13.10.26

Abelardo Rodríguez (Empurrada)

 




Empurrada por microscópicas asas,
rompe insegura a alba,
e eu penso longinquamente
               no canto dos grilos.

 

ABELARDO RODRÍGUEZ
Maradentro
(Poesía 1970-1999)
Fundación JRJ (1999)

(Trad. A.M.)

 .

11.10.26

Fernando Pessoa (D. Sebastião)

 



(D. SEBASTIÃO, REI DE PORTUGAL)

 

Louco, sim, louco, porque quis grandeza
qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
por isso onde o areal está
ficou meu ser que houve, não o que há.
Minha loucura, outros que me a tomem
com o que nela ia.

Sem a loucura que é o homem
mais que a besta sadia,
cadáver adiado que procria?

 

Fernando Pessoa

 .

9.10.26

José Manuel Benítez Ariza (Abecedário)



ABECEDARIO(S)

 

Azucena, de frío.

Bernardo, por la química insurgente
de sus enloquecidas células.

Carmen, por los efectos a largo plazo de una
infección contraída en Centroamérica.

Delia, de inapetencia.

Ernesto, por la mala combustión de una estufa.

Felipe, por fumarse tres cajetillas diarias.

Gracia, de «muerte natural» – y nadie
quedó muy convencido de que su muerte fuera
precisamente «natural».

Hernán, «tras una larga enfermedad», según se dijo.

Ignacio, de un ataque al corazón,
que quizá fuera de ira o de impotencia.

Javier, en la impostada serenidad de quien ya había
ensayado su muerte muchas veces
(esta vez salió bien).

Kepa, de indiferencia.

Luisa, como Azucena, junto a ella.

Miguel, de neumonía, en cierto modo confortado
por lo preciso del diagnóstico: siempre confió en la medicina.

Néstor, arrebatado por la corriente, mientras se bañaba.

Óscar, de rabia – lo mordió un murciélago.

Patricio, apaleado por los guardias.

Quiteria, apuñalada por su novio,
que luego se entregó en comisaría.

Ramón, manipulando gelignita.

Santiago, diluyéndose en el agua roja de su bañera.

Tomás, como Azucena y Luisa, en ese coche que se quedó atascado
en una carretera de montaña durante un temporal de nieve.

Ubaldo, como consecuencia de las melancolías
en las que se sumió tras la muerte de Carmen.

Vanesa, de una «larga enfermedad» también.

Xan, de aprensión, al enterarse de lo de Hernán, Vanesa, Carmen.

Yeray, de sida – fue de los primeros.

Zacarías, de risa – dicen que fue la risa lo que le provocó el ataque.

Alberto –aquí empezamos otra vez– por intentar salvar a Néstor.

Bernabé, Celia, Dorotea, Enrique…

José Manuel Benítez Ariza

 

Azucena, de frio.

Bernardo, pela química rebelde
de suas células malucas.

Carmen, dos efeitos a longo prazo
de uma infecção que apanhou
na América Central.

Delia, de falta de apetite.

Ernesto, por má combustão de uma braseira.

Felipe, por fumar três maços por dia.

Gracia, de ‘morte natural’ – e ninguém
ficou lá muito convencido de que a morte fosse
precisamente ‘natural’.

Hernán, ‘depois de uma doença prolongada’,
segundo se disse.

Ignacio, de um ataque cardíaco,
que talvez fosse de raiva ou de impotência.

Javier, na serenidade fingida de quem tinha já
ensaiado a morte muitas vezes
(desta vez calhou bem).

Kepa, de indiferença.

Luisa, como Azucena, junto dela.

Miguel, de pneumonia, de certo modo confortado
pelo diagnóstico preciso;
sempre confiou na medicina.

Néstor, arrastado pela corrente, a tomar banho.

Óscar, de raiva – mordeu-lhe um morcego.

Patricio, espancado pelos guardas.

Quiteria, apunhalada pelo noivo,
que depois se entregou na polícia.

