26.2.14

Miguel Hernández (Os cobardes)





LOS COBARDES



Hombres veo que de hombres
sólo tienen, sólo gastan
el parecer y el cigarro,
el pantalón y la barba.

En el corazón son liebres,
gallinas en las entrañas,
galgos de rápido vientre,
que en épocas de paz ladran
y en épocas de cañones
desaparecen del mapa.

Estos hombres, estas liebres,
comisarios de la alarma,
cuando escuchan a cien leguas
el estruendo de las balas,
con singular heroísmo
a la carrera se lanzan,
se les alborota el ano,
el pelo se les espanta.
Valientemente se esconden,
gallardamente se escapan
del campo de los peligros
estas fugitivas cacas,
que me duelen hace tiempo
en los cojones del alma.

¿Dónde iréis que no vayáis
a la muerte, liebres pálidas,
podencos de poca fe
y de demasiadas patas?
¿No os averguenza mirar
en tanto lugar de España
a tanta mujer serena
bajo tantas amenazas?
Un tiro por cada diente
vuestra existencia reclama,
cobardes de piel cobarde
y de corazón de caña.
Tembláis como poseídos
de todo un siglo de escarcha
y vais del sol a la sombra
llenos de desconfianza.
Halláis los sótanos poco
defendidos por las casas.
Vuestro miedo exige al mundo
batallones de murallas,
barreras de plomo a orillas
de precipicios y zanjas
para vuestra pobre vida,
mezquina de sangre y ansias.
No os basta estar defendidos
por lluvias de sangre hidalga,
que no cesa de caer,
generosamente cálida,
un día tras otro día
a la gleba castellana.
No sentís el llamamiento
de las vidas derramadas.
Para salvar vuestra piel
las madrigueras no os bastan,
no os bastan los agujeros,
ni los retretes, ni nada.
Huís y huís, dando al pueblo,
mientras bebéis la distancia,
motivos para mataros
por las corridas espaldas.

Solos se quedan los hombres
al calor de las batallas,
y vosotros, lejos de ellas,
queréis ocultar la infamia,
pero el color de cobardes
no se os irá de la cara.

Ocupad los tristes puestos
de la triste telaraña.
Sustituid a la escoba,
y barred con vuestras nalgas
la mierda que vais dejando
donde colocáis la planta.

Miguel Hernández

[Luz & sombra]



Homens sei que de homens
têm só e mais não gastam
o aspecto e o cigarro,
a barba e o par de calças.

São como lebres no coração,
galinhas bem lá por dentro,
galgos de rápido ventre,
que ladram em tempo de paz,
mas em tempos de canhões
desaparecem do mapa.

Estes homens, estas lebres,
comissários do alarme,
quando ouvem a cem léguas
o estrondo dos obuses,
põem-se logo a correr
com alvoroço no cu
e de cabelos em pé.
Com valentia se escondem,
galhardamente se escapam
do campo do perigo
estas fugitivas cacas,
que há muito tempo me doem
nos tomates da alma.

Onde ireis dar senão à morte,
pálidas lebres, podengos
de pouca fé e muitas patas?
Não vos envergonha ver
em tantas terras de Espanha
tanta mulher serena
no meio de tanta ameaça?
Um tiro por cada dente
reclama vossa existência,
cobardes de pele cobarde
e de coração de cana.
Tremeis como possessos
de um século de orvalho
e passais do sol à sombra
sempre desconfiados.
Achais as caves pouco
defendidas pelas casas.
Vosso medo requer ao mundo
muralhas e mais muralhas,
barreiras de chumbo à beira
de precipícios e valas
para a vossa pobre vida,
mesquinha de sangue e ânsias.
Não vos chega estar defendidos
por chuvas de sangue nobre
que não pára de cair,
cálida e generosa,
dia após dia,
sobre a gleba castelhana.
Não sentis o apelo
das vidas derramadas.
Para salvardes a pele
não vos bastam as tocas,
não vos chegam os buracos,
nem as retretes, nem nada.
Fugis e tornais a fugir,
dando ao povo razão,
enquanto bebeis a distância,
para vos matar pelas costas.

Sozinhos ficam os homens
no calor da batalha,
e vós, distantes delas,
querendo ocultar a infâmia,
não podeis apagar da cara
a cor da cobardia.

Ocupai o lugar triste
da triste teia de aranha.
Dispensai a vassoura
e com as nalgas varrei
a merda que deixais
onde quer que pondes o pé.


(Trad. A.M.)

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25.2.14

Um verso (131)





Um verso de Ana Paula Inácio
(lá da Terra Chã, ou lá donde é):



Os milagres acontecem a horas incertas




Ana Paula Inácio

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Paulo Leminski (Vão é tudo)





vão é tudo
que não for prazer
repartido prazer
entre parceiros

vãs
todas as coisas que vão



Paulo Leminski

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24.2.14

Miguel d'Ors (Variações sobre um tema de Stevens)





VARIACIONES SOBRE UN TEMA DE STEVENS




No es el canto del mirlo: es el silencio
que nos deja, un silencio
que es algo diferente del silencio
porque en él suena aún el recuerdo del canto
del mirlo. Ni silencio
ni canto: lo que ocurre cuando el canto
ya ha acabado y aún no ha empezado el silencio.
Puedes llamarlo el alma.


Miguel d’Ors




Não é o canto do melro, é o silêncio
que nos deixa, um silêncio
que é algo diferente do silêncio
porque nele soa ainda a lembrança
do canto do melro. Nem silêncio
nem canto, aquilo que ocorre quando
o canto acabou já e não começou
ainda o silêncio.
Podemos dizer, a alma.

(Trad. A.M.)

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23.2.14

Murilo Mendes (Pós-poema)

 


PÓS-POEMA


O anteontem - não do tempo mas de mim -
Sorri sem jeito
E fica nos arredores do que vai acontecer
Como menino que pela primeira vez põe calça comprida.


Não se trata de ilusão, queixa ou lamento,
Trata-se de substituir o lado pelo centro.
O que é da pedra também pode ser do ar.
O que é da caveira pertence ao corpo;
Não se trata de ser ou não ser,
Trata-se de ser e não ser.


Murilo Mendes


[Poemblog]

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22.2.14

Miguel Martins (Parece)





PARECE



Parece
que não vale a pena
Parece
que já não vale a pena
Parece
que já nada vale a pena
Parece
que AQUI já nada vale a pena.


Miguel Martins

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21.2.14

Francisco J. Picón (Codeja)





HIELA



Hiela
en los arrabales de la soledad,
en los caminos recónditos de las miradas perdidas,
en el silencio dormido de la palabra muerta,
en el balcón donde se asoman las caricias olvidadas.
Hiela,
y muere abrasada cada saeta del tiempo.

Se marchitan
las flores nacidas de la semilla del miedo,
las esperas acotadas en los mapas del olvido,
las espinas erosionadas por la fuerza de un recuerdo,
las heridas infectadas por la saliva del desprecio.
Se marchitan,
y brotan excitadas las frutas de la ausencia.

Vuelan
las mentiras disfrazadas de sueños y promesas,
las arrugas de una edad que abandonó la paciencia,
las sabanas desteñidas de sudores, gemidos y caricias,
las canciones afónicas de gritos y somnolencia.
Vuelan,
y bucea entre las nubes el sabor de tantos labios.

