11.6.26

José Saramago (Incipit)

 



O que mais há na terra, é paisagem.
Por muito que do resto lhe falte, a paisagem sempre sobrou, abundância que só por milagre infatigável se explica, porquanto a paisagem é sem dúvida anterior ao homem, e apesar disso, de tanto existir, não se acabou ainda.
Será porque constantemente muda: tem épocas no ano em que o chão é verde, outras amarelo, e depois castanho, ou negro.
E também vermelho, em lugares, que é cor de barro ou sangue sangrado.
Mas isso depende do que no chão se plantou e cultiva, ou ainda não, ou não já, ou do que por
simples natureza nasceu, sem mão de gente, e só vem a morrer porque chegou o seu último fim.
Não é tal o caso do trigo, que ainda com alguma vida é cortado.
Nem do sobreiro, que vivíssimo, embora por sua gravidade o não pareça, se lhe arranca a pele.
Aos gritos.
Não faltam cores a esta paisagem.
Porém, nem só de cores.
Há dias tão duros como o frio deles, outros em que se não sabe de ar para tanto calor: o mundo nunca está contente, se o estará alguma vez, tão certa tem a morte.
E não faltam ao mundo cheiros, nem sequer a esta terra, parte que dele é e servida de paisagem.  
Se no mato morreu animal de pouco, certo que cheirará ao podre do que morto está. 
Quando calha estar quieto o vento, ninguém dá por nada, mesmo passando perto.
Depois os ossos ficam limpos, tanto lhes faz, de chuva lavados, de sol cozidos, e se era pequeno o bicho nem a tal chega porque vieram os vermes e os insectos coveiros e enterraram-no.


JOSÉ SARAMAGO
Levantado do Chão
(1980)

.

9.6.26

Luis Eduardo Aute (Desesperando Godot)




DESESPERANDO A GODOT

 

Si la esperanza
es lo último que se
pierde,

¿será la
desesperanza
lo primero que se
gana?


Luis Eduardo Aute

 

 

Se a esperança
é a última coisa
que se perde,

será
a desesperança
a primeira
que se ganha?


(Trad. A.M.)

.

7.6.26

Owen Bullock (A caminho)




on my way
to evict our tenant
again . . .
the sun goes down
over the mountain


Owen Bullock



a caminho de despejar
o nosso inquilino
outra vez...
o sol a pôr-se
sobre a montanha


(Trad, FJCC)

.


5.6.26

Karmelo C. Iribarren (O amor)




EL AMOR

 

Como el viento que encuentra
una rendija
y se cuela en la habitación
y lo desordena todo:
libros
facturas
poemas 

así llega
en la vida
el amor. 

Nada es igual a partir de entonces,
ese caos
es la felicidad. 

Pero un día habrá que recoger. 

Suerte si no te toca a ti.
 

Karmelo C. Iribarren 

 

Como o vento que encontra
uma frincha
e se enfia pela casa
e põe tudo em desordem,
livros
facturas
poemas

assim na vida
chega
o amor.

Nada é igual depois disso,
esse caos
é a felicidade.

Mas um dia tem de acabar.

Sorte se não te calhar a ti.

 

(Trad. A.M.)

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3.6.26

Lauren Mendinueta (Olvido de mim)



OLVIDO DE MÍ


Octubre ha llegado dominado por las lluvias,
y los demás meses lo han seguido hasta aquí.
De repente este amontonado tiempo lo ha llenado todo,
el verde de la casa, las sillas, la manta que cubre el piso
cuando en el verano me recuesto a leer.
En mí no es posible el abandono del tiempo,
la gracia que supone el olvido
me hubiese salvado de esta invasión.
Ahora debo caminar con cuidado
para no maltratarme con tantos recuerdos.
¿Me engañaré o será verdad lo que voy a decir?
Renuncio a esta visita, no le temo a la soledad.

 Lauren Mendinueta

[LALT]

  

Outubro chegou dominado pelas chuvas,
os outros meses seguiram-no até aqui.
De repente, o tempo amontoado cobriu tudo,
o verde da casa, as cadeiras, a manta do chão 
quando no verão me recosto a ler.
Comigo não é possível o abandono do tempo,
a graça do olvido 
me tivesse salvado desta invasão.
Agora tenho de caminhar com cuidado 
para não me fazer mal com tanta recordação.
Estarei enganada ou será verdade isto que vou dizer?
Dispenso esta visita, a solidão não a temo.

(Trad. A.M.)

 .

1.6.26

Nuno F. Silva (4' 33)




4’ 33

 

Pode existir tanto inferno
em cinco minutos de silêncio.

Como na lentidão com que saio
da cama todas as manhãs.

Ninguém sabe.


Nuno F. Silva

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30.5.26

Julia Bellido (Com o tempo)




CON EL TIEMPO

 

Quiero ser, con el tiempo,
imperceptible. 

Ni siquiera un recuerdo o una sombra.

Difuminarme lenta
como lluvia que escampa y se evapora 

y no dejar ni un rastro ni una huella
por donde he caminado. 

Invisible, o casi,
también para mis ojos. 

Y al fondo del espejo
encontrar solo bruma.


Julia Bellido



Quero ser, com o tempo,
imperceptível.

Nem mesmo uma lembrança, uma sombra.

Esfumar-me lentamente,
como chuva que evapora, quando escampa.

Não deixar rasto, sequer uma pegada,
por onde passar.

Invisível, ou quase,
também a meus olhos.

E no fundo do espelho
achar apenas bruma.


(Trad. A.M.)

 .