23.9.22

Fernando Assis Pacheco (Memórias do contencioso-1)



MEMÓRIAS DO CONTENCIOSO 


E sequem-se-me os dedos a cabeça estoire 
e não fique de tudo uma palavra 
se a maldição for tanta que eu te esqueça 

 e não reste sequer o chão e não de quantas ruas 
e não já reste a cidade
 e seja a memória deste homem um escárnio 
ocultado por quinze gerações de vindouros 
com seus cães que se deitam aos pés das pessoas 
e parecem adivinhar a linguagem monstruosa 
das narinas resfolegando 

 se a maldição for tanta e tão perfídia 
que eu te esqueça na morte, 
que eu te esqueça 

Fernando Assis Pacheco 


Ana Pérez Cañamares (Espécies de autodefesa)




CLASES DE AUTODEFENSA

 

Pelear no estaba escrito
en mi carácter
-ese guión escrito por otros. 

Estas patadas al aire
que llevo dando toda la vida
sólo pretendían desprender
las etiquetas pegadas
a las suelas del zapato. 

Ahora que lo necesito
tengo al menos
aprendido el gesto.
 

Ana Pérez Cañamares

 [Literatura y poesia]

 


Batalhar não estava escrito
em meu carácter
- esse guião escrito por outros.

Estes pontapés no ar
que vou dando desde sempre
eram só para desprender
as etiquetas coladas
nas solas dos sapatos

Agora que o preciso
tenho ao menos
o gesto aprendido.
 

(Trad. A.M.)

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22.9.22

Alfredo Buxán (Só em sonhos)




SÓ EM SONHOS 

 

Sonhei que dormias ainda a meu lado
e acariciei-te os ombros no ar.
Acordado já de todo, não houve nada.
Só o silêncio espesso de tua ausência.
A cama por fazer.
                            A alma morta.
E nos lábios a areia do deserto.

 

ALFREDO BUXÁN
Las Palabras Perdidas
(Poesía 1989-2008)
Bartleby Editores (2011)

 
(Trad. A.M.)

.

20.9.22

Louise Glück (Imagem de espelho)



MIRROR IMAGE 

 

Tonight I saw myself in the dark window as
the image of my father, whose life
was spent like this,
thinking of death, to the exclusion
of other sensual matters,
so in the end that life
was easy to give up, since
it contained nothing: even
my mother’s voice couldn’t make him
change or turn back
as he believed
that once you can’t love another human being
you have no place in the world.
 

Louise Glück 

 

Hoje vi-me no espelho do vidro da janela
com a imagem de meu pai, que levou
a vida toda assim,
a pensar na morte, 
com exclusão de tudo o mais,
de modo que foi fácil no fim
entregar a vida, pois não tinha
nada dentro; mesmo a voz
de minha mãe não conseguia fazê-lo mudar
ou tirar-lhe a ideia de que
quem não é capaz de amar outra pessoa
não tem lugar neste mundo.
 

(Trad. A.M.)

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18.9.22

Alfonso Brezmes (A heresia)




A HERESIA

 

Giordano Bruno foi queimado
por afirmar que havia
outros mundos para além
deste planeta finito.

Eu habito outra fogueira
mais espantosa ainda
- ter de te ir buscando
por esses mundos distantes
até poder tirar a limpo
se meus poemas mentiam,
e é verdade que tu não existes.

ALFONSO BREZMES
Vícios Ocultos
(2019)

(Trad. A.M.)

 .

17.9.22

Alejandra Pizarnik (Os do oculto)




LOS DE LO OCULTO 

 

Para que las palabras no basten
es preciso alguna muerte en el corazón.
 

La luz del lenguaje me cubre como una música,
imagen mordida por los perros del desconsuelo,
y el invierno sube por mí
como la enamorada del muro.
 

Cuando espero dejar de esperar,
sucede tu caída dentro de mí.
Ya no soy más que un adentro.
 

Alejandra Pizarnik 

[Life vest under your seat]

 

  

Para as palavras não bastarem
é preciso a morte no coração. 

A luz da linguagem cobre-me como uma música,
imagem mordida pelos cães do desespero,
e o Inverno sobe por mim acima
como a enamorada pelo muro. 

Quando espero deixar de esperar,
cais tu dentro de mim.
Não sou mais já do que um dentro. 

(Trad. A.M.)

.


15.9.22

Bertolt Brecht (Epitáfio para M.)




EPITÁFIO PARA M.

 

Escapei aos tubarões
Abati os tigres
Fui devorado 
Pelos percevejos.

Bertolt Brecht

(Trad. P. Quintela)

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13.9.22

Aldo Luis Novelli (Escrevivendo)






ESCRIVIVIENDO

 

los temas son siempre los mismos
miro por la ventana
veo un hombre y una mujer
amándose sobre la tierra fértil
la semilla rompiendo la corteza
la simiente humana
creando un milagro extraordinario
hombres y mujeres luchando
contra el viento en el desierto
el amor que se fue
montado en un dragón volador
divisar en el horizonte 
las bardas oxidadas de tiempo
la utopía socialista
latiendo en un puño en alto
darle de comer a la dragona
que está en el fondo de la casa
el solitario placer
de beber bajo las estrellas
escribir en medio de la tempestad
aunque afuera haya un inmenso sol
charlar hasta la madrugada
con los amigos del bar de la esquina
luchar por la revolución
de las ideas y los cuerpos sensibles
jugar al truco y ganarles
a los borrachos que siempre vienen
a buscar un vaso de vino
construir una escalera infinita
para llegar a un cielo inalcanzable
perseguir en el agua sucia
al pez de colores de la felicidad
vibrar con las mujeres
que se desnudan en mis noches
esperar que alguna tarde luminosa
ella abra la puerta
escribir en el aire
poemas que el viento se llevará
buscar flores azules en el desierto
andando el camino que nunca termina
seguir intentando lo imposible
cada nuevo sol de los ojos


los temas son siempre los mismos
cambia la forma de decir
la manera de mirar
de este lector que camina
por el pellejo del mundo
se hace más viejo pero no más sabio


Aldo Luis Novelli

 

 

os temas são sempre os mesmos
olho pela janela
vejo um homem e uma mulher
a amar-se sobre a terra fértil
a semente rasgando a casca
a semente humana
a criar um milagre extraordinário
homens e mulheres lutando
contra o vento no deserto
o amor que se foi
montado num dragão voador
divisar no horizonte
as cercas oxidadas de tempo
a utopia socialista
pulsando num punho erguido
dar de comer à dragona
que está no fundo da casa
o solitário prazer
de beber sob as estrelas
escrever no meio da tempestade
embora lá fora esteja um sol esplêndido
conversar até de madrugada
com os amigos do bar da esquina
lutar pela revolução
das ideias e dos corpos sensíveis
jogar à moeda e ganhar
aos borrachos que vêm sempre
em busca de um copo de vinho
construir uma escada infinita
para chegar a um céu intangível
perseguir na água ludra um peixe
com as cores da felicidade
vibrar com as mulheres
que se desnudam na minha noite
esperar que ela abra a porta
numa certa tarde luminosa
escrever no vento
poemas que o vento arrastará
buscar flores azuis no deserto
fazendo o caminho que nunca termina
continuar sempre a tentar o impossível
cada novo sol dos olhos

os temas são sempre os mesmos
muda é a forma de dizer
o modo de olhar
deste leitor que caminha
pelo carreiro da vida
fazendo-se mais velho, mas não mais sábio


(Trad. A.M.)

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