Mostrar mensagens com a etiqueta Carlos de Oliveira. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Carlos de Oliveira. Mostrar todas as mensagens

6.4.18

Carlos de Oliveira (Implacável)





(Implacável)


Levou o resto da manhã às voltas com a ideia e tanto lhe mexeu que a deixou a sangrar: o sangue farto das feridas recentes.

Espantava o sono com goladas de uma garrafa de aguardente que escondia no cofre.

Pouco a pouco, ressuscitava nele o homem implacável que a intensa amargura dalguns dias arrancava ao desespero a que descia, como se o vento desse na poeira da sua consciência desmoronada e as pedras limpas se reerguessem umas sobre as outras.

Nesses acessos tornava-se rígido, cruel.

Orelhas surdas a lágrimas ou rogos.

Por exemplo, saltava às suas terras, ao pegar do trabalho, e camponês que não chegasse a horas já sabia, a jornada descontada ou despedido pura e simplesmente.

A indiferença dum capataz na roça. (XIX)

CARLOS DE OLIVEIRA
Uma Abelha na Chuva
(1953)

__________________

Vocabulário:

campar
dejuar
esbarrondar
estiar
estrafungar
lombeira
marulho

.

27.3.18

Carlos de Oliveira (Amanhecer)





(Amanhecer)


O primeiro alvor da madrugada na janela do escritório, um começo de luz apenas, ainda por fixar no contorno do mundo.

Como a mulher se tivesse recusado a deixá-lo entrar no quarto, passara ali a noite, encolhido no meiple de couro, com a samarra pelas pernas.

Não conseguira adormecer, mas alcançara do excesso das palavras e do álcool um pouco de repouso.
No entanto doía-lhe a cabeça.

A boca seca, amarga.

Levantar-se e abrir a janela.

Uma golada de água, a pureza fria da madrugada.

A cinza da luz amontoava-se nas vidraças, mas não era possível prever se o dia chegaria ou não.

Quando começava a clarear um pouco mais, a lufada de sombra varria a cinza da janela.

Um desejo irreprimível de cheirar os campos molhados.

Beber água, passar os dedos na casca rugosa dum pinheiro, encharcar-se de orvalho. (XV)

CARLOS DE OLIVEIRA
Uma Abelha na Chuva
(1953)


.

12.3.18

Carlos de Oliveira (Janela)






(Janela)


Uma cabaça de vinagre despejada, os resíduos ácidos que escorrem com dificuldade pelo interior do bojo até pingarem do gargalo, espessos, vagarosos; a mão na espuma que lhe azedava os lábios; boiar numa onda incerta de enjoo e ter sede de repente como se tivesse de repente uma dor; o orvalho da noite poisava-lhe na nuca; podia erguer a cabeça tombada para fora da janela, virar a cara para o céu e beber daquela frescura suspensa pelo espaço; voltou-se com dificuldade e a moinha da água bateu-lhe ao de leve na fronte, nas pálpebras fechadas, foi-se acumulando gota a gota, deslizou em seguida pela face, encarreirou nas asas do nariz, veio depositar-se-lhe ao canto dos lábios; abriu a boca e sorveu a humidade lentamente; de súbito, qualquer lembrança remota parecida com aquilo, dias de chuva, a cabeça fora da janela, a boca aberta a aparar as goteiras do telhado, um perfil de criança recortada ao longe; a cinza da morrinha embaciava a distância, o tempo, mas havia por baixo de tudo, ao fundo das coisas, esse fulgor inapagável, o seu próprio perfil de criança, e muito mais, uma ternura dispersa pela casa paterna, por campos e pessoas, por bichos e por estrelas; o coração talhado numa grande pureza já perdida, a alma ainda livre da condenação do fogo, o corpo onde não acordara ainda o medo à morte, porque lhe era fácil então estender-se para fora da janela e beber alegremente das goteiras.

Agora não. (XII)

CARLOS DE OLIVEIRA
Uma Abelha na Chuva
(1953)

.

3.3.18

Carlos de Oliveira (O ruivo)






(O ruivo)


Quando estiou, partiram.

Anoitecera já de todo.

O ruivo tinha acendido a lanterna da charrete e o clarão batia na lombeira da égua lustrosa de suor e chuva.

