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31.1.19

Alexandre O'Neill (Daqui, desta Lisboa compassiva)




Daqui, desta Lisboa compassiva,
Nápoles por Suíços habitada,
onde a tristeza vil, e apagada,
se disfarça de gente mais activa;

Daqui, deste pregão de voz antiga,
deste traquejo feroz de motoreta
ou do outro de gente mais selecta
que roda a quatro a nalga e a barriga;

Daqui, deste azulejo incandescente,
da soleira da vida e piaçaba,
da sacada suspensa no poente,
do ramudo tristolho que se apaga;

Daqui, só paciência, amigos meus !
Peguem lá o soneto e vão com Deus...


Alexandre O’Neill

[O vento que passa]

[YouTube]


9.11.18

Alexandre O'Neill (Poema)




POEMA


Entre mim e o silêncio
vai a mesma distância
que vai de mim a mim mesmo
Entretanto,
vou construindo sistemas explicativos
do que fica entre mim e o silêncio

Alexandre O’Neill



[Colóquio-Letras, 198 (2018), 55]

.

4.9.17

Alexandre O'Neill (Se eu pudesse)





Se eu pudesse dizer-te: - senta aqui
nos meus joelhos, deixa-me alisar-te,
ó amável bichinho, o pêlo fino;
depois, a contra-pêlo, provocar-te!
Se eu pudesse juntar no mesmo fio
(infinito colar!) cada arrepio
que aos viajeiros comprazidos dedos
fizesse descobrir novos enredos!
Se eu pudesse fechar-te nesta mão,
tecedeira fiel de tantas linhas,
de tanto enredo imaginário, vão,
e incitar alguém - Vê se adivinhas…
Então um fértil jogo amor seria.
Não este descerrar a mão vazia!


Alexandre O'Neill



 .

16.6.15

Alexandre O'Neill (Seis poemas confiados/VI)





(VI)

A que vens, solidão, com teu relógio
de ponteiros de visgo, de bater de feltro?
Ombro nenhum ao meu ombro encostado,
a que vens, ó camarada solidão?
Companheira, amiga, até amante,
até ausente, ó solidão, te amei,
como se ama o frio até o frio dar
a chama que tu dás, ó solidão!
A que vens, enfermeira? Não sabes que estou morto,
que se digo o meu sim ou o meu não
é só para que os outros me julguem mais um outro,
é só para que um morto não tire o sono aos outros?
A que vens, solidão? Vai antes possuir
os que amam sem esperança e sem saber esperam,
dá-lhes o teu conforto, encosta-lhes ao ombro
o teu ombro nenhum, ó solidão!


ALEXANDRE O'NEILL
Poemas com Endereço(1962)

.

22.2.15

Alexandre O'Neill (Seis poemas confiados/V)





(V)

Eu estava bom p’ra morrer
nesse dia.
Não tinha fome nem sede,
nem alarme ou agonia.

Eu estava tal como está
esse que perdeu a amiga,
o homem que sofreu já
tanto (nem se imagina!)

que ficou bem atestado
de fadiga
e copiou-se em alegre,
mas de uma torpe alegria,

que não era mesmo alegre,
mas alegre se fingia
só para enganar o morto
que dentro de si trazia.

Este é um modo de dizer
em que ninguém acredita,
mas não sei melhor dizer:
era assim que eu me sentia!

A solidão o que era?
O amor o que seria?
Já ninguém à minha espera,
para nenhures é que eu ia.

Eu estava bom p’ra morrer
— e ainda hoje morria…
Assim me quisesses dar
e tirar — só tu! — a vida.


Alexandre O'Neill

.

31.8.14

Alexandre O'Neill (Seis poemas confiados/IV)





(IV)

Passam os anos a caretear…
Com ou sem sorte,
não será tempo de viver, de amar,
de resistir à morte?
Ouve amor-o-eterno e o que ele diz
a quem se dá.
Não esperes pelo tempo: sê feliz
que a felicidade é já!
E a felicidade é esse rosto eleito
por ti,
é esse palmo de ternura e o jeito
com que sorri.
E a felicidade é a melancolia
que nesse rosto existe,
quando te quer dizer que só por ele
é bom estar triste…
Passem, então, os anos a deitar-nos
línguas de fora…
Se morrermos será de nos amarmos
em cada hora!

Mais um ano de esperança? Não o queiras
se a esperança é adiar,
e vive-o como se fosse a vida inteira
se tiveres de esperar!…


Alexandre O'Neill

.

