26.12.21

António Franco Alexandre (Envoi)



ENVOI 

 

João, em viagem sê discreto.
Esquece as mil e três, as onze mil.
De duas mãos já sentes o excesso;
de escafandro cortês é como ficas
bem, ao cortar o retrato.
 
Não é verdade que este mundo seja
o pior, o melhor; melhor, se é teu.
Se é teu o arremesso, a flecha voa
certeira, à desprendida presa.
 
Verás os montes altos, os eternos,
e o mais pequeno, onde nasce o dia.
Precioso brinquedo, a terra gira
com a precisa alma do relógio;
leva contigo tudo, não me poupes;
onde não sou é que começo, eu.

 
António Franco Alexandre

[Canal de poesia]

 .


24.12.21

Joaquín Márquez (Quem inventou o amor)




QUIEN INVENTÓ EL AMOR

  

Quien inventó el amor,
creó desnudo el cuerpo
y dio al tacto semillas precursoras.
Imán
para los ojos. Eva lo supo a tiempo;
sólo puede ascender hasta los dioses
lo que perece. Nunca hubiera
servido a la pasión un cuerpo eterno.


Joaquín Márquez

 

 

Quem inventou o amor
criou o corpo sem roupa,
e deu ao tacto sementes precursoras.
Iman
para a vista. Eva soube-o a tempo;
só pode subir aos céus
aquilo que perece. Um corpo eterno
nunca serviria à paixão.


(Trad. A.M.)

.

23.12.21

Joaquín Giannuzi (Violino obrigado)




VIOLIN OBLIGADO

 

En tu cerebro harapiento entró Mozart:
una ética absoluta, fresco y antiguo.
Cuántas cosas desde el mundo lo ocupaban,
pesadas. Puertas, caminos,
y montañas de polvo que reclamaban
un orden para un significado.
Pero el violín circuló
y todas las desesperaciones lo seguían
en círculos, como perros que no alcanzan
el tema central, la intensidad secreta,
el solo de Mozart en su cielo obligado.
 

Joaquín Giannuzi

 

Em teu cérebro entrou Mozart,
uma ética absoluta, fresco e antigo.
Quantas coisas do mundo, pesadas,
o ocupavam. Portas, caminhos,
montes de pó reclamando
para um sentido uma ordem.
Mas o violino desandou
e o desespero foi-lhe atrás em círculos,
como matilha de cães que não atinge
o tema central, a intensidade secreta,
o solo de Mozart em seu céu obrigado.

(Trad. A.M.)

.

21.12.21

Armindo Rodrigues (A luz range)




 (XII)                                   

 

A luz range e rasga,
intensa, a esperança
que ela própria acende.

A luz abre as asas,
como o chão se abre
à dor das sementes.

A luz é de cal.
A luz é de sangue.
A luz é de sempre.


ARMINDO RODRIGUES
Quadrante Solar
IN/CM (1984)

 .

19.12.21

Joaquín Antonio Peñalosa (Receita para fazer uma laranja)




RECETA PARA HACER UNA NARANJA



Contrátese a la primavera
para que diseñe los azahares,
es tan imaginativa la modista en velos nupciales,
sólo que trabaja unos días al año.
Los dedos de la lluvia
          esparzan dos cucharaditas de azúcar,
esponje el aire los gajos de la cúpula,
se desentienda el sol de todo el universo
para teñirle la piel con sus pinceles
         especializados en rojos,
añádase el barniz del otoño para sellar los poros,
qué envidia el pop-art y las naturalezas muertas.
         No toques aún esta naranja,
ponte primero de rodillas y adora como los
       ángeles,
fue hecha para ti en exclusiva,
       para nadie más,
como un pequeño inmenso amor
      que se cae de maduro
      que se entrega redondo.
 

Joaquín Antonio Peñalosa


 

Contratar a primavera
para desenhar as flores,
é tão imaginativa a modista em véus de núpcias,
só que trabalha alguns dias por ano.
Os dedos da chuva
               espalhem duas colherinhas de açúcar,
esponje o ar os galhos da copa,
desentenda-se o sol de todo o universo
para lhe pintar a casca com seus pincéis
               especializados em vermelhos,
junte-se o verniz para selar os poros,
que inveja a pop-art e as naturezas mortas.
               Não tocar ainda na laranja,
pôr-se de joelhos primeiro e adorar como os anjos,
ela foi feita apenas para ti,
               para mais ninguém,
como um pequeno amor imenso,
               que cai de maduro,
               que se entrega redondo.


(Trad. A.M.)

.