Ramón, a manipular gelignita.

Santiago, a dissolver-se na água vermelha da banheira.

Tomás, como Azucena e Luisa, naquele carro
atascado na neve numa estrada serrana.

Ubaldo, em consequência da tristeza
em que caiu com a morte de Carmen.

Vanesa, de ‘doença prolongada’ também.

Xan, de apreensão, ao saber de Hernán, Vanesa, Carmen.

Yeray, de sida – foi dos primeiros.

Zacarias, de riso – dizem que foi o riso o que lhe provocou o ataque.

Alberto – aqui começamos outra vez – por tentar salvar Néstor.

Bernabé, Celia, Dorotea, Enrique…


(Trad. A.M.)

 


>>  Palimpsesto (5p) / Benítez Ariza (blogue/ reservado) / Wikipedia

.

7.10.26

Eugénio de Andrade (Da ignorância)




DA IGNORÂNCIA 

 

A mão
que entregava à tua
os primeiros sinais do verão
já não sabe o caminho ─ é como se
em vez de aprender fosse cada vez mais
e mais ignorante. Ou ignorar
fosse todo o saber.
 

Eugénio de Andrade

[Canal de poesia]

 .

5.10.26

Vicente García (A partida)

 




LA PARTIDA

 

Como los años pasan y el recuerdo
a veces no perdona, te preguntas
si el viaje que emprendiste
merecerá la pena, si al final del camino
habrás de arrepentirte al mirar hacia atrás.

Para entonces, acuérdate,
más que del resultado,
de ese entusiasmo tuyo que le daba
mayor fuerza a la vida
cuando ibas descubriendo los trucos del oficio,
los caprichos del arte y sus fantasmas.

Vicente García



Como os anos passam e a lembrança
às vezes não perdoa, tu perguntas-te
se a viagem que empreendeste
valerá a pena, se no fim do caminho
não vais arrepender-te ao olhar para trás.

Para então, lembra-te,
mais que do resultado,
daquele entusiasmo que te dava
mais força à vida,
quando ias descobrindo os truques do ofício,
os caprichos da arte e os seus fantasmas.


(Trad. A.M.)


.

3.10.26

Domingos da Mota (Soneto da pouquidão)




SONETO DA POUQUIDÃO

 

São poucos os que lutam contra o medo
sem medo de perder seja o que for,
que ousam libertar-se do enredo
desse modo maligno de temor
que sofreia a coragem ante o susto
e que a tantos concita mais pavor
e os deixa tolhidos, dado o custo
da luta contra o medo sem temor.
São poucos os que lutam e a escassez
aumenta com tamanha pouquidão
que faz acumular, por sua vez
o medo, com razão ou sem razão
naqueles que se escondem dia a dia
por detrás do receio ou da apatia.


Domingos da Mota

[Canal de poesia]

 .

1.10.26

Antonio Hernández (Espiritual negro)




NEGRO ESPIRITUAL

 

Nunca fabricaron nada.
No inventaron nunca nada.
Nunca descubrieron nada
salvo el ala de la nada.
Y dio un paso atrás la muerte.

Antonio Hernández

  

Nunca fabricaram nada.
Não inventaram nunca nada.
Nunca descobriram nada,
salvo a asa do nada.
E a morte deu um passo atrás.


(Trad. A.M.)

.

29.9.26

Billy Collins (Surpresa)

 



SURPRESA 

 

É 
- de acordo com a voz na rádio,
o apresentador de um programa de música clássica, nada menos -
é o aniversário de Vivaldi. 

Faria hoje 325 anos, bastante curvado, imagino,
e incapaz de ver bem com os seus olhos lacrimejantes. 

Seguramente já surdo, 
a roupa a desfazer-se, 
o cabelo lamentavelmente ralo. 

Mas, em todo o caso, daríamos uma festa em sua honra,
uma festa surpresa onde todos
nos escondêssemos atrás dos móveis para ouvir 

os toques da sua bengala no pavimento
e a sua tosse seca e persistente.
 

