3.10.26

Domingos da Mota (Soneto da pouquidão)




SONETO DA POUQUIDÃO

 

São poucos os que lutam contra o medo
sem medo de perder seja o que for,
que ousam libertar-se do enredo
desse modo maligno de temor
que sofreia a coragem ante o susto
e que a tantos concita mais pavor
e os deixa tolhidos, dado o custo
da luta contra o medo sem temor.
São poucos os que lutam e a escassez
aumenta com tamanha pouquidão
que faz acumular, por sua vez
o medo, com razão ou sem razão
naqueles que se escondem dia a dia
por detrás do receio ou da apatia.


Domingos da Mota

[Canal de poesia]

 .

1.10.26

Antonio Hernández (Espiritual negro)




NEGRO ESPIRITUAL

 

Nunca fabricaron nada.
No inventaron nunca nada.
Nunca descubrieron nada
salvo el ala de la nada.
Y dio un paso atrás la muerte.

Antonio Hernández

  

Nunca fabricaram nada.
Não inventaram nunca nada.
Nunca descobriram nada,
salvo a asa do nada.
E a morte deu um passo atrás.


(Trad. A.M.)

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29.9.26

Billy Collins (Surpresa)

 



SURPRESA 

 

É 
- de acordo com a voz na rádio,
o apresentador de um programa de música clássica, nada menos -
é o aniversário de Vivaldi. 

Faria hoje 325 anos, bastante curvado, imagino,
e incapaz de ver bem com os seus olhos lacrimejantes. 

Seguramente já surdo, 
a roupa a desfazer-se, 
o cabelo lamentavelmente ralo. 

Mas, em todo o caso, daríamos uma festa em sua honra,
uma festa surpresa onde todos
nos escondêssemos atrás dos móveis para ouvir 

os toques da sua bengala no pavimento
e a sua tosse seca e persistente.
 

Billy Collins 
 

(Trad. fjcc)

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27.9.26

Abelardo Rodríguez (Caminho do homem)

 



Caminho do homem
                              é a esperança,
e a esperança
é mentira que criamos para ir,
para fazer mais doce a Tragédia.
Nada
e Nada
são os extremos,
e Morte
a única
palavra.

 

ABELARDO RODRÍGUEZ
Maradentro
(Poesía 1970-1999)
Fundación JRJ (1999)

(Trad. A.M)


>>  Autores onubenses (ficha)

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25.9.26

Armindo Rodrigues (Liberdade)




LIBERDADE

 

Liberdade sem pão não é liberdade.
Sem liberdade, o pão é escuro e amargo.
Enquanto a alvorada é uma rosa branca,
o pino da tarde é um toiro bravo.
Entre o destino aceite e o escolhido,
é o mais custoso o que mais me quadra.
Pode-se viver preso e ser-se livre.
Pode viver-se livre e ser-se escravo.


Armindo Rodrigues

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23.9.26

Juan Bello Sánchez (A lavadeira)




LA LAVANDERA

 

Volvía por el camino más largo de la tarde,
una mujer lavaba a mano un montón de ropa
sobre la piedra de un viejo lavadero.
El agua que arañaba las prendas estaba helada,
el cielo enrojecía lentamente.

Ya me estaba alejando cuando la mujer me dijo:
Esta solo es otra forma de mirar las cosas,
más limpias, más puras,
dejando que el água las cruce.
Y continuó lavando la ropa,
el sol acabándose poco a poco.


Juan Bello Sánchez

 

Voltava pelo caminho mais longo da tarde,
uma mulher lavava à mão um monte de roupa
na pedra de um velho lavadoiro.
A água que arranhava as peças estava gelada,
o céu punha-se lentamente encarnado.

Eu já me ia a afastar quando a mulher me diz,
esta é só outra forma de olhar para as coisas,
mais limpas, mais puras,
deixando a água atravessá-las.
E continuou a lavar, enquanto
o sol se extinguia pouco a pouco.


(Trad. A.M.)

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21.9.26

Guilherme de Oliveira (Simplesmente feliz)




SIMPLESMENTE FELIZ

 

Sem
artes e sem letras
ambições materiais
um projecto de vida
agruras na pele
dramas existenciais
discriminação à vista
vizinhos incómodos
cheias torrenciais
carências no bolso
um frio na barriga.

Feliz
como as folhas de uma couve.

GUILHERME DE OLIVEIRA
Não deixaram entrar o cão
Glaciar (2025)

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