18.12.21

Joan Margarit (Final de recital)




FINAL DE RECITAL



Me deslumbran los focos cuando miro
hacia esa oscuridad en donde estáis vosotros.
Los focos son ésta ilusión que crea
la sombra desde donde escucháis la claridad
de mi ceguera.
Todos llevamos, dentro de nosotros,
un auditorio oscuro
escuchando en silencio alguna historia
de seducción sin esperanza.
Amar es ser distante, y el amor
es ser un extranjero. Pero vosotros sois
la hospitalidad de éste silencio
que me ha estado escuchando
aún sabiendo que dentro de vosotros
dejaré de existir, que no habré sido
más que la sombra amada de algún otro.

Joan Margarit

[Noctambulario

 

Deslumbram-me os focos quando olho
para esse escuro onde estais.
Os focos são esta ilusão que gera
a sombra em que me escutais
a claridade de cego.
Todos temos, dentro de nós,
um escuro auditório
ouvindo em silêncio uma história
de sedução sem esperança.
Amar é ser distante e o amor
é ser estrangeiro. Mas vós sois
a hospitalidade deste silêncio
que esteve a ouvir-me,
mesmo sabendo que deixarei de existir
dentro de vós, que não fui mais
do que a sombra amada de um outro.


(Trad. A.M.)

.


16.12.21

Isabel Mendes Ferreira (Começamos a envelhecer)




começamos a envelhecer
quando inventariamos as dores
as memórias a esquadria do coração
e dos pulmões e da garganta
e das mãos distorcidas pelo gesto
de transformar o disforme em estrelas
ou em vésperas de afogamento voluntário.

começamos a beber o passado
e a ancorar nas ausências o macro antibiótico
da sombra em machado de granizo
sobre os cabelos.

envelhecemos quando a porta à nossa frente
já é inconciliável com a luz
e resta apenas uma língua morta
para escrever adeus na bainha de um vestido apertado.

fica entre os outros o ouro do outro
futuro
que de nós nem o nevoeiro.

Isabel Mendes Ferreira

 .

14.12.21

Carlos Sahagún (Inverno e lama)




INVIERNO Y BARRO

 

Sé que, por mucho fuego que ahora ponga,
la adolescencia transcurrió conmigo
y del fragor de sus mitologías,
frente a los altos muros combatidos,
sólo quedaron evidencias vagas,
ecos ahogados bajo el cielo efímero.
Mas removiendo a fondo estas cenizas
regresa a veces un fervor perdido
y unos focos alumbran a intervalos
el aguacero en el suburbio, al filo
de la honda madrugada. ¿Vuelves tú,
difuminada imagen de mí mismo,
vuelves apenas a entregarme sólo
la ambigüedad al fin, no el contenido
tenaz de aquellos años sin fronteras
en que íbamos descalzos, insumisos,
y era verdad la vida solidaria
aun con invierno y barro en los caminos?

Pues fracasó la realidad de entonces,
no sucumba el poema, no haya olvido.

Carlos Sahagún

 

 

Por muita lenha que ponha agora no fogo,
sei que a adolescência passou
e do fragor das suas mitologias,
diante dos muros inimigos,
ficaram só indícios vagos,
ecos abafados debaixo do céu efémero.
Mas remexendo as cinzas
retorna às vezes um fervor perdido
e alguns focos iluminam o aguaceiro
no subúrbio, no fio da madrugada.
Tu voltas, esfumada imagem de mim mesmo,
tu voltas para me entregar
por fim a ambiguidade, não o conteúdo
tenaz desses anos sem fronteiras,
em que andávamos descalços, insubmissos,
e a vida solidária era verdade,
mesmo com inverno e lama pelos caminhos?

Já que fracassou a realidade de então,
não sucumba o poema,
não triunfe o esquecimento.


(Trad. A.M.)

 .

13.12.21

Francisco Umbral (A máquina de escrever)




LA MÁQUINA DE ESCRIBIR 

 

Pequeña metralleta entre mis manos,
máquina de matar con adjetivos,
máquina de escribir, arma del tiempo.
En todas las mañanas de mi vida,
el tableteo audaz de mi olivetti,
ese ferrocarril de ortografía
en que viajo muy lejos de mí mismo
o retorno a los campos de la prosa
para reñir batallas en mi lengua
con todos los que mienten, los que gritan,
con los que escriben en feroz tanqueta
para no decir nada y meter miedo. 

