28.4.26

Manuel António Pina (Aos filhos)




AOS FILHOS

 

Já nada nos pertence,
nem a nossa miséria.
O que vos deixaremos
a vós o roubaremos. 

Toda a vida estivemos
sentados sobre a morte,
sobre a nossa própria morte!
Agora como morreremos? 

Estes são tempos de
que não ficará memória,
alguma glória teríamos
fôssemos ao menos infames. 

Comprámos e não pagámos,
faltámos a encontros:
nem sequer quando errámos
fizemos grande coisa!

Manuel António Pina

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