3.7.26

Luis Ramos (Olhos para os olhos)




OJOS PARA LOS OJOS 

 

Al acecho,
por el cenagal de los miedos.
Sin quicios,
             vigilante,
como un susto enquistado
entre la oblicua ley del corazón. 

Miradas, intentos,
                      sobre todo miradas. 

Ojos para los labios débiles,
ojos para los ojos álgidos,
ojos para el espanto yéndose. 

Franquear el abismo,
la presión de los párpados,
la endeblez de los pasos, 

y fugarse,
           irse, sin más,
sortear el territorio habitual
de los obstáculos
irrevocablemente ungidos por el límite,
dejarse mojar simplemente por la vida
y no esperar con prisas a que escampe.
 

Luis Ramos

 

À espreita,
pelo lamaçal dos medos.
Sem gonzos,
              vigilante,
como um susto enquistado
entre a oblíqua lei do coração.

Olhares, intentos,
                sobretudo olhares.

Olhos para os lábios débeis,
olhos para os olhos álgidos,
olhos para o espanto a ir-se.

Franquear o abismo,
a pressão das pálpebras,
a fragilidade dos passos,

e fugir,
       partir, sem mais,
evitar o terreno habitual
dos obstáculos
irrevogavelmente ungidos pelo limite,
deixar-se simplesmente molhar pela vida
e não esperar que o céu abra.


(Trad. A.M.)

.

1.7.26

Álamo Oliveira (Ilha)




ILHA 

 

a ilha ao fundo.   funda saudade
que emerge do horizonte.
azulíneos.   os gestos do pincel
sedimentam as águas
de míticas inquietações. 

ninguém sabe que peixes
habitam no mar.
se há nevoeiro dom sebastião não vem.
o céu.   único infinito que passa
pela janela da casa de janville. 

no peitoril.   os calos dos cotovelos do silêncio.
 

Álamo Oliveira

.

29.6.26

Felipe Benítez Reyes (Fábula)




FÁBULA DEL QUE QUISO DEJAR ESCRITO SU EPITAFIO

 

Se le ocurrían a diario.
Irónicos algunos, otros
       más trascendentales.
Demasiado largos o demasiado escuetos.
Inexactos como emblema de una vida
o triviales para el mármol.

Una mañana de tantas,
su cuerpo le resultó desconocido.
La evidencia de un proceso callado,
aunque manifestado de repente,
como un acto de magia:
el hombre sonriente y temeroso
que entró en el cajón de espadas
       del ilusionista
y salió de allí transformado en quién.

El espejo,
el acostumbrado a mentir,
decía su verdad incontestable.
                                                       La
revelación de una certeza postergada.

Y entonces lo vio claro:
QUIEN MURIÓ EN MÍ YA NO ERA YO.

Felipe Benítez Reyes

 

Ocorriam-lhe todos os dias,
irónicos uns, outros
               mais transcendentes,
muito longos ou demasiado curtos,
inexactos como emblemas de uma vida
ou triviais para o mármore.

Uma manhã de tantas,
o corpo pareceu-lhe desconhecido,
sinal de um processo silencioso,
mas de súbito manifesto,
como um acto de magia:
o homem sorridente e receoso
que entrou na caixa de espadas
               do ilusionista
e dali saiu transformado em ninguém.

O espelho,
habituado a mentir,
dizia a sua verdade incontestável.
                                            A
revelação de uma certeza postergada.

E então viu claro:
QUEM MORREU EM MIM JÁ NÃO ERA EU.


(Trad. A.M.)

.

27.6.26

A.M.Pires Cabral (Em parte incerta)




EM PARTE INCERTA

 

Dizem-me
que a última vez que a minha musa foi vista
ia de armas e bagagens, às arrecuas, como que sugada
por um vento que soprasse às avessas.

Desde então tem estado ausente
em parte incerta.

Mas pelo menos podia telefonar.

A. M. Pires Cabral

.

25.6.26

Abelardo Linares (O café de espelhos)




EL CAFÉ CON ESPEJOS                  

 

Era un café y estábamos charlando.
Un extraño café de gigantescas sillas
con unos veladores diminutos.
A nuestro alrededor rostros borrosos
o, más exactamente, unos hombres sin rostro;
y así no me extrañó todo el silencio
de aquel local de espejos infinitos.
No puedo recordar de qué charlaba,
pero sí mi alegría y la viveza,
sin duda exagerada, de mis gestos.
Él me dejaba hablar, indiferente
a toda la pasión que había en mis palabras.
De repente me dijo con voz bronca:
“¿Y tú qué harás ahora que estás muerto?”.
Al principio no supe comprenderle,
tan estúpido aquello, tan falto de sentido,
y volví la cabeza. En los espejos
quise mirar mi rostro, pero era el de mi padre
el que veía en ellos. “¿Al fin te has dado
       cuenta?”.
“¿De qué?”, le pregunté. “De que
       eres un sueño,
hijo mío”.

