24.5.26

Mário Cesariny (Do capítulo da devolução)




DO CAPÍTULO DA DEVOLUÇÃO
 


Hoje venho dizer-te que morreste e que velo o teu corpo no meu
leito, um corpo estranho e surdo um corpo incompreensível

aquele desespero que deixou de ter forças para erguer os portais do
outro reino tristeza de menino a quem tiraram tudo, até 
a tinta e as flores e o prazer de gritar

esse (foi visto) deve subsistir porque é a tua maneira de tomar banho
no cosmos, olhar o cosmos como os que ainda podem
interrogar as ondas e morrer

mas tu ainda não sabes a que ponto morreste; vais até à janela, aspiras
com cuidado o oxigénio que o espaço te oferece, apontas
rindo a meiga criatura que pela rua arrasta a sua condição
de animal fulminado

depois olhas para mim, olhas as tuas mãos, e elas ambas, tão claras,
tão seguras, são as mãos de um soldado a arder em febre,
aves a percorrer o seu novo deserto

mas sabes, tu viste, e mais do que eu; a mão do homem é doce e
iluminada como a noite como um rasto de fumo sobre
os hospitais

tivemos uma história mas a história foi-se, em fileiras angélicas e 
gratas, a fazer a manhã de outras paragens; outra sombra, 
outros olhos semelhantes

noutro leito nas nuvens deito os teus cabelos, o teu cansaço e a
minha miséria, os teus braços e os meus, altos como
cidades, altos como flores

parou o automóvel, lá em baixo, e eu não tenho mais que descer as
escadas, fechar ainda a porta do teu quarto, atravessar de 
um pulo a minha própria vida

agora posso sonhar até deixar de te ver

belo rio sem lágrimas

Mário Cesariny

.


22.5.26

José Mateos (Canção n.º 5)




CANCIÓN 5

          (Diálogo en la oscuridad)       
                                        

Todavía algunas noches,
padre mío, me despiertas
y me preguntas, temblando,
como a través de la niebla,
si ha de venir algún día
para ti la primavera. 

-¿Es que no sabes que has muerto,
que donde estás no florece,
cuando es abril, la semilla,
aunque en el campo la entierres? 

Y contestas: -"Hijo, ¿cómo
me hablas estando yo ausente?
¿A quién de los dos, entonces,
está engañando la muerte?”
 

José Mateos

 

Algumas noites ainda,
meu pai, despertas-me
e perguntas, tremendo,
como que através da névoa,
se há-de vir algum dia
para ti a Primavera.

- Mas não sabes tu que morreste,
que lá onde estás não floresce
a semente, em Abril,
mesmo que a ponhas na terra?

E tu respondes: ‘Filho, se eu estou
ausente, como é que falas comigo?
A qual dos dois, portanto,
está a morte enganando?’


(Trad. A.M.)

.

20.5.26

João de Mancelos (Um livro me leva)




UM LIVRO ME LEVA PELA MÃO


folheio, devagar, as páginas de um livro:
ondas pálidas e cardumes de letras negras
flutuam-me entre as mãos.

escuto o sussurro de poemas antigos,
deslizando sob os meus dedos,
na mútua carícia de quem troca o lume.

entre a capa e a contracapa,
versos e rimas murmuram, palavras
cálidas como uma mulher entreaberta.

e toda a noite o livro me leva pela mão,
em cada página, a ferida do amor
e o oceano de um branco quase azul.

é madrugada. fecho o livro.
tranquilas vozes adormecem-me
— e, no sono de um verso, naufrago.


João de Mancelos

.

18.5.26

Juan Luis Panero (Diante da estátua)




FRENTE A LA ESTATUA DEL POETA LEOPOLDO PANERO 


Poeta húmedo como Darío
te define Oreste Macrí
en la última edición de su antología.
Por supuesto no descubre nada nuevo,
el asunto de tu bebida ha dado ya mucho que hablar
y por otro lado la comparación con Rubén Darío es bastante honorable.
También se han comentado tus proezas en los burdeles
y algunos de tus amigos las suelen repetir
adornándolas con pintorescos detalles
(aunque es muy posible que esto te divertiría saberlo).
En cuanto a los arranques violentos de tu genio
para que mencionar lo que todos sabemos.
Sin embargo, para la Historia ya eres:
cristiano viejo, caballero de Astorga,
esposo inolvidable, paladín de los justos.
Y también en todo eso hay algo de verdad.
Sin duda eras un tipo raro y bien curioso.
Rojo para unos, amigo de Vallejo, condenado en San Marcos,
y azul para los otros, amigo de Foxá, poeta del franquismo.
"La caterva infiel de los Panero,
los asesinos de los ruiseñores",
que airadamente escribió Neruda.
Y tu final -gordo y escéptico-,
con tus trajes ingleses que tanto te gustaban
y tu whisky en la mano, trabajando para una compañía norteamericana.
Y años después canonizado en revistas y libros
(excepto la alusión de Macrí), números de homenaje
y las calles de Leopoldo Panero
y las lápidas de Leopoldo Panero
y el premio Leopoldo Panero
y el colegio Leopoldo Panero
y tu efigie entre otras ilustres
en los muros solemnes del Ateneo
y por fin esta estatua de Leopoldo Panero
que contemplo en un helado atardecer
mientras llueve a lo lejos sobre el Teleno.
De verdad, me gustaría saber
si los muertos conservan un cierto sentido del humor
y frente a tu noble cabeza de patricio romano
(que podría escribir cualquier cretino)
"poeta arraigado", "poeta de la esperanza",
"leonés sajonizado", "hombre de secreto",
"eximio vate", "gloria de nuestras letras",
etc., etc., etc.,
con tu libro de piedra sobre las rodillas
y tus ojos perdidos -extraño personaje-
puedes sonreír irónico y distante,
pensando en tu batalla perdida de antemano.
Yo así te lo deseo y no sin cierta envidia
-estar muerto en España es un lujo envidiable-
esta noche en tu casa mientras me sirvo un whisky
y en el pesado vaso de cristal rayado
el alcohol venerable y tu hijo primogénito
(por supuesto menos venerable) te rinden
-y no es broma- su más fiel homenaje.

