Mostrar mensagens com a etiqueta Juan Gelman. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Juan Gelman. Mostrar todas as mensagens

30.10.23

Juan Gelman (Chuva)




LLUVIA 

 

hoy llueve mucho, mucho,
y pareciera que están lavando el mundo
mi vecino de al lado mira la lluvia
y piensa escribir una carta de amor/
una carta a la mujer que vive con él
y le cocina y le lava la ropa y hace el amor con él
y se parece a su sombra/
mi vecino nunca le dice palabras de amor a la
mujer/
entra a la casa por la ventana y no por la puerta/
por una puerta se entra a muchos sitios/
al trabajo, al cuartel, a la cárcel,
a todos los edificios del mundo/ pero no al mundo/
ni a una mujer/ni al alma/
es decir/a ese cajón o nave o lluvia que llamamos así/
como hoy/que llueve mucho/
y me cuesta escribir la palabra amor/
porque el amor es una cosa y la palabra amor es otra cosa/
y sólo el alma sabe dónde las dos se encuentran/
y cuándo/y cómo/
pero el alma qué puede explicar/
por eso mi vecino tiene tormentas en la boca/
palabras que naufragan/
palabras que no saben que hay sol porque nacen y
mueren la misma noche en que amó/
y dejan cartas en el pensamiento que él nunca
escribirá/
como el silencio que hay entre dos rosas/
o como yo/que escribo palabras para volver
a mi vecino que mira la lluvia/
a la lluvia/
a mi corazón desterrado/
 

Juan Gelman 

[Carmensabes]

  

Chove muito, hoje, muito,
até parece que estão a lavar o mundo
o meu vizinho do lado olha para a chuva
e pensa em escrever uma carta de amor/
uma carta à mulher que vive com ele
e lhe cozinha e lava a roupa e faz amor
e parece a sombra dele/
o meu vizinho nunca diz palavras de amor
à mulher/
entra em casa pela janela e não pela porta/
por uma porta entra-se em muitos lados/
no trabalho, no quartel, na cadeia,
nos edifícios todos do mundo/ mas não no mundo/
nem numa mulher, tão pouco na alma/
quer dizer/ nessa arca ou nave ou chuva que assim chamamos/
como hoje/que chove muito/
e custa-me escrever a palavra amor/
porque o amor é uma coisa e a palavra amor é outra coisa/
e só a alma sabe onde se encontram as duas/
e quando/ e como/
mas a alma é que pode explicar/
por isso o meu vizinho tem tempestades na boca/
palavras que naufragam/
palavras que não sabem que há sol porque nascem e
morrem na mesma noite em que amou/
e deixam cartas na mente que ele nunca
escreverá/
como o silêncio que há entre duas rosas/
u como eu/ que escrevo palavras para voltar
ao meu vizinho que olha para a chuva/
para a chuva/
para meu coração desterrado/
 

(Trad. A.M.)

 .

19.2.22

Juan Gelman (Eu também escrevo contos)




YO TAMBIÉN ESCRIBO CUENTOS

 

había una vez un poeta portugués
tenía cuatro poetas adentro y vivía muy preocupado
trabajaba en la administración pública y dónde se vio
que un empleado público de portugal
gane para alimentar cuatro bocas 

cada noche pasaba lista a sus poetas incluyéndose a sí mismo
uno estiraba la mano por la ventana y le caían astros allí
otro escribía cartas al sur qué están haciendo del sur
decía

de mi uruguay
decía
el otro se convirtió en un barco que amó a los marineros
esto es bello porque no todos los barcos hacen así
hay barcos que prefieren mirar por el ojo de buey 

hay barcos que se hunden
dios camina afligido por el fenómeno ése
es que no todos los barcos se parecen a los poetas del portugués
salían del mar y se secaban los huesitos al sol 

cantando la canción de tus pechos
amada
cantaban que tus pechos llegaron una tarde con
una escolta de horizontes
eso cantaban los poetas del portugués para decir que te amo
antes de separarse
tender la mano al cielo
escribir cartas al uruguay

