22.1.19

Rui Knopfli (A pedra no caminho)





A PEDRA NO CAMINHO



Toma essa pedra em tua mão,
toma esse poliedro imperfeito,
duro e poeirento. Aperta em
tua mão esse objecto frio,
redondo aqui, acolá acerado.
redondo aqui, acolá acerado.

Segura com força esse granito
bruto. Uma pedra, uma arma
em tua mão. Uma coisa inócua,
todavia poderosa, tensa,
em sua coesão molecular,
em suas linhas irregulares.

Ao meio-dia em ponto, na avenida
ensolarada, tu és um homem
um pouco diferente. Ao meio-dia
na avenida tu és um homem
segurando uma pedra. Segurando-a
com amor e raiva.


Rui Knopfli

[À sombra dos palmares]


Drummond-No meio do caminho

.


21.1.19

Jesús Lizano (A ordem)





EL ORDEN



¡Esto es el Orden!
Todo
sumido en un orden,
todo pendiente de las órdenes,
de los mecanismos, de los uniformes,
de las fronteras, de los principios,
de los códigos, de los fines.
¡Esto es el Orden!

Símbolos, mensajes, leyes
ordenamientos, conceptos,
plaga de conceptos,
desde que nacemos
hasta que morimos,
todos
esclavos de los conceptos.

Pero ¿nacemos? ¿morimos?
¿Es posible tal cosa
en medio de tanto Orden?

Y ordenadores, ordenadores:
faltaba este gran invento
para que todo sea un Orden.

¡Un Orden!
¡Esto es un Orden!
¡Ordeno y mando!
¡A sus órdenes!

Un Orden nuestra Razón,
esa sí que es un Orden,
de la que nacen todas las órdenes,
madre de nuestros crímenes,
sombra de nuestras luces,
pozo de nuestros sueños:
¡La payasa del mundo!

Consignas, mandamientos:
cómo diez mandamientos:
¡miles y miles de mandamientos!

Cálculos, clasificaciones,
rituales, miles de rituales.
Todo medido,
todo milimétrico.
¡Como vamos a ser únicos y compañeros!
Orden de Malta,
Orden de San Benito,
órdenes mendicantes,
órdenes y contraórdenes.
¡La cuadratura del círculo!
¡La cuadratura de la Belleza!
¡La cuadratura del pensamiento!
   (…)

Jesús Lizano




Esta é a Ordem!
Tudo
metido na ordem,
tudo suspenso das ordens,
dos mecanismos, dos uniformes,
das fronteiras, dos princípios,
dos códigos, dos fins.
Esta é a Ordem!

Símbolos, mensagens e leis,
ordenamentos, conceitos,
praga de conceitos,
desde que nascemos
até que morremos,
todos
escravos dos conceitos.

Mas nascemos? Morremos?
Será tal coisa possível
no meio de tanta Ordem?

E ordenadores, ordenadores,
faltava este grande invento
para tudo estar em ordem.

Uma Ordem!
Esta é uma Ordem!
Ordeno e mando!
Às suas ordens!

Uma Ordem nossa Razão,
essa é que é uma Ordem,
de que nascem todas as ordens,
mãe de nossos crimes,
sombra de nossas luzes,
poço de nossos sonhos
- a palhaça do mundo!

Consignas e mandamentos
- como dez mandamentos?
Milhares e milhares de mandamentos!

Cálculos, classificações,
rituais, centos de rituais.
Tudo medido,
tudo milimétrico.
Como podemos ser únicos e companheiros?
Ordem de Malta,
Ordem de São Bento,
ordens mendicantes,
ordens e contra-ordens.
A quadratura do círculo!
A quadratura da Beleza!
A quadratura do pensamento!
   (…)

(Trad. A.M.)


20.1.19

Antonio Fernández Lera (Casa só)




CASA SOLA

            (A mi padre, cuatro meses después)


1
Todas las palabras, hoy,
más vacías que nunca,
menos tu voz
pequeña y dulce.
Todo el mar en el mundo
menos que tu voz
y que el agua en tus labios.
Tu boca y tus ojos el refugio
que más necesito: el exacto refugio,
siempre y ahora.


2
Luz muy suave
pero ignoro si entre sombras
(palabras inútiles)
y el resplandor del sol
o entre los ecos de la lluvia
y el rescoldo tranquilo de tus ojos
voy a ser capaz de seguir escribiendo
cuando el recuerdo sigue siendo más fuerte
que todos los futuros.


