2.11.26

Montserrat Villar González (Ex animi sententia)

 



EX ANIMI SENTENTIA


Que la belleza no se nos muera
en las esquinas.

Que la justicia no se nos duerma
entre las rejas.

Que el futuro no se nos seque
en nuestras venas.

Que el llanto no se nos borre
en la memoria.

Que los sueños no se diluyan
en una eternidad de esperas.


Montserrat Villar González

 

Que a beleza não se nos morra
nas esquinas.

Que a justiça não se nos durma
entre as grades.

Que o futuro não se nos seque
nas veias.

Que o choro não se nos apague
da lembrança.

Que os sonhos não se diluam
numa eternidade de espera.


(Trad. A.M.)

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31.10.26

Helga Moreira (Um facto é apenas um facto)




UM FACTO É APENAS UM FACTO 


Um facto é apenas um facto se se entende?
É estar de novo entre o passado e o presente?
Que coisas são os mortos da união?
O que foi ter vivido e já não?


Coisas que antecedem outras, por vezes
se outro rumo houver, outra razão,
não serei já tanto o que quiseres
a mim, a tudo, ponho em questão


até ao facto de aqui sentada
na avenida Brasil ensolarada
ao céu aberta, aberta ao mar


entre gente vulgar sou a desastrada
a que cuida e cuida só do olhar não 
para lado nenhum, qualquer lugar


Helga Moreira 

[Raiz e Utopia]

 .

29.10.26

José Manuel Benítez Ariza (In memoriam)




IN MEMORIAM

 

Ahora soy yo quien está
en la línea de salida;
no te preocupes, mamá,

por la ventaja que llevas:
ahí el tiempo y la distancia
se miden de otra manera;

y, al fin y al cabo, da igual,
en la nada que seremos,
quién fue antes, quién detrás.


José Manuel Benítez Ariza 

 

Agora sou eu quem está
na linha de partida;
não te aflijas, mãezinha,

com a vantagem que levas,
o tempo aí e a distância
medem-se de outra maneira;

e ao fim e ao cabo, dá no mesmo,
no nada que seremos,
quem foi antes, quem depois.


(Trad. A.M.)

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27.10.26

Guilherme de Oliveira (Apagão I)

 



APAGÃO I

 

Apagaram-se as luzes.
A tia louca
encheu panelas de água.
Achei ridículo e saltei
para dentro da maior.
As bolhas que saíam
da minha boca
eram gargalhadas.


Enquanto me ria
a energia voltou.
A tia louca ficou pior
e jantou peixe cozido.


Não jantei nesse dia.

 

GUILHERME DE OLIVEIRA
Não deixaram entrar o cão
Glaciar (2025)

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25.10.26

Antonio Hernández (Testamento)




TESTAMENTO

 

Que no me coma la envidia,
la peor enfermedad;
que no sepa de venganza
ni aun cumpliéndose en justicia;
que guardián no sea el odio
de una apagada alegría;
que el rencor no me empobrezca
a la hora del balance.
Y que todo sea así
no para ganarme el Cielo
sino por que vuele en paz
mi ceniza en el olvido.

Antonio Hernández

 

Que não me roa a inveja,
a pior das maleitas;
que não saiba de vinganças
nem com pretexto de justiça;
que guardião não seja o ódio
de uma extinta alegria;
que o rancor não me tolha
no momento do balanço.
E que tudo assim seja
não para ganhar o Céu
mas só pra que voe em paz
minha cinza no esquecimento.


(Trad. A.M.)

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23.10.26

Giuseppe Ungaretti (Tudo hei perdido)




Tutto ho perduto dell’infanzia
e non potrò mai più
smemorarmi in un grido.

L’infanzia ho sotterrato
nel fondo delle notti
e ora, spada invisibile,
mi separa da tutto.

Di me rammento che esultavo amandoti,
ed eccomi perduto
in infinito delle notti.

Disperazione che incessante aumenta
la vita non mi è più,
arrestata in fondo alla gola,
che una roccia di gridi.

Giuseppe Ungaretti

 

Tudo hei perdido da infância
e não poderei nunca mais
perder a memória num grito.

A infância enterrei-a
no fundo das noites
e agora, espada invisível,
ela me aparta de tudo.

De mim recordo que exultava
com te amar, e eis-me agora aqui perdido
no infinito das noites.

Desespero sempre crescendo,
a vida, apertada na garganta,
não passa de uma rocha de gritos.


(Trad, A.M.)

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21.10.26

Montserrat Villar González (Porque tu)




PORQUE TÚ

 

Porque Tú eres tú
y yo soy el eterno pensamento
que te nombra
a pesar de no existirnos.

Tú eres sueño
y simiente de invierno
que bajo el sol se crece.

Eres escarcha
que baña la noche
soñando mañanas.

Yo soy hambre
de cielo y distancia
ignorando presentes,
asumiendo nadas.

Soy límite y muerte,
ausencia y palabra
diluida en agua.

Porque tú eras Tú
y yo habré sido la eterna voz
que en silencio te nombraba.


Montserrat Villar González

 

Porque Tu és tu
e eu sou o eterno pensamento
que te nomeia
apesar de não existirmos.

Tu és sonho
e semente de inverno
a crescer sob o sol.

És orvalho
que a noite banha
sonhando amanhãs.

Eu sou fome
de céu e distância
ignorando presentes,
assumindo nadas.

Sou morte e limite,
ausência e palavra
em água diluída.

Porque tu eras Tu
e eu terei sido a eterna voz
que em silêncio te nomeava.


(Trad. A.M.)


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