14.8.26

María Zambrano (Esta ira)



ESTA IRA

 

Que aprendáis a llorar el día breve
que enfermen vuestras hijas
y no sepáis
el nombre exacto para el miedo
en la garganta se ahogue ese pitido
y arda la madera seca de la muerte 

sólo un día
de atravesadas horas
y luces que se enciendan
rojísimas las luces
y sean bestias 

escupiendo
sobre los mausoleos 

sólo un día
tiriten de frío azuladas las mandíbulas
y nadie pronuncie
el verbo que calme
sus articulaciones 

y todo sea balbuceo
de sabio que atesora
sus cuerpos con asepsia
cuando caigan las crías
en lo ignoto
y en esas horas aprendáis
el idioma absurdo de la muerte 

sólo un día

María Zambrano

 

Que aprendais a chorar o dia
em que vossas filhas caiam doentes
e não saibais
o nome certo para o medo

que na garganta se afogue esse zumbido
e arda a madeira seca da morte

um só dia
de atravessadas horas
e luzes a acender-se
vermelhíssimas luzes
e sejam bestas

escarrando
em cimas dos mausoléus

um dia só
tiritem de frio azuladas as mandíbulas
e ninguém pronuncie
o verbo que acalme
suas articulações

e tudo seja balbuceio
de sábio que entesoura
seus corpos com assepsia
quando as crias caírem no ignoto
e nessas horas aprendais
o idioma absurdo da morte

um dia só


(Trad. A.M.)

.

 

12.8.26

António Reis (Chega a ter gosto)




(16)

 
Chega a ter gosto
a chuva
vista dos cafés
 
caindo sobre as estátuas
e a nostalgia
 
chega a ser morna
 
com fumo e álcool
na garganta
 
Até os homens passarem
junto aos vidros
 
reais
molhados
 
sem emoções instruídas
 
pensando em remédios
e prestações
 
grisalhos
sem serem velhos
 
e falando sós
sem serem loucos


António Reis

[Canal de poesia]

 .

10.8.26

Felipe Benítez Reyes (Um gesto de gratidão)




UN GESTO DE GRATITUD

 

El azar es la norma imprevisible.
Acata, pues, la norma.
Y cuida sempre
que juegue a tu favor la incertidumbre
que esa norma dispone, porque el rumbo
de una vida depende
de una conjugación
leve y muy rápida
de rutina y misterio, de angustia y plenitud,
de esencias muy dispares que se mezclan
de forma casual e inexorable
en el laboratorio mágico del tiempo.

Y si el tiempo es la suma
de una nube vacía y de un relámpago,
interpreta esa suma
desde la gratitud, porque has sido esa suma,
y algo eterno hay en ti y es sólo tuyo:
lo que has pensado,
aquello que tocaste con ansia o con terror,
la fórmula secreta de tu anhelo,
la memoria narcótica que sustenta
y confirma
tu paso por un mundo fugitivo.

Nunca verás tu rostro verdadero,
porque todo consiste en un fluir,
y todo cuanto fluye es un enigma.

De cualquier forma,
da gracias por la esencia de ese caos.

Agradece lo extraño que es ya todo.

El tiempo es invencible,
pero no es más que tiempo:
un espejismo cambiante que sugiere
movimientos perpetuos de conciencia,
aunque todo es cambiante salvo tú:

el tiempo es sólo el nombre de un espectro.

El tiempo es lo que el tiempo nos destruye.

Felipe Benítez Reyes

 

O acaso é a norma imprevisível.
Acata pois essa norma,
e cuida sempre
que jogue a teu favor a incerteza
que essa norma edita, pois que o rumo
de uma vida depende
de uma conjugação
leve e muito rápida
de rotina e mistério, de angústia e plenitude,
de essências muito diversas que se misturam
de forma casual e inexorável
no laboratório mágico do tempo.

E se o tempo é a soma
de uma nuvem vazia e de um relâmpago,
interpreta essa soma
pelo lado da gratidão, porque tu foste essa soma,
e algo eterno há em ti, sendo só teu:
o que pensaste,
aquilo que tocaste com ânsia ou com terror,
a fórmula secreta de teu anelo,
a memória narcótica que sustenta e confirma
tua passagem por um mundo fugitivo.

