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27.2.19

Adélia Prado (Missa das 10)





MISSA DAS 10



Frei Jácomo prega e ninguém entende.
Mas fala com piedade, para ele mesmo
e tem mania de orar pelos paroquianos.
As mulheres que depois vão aos clubes,
os moços ricos de costumes piedosos,
os homens que prevaricam um pouco em seus negócios
gostam todos de assistir a missa de frei Jácomo,
povoada de exemplos, de vida de santos,
da certeza marota de que ao final de tudo
urna confissão "in extremis" garantirá o paraíso.
Ninguém vê o Cordeiro degolado na mesa,
o sangue sobre as toalhas,
seu lancinante grito,
ninguém.
Nem frei Jácomo.


Adélia Prado

[Antonio Miranda]

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6.2.19

Adélia Prado (Ensinamento)




ENSINAMENTO



Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
“Coitado, até essa hora no serviço pesado”.
Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.


Adélia Prado

1.4.11

Adélia Prado (Pranto para comover Jonathan)






PRANTO PARA COMOVER JONATHAN




Os diamantes são indestrutíveis?
Mais é meu amor.
O mar é imenso?
Meu amor é maior,
mais belo sem ornamentos
do que um campo de flores.
Mais triste do que a morte,
mais desesperançado
do que a onda batendo no rochedo,
mais tenaz que o rochedo.
Ama e nem sabe mais o que ama.



Adélia Prado

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28.1.10

Adélia Prado (A rosa mística)







A ROSA MÍSTICA



A primeira vez
que tive a consciência de uma forma,
disse à minha mãe:
dona Armanda tem na cozinha dela uma cesta
onde põe os tomates e as cebolas;
começando a inquietar-me pelo medo
do que era bonito desmanchar-se,
até que um dia escrevi:
”neste quarto meu pai morreu,
aqui deu corda ao relógio
e apoiou os cotovelos
no que pensava ser uma janela
e eram os beirais da morte”.
Entendi que as palavras
daquele modo agrupadas
dispensavam as coisas sobre as quais versavam,
meu próprio pai voltava, indestrutível.
Como se alguém pintasse
a cesta de dona Armanda
me dizendo em seguida:
agora podes comer as frutas.
Havia uma ordem no mundo,
de onde vinha?
E por que contristava a alma
sendo ela própria alegria
e diversa da luz do dia,
banhava-se em outra luz?
Era forçoso garantir o mundo,
da corrosão do tempo, o próprio tempo burlar.
Então prossegui: “neste quarto meu pai morreu.
Podes fechar-te, ó noite,
teu negrume não vela esta lembrança”.
Foi o primeiro poema que escrevi.


Adélia Prado



[Marcelo Leites]


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1.12.09

Adélia Prado (Dona doida)









DONA DOIDA






Uma vez, quando eu era menina, choveu grosso
com trovoadas e clarões, exatamente como chove agora.
Quando se pôde abrir as janelas,
as poças tremiam com os últimos pingos.
Minha mãe, como quem sabe que vai escrever um poema,
decidiu inspirada: chuchu novinho, angu, molho de ovos.
Fui buscar os chuchus e estou voltando agora,
trinta anos depois. Não encontrei minha mãe.
A mulher que me abriu a porta, riu de dona tão velha,
com sombrinha infantil e coxas à mostra.
Meus filhos me repudiaram envergonhados,
meu marido ficou triste até a morte,
eu fiquei doida no encalço.
Só melhoro quando chove.




Adélia Prado

 
 

6.2.09

Adélia Prado (Poema começado no fim)









POEMA COMEÇADO NO FIM




Um corpo quer outro corpo.
Uma alma quer outra alma e seu corpo.
Este excesso de realidade me confunde.
Jonathan falando:
parece que estou num filme.
Se eu lhe dissesse você é estúpido
ele diria sou mesmo.
Se ele dissesse vamos comigo ao inferno passear
eu iria.
As casas baixas, as pessoas pobres,
e o sol da tarde,
imaginai o que era o sol da tarde
sobre a nossa fragilidade.
Vinha com Jonathan
pela rua mais torta da cidade.
O Caminho do Céu.



Adélia Prado





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18.8.08

Adélia Prado (Moça na cama)






MOÇA NA CAMA




Papai tosse, dando aviso de si,
vem examinar as tramelas, uma a uma.

A cumeeira da casa é de peroba do campo,
posso dormir sossegada.

Mamãe vem me cobrir, tomo a bênção
e fujo atrás dos homens,
me contendo por usura, fazendo render o bom.

Se me tocar, desencadeio as chusmas,
os peixinhos cardumes.

Os topázios me ardem onde mamãe sabe,
por isso ela me diz com ciúmes:
dorme logo, que é tarde.

Sim, mamãe, já vou:
passear na praça sem ninguém me ralhar.

