21.6.26

Rita Ramones (Oração de graças)




ORACIÓN DE GRACIAS 

 

Gracias, Señor, te doy, por ser exactamente quien soy.
Gracias por no ser una pobre desdichada pobre
que vive bajo un puente lavándose los dientes
para evitar el hambre,
ni tampoco una inconsciente millonariona
que vive sola en ochocientos metros cuadrados
con vistas al Parque Central
de Nueva York,
la desgraciada. La muy infeliz. 

Gracias, Señor, porque cuando me parece que mi vida ha sido un asco,
pienso en ti y se me quita,
porque cuando lamento no haber aprovechado mis años,
en lugar de ponerme triste,
pienso en ti y se me quita,
y cuando recuerdo aquellas clases frustradas de piano
que dejé a medio palo,
pienso que lo dejé por ti y se me quita,
y entiendo que nada se te compara. 

Gracias Dios por ayudarme a no darme cuenta,
por hacerme ciega ayer y hoy sorda.
Y sobre todo, gracias, porque no soy gorda.
 

Rita Ramones

[Tamal de peluche

 

Graças, Senhor, te dou por ser exactamente quem sou,
graças por não ser uma pobre desditada pobre
a viver debaixo da ponte, a lavar os dentes
para evitar a fome,
nem tão pouco uma milionária inconsciente
a viver sozinha em oitocentos metros quadrados.
com vista para Central Park em Nova Iorque,
a desgraçada. A pobre infeliz.

Graças, Senhor, porque quando me parece que a vida foi um asco,
penso em ti e passa-me,
e quando recordo as aulas de piano que deixei a meio.
penso que deixei por ti e passa-me,
e entendo que nada se compara contigo.

Graças, meu Deus, por me ajudares a não reparar,
por me fazeres ontem cega e hoje surda,
e acima de tudo, graças, porque não sou gorda.


(Trad. A.M.)

 .

19.6.26

Valerio Magrelli (As cobaias)




LE CAVIE 

 

O forse sono cavie, 
queste poesie che scrivo, 
per qualche esperimento concepite,
che tuttavia non so.  

Non so perché si formano, 
eppure mi affeziono e le chiamo per nome,
topolini vivissimi, allarmati
da che?
 

Valerio Magrelli 

 

Ou serão talvez cobaias, 
estas poesias que escrevo,
fruto de alguma experiência,
que eu desconheço contudo. 

Nem sei porque se formam
e no entanto afeiçoo-me,
chamo-as pelo nome,
ratinhos vivíssimos, assustados
por quê?
 

(Trad. A.M.)

 .

17.6.26

Raquel Lanseros (A luz sem véu)




LA LUZ SIN VELO

 

Yo te quiero. Es un hecho
tan cierto en lo absoluto
como en lo relativo.

Veo tu rostro en el mío
y en el rostro de todos los que he visto.

Tú inventas una isla para mí cada noche
tú me arrullas la sangre
tú me resguardas contra la impureza.

Nos hemos esculpido en la hora verdadeira
la poblada de ti
la única que está a salvo del infierno.

Raquel Lanseros

 

Eu te quero, eis um facto
tão verdadeiro no absoluto
como no relativo.

Vejo teu rosto no meu
e no rosto de quantos tenho visto.

Tu inventas uma ilha para mim cada noite
tu embalas-me o sangue
resguardas-me contra a impureza.

Esculpimo-nos nós na hora verdadeira
a povoada de ti
a única que está a salvo do inferno.


(Trad. A.M.)

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15.6.26

Paulo Henriques Britto (Fábula)




FÁBULA

 

Um pensamento pensado
até a total exaustão
termina por geminar
no mesmo exato lugar
sua exata negação.

Enquanto isso, uma ideia
trauteada numa flauta
faz uma cidade erguer-se
- é claro, sem alicerces,
mas ninguém dá pela falta.

Paulo Henriques Britto

[Acontecimentos]

 .

13.6.26

José García Alonso (Novembro)



NOVEMBRO
 

Novembro, esse mês em que todas
as horas entraram na oficina
para serem reparadas sem pressa. 

Novembro, essa mestra que aponta
com o dedo para a janela e diz-nos:
condensação. 

Novembro: uma nuvem sacudiu
sobre o vidro suas gotas transparentes. 

Novembro, esse corpo que está morto
e cada ano ressuscita e surpreende-nos. 

Não aprendemos com a natureza.
Tocamos o seu prodígio e olvidamos
a obrigação de passar inadvertidos.

José García Alonso

(Trad. A.M.)

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11.6.26

José Saramago (Incipit)

 



O que mais há na terra, é paisagem.
Por muito que do resto lhe falte, a paisagem sempre sobrou, abundância que só por milagre infatigável se explica, porquanto a paisagem é sem dúvida anterior ao homem, e apesar disso, de tanto existir, não se acabou ainda.
Será porque constantemente muda: tem épocas no ano em que o chão é verde, outras amarelo, e depois castanho, ou negro.
E também vermelho, em lugares, que é cor de barro ou sangue sangrado.
Mas isso depende do que no chão se plantou e cultiva, ou ainda não, ou não já, ou do que por
simples natureza nasceu, sem mão de gente, e só vem a morrer porque chegou o seu último fim.
Não é tal o caso do trigo, que ainda com alguma vida é cortado.
Nem do sobreiro, que vivíssimo, embora por sua gravidade o não pareça, se lhe arranca a pele.
Aos gritos.
Não faltam cores a esta paisagem.
Porém, nem só de cores.
Há dias tão duros como o frio deles, outros em que se não sabe de ar para tanto calor: o mundo nunca está contente, se o estará alguma vez, tão certa tem a morte.
E não faltam ao mundo cheiros, nem sequer a esta terra, parte que dele é e servida de paisagem.  
Se no mato morreu animal de pouco, certo que cheirará ao podre do que morto está. 
Quando calha estar quieto o vento, ninguém dá por nada, mesmo passando perto.
Depois os ossos ficam limpos, tanto lhes faz, de chuva lavados, de sol cozidos, e se era pequeno o bicho nem a tal chega porque vieram os vermes e os insectos coveiros e enterraram-no.


JOSÉ SARAMAGO
Levantado do Chão
(1980)

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9.6.26

Luis Eduardo Aute (Desesperando Godot)




DESESPERANDO A GODOT

 

Si la esperanza
es lo último que se
pierde,

¿será la
desesperanza
lo primero que se
gana?


Luis Eduardo Aute

 

 

Se a esperança
é a última coisa
que se perde,

será
a desesperança
a primeira
que se ganha?


(Trad. A.M.)

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