22.10.19

Gil T. Sousa (Aguarela)





AGUARELA



a beleza da árvore
que finge seguir o vento
quando ele passa

e os muros caiados
que guardam o sol
para quando nos falta

a água fresca
a respiração da janela larga
sobre o campo

e este caminho
que cresce tanto
até ser estrada

as mãos ainda abertas
para os frutos
e para as flores

os pássaros e o mundo
o tempo a rasgar-se
no corpo

no meu, no teu corpo


Gil T. Sousa

[Canal de poesia]

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21.10.19

Silvina Ocampo (Pressentimento)





PRESENTIMIENTO



Durante muchos días me seguiste.
En el canto del pájaro, en las sombras,
en las modulaciones del espacio:
aprendí a conocerte.
Yo sentía tu luz atravesarme
como una flecha de oro envenenada.
Te desobedecía arrepentida.
Me hablabas en secreto.
En los espejos rotos, en la tinta
azul de los cuadernos que dejabas
sobre la mesa de mi dormitorio.
Yo temblaba al mirarte, yo temblaba
como tiemblan las ramas reflejadas
en el agua movida por el viento.
Ahora que conozco tus señales,
tu piel y tus orejas, tu semblante,
no trataré de desobedecerte,
y me arrodillaré frente a tu imagen,
implacable sibila que me sigues.


Silvina Ocampo




Durante muitos dias me seguiste.
No canto do pássaro, nas sombras,
nas modulações do espaço:
aprendi a conhecer-te.
Sentia a tua luz a trespassar-me
como uma flecha de ouro envenenada.
Desobedecia-te contrafeita.
Murmuravas-me em segredo.
Nos espelhos quebrados, na tinta
azul dos cadernos que deixavas
sobre a mesa do meu quarto.
Estremecia ao ver-te, estremecia
como estremecem os galhos reflectidos
na água movida pelo vento.
Agora que conheço os teus sinais,
tua pele, tuas orelhas, teu semblante,
não intentarei desobedecer-te,
e venerarei a tua imagem,
implacável sibila que me segues.


(Trad. J.E.Simões)

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19.10.19

Rosario Castellanos (Agonia além do muro)





AGONIA FUERA DEL MURO



Miro las herramientas,
el mundo que los hombres hacen, donde se afanan,
sudan, paren, cohabitan.

El cuerpo de los hombres, prensado por los días,
su noche de ronquido y de zarpazo
y las encrucijadas en que se reconocen.

Hay ceguera y el hambre los alumbra
y la necesidad, más dura que metales.

Sin orgullo (¿qué es el orgullo? ¿Una vértebra
que todavía la especie no produce?)
los hombres roban, mienten,
como animal de presa olfatean,
devoran y disputan a otro la carroña.

Y cuando bailan, cuando se deslizan
o cuando burlan una ley o cuando
se envilecen, sonríen,
entornan levemente los párpados, contemplan
el vacío que se abre en sus entrañas
y se entregan a un éxtasis vegetal, inhumano.

Yo soy de alguna orilla, de otra parte,
soy de los que no saben ni arrebatar ni dar,
gente a quien compartir es imposible.

No te acerques a mí, hombre que haces el mundo,
déjame, no es preciso que me mates.
Yo soy de los que mueren solos, de los que mueren
de algo peor que vergüenza.

Yo muero de mirarte y no entender.


Rosario Castellanos

[Emma Gunst]




Olho as ferramentas,
o mundo que os homens fazem, em que se empenham,
suam, parem, coabitam.

O corpo dos homens, esmagado pelos dias,
sua noite de ronco e patada
e as encruzilhadas em que se reconhecem.

Há cegueira e a fome ilumina-os
e a necessidade, mais dura do que metal.

Sem orgulho (orgulho o que é? uma vértebra
que a espécie ainda não produz?)
os homens roubam, mentem,
farejam como predadores,
devoram e disputam ao outro a carniça.

E quando bailam, ou escorregam
ou fintam a lei, ou quando
se fazem ruins, sorriem,
abrem os olhos levemente, contemplam
o vazio a abrir-se-lhes nas entranhas
e dão-se a um êxtase vegetal, inumano.

Eu sou de alguma beira, de outra parte,
sou dos que não sabem dar nem tomar,
para quem partilhar não é possível.

Não te chegues a mim, homem que fazes o mundo,
deixa-me, não é preciso matares-me.
Eu sou daqueles que morrem sozinhos,
de algo pior que a vergonha.

Eu morro de te olhar e não entender.


(Trad. A.M.)