Se apagan
las llamas de la hoguera de la vanidad y el orgullo,
las pasiones encendidas con el fuego del desencanto,
las razones desubicadas en el salón de los sentidos,
las aventuras consumadas entre nicotina y alcohol.
Se apagan,
y se encienden los rubores, los deseos y la melancolía.


Francisco J. Picón




Codeja
nos arrabaldes da solidão,
nos caminhos recônditos dos olhares perdidos,
no silêncio dormente da palavra morta,
na varanda onde assomam os carinhos olvidados.
Codeja,
e morre abrasado cada ponteiro do tempo.

Murcham
as flores nascidas da semente do medo,
as esperas balizadas nos mapas do olvido,
as espinhas gastas pela força da lembrança,
as feridas infectadas pela saliva do desprezo.
Murcham,
e brota excitado o fruto da ausência.

Voam
as mentiras disfarçadas de sonhos e promessas,
as rugas de uma idade sem grande paciência,
os lençóis tingidos de suor, de gemidos e carícias,
as canções afónicas de gritos e sonolência.
Voam,
e mergulha entre as nuvens o sabor de tantos lábios.

Apagam-se
as chamas da fogueira da vaidade e do orgulho,
as paixões acendidas no fogo do desencanto,
as razões deslocados no salão dos sentidos,
as aventuras vividas entre o álcool e a nicotina.
Apagam-se,
e acendem-se os rubores, desejos e melancolias.


(Trad. A.M.)

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20.2.14

Mário Cesariny (Lembra-te)






Lembra-te
que todos os momentos
que nos coroaram
todas as estradas
radiosas que abrimos
irão achando sem fim
seu ansioso lugar
seu botão de florir
o horizonte
e que dessa procura
extenuante e precisa
não teremos sinal
senão o de saber
que irá por onde fomos
um para o outro
vividos


Mário Cesariny


[Canal de poesia]

.

19.2.14

Maria do Rosário Pedreira (Se o vires)





Se o vires, diz-lhe que o tempo dele não passou;
que me sento na cama, distraída, a dobar demoras
e, sem querer, talvez embarace as linhas entre nós.
Mas que, mesmo perdendo o fio da meada por
causa dos outros laços que não desfaço, sei que o
amor dá sempre o novelo melhor da sua mão. Se

o encontrares, diz-lhe que o tempo dele não passou;
que só me atraso outra vez, e ele sabe que me atraso
sempre, mas não de mais; e que os invernos que ele
não gosta de contar, mas assim mesmo conta que nos
separam, escondem a minha nuca na gola do casaco,
mas só para guardar os beijos que me deu. Se o vires,

diz-lhe que o tempo dele não passa, fica sempre.


Maria do Rosário Pedreira


[Abro páginas]

.

18.2.14

Max Aub (Testamento)





TESTAMENTO



Tiéndanme en la tierra
con los ojos abiertos,
que pueda ver las nubes
corriendo por el cielo.

Y que me dore el sol
y que me cubra el viento.

Dejd las alimañas
blanquear mi esqueleto.
Dejadme ver las nubes
que no alcancé despierto.

Dejadme cara al cielo
con los ojos abiertos.
Partid tranquilos:
mayores órbitas
me abrirán los brillantes cuervos.
No os preocupéis
veré más nubes y más cielo.

Max Aub

[La sombra de los sueños]



Estendei-me no chão
com os olhos abertos,
que possa ver as nuvens
a correr pelo céu.

E que me creste o sol
e me cubra o vento.

Deixai os bichos
branquear-me o esqueleto.
Deixai-me ver as nuvens
que não alcancei desperto.

Deixai-me de cara para o céu
e com os olhos abertos.
Ide-vos tranquilos,
órbitas maiores
me hão-de abrir os corvos.
Não vos preocupeis,
mais céu e mais nuvens verei.

(Trad. A.M.)

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17.2.14

Marcos Siscar (Tome seu café e saia)





TOME SEU CAFÉ E SAIA



a quem interessa o fracasso
do outro por que nos interessa
o fracasso ou a dor de viver
é mais forte que o abraço
(por que na despedida o beijo
só então inadiável por que
as mãos nos cabelos apenas
antes da morte os corpos se encontram)
eu lhe ofereço este cansaço
talvez você se interesse
talvez você morra de astúcia
tome seu café e saia


Marcos Siscar

.

16.2.14

Um verso (130)





Um verso de Manuel de Freitas
(esticando três numa linha...):






A suave desrazão daquele charro fez-nos perceber subitamente tudo




Manuel de Freitas

.


Gina Saraceni (Das batalhas do amor)





De las batallas del amor se regresa
con el vientre abierto,

sin paredes,
dando tumbos
por el arduo combate
de la noche.

Se regresa sin armas
con el pulso latiendo
debajo de los párpados
y con los pies arrastrando
la demora del cuerpo
antes del adiós.

Cuerpo a cuerpo es la batalla.

Sólo así se hace una guerra.
Solo así se conoce
cómo tocan las manos
cuando pierden los dedos.

Solo así vale la pena morir:
mirando de frente cómo
se disuelve el rostro
cuando pierde
el control y el alfabeto
cómo se tuerce en un puñado
de ruidos que se hunden
adentro de los ojos
donde solo hay lugar
para perderse.

Lo llaman amor
este combate de brazos y lenguas,
esta cercanía sin intervalos
donde la orilla y la ola
se desangran por el tormento
de volverse a separar;
este tiempo de guerra
que echó raíces
en las venas de junio,
en el estertor de una arteria,
en el corazón herido de muerte.

De las batallas del amor
se regresa con un ejército
de fantasmas en el costado,
con las heridas hundidas
en los dedos
poseídos por esa guerra
que sigue ardiendo
en la línea de combate.


Gina Saraceni

[Emma Gunst]



Das batalhas do amor volta-se
de ventre aberto,

sem paredes,
dando tomos e tombos
no duro combate
da noite.

Sem armas se volta,
o pulso a latejar
por baixo das pálpebras,
os pés arrastando
o vagar do corpo
antes do adeus.

Corpo a corpo é a luta.

Só assim se faz a guerra.
Só assim se conhece
como tocam as mãos
quando perdem os dedos.

Só assim vale a pena morrer,
mirando de frente como
se dissolve o rosto
quando perde o domínio e o alfabeto,
como se torce em ruídos
por dentro dos olhos
onde há só lugar
para perder-se.

Chamam-no amor,
este combate de braços e línguas
este perto sem intervalo
onde a beira e a onda
se dessangram no tormento
da separação;
este tempo de guerra
que deitou raízes
nas veias de Junho,
no estertor de uma artéria,
no coração ferido de morte.

Das batalhas do amor
volta-se com um exército
de fantasmas no flanco,
com as feridas nos dedos
possuídos da guerra
sempre acesa
na linha de combate.

(Trad. A.M.)



>>  Vanguardia y tradición (14p) / Las malas juntas (3p) / Poetas siglo XXI (6p)

.