Nunca verás teu rosto verdadeiro,
porque tudo consiste num fluir,
e tudo quanto flui é um enigma.

De todo o modo,
dá graças pela essência desse caos.

Agradece o estranho que é já tudo.

O tempo é invencível,
mas não é mais do que tempo,
uma miragem mutante sugerindo
movimentos perpétuos de consciência,
embora tudo seja mutante menos tu:

o tempo é só o nome de um espectro.

O tempo é o que o tempo nos destrói.


(Trad. A.M.)

.

8.8.26

Antonio Carlos Secchin (Na antessala)




NA ANTESSALA


Espalhei dezoito heterônimos
em ruas do Rio e Lisboa.
Todos eles, se reunidos,
não valem um só de Pessoa.

Trancafiei-me num mosteiro,
esperando de Deus um dom.
O que Ele me deu foi pastiche
da poesia de Drummond.

Ressoa na minha gaveta
um comício de versos reles.
Em coro parecem dizer:
Não somos Cecília Meireles.

O desavisado leitor
não espere muito de mim.
O máximo, que mal consigo,
é chegar a Antonio Secchin.

Antonio Carlos Secchin

 .

6.8.26

Marilyn Contardi (Verão)




VERÃO
 

 

Madrugada,

os lençóis 

quentes

contra o corpo

 

Toco a meu lado

o pelo comprido,

hirsuto

da minha gata

 

que estende a pata

a roçar-me,

tão suave

 

minha irmã dorme

 

levanto-me para olhar

pela janela

 

a rua está deserta 

ninguém 

pela vereda

apenas a luz

da lua

 

Esta vez…

não será aquela?

será que sonhei?

 

O sorriso

de minha mãe 

diz-me que sim

 

A lua entra 

pelas gelosias,

a gata 

ronrona

Não há mais ninguém 

 

Como passam 

os anos,

como galgos ligeiros

 

Marilyn Contardi

 

(Trad. A.M.)

 .

4.8.26

Andreia C. Faria (Dupla negativa)




DUPLA NEGATIVA



Não comas nada que não possa apodrecer
Não comas nada que não anoiteça
à espera do grande luar de Agosto, a cabeça mansa
do boi que espreita à janela do curral
Nada que não resplandeça
e se abra, irregular odor ao vento

Não comas nada menos que aceso
e amadurecido pelas semelhanças, nada
que enquanto dormes te não pondere o sangue
Nada comas que te não acaricie ou ofereça a linha do dorso, suprema

Não queiras nada que não tenha
superfície e mistério

Não desejes nada puro
- compaixão, água fresca, incidências vegetais
Não te queiras fímbria, orla
humilde de substâncias imortais


Andreia C. Faria


>>  Folha de poesia (notas+7p) / Recanto do poeta (7p) /Casa FP (5p) / Dialnet (Pedro Meneses/ rec. ‘Canina’) / Wikipedia

.

2.8.26

Mario Benedetti (Como vai ser teu dia?)




CÓMO VA A SER TU DÍA HOY?

 

Esta mañana desperté emocionado 
con todas las cosas que tengo que hacer
antes que el reloj sonara.

Tengo responsabilidades que cumplir hoy. Soy importante.
Mi trabajo es escoger qué clase de día voy a tener.

Hoy puedo quejarme porque el día está lluvioso
o puedo dar gracias porque las plantas están siendo regadas.

Hoy me puedo sentir triste porque no tengo más dinero
o puedo estar contento porque mis finanzas me empujan
a planear mis compras con inteligencia.

Hoy puedo quejarme de mi salud
o puedo regocijarme de que estoy vivo.

Hoy puedo lamentarme de todo
lo que mis padres no me dieron mientras estaba creciendo
o puedo sentirme agradecido de que me permitieran haber nacido.

Hoy puedo llorar porque las rosas tienen espinas
o puedo celebrar que las espinas tienen rosas.

Hoy puedo autocompadecerme por no tener muchos amigos
o puedo emocionarme
y embarcarme en la aventura de descubrir nuevas relaciones.

Hoy puedo quejarme porque tengo que ir a trabajar
o puedo gritar de alegría porque tengo un trabajo.

