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4.4.14

António Gregório (A traição do Celso)





A TRAIÇÃO DO CELSO



Jogava comigo na defesa reduto
dos inábeis dos impopulares (abaixo
de nós só o guarda-redes): o Celso e eu
vendo a glória avançada e esperando os embates
entre o medo de sempre e o desejo da acção
heróica redentora. Mas como no amor
cabia-nos menos defender antes ser
repositório de culpas pelos falhanços
colectivos e como um amante traiu-me
quando atrás de não sei que instinto (parecia
doido) subiu à baliza dos outros e
marcou o melhor golo da terceira classe.

António Gregório


[Antologia]


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14.5.13

António Gregório (Carpintaria)





CARPINTARIA



Sobretudo tive pena de quem lhe fez
o caixão porque a morte creio é cheia de horas
mortas e o meu avô carpinteiro igual a
ele irá perscrutar cada pormenor da
obra do seu caríssimo colega. Já
o vejo desdenhoso abanando a cabeça
descarnada aos primeiros sinais de cedência
prematura da madeira à pressão da terra.

António Gregório


[Hospedaria Camões]


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5.12.12

António Gregório (A relíquia)





A RELÍQUIA



A noite inteira a copiar de um livro para
outro as impressões do uso: ela dobra os cantos
às páginas faz sublinhados tortos por
causa da má postura e aflige o pouquíssimo
cuidado que tem com o café e o chocolate.

Não deu por nada quando lhe devolvi a
cópia – de tão bem feita; talvez o cheiro
diferente a denunciasse mas a isso
de nós apenas eu era ainda sensível.



ANTÓNIO GREGÓRIO
American Scientist
Quasi (2007)


[O melhor amigo]


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29.6.12

António Gregório (Suite número seis)






SUITE NÚMERO SEIS




É um grande incómodo não saber tocar
violoncelo que o pranto seria doutra
condição: ela gravíssima procurando
pela sala quieta de vez em vez sobre
o parapeito procurando procurando
na lida da luz entre as ramagens a nossa
sentença enquanto eu antecipado – a dor
em arco – ressumava contra as cordas o
adeus.


E a tristeza imensa ser-me-ia então como
tijolo de subir paredes ao invés
desta mais triste ainda – se nunca lhe achei
o préstimo – que por dentro vai corrompendo
corrompendo; podia dá-la já pensei
nisso: que talvez ma aceitasse o senhor
Rostropovitch.


António Gregório



[A casa que caminha]



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23.2.12

António Gregório (American scientist)






AMERICAN SCIENTIST




Lemos que estava a expandir-se o universo e
imaginámos perplexos a quantidade
de espaço novo a dispor entre todos quando
bem contados nem somos muitos. Ela disse
com certeza calhar-nos-á algum e que era
um luxo quase imoral como tomar banho
de banheira cheia nestes meses de seca
prosseguirmos os dois à beira da fusão.


Numa carta electrónica de resposta à
minha o articulista garantiu que nada
se expande eternamente e no prazo de algumas
gerações estelares há-de o universo
encolher outra vez e que por isso o espaço
que nos aparta é só uma questão de tempo.


António Gregório


[A casa que caminha]


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19.12.11

António Gregório (A espertina)






A ESPERTINA



Silenciosas estrelas adivinhadas
noite acima do tecto formigas segundo
o barulho que fazem a passear os
inumeráveis lugares de mim donde ela
partiu e também – caso à espertina apeteça
um clássico – carneiros.


ANTÓNIO GREGÓRIO
American Scientist
Quasi (2007)




[O melhor amigo]


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27.9.11

António Gregório (Derrota)






A DERROTA




Então a derrota é este sofá com todas
estas almofadas acompanhando a curva
do meu corpo prostrado? Comprei o pacote
mais caro de canais não tenho calor nem
frio e brevemente ela não virá tocar-me
à campainha (o deserto é desimpedido
vê-se desde a varanda até longa distância).


Não dói assim tanto afinal e se excluir
a infelicidade que deveras sinto
ser feliz será qualquer coisa semelhante.


ANTÓNIO GREGÓRIO
American Scientist
edições quasi (2007)


[Voar sobre um ninho de vespas]

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12.7.11

António Gregório (A espera)






A ESPERA



Este cão que dorme ao meu lado e cujo
pêlo acaricio nem sempre esteve
aqui: antigamente eu esperava
por ela sozinho – e depois o tempo
de insuportável fez-se cão.



ANTÓNIO GREGÓRIO
American Scientist
Quasi (2007)


[O melhor amigo]

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