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21.1.26

Domingos da Mota (Rumo)




RUMOR                             

       (a Eugênio de Andrade)

Servias o silêncio
decantado num
cálice de luz,
sílaba a sílaba:

rumor quase
nu, agasalhado
com duas, três
palavras em

surdina: breves
como as aves: livres,
roucas desceram por aí
a debicar: poisaram

nos meus olhos
e na boca:
mas prestes a subir
e a voar.


Domingos da Mota

[Acontecimentos]

 .

12.8.25

Julia Bellido (Sobre a palavra)






SOBRE LA PALABRA                               

 

La palabra es un fuego
que quema la garganta
cuando muere en los lábios
o deja de escribirse. 

Cuando nadie la escucha también quema. 

Es un hierro candente en las entrañas,
que lo calcina todo. 

Pero es lo único que tengo. 

No hay dioses y no hay ídolos
más brillantes que ella 

cuando puedo verterla como lava
sobre un papel en blanco.


Julia Bellido



A palavra é lume
que queima a garganta
quando morre nos lábios 
ou fica por escrever.

Quando ninguém a escuta também queima.

É um ferro em brasa nas entranhas,
que queima tudo.

Mas é só o que eu tenho.

Não há deuses, nem ídolos
mais brilhantes que ela

quando consigo vertê-la como lava
sobre a página em branco.


(Trad. A.M.)

 


>>  Vallejo (8p) / Rotula (3p) / Culturamas (rec.) / Puentes de papel (rec.)

.

11.6.25

Mario Miguez (Surpresa)




SORPRESA

 

Nunca debes buscar palabras raras
para crear sorpresa.
Es justo lo contrario:
lograr que unas palabras ya muy viejas
y en ti sencillas, claras, renovadas,
de pronto, en el poema, nos sorprendan.

 

Mario Míguez

[Autorretrato en espejo convexo]

 

 

Não busques nunca palavras estranhas
para criar surpresa.
É justamente o contrário, 
fazer que algumas palavras mais antigas,
por si simples, claras, renovadas, 
de repente, no poema, nos surpreendam.

(Trad. A.M.)

 .

18.3.25

Efi Cubero (Palavra)




PALABRA


La piel (asunto serio)
se desgasta.

Queda en poder del Tiempo.

Que éste obre:
nada más desea.

Mas la Palabra es vida.

Prodigio eterno entre
interlocuciones,
proyecta inmensidad
como un espejo.

Agua de algún venero
inagotable donde es
tan necessária
la frescura.

Efi Cubero

 


A pele (sério assunto)
desgasta-se.

Fica no poder do Tempo.

Que ele trabalhe,
nada mais deseja.

Mas a Palavra é vida.

Prodígio eterno entre
interlocuções,
projecta imensidão
como um espelho.

Linfa de nascente
inesgotável onde é
tão necessária
a frescura.


(Trad. A.M.)

.

13.8.24

Alexandre O' Neill (Animais doentes)




ANIMAIS DOENTES

 

Animais doentes as palavras
Também elas
Vespas formigas cabras
De trote difícil e miúdo
Gafanhotos alerta
Pombas vomitadas pelo azul
Bichos de conta bichos que fazem de conta
Pequeníssimas pulgas uma sílaba só
Lagartos melancólicos
Estúpidas galinhas corriqueiras
Tudo tão doente tão difícil
De manejar de lançar de provocar
De reunir
De fazer viver

Ou então as orgulhosas
Palavras raras
Plumas de cores incandescentes
Altos gritos no aviário
E o branco sem uso
Imaculado
De certas aves da solidão

Para dizer
Queria palavras tão reais como chamas
E tão precárias
Palavras que vivessem só o tempo de dizer a sua parte
No discurso de fogo
Logo extintas na combustão das próximas
Palavras que não esperassem
Em sal ou em diamante
O minuto ridículo precioso raro
De sangrar a luz a gota de veneno
Cativa das entranhas ociosas.