Billy Collins 
 

(Trad. fjcc)

.

27.9.26

Abelardo Rodríguez (Caminho do homem)

 



Caminho do homem
                              é a esperança,
e a esperança
é mentira que criamos para ir,
para fazer mais doce a Tragédia.
Nada
e Nada
são os extremos,
e Morte
a única
palavra.

 

ABELARDO RODRÍGUEZ
Maradentro
(Poesía 1970-1999)
Fundación JRJ (1999)

(Trad. A.M)


>>  Autores onubenses (ficha)

.

25.9.26

Armindo Rodrigues (Liberdade)




LIBERDADE

 

Liberdade sem pão não é liberdade.
Sem liberdade, o pão é escuro e amargo.
Enquanto a alvorada é uma rosa branca,
o pino da tarde é um toiro bravo.
Entre o destino aceite e o escolhido,
é o mais custoso o que mais me quadra.
Pode-se viver preso e ser-se livre.
Pode viver-se livre e ser-se escravo.


Armindo Rodrigues

.

23.9.26

Juan Bello Sánchez (A lavadeira)




LA LAVANDERA

 

Volvía por el camino más largo de la tarde,
una mujer lavaba a mano un montón de ropa
sobre la piedra de un viejo lavadero.
El agua que arañaba las prendas estaba helada,
el cielo enrojecía lentamente.

Ya me estaba alejando cuando la mujer me dijo:
Esta solo es otra forma de mirar las cosas,
más limpias, más puras,
dejando que el água las cruce.
Y continuó lavando la ropa,
el sol acabándose poco a poco.


Juan Bello Sánchez

 

Voltava pelo caminho mais longo da tarde,
uma mulher lavava à mão um monte de roupa
na pedra de um velho lavadoiro.
A água que arranhava as peças estava gelada,
o céu punha-se lentamente encarnado.

Eu já me ia a afastar quando a mulher me diz,
esta é só outra forma de olhar para as coisas,
mais limpas, mais puras,
deixando a água atravessá-las.
E continuou a lavar, enquanto
o sol se extinguia pouco a pouco.


(Trad. A.M.)

.

21.9.26

Guilherme de Oliveira (Simplesmente feliz)




SIMPLESMENTE FELIZ

 

Sem
artes e sem letras
ambições materiais
um projecto de vida
agruras na pele
dramas existenciais
discriminação à vista
vizinhos incómodos
cheias torrenciais
carências no bolso
um frio na barriga.

Feliz
como as folhas de uma couve.

GUILHERME DE OLIVEIRA
Não deixaram entrar o cão
Glaciar (2025)

 .

19.9.26

Miguel Sánchez-Ostiz (Vivo como quero viver)





 VIVO COMO QUIERO VIVIR

 

Envidié a quienes amaron ‒es una vieja historia‒
y supieron o tal vez tuvieron el valor
de vivir la vida como desearon vivirla,
e hicieron ‒o hacen‒ de cada día una celebración,
un arte, a pesar de saber que la vida,
eso que llamamos con enfermiza insistencia
o con tenacidad de visionarios, vida,
es las más de las veces algo mediocre,
triste, sucio, gastado y violento.
Envidié a quienes eligieron como divisa de sus días
«El corazón me manda», desterraron la indiferencia
y no desdeñaron otra cosa que las pasiones tristes:
el menoscabo de sus vidas.
Y en una época más sombría que cualquier otra
pusieron pasión en el pasar de cada día.

Miguel Sánchez-Ostiz


Invejei os que amaram - é uma história antiga - 
e souberam ou tiveram talvez a coragem
de viver a vida à sua vontade,
e fizeram - ou fazem - de cada dia uma festa,
uma arte, sabendo embora que a vida,
isso que chamamos vida com doentia insistência 
ou tenacidade de visionários,
é as mais das vezes alguma coisa de medíocre,
triste, suja, gasta e violenta.
Invejei os que escolheram como divisa de seus dias
‘O coração ordena-me’, desterraram a indiferença
e não desdenharam senão as paixões tristes,
o desdém de suas vidas.
E numa época mais sombria do que outra qualquer
empenharam a paixão no passar de cada dia.


