29.7.26

Mariano Peyrou (A concentração)

 



A CONCENTRAÇÃO



Nada melhor do que dedicar a tarde
às mudanças de luz na
janela, pressupondo que algo
do que tanto fere e mais
deleita depressa retomará
o seu lugar, a partir do qual emitia
umas pálidas ondas que só
intermitentemente geravam
uma leve apatia, ou adquirirá
contornos mais suaves, de modo a
que a sua proximidade apenas embacie
os vidros. Aqui há luz.
Ali apagam-se os sentidos.


Mariano Peyrou

(Trad. Manuel de Freitas)

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27.7.26

Alexandre Pinheiro Torres (A democracia plural)




A DEMOCRACIA PLURAL PORTUGUESA OCIDENTAL

 

Neste bairro onde miam gatas há dez mil de gente           Fácil:
contem-se todas as cabeças        uma por uma
uma de cada vez              Façam-se perguntas
Registem-se as respostas             Por exemplo: ao perguntar-se

Se ganham menos do que é necessário pra viver
façam uma cruz               Mas façam a mesma cruz
caso digam o contrário   Se tiverem um rádio vejam
o rádio e façam uma cruz no rádio

Se tiverem uma bicicleta cruz na bicicleta
Cruz nos aparelhos de TV            Cruz nos frigoríficos
Cruz se a barraca for deles           Cruz se for alugada
Cruz na idade que têm   Cruz se são solteiros ou casados

Cruzes em resumo em tudo o que é máquina
Máquinas de costura por exemplo           Vejam
se as rodas andam          Cruz       Cruz       Cruz       Cruz
Cruz no número de filhos            Não há nada que não conte

Depois de tudo passado a pente fino
contado              classificado         codificado           computorizado
é preciso calcular a média            Dividir o que há
por todos para que ninguém se queixe de injustiça

Os nomes não interessam            Os nomes não têm significado
Velho ou doente não se deixe ninguém de fora
Sendo assim até uma doente estéril ficará com
alguns filhos       Se a maioria passa fome calcule-se

a fome média    Estamos ou não na democracia
ocidental?           Todos têm de tê-la igual               Não haverá
desempregados porque todos    mas todos           terão uma
fracçãozinha de emprego para sustentar uma fracçãozinha

de família numa fracçãozinha de barraca              Nada pois
de sangueiras     ódios     ressentimentos                 Sobretudo nada de
provocações à Guarda nem de atacar o Quartel do
Carmo ou o palácio onde tanto se esforçam os doutores-deputados

Este é o conselho das pessoas sábias      Está aliás na
Constituição que             ó diabo                é preciso emendar para que
se prescreva       inalienável          o direito a fracções mais pequenas
Assim é que será bem plural e ocidental a democracia em Portugal


Alexandre Pinheiro Torres

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25.7.26

Mariana Finochietto (Detém-se a tarde)




(17)

 

La tarde 
se detiene,
suspendida
en los hilos
de luz
que teje
y desteje
el viento
entre las ramas. 

En este instante
de pájaros agrestes,
la pureza
y la crueldad
son las únicas
certezas
sobre el mundo.
 

Mariana Finochietto 

 

Detém-se a tarde, 
suspensa
nos fios
da luz
que o vento
tece
e destece
por entre os ramos. 

No instante 
de pássaros agrestes,
a pureza
e a crueldade
são as únicas
certezas
sobre o mundo.
 

(Trad. A.M.)

 .

23.7.26

Maria Esther Maciel (Pacto)




PACTO



Daquele que amo
quero o nome, a fome
e a memória. Quero
o agora. O dentro e o fora,
o passado e o futuro.
Quero tudo: o que falta
e o que sobra
o óbvio e o absurdo.


Maria Esther Maciel

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21.7.26

María Laura Decésare (De tarde)




EN LA TARDE 

 

Vi una flor llorar, qué cosa rara
pensé mientras el colibrí con su aleteo
intentaba animarla.
De pronto el cielo se abrió
y unas gotas comenzaron a caer
suaves sobre mí.
En lo simple me detengo y me levanto 
para ver los colores del arcoíris
belleza pura en la tarde de domingo.
 

María Laura Decésare 

[Otra iglesia] 

 

Vi chorar uma flor, coisa estranha
pensei enquanto o colibri 
tentava animá-la
batendo as asas.
De repente, o céu abriu
e algumas gotas começaram a cair
suaves sobre mim.
No simples me detenho e ergo-me
para ver as cores do arco-íris 
beleza pura na tarde de domingo.
 

(Trad. A.M.)

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19.7.26

Antonio Carlos Secchin (Estou ali)




ESTOU ALI


Estou ali, quem sabe eu seja apenas 
a foto de um garoto que morreu.
No espaço entre o sorriso e o sapato
há um corpo que bem pode ser o meu.

Ou talvez seja eu o seu espelho, 
e olhar reflete em mim algum passado:
o cheiro das goiabas na fruteira, 
o murmúrio das águas no telhado. 

No retrato outra imagem se condensa: 
percebo que apesar de quase gêmeos
nós dois somos somente a chama inútil

contra a sombra da noite que nos trai. 
Das mãos dele recolho o que me resta. 
Eu o chamo de filho — e é meu pai.

Antonio Carlos Secchin

 

>>  Antonio Miranda (43 p) / Gueto (9p) / Jornal de poesia (9p) / Recanto do poeta (7p)/Alguma poesia (4p) / Wikipedia

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17.7.26

José Saramago (Todos os dias têm a sua história)




(Todos os dias têm a sua história)

Todos os dias têm a sua história, um só minuto levaria anos a contar, o mínimo gesto, o descasque miudinho duma palavra, duma sílaba, dum som, para já não falar dos pensamentos, que é coisa de muito estofo, pensar no que se pensa, ou pensou, ou está pensando, e que pensamento é esse que pensa o outro pensamento, não acabaríamos nunca mais.
Melhor é declarar que estes anos de João Mau-Tempo vão ser os da sua educação profissional, no sentido tradicional e campestre de que um homem de trabalho tem de saber de tudo, tão bom para ceifar como para tirar cortiça, tão destro a valar como a semear, tão de bom lombo para carregar como de rins para cavar. Este saber transmite-se nas gerações sem exame nem discussão, é assim porque sempre assim foi, isto é uma enxada de gaviões, isto uma gadanha, e isto uma gota de suor.
Ou cuspo branco espesso em tarde de fornalha, ou pancada de sol em cima da ganacha, ou jarretes desfalecidos de pouco alimento. Entre os dez anos e os vinte há que aprender tudo e depressa, ou não teremos patrão que nos aceite.


JOSÉ SARAMAGO
Levantado do Chão
(1980)

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