8.5.26

Abelardo Linares (Que curta foi a noite)




QUÉ CORTA FUE LA NOCHE

Huelen a ti las sábanas, amor, y todavia
está tu libro abierto encima de la mesa
y hay libros por el suelo y discos y tabaco.

Aunque aquí ya no estés, mis brazos aún te buscan.
Y en este fingimiento de abrazarte en la almohada
persigo tu recuerdo, tu cintura, tus hombros.

Tu cuerpo no fue un sueño y quizás en el baño
mi cepillo me espere, mojado de tu boca,
o húmedas toallas que secaron tu pelo.

Huelen a ti las sábanas. El barrio se despierta.
Hay voces en la calle y luz tras la persiana.
El sol debe estar alto. Qué corta fue la noche.

Abelardo Linares

 

Cheiram a ti os lençóis, amor,
e está ainda teu livro sobre a mesa
e há livros pelo chão, e discos, e tabaco.

Embora tu aqui já não estejas, meus braços ainda te buscam,
e neste fingir de abraçar-te na almofada
persigo a tua lembrança, dos ombros à cintura.

Teu corpo não foi um sonho e talvez no banheiro
a minha escova me espere, molhada da tua boca,
ou as toalhas húmidas que te secaram o cabelo.

Cheiram a ti os lençóis, o bairro desperta,
há vozes na rua e luz na persiana.
O sol deve estar alto.
Que curta foi a noite.

(Trad. A.M.)

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6.5.26

Rodolfo Serrano (Testamento vital)




TESTAMENTO VITAL

 

Dejo a todos mis versos si es que os sirven de algo,
mis pecados peores que os llevarán al cielo
donde moran los ángeles caídos y las ángeles
que nunca respetaron el sexto mandamiento. 

Os dejo las promesas que jamás he cumplido, 
cuatro sueños frustrados, pendientes todavía,
algunas esperanzas que dejé abandonadas
y el deseo de un cuerpo en mis noches vacías. 

Y a todos, todos, dejo el brillo de la luna,
la angustia de los lunes y el miedo a un Dios de cólera.
Os dejo la manzana del Edén y mi odio
al dolor de los niños. Y dejo mis caricias
a los hombres que fueron derrotados conmigo. 

Os dejo, pues, mi rabia frente a lo que es injusto,
también mi cobardía y mi miedo ante aquellos
que compraron por nada mi silencio más cómplice. 
Y ganaron con trampas mi vida en el tablero. 

Os dejo mi tristeza. Cuidadla con cariño.
Y el recuerdo de largos paseos en la noche,
de tardes de noviembre y playas en verano,
de esos trenes nocturnos y frías estaciones, 
y esta extraña nostalgia por los puertos lejanos. 

Os dejo la añoranza de un verano en Lisboa,
el olor de la hierba cuando llueve en  la aldea, 
esa belleza mágica de los cielos con nubes.
La luz de una farola y una calle desierta. 

A los que me ofendieron les dejo mis ofensas.
Y a mis amigos dejo esos bares de barrio
que nos dieron el vino y el pan de la amistad.
A ti, solo a ti dejo, la dicha que te debo,
las noches más hermosas y este amor, viejo amor.
 

Rodolfo Serrano

  

Deixo meus versos a todos se vos servirem de alguma coisa,
meus pecados maiores que vos levarão ao céu 
onde moram os anjos caídos e as anjas
que nunca respeitaram o sexto mandamento.

Deixo-vos as promessas que jamais cumpri,
quatro sonhos frustrados, pendentes ainda,
algumas esperanças já abandonadas
e o desejo de um corpo nas minhas noites vazias.

E a todos, todos, deixo o brilho da lua,
a angústia das segundas e o medo a um Deus de cólera.
Deixo-vos a maçã do Paraíso e meu ódio
à dor das crianças, legando meus carinhos 
aos homens comigo derrotados.

Deixo-vos, depois, minha raiva face à injustiça,
minha cobardia também e meu medo perante aqueles 
que compraram por nada meu silêncio mais cúmplice,
e ganharam com truques minha vida no tabuleiro.

Deixo-vos a minha tristeza, tratai-a com carinho,
mais a lembrança de longos passeios nocturnos,
de tardes de Novembro e praias de verão,
de comboios da noite e frias estações,
e esta nostalgia estranha por portos longínquos.