que mañana van a llegar
mañana van a llegar las cartas del portugués y barrerán la tristeza
mañana va a llegar el barco del portugués al puerto de montevideo
siempre supo que entraba en ese puerto y se volvía más hermoso 

como los cuatro poetas del portugués cuando se preocupaban
todos juntos por el hombre de la tabaquería de enfrente
el animal de sueños del hombre de la tabaquería de enfrente
galopando con como josé gervasio de artigas por el hambre mundial

el portugués tenía cuatro poetas mirando al sur
al norte
al muro
al cielo les daba a todos de comer con el sueldo del alma
él se ganaba el sueldo en la administración del país público
y también mirando el mar que va de lisboa al uruguay
Yo siempre estoy olvidando cosas
una vez me olvidé un ojo en la mitad de una mujer
otra vez me olvidé una mujer en la mitad de portugués
me olvidé el nombre del poeta portugués

de lo que no me olvido es de su barco navegando hacia el sur
de su manita llena de astros
golpeando contra la furia del mundo
con el hombre de enfrente en la mano.

Juan Gelman



Era uma vez um poeta português /
tinha quatro poetas lá dentro e vivia muito preocupado /
trabalhava na administração pública e onde
é que se viu um funcionário público de portugal ganhar para alimentar
[quatro bocas /

todas as noites fazia a chamada aos seus poetas incluindo-se a si mesmo
um estendia a mão pela janela e caíam-lhe astros /
outro escrevia cartas ao sul /
que estão a fazer do sul / dizia ele / 

do meu uruguai / dizia / o outro
transformou-se num barco que amou os marinheiros /
isto é belo porque nem todos os barcos fazem isso /
há barcos que preferem espreitar pela vigia / 

há barcos que se afundam /
Deus caminha aflito com um fenômeno assim /
é que nem todos os barcos se parecem com os poetas do português /
saíam do mar e secavam os ossinhos ao sol / 

cantando a canção dos teus seios / amada /
cantavam que os teus seios chegaram uma tarde com um cortejo
[de horizontes
assim cantavam os poetas do português para dizer que te amo /
antes de se deixarem / estenderem a mão para o céu / escreverem cartas
[ao uruguai

que vão chegar amanhã /
amanhã vão chegar as cartas do português e varrerão a tristeza /
amanhã vai chegar o barco do português ao porto de montevideu /
sempre soube que entraria nesse porto e ficaria mais belo / 

como os quatro poetas do português
quando juntos se preocupavam com o homem da tabacaria da frente /
o animal de sonhos do homem da tabacaria da frente /
galopando como don josé gervasio de artigas através da fome no mundo/ 

o português tinha quatro poetas a olhar para o sul / para o norte / para
[o muro / para o céu
a todos dava de comer com o salário da alma /
ganhava o ordenado na administração do país público /
e também a olhar para o mar que vai de lisboa ao uruguai / 

estou sempre a esquecer-me de coisas /
uma vez esqueci-me de um olho na metade de uma mulher
de outra esqueci-me de uma mulher na metade do português /
esqueci-me do nome do poeta português / 

do que não me esqueço é do seu barco rumo ao sul /
da sua mãozinha cheia de astros /
investindo contra a fúria do mundo / com
o homem da frente na mão


(Trad. rev. A.L. Amaral)

 

[Canal de poesia]

 .


26.2.21

Juan Gelman (Opinião)



OPINIÓN


Los poemas escritos en
estado de frialdad tienen
una ventaja: están escritos
en estado de frialdad. El odio
del vecino no entra ahí, ni el vecino
atado a su odio y
se puede alabar las bellezas del paisaje.
Alabar es una palabra rara, lleva
del ala al bar donde
el estaño está mudo.
Los poemas sin sangre
tienen una ventaja:
no tienen sangre, ni
sacudones mortales o inmortales, ni
la imperfección, la suciedad
de todos. Eso cae y nada
perturba a la tierra.
A los poetas que practican esa visión y
sin duda escriben hermosos poemas,
habría que levantarles una estatua
ciega que no se vea.
Es bello su no estar.
Todo está bien afuera
de todo lo que está mal, intocado y
lejos de la escritura, lejos,
en un canto bajito.

