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27.6.22

João Cabral de Melo Neto (Contam de Clarice)


 


CONTAM DE CLARICE LISPECTOR

 

Um dia, Clarice Lispector
intercambiava com amigos
dez mil anedotas de morte,
e do que tem de sério e circo.

Nisso, chegam outros amigos,
vindos do último futebol,
comentando o jogo, recontando-o,
refazendo-o, de gol a gol.

Quando o futebol esmorece,
abre a boca um silêncio enorme
e ouve-se a voz de Clarice:
Vamos voltar a falar na morte?


João Cabral de Melo Neto

 .

8.8.21

João Cabral de Melo Neto (Dúvidas apócrifas)




DÚVIDAS APÓCRIFAS DE MARIANNE MOORE

 

Sempre evitei falar de mim,
falar-me. Quis falar de coisas.
Mas na seleção dessas coisas
não haverá um falar de mim?

Não haverá nesse pudor
de falar-me uma confissão,
uma indireta confissão,
pelo avesso, e sempre impudor?

A coisa de que se falar
até onde está pura ou impura?
Ou sempre se impõe, mesmo impura-
mente, a quem dela quer falar?

Como saber, se há tanta coisa
de que falar ou não falar?
E se o evitá-la, o não falar,
é forma de falar da coisa?

 

João Cabral de Melo Neto

[Otra iglesia]

 .

9.2.19

João Cabral de Melo Neto (Tecendo a manhã)





TECENDO A MANHÃ



Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.
E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.


João Cabral de Melo Neto

[Trianarts]



29.10.13

João Cabral de Melo Neto (Retrato de poeta)





RETRATO DE POETA



O poeta de que contou Burgess,
que só escrevia na latrina,
quando sua obra lhe saía
por debaixo como por cima,
volta sempre à lembrança
quando em frente à poesia
meditabunda que
se quer filosofia,
mas que sem a coragem e o rigor
de ser uma ou outra, joga e hesita,
ou não hesita e apenas joga
com o fácil, como vigarista.
Pois tal meditabúndia
certo há de ser escrita
a partir de latrinas
e diarréias propícias.

João Cabral de Melo Neto


[Luz & sombra]

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27.11.10

João Cabral de Melo Neto (O sertanejo falando)






O SERTANEJO FALANDO





A fala a nível do sertanejo engana:
as palavras dele vêm, como rebuçadas
(palavras confeito, pílula), na glace
de uma entonação lisa, de adocicada.
Enquanto que sob ela, dura e endurece
o caroço de pedra, a amêndoa pétrea,
dessa árvore pedrenta (o sertanejo)
incapaz de não se expressar em pedra.



Daí porque o sertanejo fala pouco:
as palavras de pedra ulceram a boca
e no idioma pedra se fala doloroso;
o natural desse idioma fala à força.
Daí também porque ele fala devagar:
tem de pegar as palavras com cuidado,
confeitá-la na língua, rebuçá-las;
pois toma tempo todo esse trabalho.




João Cabral de Melo Neto


.

18.10.10

João Cabral de Melo Neto (O poema)






O POEMA




A tinta e a lápis
Escrevem-se todos
Os versos do mundo.


Que monstros existem
Nadando no poço
Negro e fecundo?


Que outros deslizam
Largando o carvão
De seus ossos?


Como o ser vivo
Que é um verso,
Um organismo


Com sangue e sopro,
Pode brotar
De germes mortos?


   *


O papel nem sempre
É branco como
A primeira manhã.


É muitas vezes
O pardo e pobre
Papel de embrulho;


É de outras vezes
De carta aérea,
Leve de nuvem.


Mas é no papel,
No branco asséptico,
Que o verso rebenta.


Como um ser vivo
Pode brotar
De um chão mineral?




JOÃO CABRAL DE MELO NETO
O engenheiro
(1945)


.

10.9.10

João Cabral de Melo Neto (A mulher sentada)






A MULHER SENTADA




Mulher. Mulher e pombos.
Mulher entre sonhos.
Nuvens nos seus olhos?
Nuvens sob seus cabelos.
(A visita espera na sala;
a notícia, no telefone;
a morte cresce na hora;
a primavera, além da janela).
Mulher sentada. Tranquila
na sala, como se voasse.



João Cabral de Melo Neto



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