16.8.26

Mary Oliver (Dia de verão)




THE SUMMER DAY

 

Who made the world?
Who made the swan, and the black bear?
Who made the grasshopper?
This grasshopper, I mean
- the one who has flung herself out of the grass,
the one who is eating sugar out of my hand,
who is moving her jaws back and forth instead of up and down,
who is gazing around with her enormous and complicated eyes.
Now she lifts her pale forearms and thoroughly washes her face.
Now she snaps her wings open, and floats away.
I don't know exactly what a prayer is.
I do know how to pay attention, how to fall down
into the grass, how to kneel down in the grass,
how to be idle and blessed, how to stroll through the fields,
which is what I have been doing all day.
Tell me, what else should I have done?
Doesn't everything die at last, and too soon?
Tell me, what is it you plan to do
with your one wild and precious life?


Mary Oliver

 

Quem é que fez o mundo?
Quem é que fez o cisne e o urso negro?
Quem é que fez o gafanhoto?
Este gafanhoto, digo eu
- o que acaba de saltar de entre as ervas,
o que está a comer-me açúcar da mão,
o que mexe as mandíbulas para trás e para a frente
em vez de para cima e para baixo,
o que olha em volta com aqueles olhos enormes e complicados.
Agora ergue os braços e lava a cara com cuidado, 
depois bate as asas abertas e afasta-se voando.
Eu não sei exactamente o que é a oração,
sei é prestar atenção, arrodilhar-me
na erva, pôr-me de joelhos,
preguiçar e não fazer nada, deambular pelos campos,
que é o que tenho feito o dia todo.
Diz-me cá, que mais havia eu de fazer?
Não morre tudo por fim, e tão cedo?
Diz-me cá, que pensas tu fazer
da tua própria vida,
da tua livre, preciosa vida?



(Trad. A.M.)

 .

14.8.26

María Zambrano (Esta ira)



ESTA IRA

 

Que aprendáis a llorar el día breve
que enfermen vuestras hijas
y no sepáis
el nombre exacto para el miedo
en la garganta se ahogue ese pitido
y arda la madera seca de la muerte 

sólo un día
de atravesadas horas
y luces que se enciendan
rojísimas las luces
y sean bestias 

escupiendo
sobre los mausoleos 

sólo un día
tiriten de frío azuladas las mandíbulas
y nadie pronuncie
el verbo que calme
sus articulaciones 

y todo sea balbuceo
de sabio que atesora
sus cuerpos con asepsia
cuando caigan las crías
en lo ignoto
y en esas horas aprendáis
el idioma absurdo de la muerte 

sólo un día

María Zambrano

 

Que aprendais a chorar o dia
em que vossas filhas caiam doentes
e não saibais
o nome certo para o medo

que na garganta se afogue esse zumbido
e arda a madeira seca da morte

um só dia
de atravessadas horas
e luzes a acender-se
vermelhíssimas luzes
e sejam bestas

escarrando
em cimas dos mausoléus

um dia só
tiritem de frio azuladas as mandíbulas
e ninguém pronuncie
o verbo que acalme
suas articulações

e tudo seja balbuceio
de sábio que entesoura
seus corpos com assepsia
quando as crias caírem no ignoto
e nessas horas aprendais
o idioma absurdo da morte

um dia só


(Trad. A.M.)

.

 

12.8.26

António Reis (Chega a ter gosto)




(16)

 
Chega a ter gosto
a chuva
vista dos cafés
 
caindo sobre as estátuas
e a nostalgia
 
chega a ser morna
 
com fumo e álcool
na garganta
 
Até os homens passarem
junto aos vidros
 
reais
molhados
 
sem emoções instruídas
 
pensando em remédios
e prestações
 
grisalhos
sem serem velhos
 
e falando sós
sem serem loucos


António Reis

[Canal de poesia]

 .

10.8.26

Felipe Benítez Reyes (Um gesto de gratidão)




UN GESTO DE GRATITUD

 

El azar es la norma imprevisible.
Acata, pues, la norma.
Y cuida sempre
que juegue a tu favor la incertidumbre
que esa norma dispone, porque el rumbo
de una vida depende
de una conjugación
leve y muy rápida
de rutina y misterio, de angustia y plenitud,
de esencias muy dispares que se mezclan
de forma casual e inexorable
en el laboratorio mágico del tiempo.