15.2.14

Maria Teresa Horta (Caminho)






CAMINHO



Na boca as palavras
encontram-se
equilibram-se

deslizam na língua
são leite
ou saliva

Persistem resistem
objectos de mirra
com ancas de vidro
dunas perspectivas

são passos
caminhos

Poemas sensíveis

Na boca as palavras
adoecem
insistem

Razões obscuras
moles nas gengivas
rumores imprevistos

São docas antigas

Vaginas
ou quistos


Maria Teresa Horta

[Luz & sombra]

.

14.2.14

Meira Delmar (Além)





ALLÁ


Si acaso al otro lado de la vida
otra vez, por azar, nos encontramos,
¿se reconocerán nuestras miradas
o seremos tan sólo un par de extraños?
De todos modos te amaré lo mismo.
Juntos. O separados.

Meira Delmar



Se porventura do outro lado da vida
outra vez, por acaso, nos cruzarmos,
reconhecer-se-ão nossos olhares
ou seremos apenas um par de estranhos?
De todo o modo amar-te-ei igual.
Juntos. Ou separados.

(Trad. A.M.)

.

12.2.14

Mario Benedetti (Chau número três)





CHAU NÚMERO TRES



Te dejo con tu vida
tu trabajo
tu gente
con tus puestas de sol
y tus amaneceres
sembrando tu confianza
te dejo junto al mundo
derrotando imposibles
seguro sin seguro
te dejo frente al mar
descifrándote a solas
sin mi pregunta a ciegas
sin mi respuesta rota
te dejo sin mis dudas
pobres y malheridas
sin mis inmadureces
sin mi veteranía
pero tampoco creas
a pie juntillas todo
no creas nunca creas
este falso abandono
estaré donde menos
lo esperes
por ejemplo
en un árbol añoso
de oscuros cabeceos
estaré en un lejano
horizonte sin horas
en la huella del tacto
en tu sombra y mi sombra
estaré repartido
en cuatro o cinco pibes
de esos que vos mirás
y enseguida te siguen
y ojalá pueda estar
de tu sueño en la red
esperando tus ojos
y mirándote.

Mario Benedetti



Deixo-te com tua vida
teu trabalho
tua gente
com teus pôres do sol
e teus amanheceres
semeando a confiança
deixo-te junto ao mundo
derrotando impossíveis
seguro sem seguro
deixo-te frente ao mar
decifrando-te a sós
sem minha pergunta às cegas
sem minha resposta quebrada
deixo-te sem minhas dúvidas
pobres e mal-feridas
sem minhas verduras
sem minha experiência
mas não creias tão pouco
em tudo a pés juntos
não creias nunca creias
neste falso abandono
estarei onde menos
esperares
por exemplo
numa árvore anosa
cabeceando de sono
estarei num horizonte
distante sem horas
na marca do tacto
na tua sombra e na minha
estarei repartido
em quatro ou cinco miúdos
desses que tu olhas
e a seguir te seguem
e oxalá possa estar
no teu sonho na rede
esperando o teu olhar
e a olhar-te.

(Trad. A.M.)

.

11.2.14

Mario Quintana (Projeto de prefácio)





PROJETO DE PREFÁCIO



Sábias agudezas… refinamentos…
- não!
Nada disso encontrarás aqui.
Um poema não é para te distraíres
como com essas imagens mutantes de caleidoscópios.
Um poema não é quando te deténs para apreciar um detalhe.
Um poema não é também quando páras no fim,
porque um verdadeiro poema continua sempre…
Um poema que não te ajude a viver e não saiba preparar-te para a morte
não tem sentido: é um pobre chocalho de palavras.


Mario Quintana


[Sopoesia]

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10.2.14

Francisco J. Picón (Hoje é o momento)





HOY ES EL MOMENTO



Si esperas a mañana
no me busques, ya me habré ido,
no mires detrás del velo
que protege tus recuerdos,
habré desaparecido
al otro lado del espejo de la memoria

Si esperas a mañana
la vida se perderá entre los latidos
del corazón del olvido
a borbotones de desengaño,
habrá partido
en un vagón del tren de la huída

Porque mañana es sólo una palabra
porque hoy es el momento
porque el sabor de un instante
no entiende de saetas de espera
porque un segundo es eterno
cuando se vive el presente
porque si esperas a mañana
el mundo será tan distinto
que no te reconocerás entre la gente…

Si recuerdas el ayer
los poros de tu piel envejecerán de hastío
aletargados por no cumplir sueños,
los dedos de tu deseo acariciaran vacíos,
ausencias sin dueño
en el hueco de un verbo durmiente

Si recuerdas el ayer
las arrugas se nutrirán de miedos,
los labios se resecarán sin besos,
en tu mirada no habrá más brillos
ni notarás el aroma de un aliento
rozando los surcos de tu vientre…

Porque ayer es sólo una palabra
porque hoy es el momento
porque los abrazos de siempre
se alimentan de aventura
porque un recuerdo no es eterno
cuando se vive el presente
porque si no olvidas el ayer
la vida será un suspiro
perdido entre tanta gente…


Francisco J. Picón



Se esperas o amanhã
não me procures, terei já partido,
não olhes por trás do véu
que te guarda as lembranças,
eu terei passado para
o outro lado do espelho da memória

Se esperas o amanhã
a vida perder-se-á nos latejos
do coração do olvido
em borbotões de desengano,
terá embarcado
num vagão do comboio da fuga

Porque amanhã é só uma palavra
porque hoje é o momento
porque o sabor de um instante
não sabe nada de ponteiros de espera
porque um segundo é eterno
quando se vive o presente
porque esperando o amanhã
o mundo será tão diferente
que não te reconhecerás entre a gente...

Se recordas o ontem
os poros da pele envelhecer-te-ão de fastio
apáticos por adiarem sonhos,
os dedos do desejo afagarão o vazio,
ausências sem dono
dentro de um verbo adormecido

Se recordas o ontem
as rugas nutrir-se-ão de medos,
os lábios hão-de secar sem beijos,
não haverá brilho no teu olhar,
nem sentirás o calor de um hálito
a roçar-te os sulcos do ventre...

Porque ontem é só uma palavra
porque hoje é o momento
porque os abraços de sempre
se alimentam de aventura
porque uma lembrança não é eterna
quando se vive o presente
porque se não esqueces o ontem
a vida será só um suspiro
perdido por entre a gente...

(Trad. A.M.)




>>  Poetas siglo XXI (28p) / Loreajan (blogue) / El pisapoeta (2p+entrevista) / Literaturame (outra entrev.) / Las afinidades electivas (3p)

.


9.2.14

Rui Pires Cabral (Nocturno com aviões)





NOCTURNO COM AVIÕES



Não estejas só. Tu também és
o que já foste e o que esperaste
vir a ser. A manhã que se aproxima

há-de passar, não importa. Para já,
os diligentes aviões de madrugada
sobrevoam o desenho das colinas

de Lisboa - e cá dentro, muito fundo,
numa redoma de música, os amigos
ainda bebem para esquecer

o futuro, que outro remédio
não têm, se a hora não se repete
e a vida é só esta espuma.

Rui Pires Cabral


[Os livros tristes]


.

8.2.14

Mariano Crespo (Testamento amargo)






TESTAMENTO AMARGO



Mi muy querida.
Acabo de dejar las lentes sobre el escritorio.
Ahora froto mis ojos para espantar en vano el cansancio.
Suena el Impromptu nº 4,
en do sostenido, de Chopin y llueve.
Caen lentamente las gotas y las corcheas
sobre los cristales, los geranios y las sombras.
Ayer repasé el periódico y no vi tu esquela.
Era el ejemplar del 12 de marzo,
el aniversario de mi derrota sin banderas,
y ya he dicho que llovía,
pero no que estaba en zapatillas
sí que sonaba Chopin
y he omitido
que había una ausencia de gatos.

