Mostrar mensagens com a etiqueta José Agostinho Baptista. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta José Agostinho Baptista. Mostrar todas as mensagens

29.3.25

José Agostinho Baptista (Mãe)




MÃE

 

Eu sou aquela que os vê.
E caminho pelos seus caminhos e sou a
fogueira distante.
O tempo não me apaga.
Tenho os pontos cardeais e sou a bússola nas
suas mãos,
quando eles vão sobre as águas.
Sou os mapas, a constelação, o cruzeiro do sul,
o arado, o cão,
aquela que os guarda.
Sou o regaço, as belas plumas do meu regaço,
a imensa luz de amor que cai sobre a sua
penumbra,
sobre a sua loucura.
Sou a mãe da sua vida, da sua morte.
E vou com eles, espalhando as rosas tristes,
e os meus cabelos espalham sobre os seus
cabelos as raízes brancas.
Sou aquela que escreve quando eles dormem,
sou as palavras através do sono.
E adormeço com eles,
fechando as últimas portas.
 

José Agostinho Baptista

[Antologia improvável]

 .

1.10.17

José Agostinho Baptista (Distância)





DISTÂNCIA



A ausência é um arco de gelo suspenso
sobre as espáduas.
Os ossos cedem ao claro domínio dos
glaciares.
Desapareceram todos os perfumes,
todas as dálias.
Vivo como vivem os teus peixes cegos:
frio e nu ao fundo da noite,
caminhando  pelas bermas.


José Agostinho Baptista


.


7.9.17

José Agostinho Baptista (Silêncio)






SILÊNCIO



Uma noite,
quando o mundo já era muito triste,
veio um pássaro da chuva e entrou
no meu peito,
e aí, como um queixume,
ouviu-se esta voz de dor que já era a tua
voz,
como um metal fino,
uma lâmina no coração dos pássaros.
Agora,
nem o vento move as cortinas desta casa.
O silêncio é como uma pedra imensa,
encostada à garganta.


José Agostinho Baptista


.

10.6.11

José Agostinho Baptista (Conheço todos os caminhos)






Conheço todos os caminhos que conduzem
à tua morada,
na grande noite que se fecha,
à volta dos ciprestes.


Quando te procuro,
a tua música cala-se e não me procura,
ao longe.
É apenas um lamento no ar,
uma voz de pedra,
um violino ardido.


Que vento frio traz a canção dos mártires para
tão perto do meu nome?



JOSÉ AGOSTINHO BAPTISTA
Esta voz é quase o vento
Assírio & Alvim
(2004)

.

2.5.11

José Agostinho Baptista (Nasceste)






NASCESTE




Nasceste do outro lado,
onde o sol nunca destruiu os negros signos
da escuridão,
onde o terror do pai,
o distraído olhar da mãe,
o silêncio dos irmãos, faz crescer em ti as
imperecíveis flores da amargura.


Foste sempre
a equívoca imagem dos espelhos: um sorriso
era uma lágrima.
À tua volta estava escrito:
o amor é uma espada de fogo, às vezes mata.


Navegaste turvos oceanos cujas vagas alterosas,
nunca antes vistas,
batiam no teu assombro.
Atravessaste os ares, muito perto do céu,
mas nunca viste as altas mansões de Deus.
Eras apenas o anjo,
aquela que nunca pôde deixar as estâncias do
sono.
Entregaste, sem saber, os segredos do teu corpo,
tão predisposto à imolação.
Choraste tantas vezes,
em quartos de persianas descidas, que a morte
habitava,
sem fazer ruído.


Hoje,
não dizes nada.
Levas sobre os ombros um xaile de magoada renda.
Vestes quase sempre de negro.
Vais e vens,
ao longo dos labirintos onde em cada esquina
espreita o tigre.


Não sabes o que fazer com as mãos frias,
povoadas de angustiantes anéis.
Não bordas o livro das tuas horas,
e o dedal das avós dementes caiu sempre no
chão.


A chuva caiu sempre nos teus dias,
e caminhaste pelas ruas, à deriva, cabisbaixa,
como se pedisses perdão.
Ninguém te ouviu,
pois não havia palavras debruçadas da tua
boca.
Era sempre Inverno.


E quando ele chegou,
o filho pródigo de uma ilha,
parecia que enfim poderias cantar nos jardins da
paixão, na elevação das chamas.


Mas não.
Assassinaste sempre a ternura que ele ainda
guardava no devassado cofre da sua idade.
Suicidaste-te.





JOSÉ AGOSTINHO BAPTISTA
Esta voz é quase o vento
Assírio & Alvim
(2004)


.

