19.5.19

Juanjo Barral (Preço, apreço, desprezo)





PRECIO, APRECIO, DESPRECIO



Ahora mismo no estoy trabajando
-se supone-
escribo este poema.
Pero ya sé, eso no cuenta,
aunque se trate de hacer balance de uno,
recuento de los beneficios de nuestra existencia.

Qué lástima entonces el mundo,
qué lástima cuando no quiere tantas veces
que escribamos este poema,
que soñemos en esta línea
que queremos dibujar.

Que no quiere que miremos el mundo por dentro
lejos del precio y la etiqueta.

Ahora mismo no estoy trabajando
y pregunto a la patronal, al Banco Central Europeo, al Fondo Monetario
Internacional: ¿Hay algún problema?


Juanjo Barral




Agora mesmo não estou a trabalhar
- supõe-se -
enquanto escrevo este poema.
Mas isso não conta, já sei,
embora se trate de elaborar um balanço pessoal,
ou do inventário de benefícios da existência.

Que pena então este mundo,
que pena quando não quer tantas vezes
que escrevamos este poema,
que sonhemos nesta linha
que pretendemos traçar.

Que não quer que olhemos o mundo por dentro,
longe do preço e da etiqueta.

Agora mesmo não estou a trabalhar
e só pergunto à patronal, ao Banco Central Europeu,
ao Fundo Monetário Internacional: Há algum problema?


(Trad. A.M.)

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17.5.19

Juan VIcente Piqueras (Palmeiras)





PALMERAS



Nacemos de la sed. Somos palmeras
que van creciendo a fuerza de perder
sus ramas. Y sus troncos son heridas,
cicatrices que el viento y la luz cierran,
cuando el tiempo, el que hace y el que pasa,
ocupa el corazón y lo hace nido
de pérdidas, erige
en él su templo, su áspera columna.
Por eso las palmeras son alegres
como los que han sabido sufrir en soledad
y se mecen al aire, barren nubes
y entregan en sus copas
salomas a la luz, fuentes de fuego,
abanicos a dios, adiós a todo.
Tiemblan como testigos de un milagro
que sólo ellas conocen.
Somos como la sed de las palmeras,
y cada herida abierta hacia la luz
nos va haciendo más altos, más alegres.
Nuestros troncos son pérdidas. Es trono
nuestro dolor. Es malo
sufrir pero es preciso haber sufrido
para sentir, como un nido en la sangre,
el asombro de los supervivientes
al aire agradecidos y estallar
de alta alegría en medio del desierto.

Juan Vicente Piqueras




Nascemos da sede. Somos palmeiras
que vão crescendo à força de perder
os ramos. E os troncos são feridas,
cicatrizes fechadas pelo vento e pela luz,
quando o tempo, o que faz e o que passa,
ocupa o coração e dele faz ninho
de perdas, ali erigindo
seu templo, sua áspera coluna.
Por isso as palmeiras são alegres
como quem soube sofrer em solidão,
e abanam ao vento, varrem as nuvens
e entregam nas copas
cantos à luz, fontes de lume,
leques a deus, e adeus a tudo.
Tremem como testemunhas de um milagre
só delas conhecido.
Nós somos como a sede das palmeiras,
e cada ferida aberta à luz
vai-nos fazendo mais altos, mais alegres.
São perdas nossos troncos, um trono
nossa dor. É mau sofrer,
mas é preciso ter sofrido
para sentir, como um ninho no sangue,
o pasmo dos sobreviventes
gratos ao vento e rebentar
de alegria no meio do deserto.


(Trad. A.M.)

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16.5.19

Ferreira Gullar (Visita)





VISITA



no dia de
finados ele foi
ao cemitério
porque era o único
lugar do mundo onde
podia estar
perto do filho mas
diante daquele
bloco negro
de pedra
impenetrável
entendeu
que nunca mais
poderia alcançá-lo

Então
apanhou do chão um
pedaço amarrotado
de papel escreveu
eu te amo filho
pôs em cima do
mármore sob uma
flor
e saiu
soluçando


Ferreira Gullar

[Acontecimentos]

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14.5.19

Antonio Cabrera (Salvamo-nos)





NOS SALVAMOS



La vida interior es abstrusa,
un embrollo de ideas en inminencia,
en uso o en descomposición.
La vida interior puede ser asfixiante.
Menos mal que algo venido de fuera,
una percepción, alguna cosa vista,
puede aliviarla momentáneamente,
puede permitirle respirar hondo.
La vida interior - el pensamiento a solas -
abandonada a su puro bullir nos sofocaría.
Para que no quedemos cegados por nuestra mente
es necesario mirar.
Gracias a las ventanas no odiamos nuestra casa.
Gracias al mundo nos salvamos.


