17.7.24

Pepe Ramos (A ordem das nuvens)




EL ORDEN DE LAS NUBES 

 

No hay un orden en las nubes.
Se generan de un modo azaroso,
se juntan o se separan
según soplen los vientos. 

A veces forman siluetas curiosas
o crean un espectáculo admirable
en función de la luz que reciben.

Los expertos las clasifican por formas
y predicen su comportamiento
sin demasiada precisión.
Unas se quedan donde nacieron
y otras viajan miles de kilómetros. 

Algunas provocan tempestades
o violentas inundaciones
mientras otras caen suavemente,
pero todas permanecen en la flor,
el arroyo, el trigal o el bosque
cuando ya nadie recuerda su forma. 

Con las personas pasa lo mismo.

 
PEPE RAMOS
El cielo de las cajeras
(2023) 

 

Não há qualquer ordem nas nuvens,
formam-se de modo acidental,
juntam-se ou separam-se
conforme sopram os ventos. 

Às vezes fazem silhuetas curiosas 
ou criam um espectáculo admirável 
em função da luz que recebem. 

Os especialistas classificam-nas por formas
e predizem-lhes o comportamento,
aliás sem grande precisão. 

Algumas provocam tempestades
ou violentas inundações,
enquanto outras caem suavemente,
mas todas permanecem na flor,
no corgo, trigal ou bosque,
quando ninguém recorda já a sua forma. 

Com as pessoas acontece o mesmo.
 

(Trad. A.M.)

 .

16.7.24

José Cereijo (Pensa no que darias)




Piensa lo que darías
cuando se esté acabando
el tiempo, y sólo queden ya los posos
amargos en el vaso,
por estas horas, y por estos días,
que ahora ves pasar, indiferente.
Piénsalo,
y trata de vivir tal como entonces
querrás haber vivido;
que sea lo amargo, si tiene que serlo,
el vaso, no la boca. 

JOSÉ CEREIJO
La Luz Pensativa
Pre-Textos (2021) 

 

Pensa no que darias
quando se estiver a acabar
o tempo, e ficarem só as borras
amargas no copo,
destas horas, destes dias,
que agora vês passar, indiferente.
Pensa,
e trata de viver tal como então
hás-de querer ter vivido;
que o amargo seja, se tiver de ser,
copo, não a boca.
 

(Trad. A.M.)

 .

14.7.24

Ana Hatherly (Os livros)




Os livros estão sempre sós.
Como nós.
Sofrem o terrível impacto do presente.
Como nós.
Têm o dom de consolar, divertir, ferir, queimar.
Como nós.
Calam sua fúria com sua farsa.
Como nós.
Têm fachadas lisas ou não.
Como nós.
Formosas, delirantes, horrorosas.
Como nós.
Estão ali sendo entretanto.
Como nós.
No limiar do esquecimento.
Como nós.
Cheios de submissão ao serviço do impossível.
Como nós.


Ana Hatherly

[1.º esquerdo]

 .

12.7.24

Fernando Beltrán (Vozes do extremo)




VOCES DEL EXTREMO

 

En esta punta umbría de la edad
que ya tenemos todos (casi todos, al menos)
me sorprende de pronto encontrar conchas
que a veces tienen forma simplemente de concha
pero a veces de orejas aplastadas
retejando la arena, poniendo su oído en tierra,
como oyendo pisadas a lo lejos
que se acercaran lentas,

y soy yo, o era quien se acerca

a una playa del sur donde amé y fui amado
por las diosas más altas de la noche,
por las diosas más hartas de que las llamen diosas,
las rebeldes, las rotas, las de puño invencible
y hacha en verso, las de armadura dulce,

las de extremo sentir, y extremo ahogarse

en los labios salados de aquel beso
en esta playa al sur, treinta años después,
donde siguen las huellas de gaviota
jugando al tres en raya con sus flechas
señalando quizá nuestro futuro incierto
en esta punta umbría de la edad
que ya tenemos todos.

Punta cruel. Punta extraña. Punta viva.


Fernando Beltrán

[Voces del extremo]

 

 

Nesta ponta sombria da idade
que temos já todos nós (ao menos, quase todos)
admira-me de repente achar conchas 
que têm às vezes forma simples de concha 
mas outras vezes parecem orelhas esmagadas
recobrindo a areia, pondo o ouvido no chão,
como que a ouvir passos ao longe,
aproximando-se lentamente,

e sou eu, ou era, quem se aproxima

de uma praia do sul, onde amei e fui amado
pelas deusas mais altas da noite,
pelas deusas mais cheias de que as chamem deusas,
as rebeldes, exaustas, de punho invencível
e machado em verso, as de terna armadura,

as de sentimento, afogando-se

nos lábios salgados daquele beijo
nesta praia a sul, trinta anos depois,
onde persistem as marcas de gaivotas
brincando ao três em linha,
assinalando talvez o nosso futuro incerto
nesta ponta sombria da idade
que temos já todos nós.

Ponta cruel.
Ponta estranha.
Ponta viva.


(Trad. A.M.)

.

11.7.24

Jaime Sabines (Minha vida reparti-a)


 


He repartido mi vida inútilmente entre el amor y el deseo, la queja
de la muerte, el lamento de la soledad. Me aparté de los pensamentos
profundos, y he agredido a mi cuerpo con los excesos y he ofendido a
mi alma con la negación. 

