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11.5.18

Vicente Gallego (As tardes)





 LAS TARDES



Ya casi no recuerdo las mañanas,
su tiempo azul y claro,
lejos quedan, perdidas en colegios
o en piscinas extrañas e indolentes.

Porque sentimos duro el despertar
retrasamos ahora
la luz que nos fatiga los despegados ojos.
Y es un destino oscuro el de las tardes,
en ellas aprendí que llegará la noche,
y que es inútil
cualquier esfuerzo por burlar la historia
equivocada y triste de los años.
He vivido en la espera absurda de la vida,
cuando he gozado
ha sido con reservas; amé creyendo en el amor
que habría luego de venir, y que faltó a la cita,
y renuncié al placer por la promesa
de una dicha más alta en el futuro incierto.

Pero los días, al pasar, no son
el generoso rey que cumple su palabra,
sino el ladrón taimado que nos miente.
Con su certeza
nos convierte la edad en más mezquinos,
nos enseña a amar lo que nos duele,
las cosas más pequeñas, aquello que ahora somos
y tenemos: la música suave, nuestros cuerpos,
el calor de la estancia y el cansancio.
Buscamos la derrota de las tardes, su tregua
en la exigencia vana de una gloria
que ya no nos seduce. Nos convierte
la edad en más obscenos, y aceptamos
cualquier regalo aunque parezca pobre:
esa boca gastada por el uso, tan dulce aún,
el fuego antiguo y leve de la carne,
los viejos libros, los amigos justos,
un poema mediocre, pero nuestro,
y la costumbre extraña
de ser al fin felices en la sombra.

Es un destino oscuro el de las tardes,
pero también hermoso
y breve como el paso de los hombres.

Vicente Gallego





Quase não me lembram já as manhãs,
o tempo azul e claro,
longe estão, perdidas em colégios
ou em piscinas estranhas e indolentes.

Porque sentimos duro o despertar
atrasamos agora
a luz que nos fatiga os olhos descolados.
E o das tardes é um destino escuro,
onde aprendi que a noite virá,
sendo inútil todo o esforço de enganar
a história equivocada e triste dos anos.
Vivi na espera absurda da vida,
e quando gozei
foi sem reservas; amei crendo no amor
que havia de vir depois, mas faltou ao encontro,
e renunciei ao prazer pela promessa 
de mais alta ventura no incerto futuro.

Mas os dias, ao passar, não são
o rei generoso que cumpre a palavra,
antes o ladrão arteiro que nos mente.
Na sua certeza
a idade faz-nos mais mesquinhos,
ensina-nos a amar o que nos dói,
as coisas mais pequenas, aquilo que agora
somos e temos, a música suave, os corpos,
o calor de casa e o cansaço.
Buscamos a derrota das tardes, sua trégua
na exigência vã de uma glória
que já não nos seduz. A idade
faz-nos mais obscenos, e qualquer presente
aceitamos, mesmo que pobre: aquela boca
gasta pelo uso, mas tão doce ainda,
o fogo antigo e leve da carne,
os velhos livros, os amigos justos,
um poema medíocre mas nosso,
e o costume estranho
de sermos enfim felizes na sombra.

É um destino obscuro o das tardes,
mas também belo,
e breve como a passagem dos homens.

(Trad. A.M.)

.

16.2.17

Alberto de Lacerda (Os pássaros)





Os pássaros
estabelecem diálogos
que ninguém entende
felizmente

Como tudo o que é puro
de raiz
o que os pássaros dizem
não se traduz


ALBERTO DE LACERDA
Átrio
IN-CM (1997)


.

18.8.16

Alberto de Lacerda (Todos atraiçoamos)





Todos
atraiçoamos
a verdade
todos os dias

A verdade não existe

Nós
muito menos




ALBERTO DE LACERDA
Oferenda II
IN-CM (1994)

.

9.5.16

Alberto de Lacerda (A beleza é um oceano)





A beleza é um oceano
onde o olhar se perde
e regressa
transfigurado



Alberto de Lacerda

.

