23.10.26

Giuseppe Ungaretti (Tudo hei perdido)




Tutto ho perduto dell’infanzia
e non potrò mai più
smemorarmi in un grido.

L’infanzia ho sotterrato
nel fondo delle notti
e ora, spada invisibile,
mi separa da tutto.

Di me rammento che esultavo amandoti,
ed eccomi perduto
in infinito delle notti.

Disperazione che incessante aumenta
la vita non mi è più,
arrestata in fondo alla gola,
che una roccia di gridi.

Giuseppe Ungaretti

 

Tudo hei perdido da infância
e não poderei nunca mais
perder a memória num grito.

A infância enterrei-a
no fundo das noites
e agora, espada invisível,
ela me aparta de tudo.

De mim recordo que exultava
com te amar, e eis-me agora aqui perdido
no infinito das noites.

Desespero sempre crescendo,
a vida, apertada na garganta,
não passa de uma rocha de gritos.


(Trad, A.M.)

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21.10.26

Montserrat Villar González (Porque tu)




PORQUE TÚ

 

Porque Tú eres tú
y yo soy el eterno pensamento
que te nombra
a pesar de no existirnos.

Tú eres sueño
y simiente de invierno
que bajo el sol se crece.

Eres escarcha
que baña la noche
soñando mañanas.

Yo soy hambre
de cielo y distancia
ignorando presentes,
asumiendo nadas.

Soy límite y muerte,
ausencia y palabra
diluida en agua.

Porque tú eras Tú
y yo habré sido la eterna voz
que en silencio te nombraba.


Montserrat Villar González

 

Porque Tu és tu
e eu sou o eterno pensamento
que te nomeia
apesar de não existirmos.

Tu és sonho
e semente de inverno
a crescer sob o sol.

És orvalho
que a noite banha
sonhando amanhãs.

Eu sou fome
de céu e distância
ignorando presentes,
assumindo nadas.

Sou morte e limite,
ausência e palavra
em água diluída.

Porque tu eras Tu
e eu terei sido a eterna voz
que em silêncio te nomeava.


(Trad. A.M.)


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19.10.26

Francisco Duarte Mangas (Que procuro)




que procuro no maio reescrito
cerejas, manhã de ervas
húmidas pelos rios de basto
rio paizela, lírios no fim do açude
aí entre os lírios o pai
longe da servidão da velhice iludia
as trutas: o silvo do fio retesado, a frágil
cana-da-índia vergada e trémula
como vara de vedor.
eu atapetava de hortelã o cesto de vime
morte de peixes do rio cheira bem.
 

Francisco Duarte Mangas


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17.10.26

Miguel Veyrat (Despertar)




DESPERTAR 

 

Olvidaré mi cuerpo
 - y mi sombra -
para arder sobre ti
para buscarte el centro
Para existir por fin
arriesgaré la vida
sediento de la luz que nace
donde ardes tú donde 
respiras tú los ritmos 
del puro y alto cielo
Única morada 
de los hombres libres
 

Miguel Veyrat

  

Olvidarei meu corpo
 - e minha sombra -
para arder sobre ti
para te achar o centro
Para existir por fim
arriscarei a vida
sedento da luz que nasce
lá onde tu ardes onde 
respiras os ritmos
do puro altíssimo céu
Única morada 
dos homens livres
 

(Trad. A.M.)

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15.10.26

Francisco J. Craveiro Carvalho (Jacarandá-1)

 




JACARANDÁ-1

 

Se me lembro 
da casa onde morei
é só porque nesta altura
terá no jardim 
um jacarandá florido.
 

FRANCISCO J. CRAVEIRO CARVALHO
Cinco
(2023)


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13.10.26

Abelardo Rodríguez (Empurrada)

 




Empurrada por microscópicas asas,
rompe insegura a alba,
e eu penso longinquamente
               no canto dos grilos.

 

ABELARDO RODRÍGUEZ
Maradentro
(Poesía 1970-1999)
Fundación JRJ (1999)

(Trad. A.M.)

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11.10.26

Fernando Pessoa (D. Sebastião)

 



(D. SEBASTIÃO, REI DE PORTUGAL)

 

Louco, sim, louco, porque quis grandeza
qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
por isso onde o areal está
ficou meu ser que houve, não o que há.
Minha loucura, outros que me a tomem
com o que nela ia.

Sem a loucura que é o homem
mais que a besta sadia,
cadáver adiado que procria?

 

Fernando Pessoa

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