14.7.19

Eugénia de Vasconcellos (Lembra)





LEMBRA



Digo-te isto para que saibas quem és,
às vezes,
esquecemos, confundimos,
desconseguimos e ao fim, desacreditamos,
colam-se-nos os fantasmas
dos vivos e as memórias dos mortos
e da voz faz-se um fio à míngua de palavras
- e onde a palavra não chega, o pensamento
não cria o acto e morre-se, morre-se, morre-se
um dia de cada vez de tanto não ser. Então
digo-te isto para que saibas quem és:
és um ponto suspenso no infinito, e
lembra: o infinito cabe num ponto.


Eugénia de Vasconcellos

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13.7.19

Miguel Barnet (Saimos para a rua)





Salimos a la calle, caminamos bajo la llovizna,
entramos en un bar, bebemos, compramos una pizza,
la envolvemos, se enfría, la tiramos,
seguimos malecón abajo, las olas blancas
levantan sobre nuestras cabezas,
la noche es lenta, acuosa, no sé si triste,
tomamos café, tú casi no me ves, no me oyes
Te acompaño al ómnibus
No puedo articular palabra
Te vas en silencio
Yo tomo el ómnibus siguiente,
nada me molesta, ni el tumulto ni el vocerío,
me quedo en el puente,
las parejas jugueteando en la yerba,
demasiado lejos mi casa
Entro, subo las escaleras
Repaso mi vida, y en cada imagen estás,
en cada imagen perteneces,
abro la puerta, el apagón, qué maravilla,
me tiro en la cama, oscuro, silencioso.
Alguien llama al teléfono. No respondo.
Afuera es posible que siga cayendo la llovizna.


Miguel Barnet




Saímos para a rua, caminhamos à chuva,
entramos num bar, bebemos, compramos uma piza,
embrulhamo-la, arrefece, deitamo-la fora,
seguimos pela marginal, as ondas brancas
erguem-se sobre as nossas cabeças,
a noite é lenta, aquosa, não sei se triste,
tomamos café, tu quase não me vês, não me ouves
Acompanho-te ao ónibus
Não posso articular palavra
Vais-te em silêncio
Eu tomo o ónibus seguinte,
nada me incomoda, nem o tumulto nem as vozes,
detenho-me na ponte,
os pares a brincar sobre a erva,
muito longe a minha casa
Entro, subo a escada
Revejo a minha vida e em cada imagem tu estás,
em cada imagem pertences,
abro a porta, o apagão da luz, que maravilha,
estiro-me na cama, escuro, em silêncio.
Lá fora, se calhar, continua a cair a chuva.

(Trad. A.M.)

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11.7.19

Meira Delmar (Hóspede sem sombra)





HUÉSPED SIN SOMBRA



Nada deja mi paso por la tierra.
En el momento del callado viaje
he de llevar lo que al nacer me traje:
el rostro en paz y el corazón en guerra.

Ninguna voz repetirá la mía
de nostálgico ardor y fiel asombro.
La voz estremecida con que nombro
el mar, la rosa, la melancolía.

No volverán mis ojos renacidos
de la noche a la vida siempre ilesa,
a beber como un vino la belleza
de los mágicos cielos encendidos.

Esta sangre sedienta de hermosura
por otras venas no será cobrada.
No habrá manos que tomen, de pasada,
la viva antorcha que en mis manos dura.

Ni frente que mi sueño mutilado
recoja y cumpla victoriosamente.
Conjuga mi existir tiempo presente
sin futuro después de su pasado.

Término de mí misma, me rodeo
con el anillo cegador del canto.
Vana marea de pasión y llanto
en mí naufraga cuanto miro y creo.

A nadie doy mi soledad. Conmigo
vuelve a la orilla del pavor, ignota.
Mido en silencio la final derrota.
Tiemblo del día. Pero no lo digo.


Meira Delmar




Nada fica da minha passagem na terra.
No momento da partida,
levarei o que trouxe ao nascer,
o rosto em paz, o coração em guerra.

Nenhuma voz repetirá a minha
de ardor nostálgico, de fiel assombro,
a voz estremecida com que nomeio
o mar, a rosa, a melancolia.

Meus olhos renascidos da noite
para a vida sempre ilesa
não voltarão a beber o vinho da beleza
dos mágicos céus incendidos.

