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14.10.15

José Gomes Ferreira (Devia morrer-se de outra maneira)





Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: «Fulano de tal
comunica a V. Ex.ª que vai transformar-se em nuvem
hoje às 9 horas. Traje de passeio».
E então, solenemente, com passos de reter tempo,
fatos escuros, olhos de lua de cerimónia, viríamos
todos assistir à despedida.
Apertos de mão quentes. Ternura de calafrio.
«Adeus! Adeus!»
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes... (primeiro, os olhos...
em seguida, os lábios... depois, os cabelos...) a carne,
em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo... tão leve... tão subtil... tão pólen...
como aquela nuvem além (vêem?) - nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis...


José Gomes Ferreira

.

6.9.12

José Gomes Ferreira (Que pena não ser eu)






Que pena não ser eu um dos primeiros
homens a inventar as palavras,
para criar a verdade!


Encontrei-as já todas feitas
umas doces, outras amargas,
estas rudes, aquelas imperfeitas,
acasos de som
- mar de espuma de gaivotas e vagas.


Com este cheiro tão bom
a realidade.



José Gomes Ferreira


.

26.7.12

José Gomes Ferreira (Um dia saberás)





Um dia saberás que nasceste como eu
com a solidão nos olhos
atados na lua
a gritar no pesadelo de uma ilha.


E a ver a morte crescer lentamente
no teu corpo
- viva.



José Gomes Ferreira


.

19.3.12

José Gomes Ferreira (Noite)






Noite
- vela de sombra a derreter-se
na lividez
da manhã de treva clara.


Mar.


Restos de naufrágio
com olhos e nádegas,
seios e pelos
que o vento sacode
na areia...


A inocência
às vezes parece-se com a morte.


Sonâmbula e feia.




José Gomes Ferreira


.

27.7.11

José Gomes Ferreira (Arte poética)






(Arte poética)




Liberdade
é também vontade.

Benditas roseiras
que em vez de rosas
dão nuvens e bandeiras.




José Gomes Ferreira

.

11.6.11

José Gomes Ferreira (Disseram-lhes)







Disseram-lhes
que estavam vivos
por disciplina de cemitério.
E todos acreditaram
já com os pés em ângulos rectos. 


Mas vivos que são?
Mortos incompletos.



José Gomes Ferreira


.

3.5.11

José Gomes Ferreira (Pobres, gritai comigo)






Pobres, gritai comigo:

Abaixo o D. Quixote
com cabeça de nuvens
e espada de papelão!
- E viva o Chicote
no silêncio da nossa mão!

Pobres, gritai comigo:

Abaixo o D. Quixote
que só nos emperra
de neblina!
- E viva o Archote
que incendeia a terra,
mas ilumina!

Pobres, gritai comigo:

Abaixo o cavaleiro
da lança de soluços
e bola de sabão
no elmo de barbeiro!
- E vivam os nossos Pulsos
que, num repelão,
hão-de rasgar o nevoeiro!




José Gomes Ferreira

.

8.4.11

José Gomes Ferreira (Dantes)





Dantes,
de punhos cerrados,
calor de lágrimas de frio,
gritava com a sensação
de nascer das palavras.


Agora morro nelas
 - lume podre
na solidão das bocas sem saliva
dos cadáveres.




José Gomes Ferreira


.

17.3.11

José Gomes Ferreira (Finjo que não vejo)

                               




(Finjo que não vejo as mulheres que
passam, mas vejo)



De súbito, o diabinho que me dançava nos olhos,
mal viu a menina atravessar a rua,
saltou num ímpeto de besouro
e despiu-a toda...


E a Que-Sempre-Tanto-Se-Recata
ficou nua,
sonâmbulamente nua,
com um seio de ouro
e outro de prata.



José Gomes Ferreira

.

24.2.11

José Gomes Ferreira (Anti-Pessoa)






(Anti-Pessoa.)




Volta às flores, poeta,
volta à alegria dos punhais
caídos das rosas
e dos gritos vãos.


E aquece o sol
com as tuas mãos.




José Gomes Ferreira

.

1.2.11

José Gomes Ferreira (Que temos nós com a primavera?)






Que temos nós com a primavera?


Não nos sai dos olhos
nem da boca,
mas da terra
que não é nossa.


Primavera para quê?
Malmequeres para quê?


Para a aceitação com perfumes
deste silêncio de fossa?



José Gomes Ferreira


.

1.12.10

José Gomes Ferreira (A poesia tem pés de terra)






A Poesia tem pés de terra.


Quando a atiramos para o céu
fica só e transida
no meio das estrelas
- a chorar com saudades dos homens
e da morte.



José Gomes Ferreira


.

13.11.10

José Gomes Ferreira (Na morte de Manuela Porto)






(Na morte de Manuela Porto)*




Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos
do mesmo sol a fingir de novo todas as manhãs,
convocaríamos os amigos mais íntimos com um cartão
de convite para o ritual do Grande Desfazer:

“Fulano de tal comunica ao mundo que vai transformar-se
em nuvem hoje, às 9 horas. Traje de passeio”.

E então, solenemente, com passos de reter tempo,
fatos escuros, olhos de lua de cerimónia,
viríamos todos assistir à despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio. “Adeus! Adeus!”
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes...
(primeiro, os olhos... em seguida , os lábios... depois os cabelos...)
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se em fumo...
tão leve... tão subtil... tão pólen...
como aquela nuvem além (vêem?)
- nesta tarde de outono ainda tocada por um vento
de lábios azuis...



José Gomes Ferreira



(*)  Infopedia

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24.10.10

José Gomes Ferreira (Ó pastor que choras)





Ó pastor que choras 

o teu rebanho onde está? 

Deita as mágoas fora, 

carneiros é o que mais há 



uns de finos modos 

outros vis por desprazer... 

Mas carneiros todos 

com carne de obedecer. 



Quem te pôs na orelha 

essas cerejas, pastor? 

São de cor vermelha, 

vai pintá-las de outra cor. 



Vai pintar os frutos, 

as amoras, os rosais... 

Vai pintar de luto 

as papoilas dos trigais.



José Gomes Ferreira

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14.9.10

José Gomes Ferreira (Viver sempre também cansa)






VIVER SEMPRE TAMBÉM CANSA!




Viver sempre também cansa!


O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinza, negro, quase-verde...
Mas nunca tem a cor inesperada.


O mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.


As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.


Tudo é igual, mecânico e exacto.


Ainda por cima, os homens são os homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.


E há bairros miseráveis, sempre os mesmos,
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe, automóveis de corrida...


E obrigam-me a viver até à Morte!


Pois não era mais humano
morrer por um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois,
achando tudo mais novo?


Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
morrer em cima de um divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas por mim, meu amor do Norte.


Quando viessem perguntar por mim,
havias de dizer com o teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
"Matou-se esta manhã.
Agora não o vou ressuscitar
por uma bagatela."


E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo...



José Gomes Ferreira




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