Antonio Cabrera

[Anton Castro]




A vida interior é abstrusa,
um imbróglio de ideias em devir,
em uso ou decomposição.
A vida interior pode ser asfixiante.
Ainda bem que algo vindo de fora,
uma percepção, alguma coisa vista,
pode aliviá-la de momento,
deixá-la respirar fundo.
A vida interior – o pensamento a sós –
deixada à sua ebulição sufocar-nos-ia.
Pra não ficarmos cegos pela mente
impõe-se observar.
Graças às janelas não odiamos a nossa casa,
graças ao mundo salvamo-nos.

(Trad. A.M.)

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13.5.19

Juan Bonilla (A luz molhada)





La luz mojada
del sol envolvió en lumbre
una naranja.

La convirtió
sólo por un instante
en otro sol.

Tuviste al verlo
la tenue certidumbre
de ser eterno.


Juan Bonilla


[Susana Benet]


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A luz molhada
do sol envolveu em fogo
uma laranja.

Converteu-a
por um só instante
em outro sol.

Tiveste ao vê-lo
a pálida certeza
de ser eterno.

(Trad. A.M.)

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11.5.19

António Ferreira (Se meu desejo só é sempre ver-vos)




Se meu desejo só é sempre ver-vos,
Que causará, senhora, que em vos vendo
Assi me encolho logo, e arrependo,
Que folgaria então poder esquecer-vos?

Se minha glória só é sempre ter-vos
No pensamento meu, porque em querendo
Cuidar em vós, se vai entristecendo?
Nem ousa meu esprito em si deter-vos?

Se por vós só a vida estimo, e quero,
Como por vós a morte só desejo?
Quem achará em tais contrários meio?

Não sei entender o que em mim mesmo vejo.
Mas que tudo é amor, entendo, e creio,
E no que entendo, e creio, nisso espero.


António Ferreira




>>  Poemas Lusitanos / Idem / Citador (8p) / Wikipedia

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10.5.19

José Antonio Fernández Sánchez (Últimas vontades)





ÚLTIMAS VOLUNTADES



Cuando muera yo quiero
discreción ante todo y un ciprés
a mi lado, marcando con su porte
vertical el camino.

Cuando muera en la tierra he de yacer
y que mi muerte entera viva en ella,
y, en redención, estar diseminado.
Volver a ser sustrato mineral.

Sería como ser lo que ya fui:
el polvo que renace de la nada.

No quiero ser llorado cuando muera,
ni ver abatimiento.
Dejad que la tristeza se diluya;
haced que se diluya.

Si muerto veis que estoy
cubrid mi frío cuerpo ya extinguido
con una enorme piedra impenetrable.
Dejad que me recoja con sosiego.
Y, como si la vida retornara,
de cuando en cuando
nombradme alguna vez, hablad conmigo
de igual a igual. Así reviviré.

Pero ese día en que el ciprés señale
la senda divisoria y a ella me dirija
el sol será testigo de un fin inextinguible:
no ser y a la par ser en la memoria,
el eco que pervive así por siempre.


José Antonio Fernández Sánchez




Eu quando morrer quero
discrição sobretudo e um cipreste
a meu lado, assinalando
o caminho com seu perfil vertical.


Eu quando morrer na terra hei-de jazer
e que nela viva a minha morte
e eu me redima com espalhar-me,
com voltar a ser substrato mineral.


Seria assim como ser aquilo que já fui,
o pó renascendo do nada.


Não quero ser chorado ao morrer,
nem quero ver abatimento.
Deixai diluir a tristeza,
fazei que ela se dilua.


Se virdes que morto estou,
cobri então o meu corpo
com uma enorme pedra impenetrável.
Deixai-me recolher em sossego.
E, como se a vida voltasse,
nomeai-me vez por outra, falai comigo
de igual para igual, que assim reviverei.


Mas nesse dia em que o cipreste
indicar a fronteira e eu ali me apresentar
o sol será testemunha de um fim interminável:
não ser, mas ser na memória,
um eco pervivendo assim para sempre.


(Trad. A.M.)

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