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31.1.26

Eugénio de Andrade (À beira de água)




À BEIRA DE ÁGUA

 

Estive sempre sentado nesta pedra
escutando, por assim dizer, o silêncio.
Ou no lago cair um fiozinho de água.
O lago é o tanque daquela idade
em que não tinha o coração
magoado. (Porque o amor, perdoa dizê-lo,
dói tanto! Todo o amor. Até o nosso,
tão feito de privação.) Estou onde
sempre estive: à beira de ser água.
Envelhecendo no rumor da bica
por onde corre apenas o silêncio.
 

Eugénio de Andrade

 .

10.4.23

Eugénio de Andrade (Não se aprende grande coisa)




Não se aprende grande coisa com a idade.
Talvez a ser mais simples,
a escrever com menos adjectivos.
Demoro-me a escutar um rumor.
Pode ser o prelúdio tímido ainda
do cantar de um pássaro, uma gota
de água na torneira mal fechada,
a anunciação do tão amado
aroma dos primeiros lilases.
Seja o que for, é o que me retém
aqui, me sustenta, impede de ser
uma qualquer vibração da cal,
simples acorde solar, um nó
de luz negra prestes a explodir.

 

Eugénio de Andrade

[Poemário]

 .

25.10.22

Eugénio de Andrade (Elas são as mães)




Elas são as mães:
rompem do inferno, furam a treva,
arrastando
os seus mantos na poeira das estrelas.

Animais sonâmbulos,
dormem nos rios, na raiz do pão.

Na vulva sombria
é onde fazem o lume:
ali têm casa.
Em segredo, escondem
o latir lancinante dos seus cães.

Nos olhos, o relâmpago
negro do frio.

Longamente bebem
o silencio
nas próprias mãos.

O olhar
desafia as aves:
o seu voo é mais fundo.

Sobre si se debruçam
a escutar
os passos do crepúsculo.

Despem-se ao espelho
para entrarem
nas águas da sombra.

É quando dançam
que todos os caminhos
levam ao mar.

São elas que fabricam o mel,
o aroma do luar,
o branco da rosa.

Quando o galo canta
Desprendem-se
para serem orvalho.

 

Eugénio de Andrade

[Escritas]

.

16.8.22

Eugénio de Andrade (Balança)





BALANÇA

 

No prato da balança um verso basta
para pesar no outro a minha vida.

 
Eugénio de Andrade

 .

5.5.21

Eugénio de Andrade (Este país é um corpo exasperado)



Este país é um corpo exasperado,
a luz da névoa rente ao peito,
a febre alta à roda da cintura.  

O país de que te falo é o meu,
não tenho outro onde acender o lume
ou colher contigo o roxo das manhãs.  

Não tenho outro, nem isso importa,
este chega e sobra para repartir
com os corvos - somos amigos.
 

Eugénio de Andrade


.

1.8.20

Eugénio de Andrade (Mar de Setembro)





MAR DE SETEMBRO



Tudo era claro:
céu, lábios, areias.
O mar estava perto,
fremente de espumas.
Corpos ou ondas:
iam, vinham, iam,
dóceis, leves - só
ritmo e brancura.
Felizes, cantam;
serenos, dormem;
despertos, amam,
exaltam o silêncio.
Tudo era claro,
jovem, alado.
O mar estava perto.
Puríssimo. Doirado.


Eugénio de Andrade

[Acontecimentos]

-

16.7.19

Eugénio de Andrade (Foz do Douro)






FOZ DO DOURO



É outra vez abril
– e tão perfeito é o azul
que o estendo
ao longo do meu corpo.
Não sei de ninguém tão bem vestido!


Eugénio de Andrade

[Canal de poesia]

.

8.8.18

Eugénio de Andrade (Anunciação da alegria)






ANUNCIAÇÃO DA ALEGRIA



Devia ser verão, devia ser jovem:
ao encontro do dia caminhava
como quem entra na água.

Um corpo nu brilhava nas areias
- corpo ou pedra?, pedra ou flor?

Verde era a luz, e a espuma
do vento rolava pelas dunas.

De repente vi o mar subir a prumo,
desabar inteiro nos meus ombros.

Aprendia a falar de boca em boca,
mordendo as palavras de alegria.

