12.8.26

António Reis (Chega a ter gosto)




(16)

 
Chega a ter gosto
a chuva
vista dos cafés
 
caindo sobre as estátuas
e a nostalgia
 
chega a ser morna
 
com fumo e álcool
na garganta
 
Até os homens passarem
junto aos vidros
 
reais
molhados
 
sem emoções instruídas
 
pensando em remédios
e prestações
 
grisalhos
sem serem velhos
 
e falando sós
sem serem loucos


António Reis

[Canal de poesia]

 .

10.8.26

Felipe Benítez Reyes (Um gesto de gratidão)




UN GESTO DE GRATITUD

 

El azar es la norma imprevisible.
Acata, pues, la norma.
Y cuida sempre
que juegue a tu favor la incertidumbre
que esa norma dispone, porque el rumbo
de una vida depende
de una conjugación
leve y muy rápida
de rutina y misterio, de angustia y plenitud,
de esencias muy dispares que se mezclan
de forma casual e inexorable
en el laboratorio mágico del tiempo.

Y si el tiempo es la suma
de una nube vacía y de un relámpago,
interpreta esa suma
desde la gratitud, porque has sido esa suma,
y algo eterno hay en ti y es sólo tuyo:
lo que has pensado,
aquello que tocaste con ansia o con terror,
la fórmula secreta de tu anhelo,
la memoria narcótica que sustenta
y confirma
tu paso por un mundo fugitivo.

Nunca verás tu rostro verdadero,
porque todo consiste en un fluir,
y todo cuanto fluye es un enigma.

De cualquier forma,
da gracias por la esencia de ese caos.

Agradece lo extraño que es ya todo.

El tiempo es invencible,
pero no es más que tiempo:
un espejismo cambiante que sugiere
movimientos perpetuos de conciencia,
aunque todo es cambiante salvo tú:

el tiempo es sólo el nombre de un espectro.

El tiempo es lo que el tiempo nos destruye.

Felipe Benítez Reyes

 

O acaso é a norma imprevisível.
Acata pois essa norma,
e cuida sempre
que jogue a teu favor a incerteza
que essa norma edita, pois que o rumo
de uma vida depende
de uma conjugação
leve e muito rápida
de rotina e mistério, de angústia e plenitude,
de essências muito diversas que se misturam
de forma casual e inexorável
no laboratório mágico do tempo.

E se o tempo é a soma
de uma nuvem vazia e de um relâmpago,
interpreta essa soma
pelo lado da gratidão, porque tu foste essa soma,
e algo eterno há em ti, sendo só teu:
o que pensaste,
aquilo que tocaste com ânsia ou com terror,
a fórmula secreta de teu anelo,
a memória narcótica que sustenta e confirma
tua passagem por um mundo fugitivo.

Nunca verás teu rosto verdadeiro,
porque tudo consiste num fluir,
e tudo quanto flui é um enigma.

De todo o modo,
dá graças pela essência desse caos.

Agradece o estranho que é já tudo.

O tempo é invencível,
mas não é mais do que tempo,
uma miragem mutante sugerindo
movimentos perpétuos de consciência,
embora tudo seja mutante menos tu:

o tempo é só o nome de um espectro.

O tempo é o que o tempo nos destrói.


(Trad. A.M.)

.

8.8.26

Antonio Carlos Secchin (Na antessala)




NA ANTESSALA


Espalhei dezoito heterônimos
em ruas do Rio e Lisboa.
Todos eles, se reunidos,
não valem um só de Pessoa.

Trancafiei-me num mosteiro,
esperando de Deus um dom.
O que Ele me deu foi pastiche
da poesia de Drummond.

Ressoa na minha gaveta
um comício de versos reles.
Em coro parecem dizer:
Não somos Cecília Meireles.

O desavisado leitor
não espere muito de mim.
O máximo, que mal consigo,
é chegar a Antonio Secchin.

Antonio Carlos Secchin

 .

6.8.26

Marilyn Contardi (Verão)




VERÃO
 

 

Madrugada,

os lençóis 

quentes

contra o corpo

 

Toco a meu lado

o pelo comprido,

hirsuto

da minha gata

 

que estende a pata

a roçar-me,

tão suave

 

minha irmã dorme

 

levanto-me para olhar

pela janela

 

a rua está deserta 

ninguém 

pela vereda

apenas a luz

da lua

 

Esta vez…

não será aquela?

será que sonhei?

 

O sorriso

de minha mãe 

diz-me que sim

 

A lua entra 

pelas gelosias,

a gata 

ronrona

Não há mais ninguém 

 

Como passam 

os anos,

como galgos ligeiros

 

Marilyn Contardi

 

(Trad. A.M.)

 .

4.8.26

Andreia C. Faria (Dupla negativa)




DUPLA NEGATIVA



Não comas nada que não possa apodrecer
Não comas nada que não anoiteça
à espera do grande luar de Agosto, a cabeça mansa
do boi que espreita à janela do curral
Nada que não resplandeça
e se abra, irregular odor ao vento

Não comas nada menos que aceso
e amadurecido pelas semelhanças, nada
que enquanto dormes te não pondere o sangue
Nada comas que te não acaricie ou ofereça a linha do dorso, suprema

Não queiras nada que não tenha
superfície e mistério

Não desejes nada puro
- compaixão, água fresca, incidências vegetais
Não te queiras fímbria, orla
humilde de substâncias imortais


Andreia C. Faria


>>  Folha de poesia (notas+7p) / Recanto do poeta (7p) /Casa FP (5p) / Dialnet (Pedro Meneses/ rec. ‘Canina’) / Wikipedia

.