 

Alexandre  O’Neill

 .

22.2.24

Ángel Campos Pámpano (Ofício de palavras)




OFÍCIO DE PALABRAS     


Conforme a la costumbre
antigua de su oficio,
las palabras anuncian
el drama lentamente.
Ocupan los objetos
y enseguida los niegan.
Se dan al desamparo
de los nombres perdendo
el tiempo si fabulan
historias que no existen.
No es casual que a veces
procuren el poema,
la vigilia, la muerte,
la idea de la rosa.

Ángel Campos Pámpano

 

 

Conforme ao costume
antigo de seu ofício,
as palavras anunciam
o drama lentamente.
Ocupam os objectos
e a seguir negam-nos.
Dão-se ao desamparo
dos nomes perdendo
o tempo a fabular
histórias que não existem.
Às vezes, não por acaso,
procuram o poema,
a vigília, a morte,
a ideia pura da rosa.


(Trad. A.M.)

.

10.2.23

António Cabral (Certas palavras)




CERTAS PALAVRAS                        

 

Certas palavras assemelham-se
a escorpiões pintados de branco.


ANTÓNIO CABRAL
Os Homens Cantam a Nordeste
(!967)

.

16.1.23

Vasco Graça Moura (Ah, as palavras)




AH, AS PALAVRAS!                       

 

fiz uma longa aprendizagem,
muitas rasuras e rascunhos,
muitos registos de passagem,
muitos borrões e gatafunhos
são outros tantos testemunhos
do meu mester, das minhas lavras,
uso a cabeça e às vezes punhos
de renda ou não. ah, as palavras!


Vasco Graça Moura

[Ciberduvidas]

.

19.11.22

Carlos Drummond de Andrade (O lutador)




O LUTADOR

 

Lutar com palavras 
é a luta mais vã.
Entanto lutamos
mal rompe a manhã.
São muitas, eu pouco.
Algumas, tão fortes
como o javali.
Não me julgo louco.
Se o fosse, teria
poder de encantá-las.
Mas lúcido e frio,
apareço e tento
apanhar algumas
para meu sustento 
num dia de vida.
Deixam-se enlaçar,
tontas à carícia
e súbito fogem
e não há ameaça
e nem há sevícia
que as traga de novo
ao centro da praça.

Insisto, solerte.
Busco persuadi-las.
Ser-lhes-ei escravo
de rara humildade.
Guardarei sigilo
de nosso comércio.
Na voz, nenhum travo
de zanga ou desgosto.
Sem me ouvir deslizam,
perpassam levíssimas
e viram-me o rosto.
Lutar com palavras
parece sem fruto.
Não têm carne e sangue…
Entretanto, luto.

Palavra, palavra 
(digo exasperado),
se me desafias,
aceito o combate.
Quisera possuir-te
neste descampado,
sem roteiro de unha
ou marca de dente
nessa pele clara.
Preferes o amor
de uma posse impura
e que venha o gozo
da maior tortura.

Luto corpo a corpo,
luto todo o tempo,
sem maior proveito
que o da caça ao vento.
Não encontro vestes,
não seguro formas,
é fluido inimigo
que me dobra os músculos
e ri-se das normas
da boa peleja.

Iludo-me às vezes,
pressinto que a entrega
se consumará.
Já vejo palavras
em coro submisso, 
esta me ofertando
seu velho calor,
aquela sua glória
feita de mistério,
outra seu desdém,
outra seu ciúme,
e um sapiente amor
me ensina a fruir
de cada palavra
a essência captada,
o sutil queixume.
Mas ai! é o instante
de entreabrir os olhos:
entre beijo e boca,
tudo se evapora.

O ciclo do dia
ora se conclui 
e o inútil duelo
jamais se resolve.
O teu rosto belo,
ó palavra, esplende
na curva da noite
que toda me envolve.
Tamanha paixão
e nenhum pecúlio.
Cerradas as portas,
a luta prossegue
nas ruas do sono.