Juan Gelman





Os poemas escritos em
estado de frialdade têm 
uma vantagem, ser escritos
em estado de frialdade. O ódio
do vizinho não entra aí, nem o vizinho
amarrado ao seu ódio e
podem alabar-se as belezas da paisagem.
Palavra estranha, alabar, vai
da ala ao bar, onde
o estanho é mudo.
Os poemas sem sangue
têm uma vantagem,
não têm sangue, nem
abanões mortais ou imortais, nem
a imperfeição ou a sujidade
dos outros. Isso cai e nada
perturba a terra.
Os poetas que praticam essa visão e
escrevem sem dúvida belos poemas
deviam ter uma estátua
cega que não se visse.
É belo seu não estar.
Tudo está bem fora 
tudo o que está mal, intocado
e longe da escrita, longe,
num canto baixinho.

(Trad. A.M.)



26.4.19

Juan Gelman (A chave do gás)




LA LLAVE DEL GAS



La mujer del poeta está
condenada a leer o a escuchar los
versos del poeta que humean
recién sacados del alma. Y más:
la mujer del poeta
está condenada al poeta, a ése
que nunca sabe dónde
está la llave del gas y finge
que pregunta para saber
cuando sólo le importa preguntar
lo que no tiene respuesta.


Juan Gelman

[Apología de la luz]




A mulher do poeta está
condenada a ler ou escutar os
versos do poeta, mal arrancados
da alma, ainda a fumegar. Mais,
a mulher do poeta
está condenada ao poeta, esse tal
que nunca sabe onde está
a chave do gás e finge
que pergunta para saber,
quando lhe importa só perguntar
o que resposta não tem.

(Trad. A.M.)


> Outra versão: Do trapézio (L.P.)


12.8.17

Juan Gelman (Regressos)





REGRESOS



Así que has vuelto.
Como si hubiera pasado nada.
Como si el campo de concentración, no.
Como si hace 23 años
que no escucho tu voz ni te veo.
Han vuelto el oso verde, tu
sobretodo larguísimo y yo
padre de entonces.
Hemos vuelto a tu hijear(*) incesante
en estos hierros que nunca terminan.
¿Ya nunca cesarán?
Ya nunca cesarás de cesar.
Vuelves y vuelves
y te tengo que explicar que estás muerto.


Juan Gelman




Com que então, voltaste.
Como se nada se passara.
Como se o campo de concentração, não.
Como se há 23 anos
que eu não te ouço nem te vejo.
Voltaram o urso verde, o teu
sobretudo longuíssimo e eu
pai de então.
Voltamos ao teu filhar incessante
nestes ferros que nunca acabam.
Nunca já cessarão?
Nunca já cessarás de cessar.
Voltas e voltas a voltar
e eu tenho que te explicar que estás
morto.

(Trad. A.M.)

________________


(*) Corrigido ‘hijar’ (que não existe) para ‘hijear’ (deitar filhos ou rebentos>filhar).

.

10.11.16

Juan Gelman (Mulheres)





MULHERES



dizer que essa mulher era duas mulheres é muito pouco
devia haver nela para aí 12.397 mulheres
sendo difícil saber com quem se lidava no meio dessa multidão de mulheres
exemplo:

jazíamos num leito de amor
ela era uma aurora de algas fosforescentes
vou para abraçá-la e ela converte-se numa Singapura
cheia de cães a uivar

recordo quando apareceu envolta em rosas de agadir
parecia uma constelação na terra
parecia que o cruzeiro do sul tinha descido à terra
essa mulher brilhava como a lua de sua voz direita

como o sol a pôr-se na sua voz
estavam escritos nas rosas os nomes todos dessa mulher menos um
e quando ela se virou
a nuca dela era o plano económico
com milhares de números, além da balança de mortes a favor da ditadura militar
a gente nunca sabia onde essa mulher ia parar
e eu uma noite um pouco desconcertado
bati-lhe no ombro para ver quem era
e nos seus olhos desertos vi um camelo