(Trad. A.M.)

 

17.9.26

António Maria Lisboa (Poema)



POEMA

 

Moveu-se o automóvel – mas não devia mover-se
não devia! 

Ontem à meia-noite três relógios distintos bateram:
primeiro um, depois outro e outro:
o eco do primeiro, o eco do segundo, eu sou o eco do terceiro 

Eu sou a terceira meia-noite dos dias que começam 

Pregões de varina sem peixe
- o peixe morreu ao sair da água
e assim já não é peixe 

Assim como eu que vivo uma VIDA EXTREMA.
  

António Maria Lisboa

 . 


15.9.26

Antonio Hernández (O passado é a marca)




El pasado es la constancia
de nuestro asombro,
el hueco de amor que deja
la experiencia en nuestro pecho.

(Sólo la infancia no tiene memoria
porque nada brilló antes que ella.)

Mi pasado es el saldo de lo nítido:
un aroma, un amor, una luna
sin cautela,
el viejo enigma en que amaneceré.

Antonio Hernández

  

O passado é a marca
do nosso assombro,
o vazio de amor que a experiência
nos deixa dentro do peito.

(Só a infância não tem memória
porque nada brilhou antes dela)

Meu passado é o saldo do nítido,
um aroma, um amor, uma lua
sem cuidado,
o velho enigma em que hei-de amanhecer.


(Trad. A.M.)


>>  Poesia universal (25p) / Zenda (5p) / Lit. española (recensão)

.

13.9.26

Antonio Carlos Secchin (Uma prosa súbita)




Uma prosa súbita
para a rosa de neve:
às vezes é só um verso
onde a voz de Andrade ferve.
E perdura, apesar do inverno
armado na paisagem:
o que há pouco era flor
virou arte,
rosa em riste na beira do abismo
contra
o silêncio azul da tarde.

Antonio Carlos Secchin

.

11.9.26

Martín López-Vega (Campos da Hungria)




CAMPOS DA HUNGRIA

 

 

O comboio atravessava a lenta calma

dos nevados campos da Hungria, 

deixando para trás casas, vales, cemitérios,

e na minha frente uma formosa jovem ia lendo

e cantarolava uma misteriosa melodia.

Eu lia

esse poema de Gyula Juhász intitulado

“Anna örök”, Eterna Ana. E foi então que se uniram

naquele comboio as minhas recordações e as minhas ânsias,

atravessando os nevados campos da Hungria.

 

E hoje voltou a mim aquele momento

e não sei porquê, não sei.



Martín López-Vega

 

(Trad. Ruy Ventura)


.



9.9.26

António Cabral (Quando fulano de tal)




QUANDO FULANO DE TAL

 

Quando fulano de tal subiu
à tribuna reparei naquela
gente olhos despojados de
sua cor imóveis e re
dondos como beatas então
pensei camarilha de merda


ANTÓNIO CABRAL
Emigração Clandestina
(1977)

.

7.9.26

Juan Cobos Wilkins (Sem bagagem)




SIN EQUIPAJE


Te lo llevaste todo, Niño Perdido,
tras de ti. Los juegos
a inventarse palabras, el abrazo
azul del albornoz tan cálido, la ortografía
de regaliz en mi buzón, el tirachinas
descubierto en la colcha
de bodas de mis padres y aquellas
esperas insufribles
con un final -perdóname- de flores
asomando su tierno disimulo
de pétalos ocultos a la espalda.

Todo se fue
contigo a ese país
hacia el que tú vuelas ahora
y del que yo regreso.