Abelardo Linares
 

 

Era um café e estávamos na conversa,
um estranho café de cadeiras gigantescas
com umas mesas muito pequenas.
Em volta rostos vagos
ou, mais exactamente, alguns homens sem rosto;
e daí que eu não estranhasse aquele silêncio todo
no meio de espelhos infinitos.
Não me consigo lembrar de que falava,
mas sim da minha alegria, da vivacidade dos gestos,
por certo exagerada.
Ele deixava-me falar, indiferente
àquela paixão toda das minhas palavras.
De repente, diz-me com voz rouca:
‘E tu que vais fazer, agora que estás morto?’
A princípio não consegui compreender,
de tão estúpido aquilo, tão falto de sentido,
e virei a cabeça. Nos espelhos,
quis olhar para a minha cara, mas era a de meu pai
que estava a ver: ‘Afinal deste-te conta?’
‘De quê?’, perguntei?
‘De que és um sonho, meu filho’.


(Trad. A.M.)

.

23.6.26

José Saramago (Então chegou a república)

 



(Então chegou a república)

Então chegou a república.
Ganhavam os homens doze ou treze vinténs, e as mulheres menos de metade, como de costume.
Comiam ambos o mesmo pão de bagaço, os mesmos farrapos de couve, os mesmos talos.
A república veio despachada de Lisboa, andou de terra em terra pelo telégrafo, se o havia, recomendou-se pela imprensa, se a sabiam ler, pelo passar de boca em boca, que sempre foi o mais fácil.
O trono caíra, o altar dizia que por ora não era este reino o seu mundo, o latifúndio percebeu tudo e deixou-se estar, e um litro de azeite custava mais de dois mil réis, dez vezes a jorna de um homem.

JOSÉ SARAMAGO
Levantado do Chão
(1980)

.

21.6.26

Rita Ramones (Oração de graças)




ORACIÓN DE GRACIAS 

 

Gracias, Señor, te doy, por ser exactamente quien soy.
Gracias por no ser una pobre desdichada pobre
que vive bajo un puente lavándose los dientes
para evitar el hambre,
ni tampoco una inconsciente millonariona
que vive sola en ochocientos metros cuadrados
con vistas al Parque Central
de Nueva York,
la desgraciada. La muy infeliz. 

Gracias, Señor, porque cuando me parece que mi vida ha sido un asco,
pienso en ti y se me quita,
porque cuando lamento no haber aprovechado mis años,
en lugar de ponerme triste,
pienso en ti y se me quita,
y cuando recuerdo aquellas clases frustradas de piano
que dejé a medio palo,
pienso que lo dejé por ti y se me quita,
y entiendo que nada se te compara. 

Gracias Dios por ayudarme a no darme cuenta,
por hacerme ciega ayer y hoy sorda.
Y sobre todo, gracias, porque no soy gorda.
 

Rita Ramones

[Tamal de peluche

 

Graças, Senhor, te dou por ser exactamente quem sou,
graças por não ser uma pobre desditada pobre
a viver debaixo da ponte, a lavar os dentes
para evitar a fome,
nem tão pouco uma milionária inconsciente
a viver sozinha em oitocentos metros quadrados.
com vista para Central Park em Nova Iorque,
a desgraçada. A pobre infeliz.

Graças, Senhor, porque quando me parece que a vida foi um asco,
penso em ti e passa-me,
e quando recordo as aulas de piano que deixei a meio.
penso que deixei por ti e passa-me,
e entendo que nada se compara contigo.

Graças, meu Deus, por me ajudares a não reparar,
por me fazeres ontem cega e hoje surda,
e acima de tudo, graças, porque não sou gorda.


(Trad. A.M.)

 .

19.6.26

Valerio Magrelli (As cobaias)




LE CAVIE 

 

O forse sono cavie, 
queste poesie che scrivo, 
per qualche esperimento concepite,
che tuttavia non so.  

Non so perché si formano, 
eppure mi affeziono e le chiamo per nome,
topolini vivissimi, allarmati
da che?
 

Valerio Magrelli 

 

Ou serão talvez cobaias, 
estas poesias que escrevo,
fruto de alguma experiência,
que eu desconheço contudo. 

Nem sei porque se formam
e no entanto afeiçoo-me,
chamo-as pelo nome,
ratinhos vivíssimos, assustados
por quê?
 

(Trad. A.M.)

 .

17.6.26

Raquel Lanseros (A luz sem véu)




LA LUZ SIN VELO

 

Yo te quiero. Es un hecho
tan cierto en lo absoluto
como en lo relativo.

Veo tu rostro en el mío
y en el rostro de todos los que he visto.