O perfil do cocheiro arrancava-o da sombra a luz amarelada: o queixo espesso, o nariz correcto, a fronte não muito ampla mas firme.

De encontro à noite, parecia uma moeda de oiro.

O moço ia hirto, de olhos postos no caminho escalavrado que a lanterna abria a custo, e a tensão (a atenção) dava-lhe um rigor enérgico aos tendões do pescoço que o blusão de bombazina deixava a descoberto.

Ela fitava-o e não resistia à tentação de um paralelo com o homem mole e silencioso que levava ao lado. (IV)



CARLOS DE OLIVEIRA
Uma Abelha na Chuva
(1953)


.

22.2.18

Carlos de Oliveira (Uma Abelha na Chuva)






(Início)


Pelas cinco horas duma tarde invernosa de outubro, certo viajante entrou em Corgos, a pé, depois da árdua jornada que o trouxera da aldeia do Montouro, por maus caminhos, ao pavimento calcetado e seguro da vila: um homem gordo, baixo, de passso molengão; samarra com gola de raposa; chapéu escuro, de aba larga, ao velho uso; a camisa apertada, sem gravata, não desfazia no esmero geral visível em tudo, das mãos limpas à barba bem escanhoada; é verdade que as botas de meio cano vinham de todo enlameadas, mas via-se que não era hábito do viajante andar por barrocais; preocupava-o a terriça, batia os pés com impaciência no empedrado. 

Tinha o seu quê de invulgar: o peso do tronco roliço arqueava-lhe as pernas, fazia-o bambolear como os patos: dava a impressão de aluir a cada passo.

A respiração alterosa dificultava-lhe a marcha.

Mesmo assim galgara duas léguas de barrancos, lama, invernia.

Grave assunto o trouxera decerto, penando nos atalhos gandareses, por aquele tempo desabrido. 


CARLOS DE OLIVEIRA
Uma Abelha na Chuva
(1953)
_______________________


.

27.10.16

Carlos de Oliveira (Salmo)





SALMO




A vida
é o bago de uva
macerado
nos lagares do mundo
e aqui se diz
para proveito dos que vivem
que a dor
é vã
e o vinho
breve.



Carlos de Oliveira



.

15.6.14

Carlos de Oliveira (Estrela)





ESTRELA



Legenda
para aquela estrela
azul
e fria
que me apontaste
já de madrugada:
amar
é entristecer
sem corrompermos
nada.


Carlos de Oliveira

[Arquivo de cabeceira]

.

25.11.13

Carlos de Oliveira (Viandante)





O VIANDANTE


Trago notícias da fome
que corre nos campos tristes:
soltou-se a fúria do vento
e tu, miséria, persistes.
Tristes notícias vos dou:
caíram espigas da haste,
foi-se o galope do vento
e tu, miséria, ficaste.
Foi-se a noite, foi-se o dia
fugiu a cor às estrelas:
e, estrela nos campos tristes,
só tu, miséria, nos velas.


Carlos de Oliveira

[Antonio Cicero]

.

14.10.13

Carlos de Oliveira (Sobre o lado esquerdo)





SOBRE O LADO ESQUERDO



De vez em quando a insónia vibra com a
nitidez dos sinos, dos cristais.
E então, das duas uma:
partem-se ou não se partem as cordas tensas
da sua harpa insuportável.
No segundo caso, o homem que não dorme
pensa: «o melhor é voltar-me para o lado esquerdo
e assim, deslocando todo o peso do sangue
sobre a metade mais gasta do meu corpo,
esmagar o coração».


Carlos de Oliveira


[Canal de poesia]



.

7.8.12

Carlos de Oliveira (Soneto fiel)






SONETO FIEL





Vocábulos de sílica, aspereza,
Chuva nas dunas, tojos, animais
Caçados entre névoas matinais,
A beleza que têm se é beleza.


O trabalho da plaina portuguesa,
As ondas de madeira artesanais
Deixando o seu fulgor nos areais,
A solidão coalhada sobre a mesa.


As sílabas de cedro, de papel,
A espuma vegetal, o selo de água,
Caindo-me nas mãos desde o início.


O abat-jour, o seu luar fiel,
Insinuando sem amor nem mágoa
A noite que cercou o meu ofício.