Con las notas de Federico
te he empezado un cumplido epitafio.
Mas como siempre fuiste imprevisible,
morena teñida,
y no llegaste al recuadro
reservado para que te diera sepultura,
he decidido
- y perdóname el protagonismo -
desaparecer yo solito
y diluirme en un mutis altivo
y rencoroso
a la manera que siempre soñé para ti.

No sería digno
de nuestra manera de entender la vida
el despedirse al au revoir, a la francesa,
sin dejarte un cabás, una carpeta,
una cajita que, a manera de testamento,
perpetuase tanto odio.
De tal modo
que al recibo de la corriente
te lego el epistolario
que entre nosotros
transitaron los pájaros,
la distancia y los carteros.
Mata tu tedio leyendo las palabras que plasmé,
y las que no acerté a decirte,
torpe como siempre he sido,
por perderme en las pajas luminosas
sin ver el grano de la sinceridad.

Releo
yo también
el transcurrir del desafecto.
Busco la fórmula adecuada
para aguijonearte las entrañas,
pues los insultos que me pide el alma
son muy ordinarios
y para ti,
dulce puta,
los quiero extraordinarios.

Tan solo te amé un día,
aquel en que estábamos declarando
un estado de felicidad permanente
y sonaba Georges Moustaki
en el cassete de Juanjo.
Se había muerto Franco
sin tener tiempo de fusilarle.
Desde la alameda
me doy la vuelta
y me marcho.

Que la amargura te siga amargando.

Mariano Crespo


 [Faro sin mar]



Minha querida,
acabo de deixar os óculos esquecidos na secretária,
descansando agora os olhos para espantar o cansaço.
Toca o Improviso n.º 4,
em dó sustenido, de Chopin, e chove.
Ontem, ao passar os olhos pelo jornal, não vi o teu necrológio.
Era o número de 12 de Março,
aniversário da minha derrota sem bandeiras,
e disse já que chovia,
mas não que estava de sapatilhas
sim que tocava Chopin
e não mencionei
que gatos não, não havia.

Com as notas de Federico
comecei a compor-te o epitáfio.
Mas como sempre foste imprevisível,
morena retinta,
e não chegaste ao talhão
reservado para a tua sepultura,
decidi por mim
- perdoa-me o protagonismo -
desaparecer eu sozinho,
apagando-me numa saída altiva
e rancorosa,
ao modo que sempre sonhei para ti.

Não seria digno
da nossa forma de entender a vida
despedir-me à francesa, au revoir,
sem te deixar um cesto, uma pasta,
uma caixinha, a perpetuar tanto ódio,
assim à maneira de testamento.
De sorte que
ao receberes a presente
lego-te o epistolário
que entre nós transportaram as aves,
a distância e os carteiros.
Mata o tédio a ler as palavras que plasmei,
e as que não cheguei a dizer-te,
desajeitado como sempre fui,
por me perder nas palhas luminosas
e não ver o grão da sinceridade.

Releio
eu também
o percurso do desafecto.
Busco a fórmula adequada
para espicaçar-te as entranhas,
pois os insultos que o íntimo me pede
são muito ordinários
e para ti,
minha puta,
eu quero dos extraordinários.

Eu amei-te tão só um dia,
aquele em que declarámos
o estado de felicidade permanente,
ouvindo Georges Moustaki
na cassete de Juanjo.
Franco havia morrido
sem ter tempo de o fuzilar.
De pé na alameda,
dou meia volta
e vou-me embora.

Que a amargura te amargue sempre.

(Trad. A.M.)



>  Espelho: Vicente Gallego

.

7.2.14

Manuel de Freitas (Pressa de viver)

 




PRESSA DE VIVER



Negro, trinta e dois anos,
dealer. Pensava que a guerra
no Kosovo tinha por motivo único
a resistência à conversão em euros
─ e talvez nisso tivesse, afinal, uma obscura
razão. Noutra noite, vi-me obrigado
a explicar-lhe o melhor que pude
o que era o FMI - que ele decerto
interpretou como um partido de 'tugas’
vagamente hermético. De facto, é outra
a sua economia: contos de xamon, pastilhas,
piropos de esquina, os dois ou três filhos
de que apenas bêbedo se lembra.

Mas não é bem disso que eu hoje
queria falar. Passámos a noite
lado a lado, no mesmo balcão.
Demorei algum tempo a cumprimentá-Io
─ «tá-se?». Pediu logo grandes, imensas
desculpas por não me ter visto.
Que era «pressa de viver», garantiu-me,
aquilo que nos torna tão cegos é
às evidências, ao rosto desse próximo
que só por bíblico acaso amamos
─ quando o ódio, mais discreto,
dá nome e sentido às ruas.

Fingi acreditar, procurei não
desmentir o seu olhar verde
vindo de outro qualquer planeta.
Seria difícil explicar-lhe àquela hora
a compulsiva demora de morrer
que me faz sair de casa e procurar,
entre ninguém, a pior das companhias: eu.

Acabou por levar para a rua
uma imperial de plástico, lembrado
talvez dos possíveis clientes
a quem ajudará a esquecer um emprego,
o desamor, o calor sinistro deste Verão.
Na verdade, pouco mais haveria
a dizer sobre este corpo brando que
há vários anos se encosta às minhas noites.
Serve-me de escudo para os bárbaros mais novos
─ e protege-se, o melhor que pode,
da rusga sem objecto a que chamamos vida.


Manuel de Freitas

[Canal de poesia]

.

6.2.14

Alfonso Brezmes (Três desejos)





TRES DESEOS



Que no escuches otra voz
distinta de la mia - dijiste
soplando el primer fósforo.

Que nada digas que me hiera
fue tu segundo deseo - y la oscuridad
nos iba envolviendo poco a poco.

Que no acabe este sueño,
-susurraste, soplando por última vez.
Y todo desapareció.

Y nos encontramos de pronto
en medio de la noche.
Sordos mudos y ciegos.

Alfonso Brezmes

[Nunca llegan tarde las hadas]




Que não escutes outra voz
distinta da minha - disseste
soprando o primeiro fósforo.

Que não digas nada que me fira
foi o teu segundo desejo - e o escuro
ia-nos envolvendo pouco a pouco.

Que não acabe este sonho
- sussurraste, soprando a última vez.
E tudo desapareceu.

E de repente nos achámos
no meio da noite.
Surdos, mudos e cegos.

(Trad. A.M.)


.

5.2.14

Manuel António Pina (Tanto silêncio)





TANTO SILÊNCIO



Para cá de mim e para lá de mim, antes e depois.
E entre mim eu, isto é, palavras,
formas indecisas
procurando um eixo que
lhes dê peso, um sentido capaz de conter
a sua inocência
uma voz (uma palavra) a que se prender
antes de se despedaçarem
contra tanto silêncio.
São elas, as tuas palavras, quem diz "eu";
se tiveres ouvidos suficientemente privados
podes escutar o seu coração
pulsando sob a palavra da tua existência,
entre o para cá de ti e o para lá de ti.
Tu és aquilo que as tuas palavras ouvem,
ouves o teu coração (as tuas palavras "o teu coração")?