Adeus, que me cuido, vou campear nos becos,
moça de moços no bar,
violão e olhos difíceis de sair de mim.

Quando esta nossa cidade ressonar em neblina,
os moços marianos vão me esperar na matriz.

O céu é aqui, mamãe.

Que bom não ser livro inspirado
o catecismo da doutrina cristã,
posso adiar meus escrúpulos
e cavalgar no torpor dos monsenhores podados.

Posso sofrer amanhã a linda nódoa de vinho
das flores murchas no chão.

As fábricas têm os seus pátios,
os muros têm seu atrás.

No quartel são gentis comigo.

Não quero chá, minha mãe,
quero a mão do frei Crisóstomo me ungindo com óleo santo.

Da vida quero a paixão.

E quero escravos, sou lassa.

Com amor de zanga e momo quero minha cama de catre,
o santo anjo do Senhor,
meu zeloso guardador.

Mas descansa, que ele é eunuco, mamãe.




Adélia Prado




Fonte: Casa do Bruxo
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1.3.08

Adélia Prado (Corridinho)






CORRIDINHO





O amor quer abraçar e não pode.
A multidão em volta,
com seus olhos cediços,
põe caco de vidro no muro
para o amor desistir.
O amor usa o correio,
o correio trapaceia,
a carta não chega,
o amor fica sem saber se é ou não é.
O amor pega o cavalo,
desembarca do trem,
chega na porta cansado
de tanto caminhar a pé.
Fala a palavra açucena,
pede água, bebe café,
dorme na sua presença,
chupa bala de hortelã.
Tudo manha, truque, engenho:
é descuidar, o amor te pega,
te come, te molha todo.
Mas água o amor não é.





Adélia Prado


Fonte: Releituras
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2.10.07

Adélia Prado (A boa morte)





A BOA MORTE





Dona Dirce chorava a morte da filha
e com sincera dor o fazia,
estendendo a mão em direção ao café
que a irmã da morta servia.
Eu prestava atenção em Dona Dirce
que escutava Alzirinha admirada:
...o médico me proibiu expressamente...
Alguém pôs a cara na porta procurando Dona
Dirce:
A senhora sabe a placa da caminhonete do Artur?
Alzirinha não queria café, por motivo de regime,
era possível que Artur não fosse avisado a tempo.
A adolescente sardenta, visivelmente feliz,
chorava a morte da mãe.
Também quis chorar,
por diversos motivos,
mas era impossível ali,
celebrava-se a vida
sob caras contritas,
sob os véus da morte,
mais que sete.
A cada desnudamento
ela própria cobria-se
visivelmente pra nos proteger:
Ninguém quer mais café não?
Modesta a morte, companheira,
nos consolando, quase da família.
Lucinda virou santa.
Não contei a ninguém,
pra não amolar a tristeza.




Adélia Prado






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8.7.07

Adélia Prado (Impressionista)





IMPRESSIONISTA






Uma ocasião,
meu pai pintou a casa toda
de alaranjado brilhante.
Por muito tempo morámos numa casa,
como ele mesmo dizia,
constantemente amanhecendo.



Adélia Prado


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7.6.07

Adélia Prado (Briga no beco)



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BRIGA NO BECO





Encontrei meu marido às três horas da tarde
com uma loura oxidada.
Tomavam guaraná e riam, os desavergonhados.
Ataquei-os por trás com mãos e palavras
que nunca suspeitei conhecer.
Voaram três dentes e gritei, esmurrei-os e gritei,
gritei meu urro, a torrente de impropérios.
Ajuntou gente, escureceu o sol,
a poeira adensou como cortina.
Ele me pegava nos braços, nas pernas, na cintura,
sem me reter, peixe-piranha, bicho pior, fêmea-ofendida,
uivava.
Gritei, gritei, gritei, até a cratera exaurir-se.
Quando não pude mais fiquei rígida,
as mãos na garganta dele, nós dois petrificados,
eu sem tocar o chão. Quando abri os olhos,
as mulheres abriam alas, me tocando, me pedindo graças.
Desde então faço milagres.

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ADÉLIA PRADO
Bagagem (1976)

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26.4.07

Adélia Prado (Casamento)





CASAMENTO





Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como 'este foi difícil'
'prateou no ar dando rabanadas'
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.



ADÉLIA PRADO
Terra de Santa Cruz
(1981)


[Alguma poesia]

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4.3.06

Adélia Prado (Com licença poética)





COM LICENÇA POÉTICA




Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
- dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.



Adélia Prado



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12.1.06

Adélia Prado (Neurolinguística)




NEUROLINGÜÍSTICA



Quando ele me disse
ô linda,
pareces uma rainha,
fui ao cúmice do ápice
mas segurei meu desmaio.
Aos sessenta anos de idade,
vinte de casta viuvez,
quero estar bem acordada,
caso ele fale outra vez.



Adélia Prado



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