13.1.14

José Luis García Martín (Uma ilusão de vida)





UNA ILUSIÓN DE VIDA



Silba suave, déjalas que vengan
a comer en tu mano las palabras.
Primero llega la más desvergonzada,
la cara sucia de saliva y lodo,
harta de revolcarse con cualquiera.
No quieres devolverle la sonrisa: aún
no estás tan desesperado.
Llegan luego niñas y en tropel
las voces del verano,
qué transparente el aire,
cuánta arena,
una nube muy blanca en el azul,
una ola mansa en la mañana clara.
Alimañas
que bajan con la nieve
dispersan el rebaño borreguil.
No comen en tu mano:
si te descuidas, la devoran.
Palabras
que afilan sus cuchillos en la sombra.
Como altivos reyes destronados,
señeros vienen los esdrújulos.
Cuánto polvo en los rostros
y cuánta majestad.
El mundo un avispero
de palabras:
todas zumban ahora en torno tuyo.
¿De qué pozo tan negro
vienen esas que traen
alquitrán en las alas,
en el pico piadoso veneno?
Como pesadas moscas
en torno de un cadáver las palabras.
Tú las espantas y ellas siempre vuelven.
Sabes de qué están hechas,
conoces bien sus triquiñuelas,
pero es en vano que trates
de librarte de ellas,
de abrazarte al desnudo silencio.
Sonríe a la más desvergonzada,
deja que anide en ti,
que llene de larvas tu corazón,
que dé a tu vida
una ilusión de vida.

José Luis García Martín

[Andres Vara]



Assobia baixinho, deixa-as vir
comer-te à mão, as palavras.
Primeiro a mais sem-vergonha,
com a cara suja de saliva e de lama
de se rebolar com qualquer.
Não lhe respondes ao sorriso, não estás
assim tão desesperado ainda.
Chegam depois meninas e em tropel
as vozes do Verão,
como o ar é transparente,
quanta areia,
uma nuvem muito branca no azul,
uma onda mansa na manhã clara.
Bichos daninhos
descendo com a neve
dispersam o rebanho de ovelhas.
Não te comem da mão, devoram-ta
se te descuidas.
Palavras
afiando na sombra seus punhais.
Como altivos reis destronados,
solitários chegam os esdrúxulos.
Quanta poeira nos rostos,
quanta majestade.
O mundo um vespeiro
de palavras,
todas zumbem agora à tua volta.
De que poço negro
vêm essas que trazem
alcatrão nas asas
e veneno no bico piedoso?
Pesadas moscas em cima de
um cadáver, as palavras.
Espanta-las e elas voltam sempre.
Sabes de que são feitas,
conheces-lhes bem as artimanhas,
mas não te adianta enxotá-las,
abraçar-te ao silêncio nu.
Sorri à mais sem-vergonha,
deixa-a fazer ninho dentro de ti,
encher-te de larvas o coração,
plantar na tua vida
uma ilusão de vida.

(Trad. A.M.)


> Espelho: Octavio Paz / As palavras

.

12.1.14

Manuel Silva Ramos (O teatro da morte)





Quando alguém morria, forravam a casa de panos pretos.

O local onde estava a pessoa morta.

Nesse tempo inclemente, os mortos ficavam em casa.

Era impressionante.

Para a criança receosa e ponderada que eu era, ver essas casas exíguas tapeçadas de negro, as carpideiras também de negro, com caras engelhadas como batatas velhas, gritando desarrazoadamente como suínas gordas diante de facalhão, o morto que cheirava mal, a viúva caída num buraco de tristeza, os familiares pegados ao luto como moscas coladas à fita adesiva, a tétrica carreta brilhantemente vencedora diante da porta estreita, tudo isto constituía um espectáculo gratuito que me causava uma impressão duradoira.


- MANUEL DA SILVA RAMOS, Pai, levanta-te, vem fazer-me um fato de canela!, 2013 (O teatro da morte).