Vieja olivetti verde, azul o negra,
escalinata alegre de las letras,
sobre esta escalinata, una mañana,
me encontrarán tendido, no vencido.
Libros, papeles, cosas y poemas
han salido y saldrán de este cacharro.
Pavonado revólver de mi prosa,
sus muecas son ministros fusilados,
canto de codorniz, canto de urraca,
como las que ahora pueblan el jardín.
Alegría y salud, mi vieja máquina
me regala un estilo, una escritura
y las gentes se paran para verlo.
 

Francisco Umbral

  


Pequena metralhadora em minhas mãos,
máquina de matar com adjectivos,
máquina de escrever, arma do tempo.
Nas manhãs todas da vida,
o taquetear audaz da Olivetti,
esse caminho-de-ferro da ortografia
em que eu viajo para longe de mim mesmo
ou retorno aos campos da prosa
para na minha língua dar batalha
a todos que mentem, que gritam,
que escrevem com armas pesadas
pra meter medo e não dizer nada.

Velha Olivetti verde, ou azul, ou negra,
escadaria alegre das letras,
nesta escadaria, um dia, me hão-de achar
deitado ao comprido, mas não vencido.
Livros, papéis, coisas e poemas
saíram e hão-de sair deste pote.
Pavonada pistola, minha prosa,
suas caretas são ministros fuzilados,
cantar de pega ou codorniz,
como as que povoam ali o jardim.
Alegria e saúde, minha velha máquina
oferece-me um estilo, uma escrita
e as pessoas param para o ver.


(Trad. A.M.)

 >>  Francisco Umbral (blogue dedicado) / Francisco Umbral (poemas) / Wikipedia

.

11.12.21

Ana Paula Inácio (Amanhã vou comprar)




Amanhã vou comprar umas calças vermelhas
porque não tenho rigorosamente
nada a perder: 
contei, um a um, todos os degraus
sei quantas voltas dei à chave, 
sublinhei as frases importantes, 
aparei os cedros, 
fechei em códigos
toda a escrita.

Amanhã comprarei calças vermelhas
fixarei o calendário agrícola
afiarei as facas
ensaiarei um número 
abrirei o livro na mesma página 
descobrirei alguma pista.


Ana Paula Inácio

[Otra iglesia]

 .

9.12.21

Javier Salvago (Divagações sobre um tema)




DIVAGACIONES SOBRE UN TEMA

 

La madurez debe ser esto:
este cansancio, esta desgana,
este saber, ya de antemano,
que nada sirve para nada.

La claridad que nos despierta
a una inclemente y gris mañana,
la claridad que ahuyenta sueños
de juventud, y nos desalma.

Este abandono, esta renuncia
al ideal y a la esperanza,
este vender al dios que fuimos
por bagatelas y migajas.

Dejarlo todo para luego
–amigos, vida, libros, causas–
porque otras cosas que no amamos
están ahí y nos reclaman.

Sentir el tiempo, sobre uno,
como una losa o una espada,
y ver que el tiempo se nos va
de entre las manos, que se acaba.

Ceder las riendas, que el deseo
hasta ayer mismo gobernaba,
a otros jinetes más prudentes,
notar que el cuerpo no acompaña.

Que no nos sigue, porque sabe
que todo exceso aquí se paga,
vivir con freno y con bocado
–sobrevivir es la palabra–.

La madurez debe ser esto:
comprender cosas que espantaban
vistas de lejos, comprender
que uno está preso en una trampa.


Javier Salvago

 

Deve ser isto a maturidade,
este cansaço, esta sem-vontade,
este saber, já de antemão,
que nada serve para nada.

A claridade que nos desperta
na manhã cinzenta impiedosa,
a claridade que faz fugir os sonhos
de juventude, e nos esmalma.

Este abandono, esta renúncia
do ideal e da esperança,
este trocar o deus que fomos
por migalhas e bagatelas.

Deixar tudo para depois
- amigos, vida, livros, causas -
por haver outras coisas
que não amamos, mas que nos chamam.

Sentir o tempo sobre nós,
como uma lousa ou uma espada,
ver que o tempo nos voa
por entre as mãos, que se acaba.

Ceder as rédeas, que o desejo
ainda ontem governava,
a outros ginetes mais prudentes,
notar que o corpo já fica para trás.

Que não nos segue, por saber
que todo excesso aqui se paga,
viver com freio e devagar,
pois sobreviver é a palavra.

Deve ser isto a maturidade,
perceber as coisas que espantavam
vistas de longe, perceber
que estamos presos numa cilada.


(Trad. A.M.)

.