 
JUAN LUIS PANERO
Desapariciones y fracasos
(1978) 

 

Poeta húmido como Darío,
assim te define Oreste Macri
na última edição da sua antologia.
Não descobriu sem dúvida nada de novo,
o caso da tua bebida deu já muito que falar
e por outro lado a comparação com Rubén Darío é bastante honrosa.
Também se comentaram as tuas proezas nos bordéis
e alguns amigos teus contam-nas com pitorescos detalhes
(embora isto possivelmente te divertisse sabê-lo).
Quanto aos teus arrancos de génio,
não falemos do que todos sabem.
Mas para a História és desde já: cristão velho, cavaleiro de Astorga,
esposo inolvidável, paladino dos justos.
E também nisto há algo de verdade:
eras sem dúvida um tipo esquisito e bem curioso,
vermelho para uns, amigo de Vallejo, condenado em San Marcos,
e azul para os outros, amigo de Foxá, poeta do franquismo.

‘A caterva infiel dos Paneros,
os assassinos dos rouxinóis’,
como iradamente escreveu Neruda.
E o teu final – gordo e céptico –
com teus fatos ingleses que tanto apreciavas
e teu uísque na mão, trabalhando para uma empresa americana.
E anos depois canonizado em livros e revistas
(excepto a alusão de Macrí), números de homenagem
e as ruas de Leopoldo Panero
e as lápides de Leopoldo Panero
e o prémio Leopoldo Panero
e o colégio Leopoldo Panero
e a tua efígie entre outras ilustres
nos muros solenes do Ateneu
e por fim esta estátua de Leopoldo Panero
que eu contemplo num entardecer gelado
enquanto chove ao longe sobre o Teleno.
De verdade, gostava de saber
se os mortos guardam um certo sentido de humor,
e frente à tua nobre cabeça de patrício romano
(como qualquer cretino podia escrever)
‘poeta arraigado’, poeta da esperança’,
‘leonês saxonizado’, ‘homem de segredo’,
‘exímio vate’, ‘glória das nossas letras’,
etc. etc. etc.
com teu livro de pedra nos joelhos
e teus olhos perdidos – estranha personagem –
se podes sorrir irónico e distante,
pensando na batalha perdida de antemão.
Eu assim to desejo e não sem certa inveja
– pois estar morto em Espanha é um luxo invejável –
nesta noite em tua casa, a servir-me um uísque
e no pesado copo de vidro riscado
o álcool venerável e teu filho primogénito
(menos venerável, por certo) rendem-te
 – fora de brincadeiras – a sua mais fiel homenagem .
 

(Trad. A.M.)

 .

16.5.26

Fernando Pessoa / A. Caeiro (Aceita o universo)



Aceita o universo

Como to deram os deuses.

Se os deuses te quisessem dar outro

Ter-to-iam dado.

Se há outras matérias e outros mundos 

Haja.



Alberto Caeiro


.

14.5.26

José Luis Morante (Geografia)




GEOGRAFÍA

 

Los cartógrafos nativos de A
ubicaron el paraíso en B.
Afamados estudiosos de B
descubrieron en A la localización exacta.
En C nunca hubo unanimidad geográfica 
sobre esta cuestión:
unos se inclinaban por situarlo en A, otros en B,
y ganaba adeptos un tercer grupo
que prefería no decantarse
porque alimentaba la sospecha
de que el paraíso no estaba en ningún sitio.

José Luis Morante 

 

Os cartógrafos nativos de A
situaram o paraíso em B.
Estudiosos de fama de B
descobriram a localização exacta em A.
Em C nunca houve nesta questão 
unanimidade geográfica,
uns inclinando-se para A, outros para B,
havendo ainda um terceiro grupo
que preferia não tomar partido 
por alimentar a suspeita 
de que o paraíso não estava em lugar nenhum.


