29.6.26

Felipe Benítez Reyes (Fábula)




FÁBULA DEL QUE QUISO DEJAR ESCRITO SU EPITAFIO

 

Se le ocurrían a diario.
Irónicos algunos, otros
       más trascendentales.
Demasiado largos o demasiado escuetos.
Inexactos como emblema de una vida
o triviales para el mármol.

Una mañana de tantas,
su cuerpo le resultó desconocido.
La evidencia de un proceso callado,
aunque manifestado de repente,
como un acto de magia:
el hombre sonriente y temeroso
que entró en el cajón de espadas
       del ilusionista
y salió de allí transformado en quién.

El espejo,
el acostumbrado a mentir,
decía su verdad incontestable.
                                                       La
revelación de una certeza postergada.

Y entonces lo vio claro:
QUIEN MURIÓ EN MÍ YA NO ERA YO.

Felipe Benítez Reyes

 

Ocorriam-lhe todos os dias,
irónicos uns, outros
               mais transcendentes,
muito longos ou demasiado curtos,
inexactos como emblemas de uma vida
ou triviais para o mármore.

Uma manhã de tantas,
o corpo pareceu-lhe desconhecido,
sinal de um processo silencioso,
mas de súbito manifesto,
como um acto de magia:
o homem sorridente e receoso
que entrou na caixa de espadas
               do ilusionista
e dali saiu transformado em ninguém.

O espelho,
habituado a mentir,
dizia a sua verdade incontestável.
                                            A
revelação de uma certeza postergada.

E então viu claro:
QUEM MORREU EM MIM JÁ NÃO ERA EU.


(Trad. A.M.)

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27.6.26

A.M.Pires Cabral (Em parte incerta)




EM PARTE INCERTA

 

Dizem-me
que a última vez que a minha musa foi vista
ia de armas e bagagens, às arrecuas, como que sugada
por um vento que soprasse às avessas.

Desde então tem estado ausente
em parte incerta.

Mas pelo menos podia telefonar.

A. M. Pires Cabral

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25.6.26

Abelardo Linares (O café de espelhos)




EL CAFÉ CON ESPEJOS                  

 

Era un café y estábamos charlando.
Un extraño café de gigantescas sillas
con unos veladores diminutos.
A nuestro alrededor rostros borrosos
o, más exactamente, unos hombres sin rostro;
y así no me extrañó todo el silencio
de aquel local de espejos infinitos.
No puedo recordar de qué charlaba,
pero sí mi alegría y la viveza,
sin duda exagerada, de mis gestos.
Él me dejaba hablar, indiferente
a toda la pasión que había en mis palabras.
De repente me dijo con voz bronca:
“¿Y tú qué harás ahora que estás muerto?”.
Al principio no supe comprenderle,
tan estúpido aquello, tan falto de sentido,
y volví la cabeza. En los espejos
quise mirar mi rostro, pero era el de mi padre
el que veía en ellos. “¿Al fin te has dado
       cuenta?”.
“¿De qué?”, le pregunté. “De que
       eres un sueño,
hijo mío”.

Abelardo Linares
 

 

Era um café e estávamos na conversa,
um estranho café de cadeiras gigantescas
com umas mesas muito pequenas.
Em volta rostos vagos
ou, mais exactamente, alguns homens sem rosto;
e daí que eu não estranhasse aquele silêncio todo
no meio de espelhos infinitos.
Não me consigo lembrar de que falava,
mas sim da minha alegria, da vivacidade dos gestos,
por certo exagerada.
Ele deixava-me falar, indiferente
àquela paixão toda das minhas palavras.
De repente, diz-me com voz rouca:
‘E tu que vais fazer, agora que estás morto?’
A princípio não consegui compreender,
de tão estúpido aquilo, tão falto de sentido,
e virei a cabeça. Nos espelhos,
quis olhar para a minha cara, mas era a de meu pai
que estava a ver: ‘Afinal deste-te conta?’
‘De quê?’, perguntei?
‘De que és um sonho, meu filho’.


(Trad. A.M.)

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23.6.26

José Saramago (Então chegou a república)

 



(Então chegou a república)

Então chegou a república.
Ganhavam os homens doze ou treze vinténs, e as mulheres menos de metade, como de costume.
Comiam ambos o mesmo pão de bagaço, os mesmos farrapos de couve, os mesmos talos.
A república veio despachada de Lisboa, andou de terra em terra pelo telégrafo, se o havia, recomendou-se pela imprensa, se a sabiam ler, pelo passar de boca em boca, que sempre foi o mais fácil.
O trono caíra, o altar dizia que por ora não era este reino o seu mundo, o latifúndio percebeu tudo e deixou-se estar, e um litro de azeite custava mais de dois mil réis, dez vezes a jorna de um homem.