às vezes
essa mulher era a banda de música da minha terra
tocava umas valsas até o trombone começar a desafinar
e os outros desafinavam com ele
essa mulher até a memória tinha desafinada

podia-se amá-la até ao delírio
fazer-lhe crescer dias do sexo tremente
fazê-la voar como passarinho de lençol
dia seguinte acordava a falar de malevich

a memória trabalhava-lhe como um relógio com raiva
às três da tarde lembrava-se da mula da infância
uma noite do ser melava muito essa mulher e
então devoraram-na os fantasmas nutridos pelos seus milhares de mulheres
passando uma banda desafinada
a raspar-se pelas sombras da pracita da minha terra

eu companheiros uma noite destas
em que a cara se nos empapa quase à beira de morrer
montei no camelito que me esperava nos seus olhos
e desandei das costas dessa mulher
calado como um menino perseguido por abutres
que tudo me comem menos o pensamento
de quando ela se dobrava como um ramo de doçura
e o arremessava à flor da tarde.


Juan Gelman


(Trad. A.M.)

.

17.4.16

Juan Gelman (O cachorro)





EL PERRO



El poema no pide de comer. Come
los pobres platos que
gente sin vergüenza o pudor
le sirve en medio de la noche.
La palabra divina ya no existe.
¿Qué puede
hacer el poema, sino
contentarse con lo que le dan?
Después aullará por ahí
sin respuesta, será
otro perro perdido
en la ciudad impiadosa.

Juan Gelman




O poema não pede de comer. Come
os pobres pratos que
gente sem vergonha ou pudor
lhe serve a meio da noite.
A palavra divina já não existe.
O que pode
fazer o poema, senão
contentar-se com o que lhe dão?
Depois uivará por aí
sem resposta, será
mais um cachorro perdido
na cidade impiedosa.

(Trad. A.M.)

.

25.8.15

Juan Gelman (Coisa estranha)





ASUNTO RARO



Viendo a la gente andar, ponerse el traje
el vestido, la piel y la sonrisa
comer sobre los platos dulcemente
afanarse, correr, sufrir, dolerse
todo por un poquito de pan y de alegría,
viendo a la gente, digo, no hay derecho
a castigarle el hueso y la esperanza,
a ensuciarle los cantos, a oscurecerle el día,
viendo, sí,
cómo la gente llora en los rincones
más oscuros del alma y sin embargo
sabe reír y andar derecho,
viendo a la gente, bueno, viéndola
tener hijos y esperar y siempre
creer que van a mejorar las cosas
y viéndola pelear por sus riñones,
digo gente,
qué hermoso andar contigo
a descubrir la fuente de lo nuevo,
a arrancar la felicidad,
a traer el futuro sobre el lomo, hablar
familiarmente con el tiempo y saber
que acabaremos y de una buena vez por ser dichosos,
qué hermoso, digo gente, qué misterio
vivir tan castigado
y cantar y reír
¡qué asunto raro!

Juan Gelman

[Miradas]




Vendo as pessoas passar, pôr fato
ou vestido, a pele e o sorriso
comer à mesa suavemente
afadigar-se, correr, sofrer ou dorir-se
tudo por um pouco de pão e alegria,
vendo as pessoas, dizia, não há direito
de lhes castigar o corpo e a esperança,
sujar-lhes os cantos e escurecer o dia,
vendo, sim,
como choram nos recantos
mais escuros da alma e todavia
sabem rir e andar direito,
vendo as pessoas, bem, vendo-as
ter filhos e esperar e crer
sempre que as coisas vão melhorar,
e vendo-as a batalhar pelo seu,
eu digo minha gente,
que belo andar convosco
e descobrir a fonte da novidade,
e perseguir a felicidade,
e carregar o futuro nas costas, falar
com o tempo familiarmente e saber
que acabaremos duma vez por ser felizes,
que belo, digo gente, que mistério
viver tão castigados
e cantar e rir
- que coisa estranha!

(Trad. A.M.)

.

27.6.14

Juan Gelman (Arte poética)





ARTE POÉTICA



Entre tantos oficios ejerzo éste que no es mío,
como un amo implacable
me obliga a trabajar de día, de noche,
con dolor, con amor,
bajo la lluvia, en la catástrofe,
cuando se abren los brazos de la ternura o del alma,
cuando la enfermedad hunde las manos.

