(Cria a natureza)
Cria a natureza as suas diversas criaturas com admirável
brutidade.
Entre mortos e aleijados, considera, não faltará quem escape para garantir os
resultados da gerência, modo ambivalente e portanto equívoco de substantivar o
gerir e o gerar, com aquela confortável margem de imprecisão que produz as
mutações do que se diz, do que se faz e do que se é.
Não marca a natureza coutadas, mas aproveita delas.
E se depois das ceifas os
mil formigueiros da seara não têm celeiro igual, os ganhos e perdas vão todos à
grande contabilidade do planeta e nenhuma formiga fica sem a sua estatística
parte de alimento.
Ao apuramento do saldo importa pouco que tenham morrido aos
milhões por inundação natural, revolvimento de enxada ou desafio de micções:
quem viveu, comeu, quem morreu deixou aos outros.
A natureza não conta mortos, conta
vivos, e, quando estes lhe sobejam, arranja uma nova mortandade.
É tudo muito fácil, muito claro e muito justo, porque, de memória de formiga ou
elefante, ninguém tal contestou no grande reino dos animais.
JOSÉ SARAMAGO
Levantado do Chão
(1980)
