27.2.24

Antonio Deltoro (Real política)





REAL POLÍTICA



La mosca en el rayo de sol sonríe,
sonríe la araña, sonríe la mariposa,
pero la araña ríe al último:

la araña, la mosca,
el sol, la sonrisa y la risa
y la mariposa

son los protagonistas de este poema,

pero la araña
se lleva la palma

y la sonrisa
del verdugo.


Antonio Deltoro

[Otra iglesia]

 

 

A mosca sorri ao raio de sol,
sorri a aranha, e a borboleta,
mas quem ri por último é a aranha:

a aranha, a mosca,
o sol, o sorriso, mais o riso
e a borboleta

são os protagonistas aqui do poema,

mas é a aranha
quem leva a palma

assim como o sorriso
do carrasco.


(Trad. A.M.)

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25.2.24

Ricardo Silvestrin (Lixo sem luxo)




LIXO SEM LUXO

 

Ele sabe que será jogado 
na lata de lixo da história,
mas esperneia.
Tira de sua cabeça,
como um coelho morto
de uma podre cartola,
ideias sem serventia.
Os medíocres que o seguem
aplaudem sua iniciativa
e votam em assembleia
os dejetos que se transformam
em decretos.

Ricardo Silvestrin

[Acontecimentos]

 

23.2.24

Ana Pérez Cañamares (Quando o sol)




Cuando el sol ya sólo se adivina
en su reflejo sobre los pájaros
que vuelan fuera de tu alcance 

es la hora de cerrar los oídos
a los gritos que te apremian
y escuchar los ecos que vienen
de lejos para susurrarte: 

defiende tus alas.
 

Ana Pérez Cañamares 

[Apología de la luz]

 

 

Quando o sol já só se adivinha
pelo seu reflexo nos pássaros
que voam fora do teu alcance 

é hora de fechar os ouvidos
aos gritos que te oprimem
 escutar os ecos que chegam
de longe a sussurrar-te: 

defende as tuas asas.
 

(Trad. A.M.)

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22.2.24

Ángel Campos Pámpano (Ofício de palavras)




OFÍCIO DE PALABRAS     


Conforme a la costumbre
antigua de su oficio,
las palabras anuncian
el drama lentamente.
Ocupan los objetos
y enseguida los niegan.
Se dan al desamparo
de los nombres perdendo
el tiempo si fabulan
historias que no existen.
No es casual que a veces
procuren el poema,
la vigilia, la muerte,
la idea de la rosa.

Ángel Campos Pámpano

 

 

Conforme ao costume
antigo de seu ofício,
as palavras anunciam
o drama lentamente.
Ocupam os objectos
e a seguir negam-nos.
Dão-se ao desamparo
dos nomes perdendo
o tempo a fabular
histórias que não existem.
Às vezes, não por acaso,
procuram o poema,
a vigília, a morte,
a ideia pura da rosa.


(Trad. A.M.)

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20.2.24

Pier Paolo Pasolini (Súplica à mãe)




SUPPLICA A MIA MADRE 



È difficile dire con parole di figlio
ciò a cui nel cuore ben poco assomiglio.

Tu sei la sola al mondo che sa, del mio cuore,
ciò che è stato sempre, prima d’ogni altro amore.

Per questo devo dirti ciò ch’è orrendo conoscere:
è dentro la tua grazia che nasce la mia angoscia.

Sei insostituibile. Per questo è dannata
alla solitudine la vita che mi hai data.

E non voglio esser solo. Ho un’infinita fame
d’amore, dell’amore di corpi senza anima.

Perché l’anima è in te, sei tu, ma tu
sei mia madre e il tuo amore è la mia schiavitù:

ho passato l’infanzia schiavo di questo senso
alto, irrimediabile, di un impegno immenso.

Era l’unico modo per sentire la vita,
l’unica tinta, l’unica forma: ora è finita.