8.12.21

Hilario Barrero (Cemitério em Luarca)




CEMENTERIO EN LUARCA

 

Las cruces en lo alto sostienen
la plenitud azul del mediodía
y la muerte escondida se enfrenta
victoriosa con el mar.
Matrimonios unidos de por vida
(o eso dicen las lápidas borrosas)
vinculados ahora por la muerte
esperan lo imposible:
que el mar se seque y que vuelva el amor.
Cuando vivías, un cementerio marino
me traía el recuerdo de pinos y palomas,
ahora me acerca a ti, madre,
esperando en un mar de secano
que los chillidos de las gaviotas que no oyes
te despierten y te traigan ese amor
que hace tiempo abandonó tu vida.


Hilario Barrero
 

 

As cruzes ao alto sustentam
a plenitude azul do meio-dia
e a morte oculta afronta
o mar, vitoriosa.
Casais unidos para a vida
(ou assim dizem as lápidas)
esperam o impossível,
vinculados agora pela morte:
que o mar seque e volva o amor.
Quando eras viva, um cemitério marinho
trazia-me a lembrança de pombas e pinheiros,
agora leva-me a ti, minha mãe,
esperando num mar de sequeiro
que os gritos das gaivotas que não ouves
te despertem e te tragam esse amor
que te escapou com a vida.


(Trad. A.M.)

 .

6.12.21

Joaquim Namorado (Sobre a planície cai)



Sobre a planície cai
uma chuva de lume
do sol a prumo.
A solidão sem sombras
incendeia-se de estrelas
e o silêncio estala
como a pele de frenéticos tambores
batidos furiosamente.
Os homens dobrados para a terra levantam
as cabeças medindo os horizontes rasos e
distantes com olhos ávidos, sem piedade.

 Joaquim Namorado

 .

4.12.21

Jacobo Rauskin (Prelúdio)




PRELUDIO

 

Busca y busca el amor una palabra
y la encuentra en los bordes del silencio.
Tiemblan las hojas, pero calla el viento.


Jacobo Rauskin

 

 

Busca o amor e torna a buscar uma palavra
e encontra-a nas margens do silêncio.
Tremem as folhas, cala-se o vento.


(Trad. A.M.)

.

3.12.21

Antonio Cicero (A cidade e os livros)




A CIDADE E OS LIVROS

 

O Rio parecia inesgotável
àquele adolescente que era eu.
Sozinho entrar no ônibus Castelo,
saltar no fim da linha, andar sem medo
no centro da cidade proibida,
em meio à multidão que nem notava
que eu não lhe pertencia - e de repente,
anônimo entre anônimos, notar
eufórico que sim, que pertencia
a ela, e ela a mim -, entrar em becos,
travessas, avenidas, galerias,
cinemas, livrarias: Leonardo
da Vinci Larga Rex Central Colombo
Marrecas Íris Meio-Dia Cosmos
Alfândega Cruzeiro Carioca
Marrocos Passos Civilização
Cavé Saara São José Rosário
Passeio Público Ouvidor Padrão
Vitória Lavradio Cinelândia:
lugares que antes eu nem conhecia
abriam-se em esquinas infinitas
de ruas doravante prolongáveis
por todas as cidades que existiam.
Eu só sentira algo semelhante
ao perceber que os livros dos adultos
também me interessavam: que em princípio
haviam sido escritos para mim
os livros todos. Hoje é diferente,
pois todas as cidades encolheram,
são previsíveis, dão claustrofobia
e até dariam tédio, se não fossem
os livros infinitos que contêm.

Antonio Cicero

[Antonio Miranda]

 .

1.12.21

Graciela Perosio (Com os anos apercebo-me)




Con los años, advierto que la emoción
no es más un cuarto o un cerco,
sino un leve telón, un perfume
—apenas una sábana de tul—
que en un momento punzante me traspasa
y se desvanece luego, hasta alejarse.
La veo tendida allí, casi una nube de luz
chisporroteante,
desde esta inalterable serenidad
donde germinan los hondos sentimientos.
Aquellos pocos que no
van a morir.


Graciela Perosio

 

 

Com os anos, apercebo-me que a emoção 
não é bem um quarto ou círculo,
mas antes uma cortina ligeira, um perfume
- quase um lençol de tule -
que num momento lancinante me trespassa
e se desvanece depois, até se afastar.
Vejo-a estendida, uma nuvem de luz quase,
aqui desta inalterável serenidade
onde germinam os sentimentos profundos.
Esses poucos que não morrem.


(Trad. A.M.)

 .

