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5.3.19
5.7.18
Albano Martins (Chão de larvas)
CHÃO DE LARVAS
Devolvo
à nascente o fluxo, ao mar a indomável
surpresa da corrente
Posso
agora olhar
ileso os poros, repousar
a cabeça entre os líquenes - substância
minha austera, meu
chão de larvas e fadiga.
Albano Martins
[Insonia]
.
27.8.15
Albano Martins (Ainda te falta dizer isto)
Ainda te falta
dizer isto: que nem tudo
o que veio
chegou por acaso. Que há
flores que de ti
dependem, que foste
tu que deixaste
algumas lâmpadas
acesas. Que há
na brancura
do papel alguns
sinais de tinta
indecifráveis. E
que esse
é apenas
um dos capítulos do livro
em que tudo
se lê e nada
está escrito.
Albano Martins
[Gato pingado]
.
10.6.15
Albano Martins (Escrito a vermelho)
ESCRITO A VERMELHO
Também ainda não disseste
(e é bom que o faças antes que anoiteça)
que foi ao serviço duma causa que vieste.
Não lhe dirás o nome, nem é preciso, julgo eu.
Basta que se saiba que foi com sangue que
sempre o escreveste. E bastará, por isso, que
leiam os teus versos. Porque em todos eles está
escrito a vermelho.
Albano Martins
.
10.2.15
Albano Martins (Entre a flor e o perfume)
Entre a flor
e o perfume
não há divórcio.
Entre ontem
e hoje
não há intervalo.
Entre o sono e o sonho
é mudo
o diálogo.
Entre o êxito
e o fracasso
a distância é um degrau.
Albano Martins
.
25.8.14
Albano Martins (Geografia sentimental)
GEOGRAFIA SENTIMENTAL
Pertenço a esta
geografia, ao lume branco
da resina, ao gume
do arado. A minha casa
é esta: um leito
de estevas e uma rosa
de caruma abrindo
no tecto do orvalho.
Albano Martins
[Pátria Pequena]
.
14.3.14
Albano Martins (Se o tempo)
Se o tempo
fosse
uma flor, o seu
perfume
seria
esta luz
escorrendo
pelas escarpas
do dia.
Albano Martins
[Luz & sombra]
.
22.11.13
Albano Martins (Talvez)
TALVEZ
Sim, dizias tu, mas em seguida
corrigiste: talvez. Esta
é a única palavra
que não tem casa. Que mora
no intervalo
entre o som e o silêncio.
Albano Martins
[E um lugar ao sul]
.
12.9.13
Albano Martins (As palavras do pai)
AS PALAVRAS DO PAI
Olha, meu filho, esta
é a árvore
da vida. Crescerás
com ela. Às vezes
nos seus ombros colherás
lágrimas em lugar
de frutos, mas
é nos ramos mais altos
que o sonho
mora e a liberdade
floresce.
Albano Martins
[Luz & sombra]
.
5.5.13
Albano Martins (Quase marinha)
QUASE MARINHA
Desta luz, mais branca
do que o branco - ou
do que o leite, como diria Safo -
o que pode dizer-se
é isto: um dia
o céu
acordou sem nuvens e a linha
do horizonte, de tão fresca
e tão nítida
e tão próxima, era o parapeito
onde a infância vivia
debruçada. E era
ali que o voo
das gaivotas começava.
Albano Martins
.
2.2.12
Albano Martins (Ânfora)
ÂNFORA
Regressas às vezes, quando é noite, ao lugar
onde sempre te demoras.
Levas ao ombro uma ânfora a que sorveste os
sumos dia-a-dia nela derramados: água e vinho,
o leite das amoras e dos figos, o licor almiscarado
das cerejas e das ginjas. E a sede, essa substância
de todas a mais viva.
Queres agora encher novamente o vaso.
A água e o vinho secaram na haste e na fonte,
a ânfora está quebrada e os dedos já não seguram
sequer os cacos que apenas sobrevivem.
Albano Martins
[Sons da Escrita]
.
7.12.11
Albano Martins (Pequenas coisas)
PEQUENAS COISAS
Falar do trigo e não dizer o joio.
Percorrer em voo raso os campos
sem pousar os pés no chão.
Abrir um fruto e sentir no ar
o cheiro a alfazema .
Pequenas coisas, dirás,
que nada significam perante esta outra,
maior: dizer o indizível.
Ou esta: entrar sem bússola na floresta
e não perder o rumo.
Ou essa outra, maior que todas
e cujo nome por precaução omites.
Que é preciso, às vezes,
não acordar o silêncio.
Albano Martins
[Sons da Escrita]
.
15.1.11
Albano Martins (Cedo ou tarde)
CEDO OU TARDE
Devias saber
que é sempre tarde
que se nasce, que é
sempre cedo
que se morre. E devias
saber também
que a nenhuma árvore
é lícito escolher
o ramo onde as aves
fazem ninho e as flores
procriam.
Albano Martins
.
17.11.10
Albano Martins (Assim são as algas)
ASSIM SÃO AS ALGAS
Das palavras
que aprendeste
só uma
não tem tradução.
Quando traduzes
o amor, tu sabes
que é já outro o seu nome.
Assim são as algas
quando apodrecem.
ALBANO MARTINS
Escrito a Vermelho
(1999)
[Luz & sombra]
.
1.10.10
Albano Martins (Entardecer na Praia da Luz)
ENTARDECER NA PRAIA DA LUZ
Espreguiçados, os ramos
das palmeiras filtram
a luz que sobra
do dia. É já noite
nas folhas. O branco
das paredes recolhe
o sangue e o vinho
das buganvílias
e hibiscos. Bebe-os
de um trago: saberás
que, mais do que cegueira, a noite
é uma embriaguez perfeita.
ALBANO MARTINS
Castália e Outros Poemas
Campo das Letras
(2001)
[Hospedaria Camões]
.
1.8.10
Albano Martins (O beijo de Gustav Klimt)
O BEIJO DE GUSTAV KLIMT
O beijo é só uma palavra
escolhida
ao acaso. O que as tintas
encobrem e descobrem
e os pincéis revelam,
mas não nomeiam,
é a ordem
que se pressente em todas
as nebulosas. Que sempre
a ordem precede
a desordem. E essa
é uma das leis
indeclináveis
do amor. A sua regra
de ouro, que não admite
excepções.
Albano Martins
.
9.1.09
19.12.08
21.3.08
Albano Martins (Entras)
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