JOSÉ SARAMAGO
Levantado do Chão
(1980)

.

21.6.26

Rita Ramones (Oração de graças)




ORACIÓN DE GRACIAS 

 

Gracias, Señor, te doy, por ser exactamente quien soy.
Gracias por no ser una pobre desdichada pobre
que vive bajo un puente lavándose los dientes
para evitar el hambre,
ni tampoco una inconsciente millonariona
que vive sola en ochocientos metros cuadrados
con vistas al Parque Central
de Nueva York,
la desgraciada. La muy infeliz. 

Gracias, Señor, porque cuando me parece que mi vida ha sido un asco,
pienso en ti y se me quita,
porque cuando lamento no haber aprovechado mis años,
en lugar de ponerme triste,
pienso en ti y se me quita,
y cuando recuerdo aquellas clases frustradas de piano
que dejé a medio palo,
pienso que lo dejé por ti y se me quita,
y entiendo que nada se te compara. 

Gracias Dios por ayudarme a no darme cuenta,
por hacerme ciega ayer y hoy sorda.
Y sobre todo, gracias, porque no soy gorda.
 

Rita Ramones

[Tamal de peluche

 

Graças, Senhor, te dou por ser exactamente quem sou,
graças por não ser uma pobre desditada pobre
a viver debaixo da ponte, a lavar os dentes
para evitar a fome,
nem tão pouco uma milionária inconsciente
a viver sozinha em oitocentos metros quadrados.
com vista para Central Park em Nova Iorque,
a desgraçada. A pobre infeliz.

Graças, Senhor, porque quando me parece que a vida foi um asco,
penso em ti e passa-me,
e quando recordo as aulas de piano que deixei a meio.
penso que deixei por ti e passa-me,
e entendo que nada se compara contigo.

Graças, meu Deus, por me ajudares a não reparar,
por me fazeres ontem cega e hoje surda,
e acima de tudo, graças, porque não sou gorda.


(Trad. A.M.)

 .

19.6.26

Valerio Magrelli (As cobaias)




LE CAVIE 

 

O forse sono cavie, 
queste poesie che scrivo, 
per qualche esperimento concepite,
che tuttavia non so.  

Non so perché si formano, 
eppure mi affeziono e le chiamo per nome,
topolini vivissimi, allarmati
da che?
 

Valerio Magrelli 

 

Ou serão talvez cobaias, 
estas poesias que escrevo,
fruto de alguma experiência,
que eu desconheço contudo. 

Nem sei porque se formam
e no entanto afeiçoo-me,
chamo-as pelo nome,
ratinhos vivíssimos, assustados
por quê?
 

(Trad. A.M.)

 .

17.6.26

Raquel Lanseros (A luz sem véu)




LA LUZ SIN VELO

 

Yo te quiero. Es un hecho
tan cierto en lo absoluto
como en lo relativo.

Veo tu rostro en el mío
y en el rostro de todos los que he visto.

Tú inventas una isla para mí cada noche
tú me arrullas la sangre
tú me resguardas contra la impureza.

Nos hemos esculpido en la hora verdadeira
la poblada de ti
la única que está a salvo del infierno.

Raquel Lanseros

 

Eu te quero, eis um facto
tão verdadeiro no absoluto
como no relativo.

Vejo teu rosto no meu
e no rosto de quantos tenho visto.

Tu inventas uma ilha para mim cada noite
tu embalas-me o sangue
resguardas-me contra a impureza.

Esculpimo-nos nós na hora verdadeira
a povoada de ti
a única que está a salvo do inferno.


(Trad. A.M.)

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15.6.26

Paulo Henriques Britto (Fábula)




FÁBULA

 

Um pensamento pensado
até a total exaustão
termina por geminar
no mesmo exato lugar
sua exata negação.

Enquanto isso, uma ideia
trauteada numa flauta
faz uma cidade erguer-se
- é claro, sem alicerces,
mas ninguém dá pela falta.

Paulo Henriques Britto

[Acontecimentos]

 .

13.6.26

José García Alonso (Novembro)



NOVEMBRO
 

Novembro, esse mês em que todas
as horas entraram na oficina
para serem reparadas sem pressa. 

Novembro, essa mestra que aponta
com o dedo para a janela e diz-nos:
condensação. 

Novembro: uma nuvem sacudiu
sobre o vidro suas gotas transparentes. 

Novembro, esse corpo que está morto
e cada ano ressuscita e surpreende-nos. 

Não aprendemos com a natureza.
Tocamos o seu prodígio e olvidamos
a obrigação de passar inadvertidos.

José García Alonso

(Trad. A.M.)

 .