29.11.21

Gloria Fuertes (Os pássaros fazem-me ninho)




LOS PÁJAROS ANIDAN EN MIS BRAZOS


Los pájaros anidan en mis brazos,
en mis hombros, detrás de mis rodillas,
entre los senos tengo codornices,
los pájaros se creen que soy un árbol.
Una fuente se creen que soy los cisnes,
bajan y beben todos cuando hablo,
las ovejas me pisan cuando pasan,
y comen en mis dedos los gorriones;
se creen que soy tierra las hormigas
y los hombres se creen que no soy nada.

 

Gloria Fuertes

[Emma Gunst]

 

 

Os pássaros fazem-me ninho nos braços,
nos ombros, por trás dos joelhos,
tenho codornizes nos seios,
os pássaros pensam que sou uma árvore.
Uma fonte, pensam os cisnes,
que descem e bebem quando eu falo,
pisam-me as ovelhas ao passar
e os pardais comem-me na mão;
julgam que sou terra as formigas
e os homens julgam que eu não sou nada.


(Trad. A.M.)

.

28.11.21

Fernando Luis Chivite (Poema da descrença)




POEMA DEL DESCREIMIENTO


                                    Pasados los treinta años,
                                    los seres humanos se hunden en el horror.

                                                                                  Gombrowicz

Ya he cumplido los cuarenta y siete. No soy pues
inocente. Me he hundido en el horror y he aceptado
el mundo (con tristeza lo digo).

Digamos que al final he acabado aceptándolo,
que viene a ser lo mismo que decir que he dejado
de creer.

Y no me queda otro remedio que asumir
que lo que empieza ahora es ya completamente
otra cosa.

La cuestión, en todo caso (si es que hay que hacer
de esto una cuestión),
es averiguar qué.

Suena como un sarcasmo, pero es así.

Y ahí radica precisamente
el desafío:
en descubrir qué demonios puede ser eso
que debería empezar precisamente
ahora.

Después del descreimiento y de la aceptación.
Después del horror.
Y después de todo
lo demás.

 
Fernando Luis Chivite

 

 

Já fiz quarenta e sete, por isso
não sou inocente. Afundei-me no horror
e aceitei o mundo (com tristeza o digo).

Digamos que no final acabei aceitando,
o que vale por dizer que deixei
de crer.

E não me sobra outro remédio que assumir
que o que começa agora é já completamente
outra coisa.

A questão, em todo o caso (se é que podemos
chamar-lhe uma questão),
é a de saber o quê.

Parece a gozar, mas é assim.

E aí radica precisamente
o desafio,
descobrir que raio será isso
que devia começar precisamente agora.

Depois da descrença e da aceitação.
Depois do horror. E depois de tudo o resto.


(Trad. A.M.)

.

26.11.21

24.11.21

Ernesto Pérez Vallejo (De falar com a folha em branco)






DE HABLAR CON UN FOLIO EN BLANCO 

 

Jodido diario: 

Hoy también ha pasado de largo,
sigue siendo primavera en sus ojos
y su boca ha vuelto a marchitar
todas las flores del parque. 

Llevaba la camiseta blanca,
ya sabes, la que llevaba puesta aquel sábado
que con la yema de mi dedo índice
yo rocé suavemente su cintura
y tardé en dejar de sonreír
nueve minutos seguidos.
Estuve a quince segundos de batir mi propio récord.
Una pena. 

De largo,
con sus botas negras de besar el asfalto,
enseñándole música a los bordillos de la calle. 

Hay quien piensa que los versos me crecen entre los dedos.
¿ Pero como escribir un puto poema si no me mira? 

Hoy he visto a Ainara,
le está creciendo muy rápido el pelo,
solo tiene un pecho y es tan bonita
que podría prescindir también del otro
y brillaría exactamente igual.
Igual que cuando teníamos quince años
y en el baño de su casa me enseñaba la fuerza
con la que le crecía el vello púbico. 

¿ Como estás? Le he preguntado.
Sigue fumando.
- ¿Sabes el hueco que se te queda en el pecho
cuando el amor de tu vida te abandona para siempre?
Pues esto es igual,
solo que en lugar de abandonarte alguien
lo haces tú misma.
También me ha dicho que ya no sabe llorar,
que ni siquiera "Los puentes de madison"
le han logrado sacar una puta lágrima.
Ella que lloraba hasta cuando se le acababan los cereales. 

Me ha dado verdadera tristeza,
no hay nada peor en el mundo que llorar hacía dentro.

Luego muy despacio se ha ido calle abajo,
dejándome a oscuras en mitad de una calle
que nunca recordará nuestros nombres. 

De largo, jodido diario, de largo,
con esos vaqueros apretados
que consiguen poner en rojo
todos los semáforos del barrio. 

No sabes cuanto me fastidia a veces,
la puntualidad de los autobuses. 

