25.9.21

Antonio Deltoro (Sobrevivência)




SOBREVIVENCIA



Una vez viste la verdad,
ya no te acuerdas.

Llueve
y sonríes
al sentir la lluvia
que, muchos años después,
sigue cayendo.

Qué maravilla reducirse,
concentrarse,
no salir,
no abarcar,
quedarse con la lluvia,
no con el trueno y el rayo
que enceguecen
al oído y al ojo

cuando caen
juntos, los dos,
al mismo tiempo.

Antonio Deltoro

 

Uma vez viste a verdade,
já te não lembras.

Chove
e sorris
ao sentir a chuva,
que continua a cair
muitos anos depois.

Que maravilha encolher,
concentrar-se,
não sair,
não abarcar,
ficar com a chuva,
não com o trovão e o raio
que cegam
vista e ouvido

quando caem
os dois, juntos,
ao mesmo tempo.


(Trad. A.M.)


>>  Lexia (9p) / Letras libres (9p) / UNAM (4p) / Revista (colaborações) / Wikipedia

 .

22.9.21

Amadeu Baptista (Outra vez a chuva)




OUTRA VEZ A CHUVA



Outra vez a chuva, outra vez este
Charco de mágoa que suja o espírito
E esta lâmina cravada nas espáduas,
Esta vicissitude que não cessa

E amarga as noites e os dias.
Outra vez esta fantasmagoria
De espectros a perseguir-me,
Esta barbárie que a dor e a nostalgia

Ampliam sobre os meus ombros.
Desta vertigem não hei-de sair vivo.
Feneço nesta vida entristecida que a cada

Instante se apaga pela tua ausência.
Outra vez chuva, outra vez este
Navio que parte e não regressa.


 Amadeu Baptista

.


20.9.21

Alejandra Pizarnik (O despertar)




EL DESPERTAR 

 

Señor
La jaula se ha vuelto pájaro
y se ha volado
y mi corazón está loco
porque aúlla a la muerte
y sonríe detrás del viento
a mis delirios

Qué haré con el miedo
Qué haré con el miedo

Ya no baila la luz en mi sonrisa
ni las estaciones queman palomas en mis ideas
Mis manos se han desnudado
y se han ido donde la muerte
enseña a vivir a los muertos

Señor
El aire me castiga el ser
Detrás del aire hay monstruos
que beben de mi sangre

Es el desastre
Es la hora del vacío no vacío
Es el instante de poner cerrojo a los labios
oír a los condenados gritar
contemplar a cada uno de mis nombres
ahorcados en la nada.

Señor
Tengo veinte años
También mis ojos tienen veinte años
y sin embargo no dicen nada

Señor
He consumado mi vida en un instante
La última inocencia estalló
Ahora es nunca o jamás
o simplemente fue

¿Cómo no me suicido frente a un espejo
y desaparezco para reaparecer en el mar
donde un gran barco me esperaría
con las luces encendidas?

¿Cómo no me extraigo las venas
y hago con ellas una escala
para huir al otro lado de la noche?

El principio ha dado a luz el final
Todo continuará igual
Las sonrisas gastadas
El interés interesado
Las preguntas de piedra en piedra
Las gesticulaciones que remedan amor
Todo continuará igual

Pero mis brazos insisten en abrazar al mundo
porque aún no les enseñaron
que ya es demasiado tarde

Señor
Arroja los féretros de mi sangre

Recuerdo mi niñez
cuando yo era una anciana
Las flores morían en mis manos
porque la danza salvaje de la alegría
les destruía el corazón

Recuerdo las negras mañanas de sol
cuando era niña
es decir ayer
es decir hace siglos

Señor
La jaula se ha vuelto pájaro
y ha devorado mis esperanzas

Señor
La jaula se ha vuelto pájaro
Qué haré con el miedo

Alejandra Pizarnik

[Apología de la luz]

 

 

Senhor
A jaula tornou-se pássaro
e ergueu voo
e meu coração enlouqueceu
porque uiva à morte
e sorri a meus delírios
por trás do vento

Que hei-de fazer com o medo
Que hei-de fazer com o medo

Não baila já a luz em meu sorriso
nem as estações queimam pombas na minha ideia
Minhas mãos ficaram nuas
e foram para onde a morte
os mortos ensina a viver

Senhor
O ar castiga meu ser
Por trás do ar há monstros
que bebem do meu sangue

É o desastre
É a hora do vazio no vazio
É o momento de cerrar os lábios
ouvir gritar os condenados
contemplar cada um de meus nomes
enforcados no nada

Senhor
Tenho vinte anos
Meus olhos têm vinte anos também
e contudo não dizem nada

Senhor
Consumei minha vida num instante
A última inocência estourou
Agora é nunca ou jamais
ou simplesmente já foi

Como é que não me suicido diante do espelho
e desapareço para reaparecer no mar
um grande barco me esperando aí
com as luzes acesas?

