2.8.26

Mario Benedetti (Como vai ser teu dia?)




CÓMO VA A SER TU DÍA HOY?

 

Esta mañana desperté emocionado 
con todas las cosas que tengo que hacer
antes que el reloj sonara.

Tengo responsabilidades que cumplir hoy. Soy importante.
Mi trabajo es escoger qué clase de día voy a tener.

Hoy puedo quejarme porque el día está lluvioso
o puedo dar gracias porque las plantas están siendo regadas.

Hoy me puedo sentir triste porque no tengo más dinero
o puedo estar contento porque mis finanzas me empujan
a planear mis compras con inteligencia.

Hoy puedo quejarme de mi salud
o puedo regocijarme de que estoy vivo.

Hoy puedo lamentarme de todo
lo que mis padres no me dieron mientras estaba creciendo
o puedo sentirme agradecido de que me permitieran haber nacido.

Hoy puedo llorar porque las rosas tienen espinas
o puedo celebrar que las espinas tienen rosas.

Hoy puedo autocompadecerme por no tener muchos amigos
o puedo emocionarme
y embarcarme en la aventura de descubrir nuevas relaciones.

Hoy puedo quejarme porque tengo que ir a trabajar
o puedo gritar de alegría porque tengo un trabajo.

Hoy puedo quejarme porque tengo que ir a la escuela
o puedo abrir mi mente enérgicamente
y llenarla con nuevos y ricos conocimientos.

Hoy puedo murmurar amargamente
porque tengo que hacer las labores del hogar
o puedo sentirme honrado
 porque tengo un techo para mi mente y cuerpo.

Hoy el día se presenta ante mí esperando a que yo le dé forma
y aquí estoy, soy el escultor.

Lo que suceda hoy depende de mí. Yo debo escoger qué tipo de día voy a tener.

Que tengas un gran día… a menos que tengas otros planes….
 

Mario Benedetti 


Hoje acordei, antes de o relógio tocar,
cheio de emoção
com tudo o que tenho para fazer.

Tenho responsabilidades a cumprir, sou muito importante.
Minha tarefa é escolher que espécie de dia vou ter.

Hoje posso queixar-me de estar a chover
ou posso dar graças por as plantas estarem a ser regadas.

Hoje posso sentir-me triste por não ter mais dinheiro
ou posso estar contente por as minhas finanças me obrigarem
a fazer as compras com inteligência.

Hoje posso queixar-me da saúde
ou posso regozijar-me de ainda estar vivo.

Hoje posso lamentar-me de tudo
o que os pais não me deram na infância
ou posso estar grato de me terem feito nascer.

Hoje posso chorar de as rosas terem espinhos
ou posso celebrar os espinhos terem rosas.

Hoje posso ter pena de mim por ter poucos amigos
ou posso emocionar-me
e entrar na aventura de fazer novas relações.

Hoje posso queixar-me de ter que ir trabalhar
ou posso gritar de alegria porque tenho trabalho

Hoje posso queixar-me por ter de ir para a escola
ou posso abrir a mente e enchê-la de novos e ricos conhecimentos.

Hoje posso murmurar amargamente
por ter de fazer os trabalhos da casa
ou posso sentir-me honrado
por ter um tecto para o corpo e espírito.

Hoje tenho o dia pela frente à espera que eu lhe dê forma
e cá estou eu, o escultor.

O que hoje acontecer depende de mim.
Eu é que tenho de escolher que tipo de dia vou ter.

Que tenhas um grande dia!...
A menos que tenhas outros planos…


(Trad. A.M.)

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31.7.26

José Saramago (O latifúndio é um mar interior)




(O latifúndio é um mar interior)

O latifúndio é um mar interior.
Tem seus cardumes de peixe miúdo e comestível, suas barracudas e piranhas de má morte, seus animais pelágicos, leviatãs ou mantas gelatinosas, uma bicheza cega que arrasta a barriga no lodo e morre sobre ele, e também grandes anéis serpentinos de estrangulação.
É mediterrânico mar, mas tem marés e ressacas, correntes macias que levam tempo a dar a volta inteira, e às vezes rápidos surtos que sacodem a superfície, são rajadas de vento que vem de fora ou desaguamentos de inesperados fluxos, enquanto na escura profundidade se enrolam lentamente as vagas, arrastando a turvidão da nutriente vasa, há quanto tempo isto dura.
São comparações que tanto servem como servem pouco, dizer que o latifúndio é um mar, mas terá sua razão de fácil entendimento, se esta água agitarmos, toda a outra em redor se move, às vezes de tão longe que os olhos o negam, por isso chamaríamos enganadamente pântano a este mar, e que o fosse, muito enganado vive quem de aparências se fia, sejam elas de morte.