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Jorge Riechmann (Leito vazio)





LECHO VACÍO


1
Hablo de un tiempo rabioso
en que todos los rostros se habían tornado piedra
pulida impenetrable, y cuervos ávidos de fuego
hostigaban al sol.

Te busqué detrás de todas las puertas condenadas,
en muladares, en torrenteras secas, en mataderos cerrados,
en estaciones vacías. Había perdido
la fuerza de la memoria y del futuro.
Te buscaba con palos aguzados, con dientes
y costillas de cadáveres, con rabia y
con exaltación y con herrumbre.
Hablo de un tiempo en que te había perdido,

y no quedaba nada...

2
Desde que te he perdido
he perdido mi cuerpo.

Azotacalles de un tiempo
sin dimensiones.

Sólo me trato con árboles invictos.

Amontono
las mañanas segadas junto a tu lecho
vacío.


Jorge Riechmann

[Neorrabioso]



1.
Falo de um tempo de raiva
em que todos os rostos se fizeram pedra
polida impenetrável, com corvos ávidos de fogo
a fustigarem o sol.

Busquei-te detrás de todas as portas condenadas,
em lixeiras, em barrancos secos, em matadouros fechados,
em estações vazias. Tinha perdido
a força da memória e do futuro.
Buscava-te com paus aguçados, com dentes
e costelas de cadáveres, com raiva e
com exaltação e ferrugem.
Falo de um tempo em que te havia perdido
e não restava nada...


2.
Desde que te perdi
perdi meu corpo.

Viajeiro de um tempo
sem dimensão.

Sozinho me trato com árvores invictas.

Amontoo
as manhãs ceifadas ao pé do teu leito
vazio.


(Trad. A.M.)

.

11.1.14

Jaime Salazar Sampaio (Seja este minuto)





seja este minuto
o minuto da paz

esta palavra a palavra amiga
e a mão sem versos
poise na tua fronte

seja este minuto
o minuto de silêncio que pediste

e a vida não deu não tinha


Jaime Salazar Sampaio

.

10.1.14

Jorge M. Molinero (Sou um romântico)





SOY UN ROMÁNTICO



Unas me piden
otras me reclaman
todas me exigen
cena romántica y tango
puesta de sol y paseo de la mano
excursiones de fin de semana
regalo -no hace falta que sea caro- por sorpresa
cruasán y café recién hechos para desayunar
sexo con al menos dos orgasmos
y después hablar, que esa es otra

tanto cine y tanta hostia si yo
soy un romántico empedernido que
cree que el amor es para toda la vida

por eso ofrezco: pizza y peli los viernes
(sin atún ni meg ryan)
pipas, cerveza y fútbol los sábados
los domingos, a comer a casa de mamá y
en los anuncios del estudio estadio, un polvo,
a ver si hay suerte y te preño para tener
algo de qué hablar

que el amor
si sólo conoce la rutina
no se torna después
tan doloroso

Jorge M. Molinero



Umas me pedem
outras reclamam
e todas me exigem
tango e jantar com velas
pôr-do-sol e passeio a dois
excursões de fim-de-semana
presente surpresa – não tem de ser caro –
croassã e café fresco de manhã
sexo com dois orgasmos no mínimo
e depois falar, que essa é outra

tanto filme e tanta chatice
quando eu sou um romântico empedernido
que crê no amor para sempre

por isso ofereço: pizza e filme à sexta-feira
(sem atum nem meg ryan)
borga, cerveja e bola aos sábados
ao domingo, comer em casa da mamã e
nos anúncios do estúdio estádio, uma queca,
a ver se com sorte te engravido para ter
algo de que falar

que o amor
não passando da rotina
não se torna depois
tão doloroso


(Trad. A.M.)

.

9.1.14

Manuel Silva Ramos (Calças remendadas)





Nesse tempo de fome, de medo e de subserviência, as pessoas que não tinham dinheiro, depois de rompidas as calças, metiam quadras no cu.