A este oficio me obligan los dolores ajenos,
las lágrimas, los pañuelos saludadores,
las promesas en medio del otoño o del fuego,
los besos del encuentro, los besos del adiós,
todo me obliga a trabajar con las palabras, con la sangre.

Nunca fui el dueño de mis cenizas, mis versos,
rostros oscuros los escriben como tirar contra la muerte.

Juan Gelman

[Jorge Ampuero]




Entre tantos ofícios exerço este que não é meu,
que me obriga, como amo implacável,
a trabalhar de dia, de noite,
com dores, com amor,
debaixo de chuva, no meio da desgraça,
quando se abrem os braços da alma ou da ternura,
ou quando a doença mergulha as suas mãos.

A este ofício me obriga a dor alheia,
as lágrimas, os lenços de acenar,
as promessas a meio do Outono ou da fogueira,
os beijos do encontro, os do adeus,
tudo me obriga a laborar com o sangue, as palavras.

Nunca fui o dono da cinza, meus versos,
obscuras caras os escrevem, contra a morte.

(Trad. A.M.)

.

11.8.12

Juan Gelman (O jogo em que andamos)





EL JUEGO EN QUE ANDAMOS




Si me dieran a elegir, yo elegiría
esta salud de saber que estamos muy enfermos,
esta dicha de andar tan infelices.

Si me dieran a elegir, yo elegiría
esta inocencia de no ser un inocente,
esta pureza en que ando por impuro.

Si me dieran a elegir, yo elegiría
este amor con que odio,
esta esperanza que come panes desesperados.

Aquí pasa, señores,
que me juego la muerte.


Juan Gelman






Se me dessem a escolher, eu escolheria
esta saúde de saber que estamos muito enfermos,
esta ventura de andarmos tão infelizes.

Se me dessem a escolher, eu escolheria
esta inocência de não ser inocente,
esta pureza em que ando por impuro.

Se me dessem a escolher, eu escolheria
este amor com que odeio,
esta esperança que pão come desesperado.

É assim, meus senhores,
eu cá jogo a morte.


(Trad. A.M.)



>  Outras versões:  Do trapézio (L.P.) / Cesarcar (E.Nepomuceno)


.

17.12.11

Juan Gelman (Toda a poesia é hostil ao capitalismo)






toda poesía es hostil al capitalismo
puede volverse seca y dura pero no
porque sea pobre sino
para no contribuir a la riqueza oficial


puede ser su manera de protestar de
volverse flaca ya que hay hambre
amarilla de sed y penosa
de puro dolor que hay puede ser que


en cambio abra los callejones del delirio y las bestias
canten atropellándose vivas de
furia de calor sin destino puede
ser que se niegue a sí misma como otra


manera de vencer a la muerte
así como se llora en los velorios
poetas de hoy
poetas de este tiempo


nos separaron de la grey no sé que será de nosotros
conservadores comunistas apolíticos cuando
suceda lo que sucederá pero
toda poesía es hostil al capitalismo



Juan Gelman






toda a poesia é hostil ao capitalismo
pode tornar-se dura e seca
não por ser pobre mas
para não ajudar à riqueza oficial


pode ser o seu modo de protestar de
tornar-se fraca já que existe fome
amarela de sede e queixosa
da pura dor que existe pode


em troca abrir os becos do delírio e as bestas
cantarem atropelando-se vivas de
fúria de calor sem destino pode
até negar-se a si mesma enquanto outra


maneira de vencer a morte
tal como chorar nos velórios
poetas de hoje
poetas deste tempo


apartaram-nos da grei sei lá o que será de nós
conservadores comunistas apolíticos quando
suceder o que há-de suceder mas
toda a poesia é hostil ao capitalismo




(Trad. A.M.)


.