(Trad. A.M.)

 .

12.5.26

José Luis García Martín (O passageiro)




EL PASAJERO

 

A veces, raras veces, siento la fatiga
de una travesía demasiado larga.
Se me cierran los ojos, llego a puerto.
¡Tantos queridos rostros me sonríen!
Es de nuevo la casa de la infancia,
el patio, el río, mi madre que me llama,
el verano en París, el cuarto diminuto
donde por primera vez no estuve solo
y luego, por primera vez, estuve solo.
Cierro los ojos. En la sombra el mundo
y a una nueva luz todas las cosas
que alguna vez amé, que tuve y que perdí.
Todas me esperan al final de todo.
Están muy cerca ya. ¿No se divisa
la tierra firme tras de aquellas nubes?
Miro la lenta estela de mi vida,
incesante se borra frente a mí.
El pasado, el futuro, espuma blanca,
monótona escritura que no acierto
a descifrar. Sueño en llegar a casa,
en acabar un viaje demasiado largo,
sin ilusiones ya, con água apenas.
Estoy listo, adiós, adiós, la maleta
rebosa de impaciencia y de regalos.
Sueño en los rostros que me aguardan
-otra vez juntos tras de tanto tiempo!-
allá, en el puerto, bajo tierra leve.

José Luis García Martín

 

Às vezes, raras vezes, sinto a fadiga
de uma travessia demasiado longa,
cerram-se-me os olhos, chego a porto.
Tantos rostos queridos a sorrir-me!
Lá está de novo a casa da infância,
o pátio, o rio, minha mãe a chamar-me,
o verão em Paris, o quarto diminuto
onde pela primeira vez não estive só
e depois, pela primeira vez, estive só.
Fecho os olhos, na sombra o mundo
e a uma nova luz as coisas todas
que um dia amei, que tive e que perdi.
Todos me esperam no final de tudo,
muito perto já. Não se divisa
a terra firme por trás daquelas nuvens?
Olho para a esteira da minha vida,
a apagar-se incessante frente a mim.
O passado, o futuro, espuma branca,
monótona escrita que não atino
a decifrar. Sonho em chegar a casa,
acabar uma viagem demasiado longa,
sem ilusões já, com água apenas.
Estou pronto, adeus, adeus, a mala
transborda de prendas e impaciência.
Sonho com os rostos que me aguardam
- outra vez juntos depois de tanto tempo -
além, no porto, debaixo de terra leve.


(Trad. A.M.)

.

10.5.26

José Carlos Ary dos Santos (World's news)





WORLD’S NEWS

 

A Rainha de Inglaterra faz uma gaifona
vai à sua
        diz o pirata da perna de pau
o espumante francês faz borbulhas na cona
o marechal reformado bate a pala ao mau-mau.

A avó do general partiu uma costela
o filho do ministro anda a roer a corda
não há pai para ele não há pau para ela
o Eufrates secou e o Tejo transborda.

O Senhor Reticências tem o nome suspenso
durante cinco anos por ter votado em falso
o povo come papa o Papa come incenso
Maria Antonieta sobe ao cadafalso.

O chulo da corista também subiu na vida
cortem-lhe o caralho   cortem-lhe o pescoço
é preciso dinheiro é preciso comida
é preciso pagar-se a fome do grosso.

A Duquesa Larocas toca pandeireta
o Barão do Balão toca xilofone
a Marquesa da Aorta toca uma punheta
a menina Decoro morreu ao telefone.

Os jornais imorais anunciam que um bispo
tem um filho na mitra e outro na barriga
São Vicente de Dentro foi operado a um quisto
a Madre Superiora usa faca na liga.

Hiroxima   Hiroxima   meu amor gaseado
uma bomba rebenta na cabeça dum rei
a Senhora Camelo tem o sexo mudado
sabia o que fazia o que fará não sei.

O Cordeiro de Deus foi assado no espeto
extraíram-lhe o bedum   esfregaram-no com sal
comeram-lhe os colhões  deixaram-lhe o esqueleto
tiraram-lhe o retrato para pôr num missal.

Ite missa  ite missa  itété ou não é
itótó itátá  a Titi não está cá
o Tutu dá o cu   a Tété dá o pé
o Senhor dá o pão que o fermento não dá.

Meus Irmãos Meus Irmãos somos filhos da Virgem
somos filhos das putas que nunca se casaram
nosso pai é o tempo nossa mãe a vertigem
somos feitos dos trapos que nunca se juntaram.

Nascemos da orgia dos artigos de fundo
do minete dos padres nas bordas dos ricaços
do cuspo das beatas no Redentor do Mundo
do gozo masoquista do Senhor dos Passos.

Meus Irmãos Meus Irmãos é urgente lavarmos
no bidé das palavras a uretra dos nobres
mijarmos nos salões e depois ensaiarmos
a reacção dos poetas na gazeta dos pobres.

