14.4.26

Javier Velaza (Decreto)




DECRETO

 

Con la voz más solemne que pudieron sacar
de sus gargantas trémulas y el ademán del mármol,
salieron a decir encerraos en casa
por lo que más queráis, o encerraos en casa
por los que más queráis, o no sabes qué fue
lo que dijeron, porque quién oye claramente
mientras el miedo aúlla, o quién puede entender
la verdad imposible de lo para no dicho,
en fin, dijeron algo, no dijeron deprisa,
lo recuerdas muy bien, pero no hacía falta,
porque aquella palabra crepitaba en sus ojos,
y tú fuiste y cerraste la puerta de tu casa
por lo que tú más quieres, que todavía no sabes
lo que es, pero sabes que lo quieres, y echaste
los cerrojos y dividiste el mundo
en dos mitades y erigiste entre ellas
un muro infranqueable y desde entonces
nunca más has sabido si te quedaste dentro
o fuera.

Javier Velaza

 

Com a voz mais solene
que conseguiram arrancar da garganta,
começaram a gritar metei-vos em casa
pelas almas, ou metei-vos em casa
por quem lá tendes, ou já não sabes bem
o que disseram, quem é que ouve claramente
quando o medo uiva? quem é que pode entender
a verdade impossível de ser dita,
enfim, disseram alguma coisa, não disseram depressa,
lembras-te bem, mas não era preciso,
porque a palavra crepitava-lhes nos olhos,
e tu foste e fechaste a porta de casa
pelo que mais quiseres, que não sabes ainda
o que é, mas sabes que o queres,
e então correste os ferrolhos,
dividiste o mundo em duas metades,
erguendo entre elas um muro intrespassável,
e desde então nunca mais soubeste
se ficaste dentro
ou fora.


(Trad. A.M.)

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12.4.26

Javier Salvago (Perto do céu)




CERCA DEL CIELO

 

A aquella tabernucha la llamaban
“Cerca del cielo”, por los altos techos
que cobijaban a los parroquianos.
Misterios del azar: al tabernero
lo apodaban “El tío de la nube”,
por la mancha del ojo.
Si ahora vuelvo
hacia allá la mirada, puedo ver
a mi padre, feliz, cerca del cielo
–solo por el poder que tiene el vino
de pintar de colores lo que es negro–,
apoyado en la barra, rodeado
de amigotes juerguistas y risueños,
cantando por fandangos y alegrías,
sin respetar la noche ni el letrero
de “Se prohíbe el cante”.
Y puedo
verme también a mí, sentado
sobre un alto barril –apenas tengo
ocho inocentes años–
tiritando de frío,
muerto de hambre y de sueño,
avergonzado,
cerca del infierno.
 

Javier Salvago

 


Aquela taberna chamavam-lhe
‘Perto do céu’, pelos tectos altos
que abrigavam os fregueses.
Mistérios do acaso, o taberneiro
tinha o apodo ’O tipo da nuvem’,
devido a uma mancha na vista.
Volvendo agora
o olhar para lá, posso ver
meu pai, feliz da vida, perto do céu
- só pelo poder que tem o vinho
de pintar a cores aquilo que é negro -
apoiado no balcão, rodeado
de amigalhaços borguistas e risonhos,
a cantar por fandangos e alegrias,
sem respeitar a noite nem o letreiro
’Proibido o cante’.
E posso
ver-me também a mim, sentado
num barril alto – mal tenho
oito anos inocentes –
tiritando de frio,
morto de fome e de sono,
envergonhado,
perto do inferno.

(Trad. A.M.)

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10.4.26

Linda Pastan (Uma história curta)



A SHORT HISTORY OF JUDAIC THOUGHT IN THE TWENTIETH CENTURY

 

The rabbis wrote:
although it is forbidden
to touch a dying person,
nevertheless, if the house
catches fire
he must be removed from the house.

Barbaric!
I say,
and whom may I touch then,
aren´t we all
dying?

You smile
your old negotiator’s smile
and ask:
but aren’t all our houses
burning? 