Chegavam-se com modos lentos perto do meu pai e, depois de terem escolhido um remendo, faziam-lhe confiança.

Passados oito dias já as podiam vestir.

Havia por vezes pessoas que sobrepunham remendos e eram calças que podiam durar dez anos.

Nessa altura era fácil conservar as mesmas medidas durante anos, pois as pessoas não tinham meios para se alargarem na comida, muitas chupavam um caroço de azeitona desde os cueiros até à morte, era uma fatalidade como ser-se pegador de fios numa fábrica de lanifícios da Covilhã de pai para filho.



- MANUEL DA SILVA RAMOS, Pai, levanta-te, vem fazer-me um fato de canela!, 2013 (Tirar os alinhavos).

.

Jorge Espina (Regresso)





REGRESO


A los amigos que poco a poco me van olvidando.
A los profesores
que ya me han olvidado.
A mis compañeros de primaria.

¿Qué estaréis haciendo ahora?

Yo arrastro el peso de mi conciencia,
intento caminar hacia atrás,
remontar el río hasta la fuente,
regresar
al patio de la infancia.

Jorge Espina

[Hasta los gatos acaban por suicidarse]


Aos amigos que me vão esquecendo pouco a pouco.
Aos professores
que já me esqueceram.
Aos companheiros da primária.

Que estareis fazendo agora?

Eu cá arrasto o peso da consciência,
tento caminhar para trás,
subir o rio até à nascente,
regressar
ao pátio da infância.

(Trad. A.M.)

.

8.1.14

Marcos Siscar (Jardim à francesa)





JARDIM À FRANCESA



eu com minha idade sentado num banco de praça
meu coração era do tamanho do mundo
feito do seu elemento de água rumor e ornamento
duas alamedas duas fontes se escorrendo
meu coração era do tamanho deste mundo
ora assim igual a si mesmo ora se
desconhecendo
mas meu coração é menos perfeito do que esta praça
às vezes se lembra e dificilmente
da hora exata do retorno do tempo
meu coração às vezes tropeça projeta uma perna
sobre a outra
se interrompe mudo parece
que pensa

Marcos Siscar



>>  Marcos Siscar (blogue) / Facebook / Jornal de Poesia (10p) / Antonio Miranda (10p) / Modo de usar (5p)

.

7.1.14

Joan Margarit (Helena)





HELENA



El ayer es tu infierno, es cada instante
en el que, sin saberlo, te has perdido
y cada instante en el que te has salvado.
Cuando el joven que fuiste está muy lejos,
amar es la venganza del pasado.
Viene desde una guerra donde fuiste vencido,
de armas y campamentos que un día abandonaste
en la Troya que llevas en ti mismo.
Te buscarán de noche los aqueos
y estrecharán el cerco. Volverás,
por alguna mujer, a perder la ciudad.
Helena es estos sueños
de los cuales la vida fue apropiándose.
Defiéndela otra vez: será la última.
Y hazlo con valentía, desarmado.

Joan Margarit



Teu inferno é ontem, é cada instante
em que, sem saber, te perdeste
e cada instante em que te salvaste.
Quando o jovem que foste está já longe,
amar é a vingança do passado.
Vem de uma guerra onde foste vencido,
de acampamentos e armas que um dia abandonaste
na Tróia que tens dentro de ti mesmo.
Hão-de buscar-te de noite os aqueus
e apertar o cerco. Voltarás,
por uma mulher, a perder a cidade.
Helena é estes sonhos
que a vida foi apropriando.
Defende-a outra vez, a última.
E fá-lo com valentia, desarmado.

(Trad. A.M.)

.

6.1.14

Um verso (126)





Um verso de Fernando Pessoa / R. Reis
(quase nada):




Somos contos contando contos, nada



Ricardo Reis

.




Javier Salvago (Poética)





POÉTICA



Amar por el placer de amar,
pero no sólo.
Zambullirse en la vida
no sólo por el gusto de gozarla.
Probar todos los frutos
para saber qué ocultan y a qué saben.
Comer para rumiar.
Vivir para contarlo.

