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28.8.21

Sophia de Mello Breyner Andresen (Ir beber-te)




Ir beber-te num navio de altos mastros
no alto mar
ó grande noite alucinada
e pura,
brilhante e escura,
bordada de astros. 

Para ti sobe a minha inquietação e sobressalto,
o meu caos, desilusão e agonia,
pois trazes nos teus dedos
a sombra, o silêncio e os segredos,
a perfeição, a pureza e a harmonia.
 

Sophia de Mello Breyner Andresen

 .

10.9.17

Sophia de Mello Breyner Andresen (Poema de Helena Lanari)





POEMA DE HELENA LANARI



Gosto de ouvir o português do Brasil 
Onde as palavras recuperam sua substância total 
Concretas como frutos nítidas como pássaros 
Gosto de ouvir a palavra com suas sílabas todas
Sem perder sequer um quinto de vogal 

Quando Helena Lanari dizia o "coqueiro "
O coqueiro ficava muito mais vegetal.


Sophia de Mello Breyner Andresen


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30.6.17

Sophia de Mello Breyner Andresen (Homero)





HOMERO



Escrever o poema como um boi lavra o campo
Sem que tropece no metro o pensamento
Sem que nada seja reduzido ou exilado
Sem que nada separe o homem do vivido


Sophia de Mello Breyner Andresen




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9.6.17

Sophia de Mello Breyner Andresen (Espera)





ESPERA                                              



Deito-me tarde
Espero por uma espécie de silêncio
Que nunca chega cedo
Espero a atenção a concentração da hora tardia
Ardente e nua
É então que os espelhos acendem o seu segundo brilho
É então que se vê o desenho do vazio
É então que se vê subitamente
A nossa própria mão poisada sobre a mesa

É então que se vê passar o silêncio

Navegação antiquíssima e solene


SOPHIA MELLO BREYNER ANDRESEN
Geografia
(1967)

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18.1.17

Sophia de Mello Breyner Andresen (Pátria)





PÁTRIA                               



Por um país de pedra e vento duro
Por um país de luz perfeita e clara
Pelo negro da terra e pelo branco do muro

Pelos rostos de silêncio e de paciência
Que a miséria longamente desenhou
Rente aos ossos com toda a exactidão
Dum longo relatório irrecusável

E pelos rostos iguais ao sol e ao vento

E pela limpidez das tão amadas
Palavras sempre ditas com paixão
Pela cor e pelo peso das palavras
Pelo concreto silêncio limpo das palavras
Donde se erguem as coisas nomeadas
Pela nudez das palavras deslumbradas

- Pedra rio vento casa
Pranto dia canto alento
Espaço raiz e água
Ó minha pátria e meu centro

Me dói a lua me soluça o mar
E o exílio se inscreve em pleno tempo



Sophia de Melo Breyner Andresen



27.12.15

Sophia de Mello Breyner Andresen (Terror de te amar)





TERROR DE TE AMAR



Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo.

Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa.

Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.

Para ti eu criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas.


Sophia de Mello Breyner Andresen

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6.8.15

Sophia de Mello Breyner Andresen (Pranto pelo dia de hoje)

 




PRANTO PELO DIA DE HOJE



Nunca choraremos bastante quando vemos
o gesto criador ser impedido

Nunca choraremos bastante quando vemos
que quem ousa lutar é destruído
por troças por insídias por venenos
e por outras maneiras que sabemos
tão sábias tão subtis e tão peritas
que nem podem sequer ser bem descritas


SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN
Livro Sexto
(1962)

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4.8.14

Sophia de Mello Breyner Andresen (Instante)





INSTANTE

               

Deixai-me limpo
O ar dos quartos
E liso
O branco das paredes
Deixai-me com as coisas
Fundadas no silêncio


Sophia de Mello Breyner Andresen

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31.8.12

Sophia de Mello Breyner Andresen (Biografia)





BIOGRAFIA




Tive amigos que morriam, amigos que partiam
Outros quebravam o seu rosto contra o tempo.
Odiei o que era fácil
Procurei-me na luz, no mar, no vento.


Sophia de Melo Breyner Andresen


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24.4.11

Sophia de Mello Breyner Andresen (Porque)







PORQUE




Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não.


Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.


Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.


Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.



SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN
Mar Novo
(1958)

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29.3.11

Sophia de Mello Breyner Andresen (Barcos)





BARCOS


 


Dormem na praia os barcos pescadores
Imóveis mas abrindo
Seus olhos de estátua


E a curva do seu bico
Rói a solidão.



Sophia de Mello Breyner Andresen

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28.1.11

Sophia de Mello Breyner Andresen (Eu me perdi)






Eu me perdi na sordidez de um mundo
Onde era preciso ser
Polícia, agiota, fariseu
Ou cocote


Eu me perdi na sordidez do mundo
Eu me salvei na limpidez da terra


Eu me busquei no vento e me encontrei no mar
E nunca
Um navio da costa se afastou
Sem me levar



Sophia de Mello Breyner Andresen




[My fake plastic love]


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17.1.11

Sophia de Mello Breyner Andresen (Neste dia de mar e nevoeiro)






Neste dia de mar e nevoeiro
É tão próximo o teu rosto


São os longos horizontes
Os ritmos soltos dos ventos
E aquelas aves
Que desde o princípio das estações
Fizeram ninhos e emigraram
Para que num dia inverso tu as visses


Aquelas aves que tinham
uma memória eterna do teu rosto
E voam sempre dentro do teu sonho
Como se o teu olhar as sustentasse




Sophia de Mello Breyner Andresen



[Corte na Aldeia]


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9.11.10

Sophia de Mello Breyner Andresen (As pessoas sensíveis)






AS PESSOAS SENSÍVEIS




As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas


O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
Porque cheira a pobre cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra


«Ganharás o pão com o suor do teu rosto»
Assim nos foi imposto
E não:
«Com o suor dos outros ganharás o pão»


Ó vendilhões do templo
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheiros de devoção e de proveito


Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem



Sophia de Mello Breyner Andresen




[O café dos loucos]


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25.8.10

Sophia de Mello Breyner Andresen (25-Abril)






25-ABRIL





Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo



SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN
O Nome das Coisas
(1977)

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14.7.10

Sophia de Mello Breyner Andresen (Deserto)






DESERTO




Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua


Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.



Sophia de Mello Breyner Andresen

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27.6.10

Sophia de Mello Breyner Andresen (Este é o tempo)






ESTE É O TEMPO




Este é o tempo
Da selva mais obscura


Até o ar azul se tornou grades
E a luz do sol se tornou impura


Esta é a noite
Densa de chacais
Pesada de amargura


Este é o tempo em que os homens renunciam.



SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN
Mar Novo
(1958)


[Ecos e memórias]



>>  É este o meu tempo (Antonio Orihuela)

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22.5.10

Sophia de Mello Breyner Andresen (Exílio)






EXÍLIO



Quando a pátria que temos não a temos
perdida por silêncio e por renúncia
até a voz do mar se torna exílio
e a luz que nos rodeia é como grades



Sophia de Mello Breyner Andresen

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18.4.10

Sophia de Mello Breyner Andresen (Ausência)






AUSÊNCIA




Num deserto sem água
numa noite sem lua
num país sem nome
ou numa terra nua



Por maior que seja o desespero
nenhuma ausência é
mais funda do que a tua



Sophia de Mello Breyner Andresen


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