15.4.24

Linda Pastan (Casei contigo)



I MARRIED YOU 

 

I married you
for all the wrong reasons,
charmed by your
dangerous family history,
by the innocent muscles, bulging
like hidden weapons
under your shirt,
by your naive ties, the colors
of painted scraps of sunset.
I was charmed too
by your assumptions
about me: my serenity—
that mirror waiting to be cracked,
my flashy acrobatics with knives
in the kitchen.
How wrong we both were
about each other,
and how happy we have been.
 

Linda Pastan

 

Casei contigo
pelas razões erradas,
encantada com a tua
perigosa história familiar,
os músculos inocentes, salientes
como armas escondidas
sob a tua camisa,
as tuas gravatas ingénuas, das cores
de bocados pintados de pôr do sol.
Fui também atraída
pelas tuas suposições
sobre mim: a minha serenidade –
aquele espelho à espera de ser quebrado,
as minhas acrobacias exageradas com facas
na cozinha.
Que errados estávamos ambos
sobre o outro

e que felizes temos sido.

(Trad. fjcc)

 .

13.4.24

Felipe Benítez Reyes (A situação)




LA SITUACIÓN

 

En todo pensamiento se esconde una tiniebla,
como en toda emoción una sombra de duda.
En todas las verdades hay un mármol que tiembla
y en todas las mentiras un fuego de penumbra.

De lo poco que somos, gran parte es de un fantasma.
Nuestro deseo gobierna su industria de espejismos.
La memoria más nuestra también es de la nada.
La conciencia, en secreto, blande un puñal en vilo.

El pasado divaga entre estatuas de humo.
El presente parece una ilusión en fuga.
Allá en el porvenir hay siempre algún reducto
en que ensoñar la trama de estos sueños a oscuras.

La noche está callada como el eco del miedo.
Las sílabas se juntan en busca de un sentido.
Nuestra historia la escribe con su cálamo el viento.
Y este huir de nosotros, del tiempo y del destino…

Felipe Benítez Reyes

 

 

Em todo o pensamento há uma treva,
como em qualquer emoção uma dúvida.
Nas verdades há um mármore que estremece
e nas mentiras um fogo de penumbra.

Do pouco que somos, grande parte é fantasma.
O desejo gere sua indústria de miragens.
A memória mais nossa é também a do nada.
A consciência, em segredo, brande um punhal indeciso.

O passado divaga entre estátuas de fumo.
O presente semelha uma ilusão em fuga.
Lá no porvir há sempre um reduto
em que sonhar a trama dos sonhos escuros.

A noite cala-se como o eco do medo.
As sílabas juntam-se em busca de um sentido.
A nossa história o vento a escreve com sua pena.
E a nossa fuga de nós mesmos, do tempo e do destino…


(Trad. A.M.)

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12.4.24

Francisco Caro (A que lugar voltar)




A QUÉ LUGAR VOLVER

 

Entiendo que algún día me dijeses:
tus poemas
hablan de finitudes 

pasado el cruce del amor
–respondería–
apenas si la vida
ofrece otros caminos 

tan de la misma
materia nunca penetrada
son tiempo y poesia
que nadie aún
ha logrado saberlos, separarlos.


Francisco Caro

 

 

Entendo que um dia me dissesses,
teus poemas
falam de finitudes

Passada a encruzilhada do amor
não oferece a vida
quase outros caminhos

Tão da mesma
matéria jamais penetrada
são tempo e poesia
que ninguém ainda
logrou sabê-los, separá-los.


(Trad. A.M.)



>>  Mientras la luz (blogue/ muitos p) /  Crear en Salamanca (7p) / Zenda (5p) / Wikipedia

.

10.4.24

Jorge Sousa Braga (Magnólias)




MAGNÓLIAS

 

Esqueceram-se das folhas,
tão grande era a pressa
de florirem.


Jorge de Sousa Braga

 .

8.4.24

Federico Gallego Rípoll (Final)




FINAL

 

La vida es un regalo que agradezco
hoy. Toda la vida es hoy. Tus ojos
y mis ojos. El punto en que se dieron
es hoy. Y hasta dónde se lleguen y de donde
regresen, es hoy. 

Toda la vida es hoy, y me parece
suficiente el haber vivido tanto
si en este hoy de hoy cabe tu lúcida
mirada sobre mí, y es el futuro
un hoy perpetuamente tuyo.

 Dame ahora
la dicha de morir, hoy que no tengo
ni pasado, ni miedo.

Federico Gallego Ripoll

 


A vida é um presente que eu agradeço
hoje. Toda a vida é hoje. Teus olhos
e meus olhos. O ponto em que se deram
é hoje. E até onde chegarem e de onde
voltarem, é hoje.

Toda a vida é hoje, e parece-me
bastante o ter vivido tanto
se neste hoje de hoje cabe o teu lúcido
olhar sobre mim, e o futuro é
um hoje perpetuamente teu.

Dá-me agora já
a dita de morrer, hoje, que não tenho
nem medo, nem passado.

(Trad. A.M.)


> Outra versão: Do trapézio (L. Parrado)

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7.4.24

Federico García Lorca (Nana)




NANA

 

Duérmete, niñito mío,
que tu madre no está en casa;
que se la llevó la Virgen
de compañera a su casa.


Federico García Lorca

 

 

Dorme, dorme, meu menino,
tua mãe não está em casa;
foi a Virgem que a levou
de companhia para casa.


(Trad. A.M.)

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5.4.24

Joaquim Namorado (O que é, era)




O QUE É, ERA 

 

Quando Cristóvão Colombo
descobriu a América
a América estava lá;
o sangue já circulava
 antes de descrever Harvey a sua circulação;
a gente respirava sem saber
que respirar é uma oxidação:
Tudo existe.
O que se inventa é a descrição.
 

Joaquim Namorado

 .