23.2.26

Felipe Benítez Reyes (Eu disse-lhe)




Le dije que lo nuestro envenenaba
a los dos por igual, que era sensato
olvidarnos de todo, cada uno
tenía ya su vida, cada cual
su equipaje de sombras
en distintos andenes. 

Muere siempre el amor
de forma violenta.
                          Ahora puedo
decir que soy el tipo
más desdichado de este mundo.

Felipe Benítez Reyes 

[Sopa de poetes] 

 

Eu disse-lhe que o nosso caso
envenenava os dois, o melhor
era esquecer tudo, cada um
tinha já a sua vida,
sua bagagem de sombras
em distintas plataformas. 

Morre sempre o amor
de forma violenta.
                              Agora posso
dizer que sou o tipo
mais infeliz deste mundo.
 

(Trad. A.M.)

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22.2.26

Federico Gallego Ripoll (Esponsais de vida)




ESPONSALES DE VIDA

 

Hace falta atención, 
mucho silencio,
para oír cómo el alma de la tierra
genera un nuevo anillo
en el centro del árbol.

Esponsales de vida:
eso es el tiempo.

Federico Gallego Ripoll

[Hector Castilla]

 

É preciso atenção,
muito silêncio,
para ouvir como a alma da terra
gera um novo anel
no centro da árvore.

Esponsais de vida,
isso é o tempo.


(Trad. A.M.)Federico

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20.2.26

Guilherme de Oliveira (Cabeça vazia)




CABEÇA VAZIA

 

Caminho lento pelo vazio
que preenche este recinto
onde não moram objetos
nem almas se vislumbram. 

É de um cinzento cremado.
Nem sei se marcho a direito
ou se o percorro em círculos,
sem propósito e sem fervor. 

A pouca luz envergonhada
que entra por vias travessas
não chega para ver o céu
nem dá saídas pró mundo. 

Carrego alguns pensamentos
que se movem sem espessura;
no útero desta cabeça oca,
serão poemas para nascer?


Guilherme de Oliveira

[Triplov]

 .

18.2.26

Fabián Casas (Mantra)




MANTRA

 

Junto as mãos como se fossem um búzio
e chego o ouvido.
Apesar do sinal fraco
por causa dos anos e do vento,
ainda consigo ouvir as minhas tias
a debicar os milhos na cozinha,
com a minha mãe.

 

Fabián Casas

(Trad. A.M.)

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17.2.26

Fabio Morábito (A todos que me falharam)




A cuántos que me fallaron
les retiré mi afecto, 

creyendo que la vida es larga
y volvería a quererlos! 

¡Creer que para todo hay tiempo
es mi mayor defecto! 

Lo digo en verso (otro defecto mío)
para no decirlo de manera franca. 

Pero los versos si son buenos
no dejan de escarbar 

con rimas que remueven losas
que cubren unos traumas. 

¡A cuántos que me fallaron
les clausuré mi ser, 

sin darle tiempo al tiempo
de irse por las ramas!

Fabio Morábito

 

A todos que me falharam
retirei-lhes meu afecto,

crendo que é longa a vida
e voltaria a querer-lhes!

Pensar que há tempo para tudo
é o meu maior defeito!

Digo-o aqui em verso (mais um defeito meu)
para o não dizer direitamente.

Mas os versos quando são bons
não deixam de esgravatar

com rimas mexendo pedras
que cobrem uns quantos traumas.

A todos que me falharam
eu encerrei meu ser,

sem dar tempo ao tempo
de sequer fugir pelos ramos!


(Trad. A.M.)

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15.2.26

Francisco J. Craveiro Carvalho (14 Dez 2021)





14 DEZ 2021

 

Solteiro a vida inteira.
Sétimo dia. Em bom sítio 
o andar vende-se sempre.
O pior são os livros científicos.
Quem é que quer aquilo? 

FRANCISCO J. CRAVEIRO CARVALHO
Cinco
(2023)

 

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13.2.26

Jesús Muñárriz (Calar)




CALLAR

 

Callar es más prudente,
más seguro, más cómodo, más práctico,
callar es más astuto,
más rentable,
más útil,
callar no da problemas,
callar evita líos,
callar trae más cuenta,
callar impide que se cuelen moscas
en la boca, callar propio es de sabios,
se está muy bien
callado.

Porque el que calla
otorga
licencia, impunidad,
perdón, facilidades
y patente de corso,
y por la boca muere el pez y siempre
se ha de sentir lo que se dice y nunca
decir lo que se siente
si se quiere triunfar
en sociedad
y recibir migajas
del gran pastel
del mundo.


Jesús Muñárriz

 

Calar é mais prudente,
mais seguro, mais cómodo,
calar é mais astuto,
mais rentável,
mais útil,
calar não dá problemas,
calar evita sarilhos,
calar faz mais conta,
calar impede que entrem moscas
para a boca, calar é próprio de sábios,
o melhor é o calado.

Porque quem cala
confere
licença, impunidade,
perdão, facilidades
e carta branca
e pela boca morre o peixe
e temos de sentir sempre o que dizemos,
nunca dizer o que sentimos,
se quisermos vencer
na sociedade
e receber umas migalhas
do grande pastel
do mundo.


(Trad. A.M.)

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