7.5.21

Mario Miguez (Eu sujo tudo)



Ensucio todo hablando demasiado.                 
Cobarde charlatán, ruidoso hipócrita,
solo de mis mentiras me quejo.
Qué duro me es callarme para lograr
una palabra humilde y necesaria
tras de la cual yo quede imperceptible.
Debo callar, permanecer callado.
Aunque lo sé de siempre, no lo cumplo:
mi voz tengo que hacerla de silencio.


Mario Miguez

 

  

Eu sujo tudo por falar demasiado.
Cobarde charlatão, ruidoso hipócrita,
queixo-me só de minhas mentiras.
Quanto me custa calar-me para achar
uma palavra humilde e necessária
por trás da qual eu fique imperceptível.
Devo calar-me, permanecer calado.
Desde sempre o sei, mas não o cumpro:
minha voz tenho de fazê-la com silêncio.


(Trad. A.M.)

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5.5.21

Eugénio de Andrade (Este país é um corpo exasperado)



Este país é um corpo exasperado,
a luz da névoa rente ao peito,
a febre alta à roda da cintura.  

O país de que te falo é o meu,
não tenho outro onde acender o lume
ou colher contigo o roxo das manhãs.  

Não tenho outro, nem isso importa,
este chega e sobra para repartir
com os corvos - somos amigos.
 

Eugénio de Andrade


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3.5.21

Mario Benedetti (Garrafa ao mar)




GARRAFA AO MAR

 

Meto estes seis versos na garrafa
com o secreto desígnio de que um dia
chegue a uma praia quase deserta
e a ache uma criança e a abra
e em vez de versos tire pedrinhas
e socorros e alertas e búzios.


Mario Benedetti

(Trad. A.M)

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2.5.21

Mariano Crespo (A família)




LA FAMILIA 

 

La familia es un armario lleno de cadáveres
que hieden por navidad
y por todos los santos huelen a flores.  

La familia es un abrigo que pica
y que protege
hasta que sabes que te identifica
y que te anula. 

La familia es ese gusto por mandar 
y obedecer
al que llamamos orden. 

Por asesinar al padre y a la madre,
o llevarlos a los altares,
que es igual pero no es lo mismo 
porque es un trabajo más limpio. 

La familia es una vocación suicida de hacer de dioses. 

Por eso don Vito nos parece tan cercano.
Por eso hay mañanas que nos levantamos Corleone. 

La familia es una secta. 

Un lugar de cuyas cercas es sano escaparse
si no se comete la torpeza
de perpetrar otra cerca, una secta nueva,
como comúnmente se hace. 

La familia es el arroz en día de bodas
y la tierra y el reparto en día de luto.
La familia es el esperma, el ovario y el revolver.
La familia es la soga en la casa del ahorcado.
El silencio cómplice.
La llamada de la sangre. 

Además de eso, 
en ocasiones, 
nos parecemos físicamente, 
lo que nos jode. 
 

Mariano Crespo 

 

A família é um armário cheio de cadáveres
que cheiram mal pelo natal
e fora disso cheiram a flores. 

A família é um agasalho que pica
e que protege 
até saberes que te identifica
e te anula. 

A família é aquele gosto de mandar
e obedecer
a que chamamos ordem.

De assassinar pai e mãe,
ou de pô-los num altar,
o que é igual mas não vale o mesmo,
porque é um trabalho mais limpo. 

A família é uma vocação suicida de imitar os deuses. 

Por isso don Vito nos parece tão próximo,
por isso há dias em que nos levantamos Corleone. 

A família é uma seita. 

Um lugar de cujos muros é saudável fugir,
se não arranjamos novos muros,
uma seita nova, como geralmente se faz. 

A família é o arroz do dia de casamento, 
e a terra e a partilha em dia de luto.
A família é o esperma, o ovário e o revólver.
A família é a corda em casa do enforcado,
o silêncio cúmplice,
o apelo do sangue. 

Além disso,
por vezes,
somos parecidos fisicamente,
e é chato.

(Trad. A.M.)

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30.4.21

Eucanaã Ferraz (18.5.1961)



(18.5.1961)

  

Nasci num lugar pobre,
onde o hospital era longe,
onde era longe a estrada
e os anjos não conheciam:

Nasci mês de maio, azul
de tardes macias,
de pai José,
mãe Maria.

Batizaram-me: Terra Prometida.
Terra pobre, onde a felicidade passa 
longe, mas daqui eu a vejo
e todo o meu corpo brilha.

Eucanaã Ferraz

[Acontecimentos]

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28.4.21

Efi Cubero (Equilíbrio)



EQUILIBRIO

 

Ser manantial tan solo,
huir de los espejos,
pues aquél que conoce los exilios
siente que en el principio se halla todo
que todo vuelve siempre a comenzar
ya que todo final es insaciable.
Siempre este espacio de revelación
de un agua especular que apenas sacia
nuestra sed de infinito.


Efi Cubero

 

 

Ser manancial apenas,
fugir dos espelhos,
pois aquele que conhece os exílios
sente que tudo está no princípio,
que tudo volta sempre a começar,
já que todo o fim é insaciável.
Sempre este espaço de revelação 
de uma água especular que mal sacia
a nossa sede de infinito.


(Trad. A.M.)

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27.4.21

Miguel Gaya (Hoje comprei um livro)



Hoy compré un libro. No pude leerlo.
No me resultó caro, pero el precio es alto 
cuando no se puede leer lo que se tiene.
No entiendo el lenguaje en que está escrito,
no sé lo que dice el autor, los signos 
no tienen significado para mí.
Repaso las páginas con cuidado, 
las doy vuelta con esmero, las aliso
y aplasto suavemente, siguiendo con el dedo
los renglones escritos, los espacios en blanco,
y nada me dicen. Ajusto mis anteojos 
sobre el puente de la nariz, suspiro
y recomienzo. No importa cuánto me esmere,
no importa mi voluntad: el libro es mudo
y yo soy ciego ante él.
Cierro el libro y me pregunto
a cuántos mundos cierro 
con ese gesto, cuántas
historias he cegado, qué hombres y mujeres jamás
me hablarán, abrirán su corazón 
y sus mentes para mí, solo,
en la noche, contándome muy quedamente
sus mentirosas inconcebibles verdades.  


Miguel Gaya



Hoje comprei um livro, não consegui lê-lo.
Nem me ficou caro, mas é alto o preço
quando não se pode ler o que se tem.
Não entendo a linguagem da escrita,
nem sei o que diz o autor, aqueles signos
não têm significado para mim.
Remiro as páginas com cuidado,
volto-as com escrúpulo, aliso-as 
e carrego suavemente, seguindo com o dedo
as carreiras da escrita, os espaços em branco,
e nada me dizem. Ajusto os óculos 
no nariz, suspiro e recomeço.
Por muito que me esmere,
por muito que me esforce, o livro fica mudo
e eu cego diante dele.
Fecho o livro e pergunto-me
quantos mundos fecho eu nesse gesto,
quantas histórias apaguei, que homens e mulheres
jamais me falarão, ou abrirão o coração
e as mentes para mim apenas, na noite,
contando-me serenamente
suas mentirosas inconcebíveis verdades.

(Trad. A.M.)

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