Carlos Drummond de Andrade

[Ciberduvidas]

 .

24.7.22

Octavio Paz (Disparo)




DISPARO 



Salta la palabra 
adelante del pensamiento 
adelante del sonido 
la palabra salta como un caballo 
adelante del viento 
como un novillo de azufre 
adelante de la noche 
se pierde por las calles de mi cráneo 
en todas partes las huellas de la fiera 
en la cara del árbol el tatuaje escarlata 
en la frente del torreón el tatuaje de hielo 
en el sexo de la iglesia el tatuaje eléctrico 
sus uñas en tu cuello 
sus patas en tu vientre 
la señal violeta 
el tornasol que gira hasta el blanco 
hasta el grito hasta el basta 
el girasol que gira como un ay desollado 
la firma del sin nombre a lo largo de tu piel 
en todas partes el grito que ciega 
la oleada negra que cubre el pensamiento 
la campana furiosa que tañe en mi frente 
la campana de sangre en mi pecho 
la imagen que ríe en lo alto de la torre 
la palabra que revienta las palabras 
la imagen que incendia todos los puentes 
la desaparecida en mitad del abrazo 
la vagabunda que asesina a los niños 
la idiota la mentirosa la incestuosa 
la corza perseguida 
la mendiga profética 
la muchacha que en mitad de la vida 
me despierta y me dice acuérdate 


Octavio Paz 

[La ceniza]

 

 

Salta a palavra
à frente do pensamento
à frente do som
a palavra salta como um cavalo
à frente do vento
como um toiro sulfuroso
à frente da noite
perde-se nas ruas da minha cabeça
em todo o lado o rasto da fera
a tatuagem escarlate no rosto da árvore
na frente do torreão a tatuagem de gelo
no sexo da igreja a tatuagem eléctrica
suas unhas no teu gasnete
as patas no teu ventre
o sinal violeta
o girassol que roda até ao branco
até ao grito até ao basta
o girassol que gira como um ai desolado
a rubrica do sem nome ao longo da tua pele
em todo o lado o grito que cega
a maré negra que cobre o pensamento
a campainha furiosa que toca na minha testa
a campainha de sangue em meu peito
a imagem rindo no alto da torre
a palavra que rebenta as palavras
a imagem que incendeia as pontes
a desaparecida a meio do abraço
a vagabunda que mata as crianças
a idiota a mentirosa a incestuosa
a corça perseguida
a mendiga profética
a rapariga que a meio da vida
me desperta e me diz: lembra-te


(Trad. A.M.)

.

17.7.22

Nuno Júdice (De novo, as palavras)




De novo: as palavras... 
Ponho palavras em cima da mesa; e deixo
que se sirvam delas, que as partam em fatias, sílaba a
sílaba, para as levarem à boca – onde as palavras se
voltam a colar, para caírem sobre a mesa. 

Assim, conversamos uns com os outros. Trocamos
palavras; e roubamos outras palavras, quando não
as temos; e damos palavras, quando sabemos que estão
a mais. Em todas as conversas sobram as palavras. 

Mas há as palavras que ficam sobre a mesa, quando
nos vamos embora. Ficam frias, com a noite; se uma janela
se abre, o vento sopra-as para o chão. No dia seguinte,
a mulher a dias há-de varrê-las para o lixo. 

Por isso, quando me vou embora, verifico se ficaram
palavras sobre a mesa; e meto-as no bolso, sem ninguém
dar por isso. Depois, guardo-as na gaveta do poema. Algum
dia, estas palavras hão-de servir para alguma coisa.

Nuno Júdice

 .

19.6.22

Roberto Juarroz (Desbaptizar o mundo)



(40)                      

Desbautizar el mundo,
sacrificar el nombre de las cosas
para ganar su presencia.

El mundo es un llamado desnudo,
una voz y no un nombre,
una voz con su propio eco a cuestas.

