31.10.26

Helga Moreira (Um facto é apenas um facto)




UM FACTO É APENAS UM FACTO 


Um facto é apenas um facto se se entende?
É estar de novo entre o passado e o presente?
Que coisas são os mortos da união?
O que foi ter vivido e já não?


Coisas que antecedem outras, por vezes
se outro rumo houver, outra razão,
não serei já tanto o que quiseres
a mim, a tudo, ponho em questão


até ao facto de aqui sentada
na avenida Brasil ensolarada
ao céu aberta, aberta ao mar


entre gente vulgar sou a desastrada
a que cuida e cuida só do olhar não 
para lado nenhum, qualquer lugar


Helga Moreira 

[Raiz e Utopia]

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29.10.26

José Manuel Benítez Ariza (In memoriam)




IN MEMORIAM

 

Ahora soy yo quien está
en la línea de salida;
no te preocupes, mamá,

por la ventaja que llevas:
ahí el tiempo y la distancia
se miden de otra manera;

y, al fin y al cabo, da igual,
en la nada que seremos,
quién fue antes, quién detrás.


José Manuel Benítez Ariza 

 

Agora sou eu quem está
na linha de partida;
não te aflijas, mãezinha,

com a vantagem que levas,
o tempo aí e a distância
medem-se de outra maneira;

e ao fim e ao cabo, dá no mesmo,
no nada que seremos,
quem foi antes, quem depois.


(Trad. A.M.)

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27.10.26

Guilherme de Oliveira (Apagão I)

 



APAGÃO I

 

Apagaram-se as luzes.
A tia louca
encheu panelas de água.
Achei ridículo e saltei
para dentro da maior.
As bolhas que saíam
da minha boca
eram gargalhadas.


Enquanto me ria
a energia voltou.
A tia louca ficou pior
e jantou peixe cozido.


Não jantei nesse dia.

 

GUILHERME DE OLIVEIRA
Não deixaram entrar o cão
Glaciar (2025)

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25.10.26

Antonio Hernández (Testamento)




TESTAMENTO

 

Que no me coma la envidia,
la peor enfermedad;
que no sepa de venganza
ni aun cumpliéndose en justicia;
que guardián no sea el odio
de una apagada alegría;
que el rencor no me empobrezca
a la hora del balance.
Y que todo sea así
no para ganarme el Cielo
sino por que vuele en paz
mi ceniza en el olvido.

Antonio Hernández

 

Que não me roa a inveja,
a pior das maleitas;
que não saiba de vinganças
nem com pretexto de justiça;
que guardião não seja o ódio
de uma extinta alegria;
que o rancor não me tolha
no momento do balanço.
E que tudo assim seja
não para ganhar o Céu
mas só pra que voe em paz
minha cinza no esquecimento.


(Trad. A.M.)

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23.10.26

Giuseppe Ungaretti (Tudo hei perdido)




Tutto ho perduto dell’infanzia
e non potrò mai più
smemorarmi in un grido.

L’infanzia ho sotterrato
nel fondo delle notti
e ora, spada invisibile,
mi separa da tutto.

Di me rammento che esultavo amandoti,
ed eccomi perduto
in infinito delle notti.

Disperazione che incessante aumenta
la vita non mi è più,
arrestata in fondo alla gola,
che una roccia di gridi.

Giuseppe Ungaretti

 

Tudo hei perdido da infância
e não poderei nunca mais
perder a memória num grito.

A infância enterrei-a
no fundo das noites
e agora, espada invisível,
ela me aparta de tudo.

De mim recordo que exultava
com te amar, e eis-me agora aqui perdido
no infinito das noites.

Desespero sempre crescendo,
a vida, apertada na garganta,
não passa de uma rocha de gritos.


(Trad, A.M.)

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21.10.26

Montserrat Villar González (Porque tu)




PORQUE TÚ

 

Porque Tú eres tú
y yo soy el eterno pensamento
que te nombra
a pesar de no existirnos.

Tú eres sueño
y simiente de invierno
que bajo el sol se crece.

Eres escarcha
que baña la noche
soñando mañanas.

Yo soy hambre
de cielo y distancia
ignorando presentes,
asumiendo nadas.

Soy límite y muerte,
ausencia y palabra
diluida en agua.

Porque tú eras Tú
y yo habré sido la eterna voz
que en silencio te nombraba.


Montserrat Villar González

 

Porque Tu és tu
e eu sou o eterno pensamento
que te nomeia
apesar de não existirmos.

Tu és sonho
e semente de inverno
a crescer sob o sol.

És orvalho
que a noite banha
sonhando amanhãs.

Eu sou fome
de céu e distância
ignorando presentes,
assumindo nadas.

Sou morte e limite,
ausência e palavra
em água diluída.

Porque tu eras Tu
e eu terei sido a eterna voz
que em silêncio te nomeava.


(Trad. A.M.)


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19.10.26

Francisco Duarte Mangas (Que procuro)




que procuro no maio reescrito
cerejas, manhã de ervas
húmidas pelos rios de basto
rio paizela, lírios no fim do açude
aí entre os lírios o pai
longe da servidão da velhice iludia
as trutas: o silvo do fio retesado, a frágil
cana-da-índia vergada e trémula
como vara de vedor.
eu atapetava de hortelã o cesto de vime
morte de peixes do rio cheira bem.
 

Francisco Duarte Mangas


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