21.3.26

Armando Silva Carvalho (Janeiro de sessenta e dois)

 



JANEIRO DE SESSENTA E DOIS

 

Janeiro português que entrou mansinho
desistiu quase pela chuva
mas entrou
limpando docemente os pés. 

Mas quase um janeiro de almanaque:
com burros em Lisboa cochichando
com damas coroadas de cinzento
e os pobres aos pulinhos nos cafés. 

Sacodem-no apressadas as varinas,
ideias adoecem-no sem asas
e os burgueses roçam com a língua
plo ventre melancólico das casas. 

Seus dias vão depressa para os ardinas,
poleiro persistente onde um cavalo
relincha no colo das semanas
miando desastrado como os sinos,
metido com vamps americanas. 

Janeiro português por onde poisas,
doméstica abelha sem corola
arrastas sem saber o gosto as coisas
e a tia chega ao fim da camisola.

Armando Silva Carvalho 

[Instituto Camões]

.

 

19.3.26

Hilario Barrero (Maré alta)




MAREA ALTA



Somos como dos islas separadas
porque nos cubre el agua
y solo deja ver nuestras cabezas.
Si en el mar que vivimos hubiera una marea,
cuando el agua bajara,
los que miran con ojos de secano,
verían que la base es una roca firme,
incrustada de fechas, pasiones y recuerdos,
que la vida que todo lo erosiona
intenta separar, pero no puede.


Hilario Barrero

 

 

Somos como duas ilhas separadas
porque nos cobre a água,
deixando à mostra só as cabeças.
Se no mar que vivemos houvesse maré,
quando a água baixasse,
os que olham com olhos de sequeiro     
veriam que o fundo é rocha firme,
incrustada de datas, paixões e lembranças,
que a vida que tudo rompe
tenta separar, mas não consegue.


(Trad. A.M.)

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18.3.26

Pedro López Lara (O outro autor)




O OUTRO AUTOR 

Ler os próprios versos é tarefa ingrata.
Falam de modo estranho, como se estivessem
pendentes sempre de si mesmos.
Dizem coisas estranhas.

Quem neles se expressa é um desconhecido
cansado e amargo, que finge surpreender-se
com as coisas mais triviais:
que o tempo passe, que os amigos o traiam,
que as mulheres o deixem.

Assombra-o que não seja aquilo aquilo que já não é.
Parece obcecado com a morte.

Pedro López Lara

(Trad. A.M.)

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15.3.26

Giuseppe Ungaretti (Rosas em chamas)

 



ROSE IN FIAMME

 

Su un oceano
di scampanellii
repentina
galeggia un’altra mattina

Giuseppe Ungaretti

  

Num oceano
de zumbidos
súbita
bóia uma nova manhã


(Trad. A.M.)


12.3.26

Francisco Duarte Mangas (Macela)

 



MACELA

 

brevíssimos sóis dos muros
vivem em cardume 
observando a estrada
a sua resistência é infinita
que o digam os antigos cantoneiros
no início da primavera
arrancavam essa luz aromática 
com medo de a sua beleza
distrair os raros e vagarosos automobilistas

Francisco Duarte Mangas

 .

10.3.26

Fernando Beltrán (Batota para perder)




TRAMPAS PARA PERDER


Mi madre me enseñó a hacer trampas

Trampas para perder

Ganar era tan fácil que lloraba de noche
y no podía conciliar el sueño

Cogidos de la mano me calmaba
relatándome historias que sucedieron luego

La culpa fue mía,

madre me preguntaba
si las quería reales o inventadas,
y yo pedía siempre que le hubieran
sucedido a ella

Y casi sin quererlo
una noche mi madre inventó la realidad

 

 Fernando Beltrán

[Aula de las metaforas]



Minha mãe ensinou-me a fazer batota

Batota para perder

Ganhar era tão fácil que eu chorava de noite
e não conseguia adormecer 

Ela acalmava-me com a mão dela na minha
contando-me histórias que depois aconteceram

A culpa foi minha,

ela perguntava se eu as queria reais ou inventadas
e eu dizia sempre, que lhe tivessem
acontecido a a ela

E aí quase sem querer
uma noite minha mãe inventou a realidade 

(Trad. A. M.)

 .

8.3.26

Francisco Caro (Altas nuvens de Janeiro)




ALTAS NUBES DE ENERO

 

Ojalá y nunca, Konstandino,
necesitemos a tus bárbaros

y sea la llegada de un poema
el hecho que nos salve
de la inacción,
del envilecimiento.


Francisco Caro

 

Oxalá que nunca, Konstandino,
precisemos dos teus bárbaros

e seja a chegada de um poema
o facto que nos salve
da inacção,
da vil tristeza.


(Trad. A.M.)

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