Y la palabra del hombre es una parte de esa voz,
no una señal con el dedo,
ni un rótulo de archivo,
ni un perfil de diccionario,
ni una cédula de identidad sonora,
ni un banderín indicativo
de la topografía del abismo.

El oficio de la palabra,
más allá de la pequeña miseria
y la pequeña ternura de designar esto o aquello,
es un acto de amor: crear presencia.

El oficio de la palabra
es la posibilidad de que el mundo diga al mundo,
la posibilidad de que el mundo diga al hombre.

La palabra: ese cuerpo hacia todo.
La palabra: esos ojos abiertos.


Roberto Juarroz

[Life vest under your seat]

 

 

Desbaptizar o mundo,
sacrificar o nome das coisas
para lhes ganhar a presença.

O mundo é um chamamento nu,
uma voz não um nome,
uma voz com seu eco às costas.

E a palavra do homem é uma parte dessa voz,
não um sinal com o dedo,
nem um rótulo de arquivo,
nem um perfil de dicionário,
nem uma cédula de identidade,
nem uma bandeirola a assinalar o abismo.

O ofício da palavra,
para além da pequena miséria
e da pequena ternura de designar isto ou aquilo,
é um acto de amor, criar presença.

O ofício da palavra
é a possibilidade de o mundo dizer o mundo,
a possibilidade de o mundo dizer o homem.

A palavra, esse corpo para tudo.
A palavra, esses olhos abertos.


(Trad. A.M.)

.

11.3.22

Juanjo Barral (Objectivo)




OBJETIVO          



Una palabra se abre paso como puede
entre antenas parabólicas que emiten
conversaciones cancerígenas.
Busca dónde aparcar a salvo de autos que gritan
con todos sus neumáticos y todas sus frustraciones dentro.
Trata de salir indemne de una frase lapa,
de una encerrona, de una cacería cultural.
En televisión hay un programa piloto que la sobrevuela.

Se abre paso como puede una palabra
que quiere arar la tierra que otros riegan con pesticidas,
que quiere asaltar el corazón que otros han secuestrado,
que quiere no ser dura ni arma, sino pan y lluvia.
Que quiere.

Como otros no.


Juanjo Barral



Uma palavra abre passagem como pode
entre antenas parabólicas que emitem
conversas cancerígenas.
Busca onde aparcar a salvo de carros que gritam
com todos os seus pneus e frustrações interiores.
Tenta sair indemne de uma frase chata,
de uma cilada, de uma caçada cultural.
Na TV há um programa-piloto que a sobrevoa.

Abre passagem como pode uma palavra
que quer arar a terra que outros regam com pesticidas,
que quer assaltar o coração que outros sequestraram,
que quer não ser dura nem arma, mas antes pão e chuva.
Que quer.

Como outros não.


(Trad. A.M.)

.

25.1.22

José Cereijo (Algumas poucas palavras)




Unas pocas palabras
en la frontera misma del silencio,
como las que se retiran,

discretas, cuando es hora
de que los cuerpos hablen.
Unas pocas palabras: signos,
indicios solamente. Un poco
de aire conmovido
entre la mano y la página.
Es bastante. Es incluso demasiado.


José Cereijo

[Sureando]

 

  

Algumas palavras poucas
na fronteira mesma do silêncio,
como as que se retiram,
discretas, quando chega
a hora de os corpos falarem.
Algumas poucas palavras – signos,
indícios apenas. Um pouco
de ar comovido
entre a mão e a página.
É bastante. É mesmo demasiado.


(Trad. A.M.)

.

3.4.21

Luis García Montero (O amor)




EL AMOR



Las palabras son barcos
y se pierden así, de boca en boca,
como de niebla en niebla.
Llevan su mercancía por las conversaciones
sin encontrar un puerto,
la noche que les pese igual que un ancla.

Deben acostumbrarse a envejecer
y vivir con paciencia de madera
usada por las olas,
irse descomponiendo, dañarse lentamente,
hasta que a la bodega rutinaria
llegue el mar y las hunda.