Hoy puedo quejarme porque tengo que ir a la escuela
o puedo abrir mi mente enérgicamente
y llenarla con nuevos y ricos conocimientos.

Hoy puedo murmurar amargamente
porque tengo que hacer las labores del hogar
o puedo sentirme honrado
 porque tengo un techo para mi mente y cuerpo.

Hoy el día se presenta ante mí esperando a que yo le dé forma
y aquí estoy, soy el escultor.

Lo que suceda hoy depende de mí. Yo debo escoger qué tipo de día voy a tener.

Que tengas un gran día… a menos que tengas otros planes….
 

Mario Benedetti 


Hoje acordei, antes de o relógio tocar,
cheio de emoção
com tudo o que tenho para fazer.

Tenho responsabilidades a cumprir, sou muito importante.
Minha tarefa é escolher que espécie de dia vou ter.

Hoje posso queixar-me de estar a chover
ou posso dar graças por as plantas estarem a ser regadas.

Hoje posso sentir-me triste por não ter mais dinheiro
ou posso estar contente por as minhas finanças me obrigarem
a fazer as compras com inteligência.

Hoje posso queixar-me da saúde
ou posso regozijar-me de ainda estar vivo.

Hoje posso lamentar-me de tudo
o que os pais não me deram na infância
ou posso estar grato de me terem feito nascer.

Hoje posso chorar de as rosas terem espinhos
ou posso celebrar os espinhos terem rosas.

Hoje posso ter pena de mim por ter poucos amigos
ou posso emocionar-me
e entrar na aventura de fazer novas relações.

Hoje posso queixar-me de ter que ir trabalhar
ou posso gritar de alegria porque tenho trabalho

Hoje posso queixar-me por ter de ir para a escola
ou posso abrir a mente e enchê-la de novos e ricos conhecimentos.

Hoje posso murmurar amargamente
por ter de fazer os trabalhos da casa
ou posso sentir-me honrado
por ter um tecto para o corpo e espírito.

Hoje tenho o dia pela frente à espera que eu lhe dê forma
e cá estou eu, o escultor.

O que hoje acontecer depende de mim.
Eu é que tenho de escolher que tipo de dia vou ter.

Que tenhas um grande dia!...
A menos que tenhas outros planos…


(Trad. A.M.)

.

31.7.26

José Saramago (O latifúndio é um mar interior)




(O latifúndio é um mar interior)

O latifúndio é um mar interior.
Tem seus cardumes de peixe miúdo e comestível, suas barracudas e piranhas de má morte, seus animais pelágicos, leviatãs ou mantas gelatinosas, uma bicheza cega que arrasta a barriga no lodo e morre sobre ele, e também grandes anéis serpentinos de estrangulação.
É mediterrânico mar, mas tem marés e ressacas, correntes macias que levam tempo a dar a volta inteira, e às vezes rápidos surtos que sacodem a superfície, são rajadas de vento que vem de fora ou desaguamentos de inesperados fluxos, enquanto na escura profundidade se enrolam lentamente as vagas, arrastando a turvidão da nutriente vasa, há quanto tempo isto dura.
São comparações que tanto servem como servem pouco, dizer que o latifúndio é um mar, mas terá sua razão de fácil entendimento, se esta água agitarmos, toda a outra em redor se move, às vezes de tão longe que os olhos o negam, por isso chamaríamos enganadamente pântano a este mar, e que o fosse, muito enganado vive quem de aparências se fia, sejam elas de morte.

JOSÉ SARAMAGO
Levantado do Chão
(1980)

.

29.7.26

Mariano Peyrou (A concentração)

 



A CONCENTRAÇÃO



Nada melhor do que dedicar a tarde
às mudanças de luz na
janela, pressupondo que algo
do que tanto fere e mais
deleita depressa retomará
o seu lugar, a partir do qual emitia
umas pálidas ondas que só
intermitentemente geravam
uma leve apatia, ou adquirirá
contornos mais suaves, de modo a
que a sua proximidade apenas embacie
os vidros. Aqui há luz.
Ali apagam-se os sentidos.


Mariano Peyrou

(Trad. Manuel de Freitas)

.

