25.5.18

Alberto Vega (Nocturno)






NOCTURNO



Esos días son reptiles que te asaltan.
Y vuelves, tú lo sabes, desgarrado,
con esa llama sutil de interrogantes
bailándote en los ojos.
Y apartas los libros casi a manotazos
—fiebre, ginebra insomne,
música helada y sábanas de olvido.
Y te hundes en la noche de tu cuarto
atroz y solitario
como un perro que se lame los testículos.

Alberto Vega




Estes dias são répteis que te assaltam.
E voltas, tu sabes, destroçado
com essa chama subtil inquisitiva
a bailar-te nos olhos.
E apartas os livros às palmadas
 - febre, genebra insone,
gelada música e lençóis de olvido.
E afundas-te na noite de teu quarto
atroz e solitário
como um cão a lamber os testículos.

(Trad. A.M.)

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24.5.18

Agustina Bessa-Luís (Mulheres)






(Mulheres)


Elas amam a culpa.

Gostam de se sentir humilhadas, de dar à luz um bastardo, de ficar sempre com o pior bocado.

O sacrifício amadurece-as, dá-lhes uma aptidão para a maternidade mais precoce.

Por isso choram com humanas provas de amor, de justiça, de verdade.

Quando as coisas correm bem, mostram-se cépticas, quando um homem as deseja, acham que as ilude; quando triunfam nos negócios, pensam que fracassaram com o amante, ou que os amigos são interesseiros, ou que a família não as compreende.

Estão marcadas para o desespero mais cínico, porque prescinda da ciência e da razão.

Tudo é nelas sagacidade para a guerra a travar com a natureza entre o ventre fecundo e a dor, e tudo o mais que disso as distrai. (II)



AGUSTINA BESSA-LUÍS
Fanny Owen
(1979)
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23.5.18

Alberto Szpunberg (Todo poema)





(XXXIII)


Todo poema es una despedida
y un saludo. 

Acaso la vida no repare
en la nimiedad de las palabras 
con que el silencio querría,
por una única vez,
ser sólo silencio, 
como este río inmóvil 
bajo un aura leve de espejos temblorosos.

¿Por qué nos preguntamos por qué
si cualquier piedra arrojada contra el agua 
da en el centro mismo de ondas infinitas?


Alberto Szpunberg






Todo o poema é despedida
e saudação.

Não repara acaso a vida
na insignificância das palavras
com que o silêncio quereria,
por uma só vez,
ser apenas silêncio, 
como este rio imóvel
sob uma aura ligeira de espelhos tremidos.

Porque nos perguntamos porquê
se qualquer pedra atirada à água
dá no centro mesmo de infinitas ondas?

(Trad. A.M.)

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22.5.18

Adolfo Cueto (Descargas eléctricas)





DESCARGAS ELÉCTRICAS



Las palabras producen
sacudidas eléctricas. Son
como enormes trallazos fustigándonos
dentro, fogonazos, calambres: son descargas de luz
que fulminan la nada. Ahora, a oscuras
de nuevo, como quien se zambulle, entro en ti,
muy despacio –otra vez
lentamente– para que me ilumines, para tocar el fondo
de las cosas. El todo que es colmo
de la nada; el incendio, el incendio:
nuestra vida una en llamas, sólo un
electroshock, un espasmo
sin fin, cables de alta tensión elevados al viento.

Somos estos que crujen
en palabras, palabras
que son campos minados, son neuronas
hirviendo, filamentos de lumbre, material
radiactivo que nos toca de frente.
El profundo sabor
de la carne a la brasa; esta luz que nos dice
y ha dejado una flor: deja flores de plástico
floreciendo entre escombros. En vida abierta,
vieja, herida
nuevamente, la palabra surgiendo, la palabra
nombrándonos, entre el ser y la nada, el ruido
y el silencio, la inexistencia y el vacío.


 Adolfo Cueto




As palavras produzem
choques eléctricos. São
como chicotadas a fustigar-nos por dentro,
chamaradas, espasmos: são descargas de luz
que fulminam o nada. Agora, às escuras
de novo, como quem se esconde, eu entro em ti,
devagarinho – outra vez
lentamente – para que me ilumines, para tocar
o fundo das coisas. O todo que é cume
do nada; o incêndio, o incêndio,
nossa vida em chamas, só um electro-choque,
um espasmo sem fim, cabos
de alta tensão erguidos ao vento.

Somos estes que crepitam
em palavras, palavras
que são campos minados, são neurónios
fervendo, filamentos de lume, material
radioactivo que nos toca de frente.
O profundo sabor
da carne esbraseada; esta luz que nos diz,
deixando uma flor, flores de plástico
florescendo entre escombros. Em vida aberta,
antiga, ferida novamente,
a palavra surgindo, a palavra
a nomear-nos, entre o ser e o nada, o ruído
e o silêncio, a inexistência e o vazio.