La señorita del tiempo ha dado lluvia para mañana,
imagino a un montón de estúpidos
paraguas en mano y driblando charcos
como si nunca hubieran tenido infancia. 

La mañana que Laura se fue ni siquiera llovía
y tuve yo que poner todas las lágrimas. 

- Lo peor de hacer las maletas,
no son las cosas que tienes que meter
si no todas aquellas que tienes que dejar- 

Y me miró como se miran
a los perros de las tiendas de animales. 

Era un lunes como hoy, como siempre
pero que también como la chica de la camiseta blanca
pasará de largo.

 
Ernesto Pérez Vallejo

[Los lunes que te debo]

 

Chato diário:

Hoje passou também ao largo,
mas nos seus olhos é ainda Primavera
e a boca voltou a fazer murchar
as flores todas do parque.

 Levava a camiseta branca,
aquela que tinha no sábado,
quando eu lhe embarrei
com um dedo na cinta
e fiquei a sorrir nove minutos seguidos.
Por quinze segundos batia o meu próprio recorde.
Uma pena. 

Ao largo,
com as botas negras de beijar o asfalto,
a ensinar música às bermas da rua. 

Há quem pense que os versos me nascem dos dedos.
Mas como fazer a porra de um poema
se ela não olha para mim?

 Vi Ainara hoje,
cresce-lhe muito o cabelo,
tem só um peito, mas é tão linda
que podia até ficar sem o outro
e brilharia na mesma,
tal como quando nós tínhamos quinze anos
e ela me mostrava em casa a força
com que lhe crescia o velo púbico. 

Continua a fumar.
- Como vais? perguntei-lhe.
- Sabes o buraco que te fica no peito
quando o amor da tua vida te abandona para sempre?
Pois isto é o mesmo, só que
em vez de ser alguém a abandonar-te, és tu.
Contou-me também que já não sabe chorar,
que nem "As pontes de Madison"
conseguiram arrancar-lhe uma lágrima,
ela que até chorava por lhe acabar o cerelac.

 O que me deu uma grande tristeza,
porque não há nada pior do que chorar para dentro.

 Depois foi pela rua abaixo, devagarinho,
deixando-me às escuras no meio de uma rua
que nunca mais lembrará os nossos nomes.

 Ao largo, chato diário, ao largo,
com aquelas calças apertadas,
capazes de pôr no vermelho
os semáforos todos do bairro.

Tu não sabes quanto me aborrece, às vezes,
a pontualidade dos autocarros.

 A menina do tempo deu chuva para amanhã,
de modo que já estou a ver uma caterva de estúpidos
de guarda-chuva na mão, a fintarem os charcos da rua
como se nunca tivessem tido infância. 

No dia em que Laura se foi não chovia sequer
e tive que ser eu a fornecer as lágrimas todas:

 - O pior de fazer as malas
não são as coisas que tens de meter,
mas sim as coisas que tens de deixar -

E olhou-me como se olham
os cachorros das lojas de animais. 

Era segunda-feira como hoje,
como sempre, dia também em que a miúda
da camiseta branca há-de passar ao largo.
 

(Trad. A.M.)

 .

23.11.21

Eloy Sánchez Rosillo (Instante)




INSTANTE 

 

¿Cómo no estar conforme precisamente ahora
-e incluso para siempre- con la vida,
cuando el sol de esta tarde fría y azul,
muy bajo ya, se adentra por mi casa
y hasta el fondo penetra sin ningún titubeo
y convierte a su paso cuanto toca
en oro vivo y repentino, en oro
que nada durará, pero que llena
de compasión el mundo para mí en este instante?
 

Eloy Sánchez Rosillo 

[Life vest under your seat]

 

  

Como não me conformar com a vida,
agora, precisamente - e mesmo para sempre -
quando o sol desta tarde fria e azul,
já baixo, me entra pela casa
e penetra até ao fundo sem qualquer hesitação
e converte à passagem tudo o que toca
em ouro vivo e repentino, em ouro
que não durará, mas enche o mundo
de compaixão para mim, neste instante. 

(Trad. A.M.)

 .

21.11.21

Armindo Rodrigues (Entre montados)




ENTRE MONTADOS

 

Entre montados, olivais antigos,
laranjais, vinhas, candentes searas,
hortas frescas com as suas noras,
movem-se homens decididos.
Em tudo o que fazem põem gravidade,
serenidade, cuidado, harmonia.
Ao morrerem, morrem sem terror da morte,
que acham natural como terem nascido.


