Mostrar mensagens com a etiqueta Ana Pérez Cañamares. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Ana Pérez Cañamares. Mostrar todas as mensagens

13.6.18

Ana Pérez Cañamares (Andar sobre as águas)





ANDAR SOBRE AS ÁGUAS



Aquela que eu era afogou-se
no mar
das infinitas possibilidades.

Não me afecta. A vida começou
quando apostei e perdi.

Nesse momento a água retesa-se
e converte-se em caminho.


Ana Pérez Cañamares

(Trad. A.M.)

.

31.5.18

Ana Pérez Cañamares (As poetas)





LAS POETAS



Nosotras no somos malditas
somos desgraciadas
depresivas, putas
suicidas, locas
reprimidas
alcohólicas
ignoradas

Nosotras no somos malditas
- que tiene un matiz heroico, romántico
que rima con rebelde y con elegido

Nosotras no somos malditas
tampoco podremos ser benditas

Nosotras somos la excepción
de la excepción
y todos los adjetivos
se quedan cortos
o pasan de largo


Ana Pérez Cañamares

[Las maneras de recogerse el pelo]




Nós não somos malditas
somos desgraçadas,
depressivas, putas
suicidas, loucas
reprimidas
alcoólicas
ignoradas

Nós não somos malditas
- que tem um matiz heróico, romântico
a rimar com rebelde e com escolhido

Nós não somos malditas
mas tão pouco seremos benditas

Nós somos a excepção
da excepção
e todos os adjectivos
ficam curtos
ou passam de largo


(Trad. A.M.)
.

4.3.18

Ana Pérez Cañamares (Há palavras que se fecham)






Hay palabras que se van cerrando                                         
como bares viejos comprados
para abrir zapaterías.

Palabras que nunca más pronunciaré
con naturalidad. Palabras que
para siempre sólo serán citas.

Nunca viví por dentro la palabra
abuelo. Abuelo era el título de un cuento
escrito en otro idioma.

Madre fue una palabra temida y adorada
un tótem levantado en medio de La Mancha.

Padre era un pasillo en el que nunca
me detuve por mucho tiempo.

Palabras cerradas.
Juguetes de la infancia que ya
no se fabrican.

ANA PÉREZ CAÑAMARES
Las sumas y los restos
(2013)





Há palavras que se vão fechando
como velhos bares comprados
para abrir sapatarias.

Palavras que não pronunciarei jamais
com naturalidade. Palavras que
serão sempre apenas citações.

A palavra avô nunca a vivi
por dentro. Avô era o título de um conto
escrito em outra língua.

Mãe, uma palavra temida e adorada,
um totem erguido a meio da Mancha.

Pai era um corredor onde nunca
me detive por  muito tempo.

Palavras fechadas.
Brinquedos da  infância que
não se fabricam mais.

(Trad. A.M.)

____________________

Tradução duplicada, face a esta outra: Há palavras
Na verdade, duas traduções diferentes, por lapso de atenção, de momentos diferentes, como já aqui tem sucedido tantas vezes.
Mantêm-se ambas, por isso mesmo, apesar de a anterior parecer francamente melhor.


.

4.3.17

Ana Pérez Cañamares (Contrato)





EL CONTRATO



A todo me he entregado
como si fuera a durar.
Con cada persona
cada casa
cada ciudad
firmé un contrato
escrito sobre la piel.

Para decir adiós
he tenido que arrancarme
las cláusulas
a tiras.
Así ha sido
una y otra vez.
Con cada persona
cada casa
cada ciudad.

La letra pequeña
se esconde ya
entre cicatrices.


Ana Pérez Cañamares




A tudo me entreguei
como se fosse para durar.
Com cada pessoa
cada casa
cada cidade
assinei um contrato
escrito sobre a pele.

Para dizer adeus
tive que arrancar
as cláusulas
uma a uma.
Assim sempre
uma vez e outra.
Com cada pessoa
cada casa
cada cidade.

As letras pequenas
mal se vêem
entre as cicatrizes.


(Trad. A.M.)

.

14.8.16

Ana Pérez Cañamares (Há palavras)





Hay palabras que se van cerrando
como bares viejos
para abrir zapaterías.

Palabras que nunca más pronunciaré
con naturalidad. Palabras que
para siempre sólo serán citas.

Nunca viví dentro de la palabra
abuelo. Abuelo era el título de un cuento
escrito en otro idioma.

Madre fue una palabra temida y adorada
un tótem levantado en medio de La Mancha.

Padre un pasillo en el que nunca
me detuve por mucho tiempo.

Palabras cerradas.
Juguetes de la infancia que ya
no se fabrican.