JOSÉ SARAMAGO
Levantado do Chão
(1980)

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29.7.26

Mariano Peyrou (A concentração)

 



A CONCENTRAÇÃO



Nada melhor do que dedicar a tarde
às mudanças de luz na
janela, pressupondo que algo
do que tanto fere e mais
deleita depressa retomará
o seu lugar, a partir do qual emitia
umas pálidas ondas que só
intermitentemente geravam
uma leve apatia, ou adquirirá
contornos mais suaves, de modo a
que a sua proximidade apenas embacie
os vidros. Aqui há luz.
Ali apagam-se os sentidos.


Mariano Peyrou

(Trad. Manuel de Freitas)

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27.7.26

Alexandre Pinheiro Torres (A democracia plural)




A DEMOCRACIA PLURAL PORTUGUESA OCIDENTAL

 

Neste bairro onde miam gatas há dez mil de gente           Fácil:
contem-se todas as cabeças        uma por uma
uma de cada vez              Façam-se perguntas
Registem-se as respostas             Por exemplo: ao perguntar-se

Se ganham menos do que é necessário pra viver
façam uma cruz               Mas façam a mesma cruz
caso digam o contrário   Se tiverem um rádio vejam
o rádio e façam uma cruz no rádio

Se tiverem uma bicicleta cruz na bicicleta
Cruz nos aparelhos de TV            Cruz nos frigoríficos
Cruz se a barraca for deles           Cruz se for alugada
Cruz na idade que têm   Cruz se são solteiros ou casados

Cruzes em resumo em tudo o que é máquina
Máquinas de costura por exemplo           Vejam
se as rodas andam          Cruz       Cruz       Cruz       Cruz
Cruz no número de filhos            Não há nada que não conte

Depois de tudo passado a pente fino
contado              classificado         codificado           computorizado
é preciso calcular a média            Dividir o que há
por todos para que ninguém se queixe de injustiça

Os nomes não interessam            Os nomes não têm significado
Velho ou doente não se deixe ninguém de fora
Sendo assim até uma doente estéril ficará com
alguns filhos       Se a maioria passa fome calcule-se

a fome média    Estamos ou não na democracia
ocidental?           Todos têm de tê-la igual               Não haverá
desempregados porque todos    mas todos           terão uma
fracçãozinha de emprego para sustentar uma fracçãozinha

de família numa fracçãozinha de barraca              Nada pois
de sangueiras     ódios     ressentimentos                 Sobretudo nada de
provocações à Guarda nem de atacar o Quartel do
Carmo ou o palácio onde tanto se esforçam os doutores-deputados

Este é o conselho das pessoas sábias      Está aliás na
Constituição que             ó diabo                é preciso emendar para que
se prescreva       inalienável          o direito a fracções mais pequenas
Assim é que será bem plural e ocidental a democracia em Portugal


Alexandre Pinheiro Torres

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25.7.26

Mariana Finochietto (Detém-se a tarde)




(17)

 

La tarde 
se detiene,
suspendida
en los hilos
de luz
que teje
y desteje
el viento
entre las ramas. 

En este instante
de pájaros agrestes,
la pureza
y la crueldad
son las únicas
certezas
sobre el mundo.
 

Mariana Finochietto 

 

Detém-se a tarde, 
suspensa
nos fios
da luz
que o vento
tece
e destece
por entre os ramos. 

No instante 
de pássaros agrestes,
a pureza
e a crueldade
são as únicas
certezas
sobre o mundo.
 

(Trad. A.M.)

 .

23.7.26

Maria Esther Maciel (Pacto)




PACTO



Daquele que amo
quero o nome, a fome
e a memória. Quero
o agora. O dentro e o fora,
o passado e o futuro.
Quero tudo: o que falta
e o que sobra
o óbvio e o absurdo.


Maria Esther Maciel

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21.7.26

María Laura Decésare (De tarde)




EN LA TARDE 

 

Vi una flor llorar, qué cosa rara
pensé mientras el colibrí con su aleteo
intentaba animarla.
De pronto el cielo se abrió
y unas gotas comenzaron a caer
suaves sobre mí.
En lo simple me detengo y me levanto 
para ver los colores del arcoíris
belleza pura en la tarde de domingo.
 

María Laura Decésare 

[Otra iglesia] 

 

Vi chorar uma flor, coisa estranha
pensei enquanto o colibri 
tentava animá-la
batendo as asas.
De repente, o céu abriu
e algumas gotas começaram a cair
suaves sobre mim.
No simples me detenho e ergo-me
para ver as cores do arco-íris 
beleza pura na tarde de domingo.
 

(Trad. A.M.)

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