1.6.26

Nuno F. Silva (4' 33)




4’ 33

 

Pode existir tanto inferno
em cinco minutos de silêncio.

Como na lentidão com que saio
da cama todas as manhãs.

Ninguém sabe.


Nuno F. Silva

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30.5.26

Julia Bellido (Com o tempo)




CON EL TIEMPO

 

Quiero ser, con el tiempo,
imperceptible. 

Ni siquiera un recuerdo o una sombra.

Difuminarme lenta
como lluvia que escampa y se evapora 

y no dejar ni un rastro ni una huella
por donde he caminado. 

Invisible, o casi,
también para mis ojos. 

Y al fondo del espejo
encontrar solo bruma.


Julia Bellido



Quero ser, com o tempo,
imperceptível.

Nem mesmo uma lembrança, uma sombra.

Esfumar-me lentamente,
como chuva que evapora, quando escampa.

Não deixar rasto, sequer uma pegada,
por onde passar.

Invisível, ou quase,
também a meus olhos.

E no fundo do espelho
achar apenas bruma.


(Trad. A.M.)

 .

28.5.26

Miguel Martins (Faltam cinco semanas)




Faltam cinco semanas, quase à justa,
para ficar sem casa, para ficar sem lua
(de merda, mas lua) onde aguardar a morte.
Faltam cinco semanas, talvez menos,
para que esta casa, como as outras,
seja uma linha na vã biografia
de tudo o que não fui e não serei.
Faltam cinco semanas (menos mal?)
para ingressar no nomadismo extremo,
desporto radical ao acesso dos velhos
com metade dos dentes e a estupidez inteira.
Eu não gosto de cães, gosto de tectos,
e faltam cinco semanas, mais ou menos,
Para viver nas sombras de um canil
a que parece que se chama mundo.


MIGUEL MARTINS

Telhados de Vidro, 19
(ed. Averno)

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26.5.26

José García Alonso (Aí fora)

 



AÍ FORA

 

Olhar-nos nos olhos,
traduzir a luz,
respirar e tremer,
disso vivemos.

Como nós 
também as sabinas são árvores 
tristes
que ao vento perguntam
quanto devem resistir,
se a ventura não estará em partir.

Tudo o que amamos e não sabemos
está aí fora,
doendo.

JOSÉ GARCÍA ALONSO
Erosión (2024)

(Trad. A.M.)

 

>>  Voces del Extremo (3p) / El paseante vallisoletano (2p) / AEEX (ficha) / Garcia Alonso (blogue)

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24.5.26

Mário Cesariny (Do capítulo da devolução)




DO CAPÍTULO DA DEVOLUÇÃO
 


Hoje venho dizer-te que morreste e que velo o teu corpo no meu
leito, um corpo estranho e surdo um corpo incompreensível

aquele desespero que deixou de ter forças para erguer os portais do
outro reino tristeza de menino a quem tiraram tudo, até 
a tinta e as flores e o prazer de gritar

esse (foi visto) deve subsistir porque é a tua maneira de tomar banho
no cosmos, olhar o cosmos como os que ainda podem
interrogar as ondas e morrer

mas tu ainda não sabes a que ponto morreste; vais até à janela, aspiras
com cuidado o oxigénio que o espaço te oferece, apontas
rindo a meiga criatura que pela rua arrasta a sua condição
de animal fulminado

depois olhas para mim, olhas as tuas mãos, e elas ambas, tão claras,
tão seguras, são as mãos de um soldado a arder em febre,
aves a percorrer o seu novo deserto

mas sabes, tu viste, e mais do que eu; a mão do homem é doce e
iluminada como a noite como um rasto de fumo sobre
os hospitais

tivemos uma história mas a história foi-se, em fileiras angélicas e 
gratas, a fazer a manhã de outras paragens; outra sombra, 
outros olhos semelhantes

noutro leito nas nuvens deito os teus cabelos, o teu cansaço e a
minha miséria, os teus braços e os meus, altos como
cidades, altos como flores

parou o automóvel, lá em baixo, e eu não tenho mais que descer as
escadas, fechar ainda a porta do teu quarto, atravessar de 
um pulo a minha própria vida

agora posso sonhar até deixar de te ver

belo rio sem lágrimas

Mário Cesariny

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22.5.26

José Mateos (Canção n.º 5)




CANCIÓN 5

          (Diálogo en la oscuridad)       
                                        

Todavía algunas noches,
padre mío, me despiertas
y me preguntas, temblando,
como a través de la niebla,
si ha de venir algún día
para ti la primavera. 

-¿Es que no sabes que has muerto,
que donde estás no florece,
cuando es abril, la semilla,
aunque en el campo la entierres? 

Y contestas: -"Hijo, ¿cómo
me hablas estando yo ausente?
¿A quién de los dos, entonces,
está engañando la muerte?”
 

José Mateos

 

Algumas noites ainda,
meu pai, despertas-me
e perguntas, tremendo,
como que através da névoa,
se há-de vir algum dia
para ti a Primavera.

- Mas não sabes tu que morreste,
que lá onde estás não floresce
a semente, em Abril,
mesmo que a ponhas na terra?

E tu respondes: ‘Filho, se eu estou
ausente, como é que falas comigo?
A qual dos dois, portanto,
está a morte enganando?’


(Trad. A.M.)

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20.5.26

João de Mancelos (Um livro me leva)




UM LIVRO ME LEVA PELA MÃO


folheio, devagar, as páginas de um livro:
ondas pálidas e cardumes de letras negras
flutuam-me entre as mãos.

escuto o sussurro de poemas antigos,
deslizando sob os meus dedos,
na mútua carícia de quem troca o lume.

entre a capa e a contracapa,
versos e rimas murmuram, palavras
cálidas como uma mulher entreaberta.

e toda a noite o livro me leva pela mão,
em cada página, a ferida do amor
e o oceano de um branco quase azul.

é madrugada. fecho o livro.
tranquilas vozes adormecem-me
— e, no sono de um verso, naufrago.


João de Mancelos

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