Meus Irmãos Meus Irmãos ensaiemos agora
antes que seja tarde     antes que seja cedo
não há parto sem dor   não há tempo sem hora
é urgente rompermos a vagina do medo.


J.C. Ary dos Santos

.

8.5.26

Abelardo Linares (Que curta foi a noite)




QUÉ CORTA FUE LA NOCHE

Huelen a ti las sábanas, amor, y todavia
está tu libro abierto encima de la mesa
y hay libros por el suelo y discos y tabaco.

Aunque aquí ya no estés, mis brazos aún te buscan.
Y en este fingimiento de abrazarte en la almohada
persigo tu recuerdo, tu cintura, tus hombros.

Tu cuerpo no fue un sueño y quizás en el baño
mi cepillo me espere, mojado de tu boca,
o húmedas toallas que secaron tu pelo.

Huelen a ti las sábanas. El barrio se despierta.
Hay voces en la calle y luz tras la persiana.
El sol debe estar alto. Qué corta fue la noche.

Abelardo Linares

 

Cheiram a ti os lençóis, amor,
e está ainda teu livro sobre a mesa
e há livros pelo chão, e discos, e tabaco.

Embora tu aqui já não estejas, meus braços ainda te buscam,
e neste fingir de abraçar-te na almofada
persigo a tua lembrança, dos ombros à cintura.

Teu corpo não foi um sonho e talvez no banheiro
a minha escova me espere, molhada da tua boca,
ou as toalhas húmidas que te secaram o cabelo.

Cheiram a ti os lençóis, o bairro desperta,
há vozes na rua e luz na persiana.
O sol deve estar alto.
Que curta foi a noite.

(Trad. A.M.)

.

6.5.26

Rodolfo Serrano (Testamento vital)




TESTAMENTO VITAL

 

Dejo a todos mis versos si es que os sirven de algo,
mis pecados peores que os llevarán al cielo
donde moran los ángeles caídos y las ángeles
que nunca respetaron el sexto mandamiento. 

Os dejo las promesas que jamás he cumplido, 
cuatro sueños frustrados, pendientes todavía,
algunas esperanzas que dejé abandonadas
y el deseo de un cuerpo en mis noches vacías. 

Y a todos, todos, dejo el brillo de la luna,
la angustia de los lunes y el miedo a un Dios de cólera.
Os dejo la manzana del Edén y mi odio
al dolor de los niños. Y dejo mis caricias
a los hombres que fueron derrotados conmigo. 

Os dejo, pues, mi rabia frente a lo que es injusto,
también mi cobardía y mi miedo ante aquellos
que compraron por nada mi silencio más cómplice. 
Y ganaron con trampas mi vida en el tablero. 

Os dejo mi tristeza. Cuidadla con cariño.
Y el recuerdo de largos paseos en la noche,
de tardes de noviembre y playas en verano,
de esos trenes nocturnos y frías estaciones, 
y esta extraña nostalgia por los puertos lejanos. 

Os dejo la añoranza de un verano en Lisboa,
el olor de la hierba cuando llueve en  la aldea, 
esa belleza mágica de los cielos con nubes.
La luz de una farola y una calle desierta. 

A los que me ofendieron les dejo mis ofensas.
Y a mis amigos dejo esos bares de barrio
que nos dieron el vino y el pan de la amistad.
A ti, solo a ti dejo, la dicha que te debo,
las noches más hermosas y este amor, viejo amor.
 

Rodolfo Serrano

  

Deixo meus versos a todos se vos servirem de alguma coisa,
meus pecados maiores que vos levarão ao céu 
onde moram os anjos caídos e as anjas
que nunca respeitaram o sexto mandamento.

Deixo-vos as promessas que jamais cumpri,
quatro sonhos frustrados, pendentes ainda,
algumas esperanças já abandonadas
e o desejo de um corpo nas minhas noites vazias.

E a todos, todos, deixo o brilho da lua,
a angústia das segundas e o medo a um Deus de cólera.
Deixo-vos a maçã do Paraíso e meu ódio
à dor das crianças, legando meus carinhos 
aos homens comigo derrotados.

Deixo-vos, depois, minha raiva face à injustiça,
minha cobardia também e meu medo perante aqueles 
que compraram por nada meu silêncio mais cúmplice,
e ganharam com truques minha vida no tabuleiro.

Deixo-vos a minha tristeza, tratai-a com carinho,
mais a lembrança de longos passeios nocturnos,
de tardes de Novembro e praias de verão,
de comboios da noite e frias estações,
e esta nostalgia estranha por portos longínquos.

Deixo-vos a saudade de um verão em Lisboa,
o cheiro da erva quando chove na aldeia,
aquela beleza mágica dos céus com nuvens,
a luz de um candeeiro e uma rua deserta.

Aos que me ofenderam lego as minhas ofensas,
deixando aos amigos aqueles bares de bairro
que nos deram o vinho e o pão da amizade.
A ti, só a ti, deixo a ventura que te devo,
as noites mais belas e este amor, velho amor.

(Trad. A.M.)

 .