Manuel António Pina


[O café dos loucos]

.

4.2.14

María Sanz (E a tarde era ele)





Y LA TARDE ERA ÉL



Salías a su encuentro aquella tarde
profundamente gris,
con los ojos cegados
por la luz interior que te mentía.
Alargabas el paso, no sus ecos,
acostumbrada a ser una invisible
ternura sin destino,
doliente oscuridad sobre el albero.
Y la tarde era él.
Se apareció en la lluvia,
mientras no terminabas de creerte
su mirada de ámbar
apresando tu enésimo delirio.
La tarde estaba en él, y en él se iba.
Alargaste la muerte, no su vuelo,
con los ojos clavados
en el profundo gris que te cercaba.

María Sanz


[María Sanz]



Saías ao seu encontro
nessa tarde cinzenta,
com os olhos cegados
pela luz íntima que te mentia.
Alongavas o passo, não seu eco,
afeita a ser uma invisível
ternura sem destino,
dorida escuridão sobre o terreno.
E a tarde era ele.
Apareceu com chuva,
enquanto duvidavas ainda
do seu olhar de âmbar
apresando teu enésimo delírio.
A tarde estava nele e nele se ia.
Alongaste a morte, não seu voo,
de olhos cravados
no cinzento em teu redor.

(Trad. A.M.)

.

3.2.14

Manoel de Barros (Matéria de poesia-I)





MATÉRIA DE POESIA (1)



Todas as coisas cujos valores podem ser
Disputados no cuspe à distância
Servem para poesia

O homem que possui um pente
E uma árvore
Serve para poesia

Terreno de 10x20, sujo de mato - os que
Nele gorjeiam: detritos semoventes, latas
Servem para poesia

Um chevrolé gosmento
Coleção de besouros abstêmios
O bule de Braque sem boca
São bons para poesia
As coisas que não levam a nada
Têm grande importância
Cada coisa ordinária é um elemento de estima

Cada coisa sem préstimo
Tem seu lugar
Na poesia ou na geral

O que se encontra em ninho de joão-ferreira:
Caco de vidro, grampos,
Retratos de formatura,
Servem demais para poesia

As coisas que não pretendem, como
Por exemplo: pedras que cheiram
Água, homens
Que atravessam períodos de árvore,
Se prestam para poesia

Tudo aquilo que nos leva a coisa nenhuma
E que você não pode vender no mercado
Como, por exemplo, o coração verde
Dos pássaros,
Serve para poesia

As coisas que os líquenes comem
- sapatos, adjetivos -
têm muita importância para os pulmões
da poesia

Tudo aquilo que a nossa
Civilização rejeita, pisa e mija em cima,
Serve para poesia

Os loucos de água e estandarte
Servem demais
O traste é ótimo
O pobre-diabo é colosso
Tudo que explique
O alicate cremoso
E o lodo das estrelas
Serve demais da conta

Pessoas desimportantes
Dão pra poesia
Qualquer pessoa ou escada

Tudo que explique
a lagartixa de esteira
e a laminação de sabiás
é muito importante para poesia

O que é bom para o lixo é bom para a poesia

Importante sobremaneira é a palavra repositório:
A palavra repositório eu conheço bem:
Tem muitas repercussões
Como um algibe entupido de silêncio
Sabe a destroços

As coisas jogadas fora
Têm grande importância
- como um homem jogado fora

Aliás é também objeto de poesia
Saber qual o período médio
Que um homem jogado fora
Pode permanecer na terra sem nascerem
Em sua boca as raízes da escória

As coisas sem importância são bens de poesia

Pois é assim que um chevrolé gosmento chega
Ao poema, e as andorinhas de junho.


Manoel de Barros


[Luz & sombra]

.

2.2.14

Andrés Trapiello (Fala)





HABLA



¿A qué lengua se traduce la lluvia?
¿Cuántas letras forman el perfume
que la rosa destila? ¿Con qué rima
uncirías las olas de la playa?
¿Serías tú capaz de discernir
los hemistiquios en el beso último
de dos amantes, y ponerle acentos
al silencio sutil de sus pupilas?
¿Qué humana ortografía serviría
para ese ladrido que a lo lejos
se oye en plena noche o para el pulso
que late en todo astro, incluso muerto?
Dime con qué alfabeto se transcribe
el sueño de la vida,
dímelo sin palabras, que son merma,
sin rima, sin acentos, sin medida,
y luego, habla.

ANDRÉS TRAPIELLO
Habla y otros poemas
(2003)

[Life vest under your seat]



Em que língua se traduz a chuva?
Quantas letras compõem o perfume
da rosa? Com que rima
ungirias as ondas da praia?
Serias tu capaz de discernir
os hemistíquios no beijo último
dos amantes, ou pôr acentos
no silêncio subtil de suas pupilas?
Que humana ortografia serviria
para esse latido que se ouve ao longe
em plena noite, ou para o pulso
que bate em todo o astro, mesmo morto?
Diz-me em que alfabeto se transcreve
o sonho da vida,
diz-me sem palavras, que perda são,
sem rima, sem acentos, sem medida,
e depois, fala.

(Trad. A.M.)

.

1.2.14

Ana Hatherly (Um poeta barroco)





Um poeta barroco disse:
As palavras são
As línguas dos olhos
Mas o que é um poema
Senão
Um telescópio do desejo
Fixado pela língua?
O voo sinuoso das aves
As altas ondas do mar
A calmaria do vento:
Tudo
Tudo cabe dentro das palavras
E o poeta que vê
Chora lágrimas de tinta.


Ana Hatherly

.

31.1.14

Max Aub (Questão bizantina)





CUESTIÓN BIZANTINA



La playa ¿es orilla
de la mar o de la tierra?
Conseja bizantina.
La orilla del bosque
¿es su límite o del llano borde?
¿Qué frontera separa
lo tuyo de lo mío?
¿Quién acota la vida?
¿Vives hoy o mañana?
Raíz, tallo, flor y fruto
¿dónde empiezan y acaban?
El mantillo
¿es orillo
del ramaje muerto,
del renuevo
o del retorcido
helecho nuevo?
Cuestión bizantina.
Importa la orilla,
dormir limpio en ella.
(No somos tú y yo,
sino el hilo impalpable
que va de tu presencia
a la mía.)
Límites y fronteras
se agostarán un día.
Sin orillo ni orilla
¿qué más da de quién sean
los cachones, la arena?
La playa es orilla
de la mar y de la tierra,
nunca frontera.
Nada separa,
nada se para.
Palabra.

Max Aub



A praia é beira
do mar ou da terra?
Fantasia bizantina.
A orla do bosque
é seu limite ou borda do plaino?
Que fronteira separa
o teu e o meu?
Quem delimita a vida?
Vives hoje ou amanhã?
Raiz, talo, flor e fruto
onde começam e acabam?
O húmus
é franja
da morta ramagem,
do renovo
ou do retorcido
feto novo?
Questão bizantina.
Importa é a beira,
dormir limpo sobre ela.
(Não somos tu e eu,
senão o fio impalpável
que liga a tua presença
à minha).
Limites e fronteiras
hão-de murchar um dia.
Sem franja nem beira,
que mais dá de quem sejam
as ondas e a areia?
A praia é beira
do mar e da terra,
nunca fronteira.
Nada separa,
nada se pára.
Palavra.