6.4.11

José Agostinho Baptista (Agora, não te escrevo)






AGORA, NÃO TE ESCREVO




Agora, não te escrevo nada.
Fecho todas as páginas deste livro onde
não voltarás.
Fecho todas as cancelas que um dia abriste,
numa estação de palavras ternas.


Agora, não te abro a porta deste quarto com
jarras sem água,
com alucinantes paredes sem luz.


Digo apenas que ainda conheço os teus passos,
o teu vulto que empalidece sobre as quatro luas,
digo ao ver os anéis de âmbar e
prata
é como se nos teus dedos sem febre tudo se
parecesse ao terror das águias aprisionadas.


Não cantas,
não moves os lábios,
não me falas junto às fontes,
não te ergues como o sol que ainda bate
neste rosto inclinado, pouco a pouco mais
triste, a olhar para longe.
A alma, oh,
a alma vive na floresta branca, ao lado do anjo.


Emudeceste,
E no teu silêncio de pedra emudeceram as
paisagens do céu.
Nunca mais foi Verão.


Ainda me lembro dos cães que nunca vias
e não tinham nome,
e eram como se pensassem, como se amassem,
e, por amor perdidos,
procurassem as algas que secavam.


Assim é a minha vida.
Hoje, só os desertos me conhecem. Nada mais.



JOSÉ AGOSTINHO BAPTISTA
Esta voz é quase o vento
Assírio & Alvim
(2004)



[Linhas desconexas]


.

22.2.11

José Agostinho Baptista (Fecha-me os olhos)





FECHA-ME OS OLHOS




Fecha-me os olhos devagar, com um beijo leve,
com três palavras apenas:
dorme, parte, adeus.

Assim tenho de me despedir.
Deixo uma buganvília à entrada da porta branca,
um bairro de sombras floridas,
um cão a quem dei o meu nome.

Deixo a casa amarela,
o limoeiro, as hortênsias, duas estrelícias na
jarra vermelha,
translúcida,
sobre a mesa de mogno.

Deixo alguns livros,
algumas paisagens de litorais desvanecidos,
alguns naufrágios que desenhei com o lápis das
tempestades.

Por favor,
não digam que fui feliz, se não me viram
caminhar pelas ruas desertas,
esmagando a serpente dos dias,
construindo muralhas,
que pouco depois se desmoronavam.

Eles também se despediram, os amigos.

Quando me lembro deles,
há um cântico negro,
com labaredas altivas, um eco de metal que vibra.

Não está certo que assim seja, que se soltem do
nosso peito, um após outro,
os delicados fios de ouro da ternura.

Deixo-vos as maçãs verdes sobre a mesa.
Com o tempo, tudo há-de amadurecer.


JOSÉ AGOSTINHO BAPTISTA
Esta voz é quase o vento
Assírio & Alvim
(2004)


.

30.1.11

José Agostinho Baptista (Perdi-me por amor)






PERDI-ME POR AMOR




Perdi-me por amor,
fui aquele que procurava a casa do coração e
a luz, mas agora,
prisioneiro da bruma, junto ao altar,
penso
nas manhãs em que voava para longe,
ao lado dos irmãos.


Penso em quase todas as flores que vi nos
canteiros do céu,
penso nas mãos que estendiam as formas do
centeio e do trigo
para a minha boca.


E os meus olhos que viram os deslumbrantes
cristais do mundo
baixaram as suas pálpebras sobre a noite da
terra,
sobre os sepulcros abertos.


Não sei onde sepultarão os meus ossos,
onde soltarão ao vento as minhas cinzas.
Sei apenas que perdurarei no murmúrio dos
teus lábios
e nas pedras onde me sentei e chorei.


Pouco tempo me resta para contar aos filhos
que não tive
o fulminante desejo das viagens.
E hoje,
entre estas quatro paredes de cal mutilada,
quando chove por dentro, para sempre,
só te posso dizer adeus.




JOSÉ AGOSTINHO BAPTISTA
Esta voz é quase o vento
Assírio & Alvim
(2004)


.

25.12.10

José Agostinho Baptista (Estás no verão)






Estás no verão,
num fio de repousada água, nos espelhos perdidos sobre
a duna.
Estás em mim,
nas obscuras algas do meu nome e à beira do nome
pensas:
teria sido fogo, teria sido ouro e todavia é pó.
sepultada rosa do desejo, um homem entre as mágoas.
És o esplendor do dia,
os metais incandescentes de cada dia.
Deitas-te no azul onde te contemplo e deitada reconheces
o ardor das maçãs,
as claras nuvens noções do pecado.
Ouve a canção dos jovens amantes nas altas colinas dos
meus anos.
Quando me deixas, o sol encerra as suas pérolas,
os rituais que previ.
Uma colmeia explode no sonho, as palmeiras estão em
ti e inclinam-se.
Bebo, na clausura das tuas fontes, uma sede antiquíssima.
Doce e cruel é setembro.
Dolorosamente cego, fechado sobre a tua boca.