4.5.26

Manuel Resende (Voltar para casa)




VOLTAR PARA CASA

 

Mas porque tem a pessoa de voltar para casa
e seguir o rasto das árvores no chão,
pelo caminho conhecido, com o coração mirrado nas mãos
e as mãos nos bolsos como um apontamento antigo?
Não haverá outra história para viver, um jornal para cada um,
E súbita a esperança a queimar os lábios, a palpitar na boca,
pronta a saltar e a arder todo o corpo?
Mas porque tem a pessoa de voltar para casa,
cabisbaixa?
 

Manuel Resende

.

2.5.26

José Jiménez Lozano (Árvore seca)




ARBOL SECO

 

Diez años esperó que el árbol seco
floreciera de nuevo. Diez años
con el hacha aguzada y temblorosa,
pero el árbol
sólo exhibía sus desnudos brazos,
la percha de la urraca y de los cuervos.
Cortóle al fin, y, de repente,
vio su corazón verde, borbotón de savia;
un año más, y hubiera florecido.


José Jiménez Lozano

 

 

Dez anos esperou que a seca árvore
florisse de novo. Dez anos
de machada afiada e trémula,
mas a árvore
mostrava só os braços nus,
o poleiro da pega e dos corvos.
Cortou-a por fim, e de repente,
viu-lhe o coração verde, a borbotar de seiva;
um ano mais, e floria.


(Trad. A.M.)

 .

30.4.26

José Corredor-Matheos (Mark Rothko sabe ver)




(IX)

 

Mark Rothko sabe ver
las cosas como son:
un resplandor sin cuerpo,
vivo color al borde
de las sombras.
Coge el pincel y deja
que arda el rojo,
pinte de azul el aire,
crezca el verde y el ocre
se remanse,
que funda el blanco todos
los colores
o que el negro los niegue.
Pintura evanescente,
puro espíritu,
espejo del vacío,
donde me reconozco.
Tener conciencia clara
de que nada en la nada
se sostiene
hace más deslumbrante
esta belleza.

José Corredor-Matheos



Mark Rothko sabe ver
as coisas como elas são:
um resplendor sem corpo,
cor viva no limite
das sombras.
Pega no pincel e deixa-o
incendiar o vermelho,
pintar o ar de azul,
crescer o verde e
sossegar o ocre,
fundir no branco
as cores todas
ou então negá-las
no negro.
Pintura evanescente,
puro espírito,
espelho do vazio.
onde eu me reconheço.
Ter consciência clara
de que nada se sustenta
no nada
torna mais deslumbrante
esta beleza.


(Trad. A.M.)

.

28.4.26

Manuel António Pina (Aos filhos)




AOS FILHOS

 

Já nada nos pertence,
nem a nossa miséria.
O que vos deixaremos
a vós o roubaremos. 

Toda a vida estivemos
sentados sobre a morte,
sobre a nossa própria morte!
Agora como morreremos? 

Estes são tempos de
que não ficará memória,
alguma glória teríamos
fôssemos ao menos infames. 

Comprámos e não pagámos,
faltámos a encontros:
nem sequer quando errámos
fizemos grande coisa!

Manuel António Pina

.

26.4.26

Joaquín Giannuzi (O quadro de referência)




EL MARCO DE REFERENCIA                                  

 

El amante menciona la luz curvada
de su vientre desnudo:
denuncia la vida ajena como un naufragio
y subordina el mundo
a la referencia de la amada dormida.
El amante construye
su territorio sanguíneo
en torno a esa pulsación dorada:
atrapado
en el poder desconocido
que emana de una cosa perfectamente hecha.

Joaquín Giannuzi 


O amante menciona a luz curvada
de seu ventre desnudo:
denuncia a vida alheia como um naufrágio
e subordina o mundo
à referência da amada adormecida.
O amante constrói
seu território sanguíneo
em torno dessa pulsação dourada:
apanhado
no poder desconhecido
que emana de uma coisa perfeitamente feita.


(Trad. A.M.)

.

24.4.26

Joan Margarit (Coragem)




CORAJE 


La guerra ha terminado, pero la paz no llega.
La tarde cae ruda y silenciosa.
Miro a mi abuela -tengo cuatro años-
mientras mea de pie junto al camino
con las piernas abiertas debajo de la falda.
Siempre que lo recuerdo, vuelve el chorro,
poderoso, a caer contra la tierra.
Fue ella quien me enseñó que el amor es
claridad y dureza al mismo tiempo,
que sin coraje nadie puede amar.
No era literatura: no sabía leer.

Joan Margarit 

 

A guerra acabou, mas a paz não chega.
Cai a tarde, rude e silenciosa.
Olho para a minha avó – tenho quê, quatro anos –
a mijar de pé, junto ao caminho,
de pernas afastadas, por baixo da saia.
Sempre que me lembra, retorna o esguicho,
forte, a cair contra o chão.
Ela é que me ensinou que o amor é
claridade e dureza ao mesmo tempo,
que sem coragem ninguém pode amar.
Não era literatura, que ela não sabia ler.