Me he sentido culpable de derrochar la vida y no he querido quedarme
en casa a atesorarla. Tuve miedo del fuego y me incineré. Amaba las
páginas de un libro y corría a la calle a aturdirme. Todo ha sido
superficial y vacío. No tuve odio sino amargura, nunca rencor sino
desencanto. Lo esperé todo de los hombres y todo lo obtuve. Sólo de mí
no he sacado nada: en esto me parezco a las tumbas. 

¿Pude haber vivido de otro modo? Si pudiera recomenzar, ¿lo haría?


Jaime Sabines

 

 

Minha vida reparti-a inutilmente entre o amor e o desejo, a queixa
da morte, o lamento da solidão. Apartei-me de pensamentos
profundos, castiguei o corpo com excessos, ofendi
a alma com a negação.

Senti-me culpado de malbaratar a vida, não quis ficar
em casa a poupá-la. Tive medo do fogo, ardi em cinzas. Amava
as páginas de um livro e corria a aturdir-me na rua. Tudo
superficial e vazio. Não tive ódio mas amargura, rancor nunca mas
desencanto. Esperei tudo dos homens e tudo tive. Só de mim
não tirei nada, nisso pareço um sepulcro.

Podia ter vivido de outro modo? E se pudesse recomeçar, fá-lo-ia?


(Trad. A.M.)

.

9.7.24

Vasco Graça Moura (Ofício de morrer)




OFÍCIO DE MORRER 

 

eu imagino assim a morte de pavese:
era um quarto de hotel em turim,
decerto um hotel modesto, de uma ou duas
estrelas, se é que havia estrelas.  

uma cama de pau, de verniz estalado,
rangendo de encontros fortuitos, um colchão mole e húmido
com a cova no meio, a do costume.
corria o mês de agosto com sua terra escura 

encardindo as cortinas. nada ia explodir
naquele mês de agosto àquela hora da tarde
de luz adocicada. e alguém pusera
três rosas de plástico num solitário verde.  

vejo como pavese entrou, como pousou a maleta
com indiferença, dobrou alguns papéis
e despiu o casaco (como nos filmes
italianos da época). depois foi aos lavabos  

no corredor, ao fundo. talvez tenha pensado
que esta vida é uma mijadela ou que.
voltou ao quarto, havia
uma fétida alma em tudo aquilo. 

ele abriu a janela
e pediu a chamada telefónica.
a noite ia caindo sem palavras, mesmo sem buzinas
excessivas. encheu um copo de água. e esperou.  

quando a campainha tocou, havia muito pouco
a dizer e ele já o tinha dito:
já tinha dito quanto amar nos torna
vulneráveis; e míseros, inermes;  

que é precisa humildade, não orgulho;
e parar de escrever;
e que dessa nudez é que morremos.
foi mais ou menos isto – a nossa condição 

demasiado humana, a voz humana, a frágil
expressão disso tudo, uma firmeza tensa.
«e até rapariguinhas o fizeram».
tinham nomes obscuros e nenhum  

remorso lancinante, ninguém pra falar delas.
a mais temida coisa é a coragem
do que parecia fácil: tudo o que não se disse
carregado num acto de súbitas fronteiras.  

foi mais ou menos isto. não sei se ele a seguir
pôs do lado de fora um letreiro
com ‘do not disturb’ ou coisa assim
nem se tomou as pastilhas uma a uma, ou se as contou.  

não sei se o encontrou uma criada,
se a polícia veio logo, se deixou uma carta
ao seu melhor amigo, se apagou a luz,
nem se pousou ao lado a carteira, o relógio, a esferográfica.  

não sei se entrou na morte como quem
traz imagens pungentes na cabeça,
palavras marteladas de desejo, ou como quem friamente
está no avesso do sono e vai calar-se e é justo.  

não sei se foi assim, se existe uma outra
verdade imaginável ou vedada. sei que ele tinha
um olhar decidido, alguma instigadora, e quarenta e dois anos,
e sei que nessa altura há já poucas verdades  

e nenhuma dimensão biográfica na morte.
já vem nas escrituras. eu prefiro
dizer que ele fechou a porta à chave
e sei que era viril a sua transparência.
 

Vasco Graça Moura

 .

7.7.24

Vicente Muñoz Álvarez (Trégua)




TREGUA

 

A veces,
justo en medio
de la desesperación y el caos,
cuando todo parece perdido,
la vida nos concede
una pequeña tregua:

la clave de un poema,
los preparativos de un viaje,
la llamada de un amigo,
la magia de un atardecer.

Días de luz en los que,
sin saber por qué,
se declara el alto el fuego,
y todo parece
fluir de nuevo en tu interior.

Aunque en el fondo,
en lo profundo,
se siga escuchando
el fragor de la lucha.


Vicente Muñoz Álvarez

 

Às vezes,
no meio mesmo
do desespero e do caos,
quando tudo parece perdido,
a vida dá-nos
uma pequena trégua:

A chave de um poema,
os preparativos duma viagem,
a chamada de um amigo,
a magia de um poente.

Dias de luz em que,
sem saber a razão,
se declara o cessar-fogo,
e tudo parece
fluir de novo dentro de ti.

Ainda que no fundo,
lá bem no fundo,
se escute ainda
o fragor da luta.


(Trad. A.M.)

.