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6.6.18
Alfredo Buxán (Poética)
POÉTICA
Contra a morte, sim, cada poema.
Embora respire o lodo do seu hálito.
Embora a invoque. Embora me arrisque
ao beijo que ela reclama em cada passagem.
ALFREDO BUXÁN
Las Palabras Perdidas
(Poesía 1989-2008)
Bartleby Editores (2011)
(Trad. A.M.)
.
8.2.18
Alfredo Buxán (Canção de berço)
CANÇÃO DE BERÇO
Como janelas os olhos
como sementes de sementeira
à luz do tempo
quando os abres
e olhas
Como a noite os olhos
como a paz da noite
quieta de vento e silêncio
quando os fechas
e dormes
ALFREDO BUXÁN
Las Palabras Perdidas
(Poesía 1989-2008)
Bartleby Editores (2011)
(Trad. A.M.)
.
17.2.17
Alfredo Buxán (Aparição)
APARIÇÃO
Vi-te a sair com o sorriso posto
como um broche e fiquei-me a olhar-te
perdidinho de assombro e alegria.
Não creio que volte a ver-te, bem sei,
mas tão pouco creio que te esqueça.
ALFREDO BUXÁN
Las Palabras Perdidas
(Poesía 1989-2008)
Bartleby Editores (2011)
(Trad. A.M.)
.
13.8.16
Alfredo Buxán (A eternidade da cinza)
ETERNIDAD DE LA CENIZA
Morir es un momento, lo demás un vacío
que colmamos de tiempo y de silencio. Vivir, en cambio,
es fácil: proseguir.
Esta severa duda que atraviesa los cuerpos.
Pisar la huella de otros pies sobre la grava,
aprender con certero dolor
el modo más sereno de enfrentar el instante:
desnudo y sin aullar, apegado a la paz
de quien conoce que no puede saber
porque es partícula y no germen, fragmento
en el espacio, mojada brizna que se extingue
y enmudece en silencio bajo el sol,
sobre la piedra casi eterna que lo acoge.
Alfredo Buxán
Morrer é um instante, o resto um vazio
que enchemos de tempo e silêncio.
Viver, em troca, é fácil: prosseguir.
Esta severa dúvida que atravessa os corpos.
Pisar o rasto de outros pés no chão do caminho,
aprender com dor certeira
o modo mais sereno de enfrentar o instante:
desnudo e sem uivar, apegado à paz
de quem sabe que não pode saber
porque é partícula e não germe, fragmento
no espaço, molhada brisa que se fina
e emudece em silêncio debaixo do sol,
sobre a pedra que o acolhe eterna quase.
(Trad. A.M.)
.
21.2.16
Alfredo Buxán (Estar aqui)
ESTAR AQUI
Aqui sentado, de madrugada, quando a multidão
dorme ainda alheia ao ruído, felizmente esquecida
de qualquer ameaça, eu escrevo em paz
sem outro anelo que sentir o pulso da vida.
A luz entra a espreguiçar-se, humilde, menina quase,
pela janela e é milagre bastante recebê-la
com gratidão, apreciar-lhe a tímida beleza,
ter consciência de que existe por si mesma,
abrir-lhe a alma e integrá-la no sonho
como um acorde necessário a completar
lá dentro a melodia do coração,
que bate indefinida e frágil como a asa
de um insecto atraído ao engano
de uma gota de mel na varanda.
Talvez outro consolo não traga o dia
senão a pura existência dessa luz
que nada nos exige, distraídos
da vida, descarrilados de nós mesmos,
nada senão o gesto hospitaleiro de aceitar-lhe
a visita de bom grado e oferecer-lhe, com o café,
um olhar limpo, o vaso do açúcar,
o silêncio tranquilo da casa
ou o bulício inocente, imperceptível quase,
da alma a amanhecer com este dia.
ALFREDO BUXÁN
La transparencia
Cadernos de Néboa-3
(2012)
(Trad. A.M.)
.
18.12.15
Alfredo Buxán (A sementeira)
A SEMENTEIRA
Busca em ti a raiz da última
chama, acolhe na alma a semente
de alegria que não germinou.
Que vã não fosse tanta entrega
à fertilidade quase impossível
da terra, que o amor semeado
te devolva nem que seja um arremedo
de latejo profundo e generoso.
Que a última gota se detenha
um instante na ferida de teus lábios.
Que a sintas descer até à origem
da fé que te habitou as entranhas
sem se deixar abater pelo escuro
obstinado dos dias.
Que escutes,
na hora de partir, por fim vencido,
quase inconsciente,
a música feliz
da verdade que nem sempre soubeste
reconverter em árvore ou em mistério.
ALFREDO BUXÁN
La transparencia
Cadernos de Néboa-3
(2012)
(Trad. A.M.)
.
3.9.15
Alfredo Buxán (Hoje, por exemplo)
HOJE, POR EXEMPLO
A vida começa um dia qualquer.
Tanto dá que chova ou o vento
arraste a folharada no caminho.
Quando a destruição parece inevitável
e a alma se rende
no último reduto,
quando a morte ronda
sem tapar a cara,
um simples gesto
mesmo involuntário
dá uma volta ao rumo da noite,
tempera a dor, assume-a e dá-lhe sentido,
e abre uma fenda na treva
por onde entra o ar, renovado.
Depende de nós o passo seguinte.
Entender os sinais. Iniciar a viagem.