11.6.26

José Saramago (Incipit)

 



O que mais há na terra, é paisagem.
Por muito que do resto lhe falte, a paisagem sempre sobrou, abundância que só por milagre infatigável se explica, porquanto a paisagem é sem dúvida anterior ao homem, e apesar disso, de tanto existir, não se acabou ainda.
Será porque constantemente muda: tem épocas no ano em que o chão é verde, outras amarelo, e depois castanho, ou negro.
E também vermelho, em lugares, que é cor de barro ou sangue sangrado.
Mas isso depende do que no chão se plantou e cultiva, ou ainda não, ou não já, ou do que por
simples natureza nasceu, sem mão de gente, e só vem a morrer porque chegou o seu último fim.
Não é tal o caso do trigo, que ainda com alguma vida é cortado.
Nem do sobreiro, que vivíssimo, embora por sua gravidade o não pareça, se lhe arranca a pele.
Aos gritos.
Não faltam cores a esta paisagem.
Porém, nem só de cores.
Há dias tão duros como o frio deles, outros em que se não sabe de ar para tanto calor: o mundo nunca está contente, se o estará alguma vez, tão certa tem a morte.
E não faltam ao mundo cheiros, nem sequer a esta terra, parte que dele é e servida de paisagem.  
Se no mato morreu animal de pouco, certo que cheirará ao podre do que morto está. 
Quando calha estar quieto o vento, ninguém dá por nada, mesmo passando perto.
Depois os ossos ficam limpos, tanto lhes faz, de chuva lavados, de sol cozidos, e se era pequeno o bicho nem a tal chega porque vieram os vermes e os insectos coveiros e enterraram-no.


JOSÉ SARAMAGO
Levantado do Chão
(1980)

.

9.6.26

Luis Eduardo Aute (Desesperando Godot)




DESESPERANDO A GODOT

 

Si la esperanza
es lo último que se
pierde,

¿será la
desesperanza
lo primero que se
gana?


Luis Eduardo Aute

 

 

Se a esperança
é a última coisa
que se perde,

será
a desesperança
a primeira
que se ganha?


(Trad. A.M.)

.

7.6.26

Owen Bullock (A caminho)




on my way
to evict our tenant
again . . .
the sun goes down
over the mountain


Owen Bullock



a caminho de despejar
o nosso inquilino
outra vez...
o sol a pôr-se
sobre a montanha


(Trad, FJCC)

.


5.6.26

Karmelo C. Iribarren (O amor)




EL AMOR

 

Como el viento que encuentra
una rendija
y se cuela en la habitación
y lo desordena todo:
libros
facturas
poemas 

así llega
en la vida
el amor. 

Nada es igual a partir de entonces,
ese caos
es la felicidad. 

Pero un día habrá que recoger. 

Suerte si no te toca a ti.
 

Karmelo C. Iribarren 

 

Como o vento que encontra
uma frincha
e se enfia pela casa
e põe tudo em desordem,
livros
facturas
poemas

assim na vida
chega
o amor.

Nada é igual depois disso,
esse caos
é a felicidade.

Mas um dia tem de acabar.

Sorte se não te calhar a ti.

 

(Trad. A.M.)

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3.6.26

Lauren Mendinueta (Olvido de mim)



OLVIDO DE MÍ


Octubre ha llegado dominado por las lluvias,
y los demás meses lo han seguido hasta aquí.
De repente este amontonado tiempo lo ha llenado todo,
el verde de la casa, las sillas, la manta que cubre el piso
cuando en el verano me recuesto a leer.
En mí no es posible el abandono del tiempo,
la gracia que supone el olvido
me hubiese salvado de esta invasión.
Ahora debo caminar con cuidado
para no maltratarme con tantos recuerdos.
¿Me engañaré o será verdad lo que voy a decir?
Renuncio a esta visita, no le temo a la soledad.

 Lauren Mendinueta

[LALT]

  

Outubro chegou dominado pelas chuvas,
os outros meses seguiram-no até aqui.
De repente, o tempo amontoado cobriu tudo,
o verde da casa, as cadeiras, a manta do chão 
quando no verão me recosto a ler.
Comigo não é possível o abandono do tempo,
a graça do olvido 
me tivesse salvado desta invasão.
Agora tenho de caminhar com cuidado 
para não me fazer mal com tanta recordação.
Estarei enganada ou será verdade isto que vou dizer?
Dispenso esta visita, a solidão não a temo.

(Trad. A.M.)

 .

1.6.26

Nuno F. Silva (4' 33)




4’ 33

 

Pode existir tanto inferno
em cinco minutos de silêncio.

Como na lentidão com que saio
da cama todas as manhãs.

Ninguém sabe.


Nuno F. Silva

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