Porque la vida entra en las palabras
como el mar en un barco,
cubre de tiempo el nombre de las cosas
y lleva a la raíz de un adjetivo
el cielo de una fecha,
el balcón de una casa
la luz de una ciudad reflejada en un río.

Por eso, niebla a niebla,
cuando el amor invade las palabras,
golpea sus paredes, marca en ellas
los signos de una historia personal,
y deja en el pasado de los vocabularios
sensaciones de frío y de calor,
noches que son la noche,
mares que son el mar,
solitarios paseos con extensión de frase
y trenes detenidos y canciones.

Si el amor, como todo, es cuestión de palabras,
acercarme a tu cuerpo fue crear un idioma.


LUIS GARCÍA MONTERO
Completamente viernes
(1998)





As palavras são barcos
e perdem-se assim, de boca em boca,
como de névoa em névoa.
Andam com a veniaga por entre as falas
sem achar porto,
noite que lhes pese feita âncora.

Têm de habituar-se a envelhecer
e a viver com paciência de madeira
à flor das ondas,
desfazer-se,  ferir-se lentamente,
até que o porão rotineiro
chegue ao mar e as afunde.

Porque a vida entra nas palavras
como o mar num navio,
cobre de tempo o nome das coisas
e leva à raiz de um adjectivo
o céu de uma data,
uma varanda de casa,
a luz da cidade espelhada num rio.

Por isso, névoa a névoa,
quando o amor invade as palavras,
agride as paredes, grava nelas
os signos de uma história pessoal
e deixa no passado dos vocabulários
sensações se frio e calor,
noites que são a noite,
mares que são o mar,
solitários passeios com extensão de frase
e comboios suspensos e canções.

Se o amor, como tudo, é questão de palavras,
acercar-me do teu corpo foi como inventar um idioma.


(Trad. A.M.)

.

3.3.21

Juan Luis Panero (Used words)



USED WORDS



Con palabras usadas,
gastadas por el tiempo y la costumbre,
cuyo último temblor ya no se siente.
Con palabras, como sueños, quemadas por la vida,
esta noche de lluvia hablo contigo,
trato de hablar al menos, ligeramente ebrio,
construyendo cada sílaba en el país de nunca jamás,
y sintiendo esa repentina lucidez
con la que, de pronto, rompemos la rutina de ser y conocemos,
sintiendo, digo, esa rara sensación, distante y desangrada,
del whisky, de la noche y el silencio,
de la entusiasta desesperación con que aceptamos la derrota,
de ese vértigo, a veces, sólo a veces, tuyo y mío,
donde morimos sonriendo con los ojos abiertos.

Sintiendo lo poco que es un beso al fondo de tu lengua,
o tus ojos mirándose en los míos,
o nuestras manos unidas en el aire,
recorriendo un museo de aceptados fracasos.
Desfilan, batallón desolado de fantasmas,
nombres y nombres con distinto eco.
Pretendemos, con abolidos rostros, fechas caducadas, 
ciudades imposibles,
contestar una vieja pregunta
cuya respuesta sólo la muerte ya conoce.
Años y años, voluntarios exilios de seres y países,
los hijos que no quise tener, los que tú sí tuviste,
el temblor del deseo que aún guardas en tu piel,
mi repetido navegar de cama en cama,
se reúnen y afirman su destino
frente a la ceremonia del amanecer.
Y todo lo sabemos y está escrito en tus ojos,
sin embargo hoy, este día con sol, -tan raro en Bogotá-
de finales de julio, de algún año cualquiera,
te propongo mi amor, sé que tú aceptarás,
con palabras usadas, te propongo mentirnos.
Pasada ya la noche, quietos frente al espejo,
mientras yo me afeito y tú pintas tus labios,
te propongo mi amor, decir que nos queremos.