ALFREDO BUXÁN
La transparencia
Cadernos de Néboa-3
(2012)
(Trad. A.M.)
.
18.7.15
Alfredo Buxán (As palavras)
AS PALAVRAS-CHAVE
Não sei já que dizer das palavras
senão que entristecem quando o sangue
irrompe na garganta ou o ódio
impõe sua desmesura e tudo destrói,
que seu pranto me dói quando a chuva insiste,
que não servem muitas vezes,
que quase todas guardam um segredo
ou uma gota de mel
na cela inacessível das consoantes.
Entre todas uma me deixa perplexo:
a palavra silêncio,
aquela que às vezes não passa de um gesto,
um verso à deriva, uma canção
dormente.
Ando com um candil
pelo bosque infinito de palavras,
apoiado no meu bastão de incerteza,
quase sempre desperto e sem perder o rasto
que me assinalam as vogais, quais estrelas fugazes
a meio da noite, ansioso por encontrar
minha voz na penumbra, a sílaba perdida
que persigo no sonho.
ALFREDO BUXÁN
Las Palabras Perdidas
(Poesía 1989-2008)
Bartleby Editores (2011)
(Trad. A.M.)
.
26.3.15
Alfredo Buxán (Enquanto puderes)
ENQUANTO PUDERES
Deixa que cada coisa, lentamente,
encontre seu amparo nas paredes
desta casa que começa a conhecer-te
pelo tom da voz e pelas pisadas
de pássaro na carpete, pela roupa
em seu canto à espera da madrugada,
pela penumbra cálida de um saxe
à meia-noite, pelo sono frágil também.
Cuida-a com tuas mãos cada dia
e escuta o que escreve em silêncio
cada objecto: nada é definitivo.
Agradece à idade este presente,
sê feliz sem deixar de ser tu mesmo
enquanto puderes. Lembra o medo
que passaste em tantos anos
de enganosa solidão. Lembra
tudo: o mar, o nome dos teus,
as mulheres e o cansaço infinito
de buscar uma luz por entre a bruma.
Não duvides mais, aceita que não é tarde
e que chegou a hora de um inventário
sossegado: tens aquilo que anelavas.
Talvez porque nada já necessitas
que se possa comprar com a mentira.
Não dês um passo atrás, não te rendas
nem renuncies tão pouco ao silêncio
que te trouxe, fiel, o primeiro verso
até à beira mesma desta casa
que começa - dá-lhe tempo - a ser tua.
ALFREDO BUXÁN
Las Palabras Perdidas
(Poesía 1989-2008)
Bartleby Editores (2011)
(Trad. A.M.)
.
16.11.14
Alfredo Buxán (A luz insone)
A LUZ INSONE
Está desperta a luz
sentada em cima duma pedra
com milhões de anos,
à espera que saias
desse túnel de sombras
em que te abaixas.
Está desperta a luz
a meio da noite
embora cerres os olhos
como se a não houvera.
ALFREDO BUXÁN
La canción del aire
Cadernos de Néboa-6
(2014)
(Trad. A.M.)
.
29.10.14
Alfredo Buxán (Uma pequena morte)
UNA PEQUEÑA MUERTE
Una pequeña muerte sucede cada día
muy lejos de nosotros, o nos pasa rozando,
en una aldea persa o a la orilla de un río.
Abajo, en la cantina donde compras tabaco,
o en el andén del metro que tomas cada día
para ir al trabajo rodeado de gente
que también va cansada.
Una pequeña muerte que tiene su reflejo,
aunque tú no lo entiendas, en la cama deshecha,
en una bombilla que de súbito se apaga
a media tarde y lo envuelve todo en el silencio,
en tus ojos cerrados y en el día que acaba,
en el triste lamento que los muebles exhalan
cuando llega la noche. Una pequeña muerte
que te llena de asombro
cuando aceptas con pena que también es la tuya.
Alfredo Buxán
Uma pequena morte dá-se em cada dia
muito longe de nós, ou passa a roçar-nos,
numa aldeia persa ou na margem de um rio.
Adiante, na venda onde compras tabaco,
ou no cais do metro que tomas em cada dia
para ir para o trabalho rodeado de gente
que também vai cansada.
Uma pequena morte que se reflecte,
mesmo que o não percebas, na cama desfeita,
numa lâmpada que de súbito se apaga
a meio da tarde e abraça tudo em silêncio,
nos teus olhos fechados e no dia que acaba,
no triste lamento que os móveis exalam
ao cair da noite. Uma pequena morte
que te enche de assombro
quando aceitas com pena que é também a tua.
(Trad. A.M.)
> Claribel Alegria (Pequena morte)
.
14.10.14
Alfredo Buxán (Nunca aprendemos)
NUNCA APRENDEMOS
Porque el instante es todo, el beso
que se da es un lento disturbio,
un fantasma de ceniza:
si supiera durar sería fuego.
Anega en un frescor inesperado
la pasión de los amantes,
su ciega soledad.
Se disuelve sin más
y se nos muere
contra la fría losa de los labios.
Alfredo Buxán*
Porque o instante é tudo, o beijo
que se dá é um lento distúrbio,
um fantasma de cinza
- se durasse, seria fogo.
A paixão dos amantes
inunda sua cega solidão
de frescura inesperada.
Dissolve-se sem mais
e morre-nos
contra a lousa fria dos lábios.
(Trad. A.M.)
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(*) Pseudónimo (não fotos)
.
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