2.8.26

Mario Benedetti (Como vai ser teu dia?)




CÓMO VA A SER TU DÍA HOY?

 

Esta mañana desperté emocionado 
con todas las cosas que tengo que hacer
antes que el reloj sonara.

Tengo responsabilidades que cumplir hoy. Soy importante.
Mi trabajo es escoger qué clase de día voy a tener.

Hoy puedo quejarme porque el día está lluvioso
o puedo dar gracias porque las plantas están siendo regadas.

Hoy me puedo sentir triste porque no tengo más dinero
o puedo estar contento porque mis finanzas me empujan
a planear mis compras con inteligencia.

Hoy puedo quejarme de mi salud
o puedo regocijarme de que estoy vivo.

Hoy puedo lamentarme de todo
lo que mis padres no me dieron mientras estaba creciendo
o puedo sentirme agradecido de que me permitieran haber nacido.

Hoy puedo llorar porque las rosas tienen espinas
o puedo celebrar que las espinas tienen rosas.

Hoy puedo autocompadecerme por no tener muchos amigos
o puedo emocionarme
y embarcarme en la aventura de descubrir nuevas relaciones.

Hoy puedo quejarme porque tengo que ir a trabajar
o puedo gritar de alegría porque tengo un trabajo.

Hoy puedo quejarme porque tengo que ir a la escuela
o puedo abrir mi mente enérgicamente
y llenarla con nuevos y ricos conocimientos.

Hoy puedo murmurar amargamente
porque tengo que hacer las labores del hogar
o puedo sentirme honrado
 porque tengo un techo para mi mente y cuerpo.

Hoy el día se presenta ante mí esperando a que yo le dé forma
y aquí estoy, soy el escultor.

Lo que suceda hoy depende de mí. Yo debo escoger qué tipo de día voy a tener.

Que tengas un gran día… a menos que tengas otros planes….
 

Mario Benedetti 


Hoje acordei, antes de o relógio tocar,
cheio de emoção
com tudo o que tenho para fazer.

Tenho responsabilidades a cumprir, sou muito importante.
Minha tarefa é escolher que espécie de dia vou ter.

Hoje posso queixar-me de estar a chover
ou posso dar graças por as plantas estarem a ser regadas.

Hoje posso sentir-me triste por não ter mais dinheiro
ou posso estar contente por as minhas finanças me obrigarem
a fazer as compras com inteligência.

Hoje posso queixar-me da saúde
ou posso regozijar-me de ainda estar vivo.

Hoje posso lamentar-me de tudo
o que os pais não me deram na infância
ou posso estar grato de me terem feito nascer.

Hoje posso chorar de as rosas terem espinhos
ou posso celebrar os espinhos terem rosas.

Hoje posso ter pena de mim por ter poucos amigos
ou posso emocionar-me
e entrar na aventura de fazer novas relações.

Hoje posso queixar-me de ter que ir trabalhar
ou posso gritar de alegria porque tenho trabalho

Hoje posso queixar-me por ter de ir para a escola
ou posso abrir a mente e enchê-la de novos e ricos conhecimentos.

Hoje posso murmurar amargamente
por ter de fazer os trabalhos da casa
ou posso sentir-me honrado
por ter um tecto para o corpo e espírito.

Hoje tenho o dia pela frente à espera que eu lhe dê forma
e cá estou eu, o escultor.

O que hoje acontecer depende de mim.
Eu é que tenho de escolher que tipo de dia vou ter.

Que tenhas um grande dia!...
A menos que tenhas outros planos…


(Trad. A.M.)

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31.7.26

José Saramago (O latifúndio é um mar interior)




(O latifúndio é um mar interior)

O latifúndio é um mar interior.
Tem seus cardumes de peixe miúdo e comestível, suas barracudas e piranhas de má morte, seus animais pelágicos, leviatãs ou mantas gelatinosas, uma bicheza cega que arrasta a barriga no lodo e morre sobre ele, e também grandes anéis serpentinos de estrangulação.
É mediterrânico mar, mas tem marés e ressacas, correntes macias que levam tempo a dar a volta inteira, e às vezes rápidos surtos que sacodem a superfície, são rajadas de vento que vem de fora ou desaguamentos de inesperados fluxos, enquanto na escura profundidade se enrolam lentamente as vagas, arrastando a turvidão da nutriente vasa, há quanto tempo isto dura.
São comparações que tanto servem como servem pouco, dizer que o latifúndio é um mar, mas terá sua razão de fácil entendimento, se esta água agitarmos, toda a outra em redor se move, às vezes de tão longe que os olhos o negam, por isso chamaríamos enganadamente pântano a este mar, e que o fosse, muito enganado vive quem de aparências se fia, sejam elas de morte.

JOSÉ SARAMAGO
Levantado do Chão
(1980)

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