Tú inventas una isla para mí cada noche
tú me arrullas la sangre
tú me resguardas contra la impureza.

Nos hemos esculpido en la hora verdadeira
la poblada de ti
la única que está a salvo del infierno.

Raquel Lanseros

 

Eu te quero, eis um facto
tão verdadeiro no absoluto
como no relativo.

Vejo teu rosto no meu
e no rosto de quantos tenho visto.

Tu inventas uma ilha para mim cada noite
tu embalas-me o sangue
resguardas-me contra a impureza.

Esculpimo-nos nós na hora verdadeira
a povoada de ti
a única que está a salvo do inferno.


(Trad. A.M.)

.

15.6.26

Paulo Henriques Britto (Fábula)




FÁBULA

 

Um pensamento pensado
até a total exaustão
termina por geminar
no mesmo exato lugar
sua exata negação.

Enquanto isso, uma ideia
trauteada numa flauta
faz uma cidade erguer-se
- é claro, sem alicerces,
mas ninguém dá pela falta.

Paulo Henriques Britto

[Acontecimentos]

 .

13.6.26

José García Alonso (Novembro)



NOVEMBRO
 

Novembro, esse mês em que todas
as horas entraram na oficina
para serem reparadas sem pressa. 

Novembro, essa mestra que aponta
com o dedo para a janela e diz-nos:
condensação. 

Novembro: uma nuvem sacudiu
sobre o vidro suas gotas transparentes. 

Novembro, esse corpo que está morto
e cada ano ressuscita e surpreende-nos. 

Não aprendemos com a natureza.
Tocamos o seu prodígio e olvidamos
a obrigação de passar inadvertidos.

José García Alonso

(Trad. A.M.)

 .

11.6.26

José Saramago (Incipit)

 



O que mais há na terra, é paisagem.
Por muito que do resto lhe falte, a paisagem sempre sobrou, abundância que só por milagre infatigável se explica, porquanto a paisagem é sem dúvida anterior ao homem, e apesar disso, de tanto existir, não se acabou ainda.
Será porque constantemente muda: tem épocas no ano em que o chão é verde, outras amarelo, e depois castanho, ou negro.
E também vermelho, em lugares, que é cor de barro ou sangue sangrado.
Mas isso depende do que no chão se plantou e cultiva, ou ainda não, ou não já, ou do que por
simples natureza nasceu, sem mão de gente, e só vem a morrer porque chegou o seu último fim.
Não é tal o caso do trigo, que ainda com alguma vida é cortado.
Nem do sobreiro, que vivíssimo, embora por sua gravidade o não pareça, se lhe arranca a pele.
Aos gritos.
Não faltam cores a esta paisagem.
Porém, nem só de cores.
Há dias tão duros como o frio deles, outros em que se não sabe de ar para tanto calor: o mundo nunca está contente, se o estará alguma vez, tão certa tem a morte.
E não faltam ao mundo cheiros, nem sequer a esta terra, parte que dele é e servida de paisagem.  
Se no mato morreu animal de pouco, certo que cheirará ao podre do que morto está. 
Quando calha estar quieto o vento, ninguém dá por nada, mesmo passando perto.
Depois os ossos ficam limpos, tanto lhes faz, de chuva lavados, de sol cozidos, e se era pequeno o bicho nem a tal chega porque vieram os vermes e os insectos coveiros e enterraram-no.


JOSÉ SARAMAGO
Levantado do Chão
(1980)

.

9.6.26

Luis Eduardo Aute (Desesperando Godot)




DESESPERANDO A GODOT

 

Si la esperanza
es lo último que se
pierde,

¿será la
desesperanza
lo primero que se
gana?


Luis Eduardo Aute

 

 

Se a esperança
é a última coisa
que se perde,

será
a desesperança
a primeira
que se ganha?


(Trad. A.M.)

.

7.6.26

Owen Bullock (A caminho)




on my way
to evict our tenant
again . . .
the sun goes down
over the mountain


Owen Bullock



a caminho de despejar
o nosso inquilino
outra vez...
o sol a pôr-se
sobre a montanha


(Trad, FJCC)

.


5.6.26

Karmelo C. Iribarren (O amor)




EL AMOR

 

Como el viento que encuentra
una rendija
y se cuela en la habitación
y lo desordena todo:
libros
facturas
poemas 

así llega
en la vida
el amor. 

Nada es igual a partir de entonces,
ese caos
es la felicidad. 

Pero un día habrá que recoger. 

Suerte si no te toca a ti.
 

Karmelo C. Iribarren 

 

Como o vento que encontra
uma frincha
e se enfia pela casa
e põe tudo em desordem,
livros
facturas
poemas

assim na vida
chega
o amor.

Nada é igual depois disso,
esse caos
é a felicidade.

