30.4.26

José Corredor-Matheos (Mark Rothko sabe ver)




(IX)

 

Mark Rothko sabe ver
las cosas como son:
un resplandor sin cuerpo,
vivo color al borde
de las sombras.
Coge el pincel y deja
que arda el rojo,
pinte de azul el aire,
crezca el verde y el ocre
se remanse,
que funda el blanco todos
los colores
o que el negro los niegue.
Pintura evanescente,
puro espíritu,
espejo del vacío,
donde me reconozco.
Tener conciencia clara
de que nada en la nada
se sostiene
hace más deslumbrante
esta belleza.

José Corredor-Matheos



Mark Rothko sabe ver
as coisas como elas são:
um resplendor sem corpo,
cor viva no limite
das sombras.
Pega no pincel e deixa-o
incendiar o vermelho,
pintar o ar de azul,
crescer o verde e
sossegar o ocre,
fundir no branco
as cores todas
ou então negá-las
no negro.
Pintura evanescente,
puro espírito,
espelho do vazio.
onde eu me reconheço.
Ter consciência clara
de que nada se sustenta
no nada
torna mais deslumbrante
esta beleza.


(Trad. A.M.)

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28.4.26

Manuel António Pina (Aos filhos)




AOS FILHOS

 

Já nada nos pertence,
nem a nossa miséria.
O que vos deixaremos
a vós o roubaremos. 

Toda a vida estivemos
sentados sobre a morte,
sobre a nossa própria morte!
Agora como morreremos? 

Estes são tempos de
que não ficará memória,
alguma glória teríamos
fôssemos ao menos infames. 

Comprámos e não pagámos,
faltámos a encontros:
nem sequer quando errámos
fizemos grande coisa!

Manuel António Pina

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26.4.26

Joaquín Giannuzi (O quadro de referência)




EL MARCO DE REFERENCIA                                  

 

El amante menciona la luz curvada
de su vientre desnudo:
denuncia la vida ajena como un naufragio
y subordina el mundo
a la referencia de la amada dormida.
El amante construye
su territorio sanguíneo
en torno a esa pulsación dorada:
atrapado
en el poder desconocido
que emana de una cosa perfectamente hecha.

Joaquín Giannuzi 


O amante menciona a luz curvada
de seu ventre desnudo:
denuncia a vida alheia como um naufrágio
e subordina o mundo
à referência da amada adormecida.
O amante constrói
seu território sanguíneo
em torno dessa pulsação dourada:
apanhado
no poder desconhecido
que emana de uma coisa perfeitamente feita.


(Trad. A.M.)

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24.4.26

Joan Margarit (Coragem)




CORAJE 


La guerra ha terminado, pero la paz no llega.
La tarde cae ruda y silenciosa.
Miro a mi abuela -tengo cuatro años-
mientras mea de pie junto al camino
con las piernas abiertas debajo de la falda.
Siempre que lo recuerdo, vuelve el chorro,
poderoso, a caer contra la tierra.
Fue ella quien me enseñó que el amor es
claridad y dureza al mismo tiempo,
que sin coraje nadie puede amar.
No era literatura: no sabía leer.

Joan Margarit 

 

A guerra acabou, mas a paz não chega.
Cai a tarde, rude e silenciosa.
Olho para a minha avó – tenho quê, quatro anos –
a mijar de pé, junto ao caminho,
de pernas afastadas, por baixo da saia.
Sempre que me lembra, retorna o esguicho,
forte, a cair contra o chão.
Ela é que me ensinou que o amor é
claridade e dureza ao mesmo tempo,
que sem coragem ninguém pode amar.
Não era literatura, que ela não sabia ler.


(Trad. A.M.)

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22.4.26

Manuel Alegre (Era Outubro, em Avintes)




ERA OUTUBRO EM AVINTES 

                              (Para Adriano)
 

Não era só a voz o som a oitava
que ele queria sempre mais acima
nem sequer a palavra que nos dava
restituída ao tom de cada rima. 

Era a tristeza dentro da alegria
era um fundo de festa na amargura
e a quase insuportável nostalgia
que trazia por dentro da ternura. 

O corpo grande e a alma de menino
trazia no olhar aquele assombro
de quem quer caber e não cabia. 

Os pés fora do berço e do destino
alguém o viu partir de viola ao ombro.
Era Outubro em Avintes. E chovia.
 

Manuel Alegre

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20.4.26

Jesús Jiménez Domínguez (A ponte no nevoeiro)




EL PUENTE EN LA NIEBLA

 

Me detengo
a mitad del recorrido
y escucho.

En un extremo
aquel que fui me grita:
¡Espérame!

En el otro,
el que seré me susurra:
Sígueme.

Y el puente, eterno,
no aguanta el peso de los três.


Jesús Jiménez Domínguez

 

Detenho-me
a meio do caminho
e escuto.

Num extremo
aquele que fui grita-me:
Espera-me!

No outro,
aquele que serei sussurra-me:
Segue-me.

E a ponte, eterna,
não aguenta o peso dos três.


(Trad. A.M.)

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18.4.26

Jesús Muñárriz (Gente estranha)




GENTE RARA

 

Somos gente rarita, los poetas,
capaces de matar por una errata
o de dedicar días a un epíteto.

Eso nosotros, los mayores; otros,
los menores, los jóvenes, los nuevos
no sé si afinan tanto o si prescinden

de bobadas, dirán. De precisión, replico,
argamasa de los mejores versos.
Si cuenta el qué, cuenta otro tanto el cómo.

Deslavazada hay mucha poesía
en los derrumbaderos del olvido.
Sólo lo bien medido y calibrado,

si es cierto y justo y ágil y preciso,
fija y transmite a veces la belleza.
A veces. Y deslumbra. O ilumina.

Jesús Muñárriz

 

Somos gente estranha, os poetas,
capaz de matar por uma errata
ou perder dias com um epíteto.

Isto nós, os mais velhos; outros,
mais jovens, os novos
não sei se afinam tanto, ou se prescindem

de tolices, que digam. De precisão, replico,
argamassa dos melhores versos.
Se conta o quê, outro tanto conta o como.

Deslavada há para aí muita poesia
nos abismos do esquecimento.
Só o bem medido e calibrado,

sendo certo e justo, ágil e preciso,
fixa e transmite por vezes a beleza.
Às vezes. E deslumbra. Ou ilumina.


(Trad. A.M.)

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