5.7.26

José Saramago (Cria a natureza)


(Cria a natureza)

Cria a natureza as suas diversas criaturas com admirável brutidade.
Entre mortos e aleijados, considera, não faltará quem escape para garantir os resultados da gerência, modo ambivalente e portanto equívoco de substantivar o gerir e o gerar, com aquela confortável margem de imprecisão que produz as mutações do que se diz, do que se faz e do que se é.
Não marca a natureza coutadas, mas aproveita delas.
E se depois das ceifas os mil formigueiros da seara não têm celeiro igual, os ganhos e perdas vão todos à grande contabilidade do planeta e nenhuma formiga fica sem a sua estatística parte de alimento.
Ao apuramento do saldo importa pouco que tenham morrido aos milhões por inundação natural, revolvimento de enxada ou desafio de micções: quem viveu, comeu, quem morreu deixou aos outros.
A natureza não conta mortos, conta vivos, e, quando estes lhe sobejam, arranja uma nova mortandade.
É tudo muito fácil, muito claro e muito justo, porque, de memória de formiga ou elefante, ninguém tal contestou no grande reino dos animais.

JOSÉ SARAMAGO
Levantado do Chão
(1980)

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3.7.26

Luis Ramos (Olhos para os olhos)




OJOS PARA LOS OJOS 

 

Al acecho,
por el cenagal de los miedos.
Sin quicios,
             vigilante,
como un susto enquistado
entre la oblicua ley del corazón. 

Miradas, intentos,
                      sobre todo miradas. 

Ojos para los labios débiles,
ojos para los ojos álgidos,
ojos para el espanto yéndose. 

Franquear el abismo,
la presión de los párpados,
la endeblez de los pasos, 

y fugarse,
           irse, sin más,
sortear el territorio habitual
de los obstáculos
irrevocablemente ungidos por el límite,
dejarse mojar simplemente por la vida
y no esperar con prisas a que escampe.
 

Luis Ramos

 

À espreita,
pelo lamaçal dos medos.
Sem gonzos,
              vigilante,
como um susto enquistado
entre a oblíqua lei do coração.

Olhares, intentos,
                sobretudo olhares.

Olhos para os lábios débeis,
olhos para os olhos álgidos,
olhos para o espanto a ir-se.

Franquear o abismo,
a pressão das pálpebras,
a fragilidade dos passos,

e fugir,
       partir, sem mais,
evitar o terreno habitual
dos obstáculos
irrevogavelmente ungidos pelo limite,
deixar-se simplesmente molhar pela vida
e não esperar que o céu abra.


(Trad. A.M.)

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1.7.26

Álamo Oliveira (Ilha)




ILHA 

 

a ilha ao fundo.   funda saudade
que emerge do horizonte.
azulíneos.   os gestos do pincel
sedimentam as águas
de míticas inquietações. 

ninguém sabe que peixes
habitam no mar.
se há nevoeiro dom sebastião não vem.
o céu.   único infinito que passa
pela janela da casa de janville. 

no peitoril.   os calos dos cotovelos do silêncio.
 

Álamo Oliveira

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29.6.26

Felipe Benítez Reyes (Fábula)




FÁBULA DEL QUE QUISO DEJAR ESCRITO SU EPITAFIO

 

Se le ocurrían a diario.
Irónicos algunos, otros
       más trascendentales.
Demasiado largos o demasiado escuetos.
Inexactos como emblema de una vida
o triviales para el mármol.

Una mañana de tantas,
su cuerpo le resultó desconocido.
La evidencia de un proceso callado,
aunque manifestado de repente,
como un acto de magia:
el hombre sonriente y temeroso
que entró en el cajón de espadas
       del ilusionista
y salió de allí transformado en quién.

El espejo,
el acostumbrado a mentir,
decía su verdad incontestable.
                                                       La
revelación de una certeza postergada.

Y entonces lo vio claro:
QUIEN MURIÓ EN MÍ YA NO ERA YO.

