Castro Mendes (Resposta)





RESPOSTA



Sim, andei por fora,
por vezes não reconheço as ruas da minha cidade
e há rostos que me envelhecem o coração.
Mas não tenha dúvidas, não precisa de fazer perguntas,
de ficar atento aos meus mínimos movimentos,
de esboçar por dentro de si o desenho
daquilo a que chama a minha alma.
Os comboios param em estações abandonadas, noite dentro,
e nós saímos como passageiros estremunhados e engelhados pelo frio
para cidades desconhecidas, belas e desertas
como todo o tempo que passou.
Sim, eu sei que estou a fugir ao assunto.
Importa-se de repetir a sua pergunta?


Luís Filipe Castro Mendes


.


11.11.16

Luís Filipe Castro Mendes (Música calada)





                
MÚSICA CALADA



Dizias que nos sobram as palavras:
e era o lugar perfeito para as coisas
esse escuro vazio no teu olhar.

E demorava a dura paciência,
fruto do frio nas nossas mãos vazias
que mais coisas não tinham para dar.

Dizia então a dor o nosso gesto
e durava nas coisas mais antigas
a solidão sem rasto que há no mar.


LUÍS FILIPE CASTRO MENDES
Poesia Reunida (1985-1999)
Lisboa, Quetzal (1999)




20.6.16

Luís Filipe Castro Mendes (Como um adeus português)





COMO UM ADEUS PORTUGUÊS



Meu amor, desaparecido no sono como sonho de outro sonho,
meu amor, perdido na música dos versos que faço e recomeço,
meu amor por fim perdido.

Nenhuma lâmpada se acende na câmara escura do esquecimento,
onde revelo em banho de prata as imagens que guardo de ti,
imagens que se desfiam na memória de haver corpos,
na memória da alegria que sempre guardamos para dar a alguém,
tremendo de medo, tropeçando de angústia,
enternecidos,
entontecidos,
como aves canoras soltas nos vendavais.

Perdi-te no momento certo de perder-te.
Aqui estão os augúrios, além o discernimento.
O amor em surdina desfez-se no seu dizer,
entre versos pobres, um corpo cansado,
e a doença sem fim do desejo mortal.

Apagaram-se as luzes. Nunca o vento da indiferença
me abrirá as mãos.
Nunca abdicarei deste quinhão de luz, o meu amor.
E agora vejo bem como as palavras caem,
não valem,
se desfolham e são pisadas por qualquer afirmação da vida,
da vida que não era para nós.


LUIS FILIPE CASTRO MENDES
Os Amantes Obscuros
(1985-2001)



- Alexandre O'Neill - Um adeus português

.

17.3.16

Luís Filipe Castro Mendes (O último amor)





O ÚLTIMO AMOR



Era o último amor. A casa fria,
os pés molhados no escuro chão.
Era o último amor e não sabia
esconder o rosto em tanta solidão.

Era o último amor. Quem adivinha
o sabor breve pela escuridão?
Quem oferece frutos nessa neve?
Quem rasga com ternura o que foi verão?

Era o último amor, o mais perfeito
fulgor do que viveu sem as palavras.
Era o último amor, perfil desfeito
entre lumes e vozes e passadas.

Era o último amor e não sabia
que os pés à terra nua oferecia.


Luís Filipe Castro Mendes

[Gaveta de nuvens]

.

2.11.15

Luís Filipe Castro Mendes (Noutra praia)





NOUTRA PRAIA



Mas tu pensas
que o mar te não esqueceu:
por isso voltas cada ano a esta praia
onde tudo o que permanece te ignora;
e encaras o mar como se fosses tu,
ainda tu,
quem recebe na face a mudança dos ventos.


Luís Filipe Castro Mendes


.

1.4.15

Luís Filipe Castro Mendes (Para quê poetas)





PARA QUÊ POETAS EM TEMPOS DE INDIGÊNCIA?



Levantar a gola do casaco,
esconder os punhos da camisa já puídos
e defender, com os dentes cerrados, as palavras:
mas quem aguenta mais este murmúrio vão,
que não colhe mais as flores do mal nem a luz
radiosa na própria miséria?
Resistir, como sempre fizeram os humilhados.
Decorar palavras antigas.
Repeti-las, para que não sejam esquecidas,
aos vindouros.


LUÍS FILIPE CASTRO MENDES
A Misericórdia dos Mercados
Assírio & Alvim (2014)


[Poema possível]

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7.12.14

Luís Filipe Castro Mendes (Memento mori)





MEMENTO MORI



Eu vi morrer três pessoas:
a uma acompanhei até ao fim,
no que seria talvez o que lhe restava de vida
ou porventura o que lhe sobrava de morte;
outra morreu quando eu dormia,
longe do hospital:
e tive que atravessar pela madrugada
uma cidade estrangeira
para chegar à sua morte;
e meu Pai, enquanto eu ia
comprar-lhe uma garrafa de oxigénio,
que nunca soube a quem serviu depois.

Nós nunca vemos ninguém morrer,
porque morrer é por dentro de cada um,
como talvez tudo o que tenha algum sentido,
como talvez o amor.

O que verdadeiramente importa
é opaco ao nosso olhar
e cada prova que vivemos
é só e única:
morrer ou ver morrer

e o amor também.


Luís Filipe Castro Mendes


[Tim-Tim no Tibet]

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6.6.14

Luís Filipe Castro Mendes (Das palavras)




DAS PALAVRAS



As palavras mais simples
foram as que te dei;
o amor não sabe outras,
só estas fazem lei.
As palavras de uso
mais comum e vulgar
são as que amor conhece.
Com elas nos pensamos;
é nelas que tememos
desacertos, enganos;
se nelas triunfamos,
já delas nos perdemos.
Com palavras vulgares
se diz o mal de amor,
seu riso, seu espelho,
o que fica da dor.
E todos os mistérios
que se fazem promessa
e se perdem nos versos
e dos corpos nasceram
são aqui cerimónia
evidente e secreta
nas mais simples palavras
que conhece o poeta.

Luís Filipe Castro Mendes



>>  Tim-Tim no Tibete (blogue) / nEscritas (14p) / Citador (19p)



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