28.1.14

Jesús Lizano (Preciso carinho)





NECESITO CARIÑO



Fui al médico del cerebro,
del alma,
los médicos
con su uniforme blanco,
los curas
con su uniforme negro,
los militares
con su uniforme verde,
el papa
con su uniforme blanco.
Ya vemos
lo que les pasa a los dominantes
cuando prescinden de sus uniformes.
Qué ha sido, por ejemplo,
de los reyes
sin su uniforme...

Por no hablar del uniforme
de los bomberos, de los policías,
de los conserjes,
de los mayordomos,
de las monjitas, de los presos,
de los jueces,
vaya uniforme el de los jueces...

¿Y los burgueses?
¿Y su uniforme de señores?
¿Y el de los cocineros?
Pobres cocineros:
hasta los cocineros
revestidos... Y las novias
vestidas de blanco
cuando se dirigen
a firmar con los novios
el contrato...
¡plaga de contratos!

Y qué seria este mundo sin uniformes:
sería
el mundo real poético...

El caso es que fui al médico
del alma, del cerebro...
¡qué pretensión salvar el alma
con la teología,
o la química
y otros derivados
de la Razón! Y cómo
va a curar con su locura
la Razón al alma
si liberarse de su dominio
es lo único
que puede salvarla.

El caso es que fui al médico,
con su uniforme blanco,
llamado bata,
como los farmacéuticos,
como los fantasmas...
hundido por aquél
desamor que había
herido gravemente y, cómo no,
mi alma
y me dio una medicina
como si el alma
fuera un intestino
o una garganta.

Y yo le dije: no necesito
medicina, necesito
cariño...

Y pensé:
lo que yo necesito,
lo que todos necesitamos,
es que se acaben todos los uniformes,
que todo cambie de sentido.

Y las órdenes,
que se acaben las órdenes,
las recetas, los específicos,
los sermones, sobre todo
los sermones.

Recuerdo que cuando yo
era un niño
-un niño niño-
íbamos a la escuela
con uniforme.
¡Venga! ¡Todos uniformados!
Qué educativo...

Y qué son las ideas
sino uniformes malditos
si lo que necesitamos
es cariño, mucho cariño...
Y al cabo de cierto tiempo
volví al médico y me preguntó
si me había tomado la medicina.
Y le dije que no
Y él, indignado, me dijo:
¡No sé
ni cómo le recibo!

Jesús Lizano




Fui ao médico da cabeça,
da alma,
os médicos
na sua farda branca,
os padres
na sua farda negra,
os militares
na sua farda verde,
o papa
na sua farda branca.
Estamos a ver
o que acontece aos poderosos
quando prescindem das fardas.
O que foi, por exemplo,
dos reis
sem a sua farda...

Para já não falar da farda
dos bombeiros, dos polícias,
dos porteiros,
dos mordomos,
das freirinhas, dos presos,
dos juízes,
farda vá lá a dos juízes...

E os burgueses?
E a sua farda de senhoritos?
É a dos cozinheiros?
Pobres cozinheiros,
até os cozinheiros,
revestidos... E as noivas
vestidas de branco
quando se deslocam
para assinar o contrato
com os noivos...
praga de contratos!

E o que seria deste mundo sem fardas,
seria
o mundo real poético...

O caso é que fui ao médico
da alma, da cabeça...
que pretensão salvar a alma
com a teologia,
ou a química
ou outros derivados
da Razão. E como
haveria a Razão
de salvar a alma
com a sua loucura
se escapar ao seu domínio
é a única coisa que pode salvá-la?

O caso é que fui ao médico,
com sua farda branca,
que se chama bata,
como os farmacêuticos,
como os fantasmas...
abatido por aquele
desamor que tinha ferido
gravemente, e como não,
a minha alma,
e então ele deu-me um remédio,
como se a alma
fosse um intestino
ou uma garganta.

E eu disse-lhe, não preciso
de remédio, preciso
de carinho...

E pensei,
o que eu preciso,
o que todos precisamos
é acabar com todas as fardas,
é mudar tudo de sentido.

E as ordens,
acabar as ordens,
as receitas, os remédios específicos,
os sermões, acima de tudo
os sermões.

Recordo que era eu criança
- uma criança criança -
íamos para a escola
de farda.
Chiça! Todos fardados!
Que educativo...

E o que são as ideias
senão fardas malditas,
quando o que precisamos
é de carinho, muito carinho...
E então ao cabo de algum tempo
voltei ao médico e ele perguntou-me
se tinha tomado o remédio.
E eu disse que não.
Vai ele então, indignado:
Nem sei
como é que eu o atendo!

(Trad. A.M.)

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