10.3.26

Fernando Beltrán (Batota para perder)




TRAMPAS PARA PERDER


Mi madre me enseñó a hacer trampas

Trampas para perder

Ganar era tan fácil que lloraba de noche
y no podía conciliar el sueño

Cogidos de la mano me calmaba
relatándome historias que sucedieron luego

La culpa fue mía,

madre me preguntaba
si las quería reales o inventadas,
y yo pedía siempre que le hubieran
sucedido a ella

Y casi sin quererlo
una noche mi madre inventó la realidad

 

 Fernando Beltrán

[Aula de las metaforas]



Minha mãe ensinou-me a fazer batota

Batota para perder

Ganhar era tão fácil que eu chorava de noite
e não conseguia adormecer 

Ela acalmava-me com a mão dela na minha
contando-me histórias que depois aconteceram

A culpa foi minha,

ela perguntava se eu as queria reais ou inventadas
e eu dizia sempre, que lhe tivessem
acontecido a a ela

E aí quase sem querer
uma noite minha mãe inventou a realidade 

(Trad. A. M.)

 .

8.3.26

Francisco Caro (Altas nuvens de Janeiro)




ALTAS NUBES DE ENERO

 

Ojalá y nunca, Konstandino,
necesitemos a tus bárbaros

y sea la llegada de un poema
el hecho que nos salve
de la inacción,
del envilecimiento.


Francisco Caro

 

Oxalá que nunca, Konstandino,
precisemos dos teus bárbaros

e seja a chegada de um poema
o facto que nos salve
da inacção,
da vil tristeza.


(Trad. A.M.)

.

6.3.26

Georgina Ramírez (Outubro)




OCTUBRE

 

Nunca hubo tanto vacío
en nuestras vidas
como este tiempo
de tu ausencia
Hemos sido desierto y sed
pero en tu orilla
siempre agua fresca
amparo
Una espalda
siempre fuiste
y sin ti
somos apenas
trozos de familia
espacios en blanco
que se llenan
de silencio


Georgina Ramírez

 


Nunca houve tanto vazio
nas nossas vidas
como neste tempo
da tua falta
Temos sido deserto e sede
mas na tua margem
sempre amparo
e água fresca
Umas costas
foste-nos sempre
e sem ti
somos apenas
bocados de família
espaços em branco
cheios de silêncio.


(Trad. A.M.)



OCTUBRE

 

Nunca hubo tanto vacío
en nuestras vidas
como este tiempo
de tu ausencia
Hemos sido desierto y sed
pero en tu orilla
siempre agua fresca
amparo
Una espalda
siempre fuiste
y sin ti
somos apenas
trozos de familia
espacios en blanco
que se llenan
de silencio


Georgina Ramírez

 


Nunca houve tanto vazio
nas nossas vidas
como neste tempo
da tua falta
Temos sido deserto e sede
mas na tua margem
sempre amparo
e água fresca
Umas costas
foste-nos sempre
e sem ti
somos apenas
bocados de família
espaços em branco
cheios de silêncio.


(Trad. A.M.)



OCTUBRE

 

Nunca hubo tanto vacío
en nuestras vidas
como este tiempo
de tu ausencia
Hemos sido desierto y sed
pero en tu orilla
siempre agua fresca
amparo
Una espalda
siempre fuiste
y sin ti
somos apenas
trozos de familia
espacios en blanco
que se llenan
de silencio


Georgina Ramírez

 


Nunca houve tanto vazio
nas nossas vidas
como neste tempo
da tua falta
Temos sido deserto e sede
mas na tua margem
sempre amparo
e água fresca
Umas costas
foste-nos sempre
e sem ti
somos apenas
bocados de família
espaços em branco
cheios de silêncio.


(Trad. A.M.)

.

4.3.26

Jonio González (Rabino)




RABINO

 

si todo peso es ligero
con respecto a otro
y la moneda en la mesa
es un signo del hambre

si una vara de oro
mide igual
que una vara de sueño

¿por qué apoyar la frente
en la luz
a la hora doméstica
en que la verdad se revela?

sólo el hombre justo
sabe que no lo es

Jonio González



se todo o peso é leve
com relação a outro
e a moeda sobre a mesa
é um sinal da fome

se uma vara de ouro
mede igualmente
como uma vara de sonho

porque apoiar a fronte
na luz
à hora doméstica
em que a verdade se revela?

só o homem justo
sabe que o não é


(Trad. A.M.)

.

2.3.26

Francisco J. Craveiro Carvalho (Geminação)




GEMINAÇÃO 

 

Pelo jornal de hoje eu
inesperado acabo
de saber que morreu
uma vizinha. Na casa
geminada com a minha.      
 

FRANCISCO J. CRAVEIRO CARVALHO
Cinco
(2023)

                         

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28.2.26

Efi Cubero (Presente)

 



PRESENTE 

 

No queda otro remedio
que replegarme al fondo de mí misma
de una justa manera
cuando el presente ya es solo pasado
y el futuro ilusorio apunta a lo finito.
Atenta a jerarquías más precisas,
me inclino hacia otro tiempo
para hallar esta voz que parpadea:
fulgor que sobrevive.
Aún no he pasado, como las estrellas.
 

Efi Cubero

 

Não há outro remédio
senão recolar-me no fundo de mim mesma
de um modo justo
quando o presente é só passado já
e o futuro ilusório aponta para o finito.
Atenta a hierarquias mais precisas,
inclino-me para outro tempo
para achar esta voz que cintila
- fulgor que sobrevive.
Eu não passei ainda, como as estrelas.

 
(Trad. A.M.)

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27.2.26

José Cereijo (Nunca)

 



NUNCA

 

Nunca dormí en tus brazos.
Nunca me desperté de madrugada y vi el armario, la ventana, los libros,
o escuché el ruido de las cañerías, los pasos solitarios en la calle,
y pensé, incrédulo, que, puesto que todo aquello era real,
tú también debías serlo.
No supe a qué sabían tus labios, o tu risa.
No te vi desnudarte.
No supe ni sabré jamás cómo tus ojos, en el acto del amor,
incendiaban la noche.
Esa ausencia es, lo sé bien, una mutilación irremediable;
es un triste muñón, que llevaré conmigo hasta la muerte.
También es, a su modo, forma y prueba de amor,
de lúcido y humillado amor,
de devastado y verdadero amor, que ofrezco a tu recuerdo.
 

José Cereijo

 

Nunca dormi em teus braços,
nunca acordei de manhã a ver o armário, a janela, os livros,
ou escutei o ruído dos canos, os passos solitários na rua,
e pensei, incrédulo, que sendo tudo isso real
tu também devias ser.
Não soube a que sabiam teus lábios, ou teu riso,
não te vi a despir,
não soube nem saberei nunca como teus olhos, no amor,
incendiavam a noite.
Essa falta, bem sei, é uma mutilação sem remédio,
um triste coto de um braço que levarei comigo até à morte.
É também, a seu modo, forma e prova de amor,
de lúcido humilhado amor,
de devastado e verdadeiro amor,
que eu ofereço à tua lembrança.
 

(Trad. A.M.)

 .