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14.7.24

Ana Hatherly (Os livros)




Os livros estão sempre sós.
Como nós.
Sofrem o terrível impacto do presente.
Como nós.
Têm o dom de consolar, divertir, ferir, queimar.
Como nós.
Calam sua fúria com sua farsa.
Como nós.
Têm fachadas lisas ou não.
Como nós.
Formosas, delirantes, horrorosas.
Como nós.
Estão ali sendo entretanto.
Como nós.
No limiar do esquecimento.
Como nós.
Cheios de submissão ao serviço do impossível.
Como nós.


Ana Hatherly

[1.º esquerdo]

 .

14.12.22

Ana Hatherly (Um português adoçado)




UM PORTUGUÊS ADOÇADO 



A língua que se fala  
no Brasil  
é um português adoçado: 

A sua dureza  
trabalhada  
no engenho dos séculos 
deu essa doçura  
essa macieza pura. 

A língua é o tigre  
o falante o domador  
os séculos o percurso  
o caminho a eterna descoberta. 

Como num largo oceano  
há sempre novas vagas. 


Ana Hatherly

[Um reino maravilhoso]

 .

18.2.19

Ana Hatherly (O coração)





O coração é como um fruto
cresce
amadurece
mas não cai.
Se alguém o quiser
não morre


Ana Hatherly

.

31.10.14

Ana Hatherly (No fundo)




NO FUNDO



No fundo azul
no espelho de uma delicada tristeza
que os meus olhos reflectem:
vês-me?
vês-me como eu sou?
vês-me como algo que se descobre
na acrobacia da imagem?

Na sensual tranquilidade da palavra
o poeta tenta uma arriscada ordem
e entre a fábula e a reportagem

simula mentir
para atingir
a superior verdade


Ana Hatherly

[Emma Gunst]

.

1.2.14

Ana Hatherly (Um poeta barroco)





Um poeta barroco disse:
As palavras são
As línguas dos olhos
Mas o que é um poema
Senão
Um telescópio do desejo
Fixado pela língua?
O voo sinuoso das aves
As altas ondas do mar
A calmaria do vento:
Tudo
Tudo cabe dentro das palavras
E o poeta que vê
Chora lágrimas de tinta.


Ana Hatherly

.

17.10.11

Ana Hatherly (As palavras aproximam)






As palavras aproximam:
prendem-soltam
são montanhas de espuma
que se faz-desfaz
na areia da fala


Soltam freios
abrem clareiras no medo
fazem pausa na aflição


Ou então não:
matam
afogam
separam definitivamente


Amando muito muito
ficamos sem palavras



Ana Hatherly



[Poedia]

.

23.1.11

Ana Hatherly (O que é o espaço?)





O QUE É O ESPAÇO?




O que é o espaço
senão o intervalo
por onde
o pensamento desliza
imaginando imagens?


O biombo ritual da invenção
oculta o espaço intermédio
o interstício
onde a percepção se refracta


Pelas imagens
entramos em diálogo
com o indizível



ANA HATHERLY
O Pavão Negro
Assírio & Alvim
(2003)

.

8.10.10

Ana Hatherly (A verdadeira mão)






A verdadeira mão que o poeta estende
não tem dedos:
é um gesto que se perde
no próprio acto de dar-se


O poeta desaparece
na verdade da sua ausência
dissolve-se no biombo da escrita


O poema é
a única
a verdadeira mão que o poeta estende


E quando o poema é bom
não te aperta a mão:
aperta-te a garganta



ANA HATHERLY
O Pavão Negro
Assírio & Alvim
(2003)

.

2.9.10

Ana Hatherly (Arreganhar o dente)






ARREGANHAR O DENTE




O que é preciso é gente
gente com dente
gente que tenha dente
que mostre o dente


Gente que não seja decente
nem docente
nem docemente
nem delicodocemente


Gente com mente
com sã mente
que sinta que não mente
que sinta o dente são e a mente


Gente que enterre o dente
que fira de unha e dente
e mostre o dente potente
ao prepotente


O que é preciso é gente
que atire fora com essa gente


Essa gente dominada por essa gente
não sente como a gente
não quer
ser dominada por gente


NENHUMA!


A gente
só é dominada por essa gente
quando não sabe que é gente



ANA HATHERLY
Um Calculador de Improbabilidades
(2001)

.

22.7.10

Ana Hatherly (Mais-menos)






MAIS-MENOS




Quero dizer mais
e digo: mais


Mas cada vez
digo menos
o mais que sei
e sinto



Ana Hatherly

.

19.6.10

Ana Hatherly (Que é voar?)






QUE É VOAR?




Que é voar?
É só subir no ar,
levantar da terra o corpo, os pés?
Isso é que é voar?
Não.


Voar é libertar-me,
é parar no espaço inconsistente
é ser livre, leve, independente
é ter a alma separada de toda a existência
é não viver senão em não-vivência.
E isso é voar?
Não.


Voar é humano
é transitório, momentâneo...
Aquele que voa tem de poisar em algum lugar:
isso é partir
e não voltar.



Ana Hatherly

.

24.5.10

Ana Hatherly (Um rio de luzes)






UM RIO DE LUZES




Um rio de escondidas luzes
atravessa a invenção da voz:
avança lentamente
mas de repente
irrompe fulminante
saindo-nos da boca


No espantoso momento
do agora da fala
é uma torrente enorme
um mar que se abre
na nossa garganta


Nesse rio
as palavras sobrevoam
as abruptas margens do sentido



ANA HATHERLY
O Pavão Negro
Assírio & Alvim
(2003)




>>  Um buraco na sombra (16p+bio)  /  Poesias e prosas (12p)  /  Mulheres sec.XX (bio+biblio)

 
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