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18.11.12

Fernando Namora (O Verão terminava)





O Verão terminava quase abruptamente.

Logo que a cidade, saída do letargo estival, se sacudia para cumprir o ciclo agitado das suas metamorfoses, as tardes tornavam-se breves e suaves, fundindo-se na neblina que, rasando o rio, anunciava a mudança de estação.

A vida ia começar.

E os dias velados traziam o sabor de coisas interrompidas pela lânguida e deserta flacidez do Verão.

A cidade ligara o seu destino a essa periódica revoada da juventude coincidindo com o Outono, e era pois no Outono que de todos os lugares desaguavam rios de febre, milhares de rapazes que vinham procurar os liceus e a Universidade e que, quando partiam de novo, aves de arribação, a deixavam uma vez mais suspensa e acabrunhada.



- FERNANDO NAMORA, Fogo na Noite Escura, 1.ª-XII.



(Fernando Namora-Fogo na noite escura-1943)


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12.11.12

Fernando Namora (O vizinho Dr. Patarreca)





Era o vizinho Dr. Patarreca.

Um pobre tolo, gordo, imenso, que, na definição pitoresca dos estudantes que lhe conheciam a crónica, era “possivelmente o único médico da história a quem se pagava uma tença para não exercer a profissão”, visto que o Dr. Patarreca tinha sido reformado poucos anos depois de ter chegado à África, quando se verificou que uma inquietante percentagem dos negros da sua área eram inválidos.

Ele, de métodos drásticos, curava definitivamente uma chaga, uma entorse, um inocente furúnculo, de serrote em punho.

Nada mais eficaz para eliminar a raiz da doença do que uma amputação.



- FERNANDO NAMORA, Fogo na Noite Escura, 1.ª-XVIII.


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31.10.12

Fernando Namora (Aula de anatomia)





Por detrás dos que desnudavam o relevo sanguíneo dos músculos, abrindo rasgões na pele esverdeada, outros bisturis e outras pinças esperavam a sua vez de ir mais longe, a desvendar planos inacessíveis, bainhas, cordões, tecidos duros ou adiposos, todos eles de uma viscosidade abjecta.

Deixava-se um corpo humano esclarecido até à sátira.

Um braço, um crânio, um ventre estropiado – destroços que a carroça do lixo iria despejar mais tarde.

As batas manchavam-se do sebo das mesas, impregnavam-se do cheiro da carne decomposta, o enjoo empalidecia as faces dos mais sensíveis.

O assistente ia e vinha entre as mesas anatómicas, de cabelos eriçados como se cada passada o aproximasse de uma briga, e os resmungos que lhe escorriam do infatigável cigarro pareciam triturados pelas maxilas.



- FERNANDO NAMORA, Fogo na Noite Escura, 1.ª-I.


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25.10.12

Fernando Namora (A cidade alta)





As casas altas e velhas quase se tocavam com os dedos.

O sol, mesmo no pino do Verão, jamais conseguia trepar a barreira dos telhados a sorvera humidade viscosa que permanecia nas ruas de uns Invernos para os outros.

E ali viviam formigueiros de gente pobre.

As portas espreitavam a claridade pelos postigos abertos, desvendando sem escrúpulos a intimidade dos lares à bisbilhotice, já farta, dos transeuntes.

As crianças, aos domingos, eram expulsas de casa para que os mais velhos tivessem espaço e sossego para conversar, discutir e preencher as horas vazias com pequenas tarefas domésticas.

Enquanto as mulheres preparavam as roupas domingueiras, os homens, impacientes por sair, andavam de um lado para o outro à procura de um tema de discussão.

As palavras duras eram um hábito.

Mas por detrás delas estava a ternura e as mulheres sabiam descobri-la.

Operários conversando de uma janela para outra.

Pregões.



- FERNANDO NAMORA, Fogo na Noite Escura, 2.ª-IV.

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