(Trad. A.M.)



>>  Fundação M.A. (tudo+algo, menos versos) / A media voz (20p) / Cervantes (bio) / U.Valência (Centenário) / Wikipedia

.

30.1.14

Um verso (129)





Um verso de Herberto
(e porque não?):




Quem anel a anel há-de pôr-me a nu os dedos



Herberto Helder

.

Luis González Ansorena (Chia a noite)





(POETAS POR CIUDAD JUAREZ)



Chilla la noche
desgarrada desde el vientre.
Lloran los pechos
cortados de la tierra.
Se ahoga en sangre
la arena del desierto.

Hasta los cuchillos
protestan su destino
y agotada está la tierra
rezumando dolor.

Cabellos revueltos en sangre.
Carne muerta tajada.
Esos brazos,
hechos para amar,
ahora retorcidos
por sangrientos cordeles.
Esas bocas,
hechas para besar,
ahora semiabiertas
en gesto de muerte.

Y los ojos. Esos ojos
que miraban el mundo
respirando vida,
que lo último que vieron
fueron monstruos.

Esos ojos ahora
ya fijos para siempre
en nuestros ojos,
clamando justicia.

Luis Ansorena



Chia a noite
rasgada no ventre.
Choram os peitos
cortados da terra.
Afoga-se em sangue
a areia do deserto.

Até os punhais
protestam seu destino
e esgotada está a terra
ressumando só dor.

Cabelos revoltos em sangue.
Carne morta retalhada.
Esses braços,
feitos para amar,
retorcidos agora
por sangrentas cordas.
Essas bocas,
feitas para beijar,
semi-abertas agora
em ricto de morte.

E os olhos. Esses olhos
que olhavam o mundo
respirando vida,
que monstros foi
a última coisa que viram.

Esses olhos agora
em nossos olhos
fitos para sempre,
clamando por justiça.

(Trad. A.M.)

.

29.1.14

Mário Dionísio (Estamos agora em paz)





(XXV)


Estamos agora em paz
sabendo simular o esquecimento

sentados

com os olhos no vento
lá de fora atirado para antes
de nós as mãos caídas
nos joelhos mas nada suplicantes
só esvaídas

conformados
com não nos conformarmos

resignados
a esperando não esperarmos

como se tudo fosse um imenso tanto faz


Mário Dionísio


[Luz & sombra]

.

28.1.14

Jesús Lizano (Preciso carinho)





NECESITO CARIÑO



Fui al médico del cerebro,
del alma,
los médicos
con su uniforme blanco,
los curas
con su uniforme negro,
los militares
con su uniforme verde,
el papa
con su uniforme blanco.
Ya vemos
lo que les pasa a los dominantes
cuando prescinden de sus uniformes.
Qué ha sido, por ejemplo,
de los reyes
sin su uniforme...

Por no hablar del uniforme
de los bomberos, de los policías,
de los conserjes,
de los mayordomos,
de las monjitas, de los presos,
de los jueces,
vaya uniforme el de los jueces...

¿Y los burgueses?
¿Y su uniforme de señores?
¿Y el de los cocineros?
Pobres cocineros:
hasta los cocineros
revestidos... Y las novias
vestidas de blanco
cuando se dirigen
a firmar con los novios
el contrato...
¡plaga de contratos!

Y qué seria este mundo sin uniformes:
sería
el mundo real poético...

El caso es que fui al médico
del alma, del cerebro...
¡qué pretensión salvar el alma
con la teología,
o la química
y otros derivados
de la Razón! Y cómo
va a curar con su locura
la Razón al alma
si liberarse de su dominio
es lo único
que puede salvarla.

El caso es que fui al médico,
con su uniforme blanco,
llamado bata,
como los farmacéuticos,
como los fantasmas...
hundido por aquél
desamor que había
herido gravemente y, cómo no,
mi alma
y me dio una medicina
como si el alma
fuera un intestino
o una garganta.

Y yo le dije: no necesito
medicina, necesito
cariño...

Y pensé:
lo que yo necesito,
lo que todos necesitamos,
es que se acaben todos los uniformes,
que todo cambie de sentido.

Y las órdenes,
que se acaben las órdenes,
las recetas, los específicos,
los sermones, sobre todo
los sermones.

Recuerdo que cuando yo
era un niño
-un niño niño-
íbamos a la escuela
con uniforme.
¡Venga! ¡Todos uniformados!
Qué educativo...

Y qué son las ideas
sino uniformes malditos
si lo que necesitamos
es cariño, mucho cariño...
Y al cabo de cierto tiempo
volví al médico y me preguntó
si me había tomado la medicina.
Y le dije que no
Y él, indignado, me dijo:
¡No sé
ni cómo le recibo!

Jesús Lizano




Fui ao médico da cabeça,
da alma,
os médicos
na sua farda branca,
os padres
na sua farda negra,
os militares
na sua farda verde,
o papa
na sua farda branca.
Estamos a ver
o que acontece aos poderosos
quando prescindem das fardas.
O que foi, por exemplo,
dos reis
sem a sua farda...

Para já não falar da farda
dos bombeiros, dos polícias,
dos porteiros,
dos mordomos,
das freirinhas, dos presos,
dos juízes,
farda vá lá a dos juízes...

E os burgueses?
E a sua farda de senhoritos?
É a dos cozinheiros?
Pobres cozinheiros,
até os cozinheiros,
revestidos... E as noivas
vestidas de branco
quando se deslocam
para assinar o contrato
com os noivos...
praga de contratos!

E o que seria deste mundo sem fardas,
seria
o mundo real poético...

O caso é que fui ao médico
da alma, da cabeça...
que pretensão salvar a alma
com a teologia,
ou a química
ou outros derivados
da Razão. E como
haveria a Razão
de salvar a alma
com a sua loucura
se escapar ao seu domínio
é a única coisa que pode salvá-la?

O caso é que fui ao médico,
com sua farda branca,
que se chama bata,
como os farmacêuticos,
como os fantasmas...
abatido por aquele
desamor que tinha ferido
gravemente, e como não,
a minha alma,
e então ele deu-me um remédio,
como se a alma
fosse um intestino
ou uma garganta.

E eu disse-lhe, não preciso
de remédio, preciso
de carinho...

E pensei,
o que eu preciso,
o que todos precisamos
é acabar com todas as fardas,
é mudar tudo de sentido.

E as ordens,
acabar as ordens,
as receitas, os remédios específicos,
os sermões, acima de tudo
os sermões.

Recordo que era eu criança
- uma criança criança -
íamos para a escola
de farda.
Chiça! Todos fardados!
Que educativo...

E o que são as ideias
senão fardas malditas,
quando o que precisamos
é de carinho, muito carinho...
E então ao cabo de algum tempo
voltei ao médico e ele perguntou-me
se tinha tomado o remédio.
E eu disse que não.
Vai ele então, indignado:
Nem sei
como é que eu o atendo!

(Trad. A.M.)

.

