Mostrar mensagens com a etiqueta Camilo Castelo Branco. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Camilo Castelo Branco. Mostrar todas as mensagens

26.11.17

Camilo Castelo Branco (Mortes colaterais)





E os pretorianos de Costa Cabral a fugir sempre, nas azas do pavor, as mochilas a ringir com attritos ásperos do correame, e a trapejar nas costas contra as patronas. Eis senão quando, outra vez lhes surge pela frente o padre, á entrada de Fafe, com um só homem á sua beira, e de novo lhes proclama que se rendam. 

Como não lhe respondessem, o padre esfogueteia-os com a pistola, e os janisaros não lhe atiram, por já estarem por experiência escarmentados e desconfiarem que o padre ou é santo ou incombustivel; e além d'isso não tinham cartuxame para descargas meramente theatraes.

Depois, no transito de duas léguas entre Fafe e Guimarães, um tiroteio fulminantissimo. As massas juncavam os serros, e desenrollavam pelos desfiladeiros n'um grande estrupido de socos ferrados. Um fogo do inferno, uma granizada de balas sibilantes, exterminio ‘à outrance’, em que não morreu um só guerrilha, por que Deus os resguardava, diz o livro; mas como também não faltasse alguma praça, é de fé que Deus se houve entre os dois partidos com uma honrada imparcialidade.

Não aconteceu o mesmo com certas pessoas extranhas ás duas facçoens. Por exemplo, a tropa matou um mendigo, e um lavrador que estava cavando o seu campo. Estes dous nnocentissimos defuntos, a descoberto da protecção divina, é que pagaram as favas. Verdade é que o lavrador assassinado tinha morto, em 1808, em egual dia e hora, um soldado francez da invasão.

Assim reflexiona, com lardo de latim do Génesis, o snr. padre Casimiro Vieira, o generalíssimo de uma guerra fratricida que, poucos mezes depois, ladrilhava com duzentos cadáveres as ruas de Braga. 

Quem varias vezes descarregou a sua pistola, em lucta civil, sobre os seus conterrâneos, entendo eu que, por caridade, devia dar-se de suspeito como juiz na causa determinante da morte do portuguez invadido que matara o francez invasor. De resto, tudo muito bem. (pp. 72-3)


CAMILO CASTELO BRANCO
Maria da Fonte
Porto (1901)

.

16.11.17

Camilo Castelo Branco (Batalhas sem baixas)





Trocavam-se saraivadas de ballas a distancia de tiro de pistola com a pontaria certeira do ódio entre soldados disciplinados e caçadores dos desfiladeiros do Gerez — pois, senhores, não morreu ninguém.

Exemplo : uma vez, padre Casimiro, com dous homens, sahe á frente da tropa, e, ao alcance de um tiro de caça, exclama : — «Rapazes, aqui está o padre Casimiro, commandante do povo de Vieira, a quem procurastes para prender. Ou vos rendeis, ou nenhum de vós fica hoje vivo ! »

A soldadesca, que estava deitada, levanta-se, mas não se rende. O padre aponta-lhe e desfecha uma pistola de cavallaria. A tropa responde-lhe com uma descarga cerrada. O padre carrega de novo e atira. A tropa carrega e desfecha outra descarga. Pois das 340 balas não houve uma que acertasse no padre nem raspasse pelos dois guerrilhas invulneráveis. 

Diria Boileau: ‘Le vrai peut quelquefois n’être pas vraisemblable’.
(p. 65)


CAMILO CASTELO BRANCO
Maria da Fonte
Porto (1901)

.

6.11.17

Camilo Castelo Branco (A devassidão das minhotas)





A devassidão das minhotas, alternada com intermittencias de beaterio quando os missionários urram, tem sido para mim um objectivo de contemplaçoens de que não pude ainda attingir o gráo de alienação mental a que pode levar a estupidez.

Os solteiros acceitam, sem biocos de honra, as mulheres infamadas que lhes estimulam o cio ou o interesse. 

O brazileiro, o argentario que fechou a loja nas extinctas congostas, deshonra e dota raparigas com uma quantia sabida; de modo que os candidatos á dotada disputam a páo de choupa o gôso legitimo da moça habilitada para noiva. (p.51)


CAMILO CASTELO BRANCO
Maria da Fonte
Porto (1901)

.