Mas um dia tem de acabar.

Sorte se não te calhar a ti.

 

(Trad. A.M.)

.

3.6.26

Lauren Mendinueta (Olvido de mim)



OLVIDO DE MÍ


Octubre ha llegado dominado por las lluvias,
y los demás meses lo han seguido hasta aquí.
De repente este amontonado tiempo lo ha llenado todo,
el verde de la casa, las sillas, la manta que cubre el piso
cuando en el verano me recuesto a leer.
En mí no es posible el abandono del tiempo,
la gracia que supone el olvido
me hubiese salvado de esta invasión.
Ahora debo caminar con cuidado
para no maltratarme con tantos recuerdos.
¿Me engañaré o será verdad lo que voy a decir?
Renuncio a esta visita, no le temo a la soledad.

 Lauren Mendinueta

[LALT]

  

Outubro chegou dominado pelas chuvas,
os outros meses seguiram-no até aqui.
De repente, o tempo amontoado cobriu tudo,
o verde da casa, as cadeiras, a manta do chão 
quando no verão me recosto a ler.
Comigo não é possível o abandono do tempo,
a graça do olvido 
me tivesse salvado desta invasão.
Agora tenho de caminhar com cuidado 
para não me fazer mal com tanta recordação.
Estarei enganada ou será verdade isto que vou dizer?
Dispenso esta visita, a solidão não a temo.

(Trad. A.M.)

 .

1.6.26

Nuno F. Silva (4' 33)




4’ 33

 

Pode existir tanto inferno
em cinco minutos de silêncio.

Como na lentidão com que saio
da cama todas as manhãs.

Ninguém sabe.


Nuno F. Silva

.

30.5.26

Julia Bellido (Com o tempo)




CON EL TIEMPO

 

Quiero ser, con el tiempo,
imperceptible. 

Ni siquiera un recuerdo o una sombra.

Difuminarme lenta
como lluvia que escampa y se evapora 

y no dejar ni un rastro ni una huella
por donde he caminado. 

Invisible, o casi,
también para mis ojos. 

Y al fondo del espejo
encontrar solo bruma.


Julia Bellido



Quero ser, com o tempo,
imperceptível.

Nem mesmo uma lembrança, uma sombra.

Esfumar-me lentamente,
como chuva que evapora, quando escampa.

Não deixar rasto, sequer uma pegada,
por onde passar.

Invisível, ou quase,
também a meus olhos.

E no fundo do espelho
achar apenas bruma.


(Trad. A.M.)

 .

28.5.26

Miguel Martins (Faltam cinco semanas)




Faltam cinco semanas, quase à justa,
para ficar sem casa, para ficar sem lua
(de merda, mas lua) onde aguardar a morte.
Faltam cinco semanas, talvez menos,
para que esta casa, como as outras,
seja uma linha na vã biografia
de tudo o que não fui e não serei.
Faltam cinco semanas (menos mal?)
para ingressar no nomadismo extremo,
desporto radical ao acesso dos velhos
com metade dos dentes e a estupidez inteira.
Eu não gosto de cães, gosto de tectos,
e faltam cinco semanas, mais ou menos,
Para viver nas sombras de um canil
a que parece que se chama mundo.


MIGUEL MARTINS

Telhados de Vidro, 19
(ed. Averno)

.

26.5.26

José García Alonso (Aí fora)

 



AÍ FORA

 

Olhar-nos nos olhos,
traduzir a luz,
respirar e tremer,
disso vivemos.

Como nós 
também as sabinas são árvores 
tristes
que ao vento perguntam
quanto devem resistir,
se a ventura não estará em partir.

Tudo o que amamos e não sabemos
está aí fora,
doendo.

JOSÉ GARCÍA ALONSO
Erosión (2024)

(Trad. A.M.)

 

>>  Voces del Extremo (3p) / El paseante vallisoletano (2p) / AEEX (ficha) / Garcia Alonso (blogue)

.

24.5.26

Mário Cesariny (Do capítulo da devolução)




DO CAPÍTULO DA DEVOLUÇÃO
 


Hoje venho dizer-te que morreste e que velo o teu corpo no meu
leito, um corpo estranho e surdo um corpo incompreensível

aquele desespero que deixou de ter forças para erguer os portais do
outro reino tristeza de menino a quem tiraram tudo, até 
a tinta e as flores e o prazer de gritar

esse (foi visto) deve subsistir porque é a tua maneira de tomar banho
no cosmos, olhar o cosmos como os que ainda podem
interrogar as ondas e morrer

mas tu ainda não sabes a que ponto morreste; vais até à janela, aspiras
com cuidado o oxigénio que o espaço te oferece, apontas
rindo a meiga criatura que pela rua arrasta a sua condição
de animal fulminado