Este sangue sedento de beleza
não será cobrado por outras veias.
Nem mãos haverá que tomem, de passagem,
a tocha viva que me arde nas mãos.

Nem frente que meu sonho mutilado
recolha e cumpra vitorioso.
Meu existir combina tempo presente
sem futuro depois de seu passado.

Termo de mim mesma, ponho
o anel cegador do canto.
Maré vã de pranto e paixão,
em mim naufraga quanto olho e creio.

A ninguém dou minha solidão. Ignota,
volta comigo à margem do pavor.
Em silêncio meço a derrota final,
tremo do dia, mas não o digo.


(Trad. A.M.)

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10.7.19

Eucanaã Ferraz (O ator)






O ATOR



Pensei em mentir, pensei em fingir,
dizer: eu tenho um tipo raro de,
estou à beira,
embora não aparente. Não aparento?
Providências: outra cor na pele,
a mais pálida; outro fundo para a foto:
nada; os braços caídos, um mel
pungente entre os dentes.
Quanto à tristeza
que a distância de você me faz,
está perfeita, fica como está: fria,
espantosa, sete dedos
em cada mão. Tudo para que seus olhos
vissem, para que seu corpo
se apiedasse do meu e, quem sabe,
sua compaixão, por um instante,
transmutasse em boca, a boca em pele,
a pele abrigando-nos da tempestade lá fora.
Daria a isso o nome de felicidade,
e morreria.
Eu tenho um tipo raro.


Eucanaã Ferraz

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8.7.19

Pedro Sevilla (O tempo)





EL TIEMPO



Era en el alto espejo del tocador aquel.

Mi madre, jovencísima, adolescente casi,
con los hombros desnudos,
se retoca el peinado
y a través del cristal me mira y me sonríe.

Por el postigo abierto de la ventana azul,
mariposa amarilla,
entra un rayo de sol que se posa en su cuello,
tiembla un poco y se va
dejando imperceptibles quemaduras.

Luego llegó el incendio de los años.


Pedro Sevilla

[La mirada del lobo]




Era no espelho alto do toucador.

Minha mãe, muito jovem, quase adolescente,
os ombros despidos,
retoca o penteado
e pelo vidro olha para mim e sorri-me.

Pelo postigo aberto da janela azul,
borboleta amarela,
entra um raio de sol que lhe pousa no pescoço,
estremece um pouco e vai-se,
deixando queimaduras imperceptíveis.

Depois veio o incêndio dos anos.

(Trad. A.M.)

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7.7.19

Raúl González Tuñón (A liberdade)




LA LIBERTAD


I

De pronto entró la Libertad.

La Libertad no tiene nombre,
no tiene estatua ni parientes.
La Libertad es feroz.
La Libertad es delicada.

La Libertad es simplemente
la Libertad.

Ella se alimenta de muertos.
Los Héroes cayeron por Ella.
Sin angustia no hay Libertad,
sin alegría tampoco.
Entre ambas la Libertad
es el armonioso equilibrio.

Nosotros tenemos vergüenza,
la Libertad no la tiene,
la Libertad anda desnuda.
(Y el señor Jesucristo dijo
que el reino de Dios vendrá
cuando andemos de nuevo desnudos
y no tengamos vergüenza.)

Hermanos, nosotros sabemos,
pero la Libertad no sabe.


II

Hay que ser piedra o pura flor o agua,
conocer el secreto violeta de la pólvora,
haber visto morir delante del relámpago,
conocer la importancia del ajo y el espliego,
haber andado al sol, bajo la lluvia, al frío,
haber visto a un soldado con el fusil ardiente,
cantando, sin embargo, la Libertad querida.

Viva el amor, la vida poderosa,
la muerte creadora de olores penetrantes
y eso porque uno muere y resucita,
la luz sobre los techos de la aurora,
sobre las torres del petróleo,
sobre las azoteas de las parvas,
sobre los mástiles del queso y el vino,
sobre las pirámides del cuero y el pan,
la gente retornando,
una ventana con la bandera en familiar bordado
y la exacta ambulancia, con heridos,
cantando, sin embargo, la Libertad querida.