Javier Salvago



Amar pelo prazer de amar,
mas não só.
Mergulhar na vida
não só pelo gosto de gozá-la.
Experimentar todos os frutos
para saber o que ocultam e a que sabem.
Comer para remoer.
Viver para o contar.

(Trad. A.M.)

5.1.14

Inês Dias (Os conjurados)




OS CONJURADOS



Estamos do lado errado. Outra vez.

Fomos esquecendo as senhas
que nos abriam a solidão e o espanto.
Crescemos baços, cansados, estrelas
frias mas longe da onda que virá
lavar o sangue do sacrifício.
E mais facilmente cruzávamos
espelhos, muros, desamores
do que atravessávamos esta rua
ou restaurávamos agora
a independência das nossas almas.

Talvez se consiga ainda exumar,
na nossa arqueologia de sobrevivência,
uma dessas palavras latentes
para oferecer a um poeta -
apenas significante, já tão pouca flor.
Esperaríamos depois,
ao redor da cama de um de nós,
que esse gesto perturbasse destinos,
acordasse motins serenos, fosse o grão
de pólen no mecanismo sensível do mundo.

Inês Dias


[Luz & sombra]

.

4.1.14

Gloria Fuertes (Tudo no mundo tem grades)





Todo el mundo tiene rejas.
Esta vida es una cárcel,
una jaula, una cisterna
y te ahogas cuando sales.

Gloria Fuertes



Tudo no mundo tem grades.
Esta vida é um cárcere,
uma jaula, uma cisterna
e tu, quando sais, afogas-te.

(Trad. A.M.)



>>  Fundação G.F. / A media voz (34p) / Poesi.as (16p) / Atlas de poesia (16p) / Wikipedia

.

3.1.14

Manuel Silva Ramos (Um hospital)





Situado já na encosta da serra, este hospital mais parecia uma sucursal do mercado municipal onde as pessoas se abasteciam de víveres.

Alcofas cheias de laranjas, ou com grandes tachos cheios de comida embrulhada em jornais, malotes com cachos de bananas e com feijoadas escondidas, ou então com formidáveis sopas espessas que levantavam um morto, tudo transportado por gente jovial, que acreditava no poder da manducação sobre a saúde geral.


- MANUEL DA SILVA RAMOS, Pai, levanta-te, vem fazer-me um fato de canela!, 2013 (Umbigofonia).

.

Gioconda Belli (Como cântaro)





COMO TINAJA



En los días buenos,
de lluvia,
los días en que nos quisimos
totalmente,
en que nos fuimos abriendo
el uno al otro
como cuevas secretas;
en esos días, amor,
mi cuerpo como tinaja
recogió toda el agua tierna
que derramaste sobre mí
y ahora,
en estos días secos
en que tu ausencia duele
y agrieta la piel,
el agua sale de mis ojos
llena de tu recuerdo
a refrescar la aridez de mi cuerpo
tan vacío y tan lleno de vos.

Gioconda Belli

[Laia Noguera]



Nos dias bons,
de chuva,
os dias em que nos quisemos
totalmente,
em que nos fomos abrindo
um ao outro
como grutas secretas;
nesses dias, amor,
meu corpo como cântaro
colheu toda a água mole
que derramaste sobre mim
e agora,
nestes dias secos
em que me dói a tua ausência
e me greta a pele,
a água cai-me dos olhos
cheia da tua lembrança
a refrescar a aridez do meu corpo,
tão vazio e tão cheio de ti.

(Trad. A.M.)

.

2.1.14

João Guimarães Rosa (Todo caminho da gente)





Todo caminho da gente é resvaloso.
Mas também, cair não prejudica demais
A gente levanta, a gente sobe, a gente volta!...
O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim:
Esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa,
Sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem.
Ser capaz de ficar alegre e mais alegre no meio da alegria,
E ainda mais alegre no meio da tristeza...