depois olhas para mim, olhas as tuas mãos, e elas ambas, tão claras,
tão seguras, são as mãos de um soldado a arder em febre,
aves a percorrer o seu novo deserto

mas sabes, tu viste, e mais do que eu; a mão do homem é doce e
iluminada como a noite como um rasto de fumo sobre
os hospitais

tivemos uma história mas a história foi-se, em fileiras angélicas e 
gratas, a fazer a manhã de outras paragens; outra sombra, 
outros olhos semelhantes

noutro leito nas nuvens deito os teus cabelos, o teu cansaço e a
minha miséria, os teus braços e os meus, altos como
cidades, altos como flores

parou o automóvel, lá em baixo, e eu não tenho mais que descer as
escadas, fechar ainda a porta do teu quarto, atravessar de 
um pulo a minha própria vida

agora posso sonhar até deixar de te ver

belo rio sem lágrimas

Mário Cesariny

.


22.5.26

José Mateos (Canção n.º 5)




CANCIÓN 5

          (Diálogo en la oscuridad)       
                                        

Todavía algunas noches,
padre mío, me despiertas
y me preguntas, temblando,
como a través de la niebla,
si ha de venir algún día
para ti la primavera. 

-¿Es que no sabes que has muerto,
que donde estás no florece,
cuando es abril, la semilla,
aunque en el campo la entierres? 

Y contestas: -"Hijo, ¿cómo
me hablas estando yo ausente?
¿A quién de los dos, entonces,
está engañando la muerte?”
 

José Mateos

 

Algumas noites ainda,
meu pai, despertas-me
e perguntas, tremendo,
como que através da névoa,
se há-de vir algum dia
para ti a Primavera.

- Mas não sabes tu que morreste,
que lá onde estás não floresce
a semente, em Abril,
mesmo que a ponhas na terra?

E tu respondes: ‘Filho, se eu estou
ausente, como é que falas comigo?
A qual dos dois, portanto,
está a morte enganando?’


(Trad. A.M.)

.

20.5.26

João de Mancelos (Um livro me leva)




UM LIVRO ME LEVA PELA MÃO


folheio, devagar, as páginas de um livro:
ondas pálidas e cardumes de letras negras
flutuam-me entre as mãos.

escuto o sussurro de poemas antigos,
deslizando sob os meus dedos,
na mútua carícia de quem troca o lume.

entre a capa e a contracapa,
versos e rimas murmuram, palavras
cálidas como uma mulher entreaberta.

e toda a noite o livro me leva pela mão,
em cada página, a ferida do amor
e o oceano de um branco quase azul.

é madrugada. fecho o livro.
tranquilas vozes adormecem-me
— e, no sono de um verso, naufrago.


João de Mancelos

.

18.5.26

Juan Luis Panero (Diante da estátua)




FRENTE A LA ESTATUA DEL POETA LEOPOLDO PANERO 


Poeta húmedo como Darío
te define Oreste Macrí
en la última edición de su antología.
Por supuesto no descubre nada nuevo,
el asunto de tu bebida ha dado ya mucho que hablar
y por otro lado la comparación con Rubén Darío es bastante honorable.
También se han comentado tus proezas en los burdeles
y algunos de tus amigos las suelen repetir
adornándolas con pintorescos detalles
(aunque es muy posible que esto te divertiría saberlo).
En cuanto a los arranques violentos de tu genio
para que mencionar lo que todos sabemos.
Sin embargo, para la Historia ya eres:
cristiano viejo, caballero de Astorga,
esposo inolvidable, paladín de los justos.
Y también en todo eso hay algo de verdad.
Sin duda eras un tipo raro y bien curioso.
Rojo para unos, amigo de Vallejo, condenado en San Marcos,
y azul para los otros, amigo de Foxá, poeta del franquismo.
"La caterva infiel de los Panero,
los asesinos de los ruiseñores",
que airadamente escribió Neruda.
Y tu final -gordo y escéptico-,
con tus trajes ingleses que tanto te gustaban
y tu whisky en la mano, trabajando para una compañía norteamericana.
Y años después canonizado en revistas y libros
(excepto la alusión de Macrí), números de homenaje
y las calles de Leopoldo Panero
y las lápidas de Leopoldo Panero
y el premio Leopoldo Panero
y el colegio Leopoldo Panero
y tu efigie entre otras ilustres
en los muros solemnes del Ateneo
y por fin esta estatua de Leopoldo Panero
que contemplo en un helado atardecer
mientras llueve a lo lejos sobre el Teleno.
De verdad, me gustaría saber
si los muertos conservan un cierto sentido del humor
y frente a tu noble cabeza de patricio romano
(que podría escribir cualquier cretino)
"poeta arraigado", "poeta de la esperanza",
"leonés sajonizado", "hombre de secreto",
"eximio vate", "gloria de nuestras letras",
etc., etc., etc.,
con tu libro de piedra sobre las rodillas
y tus ojos perdidos -extraño personaje-
puedes sonreír irónico y distante,
pensando en tu batalla perdida de antemano.
Yo así te lo deseo y no sin cierta envidia
-estar muerto en España es un lujo envidiable-
esta noche en tu casa mientras me sirvo un whisky
y en el pesado vaso de cristal rayado
el alcohol venerable y tu hijo primogénito
(por supuesto menos venerable) te rinden
-y no es broma- su más fiel homenaje.