22.3.14

Alexandre O'Neill (Seis poemas confiados/III)





(III)


Sê como és: o sol é bom,
o ar vivaz.
Do azul aos azuis, do verde aos verdes,
a terra é menina e o tempo rapaz.
Também tu és menina
(um bichinho rebelde, de tão natural!)
e correr descalça era mesmo o que querias,
mas seria indecente nesta capital…
E enquanto, doutro verde possuído,
em versos me explico, bem ou mal,
à primavera corres, já descalça,
por uma relva ideal!


Alexandre O'Neill

.

4.12.13

Alexandre O'Neill (Seis poemas confiados/II)





SEIS POEMAS CONFIADOS À MEMÓRIA DE NORA MITRANI


(II)


Se eu pudesse dizer-te: — Senta aqui
nos meus joelhos, deixa-me alisar-te,
ó amável bichinho, o pêlo fino;
depois, a contra-pêlo, provocar-te!
Se eu pudesse juntar no mesmo fio
(infinito colar!) cada arrepio
que aos viajeiros comprazidos dedos
fizesse descobrir novos enredos!
Se eu pudesse fechar-te nesta mão,
tecedeira fiel de tantas linhas,
de tanto enredo imaginário, vão,
e incitar alguém: — Vê se adivinhas…
Então um fértil jogo amor seria.
Não este descerrar a mão vazia!


Alexandre O'Neill

.

8.5.13

Alexandre O'Neill (Seis poemas confiados/I)





SEIS POEMAS CONFIADOS À MEMÓRIA DE NORA MITRANI*


(I)

Para ti o tempo já não urge,
Amiga.
Agora és morta.
(Suicida?)

Já Pierrot-vomitando-fogo
(sempre ao serviço dos amantes)
não entra no nosso jogo
como dantes.

Mas esse obscuro servidor,
que promovemos uma vez
(ainda eu não te dedicara
‘aquele’ adeus português…),

corre, lesto, como uma chama,
entre nós dois (o saltarim!)
e desafia-nos prà cama.
Esperas por mim?

(...)


Alexandre O’Neill, Poemas com Endereço [1962],
in Poesias Completas, Lisboa, Assírio & Alvim, 6.ª ed.,
revista por Luis Manuel Gaspar, 2012

_________________

(*) Destinatária, como é sabido e confessado na estrofe terceira, de Um adeus português.

.


30.5.12

Alexandre O'Neill (Amigos pensados, Manuel)






AMIGOS PENSADOS: MANUEL



Manuel sai de amador às quatro para a pesca,
passa-me à porta, faz com a tosse ponto e vírgula,
escarra como se fosse no país.

Com duzentos anzóis há quase sempre um peixe,
que nós conversamos quando, regressado,
Manuel abre a oficina e recomeça a mesa
que talvez acabe para mim.



ALEXANDRE O´NEILL
Feira Cabisbaixa
(1965)

.

28.12.11

Alexandre O'Neill (Má consciência)






MÁ CONSCIÊNCIA




O adjectivo
dá-me de comer.
Se não fora ele
o que houvera de ser?


Vivo de acrescentar às coisas
o que elas não são.
Mas é por cálculo
não por ilusão.


Alexandre O’Neill


[Poedia]

.

14.2.11

Alexandre O'Neill (Velha fábula em bossa-nova)






VELHA FÁBULA EM BOSSA NOVA



Minuciosa formiga
não tem que se lhe diga:
leva a sua palhinha
asinha, asinha.


Assim devera eu ser
e não esta cigarra
que se põe a cantar
e me deita a perder.


Assim devera eu ser:
de patinhas no chão,
formiguinha ao trabalho
e ao tostão.


Assim devera eu ser
se não fora
não querer.


(-Obrigado, formiga!
Mas a palha não cabe
onde você sabe...)



Alexandre O’Neill

.

21.1.11

Alexandre O'Neill (Gaivota)






GAIVOTA



Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.


Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.


Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.


Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.


Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.


Que perfeito coração
no meu peito morreria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.



Alexandre O’Neill


.

21.12.10

Alexandre O'Neill (Se)






SE




Se é possível conservar a juventude
respirando abraçado a um marco do correio;
Se a dentadura postiça se voltou contra a pobre senhora
e a mordeu deixando-a em estado grave;
Se ao descer do avião a Duquesa do Quente
pôs marfim a sorrir;
Se Baú-Cheio tem acções nas minas de esterco;
Se na América um jovem de cem anos
veio de longe ver o Presidente
a cavalo na mãe;
Se um bode recebe o próprio peso em aspirina
e a oferece aos hospitais do seu país;
Se o engenheiro sempre não era engenheiro
e a rapariga ficou com uma engenhoca nos braços;
Se, reentrante, protuberante, perturbante,
Lola domina ainda os portugueses;
Se o Jorge (o “ponto do Jorge”!) tentou beber naquela noite
o presunto de Chaves por uma palhinha
e o Eduardo não lhe ficou atrás
ao sair com a lagosta pela trela;
Se «ninguém me ama porque tenho mau hálito
e reviro os olhos como uma parva»;
Se a Mimi Travessuras já não vem a Lisboa
cantar com o Alberto...