27.7.26

Alexandre Pinheiro Torres (A democracia plural)




A DEMOCRACIA PLURAL PORTUGUESA OCIDENTAL

 

Neste bairro onde miam gatas há dez mil de gente           Fácil:
contem-se todas as cabeças        uma por uma
uma de cada vez              Façam-se perguntas
Registem-se as respostas             Por exemplo: ao perguntar-se

Se ganham menos do que é necessário pra viver
façam uma cruz               Mas façam a mesma cruz
caso digam o contrário   Se tiverem um rádio vejam
o rádio e façam uma cruz no rádio

Se tiverem uma bicicleta cruz na bicicleta
Cruz nos aparelhos de TV            Cruz nos frigoríficos
Cruz se a barraca for deles           Cruz se for alugada
Cruz na idade que têm   Cruz se são solteiros ou casados

Cruzes em resumo em tudo o que é máquina
Máquinas de costura por exemplo           Vejam
se as rodas andam          Cruz       Cruz       Cruz       Cruz
Cruz no número de filhos            Não há nada que não conte

Depois de tudo passado a pente fino
contado              classificado         codificado           computorizado
é preciso calcular a média            Dividir o que há
por todos para que ninguém se queixe de injustiça

Os nomes não interessam            Os nomes não têm significado
Velho ou doente não se deixe ninguém de fora
Sendo assim até uma doente estéril ficará com
alguns filhos       Se a maioria passa fome calcule-se

a fome média    Estamos ou não na democracia
ocidental?           Todos têm de tê-la igual               Não haverá
desempregados porque todos    mas todos           terão uma
fracçãozinha de emprego para sustentar uma fracçãozinha

de família numa fracçãozinha de barraca              Nada pois
de sangueiras     ódios     ressentimentos                 Sobretudo nada de
provocações à Guarda nem de atacar o Quartel do
Carmo ou o palácio onde tanto se esforçam os doutores-deputados

Este é o conselho das pessoas sábias      Está aliás na
Constituição que             ó diabo                é preciso emendar para que
se prescreva       inalienável          o direito a fracções mais pequenas
Assim é que será bem plural e ocidental a democracia em Portugal


Alexandre Pinheiro Torres

.

25.7.26

Mariana Finochietto (Detém-se a tarde)




(17)

 

La tarde 
se detiene,
suspendida
en los hilos
de luz
que teje
y desteje
el viento
entre las ramas. 

En este instante
de pájaros agrestes,
la pureza
y la crueldad
son las únicas
certezas
sobre el mundo.
 

Mariana Finochietto 

 

Detém-se a tarde, 
suspensa
nos fios
da luz
que o vento
tece
e destece
por entre os ramos. 

No instante 
de pássaros agrestes,
a pureza
e a crueldade
são as únicas
certezas
sobre o mundo.
 

(Trad. A.M.)

 .

23.7.26

Maria Esther Maciel (Pacto)




PACTO



Daquele que amo
quero o nome, a fome
e a memória. Quero
o agora. O dentro e o fora,
o passado e o futuro.
Quero tudo: o que falta
e o que sobra
o óbvio e o absurdo.


Maria Esther Maciel

.

21.7.26

María Laura Decésare (De tarde)




EN LA TARDE 

 

Vi una flor llorar, qué cosa rara
pensé mientras el colibrí con su aleteo
intentaba animarla.
De pronto el cielo se abrió
y unas gotas comenzaron a caer
suaves sobre mí.
En lo simple me detengo y me levanto 
para ver los colores del arcoíris
belleza pura en la tarde de domingo.
 

María Laura Decésare 

[Otra iglesia] 

 

Vi chorar uma flor, coisa estranha
pensei enquanto o colibri 
tentava animá-la
batendo as asas.
De repente, o céu abriu
e algumas gotas começaram a cair
suaves sobre mim.
No simples me detenho e ergo-me
para ver as cores do arco-íris 
beleza pura na tarde de domingo.
 

(Trad. A.M.)

 .

19.7.26

Antonio Carlos Secchin (Estou ali)




ESTOU ALI


Estou ali, quem sabe eu seja apenas 
a foto de um garoto que morreu.
No espaço entre o sorriso e o sapato
há um corpo que bem pode ser o meu.