Ana Pérez Cañamares

[Nunca llegan tarde las hadas]





Há palavras que vão encerrando
como antigos bares
para abrirem sapatarias.

Palavras que não mais hei-de pronunciar
com naturalidade. Palavras
que serão para sempre apenas menções.

Nunca vivi dentro da palavra
avô. Avô era o nome de uma história
escrita noutra língua.

Mãe foi uma palavra temida e adorada
um totem erguido no centro de La Mancha.

Pai um corredor em que nunca
me detive por muito tempo.

Palavras encerradas.
Brinquedos de infância que já
não se fabricam.


(Trad. A.M.)

.

29.2.16

Ana Pérez Cañamares (Andar sobre as águas)






ANDAR SOBRE LAS AGUAS



Lo que yo era se ahogó en el mar
de las infinitas posibilidades.

No las extraño. La vida empezó
cuando aposté y perdí.

En ese momento el agua se tensa
y se convierte en camino.


Ana Pérez Cañamares

[Literatura y poesia]




O que eu era afogou-se no mar
das infinitas possibilidades.

Não me importa. A vida começou
quando eu apostei e perdi.

Aí, a água retesa-se
e converte-se em caminho.

(Trad. A.M.)

.

20.12.15

Ana Pérez Cañamares (Etimologia)





ETIMOLOGÍA



Antes de que cremaran
a mi madre, mi hermano
cogió el micrófono
que ningún cura iba a usar
y dijo: "Si una madre
es la verdadera patria,
hoy nos hemos quedado
sin patria y sin madre".
(La etimología no está
siempre de parte
de la verdad.)

Desde entonces he intentado
llevar dignamente el exilio:
vigilando que se mantenga viva
la lengua que hablamos
los expulsados del paraíso.


Ana Pérez Cañamares




Antes de cremarem
minha mãe, meu irmão
pegou no microfone
que nenhum padre ia usar
e disse: “Se uma mãe
é a verdadeira pátria,
hoje nós ficamos
sem pátria e sem mãe”.
(A etimologia nem sempre
está à parte
da verdade).

Desde então tenho tentado
viver o exílio dignamente:
cuidando de manter viva
a língua que nós falamos,
os exilados do paraíso.

(Trad. A.M.)


> Outra versão: Eupassarin (J.Vasques)

.

12.9.15

Ana Pérez Cañamares (Água da chuva)





AGUA DE LLUVIA



Mamá venía cantando por el pasillo a despertarme:
con los ojos aún cerrados yo olía la lluvia.

Mamá se alegraba
por todos las plantas, los huertos y los árboles
que recibían el agua
lejos
muy lejos
de nuestro bloque de diez pisos.

Mamá estaba viendo borbotear la fuente de su pueblo
desbordarse acequias y arroyos
a las viejas echarse el manto
por encima de la cabeza
y las hojas y ramas goteando
murmurando melodías que se colaban
en su casa triste
con muertos y sin radio.

Yo no entendía aquel refrán
que ella murmuraba de vuelta a la cocina:
agua de lluvia no quita riego.

Yo no sabía entonces
que las madres pueden ser
flores sedientas.


Ana Pérez Cañamares




Mamã vinha-me acordar cantando pelo corredor,
eu cheirava a chuva de olhos ainda fechados.

Mamã alegrava-se
pelas plantas, quintais e árvores
que recebiam a água
longe
muito longe
do nosso lote de dez pisos.

Mamã estava a ver borbotar a fonte da sua terra
transbordar regos e arroios
a ver as velhas pôr o xaile
por cima da cabeça
e as folhas e ramos a gotejar
murmurando melodias que se enfiavam
na sua casa triste
sem rádio e com mortos.

Eu não entendia aquele refrão
que ela entoava no regresso à cozinha:
água de chuva não dispensa rega.

Eu não sabia então
que as mães podem ser
flores sedentas.

(Trad. A.M.)

.

21.7.15

Ana Pérez Cañamares (Como ganhar uma guerra perdida)





CÓMO GANAR UNA GUERRA PERDIDA



Uno. Excavar trincheras
con palas, lápices y saxofones.
De las grietas, hacer cicatrices hondas.

Dos. No llevar uniformes.
Cada cual adoptará el disfraz
que menos le ofenda.

Tres. No distinguir noche y día.
Permitir la soledad a quien la elija.
Adoptar perros y recién llegados.

Cuatro. Celebrar una fiesta
por cada trinchera. Llegará el enemigo
y no entenderá nuestro lenguaje.

Les será imposible la conquista:
ellos no aman a los perros mestizos
ni arrancan orgasmos a las palabras.
Perderemos la guerra de las mayúsculas
pero la vida está de nuestra parte:
lloramos y celebramos la brizna.