Carlos de Oliveira


.

22.12.11

Carlos de Oliveira (Bolor)






BOLOR





Os versos
que te digam
a pobreza que somos,
o bolor
nas paredes
deste quarto deserto,
o orvalho da amargura
na flor
de cada sonho
e o leito desmanchado
o peito aberto
a que chamaste
amor.



Carlos de Oliveira


[Poedia]


.

4.12.11

Carlos de Oliveira (Lavoisier)






LAVOISIER





Na poesia,
natureza variável
das palavras,
nada se perde
ou cria,
tudo se transforma:
cada poema,
no seu perfil
incerto
e caligráfico,
já sonha
outra forma.



CARLOS DE OLIVEIRA
Sobre o lado esquerdo
(1968)



[Antonio Cicero]


.

29.8.11

Carlos de Oliveira (Elegia de Coimbra)






ELEGIA DE COIMBRA




Gela a lua de março nos telhados
e à luz adormecida
choram as casas e os homens
nas colinas da vida.

Correm as lágrimas ao rio,
a esse vale das dores passadas,
mas choram as paredes e as almas
outras dores que não foram perdoadas.

Aos que virão depois de mim
caiba em sorte outra herança:
o oiro depositado
nas margens da lembrança.


Carlos de Oliveira


[Poemas da lusofonia]


.

24.7.11

Carlos de Oliveira (Os dias)






OS DIAS




Dias como mendigos procurando
por uma terra vã espigas de nada:
que rosas de miséria colheremos?
que esmolas de luar no pó da estrada?


Fechando as mãos não colho mais que a imagem
da tua sombra, meu amor de trigo:
a bruma desses rios que em segredo
nascem em mim para morrer comigo.


Rios de luz concreta, proibida,
de que meus versos são a simples névoa;
ah, pudesse eu cantar; a vida levo-a
sem te ver bem a esta luz perdida.


Ó doce prisioneira do crepúsculo,
quando virá teu rosto de harmonia
como o fulgor de um astro debruçar-se
na terra dos meus pés, áspera e fria?



Carlos de Oliveira


[Luz & sombra]

.

12.4.10

Carlos de Oliveira (Elegia em chamas)






ELEGIA EM CHAMAS




Arde no lar o fogo antigo
do amor irreparável
e de súbito surge-me o teu rosto
entre chamas e pranto, vulnerável:


Como se os sonhos outra vez morressem
no lume da lembrança
e fosse dos teus olhos sem esperança
que as minhas lágrimas corressem.



CARLOS DE OLIVEIRA
Terra de Harmonia



[O tempo das cerejas]


.

26.6.09

Carlos de Oliveira (Definição)









DEFINIÇÃO





O sal é o mar servido à mesa
nas suas praias domésticas de linho.



Carlos de Oliveira


.


8.5.09

Carlos de Oliveira (Infância)










INFÂNCIA




I

Terra
sem uma gota
de céu.


II

Tão pequenas
a infância, a terra.
Com tão pouco
mistério.

Chamo às estrelas
rosas.

E a terra, a infância,
crescem
no seu jardim
aéreo.


III

Transmutação
do sol em oiro.

Cai em gotas,
das folhas,
a manhã deslumbrada.


IV

Chamo
a cada ramo
de árvore
uma asa.

E as árvores voam.

Mas tornam-se mais fundas
as raízes da casa,
mais densa
a terra sobre a infância.

É o outro lado
da magia.


V

E a nuvem
no céu há tantas horas,
água suspensa
porque eu quis,
desmorona-se e cai.

Caem com ela
as árvores voadoras.


VI

Céu
sem uma gota
de terra.



Carlos de Oliveira


.


17.3.09

Carlos de Oliveira (Provérbio)









PROVÉRBIO




A noite é a nossa dádiva de sol
aos que vivem do outro lado da Terra.



Carlos de Oliveira


.

Antes, aqui: Vento (com sinopse)

.

.

23.1.07

Carlos de Oliveira (Vento)





.



VENTO


.
.
As palavras
cintilam
na floresta do sono
e o seu rumor
de corças perseguidas
ágil e esquivo
como o vento
fala de amor
e solidão:
quem vos ferir
não fere em vão,
palavras.



Carlos de Oliveira