Decir -y son tan sólo ejemplos- «hoy existe la vida por nosotros»
o «tú no te morirás nunca»
o, tal vez, «aún hay noches y noches que esperan
nuestros brazos, ese especial calor de dormir abrazados».
Olvidando, tratando de olvidar nuestro pasado,
ignorando el futuro, sin duda inalcanzable,
con palabras gastadas, decir y repetir
-es otro ejemplo- «gracias mi amor por haber existido».
Al menos por un rato -a nadie molestamos-
con palabras usadas mentirnos y mentirnos,
mentirnos contra el tiempo, despreciar su victoria.

Envío:
Te dejo este poema
confuso, absurdo, largo,
para que tú lo tengas como un pañuelo viejo
a los pies de tu cama, para que tú lo tengas,
y un día te lo encuentres, confuso, absurdo, largo,
un día como éste -cuando ya no estaremos-
y recuerdes, debajo de la ducha,
que alguna vez te quise -mentiras y mentiras-
que alguna vez te quise -era un día de julio-
con palabras usadas, como un disco rayado,
que recuerdes, mi amor, esta letra de tango.

JUAN LUIS PANERO 
Desapariciones y fracasos
(1978)




Com palavras usadas,
gastas pelo tempo e pelo uso,
cujo tremor derradeiro já não se sente.
Com palavras, como sonhos, queimadas pela vida,
falo contigo nesta noite de chuva,
tento pelo menos falar, ligeiramente ébrio,
construindo cada sílaba no país do nunca mais,
e sentindo essa repentina lucidez
com que de repente rasgamos a rotina e conhecemos,
sentimos, a estranha sensação, distante e mortiça,
do uísque, da noite e do silêncio,
do desespero eufórico com que aceitamos a derrota,
dessa vertigem, às vezes, só às vezes, tua e minha,
em que morremos sorrindo de olhos abertos.

Sentindo o pouco que é um beijo na tua língua,
ou teus olhos a mirar-se nos meus,
ou nossas mãos enlaçadas no ar,
percorrendo um museu de assumidos fracassos.
Desfilam, batalhão desolado de fantasmas,
nomes e nomes com ecos diferentes.
Com abolidos rostos, datas caducas,
cidades impossíveis, pretendemos
responder à velha pergunta
cuja resposta é só conhecida da morte.
Anos e anos, exílios voluntários de seres e países,
os filhos que eu não quis ter, aqueles que tu sim tiveste,
o tremor do desejo que sentes ainda na pele,
o meu navegar de cama em cama,
tudo se junta e afirma seu destino
diante da cerimónia da aurora.
E tudo sabemos e está escrito em teus olhos,
eu no entanto, neste dia de sol - tão raro em Bogotá - 
em fins de Junho, de um ano qualquer,
lego-te o meu amor, sabendo que o aceitas,
com palavras usadas, propondo mentir-nos.
Passada a noite, parados ao espelho, 
enquanto eu me barbeio e tu pintas os lábios,
proponho-te o meu amor, dizer que nos queremos.

Dizer - e são apenas exemplos - "hoje a vida existe por nós"
ou "tu nunca hás-de morrer"
ou talvez "há noites e noites ainda que esperam
nossos braços, o calor especial de dormir abraçado".
Esquecendo, procurando esquecer o passado,
ignorando o futuro, sem dúvida inatingível,
com gastas palavras, dizer e repetir
- eis outro exemplo - "obrigado amor por ter existido".
Ao menos por um pouco - sem incomodarmos ninguém -
mentir-nos e mentir-nos com palavras usadas,
mentir-nos contra o tempo, desprezando a sua vitória.

Recado:
Deixo-te este poema
confuso, longo, absurdo,
para tu o pores aos pés da cama,
como um lenço velho,
e o achares um dia, confuso, longo, absurdo,
um dia como este - quando já não estivermos -
e lembrares, debaixo do chuveiro,
que eu te amei um dia - mentiras, mais mentiras -
que eu te amei um dia - e era um dia de Julho -
com palavras usadas, como um disco riscado,
para lembrares, meu amor, esta letra de tango.


