3.4.20

Francisco Duarte Mangas (Primavera audaz cheia de devir)




PRIMAVERA AUDAZ CHEIA DE DEVIR



falemos primeiro dos campos
seu repouso limpo

da glicínia na borda do caminho
falaremos depois das aves
que desadormecem a cantar
a primavera audaz cheia de devir
agora as palavras de tracção animal
no repouso dos campos
arado a aiveca o jugo
um açafate a cabaça de vinho

e já o dia se despede
perscruta o perdigueiro tenros melros
no fogo alado à beira da noite


Francisco Duarte Mangas

[Gazeta]



>>  Correio do Porto (30p) / Diário de Link (blogue/2007-16) / Escrito a lápis (JB-recensão) / Correio do Porto (entrevista)

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1.4.20

Aldo Luis Novelli (À distância)





A LA DISTANCIA



en las noches oscuras
sin luna y estrellas opacas
si observamos el horizonte
acá en los bordes del desierto
se ve un fueguito a lo lejos/
no es una ronda de amigos
bebiendo y cantando
alrededor de la la fogata/
tampoco los caños
de las destilerías petroleras
que ventean gas al viento surero/
ese pequeño fuego
que se ve a la distancia
es el inexorable infierno
que viene avanzando
sobre la piel del mundo.


Aldo Luis Novelli




em noites escuras
sem lua nem estrelas
se observarmos o horizonte
aqui na beira do deserto
vê-se ao longe uma fogueirinha/
não é uma roda de amigos
a beber e cantar
à volta do fogo/
sequer os tubos
da destilação do petróleo
expelindo gás ao vento do sul/
a pequena fogueira
que se vê à distancia
é o inferno inexorável
a avançar
pela pele do mundo.

(Trad. A.M.)

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31.3.20

Alberto Vega (Centro)





CENTRO



Hay un sabor a nada en cada trago,
en cada gesto avanza una prisa sin olas,
sin sentido los pájaros
sobrevuelan la luz roja de un semáforo,
fruta imposible y vana. Crece un canto
de peces de latón y hojas enfermas
en oídos abstractos,
un rumor a hombre solo por debajo del ruido.

Yo camino despacio

(Es decir, estoy vivo).


Alberto Vega




Há um sabor a nada em cada trago,
em cada gesto uma pressa sem ondas,
sem sentido os pássaros
sobrevoam a luz vermelha de um semáforo,
fruta vã, impossível. Um canto cresce
de peixes de latão e folhas enfermas
em ouvidos abstractos,
um rumor de homem só por baixo do ruído.

E eu caminho devagar

(Quer dizer, estou vivo).

(Trad. A.M.)

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29.3.20

Jorge de Sena (Quem muito viu)





Quem muito viu, sofreu, passou trabalhos,
mágoas, humilhações, tristes surpresas;
e foi traído, e foi roubado, e foi
privado em extremo da justiça justa;

e andou terras e gentes, conheceu
os mundos e submundos; e viveu
dentro de si o amor de ter criado;
quem tudo leu e amou, quem tudo foi

- não sabe nada, nem triunfar lhe cabe
em sorte como a todos os que vivem.
Apenas não viver lhe dava tudo.

Inquieto e franco, altivo e carinhoso,
será sempre sem pátria. E a própria morte,
quando o buscar, há-de encontrá-lo morto.


Jorge de Sena

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27.3.20

Alberto Szpunberg (Chegará o dia)





(XXXII)


Llegará el día en que la sola palabra pan
saciará como una sola sílaba
sacia para siempre los labios en silencio,
pero no será por el atajo más fácil,
el de la muerte,
cuya ausencia es insaciable,
sino por la palabra crujiente,
exactamente repartida,
tibia aún,
de boca en boca.


Alberto Szpunberg

[Marcelo Leites]




Chegará o dia em que a simples palavra pão
saciará como sacia uma só sílaba
para sempre os lábios em silêncio,
mas não será pelo atalho mais fácil,
o da morte,
cuja ausência é insaciável,
mas pela palavra rangente,
exactamente repartida,
morna ainda,
de boca em boca.

(Trad. A.M.)

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26.3.20

Adolfo Cueto (Benarés)




BENARÉS

                  (oración india)

Sonríe aún otra vez,
pequeño rostro ingrávido, y duerme al fin, ya
duerme. Y que esa luz gastada
que cae tuya, como mirra
dolorida, en su Ganges nos lave
y lave luego al mundo. Y que la noche ponga
letra y música lenta
a tus ojos de niño. Y que, cuando la muerte
esparza sus metales
y plante sus raíces
en mi frente, perdure esta sonrisa
que vela aún tu mirada.


Adolfo Cueto




Sorri ainda uma vez,
pequeno rosto sem peso, e dorme por fim,
vá dorme.
E que essa luz gasta que se derrama, tua,
como mirra dolorida,
em seu Ganges nos lave
e lave depois o mundo. E que ponha a noite
letra e música lenta
em teus olhos de criança. E, quando a morte
esparzir sua música e plantar as raízes
na minha fronte, que este sorriso perdure,
velando ainda teu olhar.

(Trad. A.M.)

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24.3.20

Vitorino Nemésio (Retrato)




RETRATO



Cruel como os Assírios,
Lânguido como os Persas,
Entre estrelas e círios
Cristão só nas conversas.
Árabe no sossego,
Africano no ardor;
No corpo, Grego, Grego!
Homem, seja onde for.
Romano na ambição,
Oriental no ardil,
Latino na paixão,
Europeu por subtil:
Homem sou, homem só
(Pascal: «nem anjo nem bruto»):
Cristãmente, do pó
Me levante impoluto.


Vitorino Nemésio

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