Ana Pérez Cañamares

[Voces del extremo]




Um. Cavar trincheiras
com pás, lápis e saxofones.
Das fendas, fazer cicatrizes profundas.

Dois. Não usar uniformes.
Cada um adoptará o disfarce
que menos o ofender.

Três. Não distinguir noite e dia.
Permitir a solidão a quem a escolher.
Adoptar os cães e os recém-chegados.

Quatro. Fazer uma festa
por cada trincheira. O inimigo virá
e não entenderá a nossa linguagem.

A conquista vai-lhes ser impossível,
já que não amam os cães rafeiros
nem arrancam orgasmos às palavras.
Perderemos a guerra com maiúsculas
mas a vida está do nosso lado:
choramos e celebramos a brisa.

(Trad. A.M.)

.

9.4.15

Ana Pérez Cañamares (Fé)





FE



Hay días en que lo cierro
todo: corazón, puerta, boca
alma bajo siete llaves.

Otros, a propósito dejo
el bolso abierto
la palabra en la piel
las tripas al aire
sólo para llegar a casa
y observar con alegría
que no me falta nada
que me defiende la fe
eficiente como un arma.


ANA PÉREZ CAÑAMARES
Alfabeto de cicatrices
Baile del Sol (2010)

[Aragna dos signos]




Há dias em que fecho tudo,
coração, porta, boca, alma,
a sete chaves.

Outros, deixo de propósito
a bolsa aberta
a palavra na pele
as tripas ao ar
só para chegar a casa
e ver com alegria
que não me falta nada,
que a fé me defende.
Como uma arma.

(Trad. A.M.)

.

2.9.14

Ana Pérez Cañamares (Salvar a Primavera)





SALVAR LA PRIMAVERA



Está la ciudad que estalla de brotes
y tulipanes. Pero los ojos de los adultos
se cierran con el mismo sueño.

Despiértame de esta madrugada
que no se acaba nunca.

Tenemos que correr delante
arrancar para ellos las cortinas:

los niños no se bastarán solos
para salvar la primavera.

Ana Pérez Cañamares




A cidade está a explodir de rebentos
e túlipas. Mas os olhos dos adultos
cerram-se à mesma com sono.

Desperta-me desta madrugada
que nunca mais acaba.

Temos de correr antes
e arrancar as cortinas por elas:

as crianças sozinhas não chegam
para salvar a Primavera.

(Trad. A.M.)

.

30.5.14

Ana Pérez Cañamares (Mãe)





I

El canturreo de la lavadora
me acompaña mientras leo.

Mi madre sigue cargando
todas las lavadoras.

Llegaré con la ropa limpia
aunque sea largo y polvoriento
el camino desde la infancia.


II

Desde que murió
mi madre me está leyendo...

Ya no soy su hija
Ya no soy una preocupación.

Soy una novela que lee por entretenerse.
Por algún motivo, siente simpatía por la protagonista.

Mamá está disfrutando de la indiferencia.

Ana Pérez Cañamares


[Apología de la luz]



I

A cantilena da máquina de lavar
acompanha-me enquanto leio.

Minha mãe continua a encher
as máquinas todas de roupa.

Chegarei de roupa lavada
seja embora longo e poeirento
o caminho que vem da infância .


II

Desde que morreu
minha mãe anda-me a ler...

Já não sou filha
Já não sou preocupação.

Sou um romance que lê para se entreter.
Por alguma razão, simpatiza com a protagonista.

Mamã está a desfrutar da indiferença.

(Trad. A.M.)


.

13.12.13

Ana Pérez Cañamares (País)





PAÍS



Dormimos espalda contra espalda
respetando cada uno
la tierra de los sueños del otro.
Al despertar nos citamos
en el puesto fronterizo.
Allí aprendemos entre brumas
que dos exiliados hacen un país.

Ana Pérez Cañamares



Dormimos costas com costas
respeitando cada um
a terra dos sonhos do outro.
Encontramo-nos ao despertar
no posto da fronteira.
E entre brumas aí aprendemos
que dois exilados fazem um país.

(Trad. A.M.)

.

18.10.13

Ana Pérez Cañamares (Os pratos que me deu minha mãe)





Los platos que me regaló mi madre
están ya deslucidos y pasados de moda.
Cuando hacemos limpieza
nos miran como enfermos agonizantes
que no entienden qué queremos de ellos.

Pero son los platos que me regaló mi madre
que ya nunca volverá a regalarme
nada.