(Trad. A.M.)

.

17.7.20

António Ramos Rosa (As palavras)





AS PALAVRAS



Adiro a uma nova terra adiro a um novo corpo
As palavras identificam-se com o asfalto negro
o tropel das nuvens
a espessura azul das árvores acesas pelos faróis
o rumor verde
As palavras saem de um ferida exangue
de teclas de metal fresco
de caminhos e sombras
da vertigem de ser só um deserto
de armas de gume branco
Há palavras carregadas de noite e de ombros surdos
e há palavras como giestas vivas
Matrizes primordiais matéria habitada
forma indizível num rectângulo de argila
quem alimenta este silêncio senão o gosto de
colocar pedra sobre pedra até á oblíqua exactidão?
As palavras vêm de lugares fragmentários
de uma disseminação de iniciais
de magmas respirados
de odor de gérmen de olhos
As palavras podem formar uma escrita nativa
de corpos claros
Que são as palavras? Imprecisas armas
em praias concêntricas
torres de sílex e de cal
aves insólitas
As palavras são travessias brancas faces
giratórias
elas permitem a ascensão das formas
elevam-se estrato após estrato
ou voam em diagonal
até à cúpula diáfana
As palavras são por vezes um clarão no dia calcinado
Que enfrentam as palavras? O espelho
da noite a sua impossível
elipse
Saem da noite despedaçadas feridas
e são signos do acaso pedras de sol e sal
a da sua língua nascem estrelas trituradas


António Ramos Rosa

.

16.4.20

Alfredo Buxán (O sonho das palavras)





O SONHO DAS PALAVRAS



Vêm-me de muito longe as palavras
que alguém me sussurra cada noite
a meia voz quando tudo repousa
e tem um ar de quietude
que pode converter-se em ameaça
se baixarmos a guarda.
                       Afaga-me
a música pacífica que trazem
no alforje, o calor, o timbre,
mas não consigo entender o que me dizem,
se deveras me indicam um caminho
ou são alguns restos de areia
que trago no calçado uma vez
feita a travessia do deserto
e cumprido o tempo da vida.
                      Chegam ao pé de mim
em ondas cada vez mais ténues.
Esforço-me por percebê-las, com medo
que o vento do silêncio as leve
na sua frente e me despoje de tudo,
os últimos restos deste sonho,
o murmúrio de água que me derramam
na alma, sua frágil transparência,
a humidade infinita que me deixam
na pele, a esperança de entendê-las.


ALFREDO BUXÁN
Las Palabras Perdidas
(Poesía 1989-2008)
Bartleby Editores (2011)

(Trad. A.M.)

.

22.12.19

Eucanaã Ferraz (Forma)





FORMA



Palavras, arrumá-las
de tal jeito
–cilada–
que se possa
apanhar com elas
um sentimento que passa.


Eucanaã Ferraz

.

19.11.19

Alejandra Pizarnik (Cuidado com as palavras)





Cuidado con las palabras
(dijo)
tienen filo
te cortarán la lengua
cuidado
no despertar a las palabras
acuéstate en las arenas negras
y que el mar te entierre
y que los cuervos se suiciden en tus ojos cerrados
cuídate
no tientes a los ángeles de las vocales
no atraigas frases
poemas
versos
no tienes nada que decir
nada que defender
sueña sueña que no estás aquí
que ya te has ido
que todo ha terminado
´

Alejandra Pizarnik

[Marcelo Leites]




Cuidado com as palavras
(disse)
são afiadas
e cortam-te a língua
cuidado
não acordes as palavras
deita-te na areia
e o mar que te sepulte
e os corvos se suicidem nos teus olhos fechados
cautela
não tentes os anjos das vogais
não atraías frases
poemas
versos
não tens nada para dizer
nada para defender
sonha sonha que não estás aqui
que já te foste
que tudo acabou

(Trad. A.M.)

.