22.10.17

Camilo Castelo Branco (Maria da Fonte)





Foi a Maria da Fonte a personificação fantástica de uma colectividade de amazonas de tamancos, ou realmente existiu, em corpo e fouce roçadoura, uma virago revolucionaria com aquelle nome e appellido?


É o que vamos esmiuçar. (p. 17)


CAMILO CASTELO BRANCO
Maria da Fonte
Porto (1901)

.

2.8.13

Camilo Castelo Branco (A Brasileira de Prazins - Voc.)





afazer (habituar/ No quinteiro... se afez a reparar na Marta de Prazins)
alcouce (bordel/ identificaram-se numa intimidade de tasca e de...)
alicantina (mentira, falsidade/ cheia de lástimas mendigas, mentirosas... muitas alicantinas)
alma (de cântaro/lembra-se, seu alma de cântaro?)
almofaçar (almofaçando as barbas conspurcadas do vómito/ limpar com almofaça, escova)
apercebido (preparado, munido, prevenido/ andava... com todos os utensílios infestos ao diabo)
arremangar (arregaçar as mangas/ dois homens de tamancos, arremangados, com os peitos cabeludos)
atrigar (afligir, inquietar-se/aí vou, aí vou, não se atrigue)
azevieira (atrevida, esperta/ ela é que me parece mais levantada, mais...)
aziumado (azedo/ revessava ao caminho público golfos aziumados de vinhaça)
bamboar (bambolear/ bamboava-se hilariante na cadeira)
banabóia (pateta, idiota/ - Valha-te o diabo, banabóia!)
banzeiro (que se agita brandamentegaivotas que se espicaçam sobre o mar...)
barbante (as coroas, penduradas em barbantes/ fios, de Brabant)
bataréu (arcobotante, calço, muro de suporte/ dissera que o... dum cunhal estava torto)
bute (botim, calçado/ nos pés os butes do amo)
caipira (brega, provinciana/ as duas Bragas, a fiel, a..., pletórica de fidalgos)
cambalacho (acordo, combinação/ você quer fazer um...?)
carepa (crosta/ limparam-se da carepa)
carranquear (fazer carranca, má cara/ continuou o exorcista, carranqueando cada vez mais)
catixa (caticha?/ Tarrenego! ... Cruzes, canhoto!/ interj. nojo)
cevo (isca, engodo, pasto, alimento/ e a rejeitasse ao... sensual do marido)
charlateira (dragona de metal dourado/ ganhara as charlateiras de general e uma coroa de conde)
cherinola (chirinola, léria, armadilha/ bem sabia que os exorcismos eram cherinolas)
colmilho (dente canino, presa/ molossos de colmilhos ensanguentados)
combro (cômoro, socalco, canteiro/ inclinaram-no sobre um... de mato molhado)
corcovo (salto de cavalo, pinote/ ladeando a besta em corcovos chibantes)
couceira (couce, soleira/ a porta rangeu ligeiramente na... desengonçada)
cróia (mulher ordinária/ a pagar vinho ao Alho mais à... da filha)
desatremar (errar, fora de termos/ falava pouco, e não desatremava)
diatese (diátese, disposição para contrair doenças afins/ predomina a... da imbecilidade)
duraque (sarja forte, usada em sapatos de senhora/ sapatos de... sem tacões)
entarroada (com tarro/ um arrastado pigarro de goelas...)
escabujar (voltara-se a ver a velha.../ estrebuchar)
escandecência (vivacidade, ódio intenso, sanha/ imitações das... eróticas da Sulamita)
escandecida (assanhada/ com a cara... numa congestão de júbilo)
esmagriçado (teu tio está velho e...)
espipada (bojuda como pipa/ calça branca... com joelheiras)
espostejar (fazer em postas/ foi... os miguelistas a Braga)
estiar (parar, de chover/ enquanto não estiava a chuva)
estridor (ruído agudo, estrondo/ o rodar das portas que se escancaravam com...)
estrupido (ruído, barulho/ era um pigarro...com tamanho estrupido que parecia)
fachoqueiro (facho/ arranja aí um... de palha)
faiante (farsola, impostor/ Este homem não é D.Miguel, é um...)
ferragoulo (farragoulo, gabão de mangas curtas/ uns ferragoulos de mescla à laia de capote de soldado)
figínia* (na integridade da sua missão...)
foliculário (escriba, plumitivo reles/ foliculários que desacreditam as virtudes do álcool)
frouxel (penugem macia, almofada de/ um corpo nu em frouxéis de arminhos)
gamenho (fedelho, tunante/ o que decerto praticaria um... decidido a fingir-se D.Miguel)
