18.8.18

Eduardo Dalter (Escutai o vento)






        (Escuchad el viento:
                         John Coltrane)


No quiero armonía;
       escuchad
el viento que saco entre mi lengua
       y mis dientes
y pasa cortante
       por mi saxo.
No quiero armonía;
       quiero
perforar el aire;
       quiero
rehacer el rumbo de la calle
y andar después
       grave, distante,
musitando y callando
a todo piano.

Eduardo Dalter





Não quero harmonia;
escutai
o vento que tiro entre a língua
e os dentes
e me passa cortante
pelo saxe.
Não quero harmonia;
quero
perfurar o ar;
quero
refazer o rumo da rua
e andar depois
grave, distante,
murmurando e calando,
piano, piano.

(Trad. A.M.)

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17.8.18

Mário de Carvalho (Ó Eduarda!)






(Ó Eduarda!)



Quer-me parecer que o leitor, neste ponto, ávido de conhecimentos sobre o futuro de Joel Strosse manifesta alguma impaciência, que lha vejo na cara.

A que vem, irrita-se, esta Eduarda Galvão?

Peço-lhe serenidade e que não despegue do texto.

A literatura é coisa muito séria, onde não entra o zapping.

Eduarda tem um destino a cumprir e eu arranjarei maneira de a integrar na história, nem que tenha de fazer sair um deus duma máquina.

Por agora, traço-a assim em pinceladas rápidas, de zarcão, despachadamente, não me atardo nos pormenores, prescindo das espessuras, não me distraio com as cores e as luzes e vou muito direito à finalidade.

Mas lá que Eduarda faz falta, faz.

Depois verão.




MÁRIO DE CARVALHO
Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto
(1995)


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16.8.18

Eduardo Chirinos (Quando a morte ronda)






CUANDO NOS RONDA LA MUERTE



Un león llorando
tras las naves incendiadas. El fuego
del incendio.
¿Qué león?,
¿qué naves incendiadas? Toda

separación es muerte: la carne
que amamos, los ojos, los cabellos,
la deseada piel. El tiempo

nos expulsa de lo que alguna
vez fue nuestro. El tiempo
incendia, el tiempo desvanece.
Y el poema dice su verdad.

Aunque nunca lo escuchamos
el poema arranca nuestros ojos

y dice en voz baja su verdad.

Eduardo Chirinos





Um leão a chorar
depois das naves incendiadas.
 O fogo do incêndio.
Que leão?
que naves incendiadas? Toda

separação é morte, a carne
que amamos, os olhos, o cabelo,
a desejada pele. O tempo

rouba-nos aquilo
que um dia foi nosso. O tempo
incendeia, o tempo desvanece.
E o poema diz sua verdade.

Mesmo que nunca o escutemos
o poema arranca-nos os olhos

e diz em voz baixa sua verdade.

(Trad. A.M.)


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15.8.18

David González (As coisas pelo nome)





LAS COSAS POR SU NOMBRE



en primer lugar
y ya desde el principio
y por espacio de años y años
y venga años
procedieron a llenar
mi cabeza
de pájaros

que razonan encerrados
en jaulas
aprendiendo a hablar

pájaros, sí

cientos y miles y cientos
de miles
de pájaros
de todas las especies
habidas y por haber
(algunas
ya extintas)

y después
más adelante
cuando ya ni siquiera tenía
migas de pan que echarles
me pusieron en las manos
una cartuchera
y una escopeta de caza

a esto
la sociedad lo tachará
de suicidio

yo prefiero
darle otro nombre,
su verdadero nombre:

asesinato



David González

[Javier Das]





em primeiro lugar
e para começar
por anos e anos
e mais anos
andaram a encher-me
a cabeça de pássaros

que discutem encerrados
em jaulas
a aprender a falar

pássaros, sim

centos, milhares e centos
de milhares
de pássaros
de todas as espécies
havidas e por haver
(algumas
já extintas)

e depois
mais adiante
quando não tinha já sequer
migalhas de pão para atirar
meteram-me nas mãos
uma cartucheira
e uma arma de caça

a isto
a sociedade tachará
de suicídio

eu prefiro
dar-lhe outro nome,
o nome verdadeiro:

assassínio


(Trad. A.M.)

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14.8.18

Fernando Pessoa / A. Caeiro (Quando vier a primavera)






QUANDO VIER A PRIMAVERA



Quando vier a primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.