27.1.14

Manuel Silva Ramos (Lume nas paredes)





Durante anos o fressureiro do meu avô causou o terror no Refúgio e arredores com as suas facas reluzentes de matar porcinos.

Quando tinha bebido em demasia, pegava nas suas principais facas e ia aguçá-las entre aspas pelas paredes.

Era um espectáculo único, salutar para ele, mas medonho para o resto da população.

Gritava ele a quem o quisesse ouvir: "Seus sacanas do Refúgio! O primeiro a sair de casa esfolo-o como um porco! Zé Luís Fernandes só há um"!

Metiam-se em casa os refugienses, com o medo dessas facas que levantavam faíscas voadoras nas paredes de granito.

Não queriam ser transformados em morcelas ou chouriças os refugienses, que pela primeira vez estavam certos na designação toponímica.



- MANUEL DA SILVA RAMOS, Pai, levanta-te, vem fazer-me um fato de canela!, 2013 (Lume nas paredes).

.

Luis Cernuda (Amo-te)





TE QUIERO



Te quiero.

Te lo he dicho con el viento
jugueteando tal un animalillo en la arena
o iracundo como órgano tempestuoso;

te lo he dicho con el sol,
que dora desnudos cuerpos juveniles
y sonríe en todas las cosas inocentes;

te lo he dicho con las nubes,
frentes melancólicas que sostienen el cielo,
tristezas fugitivas;

te lo he dicho con las plantas,
leves caricias transparentes
que se cubren de rubor repentino;

te lo he dicho con el agua,
vida luminosa que vela un fondo de sombra;
te lo he dicho con el miedo,

te lo he dicho con la alegría,
con el hastío, con las terribles palabras.
Pero así no me basta;
más allá de la vida
quiero decírtelo con la muerte,
más allá del amor
quiero decírtelo con el olvido.


Luis Cernuda



Amo-te.

Disse-to com o vento
a brincar como um bichito na areia
ou iracundo como um furacão;

disse-to com o sol,
a dourar juvenis corpos nus
e a sorrir nas coisas inocentes;

disse-to com as nuvens,
frentes melancólicas a suster o céu,
fugitivas tristezas;

disse-to com as plantas,
carícias leves e transparentes
vestindo um súbito rubor;

disse-to com a água,
vida luminosa velando um fundo de sombra;
com o medo to disse,

disse-to com a alegria,
com o fastio, com terríveis palavras.
Mas não me basta assim;
para além da vida
quero dizer-to com a morte,
para além do amor,
dizer-to com o esquecimento.


(Trad. A.M.)

.

26.1.14

Luís Filipe Parrado (Comer uma laranja)





COMER UMA LARANJA



Comer uma laranja
é como ingerir o próprio sol,
com a boca cheia de luz
não há portanto
espaço
para palavras
sobre mim.


Luís Filipe Parrado


[As folhas ardem]

.

25.1.14

Mariano Crespo (Dilema)





DILEMA



Hay una edad imprecisa
en que tienes que elegir
entre regocijarte en tu madurez
o beber amargura
por las señales del ocaso.

La elección no es fácil
pero si sencilla.

Como se dice en las películas de intriga:
sincronicemos nuestros relojes.

Mariano Crespo

[Faro sin mar]



Há uma idade imprecisa
em que temos de escolher
entre o regozijo da maturidade
e a amargura face
aos sinais do ocaso.

A escolha não é fácil,
mas é simples.

Como se diz nos filmes de enredo,
vamos sincronizar os relógios.

(Trad. A.M.)



>>  Faro sin mar (blogue) / La vida desde el lago (info+entrevista)

.

24.1.14

Um verso (128)





Um verso de Herberto
(pensando em silêncio):





Somente o meu silêncio pensa



Herberto Helder

.

Alfonso Brezmes (O pacto)





EL PACTO



Si me incendias, no esperes
de mí un lenguaje al uso,
los desgastados ritos del amor,
las consabidas normas,
los burdos reglamentos
que matemáticamente predicen
cómo todo se teje y se desteje.

Si me enciendes, no dejes
nada de tu leña para un día
que acaso nunca ha de llegar
y arriésgate al juego prohibido
que ignora la aritmética y el cálculo.

No te cubras, no conserves.
Organiza tu vida para el fuego.

Este es el pacto:
si me amas, arde conmigo.

Alfonso Brezmes



Se me incendeias, não esperes
de mim uma fala em uso,
os desgastados ritos do amor,
as consabidas normas,
os toscos regulamentos
que matematicamente predizem
como tudo se tece e destece.

Se me acendes, não deixes
nada da tua lenha para um dia
que porventura jamais há-de vir
e arrisca a brincadeira proibida
que ignora a aritmética e o cálculo.

Não te cubras, não conserves.
Organiza a tua vida para o fogo.

Este é o pacto:
se me amas, arde comigo.

(Trad. A.M.)




>>  Alfonso Brezmes (sítio) / Boek visual (arte+9p) / Poetas sigloXXI (9p) / Multimagen (arte)


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23.1.14

Luís de Camões (Sôbolos rios)





Sôbolos rios que vão
por Babilónia, me achei,
onde sentado chorei
as lembranças de Sião
e quanto nela passei.
Ali, o rio corrente
de meus olhos foi manado,
e, tudo bem comparado,
Babilónia ao mal presente,
Sião ao tempo passado.

Ali, lembranças contentes
n'alma se representaram,
e minhas cousas ausentes
se fizeram tão presentes
como se nunca passaram.
Ali, depois de acordado,
co rosto banhado em água,
deste sonho imaginado,
vi que todo o bem passado
não é gosto, mas é mágoa.

E vi que todos os danos
se causavam das mudanças
e as mudanças dos anos;
onde vi quantos enganos
faz o tempo às esperanças.

Ali vi o maior bem
quão pouco espaço que dura,
o mal quão depressa vem,
e quão triste estado tem
quem se fia da ventura.

Vi aquilo que mais val,
que então se entende milhor
quanto mais perdido for;
vi o bem suceder o mal,
e o mal, muito pior,
E vi com muito trabalho
comprar arrependimento;
vi nenhum contentamento,
e vejo-me a mim, que espalho
tristes palavras ao vento.
   (…)


Luís de Camões

.

22.1.14

Luis Alberto de Cuenca (A noite branca)




LA NOCHE BLANCA



Cuando la sombra cae, se dilatan tus ojos,
se hincha tu pecho joven y tiemblan las aletas
de tu nariz, mordidas por el dulce veneno,
y, terrible y alegre, tu alma se despereza.

Qué blanca está la noche del placer. Cómo invita
a cambiar estas manos por garras de pantera
y dibhjar con ellas en tu cuerpo desnudo
corazones partidos por delicadas flechas.

Nieva sobre el espejo de las celebraciones
y la nieve eterniza el festín de tus labios.
Todo es furia y sonido de amor en esta hora
que beatifica besos y canoniza abrazos.

Para ti, pecadora, escribo cuando el alba
me baña en su luz pálida y tú ya te has marchado.
Por ti, cuando el rocío bautiza las ciudades,
tomo la pluma, lleno de tu recuerdo, y ardo.

Luis Alberto de Cuenca



Quando cai a sombra, dilatam-se os olhos
e o teu peito jovem e tremem-te as asas
do nariz, mordidas do doce veneno,
e, alegre e terrível, tua alma espreguiça-se.

