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18.2.19
31.10.14
Ana Hatherly (No fundo)
NO FUNDO
No fundo azul
no espelho de uma delicada tristeza
que os meus olhos reflectem:
vês-me?
vês-me como eu sou?
vês-me como algo que se descobre
na acrobacia da imagem?
Na sensual tranquilidade da palavra
o poeta tenta uma arriscada ordem
e entre a fábula e a reportagem
simula mentir
para atingir
a superior verdade
Ana Hatherly
[Emma Gunst]
.
1.2.14
Ana Hatherly (Um poeta barroco)
Um poeta barroco disse:
As palavras são
As línguas dos olhos
Mas o que é um poema
Senão
Um telescópio do desejo
Fixado pela língua?
O voo sinuoso das aves
As altas ondas do mar
A calmaria do vento:
Tudo
Tudo cabe dentro das palavras
E o poeta que vê
Chora lágrimas de tinta.
Ana Hatherly
.
17.10.11
Ana Hatherly (As palavras aproximam)
As palavras aproximam:
prendem-soltam
são montanhas de espuma
que se faz-desfaz
na areia da fala
Soltam freios
abrem clareiras no medo
fazem pausa na aflição
Ou então não:
matam
afogam
separam definitivamente
Amando muito muito
ficamos sem palavras
Ana Hatherly
[Poedia]
.
23.1.11
Ana Hatherly (O que é o espaço?)
O QUE É O ESPAÇO?
O que é o espaço
senão o intervalo
por onde
o pensamento desliza
imaginando imagens?
O biombo ritual da invenção
oculta o espaço intermédio
o interstício
onde a percepção se refracta
Pelas imagens
entramos em diálogo
com o indizível
ANA HATHERLY
O Pavão Negro
Assírio & Alvim
(2003)
.
8.10.10
Ana Hatherly (A verdadeira mão)
A verdadeira mão que o poeta estende
não tem dedos:
é um gesto que se perde
no próprio acto de dar-se
O poeta desaparece
na verdade da sua ausência
dissolve-se no biombo da escrita
O poema é
a única
a verdadeira mão que o poeta estende
E quando o poema é bom
não te aperta a mão:
aperta-te a garganta
ANA HATHERLY
O Pavão Negro
Assírio & Alvim
(2003)
.
2.9.10
Ana Hatherly (Arreganhar o dente)
ARREGANHAR O DENTE
O que é preciso é gente
gente com dente
gente que tenha dente
que mostre o dente
Gente que não seja decente
nem docente
nem docemente
nem delicodocemente
Gente com mente
com sã mente
que sinta que não mente
que sinta o dente são e a mente
Gente que enterre o dente
que fira de unha e dente
e mostre o dente potente
ao prepotente
O que é preciso é gente
que atire fora com essa gente
Essa gente dominada por essa gente
não sente como a gente
não quer
ser dominada por gente
NENHUMA!
A gente
só é dominada por essa gente
quando não sabe que é gente
ANA HATHERLY
Um Calculador de Improbabilidades
(2001)
.
22.7.10
Ana Hatherly (Mais-menos)
MAIS-MENOS
Quero dizer mais
e digo: mais
Mas cada vez
digo menos
o mais que sei
e sinto
Ana Hatherly
.
19.6.10
Ana Hatherly (Que é voar?)
QUE É VOAR?
Que é voar?
É só subir no ar,
levantar da terra o corpo, os pés?
Isso é que é voar?
Não.
Voar é libertar-me,
é parar no espaço inconsistente
é ser livre, leve, independente
é ter a alma separada de toda a existência
é não viver senão em não-vivência.
E isso é voar?
Não.
Voar é humano
é transitório, momentâneo...
Aquele que voa tem de poisar em algum lugar:
isso é partir
e não voltar.
Ana Hatherly
.
6.6.10
Um verso (80)
Um verso de Ana Hatherly
(pavimentando a memória):
Confissões discordantes pavimentam a nossa hesitação.
.
24.5.10
Ana Hatherly (Um rio de luzes)
UM RIO DE LUZES
Um rio de escondidas luzes
atravessa a invenção da voz:
avança lentamente
mas de repente
irrompe fulminante
saindo-nos da boca
No espantoso momento
do agora da fala
é uma torrente enorme
um mar que se abre
na nossa garganta
Nesse rio
as palavras sobrevoam
as abruptas margens do sentido
ANA HATHERLY
O Pavão Negro
Assírio & Alvim
(2003)
>> Um buraco na sombra (16p+bio) / Poesias e prosas (12p) / Mulheres sec.XX (bio+biblio)
.
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