gargajola (rapaznespigado/ o... esperava ser amparado pelo outro)
gigo (tipo de cesto/ tinha um... de livros velhos)
golfo (golfada/ revessava ao caminho público golfos aziumados de vinhaça)
gorilha* (criança, pequeno, menino/ um atavismo que me retrocede aos meus saudosos tempos de...)
graieiro (grão/ que meu pai não tivesse algum... na asa)
imperlar (emperlar, dar aparência de pérola/ sem deixar bonina em que a aurora imperle uma lágrima)
impeticar (implicar/ chegara-lhe aos ouvidos que os estudantes... lhe impeticavam com a filha)
improperar (verberar, censurar/ improperou-lhe severamente o seu delito
incendido (encendido, acendido/ olhar vesgo... com os lampejos da candeia)
infesto (nocivo, pernicioso/ andava apercebido com todos os utensílios... ao diabo)
intanguido (entanguido, encolhido, enfezado/ nos outros filhos intanguidos, escrufulosos)
jolda (bando, choldra, rancho/ o pedreiro chamou os bravos da sua..)
justar (contratar, combinar/ você justou comigo uma porca por quatro moedas)
leicenço (furúnculo/ a respeito das sezões e dos leicenços acreditava mais na lanceta)
lurado (furado, com luras/ o pavimento lurado do caruncho)
malhal (calço, madeiro/ as pipas, em vez de malhais de pau, assentavam sobre missais)
não (... que ele, o mundo sempre dá voltas/ expressão de concordância)
nisa* (foi buscar a espada, cingiu a banda sobre a nisa de saragoça)
obra (cerca/ obra de dez moedas, mais pinto menos pinto)
obreia (pediu... ao Nunes/ massa farinha, para hóstias ou colar papel)
ourela (margem, beira/abeirando-se à... do rio)
ourelo (em mangas de camisa, meias e ourelos achinelados/ ourela do pano
pacho (penso/ que lhe compunha o... na ferida)
panria (pânria, indolência/ o escocês continuava na sua... sem se importar da guerra)
pantalonas (calças/ enfiando as pernas sujas nas...)
paparreta ( pretenciosa/ dic.>s.m./ com vaidade...)
piranga (pelintra/ andava por lá miserável, um...)
piteireiro (bêbedo/outros piteireiros, do mesmo credo)
poder (muitos/ caía aí o poder do mundo de Braga e Guimarães)
pontilhosa (de pontinhos, pontos nos is/ D.Teresa, muito... em não admitir equívocos)
porvindouro (que está para vir/ agradeci o... filho da Velhaca)
pronto (num.../ num repente/ entras logo, imediatamente, num...)
puridade (perguntou-lhe, à puridade, se ele negava os milagres/ em segredo)
quer não (- contrariava uma lavradeira - foi má mulher/ expressa discordância)
quinchoso (quintal/ topa a gente por esses... esses marotos)
resbunar (rebusnar, resmungar/ uma gata maltesa que lhe resbunava no regaço)
restrugir (rugir, retumbar/num... de tempestade)
revelim (infantas cristãs... nos revelins dos castelos roqueiros/ obra externa que defende ponte, muralha, etc)
rodilhão (roldão/ numa arremetida impetuosamente esbandalhada, de...)
saburrento (de saburra, sarro/ depunha a hóstia nas línguas saburrentas das beatas)
sacatrapo (pano de sacar/ enroscou o... na ponta da vareta de ferro)
seresino* (os seresinos faziam excursões e batiam os realistas)
seresma (bruxa, mulher preguiçosa/ rogando pragas à... de Prazins)
sevamente* (engoliam... como quem devora... um Deus)
silabada (erro de pronúncia ou no acento da sílaba/ davam poucas... no Missal)
sobpor (óbvio-pôr sob/ sobpondo ao reconhecimento os escrúpulos de espião)
solau (romance rimado/ fazia solaus em que havia abencerragens e infantas cristãs)
songa (songamonga, sonso, dissimulado/ a songuinha que não olha direita pra um home)
superciliosa (carrancuda, séria/ pouco... em pontos de honra)
tosquenejar (toscanejar, cabecear, dormitar/ as mulheres aconchegavam-se para... o seu sono da manhã)
trinque (nova, esmerada/ vestia casaca no trinque muito lustrosa)
vágado (tontura, vertigem, desmaio/ disse que tinha vágados e que se queria ir deitar)
veleiro (veloz, rápido, despachado/ os mais veleiros levavam-no esfalfado)
zanagra (zanaga/o, vesgo, zarolho/ o de Rio Caldo, que é..., está cónego)
_____________________
(*) N/ encontrado nos dicionários

