24.8.26

Amadeu Baptista (A noite de Pavese)




A NOITE DE PAVESE 

 

Raras vezes me franquearam a porta
e me deixaram entrar. A febre
sitia-me a alma e quem me vê
assusta-se do aspecto do meu rosto,
esta barba por fazer onde um rouxinol
se esconde. E mais ainda assusta
a minha altura, este lugar de vertigem
e palavras poderosas, a presença
de ilimitados segredos que ninguém quer conhecer,
o estremecimento que corre nos meus ombros.
Embora nada peça, sabem que sou um pedinte.
E quando entro nas casas os meus gestos
afeiçoam-se a alguma coisa enigmática
que contorna o pavor e o entrega
por não se saber que espécie de vida ou de morte
vem comigo. Obviamente, eu abençoo
quem me deixa entrar, dou a entender
que alguma coisa brilha nas minhas mãos
e posso matar a fome com uma ou outra palavra
próxima do amor, um dedo nos cabelos
de quem me recebe. Subi as escadas que vão dar a esta casa
em silêncio e em silêncio aceitei que me aguardassem
com as inefáveis sombras que vejo nos outros
e tento decifrar para meu contentamento.
Mandaram-me sentar e deram-me de beber.
Esse álcool reconfortou-me a alma.
E a minha gratidão expressa-se deste modo, limpo
e nítido, observando a mulher nesse sem fim
das coisas, onde todos os mistérios avançam
para uma explicação que a qualquer momento
pode irromper do espírito como uma explosão.
Olho-te nos olhos e recebo as duas moedas
que me ofereces, o teu rosto é-me familiar
se recuar à infância e subitamente perceber
que também pertenci ao exercício desta árvore
que nesta sala se levanta. Em frente,
na fotografia que o meu olhar alcança
porque me alcança o olhar que dela se desprende,
inscreve-se o enigma que me fez aqui chegar,
mais que um rumor ou um fio ténue
com o nome de todas as coisas inesperadas
que me aconteceram na vida, sempre
que me franquearam a porta e me deixaram entrar.
Agora, com a memória de ter estado em tua casa
e ter recebido a graça de alguma atenção,
eu, que sou pedinte embora nada peça,
entrego-te este sulco da desordem
sobre a página em branco e agradeço-te
com o conhecimento de um outro mundo
ainda mais inexplicável.
Não tendo havido despedida, sabe que permaneço
e na encruzilhada das dores que me couberam viver
não esquecerei o teu nome no dia em que também tiver partido
e mais nenhuma luz houver além daquela
que ilumina o teu rosto na solidão da noite.
Os anjos esperam-me. Não me é possível demorar.
Que me seja a alba a tua tolerância. 
 

Amadeu Baptista

 .

22.8.26

Mario Montalbetti (10.000 cafés)





10 000 CAFÉS 

 

En la cafetería de los 10 000 cafés
las moscas hacen una escala técnica
en su ruta hacia el próximo estiércol.
Mi fe en el año 81 es ciega.
Por ahora
abastecer de combustible a las moscas 

es suficiente.
 

Mario Montalbetti 

[Otra iglesia] 

 

Na cafetaria dos 10.000 cafés 
s moscas fazem escala técnica
na sua rota para a próxima lixeira.
Tenho grande fé no ano que vem.
Por agora
abastecer as moscas de combustível  

é suficiente. 

(Trad. A.M.)

 .

20.8.26

Andreia C. Faria (Morrer)




Morrer
é talvez mudar de luz
como quem muda os lençóis
ou sacode
na erva o calor
de mantas sombrias.


Andreia C. Faria

 .

18.8.26

Juan Cobos Wilkins (Na corrente)




EN LA CORRIENTE


Mientras te amabas
sólo a ti mismo, no crecías.

Pero anhelaste amar y ser amado
y entonces ya
la corriente del río
se puso en movimiento.

Juan Cobos Wilkins 

 

Enquanto te amavas
só a ti mesmo, não crescias.

Mas quiseste amar e ser amado,
aí então
a corrente do rio
pôs-se em movimento.