21.7.11

Juan Gelman (Factos)






HECHOS





mientras el dictador o burócrata de turno hablaba
en defensa del desorden constituido del régimen
él tomó un endecasílabo o verso nacido del encuentro
entre una piedra y un fulgor de otoño


afuera seguía la lucha de clases/el
capitalismo brutal/el duro trabajo/la estupidez/
la represión/la muerte/las sirenas policiales cortando
la noche/él tomó el endecasílabo y


con mano hábil lo abrió en dos cargando
de un lado más belleza y más
belleza del otro/cerró el endecasílabo/puso
el dedo en la palabra inicial/apretó


la palabra inicial apuntando al dictador o burócrata
salió el endecasílabo/siguió el discurso/siguió
la lucha de clases/el
capitalismo brutal/el duro trabajo/la estupidez/la represión/
la muerte/las sirenas policiales cortando la noche


este hecho explica que ningún endecasílabo derribó hasta ahora
a ningún dictador o burócrata aunque
sea un pequeño dictador o un pequeño burócrata/y también explica que
un verso puede nacer del encuentro entre una piedra y un fulgor de otoño o


del encuentro entre la lluvia y un barco y de
otros encuentros que nadie sabría predecir/o sea
los nacimientos/ casamientos/ los
disparos de la belleza incesante



Juan Gelman





enquanto o ditador ou burocrata de turno falava
em defesa da desordem constituída do regime
ele tomou um endecassílabo ou verso nascido do encontro
entre uma pedra e um fulgor de outono


fora continuava a luta de classes/o
capitalismo brutal/o trabalho duro/a estupidez/
a repressão/a morte/as sirenes da polícia cortando
a noite/ele tomou o endecassílabo e


com mão hábil abriu-o em dois carregando
dum lado mais beleza e mais
beleza do outro/fechou o endecassílabo/pôs
o dedo na palavra inicial/apertou


a palavra inicial apontando ao ditador ou burocrata
o endecassílabo saiu/continuou o discurso/
a luta de classes/o
capitalismo brutal/o trabalho duro/a estupidez/a repressão/
a morte/as sirenes da polícia cortando a noite


este facto explica que nenhum endecassílabo derrubou até agora
qualquer ditador ou burocrata mesmo
um pequeno ditador ou um pequeno burocrata/e explica também que
um verso pode nascer do encontro duma pedra com um fulgor de outono ou


do encontro entre a chuva e um barco e de
outros encontros que não se podem prever/isto é
os nascimentos/ casamentos/ os
disparos da incessante beleza



(Trad. A.M.)

.

9.1.11

Juan Gelman (Sobre a poesia)






SOBRE LA POESÍA



habría un par de cosas que decir/
que nadie lee mucho/
que esos nadie son pocos/
que todo el mundo está con el asunto de la crisis mundial/ y


con el asunto de comer cada día/se trata
de un asunto importante/ recuerdo
cuando murió de hambre el tío juan/
decía que ni se acordaba de comer y que no había problema/


pero el problema fue después/
no había plata para el cajón/
y cuando finalmente pasó el camión municipal a llevárselo
el tío juan parecía un pajarito/


los de la municipalidad lo miraron con desprecio o desdén/
murmuraban
que siempre los están molestando/
que ellos eran hombres y enterraban hombres/ y no
pajaritos como el tío juan/ especialmente


porque el tío estuvo cantando pío-pío todo el viaje
hasta el crematorio municipal/
y a ellos les pareció un irrespeto y estaban muy ofendidos/
y cuando le daban un palmetazo para que se callara la boca/
el pío-pío volaba por la cabina del camión y ellos sentían que
les hacía pío-pío en la cabeza/el
tío juan era así/ le gustaba cantar/
y no veía por qué la muerte era motivo para no cantar/
entró al horno cantando pío-pío/salieron sus cenizas y piaron un rato/
y los compañeros municipales se miraron los zapatos grises de vergüenza/pero


volviendo a la poesía/
los poetas ahora la pasan bastante mal/
nadie los lee mucho/esos nadie son pocos/
el oficio perdió prestigio/para un poeta es cada día más difícil


conseguir el amor de una muchacha/
ser candidato a presidente/que algún almacenero le fíe/
que un guerrero haga hazañas para que él las cante/
que un rey le pague cada verso con tres monedas de oro/


y nadie sabe si eso ocurre porque se terminaron
las muchachas/los almaceneros/los guerreros/los reyes/
o simplemente los poetas/
o pasaron las dos cosas y es inútil
romperse la cabeza pensando en la cuestión/


lo lindo es saber que uno puede cantar pío-pío
en las más raras circunstancias/
tío juan después de muerto/yo ahora
para que me quierás