... Acaso o nosso destino, tac!, vai mudar?



Alexandre O'Neill



[Cravo de Abril]


.

20.11.10

Alexandre O'Neill (Poesia e propaganda)






POESIA E PROPAGANDA




Hei-de mandar arrastar com muito orgulho,
pelo pequeno avião da propaganda
e no céu inocente de Lisboa,
um dos meus versos, um dos meus
mais sonoros e compridos versos:

E será um verso de amor...



Alexandre O'Neill


.

7.10.10

Alexandre O'Neill (A uma oliveira)






A UMA OLIVEIRA




Muito antes de Os Lusíadas diz-se que já aqui estavas.


Pré-camoniana,
sazão a sazão,
foste varejada séculos a fio.


O pinho viajou.
tu ficaste.


Ao som bárbaro de um rádio de pilhas,
desdobram toalhas
na tua sombra rala.



Alexandre O'Neill



[Silva]


.

1.9.10

Alexandre O'Neill (Toma lá cinco)






TOMA LÁ CINCO



Encolhes os ombros, mas o tempo passa...
Ai, afinal, rapaz, o tempo passa!


Um dente que estava são e agora não,
Um cabelo que ainda ontem preto era,
Dentro do peito um outro, sempre mais velho coração,
E na cara uma ruga que não espera, que não espera..


No andar de cima, uma nova criança
Vai bater no teu crânio os pequeninos pés.
Mas deixa lá, rapaz, tem esperança:
Este ano talvez venhas a ser o que não és...


Talvez sejas de enredos fácil presa,
Eterno marido, amante de um só dia...
Com clorofila ficam os teus dentes que é uma beleza!
Mas não rias, rapaz, que o ano só agora principia...
Talvez lances de amor um foguetão sincero
Para algum coração a milhões de anos-dor
Ou desesperado te resolvas por um mero
Tiro na boca, mas de alcance maior...
Grande asneira, rapaz, grande asneira seria
Errar a vida e não errar a pontaria...
Talvez te deixes por uma vez de fitas,
De versos de mau hálito e mau sestro,
E acalmes nas feias o ardor pelas bonitas
(Como mulheres são mais fiéis, de resto...)



ALEXANDRE O’NEILL
No Reino da Dinamarca
(1958)

.

21.7.10

Alexandre O'Neill (Meditação na pastelaria)






MEDITAÇÃO NA PASTELARIA




Por favor, Madame, tire as patas,
Por favor, as patas do seu cão
De cima da mesa, que a gerência
Agradece.



Nunca se sabe quando começa a insolência!
Que tempo este, meu Deus, uma senhora
Está sempre em perigo e o perigo
Em cada rua, em cada olhar,
Em cada sorriso ou gesto
De boa educação!


A inspecção irónica das pernas,
Eis o que os homens sabem oferecer-nos,
Inspecção demorada e ascendente,
Acompanhada de assobios
E de sorrisos que se abrem e se fecham
Procurando uma fresta, uma fraqueza
Qualquer da nossa parte...

          *


Mas uma senhora é uma senhora.
Só vê a malícia quem a tem.
Uma senhora passa
E ladrar é o seu dever – se tanto for preciso!


O pó de arroz:
Horrível!
O bâton:
Igual!


O amor de Raul é já uma saudade,
Foi sempre uma saudade…


(O escritório
Toma-lhe todo o tempo?
Desconfio que não…)


Filhos tivemos um:
Desapareceu…
E já nem sei chorar!

          *


Chorar...
Como eu queria poder chorar!


Chorar encostada a uma saudade
Bem maior do que eu,
Que não fosse esta tristeza
Absurda de cada dia:
Unha
Quebrada de melancolia...


Perdi tudo, quase tudo...


Hoje,
Resta-me a devoção
E este pequeno inteligente cão.


Por favor, Madame, tire as patas,
Por favor, as patas do seu cão
De cima da mesa, que a gerência
Agradece.




ALEXANDRE O'NEILL
No Reino da Dinamarca
(1958)


.