Juan Cobos Wilkins

 

Levaste tudo, Menino Perdido,
atrás de ti. As brincadeiras
de inventar palavras, o abraço azul
do roupão tão cálido, a ortografia
de alcaçuz na minha caixa, a fisga
descoberta na colcha
de noivado de meus pais e aquelas
esperas insuportáveis
com um final – desculpa-me – de flores
assomando dissimuladas,
pétalas ocultas por trás das costas.

Tudo se foi
contigo para esse país
para onde tu voas agora
e de que eu regresso.


(Trad. A.M.)

.

5.9.26

Andrea Cohen (O Comité delibera)




THE COMMITTEE WEIGHS IN

 

I tell my mother
I’ve won the Nobel Prize.

Again? she says. Which
discipline this time?

It’s a little game
we play: I pretend

I’m somebody, she
pretends she isn’t dead.


Andrea Cohen

 

Digo a minha mãe que
ganhei o Prémio Nobel.

Outra vez? diz ela. Em que
categoria agora?

É uma brincadeira
que fazemos: eu finjo

que sou alguém, ela
finge que não está morta.


(Trad. A.M.)

 .

3.9.26

Juan Bello Sánchez (Uma escuridão)




UNA OSCURIDAD


Cae sobre nosotros
como lo haría un hombre hambriento
sobre un plato de sopa caliente,
una noche de invierno.
Todo se mueve hacia donde tiene que moverse,
ningún cambio
es un cambio demasiado profundo.

Deberíamos prestar más atención,
deberíamos ser más cuidadosos,
el tiempo se pliega sobre sí mismo
y lo que ocurrió,
algo de lo que creíamos
que nos habíamos librado,
podría estar a punto de ocurrir de nuevo,
por primera vez.


Juan Bello Sánchez

 

 

Cai sobre nós
como faria um homem faminto
sobre um prato de sopa quente,
uma noite de inverno.
Tudo se move para onde tem de ser,
mudança nenhuma
é demasiado profunda.

Devíamos prestar mais atenção,
ser mais cuidadosos,
o tempo dobra-se sobre si mesmo
e o que aconteceu,
algo de que julgávamos
que estávamos livres,
podia estar à beira de acontecer de novo,
pela primeira vez.


(Trad. A.M.)



>>  Carmina (7p) / Zenda (5p) / Wikipedia

.


1.9.26

Ana Martins Marques (As casas pertencem aos vizinhos)




As casas pertencem aos vizinhos
os países aos estrangeiros
os filhos são das mulheres
que não quiseram filhos
as viagens são daqueles
que nunca deixaram sua aldeia
como as fotografias por direito pertencem
aos que não saíram na fotografia
— é dos solitários o amor
 

Ana Martins Marques

 .

30.8.26

Marta Sanz (A tensão da página)




La tensión de la página,
el poema,
es
una goma tirante.

Si la suelto
de golpe
puedo
sacarte un ojo.

O hacerme muchísimo daño.

A mi misma.

 

Marta Sanz

 


A tensão da página,
o poema,
é
um elástico.

Se o solto
de repente
posso
tirar-te um olho.

Ou aleijar-me muito.

A mim mesma.


(Trad. A.M.)


28.8.26

Pensando na morte (CA-11)

 



PENSANDO NA MORTE

 

Livra-te, mãezinha,
de não estar
onde eu penso
que estarás

Sentada
à minha espera,
no banco ao pé da roseira

 

(A.M.)

.

26.8.26

Ángeles Mora (Ela)




ELLA

 

Yo diré que es mentira,
que no he visto sus ojos,
y que no la conozco.
Diré que no estuvo en mi casa,
que no me robó nada.

Diré que dueña soy de un sueño
que no me arrebató
y mi amante me espera
cada noche en la cama
y entre sus brazos
sigo durmiendo yo.

Ella, tan engreída,
de su poder presume.
Pero, a decir verdad,
al fin y al cabo,
sólo una vez nos llega
la solemne visita.

Y mientras que la vida,
cada mañana,
su sonrisa me ofrezca,
me sentiré más rica,
más dueña de lo mío.

No la conozco, no.
Y no le tengo miedo.
Cuando llame a mi puerta,
la dejaré pasar.