JOSÉ AGOSTINHO BAPTISTA
Paixão e cinzas
Assírio & Alvim
(1992)


.

30.11.10

José Agostinho Baptista (Infância)






INFÂNCIA




O vinho empurrava-os para a noite, para o
norte,
para a alquimia dos frutos ardidos.
E tu vinhas só, entre eles.
Soltando as labaredas pela aldeia dentro,
pela casa dentro.
Aldeias com abismos, com a ribeira ao fundo.


Em sobressalto,
ouvia os teus gritos.
Os cães ladravam muito alto e o
relâmpago sobre as rochas fulminava os
espelhos da noite.
Não dormia, não falava,
dobrado sobre mim mesmo como um feto,
como uma giesta quebrada pelo vento.
Podia ser dezembro
já que a geada e as laranjas se agarravam
à árvore.



JOSÉ AGOSTINHO BAPTISTA
Agora e na Hora da Nossa Morte
Assírio & Alvim
(1998)

.

23.10.10

José Agostinho Baptista (Perda)






PERDA




Fazem-se de soluços
as embriagadas estações do teu vulto,
e calam-se,
calam-se outra vez os sinos quando te
levantas de costas para os templos,
amaldiçoando as cidades,
os relógios que arruínam o corpo para sempre,
sabendo que no fim das veredas de lama se
abre uma clareira de ossos dispersos, com o
terror por dentro,
com as bússolas que há muito perderam o
norte e jazem como tu, entre a imobilidade e
a ferrugem.



JOSÉ AGOSTINHO BAPTISTA
Agora e na Hora da Nossa Morte
Assírio & Alvim
(1998)

.

12.9.10

José Agostinho Baptista (Comovem-me)






COMOVEM-ME




Comovem-me ainda os dias que se levantam
no deserto das nossas vidas.


Dos belos palácios da saudade
não resta a impressão dos dedos nas colunas
fendidas, e nada cresce nos pátios.


Muito além, depois das casas, o último
marinheiro continua sentado.
Os seus cabelos são brancos, pouco a pouco.


Aqui, tudo se resume a algumas tâmaras que
secaram ao sol,,
longe do orvalho,
das fontes que pareciam nascer de um olhar
turvo sobre a sede da terra.


Comovem-me ainda as palavras que dizias
aos meus ouvidos aprisionados pela música.
Comovem-me as cadeiras vazias, no pátio.


Lembro-me sempre de ti.



JOSÉ AGOSTINHO BAPTISTA
Esta voz é quase o vento
Assírio & Alvim
(2004)

.

11.8.10

José Agostinho Baptista (Madeira)






MADEIRA




Quero beijar os teus lábios de pedra,
a água azul e profunda onde os teus
seios sem mácula se unem às minhas
mãos,
quero fundir-me em ti,
minha doce amante do desejo antigo,
quero mergulhar nos cabelos húmidos das
tuas raízes,
quero subir lentamente o teu corpo frio,
fendido,
quero fazer em ti,
nos teus jardins inclinados,
um país de filhos belos, de animais de
silêncio e bondade,
quero regressar a ti,
ao mistério das levadas, das falésias,
dos ventos que batem nos pássaros de aço
e nas tuas tranças,
quero que me toques amorosamente com
os teus dedos esguios,
com as tuas canas doces,
quero o mel, a estrelícia, o pão escuro sobre
as mesas de toalhas loucas bordadas pelas
mulheres de outrora,
senhoras nossas das dores e do entardecer,
quero levar-te comigo para além, para
sempre,
quero que deixes em mim o fruto das tuas
árvores da alegria,
todos os sinais da ternura que o tempo não
consumiu,
minha eterna amante junto ao mar,
quero morrer em ti,
e em ti nascer de novo.



JOSÉ AGOSTINHO BAPTISTA
Anjos Caídos
Assírio & Alvim
(2003)

.

26.6.10

José Agostinho Baptista (Da nossa morte)






DA NOSSA MORTE




Agora é tarde.
Ninguém responde às cartas que escrevi e
atirei ao mar,
quando pensei que um dia serias como esse
marinheiro que num sonho antigo abençoava
o filho e depois partia nas asas do albatroz.
Agora é tarde.
Ninguém responde à sombria música dos meus
punhos golpeando a cadeira vazia, a mesa, as
folhas em branco onde uma única palavra se
aproxima,
manejando as suas armas -
três letras, três sinais de fogo.
Agora é tarde.
Ninguém cala os tempestuosos rios no fundo
dos meus olhos,
quando penso nos vermes, nas viscosidades
que te procuram através do cetim.