Que branca a noite do prazer. Como convida
a trocar estas mãos por garras de pantera
e desenhar com elas em teu corpo desnudo
corações feridos por delicadas flechas.

Neva no espelho das celebrações
e a neve eterniza o festim dos teus lábios.
Tudo é fúria e ruído de amor nesta hora
que beatifica beijos e canoniza abraços.

Para ti escrevo, pecadora, quando a aurora
me banha de luz pálida e tu já foste embora.
Por ti, quando o orvalho baptiza a cidade,
tomo a pena, e ardo, cheio da tua lembrança.

(Trad. A.M.)



> Outra versão: Luz & sombra (J.E.Simões)

.

21.1.14

Manuel Silva Ramos (Um instante)





Temos que ser retóricos, diante dos pequenos alzheimeres que a vida nos dá.

Assim, falar de outra matéria, e forte, e bem, impõe-se como os tremoços diante da imperial.

Vou agora contar como não esqueci nunca um certo casamento no Louriçal do Campo e do pingo de chuva que, caindo sobre a minha testa, me manteve acordado durante toda uma longa noite.

Preparem os vossos penicos, os vossos cântaros, os vossos alguidares, abram os vossos guarda-chuvas, porque choverá muito!



- MANUEL DA SILVA RAMOS, Pai, levanta-te, vem fazer-me um fato de canela!, 2013 (Um instante).

.

Karmelo C. Iribarren (Viver é isto)





VIVER É ISTO



Estamos tão perto
um do outro
que me vejo reflectido nas suas pupilas.
Mas dura pouco.
Está já sentada no autocarro.
E já se afasta.
A vida faz estas coisas
curtas
de propósito.
Para que nos levantemos
cada manhã
em busca de mais.


Karmelo C. Iribarren

(Trad. A.M.)

.

20.1.14

José Miguel Silva (Suicida)





SUICIDA 

 

Quando me lancei fi-lo na convicção
de que o meu sofrimento mudaria de dono,
ficaria para ela, merecido legado
para quem sempre gostou de nutrir o ciúme,
essa carnívora planta a cujo habitat
chamamos coração. Eu pensava desfrutar
da vingança por toda a eternidade.
Mas o facto é que à medida que o meu corpo
descia em direcção ao rio um calafrio
fez-me pôr em dúvida a eficácia do castigo:
e se ela recusar a expiação, se for mentira
este consolo que me ofereço, derradeiro?
Ao passar, amigos, pelo tabuleiro de baixo
já ia arrependido. O pânico safou do meu rosto
o beatífico sorriso. Que estúpido sou,
que mesquinho, bem mereço... e não tive tempo
para pensar mais nada. Tu que passas
por esta lápide, escuta: ninguém morre de amor.
De orgulho sim, de despeito, de pura idiotice
ou desejo insaciado. E o sermos amados
quase sempre só depende de nós.
 

José Miguel Silva
 

 .

19.1.14

Andrés Trapiello (Testamento)





TESTAMENTO



He muerto ya, paisaje que yo he amado
tantas veces aquí, rincón del alma.
Una vez más vengo por verte. A un lado,
encinares y olivos, y la calma

de ver, al otro, olivos y encinares.
Algunos caserones con jardines
llenos de ortigas ya, viejos lagares
con aspecto de viejos polvorines.

Un camino con olmos en hilera,
una majada, una almazara en ruinas,
musical, perezosa, la palmera,
y un Gredos azulado entre neblinas.

Nada de cuanto miro está en mis ojos
ni el olor del jazmín lo lleva el viento.
He muerto ya. Contempla mis despojos:
te dejo este paisaje en testamento.

ANDRÉS TRAPIELLO
Acaso una verdad
(1993)



Morri já, paisagem que amei
tantas vezes aqui, recanto da alma.
Uma vez mais venho ver-te. De um lado,
azinheiras e oliveiras, e a calma

de ver, do outro, oliveiras e azinheiras.
Alguns casarões com jardins
cheios de ortigas já, velhos lagares
com ar de paióis antigos.

Um caminho ladeado de ulmeiros,
um palheiro, uma azenha em ruína,
musical, preguiçosa, a palmeira,
e a serra de Gredos azulada na neblina.

Nada do que vejo está nos meus olhos
nem o vento leva o cheiro do jasmim.
Estou morto, olha os meus despojos:
esta paisagem, deixo-ta em testamento.

(Trad. A.M.)




>>  Andrés Trapiello (sítio) / Hemeroflexia (blogue) / A media voz (38p) / Abel Martín (31p) / Lecturalia (biblio) / Wikipedia

.

18.1.14

Gloria Fuertes (Mesmo que não morrêssemos)





Aunque no nos muriéramos al morirnos,
le va bien a ese trance la palabra: Muerte.

Muerte es que no nos miren los que amamos,
muerte es quedarse solo, mudo y quieto
y no poder gritar que sigues vivo.

Gloria Fuertes




Mesmo que não morrêssemos ao morrer,
estaria bem a palavra 'morte'.

Morte é não nos olharem aqueles que amamos,
morte é ficar só, mudo e quedo
e não poder gritar que continuas vivo.

(Trad. A.M.)

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16.1.14

José María Parreño (Hei-de enterrar-te num verso)





Te enterraré en un verso
que no he encontrado aún,
maniatada con tinta
en una zanja escrita a tu medida,
en un renglón de abismo
cavado para ti.
Te haré pedazos, letras.
Desmembrada. Y así
todos podrán leerte
y nadie, escúchame,
nadie
descubrirá tu cuerpo.

José María Parreño

[Huelva sur]



Hei-de enterrar-te num verso
que até agora não achei,
maniatada com tinta
numa vala escrita à tua medida,
numa carreira de abismo
cavada para ti.
Hei-de fazer-te em pedaços, letras.
Desmembrada. E assim
todos poderão ler-te
e ninguém, ouve,
ninguém
descobrirá o teu corpo.

(Trad. A.M.)

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15.1.14

Um verso (127)





Um verso do Assis
(com outro de bónus):




Os amantes amam: são coisas
da primavera.
Os poetas consertam-se: são coisas
da sua mecânica misteriosa.


Fernando Assis Pacheco

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Jesús Lizano (À noite, ao dar uma volta)





ANOCHE, CUANDO PASEABA
(desmitificación)


Anoche, cuando paseaba,
-no sé si podré olvidarme-
sorprendí ¡al universo!
haciendo pipí en la calle.

Jesús Lizano



À noite, ao dar uma volta
– nunca me há-de esquecer –
surpreendi o Universo
a fazer pipi numa esquina.

(Trad. A.M.)



>>  Lizania (sítio-tudo+algo) / CésarAbraham (13p) / Wikipedia

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14.1.14

Jorge de Sena (Fidelidade)





FIDELIDADE



Diz-me devagar coisa nenhuma, assim
como a só presença com que me perdoas
esta fidelidade ao meu destino.
Quanto assim não digas é por mim
que o dizes. E os destinos vivem-se
como outra vida. Ou como outra solidão.
E quem lá entra? E quem lá pode estar
mais que o momento de estar só consigo?
Diz-me assim devagar coisa nenhuma:
o que à morte se diria, se ela ouvisse,
ou se diria aos mortos, se voltassem.


Jorge de Sena

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