Felipe Benítez Reyes

 

Ocorriam-lhe todos os dias,
irónicos uns, outros
               mais transcendentes,
muito longos ou demasiado curtos,
inexactos como emblemas de uma vida
ou triviais para o mármore.

Uma manhã de tantas,
o corpo pareceu-lhe desconhecido,
sinal de um processo silencioso,
mas de súbito manifesto,
como um acto de magia:
o homem sorridente e receoso
que entrou na caixa de espadas
               do ilusionista
e dali saiu transformado em ninguém.

O espelho,
habituado a mentir,
dizia a sua verdade incontestável.
                                            A
revelação de uma certeza postergada.

E então viu claro:
QUEM MORREU EM MIM JÁ NÃO ERA EU.


(Trad. A.M.)

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27.6.26

A.M.Pires Cabral (Em parte incerta)




EM PARTE INCERTA

 

Dizem-me
que a última vez que a minha musa foi vista
ia de armas e bagagens, às arrecuas, como que sugada
por um vento que soprasse às avessas.

Desde então tem estado ausente
em parte incerta.

Mas pelo menos podia telefonar.

A. M. Pires Cabral

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25.6.26

Abelardo Linares (O café de espelhos)




EL CAFÉ CON ESPEJOS                  

 

Era un café y estábamos charlando.
Un extraño café de gigantescas sillas
con unos veladores diminutos.
A nuestro alrededor rostros borrosos
o, más exactamente, unos hombres sin rostro;
y así no me extrañó todo el silencio
de aquel local de espejos infinitos.
No puedo recordar de qué charlaba,
pero sí mi alegría y la viveza,
sin duda exagerada, de mis gestos.
Él me dejaba hablar, indiferente
a toda la pasión que había en mis palabras.
De repente me dijo con voz bronca:
“¿Y tú qué harás ahora que estás muerto?”.
Al principio no supe comprenderle,
tan estúpido aquello, tan falto de sentido,
y volví la cabeza. En los espejos
quise mirar mi rostro, pero era el de mi padre
el que veía en ellos. “¿Al fin te has dado
       cuenta?”.
“¿De qué?”, le pregunté. “De que
       eres un sueño,
hijo mío”.

Abelardo Linares
 

 

Era um café e estávamos na conversa,
um estranho café de cadeiras gigantescas
com umas mesas muito pequenas.
Em volta rostos vagos
ou, mais exactamente, alguns homens sem rosto;
e daí que eu não estranhasse aquele silêncio todo
no meio de espelhos infinitos.
Não me consigo lembrar de que falava,
mas sim da minha alegria, da vivacidade dos gestos,
por certo exagerada.
Ele deixava-me falar, indiferente
àquela paixão toda das minhas palavras.
De repente, diz-me com voz rouca:
‘E tu que vais fazer, agora que estás morto?’
A princípio não consegui compreender,
de tão estúpido aquilo, tão falto de sentido,
e virei a cabeça. Nos espelhos,
quis olhar para a minha cara, mas era a de meu pai
que estava a ver: ‘Afinal deste-te conta?’
‘De quê?’, perguntei?
‘De que és um sonho, meu filho’.


(Trad. A.M.)

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23.6.26

José Saramago (Então chegou a república)

 



(Então chegou a república)

Então chegou a república.
Ganhavam os homens doze ou treze vinténs, e as mulheres menos de metade, como de costume.
Comiam ambos o mesmo pão de bagaço, os mesmos farrapos de couve, os mesmos talos.
A república veio despachada de Lisboa, andou de terra em terra pelo telégrafo, se o havia, recomendou-se pela imprensa, se a sabiam ler, pelo passar de boca em boca, que sempre foi o mais fácil.
O trono caíra, o altar dizia que por ora não era este reino o seu mundo, o latifúndio percebeu tudo e deixou-se estar, e um litro de azeite custava mais de dois mil réis, dez vezes a jorna de um homem.

JOSÉ SARAMAGO
Levantado do Chão
(1980)

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