José Agostinho Baptista

.

1.5.10

José Agostinho Baptista (Inverno)






INVERNO




O medo está no inverno.
O medo
bate nos olhos com as suas ferramentas negras e
depois anuncia a morte.
No inverno
penso na terra, no silêncio da terra e dos astros e
das rosas,
no teu grande silêncio, pai.
No inverno
volto-me para baixo, para os alicerces
do mundo.
No inverno
dizes de muito longe que não voltarás aqui.



JOSÉ AGOSTINHO BAPTISTA
Agora e na hora da nossa morte
Assírio & Alvim
(1998)



.

29.3.10

José Agostinho Baptista (Melodia)





MELODIA



Este é o orvalho dos teus olhos.
Esta é a rosa dos teus vales.
O silêncio dos olhos está no silêncio das rosas.
Tu estás no meio,
entre a dor e o espanto da treva.
Arrancas-te ao mundo e és a perfumada
distância do mundo.
Chego sem saber, à beira dos séculos.
Despenho-me nos teus lagos quando para ti
canta o cisne mais triste.
O pólen esvoaça no meu peito, junto às tuas
nuvens.
Esta é a canção do teu amor.
Esta é a voz onde vive a tua canção.
As tuas lágrimas passam pela minha terra
a caminho do mar.


José Agostinho Baptista

.

17.2.10

José Agostinho Baptista (Não é música)







NÃO É MÚSICA




Não é música o que ouvimos.
Não é de água este brilho de prata.

Eu estou aqui sobre as pontes do rio.
Outros são os que espreitam pela bruma das margens.

Talvez me lembre:
tu vinhas devagar pelo lado das acácias.
Cingias cada árvore e as colunas, os braços de um
deus cruel, o saber dos templos.

Não é um salmo o que ouvimos.
Não é de harpas este lamento,
não é o ofício das mãos esculpindo um rosto,
não é a palavra de deus que ecoa nas escarpas.

Algures te ocultas e não deixas sinais.
Quem és tu
cujo perfil se desvanece, cuja doçura se perde nos
confins da tarde?

Eu estou aqui onde se unem as margens, onde escurecem
as sendas e as sombras,
onde correm as nuvens, as pedras, as águas.

Outros são os que te aguardam pelo lado das acácias.



José Agostinho Baptista

.

25.12.09

José Agostinho Baptista (Veneração)







VENERAÇÃO



Venerei-te quase sempre,
sem querer, sem saber, apenas como quem
cumpre um destino
perante o sangue e as rosas.
Foste, talvez,
essa flor inquieta, tempestuosa, inimiga da
sombra e da calma,
foste uma espada de fogo, ardendo sobre
os altares, onde se sentou o anjo caído.



Mil sóis passaram, mil amantes, mil jogos
inocentes,
e agora os teus ombros não podem suportar o
peso do mundo.
Desaparecerás como as árvores, as flores e as
casas.
Não sei para onde vais.
Procuro-te na décima porta, junto aos
umbrais,
junto às noites acesas do outro lado do céu.



JOSÉ AGOSTINHO BAPTISTA
Agora e na hora da nossa morte
Assírio & Alvim, 1998



Fontes:  J.A.Baptista (sítio pessoal/bio+biblio+extractos)  /  PoesiaseProsas (4p)  /  As Tormentas (4p)

.

10.1.06

José Agostinho Baptista (E as casas são brancas)




E AS CASAS SÃO BRANCAS
LOUCAMENTE BRANCAS



lembro-me das horas sobre o mar
do surdo rumor do casco dos navios
da tua boca colada à paixão dos mapas primitivos.


entretanto o teu corpo corre devagar para o litoral
e as casas por detrás dos cabelos são brancas
loucamente brancas.


no princípio eram as paredes
e havia o teu riso altíssimo encostado aos dias que
morriam nas paredes.


quem destruiu tudo isso?
quem matou as aves nos ramos da tua loucura?


oiço este rio que corre longe de mim longe de tudo
este corcel galopando pelos países


- quem canta esta noite?


entretanto tu atravessas a minha poesia com espadas de
neve
e falas de casas como quem fala do surdo rumor do casco
dos navios -


quem canta esta noite?


e o teu corpo vai correndo devagar para o litoral
e as casas por detrás dos teus cabelos são brancas
loucamente brancas.



José Agostinho Baptista


.