Pero hasta entonces
no puede arrebatarme
lo que tan dentro llevo,
lo que conmigo va.

Ángeles Mora

 

Direi que é mentira,
que não lhe vi os olhos,
nem sequer a conheço.
Direi que não me entrou em casa,
nem tão pouco me roubou.

Direi que dona sou eu de um sonho
que não me arrebatou
e meu amante me espera
à noite na cama
e nos seus braços
continuo eu a dormir.

Ela, toda soberba,
presuma de seu poder.
Mas, a falar verdade,
ao fim e ao cabo
só uma vez nos faz
sua solene visita.

E enquanto a vida me der,
em cada manhã,
seu franco sorriso,
hei-de sentir-me mais rica,
mais dona daquilo que é meu.

Eu não, não a conheço,
nem mesmo lhe tenho medo,
quando me bater à porta,
deixá-la-ei passar.

Mas até esse momento
ela não pode arrebatar-me
o que tenho dentro de mim,
aquilo que vai comigo.

(Trad. A.M.)

 .

24.8.26

Amadeu Baptista (A noite de Pavese)




A NOITE DE PAVESE 

 

Raras vezes me franquearam a porta
e me deixaram entrar. A febre
sitia-me a alma e quem me vê
assusta-se do aspecto do meu rosto,
esta barba por fazer onde um rouxinol
se esconde. E mais ainda assusta
a minha altura, este lugar de vertigem
e palavras poderosas, a presença
de ilimitados segredos que ninguém quer conhecer,
o estremecimento que corre nos meus ombros.
Embora nada peça, sabem que sou um pedinte.
E quando entro nas casas os meus gestos
afeiçoam-se a alguma coisa enigmática
que contorna o pavor e o entrega
por não se saber que espécie de vida ou de morte
vem comigo. Obviamente, eu abençoo
quem me deixa entrar, dou a entender
que alguma coisa brilha nas minhas mãos
e posso matar a fome com uma ou outra palavra
próxima do amor, um dedo nos cabelos
de quem me recebe. Subi as escadas que vão dar a esta casa
em silêncio e em silêncio aceitei que me aguardassem
com as inefáveis sombras que vejo nos outros
e tento decifrar para meu contentamento.
Mandaram-me sentar e deram-me de beber.
Esse álcool reconfortou-me a alma.
E a minha gratidão expressa-se deste modo, limpo
e nítido, observando a mulher nesse sem fim
das coisas, onde todos os mistérios avançam
para uma explicação que a qualquer momento
pode irromper do espírito como uma explosão.
Olho-te nos olhos e recebo as duas moedas
que me ofereces, o teu rosto é-me familiar
se recuar à infância e subitamente perceber
que também pertenci ao exercício desta árvore
que nesta sala se levanta. Em frente,
na fotografia que o meu olhar alcança
porque me alcança o olhar que dela se desprende,
inscreve-se o enigma que me fez aqui chegar,
mais que um rumor ou um fio ténue
com o nome de todas as coisas inesperadas
que me aconteceram na vida, sempre
que me franquearam a porta e me deixaram entrar.
Agora, com a memória de ter estado em tua casa
e ter recebido a graça de alguma atenção,
eu, que sou pedinte embora nada peça,
entrego-te este sulco da desordem
sobre a página em branco e agradeço-te
com o conhecimento de um outro mundo
ainda mais inexplicável.
Não tendo havido despedida, sabe que permaneço
e na encruzilhada das dores que me couberam viver
não esquecerei o teu nome no dia em que também tiver partido
e mais nenhuma luz houver além daquela
que ilumina o teu rosto na solidão da noite.
Os anjos esperam-me. Não me é possível demorar.
Que me seja a alba a tua tolerância. 
 

Amadeu Baptista

 .