Ou talvez seja eu o seu espelho, 
e olhar reflete em mim algum passado:
o cheiro das goiabas na fruteira, 
o murmúrio das águas no telhado. 

No retrato outra imagem se condensa: 
percebo que apesar de quase gêmeos
nós dois somos somente a chama inútil

contra a sombra da noite que nos trai. 
Das mãos dele recolho o que me resta. 
Eu o chamo de filho — e é meu pai.

Antonio Carlos Secchin

 

>>  Antonio Miranda (43 p) / Gueto (9p) / Jornal de poesia (9p) / Recanto do poeta (7p)/Alguma poesia (4p) / Wikipedia

.

17.7.26

José Saramago (Todos os dias têm a sua história)




(Todos os dias têm a sua história)

Todos os dias têm a sua história, um só minuto levaria anos a contar, o mínimo gesto, o descasque miudinho duma palavra, duma sílaba, dum som, para já não falar dos pensamentos, que é coisa de muito estofo, pensar no que se pensa, ou pensou, ou está pensando, e que pensamento é esse que pensa o outro pensamento, não acabaríamos nunca mais.
Melhor é declarar que estes anos de João Mau-Tempo vão ser os da sua educação profissional, no sentido tradicional e campestre de que um homem de trabalho tem de saber de tudo, tão bom para ceifar como para tirar cortiça, tão destro a valar como a semear, tão de bom lombo para carregar como de rins para cavar. Este saber transmite-se nas gerações sem exame nem discussão, é assim porque sempre assim foi, isto é uma enxada de gaviões, isto uma gadanha, e isto uma gota de suor.
Ou cuspo branco espesso em tarde de fornalha, ou pancada de sol em cima da ganacha, ou jarretes desfalecidos de pouco alimento. Entre os dez anos e os vinte há que aprender tudo e depressa, ou não teremos patrão que nos aceite.


JOSÉ SARAMAGO
Levantado do Chão
(1980)

.


15.7.26

Manuel Rico (Verão)




VERANO  

 

Es la luz decisoria.
La que anuncia el verano.
La que desentumece, en la hora del alba, a las
       ciudades.
Oceánica luz
que enciende valles y riberas,
claridad que no hiere. 

Así es el espejismo que en junio nos deslumbra. 

Pero siempre se vuelve
al mineral origen a pesar de esa luz:
hay mensajes de sombra, pasillos que conducen
a baúles cerrados, a lugares inhóspitos
que habitan desde siglos
en la oscura trastienda
de esa luz disfrazada. 

Parece decisoria. Pero miente.
 

Manuel Rico

  

É a luz decisiva,
a que anuncia o verão,
a que desentorpece as cidades, no momento da aurora.
Oceânica luz
que acende vales e ribeiras,
claridade que não fere. 

Assim a miragem que em Junho nos deslumbra. 

Mas sempre se volta 
à mineral origem, apesar dessa luz,
há mensagens de sombra, corredores que levam
a baús fechados, a lugares inóspitos 
que moram há séculos 
na traseira escura
dessa luz disfarçada. 

Parece decisiva, mas engana.
 

(Trad. A.M.)

 .

13.7.26

Alexandre O'Neill (Pois)




POIS

 

O respeitoso membro de azevedo e silva
nunca perpenetrou nas intenções de elisa
que eram as melhores. Assim tudo ficou
em balbúrdias de língua cabriolas de mão.

Assim tudo ficou até que não.

Azevedo e silva ao volante do mini
vê a elisa a ultrapassá-lo alguns anos depois
e pensa pensa com os seus travões
Ah cabra eram tão puras as minhas intenções.

E a elisa passa rindo dentadura aos clarões.

 

Alexandre  O’Neill

 .

11.7.26

Efi Cubero (Marca)




HUELLA

 

¿Dónde pasó el passado
cuando acaso soñé lo que me dije?
La eternidad fue un trozo de cielo
en las encinas.
Una huella en el agua de los días.
Lo que queda en los ojos después
de los asombros.
Lo que al pasar la página
puede desvanecerse.
Un sobresalto ante lo prefijado:
la comunicación del otro extremo
que prende el fuego sobre la materia.
Tan sólo queda lo incomunicable.
Esta forma de ser de la palabra,
que tan bien conocemos,
cuando regresa al tiempo del silencio.