Como é que não me arranco as veias
e faço uma escada com elas
para fugir para o outro lado da noite?

O princípio deu à luz o fim
tudo continuará igual
os sorrisos gastos
o interesse interessado
as perguntas de pedra em pedra
os gestos a arremedar amor
tudo continuará igual

Meus braços insistem porém em abraçar o mundo
porque ainda não aprenderam
que é já tarde demais

Senhor
Tira os caixões do meu sangue

Recordo a infância
quando eu era velhinha
As flores morriam-me na mão
porque a dança selvagem da alegria
destruía-lhes o coração

Recordo as negras manhãs de sol
quando era menina
quer dizer ontem
quer dizer há séculos

Senhor
A jaula tornou-se pássaro
e devorou-me a esperança

Senhor
A jaula tornou-se pássaro
Que hei-de eu fazer com o medo?

 

(Trad. A.M.)

 . 


19.9.21

Aldo Luis Novelli (Salto)




SALTO 

 

el error 
no es saltar al vacío
desde la cornisa de la palabra 

sin una red que contenga
frases gastadas y sintagmas sin fe. 

el error es creer
en la gloria de ese salto.

Aldo Luis Novelli

 

o erro 
não é saltar para o vazio
da cornija da palavra 

sem uma rede de palavras
gastas e sintagmas sem fé. 

o erro é crer
na glória desse salto.

(Trad. A.M.)

 .

17.9.21

Manuel António Pina (O lado de fora)




O LADO DE FORA



Eu não procuro nada em ti,
nem a mim próprio, é algo em ti
que procura algo em ti
no labirinto dos meus pensamentos. 

Eu estou entre ti e ti,
a minha vida, os meus sentidos
(principalmente os meus sentidos)
toldam de sombras o teu rosto. 

O meu rosto não reflete a tua imagem
o meu silêncio não te deixa falar,
o meu corpo não deixa que se juntem
as partes dispersas de ti em mim. 

Eu sou talvez
aquele que procuras,
e as minhas dúvidas a tua voz
chamando do fundo do meu coração.

Manuel António Pina

 .

15.9.21

Vicente Luis Mora (Testemunhos)




TESTIMONIOS

 

He visto un hombre limpiando su coche un día de lluvia, a las doce de la noche.
He visto a los gatos andando hacia atrás, erizados ante la forma de la nada.
He visto los ojos de un icono ruso observando el crecimiento del tiempo.
He visto a un poeta desesperado por escapar de la palabra celeste.
He visto a mujeres combadas de dolor por un presagio.
He visto un ahorcado balanceándose levemente por el viento.
He visto a un potrillo salir al mundo sobre el heno, con el rostro triste.
He visto olas que no llegaban a romper, y regresaban.
He visto niños intentando recomponer a las hormigas rotas.
He visto a borrachos seguir bebiendo para perder el sentido. Todo sentido.
He visto a una mujer llorando de alegría, mientras miraba a su hombre.
He visto rectas circulares en carreteras infinitas.
He visto a pescadores acariciando el mar.
Y yo era el hombre.


Vicente Luis Mora

 

 

Eu vi um homem a lavar seu carro num dia de chuva, às doze da noite
Eu vi os gatos a andar ao para trás, o pêlo eriçado ante a forma do nada
Eu vi os olhos de um ícone russo a observar o crescimento do tempo
Eu vi um poeta desesperado por escapar à palavra celeste
Eu vi mulheres curvadas de dor por um presságio
Eu vi um enforcado a balouçar com o vento
Eu vi um potro vir ao mundo sobre o feno, com o rosto triste
Eu vi ondas que não rebentavam, e voltavam para trás
Eu vi crianças tentando recompor formigas desfeitas
Eu vi borrachos continuar a beber para perder o sentido. Todo o sentido
Eu vi uma mulher chorar de alegria, a olhar para o seu homem
Eu vi rectas circulares em estradas sem fim
Eu vi pescadores a fazer festas ao mar
E eu era o homem


(Trad. A.M.)

 .

14.9.21

Vicente Gallego (A página)




LA PÁGINA

 

Estáis las dos ahí,
en la terraza, justo
donde no rige el tiempo,
bajo una luz de hilo,
entre las hojas verdes
y los renuevos rojos.

Esa mujer, la niña
dejándose peinar,
las manos blancas
sobre el caudal oscuro,
el sol allí pasmado,
el aire entre las hebras
detenido, la página
escribiéndose,
conteniendo el aliento.


Vicente Gallego

[JAFS]

 

 

Eis-vos aí as duas,
no terraço, mesmo
onde o tempo não reina,
sob uma luz de fio,
entre a folhagem verde
e os rebentos vermelhos.

A mulher, a jovem
a deixar-se pentear,
as mãos brancas
sobre a cabeleira escura,
o sol ali pasmado,
o ar suspenso,
a página a escrever-se,
contendo a respiração.


(Trad. A.M.)

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