João Guimarães Rosa



>>  Sopoesia (23p) / Mensagens com amor (14p) / Antonio Miranda (13p)

.

1.1.14

Felipe Benítez Reyes (O símbolo da nossa vida)





EL SÍMBOLO DE TODA NUESTRA VIDA



Hay noches que debieran ser la vida.
Intensas largas noches irreales
con el sabor amargo de lo efímero
y el sabor venenoso del pecado
- como si fuésemos más jóvenes
y aún nos fuese dado malgastar
virtud, dinero y tiempo impunemente.

Debieran ser la vida,
el símbolo de toda nuestra vida,
la memoria dorada de la juventud.
Y, como el despertar repentino de una vieja pasión,
que volviesen de nuevo aquellas noches
para herirnos de envidia
de todo cuanto fuimos y vivimos
y aún a veces nos tienta
con su procacidad.
Porque debieron ser la vida.

Y lo fueron tal vez, ya que el recuerdo
las salva y les concede el privilegio de fundirse
en una sola noche triunfal,
inolvidable, en la que el mundo
pareciera haber puesto
sus llamativas galas tentadoras
a los pies de nuestra altiva adolescencia.

Larga noche gentil, noche de nieve,
que la memoria te conserve como una gema cálida,
con brillo de bengalas de verbena,
en el cielo apagado en el que flotan
los ángeles muertos, los deseos adolescentes.


FELIPE BENITEZ REYES
Los Vanos Mundos
(1985)



Noites há que deviam ser a vida.
Intensas, longas noites irreais,
com o sabor amargo do efémero
e o gosto de veneno do pecado
– como se fôssemos mais jovens
e pudéssemos ainda malgastar,
impunemente, virtude, dinheiro e tempo.

Deviam ser a vida,
o símbolo da nossa vida inteira,
a dourada memória da mocidade.
E, qual súbito despertar de antiga paixão,
que voltassem de novo essas noites
ferindo-nos de inveja
de tudo quanto fomos e vivemos
e ainda por vezes nos tenta
com sua procacidade.
Porque eram para ser a vida.

E foram-no talvez, já que a lembrança
as poupa e lhes dá o privilégio de se fundirem
numa só noite triunfal,
inolvidável, em que se diria
ter o mundo posto
suas galas tentadoras
aos pés da nossa altiva adolescência.

Longa noite gentil, noite de neve,
que a memória te guarde como gema cálida,
com o brilho do fogo do arraial,
no céu apagado em que vogam
os anjos mortos, os desejos adolescentes.


(Trad. A.M.)

.

31.12.13

INDICE DE AUTORES (2005-13)