Efi Cubero

 

Onde foi o passado
quando acaso sonhei o que me disse?
A eternidade foi um bocado de céu
nas azinheiras,
uma marca na água dos dias,
o que fica nos olhos depois
do assombro,
o que ao passar a página
se pode desvanecer.
Um sobressalto ante o prefixado,
a comunicação do outro extremo
que o fogo prende sobre a matéria.
Fica somente o incomunicável,
esta forma de ser da palavra,
que tão bem conhecemos,
quando regressa o tempo do silêncio.


(Trad. A.M.)

.

9.7.26

Alessandro Parronchi (Uma nova cruzinha)




UN’ ALTRA PICCOLA CROCE



La morte ha invaso la vita
-di Staglieno, del Père Lachaise, di Arlington
e del paesino della più remota campagna –
non c’è più posto nemmeno per la più piccola croce.
Lo stesso nel mio cuore. Quante volte la nenia
judicare saeculum per ignem
ho udito per l’uno o l’altro parente od amico.
Dapprima mi turbava, ora non più.
Ora, in italiano, ha un suono crudo,
non sveglia echi, risonanze profonde.
Sono stanco della morte.
Ma se vuoi, madre, che scriva qualcosa
per la bimba che è morta,
non dirò di no.
Come l’astronomo scopre un’altra piccola stella
tra le miriadi di cui non sa che farsi il cielo,
farò brillare a notte un altro lume
per lei tra le meteore.

Alessandro Parronchi

 

A morte invadiu a vida
- de Staglieno, do Père Lachaise, de Arlington
e do natural do campo mais remoto -
não há lugar sequer para a mais pequena cruz.
Assim no meu coração. Quantas vezes
ouvi por um ou outro parente ou amigo
a lengalenga judicare saeculum per ignem.
Primeiro perturbava-me, agora já não,
agora, em italiano, tem um som seco,
que não acorda ecos, ressonâncias profundas.
Eu estou cansado da morte,
mas se quiseres, mãe, que escreva
qualquer coisa para a menina morta,
eu não te direi que não.
Como um astrónomo descobre uma nova pequena estrela
entre as miríades que se contam no céu,
eu farei brilhar à noite para ela
uma nova luz entre os meteoros.


(Trad. A.M.)

.

7.7.26

Manuel Moya / Violeta (Poética final)





POÉTICA FINAL

 

Si no sientes que tus pies
levantan el polvo de todos los caminos,
si no sabes que te hundes y contigo el mundo,
si no muerdes, si no escuchas
el rasgar de las termitas,
si te escondes, si corres al aplauso de los gilis,
si al pasar por esas puertas
agachas la cabeza o pides caramelos o disculpas,
si ya en el matadero te resignas
y no te cagas cien mil veces en sus muertos,

para qué coño escribes,
a quién quieres servir,
a quién pretendes enganar?

Violeta C. Rangel

 

Se não sentes que teus pés
levantam o pó de todos caminhos,
se não sabes que te afundas e contigo vai o mundo,
se não mordes, se não escutas
o rasgar das térmitas,
se te escondes, se vais atrás
do aplauso dos palermas,
se ao passar essas portas
baixas a cabeça ou pedes caramelos ou desculpas,
se já no matadouro te resignas
e não te cagas cem mil vezes nos seus mortos,

para que porra escreves,
a quem queres servir,
a quem pretendes enganar?


(Trad. A.M.)

.