Armindo Rodrigues

[Ajuda-me a ver]

 

 

>> Citador (3p) / Archive (Um poeta qs esquecido) / Archive (Centenário) / Wikipedia

.

19.11.21

Eduardo Dalter (Tece a aranha)




TEJE LA ARAÑA



Teje la araña su día 
y engulle voraz, 
pacientemente todo 
lo que ya no podrá volar;
y de resultas simula,
teje y simula,
que ama las alturas. 
Es casi una mariposa presa 
de la tela 
de su aracnidad triste. 
     Y murmura
–nadie la escucha–
y reza en las noches
mientras teje.


Eduardo Dalter

 

 

Tece a aranha seu dia
e engole voraz,
pacientemente, tudo
aquilo que não voa;
e por consequência simula,
tece e simula,
que ama as alturas.
Quase borboleta
presa da teia
de sua triste aranhice.
E murmura
- ninguém  a escuta -
e reza de noite
enquanto tece.


(Trad. A.M.)

.

18.11.21

César Cantoni (Parafraseando Fernando Pessoa)




 PARAFRASEANDO A FERNANDO PESSOA

 

Todas las cartas de amor son ridículas, escribió el poeta.
Todos los poemas de amor también son ridículos.
El amor, incluso, es una cosa ridícula.
La gente mata o muere ridículamente por amor.
¿Pero quién que haya amado hasta el ridículo
no vio abrirse a su paso las aguas del Mar Rojo?

César Cantoni

 

 

Todas as cartas de amor são ridículas, disse o poeta.
Todos os poemas de amor são ridículos também.
O amor, mesmo, é uma coisa ridícula.
As pessoas matam ou morrem ridiculamente por amor.
Mas quem é que, tendo amado até ao ridículo,
não viu abrirem-se-lhe à passagem as águas do Mar Vermelho?


(Trad. A.M.)

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16.11.21

Artur Cruzeiro Seixas (Um cão)




Um cão 
é isto de sermos gente. 

Se temos só duas pernas 
temos em contrapartida 
uma complicação escura 
dentro do peito. 

Qualquer coisa como 
os fundos desconhecidos 
da água 
só conhecidos 
dos náufragos. 

Para matar 
é preciso uma arma 
e para voar 
como búzios 
precisamos papel e lápis 
— e assim viajamos 
dentro de vegetais malas de viagens 
procurando o destino sufocante 
de todas as paragens. 


Artur do Cruzeiro Seixas

 .

14.11.21

Carlos Sahagún (Desembarque)




DESEMBARCO

 

Perdida la ocasión en las batallas,
años después, hombres y niños esperábamos
un desembarco salvador.

Se poblaban las playas de miradas,
los sueños, de navíos.

Pero nadie venía a destruir
la tiranía del silencio.

Nada en el horizonte de color Normandía.

Sólo espuma en la orilla y tierra inhóspita
bajo los pies descalzos, anhelantes
y acobardados.

Carlos Sahagún

 

Perdida a maré nas batalhas,
esperávamos, anos depois, grandes e pequenos,
um desembarque salvador.

Povoavam-se de olhares as praias,
de sonhos, de navios.

Mas ninguém vinha derrubar
a tirania do silêncio.

Nada no horizonte cor Normandia.

Só espuma na beira e terra inóspita
sob os pés descalços, anelantes
e acobardados.


(Trad. A.M.)

 

>>  A media voz  (28p) / Blogpoemas (28p) / U. Chile (13p) / Insula (num. monográfico) / Dialnet (monografia/276pp) / Wikipedia

 .

13.11.21

Batania (A queda)




LA CAÍDA

 

Fue mi historia con ella
como tirarse del décimo
y encontrarse en el aire
con una mujer
que se había lanzado
del noveno:
pensé que nos unía el amor,
pero
solo
nos
unía
la
caída.
 

Batania

 


Foi assim, minha história com ela,
como atirar-me do décimo andar
e encontrar-me no ar
com uma mulher
que se atirasse do nono;
pensei que nos unia o amor,
mas

nos
unia
a
queda.
 

(Trad. A.M.)

 .


11.11.21

António Reis (Não é a tua mão)




Não é a tua mão
filha

que eu levo
na minha mão

é uma raiz

que eu planto
em mim mesmo

 

António Reis

 .

9.11.21

8.11.21

Antonio Pereira (Oração)




ORACIÓN


Señor ya sabes mis cuidados con el butano y los grifos 
todo lo cierro bien pero es difícil desentenderse 
inspecciono la antena
las macetas con tantas criaturas que por debajo pasan 
sufro mucho Señor
y aunque te agradezco no haberme hecho cirujano 
ni conductor del autobús escolar
te pido que un ratito te quedes responsable
que aguantes todo esto mientras voy a un recado 
y cualquier día no vuelvo.
 