(Trad. A.M.)

.

22.4.26

Manuel Alegre (Era Outubro, em Avintes)




ERA OUTUBRO EM AVINTES 

                              (Para Adriano)
 

Não era só a voz o som a oitava
que ele queria sempre mais acima
nem sequer a palavra que nos dava
restituída ao tom de cada rima. 

Era a tristeza dentro da alegria
era um fundo de festa na amargura
e a quase insuportável nostalgia
que trazia por dentro da ternura. 

O corpo grande e a alma de menino
trazia no olhar aquele assombro
de quem quer caber e não cabia. 

Os pés fora do berço e do destino
alguém o viu partir de viola ao ombro.
Era Outubro em Avintes. E chovia.
 

Manuel Alegre

 .

20.4.26

Jesús Jiménez Domínguez (A ponte no nevoeiro)




EL PUENTE EN LA NIEBLA

 

Me detengo
a mitad del recorrido
y escucho.

En un extremo
aquel que fui me grita:
¡Espérame!

En el otro,
el que seré me susurra:
Sígueme.

Y el puente, eterno,
no aguanta el peso de los três.


Jesús Jiménez Domínguez

 

Detenho-me
a meio do caminho
e escuto.

Num extremo
aquele que fui grita-me:
Espera-me!

No outro,
aquele que serei sussurra-me:
Segue-me.

E a ponte, eterna,
não aguenta o peso dos três.


(Trad. A.M.)

.

18.4.26

Jesús Muñárriz (Gente estranha)




GENTE RARA

 

Somos gente rarita, los poetas,
capaces de matar por una errata
o de dedicar días a un epíteto.

Eso nosotros, los mayores; otros,
los menores, los jóvenes, los nuevos
no sé si afinan tanto o si prescinden

de bobadas, dirán. De precisión, replico,
argamasa de los mejores versos.
Si cuenta el qué, cuenta otro tanto el cómo.

Deslavazada hay mucha poesía
en los derrumbaderos del olvido.
Sólo lo bien medido y calibrado,

si es cierto y justo y ágil y preciso,
fija y transmite a veces la belleza.
A veces. Y deslumbra. O ilumina.

Jesús Muñárriz

 

Somos gente estranha, os poetas,
capaz de matar por uma errata
ou perder dias com um epíteto.

Isto nós, os mais velhos; outros,
mais jovens, os novos
não sei se afinam tanto, ou se prescindem

de tolices, que digam. De precisão, replico,
argamassa dos melhores versos.
Se conta o quê, outro tanto conta o como.

Deslavada há para aí muita poesia
nos abismos do esquecimento.
Só o bem medido e calibrado,

sendo certo e justo, ágil e preciso,
fixa e transmite por vezes a beleza.
Às vezes. E deslumbra. Ou ilumina.


(Trad. A.M.)

 .

16.4.26

Luís Palma Gomes (Reencarnação)




REENCARNAÇÃO

 

Não pode fazer o menor esforço.
Apenas mexer a ponta dos dedos.
Ter fome de desejo.
Conhecer o caminho e não iniciar os passos.
Devolver a vida intacta a quem a inspirou
pelas narinas adentro
para que possa soprá-las em outro animal articulado.

Talvez esse outro se mexa, deseje e caminhe
do outro lado da estrada.

 

LUÍS PALMA GOMES
Fronteira
(2022)

.

14.4.26

Javier Velaza (Decreto)




DECRETO

 

Con la voz más solemne que pudieron sacar
de sus gargantas trémulas y el ademán del mármol,
salieron a decir encerraos en casa
por lo que más queráis, o encerraos en casa
por los que más queráis, o no sabes qué fue
lo que dijeron, porque quién oye claramente
mientras el miedo aúlla, o quién puede entender
la verdad imposible de lo para no dicho,
en fin, dijeron algo, no dijeron deprisa,
lo recuerdas muy bien, pero no hacía falta,
porque aquella palabra crepitaba en sus ojos,
y tú fuiste y cerraste la puerta de tu casa
por lo que tú más quieres, que todavía no sabes
lo que es, pero sabes que lo quieres, y echaste
los cerrojos y dividiste el mundo
en dos mitades y erigiste entre ellas
un muro infranqueable y desde entonces
nunca más has sabido si te quedaste dentro
o fuera.

Javier Velaza

 

Com a voz mais solene
que conseguiram arrancar da garganta,
começaram a gritar metei-vos em casa
pelas almas, ou metei-vos em casa
por quem lá tendes, ou já não sabes bem
o que disseram, quem é que ouve claramente
quando o medo uiva? quem é que pode entender
a verdade impossível de ser dita,
enfim, disseram alguma coisa, não disseram depressa,
lembras-te bem, mas não era preciso,
porque a palavra crepitava-lhes nos olhos,
e tu foste e fechaste a porta de casa
pelo que mais quiseres, que não sabes ainda
o que é, mas sabes que o queres,
e então correste os ferrolhos,
dividiste o mundo em duas metades,
erguendo entre elas um muro intrespassável,
e desde então nunca mais soubeste
se ficaste dentro
ou fora.