5.7.26

José Saramago (Cria a natureza)


(Cria a natureza)

Cria a natureza as suas diversas criaturas com admirável brutidade.
Entre mortos e aleijados, considera, não faltará quem escape para garantir os resultados da gerência, modo ambivalente e portanto equívoco de substantivar o gerir e o gerar, com aquela confortável margem de imprecisão que produz as mutações do que se diz, do que se faz e do que se é.
Não marca a natureza coutadas, mas aproveita delas.
E se depois das ceifas os mil formigueiros da seara não têm celeiro igual, os ganhos e perdas vão todos à grande contabilidade do planeta e nenhuma formiga fica sem a sua estatística parte de alimento.
Ao apuramento do saldo importa pouco que tenham morrido aos milhões por inundação natural, revolvimento de enxada ou desafio de micções: quem viveu, comeu, quem morreu deixou aos outros.
A natureza não conta mortos, conta vivos, e, quando estes lhe sobejam, arranja uma nova mortandade.
É tudo muito fácil, muito claro e muito justo, porque, de memória de formiga ou elefante, ninguém tal contestou no grande reino dos animais.

JOSÉ SARAMAGO
Levantado do Chão
(1980)

.

3.7.26

Luis Ramos (Olhos para os olhos)




OJOS PARA LOS OJOS 

 

Al acecho,
por el cenagal de los miedos.
Sin quicios,
             vigilante,
como un susto enquistado
entre la oblicua ley del corazón. 

Miradas, intentos,
                      sobre todo miradas. 

Ojos para los labios débiles,
ojos para los ojos álgidos,
ojos para el espanto yéndose. 

Franquear el abismo,
la presión de los párpados,
la endeblez de los pasos, 

y fugarse,
           irse, sin más,
sortear el territorio habitual
de los obstáculos
irrevocablemente ungidos por el límite,
dejarse mojar simplemente por la vida
y no esperar con prisas a que escampe.
 

Luis Ramos

 

À espreita,
pelo lamaçal dos medos.
Sem gonzos,
              vigilante,
como um susto enquistado
entre a oblíqua lei do coração.

Olhares, intentos,
                sobretudo olhares.

Olhos para os lábios débeis,
olhos para os olhos álgidos,
olhos para o espanto a ir-se.

Franquear o abismo,
a pressão das pálpebras,
a fragilidade dos passos,

e fugir,
       partir, sem mais,
evitar o terreno habitual
dos obstáculos
irrevogavelmente ungidos pelo limite,
deixar-se simplesmente molhar pela vida
e não esperar que o céu abra.


(Trad. A.M.)

.

1.7.26

Álamo Oliveira (Ilha)




ILHA 

 

a ilha ao fundo.   funda saudade
que emerge do horizonte.
azulíneos.   os gestos do pincel
sedimentam as águas
de míticas inquietações. 

ninguém sabe que peixes
habitam no mar.
se há nevoeiro dom sebastião não vem.
o céu.   único infinito que passa
pela janela da casa de janville. 

no peitoril.   os calos dos cotovelos do silêncio.
 

Álamo Oliveira

.

29.6.26

Felipe Benítez Reyes (Fábula)




FÁBULA DEL QUE QUISO DEJAR ESCRITO SU EPITAFIO

 

Se le ocurrían a diario.
Irónicos algunos, otros
       más trascendentales.
Demasiado largos o demasiado escuetos.
Inexactos como emblema de una vida
o triviales para el mármol.

Una mañana de tantas,
su cuerpo le resultó desconocido.
La evidencia de un proceso callado,
aunque manifestado de repente,
como un acto de magia:
el hombre sonriente y temeroso
que entró en el cajón de espadas
       del ilusionista
y salió de allí transformado en quién.

El espejo,
el acostumbrado a mentir,
decía su verdad incontestable.
                                                       La
revelación de una certeza postergada.

Y entonces lo vio claro:
QUIEN MURIÓ EN MÍ YA NO ERA YO.

Felipe Benítez Reyes

 

Ocorriam-lhe todos os dias,
irónicos uns, outros
               mais transcendentes,
muito longos ou demasiado curtos,
inexactos como emblemas de uma vida
ou triviais para o mármore.

Uma manhã de tantas,
o corpo pareceu-lhe desconhecido,
sinal de um processo silencioso,
mas de súbito manifesto,
como um acto de magia:
o homem sorridente e receoso
que entrou na caixa de espadas
               do ilusionista
e dali saiu transformado em ninguém.

O espelho,
habituado a mentir,
dizia a sua verdade incontestável.
                                            A
revelação de uma certeza postergada.

E então viu claro:
QUEM MORREU EM MIM JÁ NÃO ERA EU.


(Trad. A.M.)

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