Y si el tiempo es la suma
de una nube vacía y de un relámpago,
interpreta esa suma
desde la gratitud, porque has sido esa suma,
y algo eterno hay en ti y es sólo tuyo:
lo que has pensado,
aquello que tocaste con ansia o con terror,
la fórmula secreta de tu anhelo,
la memoria narcótica que sustenta
y confirma
tu paso por un mundo fugitivo.

Nunca verás tu rostro verdadero,
porque todo consiste en un fluir,
y todo cuanto fluye es un enigma.

De cualquier forma,
da gracias por la esencia de ese caos.

Agradece lo extraño que es ya todo.

El tiempo es invencible,
pero no es más que tiempo:
un espejismo cambiante que sugiere
movimientos perpetuos de conciencia,
aunque todo es cambiante salvo tú:

el tiempo es sólo el nombre de un espectro.

El tiempo es lo que el tiempo nos destruye.

Felipe Benítez Reyes

 

O acaso é a norma imprevisível.
Acata pois essa norma,
e cuida sempre
que jogue a teu favor a incerteza
que essa norma edita, pois que o rumo
de uma vida depende
de uma conjugação
leve e muito rápida
de rotina e mistério, de angústia e plenitude,
de essências muito diversas que se misturam
de forma casual e inexorável
no laboratório mágico do tempo.

E se o tempo é a soma
de uma nuvem vazia e de um relâmpago,
interpreta essa soma
pelo lado da gratidão, porque tu foste essa soma,
e algo eterno há em ti, sendo só teu:
o que pensaste,
aquilo que tocaste com ânsia ou com terror,
a fórmula secreta de teu anelo,
a memória narcótica que sustenta e confirma
tua passagem por um mundo fugitivo.

Nunca verás teu rosto verdadeiro,
porque tudo consiste num fluir,
e tudo quanto flui é um enigma.

De todo o modo,
dá graças pela essência desse caos.

Agradece o estranho que é já tudo.

O tempo é invencível,
mas não é mais do que tempo,
uma miragem mutante sugerindo
movimentos perpétuos de consciência,
embora tudo seja mutante menos tu:

o tempo é só o nome de um espectro.

O tempo é o que o tempo nos destrói.


(Trad. A.M.)

.

8.8.26

Antonio Carlos Secchin (Na antessala)




NA ANTESSALA


Espalhei dezoito heterônimos
em ruas do Rio e Lisboa.
Todos eles, se reunidos,
não valem um só de Pessoa.

Trancafiei-me num mosteiro,
esperando de Deus um dom.
O que Ele me deu foi pastiche
da poesia de Drummond.

Ressoa na minha gaveta
um comício de versos reles.
Em coro parecem dizer:
Não somos Cecília Meireles.

O desavisado leitor
não espere muito de mim.
O máximo, que mal consigo,
é chegar a Antonio Secchin.

Antonio Carlos Secchin

 .

6.8.26

Marilyn Contardi (Verão)




VERÃO
 

 

Madrugada,

os lençóis 

quentes

contra o corpo

 

Toco a meu lado

o pelo comprido,

hirsuto

da minha gata

 

que estende a pata

a roçar-me,

tão suave

 

minha irmã dorme

 

levanto-me para olhar

pela janela

 

a rua está deserta 

ninguém 

pela vereda

apenas a luz

da lua

 

Esta vez…

não será aquela?

será que sonhei?

 

O sorriso

de minha mãe 

diz-me que sim

 

A lua entra 

pelas gelosias,

a gata 

ronrona

Não há mais ninguém 

 

Como passam 

os anos,

como galgos ligeiros

 

Marilyn Contardi

 

(Trad. A.M.)

 .

4.8.26

Andreia C. Faria (Dupla negativa)




DUPLA NEGATIVA



Não comas nada que não possa apodrecer
Não comas nada que não anoiteça
à espera do grande luar de Agosto, a cabeça mansa
do boi que espreita à janela do curral
Nada que não resplandeça
e se abra, irregular odor ao vento

Não comas nada menos que aceso
e amadurecido pelas semelhanças, nada
que enquanto dormes te não pondere o sangue
Nada comas que te não acaricie ou ofereça a linha do dorso, suprema

Não queiras nada que não tenha
superfície e mistério

Não desejes nada puro
- compaixão, água fresca, incidências vegetais
Não te queiras fímbria, orla
humilde de substâncias imortais


Andreia C. Faria


>>  Folha de poesia (notas+7p) / Recanto do poeta (7p) /Casa FP (5p) / Dialnet (Pedro Meneses/ rec. ‘Canina’) / Wikipedia

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