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25.7.15

Ana Blandiana (Para além de mim)





PARA ALÉM DE MIM



Não existe para além de mim, a dor,
está encerrada nos confins do meu corpo,
um íman que a absorveu do mundo.
Privatizei a dor, dir-se-ia,
e agora, à minha volta, há um vazio luminoso,
uma como auréola impermeável
isolando o tumor
de que sei apenas que sou eu mesma.
Mas tão pouco sei nada sobre mim.


Ana Blandiana

(Trad. A.M.)

.

19.5.11

Ana Blandiana (Sem saber)






SEM SABER




Evidentemente não sou
como esses fiandeiros de palavras
que fazem as roupas e as corridas de agulha,
as glórias, os orgulhos,
apesar de me mover no meio deles
e eles me olharem as palavras como se fossem malhas
– “Que bem posta que vais!”, dizem-me,
– “Que bem que te fica o poema!”
sem saber
que os poemas não são o meu vestido,
mas o esqueleto
extraído com dor
e posto por cima da carne como uma carapaça,
tal como as tartarugas,
que assim sobrevivem
séculos
longos e infelizes.






(Trad. A.M.)


.

6.7.10

Ana Blandiana (Sobre o país donde vimos)






Vamos, falemos
do país donde vimos.
Eu venho do Verão,
uma pátria frágil
que qualquer folha,
ao cair, pode bem extinguir.
E o céu é tão cheio de estrelas
que às vezes pendem até ao chão,
e tu, aproximando-te, podes ouvir a erva
a fazer cócegas às estrelas que riem,
e são tantas as flores
que os olhos doem
deslumbrados pelo sol,
e redondos sóis pendem
de cada árvore;
Donde eu venho
falta apenas a morte
e é tanta a felicidade
que até dá para dormir.



(Trad. A.M.)




[Noctambulario]



.

17.6.09

Ana Blandiana (Devíamos)









DEVÍAMOS





Devíamos nascer velhos,
despertos, capazes de decidir
nosso destino na Terra,
saber que caminho tomar
desde a primeira encruzilhada
e que irresponsável fosse apenas
o desejo de ir mais longe.
Depois, pormo-nos a caminhar,
cada vez mais jovens,
alcançar maduros e fortes
as portas da criação,
atravessá-las e entrar apaixonados
na adolescência,
sendo crianças quando nos nascessem os filhos.
Estes seriam assim sempre mais velhos que nós,
ensinando-nos a falar
e embalando-nos para dormir,
desapareceríamos pouco a pouco,
cada vez mais pequenos,
como um grãozinho de uva, de ervilha ou de trigo...



Ana Blandiana


(Trad. A.M.)



[Noctambulario]





Fontes: Wikipedia / Romanian Voice (antologia) / Jornal de Poesia (entrevista)