7.10.26

Eugénio de Andrade (Da ignorância)




DA IGNORÂNCIA 

 

A mão
que entregava à tua
os primeiros sinais do verão
já não sabe o caminho ─ é como se
em vez de aprender fosse cada vez mais
e mais ignorante. Ou ignorar
fosse todo o saber.
 

Eugénio de Andrade

[Canal de poesia]

 .

5.10.26

Vicente García (A partida)

 




LA PARTIDA

 

Como los años pasan y el recuerdo
a veces no perdona, te preguntas
si el viaje que emprendiste
merecerá la pena, si al final del camino
habrás de arrepentirte al mirar hacia atrás.

Para entonces, acuérdate,
más que del resultado,
de ese entusiasmo tuyo que le daba
mayor fuerza a la vida
cuando ibas descubriendo los trucos del oficio,
los caprichos del arte y sus fantasmas.

Vicente García



Como os anos passam e a lembrança
às vezes não perdoa, tu perguntas-te
se a viagem que empreendeste
valerá a pena, se no fim do caminho
não vais arrepender-te ao olhar para trás.

Para então, lembra-te,
mais que do resultado,
daquele entusiasmo que te dava
mais força à vida,
quando ias descobrindo os truques do ofício,
os caprichos da arte e os seus fantasmas.


(Trad. A.M.)


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3.10.26

Domingos da Mota (Soneto da pouquidão)




SONETO DA POUQUIDÃO

 

São poucos os que lutam contra o medo
sem medo de perder seja o que for,
que ousam libertar-se do enredo
desse modo maligno de temor
que sofreia a coragem ante o susto
e que a tantos concita mais pavor
e os deixa tolhidos, dado o custo
da luta contra o medo sem temor.
São poucos os que lutam e a escassez
aumenta com tamanha pouquidão
que faz acumular, por sua vez
o medo, com razão ou sem razão
naqueles que se escondem dia a dia
por detrás do receio ou da apatia.


Domingos da Mota

[Canal de poesia]

 .

1.10.26

Antonio Hernández (Espiritual negro)




NEGRO ESPIRITUAL

 

Nunca fabricaron nada.
No inventaron nunca nada.
Nunca descubrieron nada
salvo el ala de la nada.
Y dio un paso atrás la muerte.

Antonio Hernández

  

Nunca fabricaram nada.
Não inventaram nunca nada.
Nunca descobriram nada,
salvo a asa do nada.
E a morte deu um passo atrás.


(Trad. A.M.)

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29.9.26

Billy Collins (Surpresa)

 



SURPRESA 

 

É 
- de acordo com a voz na rádio,
o apresentador de um programa de música clássica, nada menos -
é o aniversário de Vivaldi. 

Faria hoje 325 anos, bastante curvado, imagino,
e incapaz de ver bem com os seus olhos lacrimejantes. 

Seguramente já surdo, 
a roupa a desfazer-se, 
o cabelo lamentavelmente ralo. 

Mas, em todo o caso, daríamos uma festa em sua honra,
uma festa surpresa onde todos
nos escondêssemos atrás dos móveis para ouvir 

os toques da sua bengala no pavimento
e a sua tosse seca e persistente.
 

Billy Collins 
 

(Trad. fjcc)

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27.9.26

Abelardo Rodríguez (Caminho do homem)

 



Caminho do homem
                              é a esperança,
e a esperança
é mentira que criamos para ir,
para fazer mais doce a Tragédia.
Nada
e Nada
são os extremos,
e Morte
a única
palavra.

 

ABELARDO RODRÍGUEZ
Maradentro
(Poesía 1970-1999)
Fundación JRJ (1999)

(Trad. A.M)


>>  Autores onubenses (ficha)

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25.9.26

Armindo Rodrigues (Liberdade)




LIBERDADE

 

Liberdade sem pão não é liberdade.
Sem liberdade, o pão é escuro e amargo.
Enquanto a alvorada é uma rosa branca,
o pino da tarde é um toiro bravo.
Entre o destino aceite e o escolhido,
é o mais custoso o que mais me quadra.
Pode-se viver preso e ser-se livre.
Pode viver-se livre e ser-se escravo.


Armindo Rodrigues

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