A., Ruben
ABASS, Umar
ACQUARONI, Rosana
AGUIAR, Cristóvão
AGUIAR, Jorge
AGUIRRE, Francisca
AGUIRRE, María Belén
AGUIRRE, Raúl Gustavo
AGUSTINI, Delmira
ALBERT, Irene
ALBERTI, Rafael
ALEGRE, Manuel
ALEGRIA, Claribel
ALEIXANDRE, Vicente
ALEXANDRE, António Franco
ALIAGA, Cristian
ALIEBURI, Ibne Ayyas
ALISBUNI, Ibne Mucana
ALMEIDA, Fialho
ALMEIDA, José António
ALMUTÂMIDE, Mohâmede
ALMUZARA, Javier
ALONSO, Dámaso
ALVIM, Francisco
AMAR, Ibne
AMARAL, Ana Luísa
AMARO, Luís
ANDRADE, Carlos Drummond
ANDRADE, Eugénio
ANDRADE, Mário
ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner
ANDREU, Pedro
ANSELME, Jean l‘
ARIDJIS, Homero
ASSIS, Machado
ATWOOD, Margaret
BANDEIRA, Manuel
BAPTISTA, Amadeu
BAPTISTA, José Agostinho
BARAHONA, António
BARRAL, Juanjo
BARRON, Néstor
BARROS, José Carlos
BARROS, Manoel
BARRUECO, José Ángel
BAUDELAIRE, Charles
BAUTISTA, Amalia
BEAUVOIR, Simone
BEJARANO, Julián
BELLI, Gioconda
BELO, Ruy
BENEDETTI, Mario
BENÍTEZ REYES, Felipe
BERGAMÍN, José
BERTO, Al
BIGURI, Íker
BLANDIANA, Ana
BOCCANERA, Jorge
BOLAÑO, Roberto
BONIFAZ NUÑO, Rubén
BONILLA, Gsús
BONILLA, Juan
BONNETT, Piedad
BORGES, Jorge Luís
BOTAS, Victor
BOTELHO, Renata Correia
BOTTO, António
BRANCO, Camilo Castelo
BRANCO, Rosa Alice
BRANDÃO, Fiama Hasse Pais
BRANDÃO, Raul
BRASIL, Geraldino
BRECHT, Bertolt
BRINES, Francisco
BRITO, Casimiro
BROSSA, Joan
BUKOWSKI, Charles
CABRAL, A.M.Pires
CABRAL, Rui Pires
CADILHE, Gonçalo
CALDERÓN, Teresa
CAMARNEIRO, Nuno
CAMÕES, Luís
CARNEIRO, Mário Sá
CARRIEGO, Evaristo
CARSON, Anne
CARVALHEIRA, Jorge
CARVALHO, Armando Silva
CARVALHO, José Rentes
CARVALHO, Mário
CARVALHO, Raul
CARVER, Raymond
CASARES, Pablo
CASARIEGO, Pedro
CASTELLANOS, Rosario
CASTILLA, Manuel J.
CASTILLO, Horacio
CASTRO, Rosalía
CATTANEO, Susana
CELAYA, Gabriel
CENTENO, Yvette
CERNUDA, Luís
CESARINY, Mário
CÉSPEDES, Alejandro
CHACÓN, Dulce
CHAR, René
CICERO, Antonio
CINATTI, Ruy
CONTARDI, Marilyn
CORREDOR-MATHEOS, José
CORREIA, João Araújo
CORREIA, Natália
CORTÁZAR, Julio
COSTAFREDA, Alfonso
CRAWFORD, Robert
CRESPO, Ángel
CRUZ, Sor Juana Inês
CUENCA, Luis Alberto
DALTON, Roque
DAS, Javier
DELMAR, Meira
DEUS, João
DIAS, Inês
DÍAS, Marcelo Daniel
DIAS, Saul
DÍAZ-GRANADOS, Federico
DIEGO, Eliseo
DIONÍSIO, Mário
DOCE, Jordi
DURRELL, Lawrence
EDSON, Russel
EIRAS, Pedro
ELOY BLANCO, Andrés
ELUARD, Paul
ERRASTI, Eduardo
ESPANCA, Florbela
ESPINA, Jorge
FAFE, José Fernandes
FELIPE, León
FERNÁNDEZ MORENO, Baldomero
FERREIRA, David Mourão
FERREIRA, José Gomes
FERREIRO, Celso Emilio
FERRUZ, Raúl
FIGUEIREDO, Tomaz
FONOLLOSA, José María
FONSECA, Manuel