22.8.26

Mario Montalbetti (10.000 cafés)





10 000 CAFÉS 

 

En la cafetería de los 10 000 cafés
las moscas hacen una escala técnica
en su ruta hacia el próximo estiércol.
Mi fe en el año 81 es ciega.
Por ahora
abastecer de combustible a las moscas 

es suficiente.
 

Mario Montalbetti 

[Otra iglesia] 

 

Na cafetaria dos 10.000 cafés 
s moscas fazem escala técnica
na sua rota para a próxima lixeira.
Tenho grande fé no ano que vem.
Por agora
abastecer as moscas de combustível  

é suficiente. 

(Trad. A.M.)

 .

20.8.26

Andreia C. Faria (Morrer)




Morrer
é talvez mudar de luz
como quem muda os lençóis
ou sacode
na erva o calor
de mantas sombrias.


Andreia C. Faria

 .

18.8.26

Juan Cobos Wilkins (Na corrente)




EN LA CORRIENTE


Mientras te amabas
sólo a ti mismo, no crecías.

Pero anhelaste amar y ser amado
y entonces ya
la corriente del río
se puso en movimiento.

Juan Cobos Wilkins 

 

Enquanto te amavas
só a ti mesmo, não crescias.

Mas quiseste amar e ser amado,
aí então
a corrente do rio
pôs-se em movimento.


(Trad. A.M.)


>>  Amediavoz (19p) / Trianarts (9p) / Zenda (5p) / Junta de Andalucia (ficha) / Wikipedia

.

16.8.26

Mary Oliver (Dia de verão)




THE SUMMER DAY

 

Who made the world?
Who made the swan, and the black bear?
Who made the grasshopper?
This grasshopper, I mean
- the one who has flung herself out of the grass,
the one who is eating sugar out of my hand,
who is moving her jaws back and forth instead of up and down,
who is gazing around with her enormous and complicated eyes.
Now she lifts her pale forearms and thoroughly washes her face.
Now she snaps her wings open, and floats away.
I don't know exactly what a prayer is.
I do know how to pay attention, how to fall down
into the grass, how to kneel down in the grass,
how to be idle and blessed, how to stroll through the fields,
which is what I have been doing all day.
Tell me, what else should I have done?
Doesn't everything die at last, and too soon?
Tell me, what is it you plan to do
with your one wild and precious life?


Mary Oliver

 

Quem é que fez o mundo?
Quem é que fez o cisne e o urso negro?
Quem é que fez o gafanhoto?
Este gafanhoto, digo eu
- o que acaba de saltar de entre as ervas,
o que está a comer-me açúcar da mão,
o que mexe as mandíbulas para trás e para a frente
em vez de para cima e para baixo,
o que olha em volta com aqueles olhos enormes e complicados.
Agora ergue os braços e lava a cara com cuidado, 
depois bate as asas abertas e afasta-se voando.
Eu não sei exactamente o que é a oração,
sei é prestar atenção, arrodilhar-me
na erva, pôr-me de joelhos,
preguiçar e não fazer nada, deambular pelos campos,
que é o que tenho feito o dia todo.
Diz-me cá, que mais havia eu de fazer?
Não morre tudo por fim, e tão cedo?
Diz-me cá, que pensas tu fazer
da tua própria vida,
da tua livre, preciosa vida?



(Trad. A.M.)

 .

14.8.26

María Zambrano (Esta ira)



ESTA IRA

 

Que aprendáis a llorar el día breve
que enfermen vuestras hijas
y no sepáis
el nombre exacto para el miedo
en la garganta se ahogue ese pitido
y arda la madera seca de la muerte 

sólo un día
de atravesadas horas
y luces que se enciendan
rojísimas las luces
y sean bestias 

escupiendo
sobre los mausoleos 

sólo un día
tiriten de frío azuladas las mandíbulas
y nadie pronuncie
el verbo que calme
sus articulaciones 

y todo sea balbuceo
de sabio que atesora
sus cuerpos con asepsia
cuando caigan las crías
en lo ignoto
y en esas horas aprendáis
el idioma absurdo de la muerte 

sólo un día

María Zambrano

 