.

27.7.13

Camilo Castelo Branco (O Veríssimo)





O Veríssimo saiu de Alvações, onde não possuía palmo de terra; e, como tinha boa forma de letra, ofereceu-se para amanuense a um tabelião de Alijó.

Ganhava três tostões por dia e jantar.

Como era boa figura, a mulher do tabelião, uma trigueira de má casta, entrou a compará-lo com o marido, que tinha os dentes muito lurados e os olhos tortos.

Mas o tabelião viu as coisas pelo direito, e pôs o amanuense na rua, e a mulher em lençóis de vinho, dizia-se.


- CAMILO CASTELO BRANCO, A Brasileira de Prazins, X.


.

21.7.13

Camilo Castelo Branco (O morgado de Barrimau)





O Zeferino era afilhado do morgado de Barrimau, um major de cavalaria, convencionado em Évora Monte, miguelista intransigente, mas cordato.

Vivia no seu escalavrado solar com um irmão egresso beneditino, Frei Gervásio, muito cevado e inerte, que continuava em casa a sua missão monástica.

Era um contemplativo.

Não lia senão no livro da Natureza.

Se não dormia, estrumava o seu vegetalismo com muitos adubos crassos de toucinho e capoeira, com um grande farfalhar de mastigação, porque dispunha de dentadura insuficiente.

Tinha outro sinal ruidoso de vida – era um pigarro de catarral crónica, arrancado dos gorgomilos com tamanho estrupido que parecia ao longe o grito rouco de um estrangulado, no 5.º acto de um drama de costumes.

A velha criada da cozinha, muito flatulenta, nunca pudera afazer-se às explosões daquela garganta escabrosa de mucos empedrados.

Quando o grasnido aspérrimo de pavão lhe feria os ouvidos, reboando nos côncavos tectos dos salões, a mulher estremecia e raras vezes deixava de resmungar:

– Que medo! credo! diabos leve a esgana do home. Deus me perdoe!



- CAMILO CASTELO BRANCO, A Brasileira de Prazins, III.

.

9.7.13

Camilo Castelo Branco (O cérebro do Simeão)





O cérebro do Simeão, se era refractário aos golpes da dignidade, não era mais sensível às comoções das pauladas.

Duas vezes feliz quanto à cabeça: nem honra nem predisposições inflamatórias.

Cicatrizou a ferida; começou a comer galinhas com a fome de um canibal e com o prazer carnívoro de uma raposa.


- CAMILO CASTELO BRANCO, A Brasileira de Prazins, XVI.

.



29.6.13

Camilo Castelo Branco (Negociara a filha)





Negociara a filha com o Zeferino como tinha negociado com o Tarraxa a vaca amarela na feira dos 13.

Eis um caso esquisito de aldeia que pela torpeza parece acontecido numa cidade culta.

Conversou-se este diálogo debaixo de um castanheiro frondoso, com um pavilhão de folhagem gorjeado de pássaros, com uns tons de luz esverdeada, na doce placidez crepuscular de uma tarde de Agosto, entre dois homens de tamancos, arremangados, com os peitos cabeludos a negrejar de entre os peitilhos da camisa surrada de suor e poeira, brutos no gesto e na frase.



- CAMILO CASTELO BRANCO, A Brasileira de Prazins, I.