Hay que ser como el puente necesario,
natural como el lirio, como el toro,
saber llegar al fondo del silencio,
al subsuelo del brote y a la raíz del grito,
hay que haber conocido el miedo y el valor,
haber visto una mano que agita una linterna
de noche, hacia el distante nido de metralla,
hay que haber visto a un muerto cicatrizado y solo
cantando, sin embargo, la Libertad querida.


III

De pronto entró la Libertad.

Estábamos todos dormidos,
algunos bajo los árboles,
otros sobre los ríos,
algunos más entre el cemento,
otros más bajo la tierra.

De pronto entró la Libertad
con una antorcha en la mano.

Estábamos todos despiertos,
algunos con picos y palas,
otros con una pantalla verde,
algunos más entre libros,
otros más arrastrándose, solos.

De pronto entró la Libertad
con una espada en la mano.

Estábamos todos dormidos,
estábamos todos despiertos
y andaban el amor y el odio
más allá de las calaveras.

De pronto entró la Libertad,
no traía nada en la mano.

La Libertad cerró el puño.
¡Ay! Entonces...


Raúl González Tuñón




I

De repente entrou a Liberdade.

A Liberdade não tem nome,
não tem estátua nem parentes,
a Liberdade é feroz,
a Liberdade é delicada.

A Liberdade é simplesmente
a Liberdade.

Ela alimenta-se de mortos,
os Heróis caíram por Ela.
Sem angústia não há Liberdade,
sem alegria tão pouco.
Entre ambas a Liberdade
é o harmonioso equilíbrio.

Nós todos temos vergonha,
a Liberdade não,
a Liberdade anda despida.
(E Jesus Cristo, Nosso Senhor, disse
que o reino de Deus há-de vir
quando andarmos novamente despidos
e não tivermos vergonha)

Irmão, nós sabemos,
mas a liberdade não sabe.


II

Há que ser pedra, água ou pura flor,
conhecer o segredo violeta da pólvora,
ter visto a morte face ao relâmpago,
saber a importância do alho, da alfazema,
ter andado ao sol, à chuva, ao frio,
ter visto um soldado com a arma escaldante,
cantando, não obstante, a Liberdade querida.

Viva o amor, a vida poderosa,
a morte criadora de cheiros penetrantes,
já que a gente morre e ressuscita,
viva a luz nos telhados da aurora,
nas torres de petróleo,
nos sótãos e nos terraços,
nos braços do queijo e do vinho,
nas pirâmides do couro e do pão,
as pessoas a regressar,
uma janela de cortina bordada
e a exacta ambulância, com feridos,
cantando, não obstante, a Liberdade querida.

Há que ser como a ponte necessária,
natural como o lírio, como o touro,
saber ir ao fundo do silêncio,
ao subsolo do rebento, à raiz do grito,
há que ter conhecido o medo e a coragem,
ter visto uma mão agitando a lanterna
de noite, para o distante ninho da metralha,
há que ter visto um morto recuperado e solitário,
cantando, não obstante, a Liberdade querida.


III

De repente, entrou a Liberdade.

Estávamos todos dormindo,
uns debaixo das árvores,
outros sobre os rios,
outros ainda sobre o betão
ou mesmo debaixo de terra.

De repente entrou a Liberdade
com uma tocha na mão.

Estávamos todos despertos,
uns armados de pau e pico
e outros de lenço verde,
uns no meio dos livros
e outros ainda pelo chão,
arrastando-se, sozinhos.

De repente entrou a Liberdade
com uma espada na mão.

Estávamos todos dormindo,
estávamos todos despertos,
enquanto o amor e o ódio
vagavam entre as caveiras.

De repente entrou a Liberdade
e não trazia nada na mão.

A Liberdade cerrou o punho.
Ai, então…


(Trad. A.M.)

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5.7.19

Egito Gonçalves (Notícia para colar na parede)





NOTÍCIA PARA COLAR NA PAREDE



Por aqui andamos a morder as palavras
dia a dia no tédio dos cafés
por aqui andaremos até quando
a fabricar tempestades particulares
a escrever poemas com as unhas à mostra
e uma faca de gelo nas espáduas
por aqui continuamos ácidos cortantes
a rugir quotidianamente até ao limite da respiração
enquanto os corações se vão enchendo de areia
lentamente
lentamente


Egito Gonçalves

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