(Trad. A.M.)


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21.5.18

Mark Strand (A colina)





THE HILL



I have come this far on my own legs,
missing the bus, missing taxis,
climbing always. One foot in front of the other,
that is the way I do it.
It does not bother me, the way the hill goes on.
Grass beside the road, a tree rattling
its black leaves. So what?
The longer I walk, the farther I am from everything.
One foot in front of the other. The hours pass.
One foot in front of the other. The years pass.
The colors of arrival fade.
That is the way I do it.

Mark Strand

[Canopic Jar]




Cheguei até aqui nas minhas próprias pernas,
depois de perder autocarros e táxis,
sempre a subir. Um pé, depois outro,
é assim que eu faço.
Não me incomoda, a colina estar lá.
Há ervas na berma da estrada, uma árvore que sacode
as suas folhas negras. E depois?
Quanto mais eu ando, mais longe estou de tudo.
Um pé, depois outro. As horas passam.
Um pé, depois outro. Passam os anos.
As cores da chegada desaparecem.
É assim que eu faço.

(Trad. A.M.)

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20.5.18

José Villa (Último poema)





ÚLTIMO POEMA



En la pensión donde vivo
no hace mucho
se ahorcó un cabrón
era poeta
y estaba viejo
y nunca soltaba
el whisky
hasta esa noche
cuando su cuello
se cruzó en el caminho
de aquella cuerda
lo encontraron
2 días después
apestaba
lo bajaron
se lo llevaron
en la mesa
dejó un poema
dedicado a
"la muy
puta"

el cuarto
que ocupo
era el suyo
yo también
soy poeta
igual de mierda
y de borracho
pero no estoy
viejo
o no mucho
y si en una
de esas
decido ir
y colgarme
no pienso
escribirle
un último
poema
a la perra
aquella
no se merece
ni siquiera
eso
la muy

puta.


José Villa



Na minha pensão
não há muito
enforcou-se um cabrão
era poeta
e estava velho
e nunca largava
o uísque
até àquela noite
quando o pescoço
se cruzou com aquela corda
no caminho
encontraram-no
2 dias depois
tresandava
desceram-no
e levaram-no
em cima da mesa
deixou um poema
dedicado à
‘grande puta’

o quarto
que eu ocupo
era o dele
eu também
sou poeta
da mesma igualha
de merda e bêbedo
mas não estou
velho
ou não muito
e se numa
destas noites
me resolver a ir
pendurar-me
não tenciono
escrever-lhe
um último
poema
àquela cadela
que não merece
isso sequer
a grande

puta.

(Trad. A.M.)

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19.5.18

Joaquín Beníto de Lucas (Sem tristeza)





SIN  TRISTEZA



Yo no sé por qué tengo que estar triste.
El mar es grande, la esperanza espera,
el día se hace largo en los veranos
y las noches inventan nuevas formas de vida.

Pero hoy, es decir, esta mañana
del mes de mayo, cuando los rosales
dejan caer los pétalos
de su primera floración,
me acuerdo de la gente que se ha ido
- y es primavera - de los que dijeron
adiós y ya no están
como mis padres, como mis hermanos
y como yo que un día
no muy lejano cerraré los ojos,
dejaré descansar la pluma con que escribo
e iré a su encuentro. Temo
que no me reconozcan, que no sepan
quien soy, yo que he cantado su vida en muchos versos,
y su muerte también, que ellos no habrán leído.
Mas creo que podrán reconocerme
por el olor que deja cada lágrima
vertida en su memoria mientras estaban vivos.


Joaquin Beníto de Lucas





Eu não sei porque tenho de estar triste,
o mar é largo, a esperança espera,
o dia faz-se longo de Verão
e as noites inventam novas formas de vida.

Mas hoje, quer dizer, nesta manhã
do mês de Maio, quando as roseiras
deixam cair as pétalas
da primeira floração,
lembram-me as pessoas que se foram
- e é Primavera - os que disseram
adeus e já cá não estão,
como meus pais, meus irmãos
e como eu que um dia
não muito distante fecharei os olhos,
deixarei em repouso a pena com que escrevo
e irei ao encontro deles. Temo
que não me reconheçam e não saibam
quem eu sou, eu que lhes cantei a vida em muitos versos,
e a morte também, que eles por certo não leram.
Mas poderão reconhecer-me, creio eu,
pelo cheiro de cada lágrima
vertida em sua memória enquanto vivos.


(Trad. A.M.)
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