Se soubesse que amanhã morria
E a primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.


Alberto Caeiro

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13.8.18

Darío Jaramillo Agudelo (Da saudade-1)






DE LA NOSTALGIA (1)



Recuerdo solamente que he olvidado el acento de las más amadas voces, 
y que perdí para siempre el olor de las frutas de la infancia,
el sabor exacto del durazno, 
el aleteo del aire frío entre los pinos,
el entusiasmo al descubrir una nuez que ha caído del nogal.
Sortilegios de otro día, que ahora son apenas letanía incolora, 
vana convocatoria que no me trae el asombro de ver un colibrí entre mi cuarto, 
como muchas madrugadas de mi infancia.
¿Cómo recuperar ciertas caricias y los más esenciales abrazos?
¿Cómo revivir la más cierta penumbra, iluminada apenas con la luz de los Beatles,
y cómo hacer que llueva la misma lluvia que veía caer a los trece años?
¿Cómo tornar al éxtasis de sol, a la luz ebria de mis siete años,
al sabor maduro de la mora, 
a todo aquel territorio desconocido por la muerte,
a esa palpitante luz de la pureza,
a todo esto que soy yo y que ya no es mío?

Darío Jaramillo Agudelo




Recordo apenas que me esqueceu o som das mais amadas vozes
e perdi para sempre o cheiro das frutas da infância,
o sabor exacto do pêssego
o bater de asas do vento por entre os pinheiros,
o entusiasmo de achar uma noz caída da nogueira.
Sortilégios de outro tempo, agora apenas litania descolorida,
apelo vão que não me traz o assombro
de ver um colibri dentro do quarto,
como às vezes de madrugada em criança.
Como recuperar certas carícias e os abraços essenciais?
Como reviver a mais certa penumbra, iluminada só pela luz dos Beatles,
como fazer que chova a mesma chuva que via cair
nos meus treze anos?
Como voltar ao êxtase do sol, à luz ébria dos sete anos,
ao sabor maduro das amoras,
a todo esse território desconhecido da morte,
à palpitante luz da pureza,
a tudo isso que eu sou, mas que já não é meu?

(Trad. A.M.)


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12.8.18

Pablo de Rokha (Canto da fórmula estética)




CANTO DE LA FÓRMULA ESTÉTICA


1
Al poema, como al candado, es menester echarle llave; al poema, como a la flor, o a la mujer, o a la ciudad, que es la entrada del hombre; al poema, como al sexo, o al cielo.

2
Que nunca el canto se parezca a nada, ni a un hombre, ni a un alma, ni a un canto.

3
No es posible hacer el himno vivo con colores muertos, con verdades muertas, con deberes muertos, con amargo llanto humano; acciones de hombres, no, transmutaciones; que el poema devenga ser, acción, voluntad, organismo, virtudes y vicios, que constituya, que determine, que establezca su atmósfera, su atmósfera y la gran costumbre del gesto, juicio del acto; dejad, al animal nuevo la ley nueva que él cree, que él es, que él invente; asesinemos la amargura y aun la alegría, y ojalá el poema se ría solo, sin recuerdos, ojalá sin instintos.

4
¿Qué canta el canto? Nada. El canto canta, el canto canta, no como el pájaro, sino como el canto del pájaro.
   (...)


Pablo de Rokha




1
Ao poema, como ao cadeado, é preciso pôr-lhe chave; ao poema, assim como à flor, ou à mulher, ou à cidade, que é a entrada do homem; ao poema, como ao sexo, como ao céu.

2
Que nunca o canto se pareça com nada, nem um homem, uma alma, um canto sequer.

3
Não se pode compor o hino novo com cores mortas, com verdades mortas, com deveres mortos, com amargo humano pranto; actos de homens, não, transmutações; que o poema se faça ser, acção, vontade, organismo, virtude e vício, que constitua, que determine, que estabeleça sua atmosfera, sua atmosfera e o grande costume do gesto, juízo do acto; deixai, ao animal novo, a lei nova que ele criar, que ele for, que ele inventar; assassinemos a amargura, mas também a alegria, e oxalá o poema se ria só, sem recordações, queira Deus sem instintos.

4
O que canta o canto? Nada. O canto canta, o canto canta, não como o pássaro, mas sim como o canto do pássaro.
   (...)

(Trad. A.M.)



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