15.12.15

Alberto de Lacerda (Êxtase)





ÊXTASE



A-tarde-desliza-barco-branco
pavana súbita

O coração pára

O sol espera

Margens líquidas

O tempo dança muito lentamente



ALBERTO DE LACERDA
Oferenda II
IN-CM (1994)

.

30.8.15

Alberto de Lacerda (Todos atraiçoamos)





Todos
atraiçoamos
a verdade
todos os dias

A verdade não existe

Nós
muito menos



ALBERTO DE LACERDA
Oferenda II
IN-CM (1994)

.

13.6.15

Alberto de Lacerda (Às vezes as lágrimas)





Às vezes as lágrimas são praias
inundadas de luz
mãos abertas morenas
aceitando



ALBERTO DE LACERDA
Oferenda II
IN-CM (1994)


.

13.2.15

Alberto de Lacerda (Sobre o silêncio)





Sobre o silêncio incide
o mais severo encanto



ALBERTO DE LACERDA
Oferenda II
IN-CM (1994)

.

28.8.14

Alberto de Lacerda (Stratford-upon-Avon)





STRATFORD-UPON-AVON



Madeira e pedra e água
cisnes
tudo morre
em noites sucessivas e renasce
em cada dia efémero

Só os deuses humanos interiores
a chama passageira
só as palavras irmãs do que é mais frágil
renascem

Só os que trazem em si a eternidade
sabem merecer
a festa mortal de cada instante


ALBERTO DE LACERDA
Oferenda II
IN-CM (1994)

.

20.3.14

19.11.13

Alberto de Lacerda (Princípio de Novembro)





PRINCÍPIO DE NOVEMBRO



Luz estranha

Durante um momento interminável
nenhuma folha cai

O olhar treme

A cor é uma vertigem


ALBERTO DE LACERDA
Átrio
IN-CM (1997)

.

6.5.13

Alberto de Lacerda (A caminhada mais longa)





A caminhada mais longa
É a despedida
Muito breve que seja

A caminhada mais longa
É a despedida

Partiste

Ficou tudo
Por dizer

Quase tudo

Partiste

Como é possível
Interromper
A eternidade?


Alberto de Lacerda

.



23.11.12

Alberto de Lacerda (Longe)





Longe
Hei-de acabar por me sentir longe
Longe de tudo

Hei-de pertencer cada vez mais
Ao horizonte

Hei-de ficar ao longe

Barco
Conscientemente afastado
De si próprio


Alberto de Lacerda

.

17.6.12

Alberto de Lacerda (Silêncio)






Silêncio
deitado ao comprido
no horizonte infinita-
mente
desdobrado




ALBERTO DE LACERDA
Átrio
IN-CM (1997)


.

8.2.12

Alberto de Lacerda (A manhã é um leque)






A manhã é um leque
branco
desdobrado até
aos quatro pontos cardiais


Sol branco
imperador fraterno
do azul muito ténue




ALBERTO DE LACERDA
Átrio
IN-CM (1997)

.

10.12.11

Alberto de Lacerda (Vento)






Vento
propício
            (vela)
                      O barco
seguindo
seu curso natural



Moventes
montanhas e vales
do amor


ALBERTO DE LACERDA
Átrio
IN-CM (1997)

.

29.10.11

Alberto de Lacerda (Os poemas)






Os poemas
envelhecem


Alguns
(muito poucos)
vão deitando raízes
desconhecidas


No ramo mais alto
o bafo dos deuses



ALBERTO DE LACERDA
Átrio
IN-CM (1997)

.

2.10.11

Alberto de Lacerda (Uma luz diáfana)






Uma luz diáfana lenta vai caindo
No arco que a esperança construiu de novo




Alberto de Lacerda


.

17.9.11

Alberto de Lacerda (A esperança é um barco)






A esperança é um barco

A luz
é uma viagem




ALBERTO DE LACERDA
Oferenda II
IN-CM (1994)




>>  Casa Pessoa (32p) / Infopedia


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