 
JUAN LUIS PANERO
Desapariciones y fracasos
(1978) 

 

Poeta húmido como Darío,
assim te define Oreste Macri
na última edição da sua antologia.
Não descobriu sem dúvida nada de novo,
o caso da tua bebida deu já muito que falar
e por outro lado a comparação com Rubén Darío é bastante honrosa.
Também se comentaram as tuas proezas nos bordéis
e alguns amigos teus contam-nas com pitorescos detalhes
(embora isto possivelmente te divertisse sabê-lo).
Quanto aos teus arrancos de génio,
não falemos do que todos sabem.
Mas para a História és desde já: cristão velho, cavaleiro de Astorga,
esposo inolvidável, paladino dos justos.
E também nisto há algo de verdade:
eras sem dúvida um tipo esquisito e bem curioso,
vermelho para uns, amigo de Vallejo, condenado em San Marcos,
e azul para os outros, amigo de Foxá, poeta do franquismo.

‘A caterva infiel dos Paneros,
os assassinos dos rouxinóis’,
como iradamente escreveu Neruda.
E o teu final – gordo e céptico –
com teus fatos ingleses que tanto apreciavas
e teu uísque na mão, trabalhando para uma empresa americana.
E anos depois canonizado em livros e revistas
(excepto a alusão de Macrí), números de homenagem
e as ruas de Leopoldo Panero
e as lápides de Leopoldo Panero
e o prémio Leopoldo Panero
e o colégio Leopoldo Panero
e a tua efígie entre outras ilustres
nos muros solenes do Ateneu
e por fim esta estátua de Leopoldo Panero
que eu contemplo num entardecer gelado
enquanto chove ao longe sobre o Teleno.
De verdade, gostava de saber
se os mortos guardam um certo sentido de humor,
e frente à tua nobre cabeça de patrício romano
(como qualquer cretino podia escrever)
‘poeta arraigado’, poeta da esperança’,
‘leonês saxonizado’, ‘homem de segredo’,
‘exímio vate’, ‘glória das nossas letras’,
etc. etc. etc.
com teu livro de pedra nos joelhos
e teus olhos perdidos – estranha personagem –
se podes sorrir irónico e distante,
pensando na batalha perdida de antemão.
Eu assim to desejo e não sem certa inveja
– pois estar morto em Espanha é um luxo invejável –
nesta noite em tua casa, a servir-me um uísque
e no pesado copo de vidro riscado
o álcool venerável e teu filho primogénito
(menos venerável, por certo) rendem-te
 – fora de brincadeiras – a sua mais fiel homenagem .
 

(Trad. A.M.)

 .

16.5.26

Fernando Pessoa / A. Caeiro (Aceita o universo)



Aceita o universo

Como to deram os deuses.

Se os deuses te quisessem dar outro

Ter-to-iam dado.

Se há outras matérias e outros mundos 

Haja.



Alberto Caeiro


.

14.5.26

José Luis Morante (Geografia)




GEOGRAFÍA

 

Los cartógrafos nativos de A
ubicaron el paraíso en B.
Afamados estudiosos de B
descubrieron en A la localización exacta.
En C nunca hubo unanimidad geográfica 
sobre esta cuestión:
unos se inclinaban por situarlo en A, otros en B,
y ganaba adeptos un tercer grupo
que prefería no decantarse
porque alimentaba la sospecha
de que el paraíso no estaba en ningún sitio.

José Luis Morante 

 

Os cartógrafos nativos de A
situaram o paraíso em B.
Estudiosos de fama de B
descobriram a localização exacta em A.
Em C nunca houve nesta questão 
unanimidade geográfica,
uns inclinando-se para A, outros para B,
havendo ainda um terceiro grupo
que preferia não tomar partido 
por alimentar a suspeita 
de que o paraíso não estava em lugar nenhum.


(Trad. A.M.)

 .