Juan Gelman



[Apologia de la luz]






havia umas quantas coisas a dizer/
que ninguém lê muito/
que esses ninguém são poucos/
que todo o mundo está no assunto da crise mundial/ e


no assunto de comer cada dia/ trata-se
de um assunto importante/ recordo
quando morreu de fome o tio juan/
dizia que nem se lembrava de comer, que não havia problema/


mas o problema foi a seguir/
não havia dinheiro para o caixão/
e quando passou finalmente o camião municipal para o levar
o tio juan parecia um passarinho/


os do município olharam para ele com desprezo ou desdém/
murmuravam
que estão sempre a incomodá-los/
que sendo eles homens enterravam homens/ e não
passarinhos como o tio juan/ especialmente


porque o falecido foi a cantar piu-piu toda a viagem
até ao crematório/
o que a eles pareceu uma falta de respeito, estavam muito ofendidos/
e quando lhe davam uma palmada para calar a boca/
o piu-piu voava pela cabina do camião e eles sentiam que
a cabeça lhes fazia piu-piu/ o
tio juan era assim/ gostava de cantar/
e não via por que seria a morte motivo para não cantar/
entrou pelo forno a cantar piu-piu/ as cinzas ao sair ainda piaram um bocado/
e os do município a olhar para os sapatos com vergonha/ mas


voltando à poesia/
os poetas agora estão passando bastante mal/
ninguém os lê muito/ são poucos esses ninguém/
o ofício perdeu prestígio / e para um poeta é cada dia mais difícil


conseguir o amor de uma donzela/
candidatar-se a presidente/ comprar fiado no armazém/
arranjar um guerreiro para lhe cantar as façanhas/
ou pagar-lhe o rei cada verso a três vinténs/


e ninguém sabe se tal acontece porque acabaram
as donzelas/ os armazéns / os guerreiros/ os reis/
ou simplesmente os poetas/
ou então isso tudo e não adianta
quebrar a cabeça a pensar no assunto/


bonito é saber que a gente pode cantar piu-piu
nas mais estranhas circunstâncias/
tio juan por exemplo depois de morto/ ou eu agora
aqui para que me queiram



(Trad. A.M.)

.

24.8.10

Juan Gelman (Todo dia vivi com tua ausência)






TODO EL DÍA VIVÍ CON TU AUSENCIA





todo el día viví con tu ausencia mejor dicho
todo el día viví de tu ausencia ya que los
terremotos
otros desastres internacionales
no me distrajeron de ti


yo soy un hombre mundial me interesa
la revolución en Pakistán la falta
de revolución en el Yorkshire donde
una vez vi que lloraban
de hambre o de rabia nomás


¿cómo es posible entonces que
entre las tempestades o sus calmas
que vienen a ser lo mismo desde
cierto punto de vista yo


no haya olvidado tu valor la
suave apariencia que adquirís y todo
sea como tu olor después de haber amado
antes de haber amado sea como tu olor?



Juan Gelman







todo o dia vivi com tua ausência melhor dizendo
todo o dia vivi da tua ausência já que os
terramotos
e outros desastres internacionais
não me distraíram de ti


eu sou um homem do mundo interessa-me
a revolução no Paquistão a falta
de revolução no Yorkshire onde
vi uma vez gente a chorar
de fome ou de raiva nem mais


como é então possível
entre as tempestades ou calmarias
que vêm a dar no mesmo em
certo ponto de vista eu


não esquecer a tua firmeza
a aparência suave que tens
e tudo ser como o teu cheiro depois de amar
em vez de amar ser como o teu cheiro?


(Trad. A.M.)

.