Si un día nos decidiéramos a tirarlos
intentaré escuchar su voz en mi cabeza:
“Las cosas, hija, son sólo cosas”.

Mi madre no está en un plato.
Mi madre está en el pan que como.


Ana Pérez Cañamares



Os pratos que me deu minha mãe
estão já sem brilho e fora de moda.
Quando os limpamos
olham para nós como doentes em agonia,
sem entender o que queremos nós deles.

Mas são os pratos que me deu a minha mãe,
que nunca mais me dará coisa nenhuma.

Se um dia nos decidirmos a tirá-los,
decerto ouvirei a sua voz na minha cabeça:
"As coisas, filha, são apenas coisas".

Minha mãe não está num prato.
Minha mãe está no pão que eu como.

(Trad. A.M.)

.

22.7.13

Ana Pérez Cañamares (O caminho do erro)





EL CAMINO DEL ERROR




El camino del error es pedregoso.
Sólo cabe tropezar, caer, volver a levantarse.
Un segundo de humildad
cuando estás postrado de rodillas.
Otro segundo de orgullo
mientras te incorporas.
Y luego veinte, cincuenta, cien pasos
antes de encontrar entre las piedras
una moneda, un hueso, un corazón seco
que te recuerde que todo error
se cobra un precio.


ANA PÉREZ CAÑAMARES
Alfabeto de cicatrices
Tenerife, Baile del sol
(2010)


[Malicia 64]




O caminho do erro é cheio de pedras,
é só tropeçar, cair, tornar a levantar.
Um instante de humildade
quando estás prostrado de joelhos,
outro instante de orgulho
enquanto te endireitas.
E depois vinte, cinquenta, cem passos
até topar entre as pedras
uma moeda, um osso, um coração seco
a lembrar-te que todo o erro
tem seu preço.


(Trad. A.M.)

.

18.4.13

Ana Pérez Cañamares (Herança)






HERANÇA



As poetas suicidas chamam-me.
E eu não as ouço.

Come fruta, digo a mim mesma,
vigia os deveres de tua filha,
lembra-te da data em que vivemos,
revê a lista de contactos,
não te esqueças da consulta do ginecologista.
Às vezes atendo à mãe morta que enterrei em mim.
Outras derrubo-me nas margens dos rios que vos tragaram
e o sonho evita-me
e a obscuridade adensa-se em meu redor
como uma marmelada irrespirável.

Vós chegais-vos, mas eu
não vos ouço. Ponho os dedos nos ouvidos
e agarro-me aos barrotes que me sustentam.
Não sei passar a ferro, mas hoje é quinze de Setembro,
de três em três dias telefono ao meu pai e pergunto-lhe
o que comeu,
embora confesso sem nenhum sentimento.

Não ouço vozes, embora a minha, por vezes,
soe insistente,
como a rádio que sobe pelas escadas.

Não vou escutar-vos.
Estais talvez caladas
e é só esse misto de vaidade e homenagem que me aliena
e me faz confundir-vos com o silêncio.
Não importa.
Cada uma das mortes vossas
deu à luz uma palavra
e de momento lembro-me de deixar a minha loucura
dobrada ao pé da roupa,
cada vez que mergulho na água,
na noite
ou em um dos vossos versos.


Ana Pérez Cañamares


(Trad. A.M.)

.

7.3.13

Ana Pérez Cañamares (Se um dia me ouvires)





SI UN DÍA ME OYES



Si un día me oyes
- después de una noche
en la que he resultado ser
encantadora:
de esas mujeres que beben
y se ponen graciosas
contando anécdotas
de bares y ácidos y viajes
y camas y cabrones
con el pelo despeinado
para mejor
y el carmín corrido
como si viniera
de morrearme en el baño
con el tío más guapo
del garito -
si un día
después de una de estas noches
en las que ejerzo
de encantadora de serpientes
al despedirme
me oyes decir
que sólo soy un fraude


compadéceme:
los adictos a los aplausos
también necesitamos testigos
cuando nos quitamos
el maquillaje.


Ana Pérez Cañamares


[Fontana blog]




Se um dia me ouvires
- depois de uma noite
em que calhei ser encantadora,
como essas mulheres que bebem
e se fazem graciosas
contando histórias
de bares e ácidos e viagens
e camas e cabrões
o cabelo despenteado
e a pintura esborratada
como se viesse
do banheiro de abraçar-me
ao tipo mais giro
da gafieira –
se um dia
após uma noite dessas
em que faço
de encantadora de serpentes
me ouvires dizer
que sou apenas uma fraude


tem pena de mim:
nós adictos dos aplausos
também precisamos de testemunhas
quando tiramos
a maquilhagem.