Linda Pastan

 

Os rabis escreveram:
embora seja proibido
tocar em alguém que está a morrer,
se a casa
se incendiar
a pessoa deve ser retirada
da casa. 

Uma barbaridade!
digo eu,
e em quem posso tocar então,
não estamos todos
a morrer? 

Fazes
o teu sorriso de velho negociador
e perguntas:
mas as nossas casas não estão todas

a arder?

(Trad. fjcc)

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8.4.26

Javier Olalde (Voltou a chuva)




VOLVIÓ LA LLUVIA

 

Mi sentimiento es un crepúsculo de plomo 
mojado,
desleído entre las luces de las calles 
por las que no regresas 
a esta casa de cuando éramos otros 
y todas las aceras nos llevaban 
camino del encuentro.

Volvió la lluvia. 
Será un invierno largo. 


Javier Olalde

 

 

Meu sentimento é um crepúsculo de chumbo
molhado,
diluído entre as luzes das ruas
por onde não regressas
a esta casa de quando éramos outros
e os caminhos todos nos levavam
em direcção ao encontro.

Voltou a chuva.
Será um inverno longo.


(Trad. A.M.)

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7.4.26

Javier Cánaves (Canção para os dias de mudança)




CANCIÓN PARA LOS DÍAS DE MUDANZA 

 

Los días de mudanza
tienen su propia luz.
 

Es la luz que en los puertos
avienta los pañuelos
y las ensoñaciones. 

Es la luz indecisa
de un domingo sin ella
después de muchos meses. 

Es la luz que enmarcaba
el perfil de mi padre
una tarde de fútbol.
 

Los días de mudanza
tienen su propia luz.
 

Es la luz que retienen
algunas fotos viejas
cuando toca balance.
 

Es la luz detenida
en un trozo del muro
de la que fue tu casa. 

Es la luz de Lisboa
una tarde en La Baixa
antes de ser acróbatas.
 

Los días de mudanza
tienen su propia luz.
 

Y es esta luz que acuna
el temor y el deseo
en un mismo regazo, 

el ayer y el mañana,
la ruleta y la inercia,
al niño y al adulto.
 

Es la luz que te impone
el gesto de la duda
en la casa vacía.
 

Javier Cánaves 

 

Os dias de mudança
têm sua própria luz.

É a luz que nos portos
aventa os panais
e as fantasias.

É a luz indecisa
de um domingo sem ela
depois de muitos meses.

É a luz que enquadrava
o perfil de meu pai
uma tarde de futebol.

Os dias de mudança
têm sua própria luz.

É a luz que retêm
certas fotos antigas
quando toca balanço.

É a luz detida
num trecho de muro
da que foi tua casa.

É a luz de Lisboa
uma tarde na Baixa
antes dos acrobatas.

Os dias de mudança
têm sua própria luz.

E é esta luz que embala
o temor e o desejo
num mesmo regaço,

Ontem e amanhã,
a roleta e a inércia,
menino e adulto.

É a luz que te impõe
o gesto de dúvida
na casa vazia.


(Trad. A.M.)

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5.4.26

Lêdo Ivo (A Johannes Vermeer)




A JOHANNES VERMEER

 

Pintas apenas formas sob vários espaços:
a moça de turbante azul, cenas, paisagens.

Fazes, Johannes Vermeer, a claridade, o sol
de tua vida obscura entre as ruas de Delft.

Operário da luz!


Lêdo Ivo

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3.4.26

Jaime Sabines (Tal como noite de bebedeira)



Igual que la noche de la embriaguez,
igual fue la vida.
¿Qué hice?, ¿que tengo entre las manos?
Sólo desear, desear, desear,
ir detrás de los sueños
igual que un perro ciego ladrándole a los ruidos.
 

Jaime Sabines

[Sureando] 

 

Tal como noite de bebedeira,
assim foi a vida.
O que fiz eu? O que tenho nas mãos?[
Desejar, desejar, só desejar,
ir a correr atrás dos sonhos
como um cachorro cego a ladrar aos barulhos.
 

(Trad.A.M.)

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