31.3.10

Juan Gelman (Mi Buenos Aires querido)






MI BUENOS AIRES QUERIDO




Sentado al borde de una silla desfondada,
mareado, enfermo, casi vivo,
escribo versos previamente llorados
por la ciudad donde nací.
Hay que atraparlos, también aquí
nacieron hijos dulces míos
que entre tanto castigo te endulzan bellamente.
Hay que aprender a resistir.


Ni a irse ni a quedarse,
a resistir,
aunque es seguro
que habrá más penas y olvido.



Juan Gelman







Sentado na borda de uma cadeira sem tampo,
enjoado, doente, vivo por pouco,
escrevo versos previamente chorados
pela cidade onde nasci.
Tenho de segurá-los, também aqui
nasceram doces filhos meus
que me adoçam belamente no meio de tanto castigo.
É preciso aprender a resistir.


Não a partir nem a ficar,
mas a resistir,
embora seja seguro
que hão-de vir mais penas e olvido.



(Trad. A.M.)

.

12.2.09

Juan Gelman (Claro que morrerei)




.
.
CLARO QUE MORIRÉ




claro que moriré y me llevarán
en huesos o cenizas
y que dirán palabras y cenizas
y yo habré muerto totalmente


claro que esto se acabará
mis manos alimentadas por tus manos
se pensarán de nuevo
en la humedad de la tierra


yo no quiero cajón
ni ropa


que el barro asuma mi cabeza
que sus orines me devoren
ahora
desnudo de ti



Juan Gelman







claro que morrerei e hão-de levar-me
em ossos ou cinzas
e dirão palavras e cinzas
e eu hei-de morrer totalmente


claro que isto acabará
minhas mãos pelas tuas alimentadas
hão-de pensar-se de novo
na humidade da terra


eu cá não quero caixão
nem roupa


que o barro aceite minha cabeça
e que os bichos me devorem
agora
despido de ti



(Trad. A.M.)
.
.

10.12.08

Juan Gelman (Mujeres)










MUJERES





decir que esa mujer era dos mujeres es decir poquito
debía tener unas 12.397 mujeres en su mujer
era difícil saber con quién trataba uno en ese pueblo de mujeres
ejemplo:


yacíamos en un lecho de amor
ella era un alba de algas fosforescentes
cuando la fui a abrazar se convirtió en Singapur
llena de perros que aullaban


recuerdo cuando se apareció envuelta en rosas de agadir
parecía una constelación en la tierra
parecía que la cruz del sur había bajado a la tierra
esa mujer brillaba como la luna de su voz derecha


como el sol que se ponía en su voz
en las rosas estaban escritos todos los nombres de esa mujer menos uno
y cuando se dio vuelta
su nuca era el plan económico
tenía miles de cifras y la balanza de muertes favorables a la dictadura militar
nunca sabía uno adónde iba a parar esa mujer
yo estaba ligeramente desconcertado
una noche le golpié el hombro para ver con quién era y vi en sus
ojos desiertos un camello


a veces
esa mujer era la banda municipal de mi pueblo
tocaba dulces valses hasta que el trombón empezaba a desafinar
y los demás desafinaban con él
esa mujer tenía la memoria desafinada


usté podía amarla hasta el delirio
hacerle crecer días del sexo tembloroso
hacerla volar como pajarito de sábana
al día siguiente se despertaba hablando de malevich


la memoria le andaba como un reloj con rabia
a las tres de la tarde se acordaba del mulo que le pateó la infancia
una noche del ser ellaba mucho esa mujer y
la devoraron todos los fantasmas que pudo alimentar con sus miles de mujeres
y era una banda municipal desafinada
yéndose por las sombras de la placita de mi pueblo


yo compañeros una noche como ésta
que nos empapan los rostros que a lo mejor morimos
monté en el camellito que esperaba en sus ojos
y me fui de las costas tibias de esa mujer


callado como un niño bajo los gordos buitres que me comen de todo
menos el pensamiento de cuando ella se unía como un ramo de dulzura
y lo tiraba en la tarde



Juan Gelman


Fontes: Poesi.as (104p) / Sololiteratura (90p) / A media voz (36p) / Wikipedia / La Bitácora de Gelman (blogue pessoal)
.
.
.
.