Sem muros era a terra, e tudo ardia.


Eugénio de Andrade


.

16.10.17

Eugénio de Andrade (De palavra em palavra)





De palavra em palavra                 
a noite sobe
aos ramos mais altos
e canta
o êxtase do dia.


Eugénio de Andrade


.

27.7.17

Eugénio de Andrade (Cantas. E fica a vida suspensa)





(II)

Cantas. E fica a vida suspensa.
É como se um rio cantasse:
em redor é tudo teu;
mas quando cessa teu canto
o silêncio é todo meu.


Eugénio de Andrade



.


6.3.17

Eugénio de Andrade (Com a manhã)





COM A MANHÃ

                                     

Vem dos lados do rio, as mãos fresquíssimas,
algumas gotas de água ainda nos cabelos.
Com a manhã chega o anónimo respirar do mundo.
Um cheiro a pão fresco invade o pátio todo.
Vem dos lados do rio:
para levar à boca, ou ao poema.


Eugénio de Andrade



.

22.2.17

Eugénio de Andrade (O silêncio)





O SILÊNCIO       



Dai-me outro verão nem que seja
de rastos, um verão
onde sinta o rastejar
do silêncio,
a secura do silêncio,
a lâmina acerada do silêncio.
Dai-me outro verão nem que fique
à mercê da sede.
Para mais uma canção.


EUGÉNIO DE ANDRADE
Rente ao Dizer(1992)

.

19.5.16

Eugénio de Andrade (É quando a chuva cai)





É quando a chuva cai, é quando
olhado devagar que brilha o corpo.
Para dizê-lo a boca é muito pouco,
era preciso que também as mãos
vissem esse brilho, dele fizessem
não só a música, mas a casa.
Todas as palavras falam desse lume,
sabem à pele dessa luz molhada.


Eugénio de Andrade


[Canal de poesia]

.

26.1.16

Eugénio de Andrade (Nem sempre a luz vem assim)





Nem sempre a luz vem assim:
salta como um rapaz muro após muro,
entra pela janela.

O brilho dos medronhos chega ao fim:
extrema ponta dos dias,
aproximação da água.

Dia feito para a música, dizias;
ou para a dança, acrescentavas:
ritmo puro, sustido.

De muro em muro, sem nenhum peso,
entra pela casa.
Agora é ela que dorme comigo.


Eugénio de Andrade

.

23.9.15

Eugénio de Andrade (Sulcos do Verão)





SULCOS DO VERÃO



Correm pelos sulcos do verão.
São escuros, e correm para mim.
Há quem tenha casa em Corfu
e jardins em Granada;
ou até barcos no mar.
Há quem tenha aqueles olhos,
a água funda desses olhos.
Como eu.
Para beber até ao fim.


Eugénio de Andrade

.

7.3.15

Eugénio de Andrade (Despedida)





DESPEDIDA



Colhe
todo o oiro do dia
na haste mais alta
da melancolia.


Eugénio de Andrade

.

4.10.14

Eugénio de Andrade (Espera)





ESPERA



Horas, horas sem fim,
pesadas, fundas,
esperarei por ti
até que todas as coisas sejam mudas.

Até que uma pedra irrompa
e floresça.
Até que um pássaro me saia da garganta
e no silêncio desapareça.


Eugénio de Andrade


[Luz & sombra]

.

23.12.13

Eugénio de Andrade (Casa na chuva)





CASA NA CHUVA



A chuva, outra vez sobre as oliveiras.
Não sei por que voltou esta tarde
se minha mãe já se foi embora,
já não vem à varanda para a ver cair,
já não levanta os olhos da costura
para perguntar: Ouves?
Oiço, mãe, é outra vez a chuva,
a chuva sobre o teu rosto.

Eugénio de Andrade


[Instituto Camões]

26.5.13

Eugénio de Andrade (A primeira neve)






A PRIMEIRA NEVE



E depois, tão antiga a neve.
Só o lume a podia trazer
da fundura dos dias
a esta casa. Brancura estendida
em páginas lidas
a outra luz, dentro do sono.
Quase sem peso, sem nenhum
ruído - vinda de outros céus,
outros caminhos.
A primeira neve. E tão antiga.


Eugénio de Andrade


[Silva]

.