(Trad. A.M.)


>>  Amediavoz (19p) / Trianarts (9p) / Zenda (5p) / Junta de Andalucia (ficha) / Wikipedia

.

16.8.26

Mary Oliver (Dia de verão)




THE SUMMER DAY

 

Who made the world?
Who made the swan, and the black bear?
Who made the grasshopper?
This grasshopper, I mean
- the one who has flung herself out of the grass,
the one who is eating sugar out of my hand,
who is moving her jaws back and forth instead of up and down,
who is gazing around with her enormous and complicated eyes.
Now she lifts her pale forearms and thoroughly washes her face.
Now she snaps her wings open, and floats away.
I don't know exactly what a prayer is.
I do know how to pay attention, how to fall down
into the grass, how to kneel down in the grass,
how to be idle and blessed, how to stroll through the fields,
which is what I have been doing all day.
Tell me, what else should I have done?
Doesn't everything die at last, and too soon?
Tell me, what is it you plan to do
with your one wild and precious life?


Mary Oliver

 

Quem é que fez o mundo?
Quem é que fez o cisne e o urso negro?
Quem é que fez o gafanhoto?
Este gafanhoto, digo eu
- o que acaba de saltar de entre as ervas,
o que está a comer-me açúcar da mão,
o que mexe as mandíbulas para trás e para a frente
em vez de para cima e para baixo,
o que olha em volta com aqueles olhos enormes e complicados.
Agora ergue os braços e lava a cara com cuidado, 
depois bate as asas abertas e afasta-se voando.
Eu não sei exactamente o que é a oração,
sei é prestar atenção, arrodilhar-me
na erva, pôr-me de joelhos,
preguiçar e não fazer nada, deambular pelos campos,
que é o que tenho feito o dia todo.
Diz-me cá, que mais havia eu de fazer?
Não morre tudo por fim, e tão cedo?
Diz-me cá, que pensas tu fazer
da tua própria vida,
da tua livre, preciosa vida?



(Trad. A.M.)

 .

14.8.26

María Zambrano (Esta ira)



ESTA IRA

 

Que aprendáis a llorar el día breve
que enfermen vuestras hijas
y no sepáis
el nombre exacto para el miedo
en la garganta se ahogue ese pitido
y arda la madera seca de la muerte 

sólo un día
de atravesadas horas
y luces que se enciendan
rojísimas las luces
y sean bestias 

escupiendo
sobre los mausoleos 

sólo un día
tiriten de frío azuladas las mandíbulas
y nadie pronuncie
el verbo que calme
sus articulaciones 

y todo sea balbuceo
de sabio que atesora
sus cuerpos con asepsia
cuando caigan las crías
en lo ignoto
y en esas horas aprendáis
el idioma absurdo de la muerte 

sólo un día

María Zambrano

 

Que aprendais a chorar o dia
em que vossas filhas caiam doentes
e não saibais
o nome certo para o medo

que na garganta se afogue esse zumbido
e arda a madeira seca da morte

um só dia
de atravessadas horas
e luzes a acender-se
vermelhíssimas luzes
e sejam bestas

escarrando
em cimas dos mausoléus

um dia só
tiritem de frio azuladas as mandíbulas
e ninguém pronuncie
o verbo que acalme
suas articulações

e tudo seja balbuceio
de sábio que entesoura
seus corpos com assepsia
quando as crias caírem no ignoto
e nessas horas aprendais
o idioma absurdo da morte

um dia só


(Trad. A.M.)

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12.8.26

António Reis (Chega a ter gosto)




(16)

 
Chega a ter gosto
a chuva
vista dos cafés
 
caindo sobre as estátuas
e a nostalgia
 
chega a ser morna
 
com fumo e álcool
na garganta
 
Até os homens passarem
junto aos vidros
 
reais
molhados
 
sem emoções instruídas
 
pensando em remédios
e prestações
 
grisalhos
sem serem velhos
 
e falando sós
sem serem loucos


António Reis

[Canal de poesia]

 .