9.10.26

José Manuel Benítez Ariza (Abecedário)



ABECEDARIO(S)

 

Azucena, de frío.

Bernardo, por la química insurgente
de sus enloquecidas células.

Carmen, por los efectos a largo plazo de una
infección contraída en Centroamérica.

Delia, de inapetencia.

Ernesto, por la mala combustión de una estufa.

Felipe, por fumarse tres cajetillas diarias.

Gracia, de «muerte natural» – y nadie
quedó muy convencido de que su muerte fuera
precisamente «natural».

Hernán, «tras una larga enfermedad», según se dijo.

Ignacio, de un ataque al corazón,
que quizá fuera de ira o de impotencia.

Javier, en la impostada serenidad de quien ya había
ensayado su muerte muchas veces
(esta vez salió bien).

Kepa, de indiferencia.

Luisa, como Azucena, junto a ella.

Miguel, de neumonía, en cierto modo confortado
por lo preciso del diagnóstico: siempre confió en la medicina.

Néstor, arrebatado por la corriente, mientras se bañaba.

Óscar, de rabia – lo mordió un murciélago.

Patricio, apaleado por los guardias.

Quiteria, apuñalada por su novio,
que luego se entregó en comisaría.

Ramón, manipulando gelignita.

Santiago, diluyéndose en el agua roja de su bañera.

Tomás, como Azucena y Luisa, en ese coche que se quedó atascado
en una carretera de montaña durante un temporal de nieve.

Ubaldo, como consecuencia de las melancolías
en las que se sumió tras la muerte de Carmen.

Vanesa, de una «larga enfermedad» también.

Xan, de aprensión, al enterarse de lo de Hernán, Vanesa, Carmen.

Yeray, de sida – fue de los primeros.

Zacarías, de risa – dicen que fue la risa lo que le provocó el ataque.

Alberto –aquí empezamos otra vez– por intentar salvar a Néstor.

Bernabé, Celia, Dorotea, Enrique…

José Manuel Benítez Ariza

 

Azucena, de frio.

Bernardo, pela química rebelde
de suas células malucas.

Carmen, dos efeitos a longo prazo
de uma infecção que apanhou
na América Central.

Delia, de falta de apetite.

Ernesto, por má combustão de uma braseira.

Felipe, por fumar três maços por dia.

Gracia, de ‘morte natural’ – e ninguém
ficou lá muito convencido de que a morte fosse
precisamente ‘natural’.

Hernán, ‘depois de uma doença prolongada’,
segundo se disse.

Ignacio, de um ataque cardíaco,
que talvez fosse de raiva ou de impotência.

Javier, na serenidade fingida de quem tinha já
ensaiado a morte muitas vezes
(desta vez calhou bem).

Kepa, de indiferença.

Luisa, como Azucena, junto dela.

Miguel, de pneumonia, de certo modo confortado
pelo diagnóstico preciso;
sempre confiou na medicina.

Néstor, arrastado pela corrente, a tomar banho.

Óscar, de raiva – mordeu-lhe um morcego.

Patricio, espancado pelos guardas.

Quiteria, apunhalada pelo noivo,
que depois se entregou na polícia.

Ramón, a manipular gelignita.

Santiago, a dissolver-se na água vermelha da banheira.

Tomás, como Azucena e Luisa, naquele carro
atascado na neve numa estrada serrana.

Ubaldo, em consequência da tristeza
em que caiu com a morte de Carmen.

Vanesa, de ‘doença prolongada’ também.

Xan, de apreensão, ao saber de Hernán, Vanesa, Carmen.

Yeray, de sida – foi dos primeiros.

Zacarias, de riso – dizem que foi o riso o que lhe provocou o ataque.

Alberto – aqui começamos outra vez – por tentar salvar Néstor.

Bernabé, Celia, Dorotea, Enrique…


(Trad. A.M.)

 


>>  Palimpsesto (5p) / Benítez Ariza (blogue/ reservado) / Wikipedia

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7.10.26

Eugénio de Andrade (Da ignorância)




DA IGNORÂNCIA 

 

A mão
que entregava à tua
os primeiros sinais do verão
já não sabe o caminho ─ é como se
em vez de aprender fosse cada vez mais
e mais ignorante. Ou ignorar
fosse todo o saber.
 

Eugénio de Andrade

[Canal de poesia]

 .

5.10.26

Vicente García (A partida)

 




LA PARTIDA

 

Como los años pasan y el recuerdo
a veces no perdona, te preguntas
si el viaje que emprendiste
merecerá la pena, si al final del camino
habrás de arrepentirte al mirar hacia atrás.

Para entonces, acuérdate,
más que del resultado,
de ese entusiasmo tuyo que le daba
mayor fuerza a la vida
cuando ibas descubriendo los trucos del oficio,
los caprichos del arte y sus fantasmas.

Vicente García



Como os anos passam e a lembrança
às vezes não perdoa, tu perguntas-te
se a viagem que empreendeste
valerá a pena, se no fim do caminho
não vais arrepender-te ao olhar para trás.

Para então, lembra-te,
mais que do resultado,
daquele entusiasmo que te dava
mais força à vida,
quando ias descobrindo os truques do ofício,
os caprichos da arte e os seus fantasmas.


(Trad. A.M.)


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3.10.26

Domingos da Mota (Soneto da pouquidão)




SONETO DA POUQUIDÃO

 

São poucos os que lutam contra o medo
sem medo de perder seja o que for,
que ousam libertar-se do enredo
desse modo maligno de temor
que sofreia a coragem ante o susto
e que a tantos concita mais pavor
e os deixa tolhidos, dado o custo
da luta contra o medo sem temor.
São poucos os que lutam e a escassez
aumenta com tamanha pouquidão
que faz acumular, por sua vez
o medo, com razão ou sem razão
naqueles que se escondem dia a dia
por detrás do receio ou da apatia.


Domingos da Mota

[Canal de poesia]

 .

1.10.26

Antonio Hernández (Espiritual negro)




NEGRO ESPIRITUAL

 

Nunca fabricaron nada.
No inventaron nunca nada.
Nunca descubrieron nada
salvo el ala de la nada.
Y dio un paso atrás la muerte.

Antonio Hernández

  

Nunca fabricaram nada.
Não inventaram nunca nada.
Nunca descobriram nada,
salvo a asa do nada.
E a morte deu um passo atrás.


(Trad. A.M.)

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29.9.26

Billy Collins (Surpresa)

 



SURPRESA 

 

É 
- de acordo com a voz na rádio,
o apresentador de um programa de música clássica, nada menos -
é o aniversário de Vivaldi. 

Faria hoje 325 anos, bastante curvado, imagino,
e incapaz de ver bem com os seus olhos lacrimejantes. 

Seguramente já surdo, 
a roupa a desfazer-se, 
o cabelo lamentavelmente ralo. 

Mas, em todo o caso, daríamos uma festa em sua honra,
uma festa surpresa onde todos
nos escondêssemos atrás dos móveis para ouvir 

os toques da sua bengala no pavimento
e a sua tosse seca e persistente.
 

Billy Collins 
 

(Trad. fjcc)

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27.9.26

Abelardo Rodríguez (Caminho do homem)

 



Caminho do homem
                              é a esperança,
e a esperança
é mentira que criamos para ir,
para fazer mais doce a Tragédia.
Nada
e Nada
são os extremos,
e Morte
a única
palavra.

 

ABELARDO RODRÍGUEZ
Maradentro
(Poesía 1970-1999)
Fundación JRJ (1999)

(Trad. A.M)


>>  Autores onubenses (ficha)

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