Deixo-vos a saudade de um verão em Lisboa,
o cheiro da erva quando chove na aldeia,
aquela beleza mágica dos céus com nuvens,
a luz de um candeeiro e uma rua deserta.

Aos que me ofenderam lego as minhas ofensas,
deixando aos amigos aqueles bares de bairro
que nos deram o vinho e o pão da amizade.
A ti, só a ti, deixo a ventura que te devo,
as noites mais belas e este amor, velho amor.

(Trad. A.M.)

 .

4.5.26

Manuel Resende (Voltar para casa)




VOLTAR PARA CASA

 

Mas porque tem a pessoa de voltar para casa
e seguir o rasto das árvores no chão,
pelo caminho conhecido, com o coração mirrado nas mãos
e as mãos nos bolsos como um apontamento antigo?
Não haverá outra história para viver, um jornal para cada um,
E súbita a esperança a queimar os lábios, a palpitar na boca,
pronta a saltar e a arder todo o corpo?
Mas porque tem a pessoa de voltar para casa,
cabisbaixa?
 

Manuel Resende

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2.5.26

José Jiménez Lozano (Árvore seca)




ARBOL SECO

 

Diez años esperó que el árbol seco
floreciera de nuevo. Diez años
con el hacha aguzada y temblorosa,
pero el árbol
sólo exhibía sus desnudos brazos,
la percha de la urraca y de los cuervos.
Cortóle al fin, y, de repente,
vio su corazón verde, borbotón de savia;
un año más, y hubiera florecido.


José Jiménez Lozano

 

 

Dez anos esperou que a seca árvore
florisse de novo. Dez anos
de machada afiada e trémula,
mas a árvore
mostrava só os braços nus,
o poleiro da pega e dos corvos.
Cortou-a por fim, e de repente,
viu-lhe o coração verde, a borbotar de seiva;
um ano mais, e floria.


(Trad. A.M.)

 .

30.4.26

José Corredor-Matheos (Mark Rothko sabe ver)




(IX)

 

Mark Rothko sabe ver
las cosas como son:
un resplandor sin cuerpo,
vivo color al borde
de las sombras.
Coge el pincel y deja
que arda el rojo,
pinte de azul el aire,
crezca el verde y el ocre
se remanse,
que funda el blanco todos
los colores
o que el negro los niegue.
Pintura evanescente,
puro espíritu,
espejo del vacío,
donde me reconozco.
Tener conciencia clara
de que nada en la nada
se sostiene
hace más deslumbrante
esta belleza.

José Corredor-Matheos



Mark Rothko sabe ver
as coisas como elas são:
um resplendor sem corpo,
cor viva no limite
das sombras.
Pega no pincel e deixa-o
incendiar o vermelho,
pintar o ar de azul,
crescer o verde e
sossegar o ocre,
fundir no branco
as cores todas
ou então negá-las
no negro.
Pintura evanescente,
puro espírito,
espelho do vazio.
onde eu me reconheço.
Ter consciência clara
de que nada se sustenta
no nada
torna mais deslumbrante
esta beleza.


(Trad. A.M.)

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28.4.26

Manuel António Pina (Aos filhos)




AOS FILHOS

 

Já nada nos pertence,
nem a nossa miséria.
O que vos deixaremos
a vós o roubaremos. 

Toda a vida estivemos
sentados sobre a morte,
sobre a nossa própria morte!
Agora como morreremos? 

Estes são tempos de
que não ficará memória,
alguma glória teríamos
fôssemos ao menos infames. 

Comprámos e não pagámos,
faltámos a encontros:
nem sequer quando errámos
fizemos grande coisa!

Manuel António Pina

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26.4.26

Joaquín Giannuzi (O quadro de referência)




EL MARCO DE REFERENCIA                                  

 

El amante menciona la luz curvada
de su vientre desnudo:
denuncia la vida ajena como un naufragio
y subordina el mundo
a la referencia de la amada dormida.
El amante construye
su territorio sanguíneo
en torno a esa pulsación dorada:
atrapado
en el poder desconocido
que emana de una cosa perfectamente hecha.

Joaquín Giannuzi 


O amante menciona a luz curvada
de seu ventre desnudo:
denuncia a vida alheia como um naufrágio
e subordina o mundo
à referência da amada adormecida.
O amante constrói
seu território sanguíneo
em torno dessa pulsação dourada:
apanhado
no poder desconhecido
que emana de uma coisa perfeitamente feita.


(Trad. A.M.)

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