Sopravviviamo: ed è la confusione
di una vita rinata fuori dalla ragione.

Ti supplico, ah, ti supplico: non voler morire.
Sono qui, solo, con te, in un futuro aprile…

Pier Paolo Pasolini




É difícil dizer isto, com palavras de filho,
a quem lá no fundo do peito bem pouco me pareço.

Tu és a única pessoa que sabe, do meu coração,
o que ele foi sempre, antes de qualquer outro amor.

Por isso devo dizer-te isto que é horrível de saber:
que é na tua graça que nasce a minha angústia.

Ninguém te pode substituir, por isso a vida que me deste
está condenada à solidão.

E eu não quero estar só, tenho fome de amor,
do amor de corpos sem alma.

Porque a alma em ti está, és tu, mas tu és minha mãe
e eu sou escravo do teu amor:

escravo desde a infância, deste sentido alto,
irremediável, de um empenho imenso.

Era o único modo para sentir a vida,
a única tinta, a única forma: agora, acabada.

Sobrevivemos, na confusão de uma vida
renascida fora da razão.

Suplico-te, ah, suplico-te: não queiras morrer.
Eu estou aqui, sozinho, contigo, num Abril futuro…


(Trad. A.M.)

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18.2.24

César Cantoni (Álbum de família)




ÁLBUM DE FAMILIA



Murió mi padre, murieron mis abuelos,
murieron mis tíos carnales y políticos.
Una familia entera de herreros,
ebanistas, curtidores, albañiles,
yace ahora sin fuerzas bajo tierra.

Y yo, el más inútil de todos,
el que no sabe hacer nada con las manos,
he logrado sobrevivir impunemente
para llorar delante de una foto
lo mejor de mi sangre.


César Cantoni

[La ceniza]

 

 

Morreu meu pai, meus avós,
meus tios de sangue e afins.
Uma família inteira de ferreiros,
marceneiros, curtidores, pedreiros,
jaz agora sem forças, por baixo da terra.

E eu, o mais inútil de todos,
o que não sabe fazer nada com as mãos,
logrei sobreviver impunemente
para diante duma foto
chorar o melhor do meu sangue.


(Trad. A.M.)

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17.2.24

Alfredo Buxán (A marca de Eros)




LA HUELLA DE EROS

 

No olvida mi cuerpo las más profundas
heridas que otros cuerpos le han grabado
en lo más indefenso de la carne.
Sangran y me despiertan en la noche.
Escucho lo que vienen a decirme,
reconozco su origen, les devuelvo
el calor que me dejaron.
Algunas,
más que heridas, son besos inmortales
o pájaros en vuelo para siempre
(la biblioteca, al fondo, nos miraba
discreta, pura gloria entre la gente
que pasaba intranquila a nuestro lado,
no me vas a decir que no te acuerdas).
Le duelen de verdad algunas veces,
es mentira que el tiempo se las lleve
al territorio oscuro del olvido.
El cuerpo las reconoce sin temores.
No le importa sufrir. Las agradece.
Ha sabido morir cuando ha hecho falta.


Alfredo Buxán

[Life vest under your seat]


 

Não esquece meu corpo as mais profundas
feridas que outros corpos lhe deixaram
no mais indefeso da carne.
Que sangram e me despertam de noite.
Escuto o que me vêm dizer,
reconheço-lhes a origem, devolvo-lhes
o calor que me deixaram.
Algumas,
mais que feridas, são beijos imortais
ou pássaros em perpétuo voo
(a biblioteca, ao fundo, observava-nos
muito discreta, pura glória
no meio das pessoas que
nos passavam ao lado, intranquilas,
não me vais dizer que não te lembras).
Doem de verdade algumas vezes,
não é verdade que as leve o tempo
para a terra escura do esquecimento.
Reconhece-as o corpo sem temor.
Não se lhe dá de sofrer, agradece-as.
Soube morrer quando foi preciso.


(Trad. A.M.)

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