(Trad. A.M.)

.

12.4.26

Javier Salvago (Perto do céu)




CERCA DEL CIELO

 

A aquella tabernucha la llamaban
“Cerca del cielo”, por los altos techos
que cobijaban a los parroquianos.
Misterios del azar: al tabernero
lo apodaban “El tío de la nube”,
por la mancha del ojo.
Si ahora vuelvo
hacia allá la mirada, puedo ver
a mi padre, feliz, cerca del cielo
–solo por el poder que tiene el vino
de pintar de colores lo que es negro–,
apoyado en la barra, rodeado
de amigotes juerguistas y risueños,
cantando por fandangos y alegrías,
sin respetar la noche ni el letrero
de “Se prohíbe el cante”.
Y puedo
verme también a mí, sentado
sobre un alto barril –apenas tengo
ocho inocentes años–
tiritando de frío,
muerto de hambre y de sueño,
avergonzado,
cerca del infierno.
 

Javier Salvago

 


Aquela taberna chamavam-lhe
‘Perto do céu’, pelos tectos altos
que abrigavam os fregueses.
Mistérios do acaso, o taberneiro
tinha o apodo ’O tipo da nuvem’,
devido a uma mancha na vista.
Volvendo agora
o olhar para lá, posso ver
meu pai, feliz da vida, perto do céu
- só pelo poder que tem o vinho
de pintar a cores aquilo que é negro -
apoiado no balcão, rodeado
de amigalhaços borguistas e risonhos,
a cantar por fandangos e alegrias,
sem respeitar a noite nem o letreiro
’Proibido o cante’.
E posso
ver-me também a mim, sentado
num barril alto – mal tenho
oito anos inocentes –
tiritando de frio,
morto de fome e de sono,
envergonhado,
perto do inferno.

(Trad. A.M.)

.

10.4.26

Linda Pastan (Uma história curta)



A SHORT HISTORY OF JUDAIC THOUGHT IN THE TWENTIETH CENTURY

 

The rabbis wrote:
although it is forbidden
to touch a dying person,
nevertheless, if the house
catches fire
he must be removed from the house.

Barbaric!
I say,
and whom may I touch then,
aren´t we all
dying?

You smile
your old negotiator’s smile
and ask:
but aren’t all our houses
burning? 

Linda Pastan

 

Os rabis escreveram:
embora seja proibido
tocar em alguém que está a morrer,
se a casa
se incendiar
a pessoa deve ser retirada
da casa. 

Uma barbaridade!
digo eu,
e em quem posso tocar então,
não estamos todos
a morrer? 

Fazes
o teu sorriso de velho negociador
e perguntas:
mas as nossas casas não estão todas

a arder?

(Trad. fjcc)

.

8.4.26

Javier Olalde (Voltou a chuva)




VOLVIÓ LA LLUVIA

 

Mi sentimiento es un crepúsculo de plomo 
mojado,
desleído entre las luces de las calles 
por las que no regresas 
a esta casa de cuando éramos otros 
y todas las aceras nos llevaban 
camino del encuentro.

Volvió la lluvia. 
Será un invierno largo. 


Javier Olalde

 

 

Meu sentimento é um crepúsculo de chumbo
molhado,
diluído entre as luzes das ruas
por onde não regressas
a esta casa de quando éramos outros
e os caminhos todos nos levavam
em direcção ao encontro.

Voltou a chuva.
Será um inverno longo.


(Trad. A.M.)

.

7.4.26

Javier Cánaves (Canção para os dias de mudança)




CANCIÓN PARA LOS DÍAS DE MUDANZA 

 

Los días de mudanza
tienen su propia luz.
 

Es la luz que en los puertos
avienta los pañuelos
y las ensoñaciones. 

Es la luz indecisa
de un domingo sin ella
después de muchos meses. 

Es la luz que enmarcaba
el perfil de mi padre
una tarde de fútbol.
 

Los días de mudanza
tienen su propia luz.
 

Es la luz que retienen
algunas fotos viejas
cuando toca balance.
 

Es la luz detenida
en un trozo del muro
de la que fue tu casa. 

Es la luz de Lisboa
una tarde en La Baixa
antes de ser acróbatas.
 

Los días de mudanza
tienen su propia luz.
 

Y es esta luz que acuna
el temor y el deseo
en un mismo regazo, 

el ayer y el mañana,
la ruleta y la inercia,
al niño y al adulto.
 

Es la luz que te impone
el gesto de la duda
en la casa vacía.
 

Javier Cánaves 

 

Os dias de mudança
têm sua própria luz.

É a luz que nos portos
aventa os panais
e as fantasias.

É a luz indecisa
de um domingo sem ela
depois de muitos meses.

É a luz que enquadrava
o perfil de meu pai
uma tarde de futebol.

Os dias de mudança
têm sua própria luz.