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17.10.19

Fernando Pessoa (Dai-me rosas e lírios)





Dai-me rosas e lírios,
Dai-me flores, muitas flores
Quaisquer flores, logo que sejam muitas...
Não, nem sequer muitas flores, falai-me apenas
Em me dardes muitas flores,
Nem isso... Escutai-me apenas pacientemente quando vos peço
Que me deis flores...
Sejam essas as flores que me deis...

Ah, a minha tristeza dos barcos que passam no rio,
Sob o céu cheio de sol!
A minha agonia da realidade lúcida!
Desejo de chorar absolutamente como uma criança
Com a cabeça encostada aos braços cruzados em cima da mesa,
E a vida sentida como uma brisa que me roçasse o pescoço,
Estando eu a chorar naquela posição.

O homem que apara o lápis à janela do escritório
Chama pela minha atenção com as mãos do seu gesto banal.
Haver lápis e aparar lápis e gente que os apara à janela, é tão estranho!
É tão fantástico que estas coisas sejam reais!
Olho para ele até esquecer o sol e o céu.
E a realidade do mundo faz-me dor de cabeça.

A flor caída no chão.
A flor murcha (rosa branca amarelecendo)
Caída no chão...
Qual é o sentido da vida?


Fernando Pessoa

[Arquivo Pessoa]

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16.10.19

Roque Dalton (Altas horas da noite)





ALTA HORA DE LA NOCHE



Cuando sepas que he muerto no pronuncies mi nombre
porque se detendrá la muerte y el reposo.

Tu voz, que es la campana de los cinco sentidos,
sería el tenue faro buscado por mi niebla.

Cuando sepas que he muerto di sílabas extrañas.
Pronuncia flor, abeja, lágrima, pan, tormenta.

No dejes que tus labios hallen mis once letras.
Tengo sueño, he amado, he ganado el silencio.

No pronuncies mi nombre cuando sepas que he muerto
desde la oscura tierra vendría por tu voz.

No pronuncies mi nombre, no pronuncies mi nombre,
cuando sepas que he muerto no pronuncies mi nombre.


Roque Dalton

[Desde la ciudad sin cines]




Quando souberes que morri não digas o meu nome
porque a morte se deterá e o repouso.

Tua voz, campainha dos cinco sentidos,
ténue farol buscado por minha névoa.

Quando souberes que morri, diz sílabas estranhas,
diz flor, abelha, lágrima, tormenta, pão.

Não deixes os lábios acharem minhas onze letras,
tenho sono, amei, ganhei direito ao silêncio.

Não digas o meu nome, não digas o meu nome,
quando souberes que morri não digas o meu nome.


(Trad. A.M.)

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14.10.19

Roger Wolfe (A invenção)





EL INVENTO



Organizas las palabras, las pones
una encima de otra, una debajo de otra,
una detrás de otra, como en una desenfrenada orgía
en la que por fin fornicas con quien quieres.
Por un momento tienes
al mundo por el cuello. Por un
momento. Es maravilloso.
Éste es el invento.
El invento.


Roger Wolfe




Organizas as palavras, põe-las
uma por cima de outra, uma por baixo de outra,
uma por trás de outra, como orgia desenfreada
em que por fim fornicas com quem queres.
Por um momento tens
o mundo pelo galete. Por
um momento. É maravilhoso.
Esta é a invenção.
A invenção.


(Trad. A.M.)

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13.10.19

Margaret Atwood (Noite alta)




LATE NIGHT



Late night and rain wakes me, a downpour,
wind thrashing in the leaves, huge
ears, huge feathers,
like some chased animal, a giant
dog or wild boar. Thunder & shivering
windows; from the tin roof
the rush of water.

I lie askew under the net,
tangled in damp cloth, salt in my hair.
When this clears there will be fireflies
& stars, brighter than anywhere,
which I could contemplate at times
of panic. Lightyears, think of it.

Screw poetry, it's you I want,
your taste, rain
on you, mouth on your skin.


Margaret Atwood

[Exceptindreams]




Noite alta acordo com a chuva, uma bátega,
o vento açoitando a folhagem, orelhas
enormes, enormes cabelos,
como animal perseguido, um cão gigante
ou porco selvagem. Trovões, e as janelas
a estremecer; do telhado de zinco
um dilúvio.

Estou na cama, por baixo da rede, deitada de lado,
enrolada numa manta, o cabelo cheio de sal.
Quando passar o temporal haverá pirilampos
e estrelas, mais brilhantes que alhures,
onde eu podia olhá-las em tempos de pânico.
Anos-luz, imagine-se.

Que se lixe a poesia, é a ti que eu quero,
o teu sabor, a chuva
em ti, minha boca em tua pele.

(Trad. A.M.)
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