.

17.6.13

Camilo Castelo Branco (D. Andresa)





D. Andresa era senhora ajuizada, muito séria, educada no convento de Vairão; tinha missa em casa, e escrevia cartas a diversas freiras, pondo sempre no alto do papel: Jesus, Maria, José.

Andava nos trinta e cinco anos, muito linfática e um grande horror aos vícios da carne.

O mano Adolfo conhecia-lhe a índole.

Não podia esperar dela aplauso, nem sequer condescendência, e muito menos auxílio à sua afeição a mulher casada.

Andresa concordava com o irmão na formosura de Honorata; mas observava com um risinho malicioso que o não chamara para saber se a sua amiga era bonita ou feia; mas sim para aconselhá-la e dirigi-la na separação do marido por justiça.


- CAMILO CASTELO BRANCO, A Brasileira de Prazins, IV.

.

8.6.13

Camilo Castelo Branco (A tia Águeda)





A tia Águeda, a viúva do major, tinha pouco.

Desde 1828 até 1833 gastara seis mil cruzados em festejar os natalícios e as vitórias do Sr. D. Miguel com banquetes e iluminações que duravam três noites, num delírio de bombas reais e foguetes de lágrimas, com adega franca.

Mandava cantar Te-Deum na igreja de Alvações assim que no pais vinhateiro soava a notícia de alguma vitória do exército fiel.

Ora, os realistas, a contar por cada Te-Deum de Alvações, entravam no Porto às quinzenas para saírem por uma barreira e voltarem logo pela outra.

D. Águeda começava a desconfiar que o Deus de Afonso Henriques voltara a casaca.



- CAMILO CASTELO BRANCO, A Brasileira de Prazins, X.

.



5.6.13

Camilo Castelo Branco (Principiava a chuviscar)





Principiava a chuviscar.

O abade ofereceu a sua casa ao forasteiro, enquanto não estiava a chuva.

Veríssimo aceitou por momentos, visto que não se prevenira com guarda-chuva – um traste que detestava.

Os aguaceiros repetiram-se com pequenas intercadências, varejados pelo sul; por fim, as cristas da serrania empardeceram, as nuvens rolavam pelos declives como escarcéus a despenharem-se, fechou-se o horizonte sem uma nesga, e a chuva não parava.

O abade não permitiu que o hóspede saísse com tal tempo e já perto da noite.


- CAMILO CASTELO BRANCO, A Brasileira de Prazins, XI.

.

30.5.13

Camilo Castelo Branco (Conhecia-lhe o leito)





O oratoriano Manuel Bernardes, como é notório, escreveu um livro edificante, muito piedoso, chamado Armas da Castidade.

O místico filho de S. Filipe Néri, com duas palavras sãs, de um realismo seráfico, cabalmente explicou a situação de outro José Dias a respeito de outra Marta, conhecia-lhe o leito, dizia ele.

É o mais que se pode dizer sem escandalizar ninguém.

Conhecia-lhe o leito.



- CAMILO CASTELO BRANCO, A Brasileira de Prazins, XIII.

.

24.5.13

Camilo Castelo Branco (A origem da Patuleia)





O Zeferino das Lamelas, às primeiras comoções do vulcão popular, nos arredores de Guimarães, preparou- se; e assim que ouviu repicar a rebate em Ronfe, cheio de ciúmes como o sineiro de Notre Dame, agarrou-se à corda do sino, reuniu no adro os jornaleiros e vadios de três freguesias, e pegou a dar morras aos Cabrais com aplauso universal.

Depois, explicou o que era o cadastro, confundindo este expediente estatístico com "canastro": – que os Cabrais e os seus empregados andavam a tomar as terras a rol para empenharem Portugal à Inglaterra; que esses róis estavam nos cartórios das administrações e em casa dos regedores; que era preciso queimar as "papeletas" e matar os cabralistas.


- CAMILO CASTELO BRANCO, A Brasileira de Prazins, XIV.

.


21.5.13

Camilo Castelo Branco (Os padres do Minho)





Os padres do Minho, naquele tempo, não puxavam quase nada pelas memórias; ordenavam-se tão alheios às faculdades da alma que, sem memória nem entendimento, e às vezes sem vontade, eram sofríveis sacerdotes, davam poucas silabadas no Missal e liam os salmos do Breviário com uma grande incerteza do que queria dizer o penitente David.