É a luz que retêm
certas fotos antigas
quando toca balanço.

É a luz detida
num trecho de muro
da que foi tua casa.

É a luz de Lisboa
uma tarde na Baixa
antes dos acrobatas.

Os dias de mudança
têm sua própria luz.

E é esta luz que embala
o temor e o desejo
num mesmo regaço,

Ontem e amanhã,
a roleta e a inércia,
menino e adulto.

É a luz que te impõe
o gesto de dúvida
na casa vazia.


(Trad. A.M.)

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5.4.26

Lêdo Ivo (A Johannes Vermeer)




A JOHANNES VERMEER

 

Pintas apenas formas sob vários espaços:
a moça de turbante azul, cenas, paisagens.

Fazes, Johannes Vermeer, a claridade, o sol
de tua vida obscura entre as ruas de Delft.

Operário da luz!


Lêdo Ivo

 .

3.4.26

Jaime Sabines (Tal como noite de bebedeira)



Igual que la noche de la embriaguez,
igual fue la vida.
¿Qué hice?, ¿que tengo entre las manos?
Sólo desear, desear, desear,
ir detrás de los sueños
igual que un perro ciego ladrándole a los ruidos.
 

Jaime Sabines

[Sureando] 

 

Tal como noite de bebedeira,
assim foi a vida.
O que fiz eu? O que tenho nas mãos?[
Desejar, desejar, só desejar,
ir a correr atrás dos sonhos
como um cachorro cego a ladrar aos barulhos.
 

(Trad.A.M.)

 .

2.4.26

Jaime Gil de Biedma (Hino à juventude)




HIMNO A LA JUVENTUD

 

A qué vienes ahora,
juventud,
encanto descarado de la vida?
Qué te trae a la playa?
Estábamos tranquilos los mayores
y tú vienes a herirnos, reviviendo
los más temibles sueños imposibles,
tú vienes para hurgarnos las imaginaciones. 

De las ondas surgida,
toda brillos, fulgor, sensación pura
y ondulaciones de animal latente,
hacia la orilla avanzas
con sonrosados pechos diminutos,
con nalgas maliciosas lo mismo que sonrisas,
oh diosa esbelta de tobillos gruesos,
y con la insinuación
(tan propiamente tuya)
del vientre dando paso al nacimiento
de los muslos: belleza delicada,
precisa e indecisa,
donde posar la frente derramando lágrimas. 

Y te vemos llegar -figuración
de un fabuloso espacio ribereño
con toros, caracolas y delfines,
sobre la arena blanda, entre la mar y el cielo,
aún trémula de gotas,
deslumbrada de sol y sonriendo. 

Nos anuncias el reino de la vida,
el sueño de otra vida, más intensa y más libre,
sin deseo enconado como un remordimiento
-sin deseo de ti, sofisticada
bestezuela infantil, en quien coinciden
la directa belleza de la starlet
y la graciosa timidez del príncipe. 

Aunque de pronto frunzas
la frente que atormenta un pensamiento
conmovedor y obtuso,
y volviendo hacia el mar tu rostro donde brilla
entre mojadas mechas rubias
la expresión melancólica de Antínoos,
oh bella indiferente,
por la playa camines como si no supieses
que te siguen los hombres y los perros,
los dioses y los ángeles,
y los arcángeles,
los tronos, las abominaciones...
 

Jaime Gil de Biedma 

 

A que vens tu agora,
juventude,
encanto descarado da vida?
O que é que te traz à praia?
Estávamos tranquilos os mais velhos
e cá vens tu a ferir-nos, com reviver
os nossos sonhos impossíveis,
cá vens a remexer-nos a imaginação. 

Erguida das ondas,
toda brilho, fulgor, sensação pura
e jeito de animal bravio,
avanças para a margem
com teus peitos pequenos e rosados,
com nádegas de malícia tal como o sorriso,
ó deusa esbelta de tornozelo grosso
e com a insinuação (tão tua)
do ventre, a dar passagem
para as coxas, beleza delicada,
precisa e indecisa,
para se pousar a fronte 
e deixar correr as lágrimas. 

E vemos-te chegar - figuração 
de um fabuloso espaço ribeirinho
com toiros, búzios e golfinhos,
sobre a areia mole, entre o mar e o céu,
ainda trémula de gotas,
deslumbrada de sol e sorrindo. 

Anuncias-nos o reino da vida,
o sonho de outra vida, mais intensa e mais livre,
sem desejo inflamado como um remorso
 - sem desejo de ti, bestinha
infantil sofisticada, juntando
a beleza directa da starlet
e a timidez graciosa do príncipe. 

Embora de repente franzas 
a testa com um pensamento 
obtuso e comovido, 
e virando a cara para o mar,
onde brilha a expressão melancólica de Antinoo,
ó bela indiferente,
pela praia caminhes como se não te soubesses
seguida pelos homens e pelos cães,
pelos deuses e anjos e arcanjos,
por trovões, por abominações…
 

(Trad. A.M.)

 .