(Todos os dias têm a sua história)
Todos os dias têm a sua história, um só minuto levaria anos
a contar, o mínimo gesto, o descasque miudinho duma palavra, duma sílaba, dum
som, para já não falar dos pensamentos, que é coisa de muito estofo, pensar no
que se pensa, ou pensou, ou está pensando, e que pensamento é esse que pensa o
outro pensamento, não acabaríamos nunca mais.
Melhor é declarar que estes anos de João Mau-Tempo vão ser os da sua educação
profissional, no sentido tradicional e campestre de que um homem de trabalho
tem de saber de tudo, tão bom para ceifar como para tirar cortiça, tão destro a
valar como a semear, tão de bom lombo para carregar como de rins para cavar.
Este saber transmite-se nas gerações sem exame nem discussão, é assim porque
sempre assim foi, isto é uma enxada de gaviões, isto uma gadanha, e isto uma
gota de suor.
Ou cuspo branco espesso em tarde de fornalha, ou pancada de sol em cima da
ganacha, ou jarretes desfalecidos de pouco alimento. Entre os dez anos e os
vinte há que aprender tudo e depressa, ou não teremos patrão que nos aceite.
JOSÉ SARAMAGO
Levantado do Chão
(1980)

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