12.5.26

José Luis García Martín (O passageiro)




EL PASAJERO

 

A veces, raras veces, siento la fatiga
de una travesía demasiado larga.
Se me cierran los ojos, llego a puerto.
¡Tantos queridos rostros me sonríen!
Es de nuevo la casa de la infancia,
el patio, el río, mi madre que me llama,
el verano en París, el cuarto diminuto
donde por primera vez no estuve solo
y luego, por primera vez, estuve solo.
Cierro los ojos. En la sombra el mundo
y a una nueva luz todas las cosas
que alguna vez amé, que tuve y que perdí.
Todas me esperan al final de todo.
Están muy cerca ya. ¿No se divisa
la tierra firme tras de aquellas nubes?
Miro la lenta estela de mi vida,
incesante se borra frente a mí.
El pasado, el futuro, espuma blanca,
monótona escritura que no acierto
a descifrar. Sueño en llegar a casa,
en acabar un viaje demasiado largo,
sin ilusiones ya, con água apenas.
Estoy listo, adiós, adiós, la maleta
rebosa de impaciencia y de regalos.
Sueño en los rostros que me aguardan
-otra vez juntos tras de tanto tiempo!-
allá, en el puerto, bajo tierra leve.

José Luis García Martín

 

Às vezes, raras vezes, sinto a fadiga
de uma travessia demasiado longa,
cerram-se-me os olhos, chego a porto.
Tantos rostos queridos a sorrir-me!
Lá está de novo a casa da infância,
o pátio, o rio, minha mãe a chamar-me,
o verão em Paris, o quarto diminuto
onde pela primeira vez não estive só
e depois, pela primeira vez, estive só.
Fecho os olhos, na sombra o mundo
e a uma nova luz as coisas todas
que um dia amei, que tive e que perdi.
Todos me esperam no final de tudo,
muito perto já. Não se divisa
a terra firme por trás daquelas nuvens?
Olho para a esteira da minha vida,
a apagar-se incessante frente a mim.
O passado, o futuro, espuma branca,
monótona escrita que não atino
a decifrar. Sonho em chegar a casa,
acabar uma viagem demasiado longa,
sem ilusões já, com água apenas.
Estou pronto, adeus, adeus, a mala
transborda de prendas e impaciência.
Sonho com os rostos que me aguardam
- outra vez juntos depois de tanto tempo -
além, no porto, debaixo de terra leve.


(Trad. A.M.)

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10.5.26

José Carlos Ary dos Santos (World's news)





WORLD’S NEWS

 

A Rainha de Inglaterra faz uma gaifona
vai à sua
        diz o pirata da perna de pau
o espumante francês faz borbulhas na cona
o marechal reformado bate a pala ao mau-mau.

A avó do general partiu uma costela
o filho do ministro anda a roer a corda
não há pai para ele não há pau para ela
o Eufrates secou e o Tejo transborda.

O Senhor Reticências tem o nome suspenso
durante cinco anos por ter votado em falso
o povo come papa o Papa come incenso
Maria Antonieta sobe ao cadafalso.

O chulo da corista também subiu na vida
cortem-lhe o caralho   cortem-lhe o pescoço
é preciso dinheiro é preciso comida
é preciso pagar-se a fome do grosso.

A Duquesa Larocas toca pandeireta
o Barão do Balão toca xilofone
a Marquesa da Aorta toca uma punheta
a menina Decoro morreu ao telefone.

Os jornais imorais anunciam que um bispo
tem um filho na mitra e outro na barriga
São Vicente de Dentro foi operado a um quisto
a Madre Superiora usa faca na liga.

Hiroxima   Hiroxima   meu amor gaseado
uma bomba rebenta na cabeça dum rei
a Senhora Camelo tem o sexo mudado
sabia o que fazia o que fará não sei.

O Cordeiro de Deus foi assado no espeto
extraíram-lhe o bedum   esfregaram-no com sal
comeram-lhe os colhões  deixaram-lhe o esqueleto
tiraram-lhe o retrato para pôr num missal.

Ite missa  ite missa  itété ou não é
itótó itátá  a Titi não está cá
o Tutu dá o cu   a Tété dá o pé
o Senhor dá o pão que o fermento não dá.

Meus Irmãos Meus Irmãos somos filhos da Virgem
somos filhos das putas que nunca se casaram
nosso pai é o tempo nossa mãe a vertigem
somos feitos dos trapos que nunca se juntaram.

Nascemos da orgia dos artigos de fundo
do minete dos padres nas bordas dos ricaços
do cuspo das beatas no Redentor do Mundo
do gozo masoquista do Senhor dos Passos.

Meus Irmãos Meus Irmãos é urgente lavarmos
no bidé das palavras a uretra dos nobres
mijarmos nos salões e depois ensaiarmos
a reacção dos poetas na gazeta dos pobres.

Meus Irmãos Meus Irmãos ensaiemos agora
antes que seja tarde     antes que seja cedo
não há parto sem dor   não há tempo sem hora
é urgente rompermos a vagina do medo.


