O que mais há na terra, é paisagem.
Por muito que do resto
lhe falte, a paisagem sempre
sobrou, abundância que só por milagre infatigável se explica, porquanto a
paisagem é sem dúvida anterior ao homem, e apesar disso, de tanto existir, não
se acabou ainda.
Será porque constantemente muda: tem épocas no ano em que o chão é verde,
outras amarelo, e depois castanho, ou negro.
E também vermelho, em lugares, que é cor de barro ou sangue sangrado.
Mas isso depende do que no chão se plantou e cultiva, ou ainda não, ou não já,
ou do que por
simples natureza nasceu, sem mão de gente, e só vem a morrer porque chegou o
seu último fim.
Não é tal o caso do trigo, que ainda com alguma vida é cortado.
Nem do sobreiro, que vivíssimo, embora por sua gravidade o não pareça, se lhe
arranca a pele.
Aos gritos.
Não faltam cores a esta paisagem.
Porém, nem só de cores.
Há dias tão duros como o frio deles, outros em que se não sabe de ar para tanto
calor: o mundo nunca está contente, se o estará alguma vez, tão certa tem a
morte.
E não faltam ao mundo cheiros, nem sequer a esta terra, parte que dele é e
servida de paisagem.
Se no mato morreu animal de pouco, certo que cheirará ao podre do que morto
está.
Quando calha estar quieto o vento, ninguém dá por nada, mesmo passando perto.
Depois os ossos ficam limpos, tanto lhes faz, de chuva lavados, de sol cozidos,
e se era pequeno o bicho nem a tal chega porque vieram os vermes e os insectos
coveiros e enterraram-no.
JOSÉ SARAMAGO
Levantado do Chão
(1980)