Antonio Pereira

  

Senhor bem sabes os meus cuidados com o gás e as torneiras
fecho tudo muito bem mas não é fácil desligar-me
verifico a antena
os vasos com tanta gente que passa por baixo
sofro muito Senhor
e embora te agradeça não me teres feito cirurgião 
nem condutor de carrinha escolar
peço-te que tenhas tino só um bocadinho
e olhes por tudo enquanto eu vou a um recado
e qualquer dia não volto 

(Trad. A.M.)

 .

6.11.21

Egito Gonçalves (Nenhum amor é total)




Nenhum amor é total, 
nenhum amor desenha a latitude
e longitude como linhas ideais;
na massa em fusão
há sempre uma impureza,
todo o amor tem as suas fissuras
a vigiar constantemente.
O dia, raro atinge a sua ponta extrema.
 

Egito Gonçalves

[Canal de poesia]

 .


4.11.21

Antonio Orihuela (O traje novo do imperador)




EL TRAJE NUEVO DEL EMPERADOR

 

Tengo 31 años y estoy cansado.
Todos los sitios me van pareciendo, finalmente,
igual de malos.
Todas las personas, incluso las que me quieren,
insoportables.
No encuentro sentido ni a lo que hago
ni a las cosas que dejo por hacer.
Miro a los demás
con la absoluta certeza de quien ve
no semejantes,
serenos, resignados, envilecidos extraterrestres.
Vuelvo sobre mí
y me siento como si no hubiera otros con los que compartir.
A donde quiera que miro,
la insoportable mentira que anida, germina, rezuma
este tiempo, este país, este modo de vivir
al que llaman
progresista, tolerante, solidario, democrático,
avanzado, europeo, y mejor y mejor
que todos los habidos,
que todos los posibles.
Este modo de vivir
donde falta todo lo nombrado.
Que ha deshecho la clase trabajadora sin una sola bala,
que ha encarcelado las conciencias sin una sola reja,
que me aparta sin una sola porra,
que me excluye sin un hierro candente,
sin siquiera una estrella amarilla en la solapa.
Este tiempo
de trajes nuevos,
de Emperadores.

 
Antonio Orihuela

 

Tenho 31 anos e estou cansado.
Todos os lugares me vão parecendo, por fim,
igualmente maus.
Todas as pessoas, mesmo as que me amam,
insuportáveis.
Não vejo um sentido no que faço
nem no que deixo de fazer.
Olho para os outros
com a absoluta certeza de quem vê
não semelhantes,
serenos, resignados, envilecidos extraterrestres.
Olho para mim
e sinto-me como se não tivesse outros com quem partilhar.
Para onde quer que olhe,
a insuportável mentira que faz ninho, germina, destila
este tempo, este país, este modo de viver
a que chamam
progressista, tolerante, solidário, democrático,
avançado, europeu, e melhor e melhor
que todos os havidos,
que todos os possíveis.
Este modo de viver
onde falta tudo o indicado.
Que desfez a classe trabalhadora sem uma só bala,
que encarcerou as consciências sem uma só grade,
que me afasta sem um só bastão,
que me exclui sem um ferro candente,
sem sequer uma estrela amarela na lapela.
Este tempo
de fatos novos,
de Imperadores.

 
(Trad. A.M,)


 > Outra versão: Canal de poesia (J.M.Magalhães)

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3.11.21

Antonio Machado (A praça tinha uma torre)




La plaza tiene una torre,
la torre tiene un balcón,
el balcón tiene una dama,
la dama una blanca flor.
Ha pasado un caballero
— ¡ quién sabe por qué pasó ! —
y se ha llevado la plaza,
con su torre y su balcón,
con su balcón y su dama
su dama y su blanca flor.


Antonio Machado

 

 

A praça tinha uma torre,
e a torre uma varanda,
a varanda tinha uma dama,
e a dama uma branca flor.
Então veio um cavaleiro
- sabe-se lá porque veio! -
e levou consigo a praça,
com sua torre e varanda,
com a varanda e sua dama,
com a dama e a branca flor.

(Trad. A.M.)

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1.11.21

Carlos de Oliveira (Estalactite)




ESTALACTITE                   

 

(IV)

Localizar
na frágil espessura
do tempo,
que a linguagem
pôs
em vibração
o ponto morto
onde a velocidade
se fractura
e aí
determinar
com exactidão
o foco
do silêncio.

 

Carlos de Oliveira

 .