J.C. Ary dos Santos

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8.5.26

Abelardo Linares (Que curta foi a noite)




QUÉ CORTA FUE LA NOCHE

Huelen a ti las sábanas, amor, y todavia
está tu libro abierto encima de la mesa
y hay libros por el suelo y discos y tabaco.

Aunque aquí ya no estés, mis brazos aún te buscan.
Y en este fingimiento de abrazarte en la almohada
persigo tu recuerdo, tu cintura, tus hombros.

Tu cuerpo no fue un sueño y quizás en el baño
mi cepillo me espere, mojado de tu boca,
o húmedas toallas que secaron tu pelo.

Huelen a ti las sábanas. El barrio se despierta.
Hay voces en la calle y luz tras la persiana.
El sol debe estar alto. Qué corta fue la noche.

Abelardo Linares

 

Cheiram a ti os lençóis, amor,
e está ainda teu livro sobre a mesa
e há livros pelo chão, e discos, e tabaco.

Embora tu aqui já não estejas, meus braços ainda te buscam,
e neste fingir de abraçar-te na almofada
persigo a tua lembrança, dos ombros à cintura.

Teu corpo não foi um sonho e talvez no banheiro
a minha escova me espere, molhada da tua boca,
ou as toalhas húmidas que te secaram o cabelo.

Cheiram a ti os lençóis, o bairro desperta,
há vozes na rua e luz na persiana.
O sol deve estar alto.
Que curta foi a noite.

(Trad. A.M.)

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6.5.26

Rodolfo Serrano (Testamento vital)




TESTAMENTO VITAL

 

Dejo a todos mis versos si es que os sirven de algo,
mis pecados peores que os llevarán al cielo
donde moran los ángeles caídos y las ángeles
que nunca respetaron el sexto mandamiento. 

Os dejo las promesas que jamás he cumplido, 
cuatro sueños frustrados, pendientes todavía,
algunas esperanzas que dejé abandonadas
y el deseo de un cuerpo en mis noches vacías. 

Y a todos, todos, dejo el brillo de la luna,
la angustia de los lunes y el miedo a un Dios de cólera.
Os dejo la manzana del Edén y mi odio
al dolor de los niños. Y dejo mis caricias
a los hombres que fueron derrotados conmigo. 

Os dejo, pues, mi rabia frente a lo que es injusto,
también mi cobardía y mi miedo ante aquellos
que compraron por nada mi silencio más cómplice. 
Y ganaron con trampas mi vida en el tablero. 

Os dejo mi tristeza. Cuidadla con cariño.
Y el recuerdo de largos paseos en la noche,
de tardes de noviembre y playas en verano,
de esos trenes nocturnos y frías estaciones, 
y esta extraña nostalgia por los puertos lejanos. 

Os dejo la añoranza de un verano en Lisboa,
el olor de la hierba cuando llueve en  la aldea, 
esa belleza mágica de los cielos con nubes.
La luz de una farola y una calle desierta. 

A los que me ofendieron les dejo mis ofensas.
Y a mis amigos dejo esos bares de barrio
que nos dieron el vino y el pan de la amistad.
A ti, solo a ti dejo, la dicha que te debo,
las noches más hermosas y este amor, viejo amor.
 

Rodolfo Serrano

  

Deixo meus versos a todos se vos servirem de alguma coisa,
meus pecados maiores que vos levarão ao céu 
onde moram os anjos caídos e as anjas
que nunca respeitaram o sexto mandamento.

Deixo-vos as promessas que jamais cumpri,
quatro sonhos frustrados, pendentes ainda,
algumas esperanças já abandonadas
e o desejo de um corpo nas minhas noites vazias.

E a todos, todos, deixo o brilho da lua,
a angústia das segundas e o medo a um Deus de cólera.
Deixo-vos a maçã do Paraíso e meu ódio
à dor das crianças, legando meus carinhos 
aos homens comigo derrotados.

Deixo-vos, depois, minha raiva face à injustiça,
minha cobardia também e meu medo perante aqueles 
que compraram por nada meu silêncio mais cúmplice,
e ganharam com truques minha vida no tabuleiro.

Deixo-vos a minha tristeza, tratai-a com carinho,
mais a lembrança de longos passeios nocturnos,
de tardes de Novembro e praias de verão,
de comboios da noite e frias estações,
e esta nostalgia estranha por portos longínquos.

Deixo-vos a saudade de um verão em Lisboa,
o cheiro da erva quando chove na aldeia,
aquela beleza mágica dos céus com nuvens,
a luz de um candeeiro e uma rua deserta.

Aos que me ofenderam lego as minhas ofensas,
deixando aos amigos aqueles bares de bairro
que nos deram o vinho e o pão da amizade.
A ti, só a ti, deixo a ventura que te devo,
as noites mais belas e este amor, velho amor.

(Trad. A.M.)

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