- CAMILO CASTELO BRANCO, A Brasileira de Prazins, I.

.

15.5.13

Camilo Castelo Branco (A exposição do reitor)





Como a exposição do reitor saiu muito enfeitada de jóias sentimentais – detestável espécie arqueológica que ninguém tolera – farei quanto em mim couber por, uma a uma, ir mondando e refugando as flores de modo que as cenas dramáticas se exponham áridas, bravias como serro de montanha por onde lavrou incêndio, sem deixar bonina, sequer folhinha de giesta em que a aurora imperle uma lágrima.

A Aurora a chorar! de que tempo isto é!

Como a gente, sem querer, mostra numa ideia a sua certidão de idade e uma relíquia testemunhal da idade de pedra!

Oh! os bigodes tingem-se; mas as frases – madeixas do espírito – são refractárias ao rejuvenescimento dos vernizes.


- CAMILO CASTELO BRANCO, A Brasileira de Prazins (Introdução).

.

9.5.13

Camilo Castelo Branco (Moléstias da velhice)






Entre as diversas moléstias significativas da minha velhice, o amor aos livros antigos – a mais dispendiosa – leva-me o dinheiro que me sobra da botica, onde os outros achaques me obrigam a fazer grandes orgias de pílulas e tisanas.

E quando cuido que me curo com as drogas e me ilustro com os arcaísmos, arruino o estômago e enferrujo o cérebro numa caturrice académica.

Constou-me aqui há dias que a Sr.ª Joaquina de Vilalva tinha um gigo de livros velhos entre duas pipas na adega, e que as pipas, em vez de malhais de pau, assentavam sobre missais.

O meu informador denomina missais todos os livros grandes; aos pequenos chama cartilhas.

Mandei perguntar à Sr.ª Joaquina se dava licença que eu visse os livros.

Não só mos deixou ver, mas até mos deu todos – que escolhesse, que levasse.



- CAMILO CASTELO BRANCO, A Brasileira de Prazins (Introdução).

.

25.5.12

Camilo Castelo Branco (A minha galante costureira)






Nada de consequências intempestivas!

Eu não autorizo ninguém a lamentar primeiro que eu a minha galante costureira da Rua dos Arménios.

É tão linda!

Mal diria João Antunes da Mota, por alcunha o Kágado, quarenta e cinco anos antes, que aquele saguão infecto deveria ser habitado pela cara mais fragrante, mais engraçada, mais travessa, mais inteligente que eu tenho na minha galeria de mulheres, cuja imortalidade está a meu cargo!

O capítulo seguinte pode lê-lo toda a gente.




- CAMILO CASTELO BRANCO, Onde está a felicidade?, VI.

.

16.5.12

Camilo Castelo Branco (O que fez ao dinheiro)






O leitor não quer que lhe moralizem os sucessos, porque, bendito seja o Senhor, não lhe falta bom juízo próprio para moralizá-los.

Aqui o que precisa saber-se, e quanto antes, é o que fez Augusta daquele dinheiro e daqueles brilhantes.

A curiosidade é justa, até porque eu, distinto mexeriqueiro destas trapalhadas humanas, a primeira coisa que perguntei quando me contaram esta história foi justamente o que a moça fez ao dinheiro,




- CAMILO CASTELO BRANCO, Onde está a felicidade?, XXVII.

.

10.5.12

Camilo Castelo Branco (O desastre da ponte das barcas)





(Morrera um grande maroto...)





A enxurrada chegara à ponte.

Todos sabem como aí se fizeram três mil cadáveres.

Os alçapões estavam abertos, por descuido ou por traição.

A multidão entulhou as barcas: o peso quebrou as entenas estrondosamente; as fauces do abismo engoliram massas com pactas, jorros de centenares de corpos, famílias vinculadas no derradeiro abraço.

Se da aglomeração de gritos pôde ouvir-se distinto um rugido inimitável, esse rugido foi de João Antunes da Mota.

Morrera um grande maroto; mas a espécie não se perdeu.



- CAMILO CASTELO BRANCO, Onde está a felicidade?, prólogo.



.