17.1.21

José Emilio Pacheco (Panteões)

 


PANTEONES

 

Veo entre la niebla el cementerio en silencio.
No pienso en otro mundo: me indigna este
que se deshace así de los muertos.
Da horror pensar en los restos abandonados,
más durables que afectos y gratitudes.

Hay que acabar con los panteones
y su intolerable perpetuación del olvido.
Todos debemos ser ceniza arrojada al aire,
volver cuanto antes al polvo
que en su misericordia nos absuelva y acoja.

José Emilio Pacheco

[Trianarts]



Vejo por entre a névoa o cemitério em silêncio.
Não penso em outro mundo, indigna-me este
que se desfaz assim dos mortos.
Que horror pensar nos restos abandonados,
durando mais que os afectos e a gratidão.

Acabemos com os panteões
e sua intolerável perpetuação do olvido.
Temos de ser todos cinza atirada ao ar,
voltar ao pó quanto antes,
que em sua misericórdia nos receba e absolva.


(Trad. A.M.)

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15.1.21

António Reis (Se o outono)



Se o outono
fosse o cheiro de frutos
na memória

e os frutos
a calma dos sentidos

o nosso rosto com luz
ou néon
pelos cabelos
seria um retrato de mágoa
olhando o chão

António Reis

 .

13.1.21

José Corredor-Matheos (Eu sou um peixe)

 


Yo soy un pez, un pez
que va por el jardín,
tan libre como un árbol.
Soy un árbol, que tiene
raíces en el cielo,
como un pájaro.
Y soy también un pájaro,
y son míos los cielos
las aguas y la tierra.
¿Por qué, si soy un pez,
un pájaro y un árbol,
la angustia de ser hombre
hace que todo
me resulte, de pronto,
tan extraño? 

JOSÉ CORREDOR-MATHEOS
Un pez que va por el jardín
Editorial Tusquets (2007)




Eu sou um peixe, um peixe
que anda pelo jardim,
tão livre como árvore.
Sou uma árvore, com as raízes
no céu, como um pássaro.
E sou também pássaro
e meus são os céus,
as águas e a terra.
Como é que, sendo peixe,
pássaro e árvore,
a angústia de ser homem
faz que tudo me pareça,
de repente,
tão estranho? 

 (Trad. A.M.)
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12.1.21

José Cereijo (Luz de Março)

 


LUZ DE MARZO               

                                         

En esta luz de marzo,
en esta luz estremecida y pura
que un dios benevolente trajo hoy a tu ventana
y que hace avergonzarse a tu silencio,
además de su inmensa, callada compañía,
hay una lección honda que debes aprender:
no pueden tus palabras retenerla;
no pueden mejorarla. 

Acata esa Belleza, tan superior a ti, y déjala perderse.
Y que el silencio sea tu forma de homenaje.

 
José Cereijo

  

Nesta luz de Março,
nesta luz trémula e pura
que um deus benévolo te trouxe hoje à janela
e que envergonha teu silêncio,
para lá da sua calada companhia,
há uma lição profunda que tens de aprender:
não podem tuas palavras retê-la,
não podem melhorá-la.

Acata essa Beleza, mais alta, e deixa-a perder-se.
E seja o silêncio tua forma de homenagem.


(Trad. A.M.)

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8.1.21

José Antonio Labordeta (Foi isso)

 


ESTO FUE...

 

 Apenas un recuerdo, un vago sueño
de pasados domingos sin iluminarias
donde los camareros se aburrían
en establecimientos de segunda categoría. 

Todo lo demás es un recuerdo nostálgico
de prensados días escolares
en el juvenil guardapolvo de los lunes. 

Un sueño escaso de lluvias impares,
de noches inconclusas en mi pijama a rayas,
de furtivas huidas sin permiso
y, quizás, de algún funeral sin esperanza. 

Años cautivos que huyeron de nosotros
a través de unos textos donde puede leerse: 

Hoy no llueve... Domingo...
Quizás mañana muertos...
Mi padre me ha pegado...
Ya no hay amor... La una menos diez...
Huimos...
         Y huimos para siempre.

 

José Antonio Labordeta

  

 

Uma recordação apenas, um vago sonho
de passados domingos sem luminárias
onde os empregados se aborreciam
em estabelecimentos de segunda.

Tudo o mais é uma lembrança nostálgica
de longos dias escolares
na gabardina das segundas-feiras.

Um sonho escasso de chuvas ímpares,
de noites inconclusas no meu pijama de riscas,
de fugas furtivas sem licença
e, talvez, de algum funeral sem esperança.

Anos cativos que nos escaparam,
por agendas onde pode ler-se:

Hoje não chove… Domingo…
Amanhã quiçá mortos…
Meu pai apanhou-me…
Não há amor já… Uma menos dez
Fugimos…
               E fugimos para sempre.

(Trad. A.M.)

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7.1.21

José Antonio Fernández Sánchez (Um momento indelével)

 


UN MOMENTO INDELEBLE

                                                   

Me viene a la memoria, muy tenaz,
el recuerdo de aquella madrugada.

Tu marcha me hizo comprender la muerte
que tiempo atrás te fue siempre acechando
-cuánta perseverancia en su insistencia-
llamando en la distancia, exhibiéndose.

Aquella noche, ahora permanente,
dejaste de luchar y renunciaste
a vivir en tu cuerpo.
 Así te fuiste:

dejándome la mano ya sin sangre,
que mi mano cogió, y, acariciándola,
dejó de palpitar. Yo te miré
como nunca antes hice,
y noté -creo, estoy casi seguro-
una sonrisa clara mas muy breve
que adelantaba lo que vino entonces:

un extraño silencio.

José Antonio Fernández Sánchez

[JAFS]

 


Vem-me à lembrança, teimosamente,
a recordação daquela madrugada.

A tua partida fez-me compreender a morte
que já antes te ia espreitando
- que persistência na sua teima -
a chamar de longe, a mostrar-se.

Naquela noite, agora permanente,
deixaste de dar luta e renunciaste
a viver no teu corpo.
E assim te foste:

deixando-me a mão inerme,
abandonada na minha mão,
já sem pulsar. Eu olhei-te,
como jamais antes fizera, e notei
- creio, tenho quase a certeza –
um sorriso claro mas muito breve,
antecipando aquilo que veio depois:

um estranho silêncio.


(Trad. A.M.)

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