UM LIVRO ME LEVA PELA MÃO
folheio, devagar, as páginas de um livro:
ondas pálidas e cardumes de letras negras
flutuam-me entre as mãos.
escuto o sussurro de poemas antigos,
deslizando sob os meus dedos,
na mútua carícia de quem troca o lume.
entre a capa e a contracapa,
versos e rimas murmuram, palavras
cálidas como uma mulher entreaberta.
e toda a noite o livro me leva pela mão,
em cada página, a ferida do amor
e o oceano de um branco quase azul.
é madrugada. fecho o livro.
tranquilas vozes adormecem-me
— e, no sono de um verso, naufrago.
João de Mancelos
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