5.7.26

José Saramago (Cria a natureza)


(Cria a natureza)

Cria a natureza as suas diversas criaturas com admirável brutidade.
Entre mortos e aleijados, considera, não faltará quem escape para garantir os resultados da gerência, modo ambivalente e portanto equívoco de substantivar o gerir e o gerar, com aquela confortável margem de imprecisão que produz as mutações do que se diz, do que se faz e do que se é.
Não marca a natureza coutadas, mas aproveita delas.
E se depois das ceifas os mil formigueiros da seara não têm celeiro igual, os ganhos e perdas vão todos à grande contabilidade do planeta e nenhuma formiga fica sem a sua estatística parte de alimento.
Ao apuramento do saldo importa pouco que tenham morrido aos milhões por inundação natural, revolvimento de enxada ou desafio de micções: quem viveu, comeu, quem morreu deixou aos outros.
A natureza não conta mortos, conta vivos, e, quando estes lhe sobejam, arranja uma nova mortandade.
É tudo muito fácil, muito claro e muito justo, porque, de memória de formiga ou elefante, ninguém tal contestou no grande reino dos animais.

JOSÉ SARAMAGO
Levantado do Chão
(1980)

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