20.2.26

Guilherme de Oliveira (Cabeça vazia)




CABEÇA VAZIA

 

Caminho lento pelo vazio
que preenche este recinto
onde não moram objetos
nem almas se vislumbram. 

É de um cinzento cremado.
Nem sei se marcho a direito
ou se o percorro em círculos,
sem propósito e sem fervor. 

A pouca luz envergonhada
que entra por vias travessas
não chega para ver o céu
nem dá saídas pró mundo. 

Carrego alguns pensamentos
que se movem sem espessura;
no útero desta cabeça oca,
serão poemas para nascer?


Guilherme de Oliveira

[Triplov]

 .

18.2.26

Fabián Casas (Mantra)




MANTRA

 

Junto as mãos como se fossem um búzio
e chego o ouvido.
Apesar do sinal fraco
por causa dos anos e do vento,
ainda consigo ouvir as minhas tias
a debicar os milhos na cozinha,
com a minha mãe.

 

Fabián Casas

(Trad. A.M.)

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17.2.26

Fabio Morábito (A todos que me falharam)




A cuántos que me fallaron
les retiré mi afecto, 

creyendo que la vida es larga
y volvería a quererlos! 

¡Creer que para todo hay tiempo
es mi mayor defecto! 

Lo digo en verso (otro defecto mío)
para no decirlo de manera franca. 

Pero los versos si son buenos
no dejan de escarbar 

con rimas que remueven losas
que cubren unos traumas. 

¡A cuántos que me fallaron
les clausuré mi ser, 

sin darle tiempo al tiempo
de irse por las ramas!

Fabio Morábito

 

A todos que me falharam
retirei-lhes meu afecto,

crendo que é longa a vida
e voltaria a querer-lhes!

Pensar que há tempo para tudo
é o meu maior defeito!

Digo-o aqui em verso (mais um defeito meu)
para o não dizer direitamente.

Mas os versos quando são bons
não deixam de esgravatar

com rimas mexendo pedras
que cobrem uns quantos traumas.

A todos que me falharam
eu encerrei meu ser,

sem dar tempo ao tempo
de sequer fugir pelos ramos!


(Trad. A.M.)

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15.2.26

Francisco J. Craveiro Carvalho (14 Dez 2021)





14 DEZ 2021

 

Solteiro a vida inteira.
Sétimo dia. Em bom sítio 
o andar vende-se sempre.
O pior são os livros científicos.
Quem é que quer aquilo? 

FRANCISCO J. CRAVEIRO CARVALHO
Cinco
(2023)

 

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13.2.26

Jesús Muñárriz (Calar)




CALLAR

 

Callar es más prudente,
más seguro, más cómodo, más práctico,
callar es más astuto,
más rentable,
más útil,
callar no da problemas,
callar evita líos,
callar trae más cuenta,
callar impide que se cuelen moscas
en la boca, callar propio es de sabios,
se está muy bien
callado.

Porque el que calla
otorga
licencia, impunidad,
perdón, facilidades
y patente de corso,
y por la boca muere el pez y siempre
se ha de sentir lo que se dice y nunca
decir lo que se siente
si se quiere triunfar
en sociedad
y recibir migajas
del gran pastel
del mundo.


Jesús Muñárriz

 

Calar é mais prudente,
mais seguro, mais cómodo,
calar é mais astuto,
mais rentável,
mais útil,
calar não dá problemas,
calar evita sarilhos,
calar faz mais conta,
calar impede que entrem moscas
para a boca, calar é próprio de sábios,
o melhor é o calado.

Porque quem cala
confere
licença, impunidade,
perdão, facilidades
e carta branca
e pela boca morre o peixe
e temos de sentir sempre o que dizemos,
nunca dizer o que sentimos,
se quisermos vencer
na sociedade
e receber umas migalhas
do grande pastel
do mundo.


(Trad. A.M.)

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12.2.26

Eloy Sánchez Rosillo (Deixo a porta aberta)




 DEJO LA PUERTA ABIERTA  

 

Para vosotros, que vendréis al mundo
cuando yo me haya ido,
escribo este poema.
No sé; tal vez un día,
gracias a los azares que entreteje
la vida a cada instante,
os traerán vuestros pasos hasta él.
Dejo su puerta abierta por si acaso
y empiezo a imaginar como certeza
lo que es tan sólo un sueño.  

En mi poema puede verse el cuarto
en el que escribo hoy. Entrad, entrad
con toda confianza,
a pesar de mi ausencia.
Y aproximaos al balcón. Transcurre
una tarde hermosísima
de finales de agosto. 

Después de tantos días implacables
de luz arrasadora,
el tiempo ha dado un giro inesperado.
Son una bendición para los ojos
estas horas distintas. Se diría
que anda de retirada ya el verano.
Da pena despedirlo
(todo lo que se va nos duele al irse),
pero el cambiar también es alegría.  

Por momentos están amontonándose
nubes negras y grises en el cielo
y el viento las trajina y las sojuzga
sin miramiento alguno.
La tarde se oscurece más y más.
Y al fin rompe a llover. Qué maravilla.
Llueve con fuerza, a ráfagas violentas,
y las fulguraciones enlazadas
de incesantes relámpagos
abren paso a los truenos,
que tropiezan y ruedan allá arriba
con estruendo imponente.  

Mirad y oled la lluvia,
disfrutad de esta tarde en la que no
podremos estar juntos.
Sabed que la escribí con regocijo.
Y que pensé en vosotros.

Eloy Sánchez Rosillo

 

É para vós, chegados a este mundo
quando eu já tiver partido,
que eu escrevo este poema.
Não sei, talvez um dia,
pelos acasos que a vida tece
a cada instante,
vossos passos vos trarão até aqui.
Deixo para tal caso a porta aberta
e ponho-me a imaginar como certeza
o que por ora é só um sonho.

Pode ver-se o quarto no meu poema,
este em que escrevo hoje. Entrai,
entrai à confiança,
apesar da minha ausência.
E chegai à varanda, está
uma tarde belíssima
de fins de Agosto.

Depois de tantos dias implacáveis
de luz arrasadora,
o tempo deu uma volta inesperada.
São uma bênção para a vista
estas horas diferentes, dir-se-ia
que o verão está já em retirada.
Dá pena impô-lo
(tudo o que se vai nos custa ao ir-se)
mas mudar também é alegria.

Por momentos amontoam-se
nuvens de negro e cinza no céu
e o vento arrasta-as e subjuga-as
sem a mínima consideração.
A tarde escurece mais e mais,
e por fim rompe a chover. Que maravilha,
chove com força, bátegas violentas,
e as fulgurações ligadas
com incessantes relâmpagos
abrem passo aos trovões,
que tropeçam e rodam lá em cima
com estrondo impoente.

Olhai para a chuva e cheirai,
desfrutai esta tarde em que não
poderemos estar juntos.
Sabei que a escrevi satisfeito
e que pensei em vós.


(Trad. A.M.)

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10.2.26

Lêdo Ivo (Contrabandista)





CONTRABANDISTA

 

Nenhum poeta é obscuro.
Tudo o que ele diz é claro
como um palavrão num muro.

Mais claro que a luz acesa
é o poema mais hermético.
Pão matinal numa mesa.

Na noite misteriosa
nenhum mistério prospera:
apenas freme uma rosa.

Qualquer menino decifra
o soneto indecifrável
e o verso mais sibilino.

O poeta sempre diz tudo
quando se cala em seu nada.
É um contrabandista mudo

na alfândega da vida.

Lêdo Ivo

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