(Trad. A.M.)

.

3.1.13

Ana Pérez Cañamares (Alfabeto de cicatrizes)





ALFABETO DE CICATRICES



Con pulso de artificiero
escojo las palabras.
Manejo con tacto
la nitroglicerina de cada sílaba.
Por culpa de palabras mal usadas
a mi corazón lo cruza
un alfabeto de cicatrices.


Ana Pérez Cañamares


[Viktor Gomez]




Escolho as palavras
com mãos de pirotécnico.
Manejo com tacto
a nitroglicerina de cada sílaba.
Por causa de palavras mal usadas
atravessa meu coração
um alfabeto de cicatrizes.


(Trad. A.M.)

.




4.9.12

Ana Pérez Cañamares (Filho meu)





HIJO MIO




Que soy libre, me dicen.
Pero si quisiera tener otro hijo
tendría que llevarlo al Banco de la esquina
porque suya es mi casa.
Mi niño llamaría padre al director
y madre a la cajera
aprendería a andar con una silla de oficinista
dormiría en un cajón del archivador
y yo sólo sería un pariente lejano
que le sonreiría desde mi puesto en la cola.
Me pasaría de vez en cuando con la excusa de ampliar la hipoteca
sólo para ver qué tal me lo crían
cómo le afecta el aire acondicionado
si sabe poner un fax
y si el director le regala un juego de sartenes
por su cumpleaños.


Ana Pérez Cañamares


[Desde las lindes del sur]




Que sou livre, dizem-me.
Mas se eu quisesse ter outro filho
tinha de levá-lo ao Banco da esquina
porque é deles a minha casa.
O meu menino chamaria pai ao gerente
e mãe à senhora da caixa
aprenderia a andar com uma cadeira de escritório
dormiria num gavetão do arquivo
e eu seria só um parente distante
a sorrir-lhe do meu lugar na fila.
Passaria de vez em quando com a desculpa de ampliar a hipoteca
para ver apenas como é que mo criam
como se dá no ar condicionado
se sabe mandar um fax
e se o gerente lhe oferece no aniversário
um jogo de sertãs.


(Trad. A.M.)


>  Outra versão:  Do trapézio (L.P.)

.

23.3.12

Ana Pérez Cañamares (Adeuses)






ADIOSES




Decir adiós a un novio es fácil
si uno se concentra en repartir los recuerdos:
aquel CD te lo regalé yo
este libro es mío
nunca me gustó esta foto
pero el marco es una herencia de mi madre.


Pero con los amigos a la hora de romper
no hay nada para repartirse
nada que repare el daño
que simulacre la ruptura.
No hay aniversarios que llorar.
Sólo huecos, tardes de domingo
pipas que se enrancian
películas que envejecen
bromas que nadie entiende
que flotan arrastradas por el aire
como globos después de una fiesta.
A la hora de romper no hay un momento perfecto.
Las manos están en movimiento
se agarran, se sueltan
bailan juntas o por separado
se pellizcan
se enredan los dedos en las frases
en un abrazo o en un pulso.
Sólo vale un tajo inesperado
zas
y entonces yo me he quedado con dos de tus dedos
tú con dos de los míos
y no nos sirven los dedos ajenos
ni los muñones propios.


Los números de teléfono no se olvidan de un día para otro
no se vacían las piscinas
ni se agostan los veranos
y en el recuerdo las risas suenan siempre burlonas.


ANA PÉREZ CAÑAMARES
La alambrada de mi boca
Baile del Sol (2007)


[Neorrabioso]





Dizer adeus a um amor é fácil
se nos fixarmos em repartir as lembranças:
aquele CD fui eu que to dei
este livro é meu
nunca gostei desta foto
mas a moldura é herança da minha mãe.


Mas com os amigos na hora de romper
não há nada para partir
nada que repare o dano
ou que disfarce a ruptura.
Não há aniversários que chorar,
apenas buracos, tardes de domingo,
cachimbos com ranço
películas a envelhecer
piadas que ninguém entende
que bóiam arrastadas pelo ar
como balões depois duma festa.
Na hora de romper não há um momento perfeito,
as mãos movem-se
agarram-se, soltam-se
bailam juntas ou separadas
beliscam-se
enredam-se os dedos nas frases
num abraço ou num pulso.
Só dá é um corte inesperado
zás
e assim fiquei eu com dois dedos teus
tu com dois dos meus
e não nos servem nem os dedos alheios
nem os cotos próprios.


Os números de telefone não se esquecem dum dia para o outro
não se esvaziam as piscinas
nem se secam os estios
e os risos na lembrança soam sempre a fingido.


(Trad. A.M.)

.