3
El otoño está siendo
triste y un poco absurdo.
Nada es extraño ni especial.
El verano
devora las cosas
y luego desaparece
y en las miradas queda un sendero hacia adentro
y en la risa una tos de tristeza y agobio
y nos quedamos quietos
–y sin saber qué hacer–
sin tu risa y tus ojos.
 
   (...)

Antonio Fernández Lera



1
Todas as palavras, hoje,
mais vazias que nunca,
menos tua voz,
doce, pequena.
Todo o mar no mundo
menos que tua voz
e a água em teus lábios.
Tua boca e teus olhos,
o refúgio que mais necessito,
o exacto refúgio, sempre e agora.


2
Luz suavíssima,
mas ignoro se entre sombras
(inúteis palavras)
e o esplendor do sol
ou entre os ecos da chuva
e o sereno calor de teus olhos
serei capaz de continuar a escrever,
quando a lembrança é ainda mais forte
que todos os futuros.


3
O outono vai triste
e um pouco absurdo.
Nada de estranho nem especial.
O verão
devora as coisas
e desaparece a seguir
e fica nos olhares um carreiro para dentro
e assim no riso uma tosse de tristeza e angústia
e nós ficamos quedos
- e sem saber que fazer -
sem teu riso e teus olhos.
   (…)

(Trad. A.M.)

.


19.1.19

Rosa Alice Branco (O cão que me tinha)





O CÃO QUE ME TINHA



Eu tive um cão ou era ele
que me tinha e me deixava à solta
guiada sem saber que ia.
Tomava as minhas feridas,
a tristeza que eu pudesse ter
e sofria dela como eu nem sofria.
Trocava de mal trocando-lhe as voltas.
Punha a coleira ao pescoço
e levava-me a passear
como se eu fosse o dono.
E à noite dormia no chão
ou então fingia. Eu acordava
com um servo aos pés da cama,
armava-me em amo
e era ele que me tinha.
Exímio no silêncio
e no uso das armas
com que me defendia
de todos e também de mim:
a linha veloz do pêlo luzidio,
o frémito da língua,
o focinho em arco para a escuta.
Era um cão que me tinha
e uma tarde de verão
atirei-lhe um osso gostoso
antes de o deixar no canil.


Rosa Alice Branco

18.1.19

Álvaro Valverde (Banho)




BAÑO



Ayer, en el molino,
me bañé otra vez solo
en el estanque.

Como siempre, al entrar,
aquel me pareció mi primer baño.

Como siempre, al salir,
tuve la sensación
de que era el último.


Álvaro Valverde

[La mirada del lobo]




Ontem no moinho,
mais uma vez tomei banho
sozinho
no tanque.

Como sempre, ao entrar,
pareceu-me a primeira vez.

Como sempre, ao sair,
tive a sensação
de que era a última.

(Trad. A.M.)

17.1.19

Jon Juaristi (Noite das almas)





NOCHE DE ÁNIMAS

                 (A Karmelo Iribarren)


Desordenada mesa que es espejo
De un desorden más íntimo y acaso
Irremediable ya, mientras me alejo

Por una estrada oscura, paso a paso,
Hacia la última orilla,
Sin otro capital que mi fracaso.

Desordenada mesa, astrosa silla,
Libros que no abriré en altos estantes
Y una tenue bombilla

Presidiendo las horas vacilantes
En que toda esperanza se desploma

(la vida que soñé:
menuda broma).


Jon Juaristi

[Facebook]




Desordenada mesa, espelho
de uma desordem mais íntima, talvez
já irremediável, enquanto eu me afasto

por escuro caminho, passo a passo,
para a margem do fim,
sem outro capital senão o fracasso.

Desordenada mesa, cadeira arruinada,
livros que não abrirei em estantes altas
e uma lâmpada fraca

presidindo às horas indecisas
em que a esperança se desmorona

(a vida que eu sonhei:
uma piada sem importância).


(Trad. A.M.)


16.1.19

António Ramos Rosa (A palavra)




A PALAVRA



A palavra é uma estátua submersa, um leopardo
que estremece em escuros bosques, uma anémona
sobre uma cabeleira. Por vezes é uma estrela
que projecta a sua sombra sobre um torso.
Ei-la sem destino no clamor da noite,
cega e nua,mas vibrante de desejo
como uma magnólia molhada. Rápida é a boca
que apenas aflora os raios de uma outra luz.
Toco-lhe os subtis tornozelos,os cabelos ardentes
e vejo uma água límpida numa concha marinha.
É sempre um corpo amante e fugidio
que canta num mar musical o sangue das vogais.


António Ramos Rosa

[Escritas]

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