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14.7.19

Eugénia de Vasconcellos (Lembra)





LEMBRA



Digo-te isto para que saibas quem és,
às vezes,
esquecemos, confundimos,
desconseguimos e ao fim, desacreditamos,
colam-se-nos os fantasmas
dos vivos e as memórias dos mortos
e da voz faz-se um fio à míngua de palavras
- e onde a palavra não chega, o pensamento
não cria o acto e morre-se, morre-se, morre-se
um dia de cada vez de tanto não ser. Então
digo-te isto para que saibas quem és:
és um ponto suspenso no infinito, e
lembra: o infinito cabe num ponto.


Eugénia de Vasconcellos

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29.6.18

Eugénia de Vasconcellos (Beijo)






BEIJO



É a língua que abre a respiração da manhã,
adormecida, fácil.
Lábios sobre lábios,
da saliva,
a humidade,
do fogo do espírito,
o sopro do desejo:
vento sobre a marítima água, arrepiada, do corpo.
A carne, sempre muito à flor pele,
insinua ao ouvido a boca que ele tem
e enche-a até estrangular com nome próprio de dedos,
o ar suspenso, inicial.
Bom dia, meu amor


Eugénia de Vasconcellos

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18.4.18

Eugénia de Vasconcellos (Claridade)






CLARIDADE



Como a madrugada
promete a claridade
nítida, orvalhada,
onde a noite se despe em luz
assim atravessa a rua
a voz nua da manhã
e toda a sombra recua
e toda a memória é vã.


Eugénia de Vasconcellos



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