Que aprendais a chorar o dia
em que vossas filhas caiam doentes
e não saibais
o nome certo para o medo

que na garganta se afogue esse zumbido
e arda a madeira seca da morte

um só dia
de atravessadas horas
e luzes a acender-se
vermelhíssimas luzes
e sejam bestas

escarrando
em cimas dos mausoléus

um dia só
tiritem de frio azuladas as mandíbulas
e ninguém pronuncie
o verbo que acalme
suas articulações

e tudo seja balbuceio
de sábio que entesoura
seus corpos com assepsia
quando as crias caírem no ignoto
e nessas horas aprendais
o idioma absurdo da morte

um dia só


(Trad. A.M.)

.

 

12.8.26

António Reis (Chega a ter gosto)




(16)

 
Chega a ter gosto
a chuva
vista dos cafés
 
caindo sobre as estátuas
e a nostalgia
 
chega a ser morna
 
com fumo e álcool
na garganta
 
Até os homens passarem
junto aos vidros
 
reais
molhados
 
sem emoções instruídas
 
pensando em remédios
e prestações
 
grisalhos
sem serem velhos
 
e falando sós
sem serem loucos


António Reis

[Canal de poesia]

 .

10.8.26

Felipe Benítez Reyes (Um gesto de gratidão)




UN GESTO DE GRATITUD

 

El azar es la norma imprevisible.
Acata, pues, la norma.
Y cuida sempre
que juegue a tu favor la incertidumbre
que esa norma dispone, porque el rumbo
de una vida depende
de una conjugación
leve y muy rápida
de rutina y misterio, de angustia y plenitud,
de esencias muy dispares que se mezclan
de forma casual e inexorable
en el laboratorio mágico del tiempo.

Y si el tiempo es la suma
de una nube vacía y de un relámpago,
interpreta esa suma
desde la gratitud, porque has sido esa suma,
y algo eterno hay en ti y es sólo tuyo:
lo que has pensado,
aquello que tocaste con ansia o con terror,
la fórmula secreta de tu anhelo,
la memoria narcótica que sustenta
y confirma
tu paso por un mundo fugitivo.

Nunca verás tu rostro verdadero,
porque todo consiste en un fluir,
y todo cuanto fluye es un enigma.

De cualquier forma,
da gracias por la esencia de ese caos.

Agradece lo extraño que es ya todo.

El tiempo es invencible,
pero no es más que tiempo:
un espejismo cambiante que sugiere
movimientos perpetuos de conciencia,
aunque todo es cambiante salvo tú:

el tiempo es sólo el nombre de un espectro.

El tiempo es lo que el tiempo nos destruye.

Felipe Benítez Reyes

 

O acaso é a norma imprevisível.
Acata pois essa norma,
e cuida sempre
que jogue a teu favor a incerteza
que essa norma edita, pois que o rumo
de uma vida depende
de uma conjugação
leve e muito rápida
de rotina e mistério, de angústia e plenitude,
de essências muito diversas que se misturam
de forma casual e inexorável
no laboratório mágico do tempo.

E se o tempo é a soma
de uma nuvem vazia e de um relâmpago,
interpreta essa soma
pelo lado da gratidão, porque tu foste essa soma,
e algo eterno há em ti, sendo só teu:
o que pensaste,
aquilo que tocaste com ânsia ou com terror,
a fórmula secreta de teu anelo,
a memória narcótica que sustenta e confirma
tua passagem por um mundo fugitivo.

Nunca verás teu rosto verdadeiro,
porque tudo consiste num fluir,
e tudo quanto flui é um enigma.

De todo o modo,
dá graças pela essência desse caos.

Agradece o estranho que é já tudo.

O tempo é invencível,
mas não é mais do que tempo,
uma miragem mutante sugerindo
movimentos perpétuos de consciência,
embora tudo seja mutante menos tu:

o tempo é só o nome de um espectro.

O tempo é o que o tempo nos destrói.


(Trad. A.M.)

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