4’ 33
Pode existir tanto inferno
em cinco minutos de silêncio.
Como na lentidão com que saio
da cama todas as manhãs.
Ninguém sabe.
Nuno F. Silva
4’ 33
Pode existir tanto inferno
em cinco minutos de silêncio.
Como na lentidão com que saio
da cama todas as manhãs.
Ninguém sabe.
Nuno F. Silva
CON EL TIEMPO
Quiero ser, con el tiempo,
imperceptible.
Ni siquiera un recuerdo o una sombra.
Difuminarme lenta
como lluvia que escampa y se evapora
y no dejar ni un rastro ni una huella
por donde he caminado.
Invisible, o casi,
también para mis ojos.
Y al fondo del espejo
encontrar solo bruma.
Julia Bellido
Quero ser, com o tempo,
imperceptível.
Nem mesmo uma lembrança, uma sombra.
Esfumar-me lentamente,
como chuva que evapora, quando escampa.
Não deixar rasto, sequer uma pegada,
por onde passar.
Invisível, ou quase,
também a meus olhos.
E no fundo do espelho
achar apenas bruma.
(Trad. A.M.)
Faltam cinco semanas, quase à justa,
para ficar sem casa, para ficar sem lua
(de merda, mas lua) onde aguardar a morte.
Faltam cinco semanas, talvez menos,
para que esta casa, como as outras,
seja uma linha na vã biografia
de tudo o que não fui e não serei.
Faltam cinco semanas (menos mal?)
para ingressar no nomadismo extremo,
desporto radical ao acesso dos velhos
com metade dos dentes e a estupidez inteira.
Eu não gosto de cães, gosto de tectos,
e faltam cinco semanas, mais ou menos,
Para viver nas sombras de um canil
a que parece que se chama mundo.
MIGUEL MARTINS
Telhados de Vidro, 19
(ed. Averno)
AÍ FORA
Olhar-nos nos olhos,
traduzir a luz,
respirar e tremer,
disso vivemos.
Como nós
também as sabinas são árvores
tristes
que ao vento perguntam
quanto devem resistir,
se a ventura não estará em partir.
Tudo o que amamos e não sabemos
está aí fora,
doendo.
JOSÉ GARCÍA ALONSO
Erosión (2024)
(Trad. A.M.)
.
DO CAPÍTULO DA DEVOLUÇÃO
Hoje venho dizer-te que morreste e que velo o teu corpo no meu
leito, um corpo estranho e surdo um corpo incompreensível
aquele desespero que deixou de ter forças para erguer os portais do
outro reino tristeza de menino a quem tiraram tudo, até
a tinta e as flores e o prazer de gritar
esse (foi visto) deve subsistir porque é a tua maneira de tomar banho
no cosmos, olhar o cosmos como os que ainda podem
interrogar as ondas e morrer
mas tu ainda não sabes a que ponto morreste; vais até à janela, aspiras
com cuidado o oxigénio que o espaço te oferece, apontas
rindo a meiga criatura que pela rua arrasta a sua condição
de animal fulminado
depois olhas para mim, olhas as tuas mãos, e elas ambas, tão claras,
tão seguras, são as mãos de um soldado a arder em febre,
aves a percorrer o seu novo deserto
mas sabes, tu viste, e mais do que eu; a mão do homem é doce e
iluminada como a noite como um rasto de fumo sobre
os hospitais
tivemos uma história mas a história foi-se, em fileiras angélicas e
gratas, a fazer a manhã de outras paragens; outra sombra,
outros olhos semelhantes
noutro leito nas nuvens deito os teus cabelos, o teu cansaço e a
minha miséria, os teus braços e os meus, altos como
cidades, altos como flores
parou o automóvel, lá em baixo, e eu não tenho mais que descer as
escadas, fechar ainda a porta do teu quarto, atravessar de
um pulo a minha própria vida
agora posso sonhar até deixar de te ver
belo rio sem lágrimas
Mário Cesariny
.
CANCIÓN 5
(Diálogo en la oscuridad)
Todavía algunas noches,
padre
mío, me despiertas
y me
preguntas, temblando,
como a
través de la niebla,
si ha de
venir algún día
para ti
la primavera.
-¿Es que no sabes que has muerto,
que donde estás no florece,
cuando es abril, la semilla,
aunque en el campo la entierres?
Y contestas: -"Hijo, ¿cómo
me hablas estando yo ausente?
¿A quién de los dos, entonces,
está engañando la muerte?”
José Mateos
Algumas noites ainda,
meu pai, despertas-me
e perguntas, tremendo,
como que através da névoa,
se há-de vir algum dia
para ti a Primavera.
- Mas não sabes tu que morreste,
que lá onde estás não floresce
a semente, em Abril,
mesmo que a ponhas na terra?
E tu respondes: ‘Filho, se eu estou
ausente, como é que falas comigo?
A qual dos dois, portanto,
está a morte enganando?’
(Trad. A.M.)
UM LIVRO ME LEVA PELA MÃO
folheio, devagar, as páginas de um livro:
ondas pálidas e cardumes de letras negras
flutuam-me entre as mãos.
escuto o sussurro de poemas antigos,
deslizando sob os meus dedos,
na mútua carícia de quem troca o lume.
entre a capa e a contracapa,
versos e rimas murmuram, palavras
cálidas como uma mulher entreaberta.
e toda a noite o livro me leva pela mão,
em cada página, a ferida do amor
e o oceano de um branco quase azul.
é madrugada. fecho o livro.
tranquilas vozes adormecem-me
— e, no sono de um verso, naufrago.
João de Mancelos
.