FONTE, Ramiro
FORTE, António José
FREITAS, Manuel
GALARZA, Javier
GALEANO, Eduardo
GALLEGO, Vicente
GAMONEDA, Antonio
GARCÍA CALVO, Agustín
GARCÍA CASADO, Pablo
GARCÍA LORCA, Federico
GARCÍA-MÁIQUEZ, Enrique
GARCÍA MARTÍN, José Luis
GARRETT, Almeida
GELMAN, Juan
GIANNUZI, Joaquín
GIDE, André
GIL DE BIEDMA, Jaime
GIOIA, Dana
GIRONDO, Oliverio
GÓMEZ JATTÍN, Raúl
GONZÁLEZ, Angel
GONZÁLEZ, David
GONZÁLEZ, Jonio
GONZÁLEZ, Ulalume
GONZÁLEZ ANSORENA, Luis
GONZÁLEZ IGLESIAS, Juan Antonio
GONZÁLEZ MORENO, Pedro A.
GOROSTIZA, José
GOYTISOLO, José Agustín
GRANDE, Félix
GREGÓRIO, António
GUEDEA, Rogelio
GUINDA, Ángel
GULLAR, Ferreira
GUTIÉRREZ VEGA, Hugo
HAHN, Óscar
HATHERLY, Ana
HELDER, Herberto
HERCULANO, Alexandre
HERNÁNDEZ, Francisco
HERNÁNDEZ, Miguel
HERNÁNDEZ, Paz
HIDALGO, José Luis
HILST, Hilda
HORTA, Maria Teresa
HUIDOBRO, Vicente
IGLESIAS, Jacob
INÁCIO, Ana Paula
IRIBARREN, Karmelo C.
JEANSON, Henri
JONAS, Daniel
JORGE, João Miguel Fernandes
JORGE, Luiza Neto
JUARISTI, Jon
JUARROZ, Roberto
JÚDICE, Nuno
JUNQUEIRO, Guerra
KAVAFIS, Konstandinos
KNOPFLI, Rui
LACERDA, Alberto
LAINE, Jarkko
LASHERAS, Javier
LEIRIA, Mário-Henrique
LEMINSKI, Paulo
LEVI, Jan Heller
LIMA, Ângelo
LISPECTOR, Clarice
LIZALDE, Eduardo
LLANOS, Eduardo
LOBO, Francisco Rodrigues
LOPES, Adília
LOPES, Fernão
LÓPEZ CORTÉS, Pura
LÓPEZ PACHECO, Jesus
LUHRMANN, Baz
MACEDO, Helder
MACHADO, Antonio
MÃE, Valter Hugo
MAILLARD, Chantal
MARGARIT, Joan
MARTÍNEZ FERRER, América
MARTINS, Albano
MARTINS, Miguel
MARZAL, Carlos
MATTOS, António Almeida
MEDINA, Dante
MEIRELES, Cecília
MENDES, Murilo
MENDONÇA, José Tolentino
MERINI, Alda
MERINO, Ana
MESTRE, Juan Carlos
MEXIA, Pedro
MEZQUITA, Nuria
MIGUÉIS, José Rodrigues
M ILÁN, Eduardo
MIRANDA, Francisco Sá
MITRE, Eduardo
MOLINERO, Jorge M.
MONETTE, Hélène
MONTEIRO, Adolfo Casais
MONTEJO, Eugenio
MONTOJO MICÓ, Ana
MORAES, Vinicius
MORAL, Paco
MORIN, E.
MOURA, Gabriela
MOYA, Manuel
MUJICA, Hugo
MUÑOZ, Cysko
MUÑOZ LAGOS, Marino
MUÑOZ ROJAS, José Antonio
MUTIS, Álvaro
NAMORA, Fernando
NAMORADO, Joaquim
NAVA, Luís Miguel
NEGREIROS, Almada
NEJAR, Carlos
NEMÉSIO, Vitorino
NERUDA, Pablo
NESSI, Alberto
NETO, João Cabral de Melo
NEUMAN, Andrés
NIETZSCHE, Friedrich
NOVELLI, Aldo Luis
NÚÑEZ, Aníbal
OCAMPO, Silvina
OLIVEIRA, Carlos
OLIVEIRA, Carlos Mota
OLIVEIRA, José Alberto
OLIVEIRA, Mário Rui
O’NEILL, Alexandre
ORIHUELA, Antonio
OROZCO, Olga
ORS, Miguel d’
ORTIZ, Fernando
ORY, Carlos Edmundo
OSÓRIO, António
OTERO, Blas
PACHECO, Fernando Assis
PACHECO, José Emilio
PALAU, Josep
PANERO, Juan Luis
PANERO, Leopoldo María
PARISO, Valeria
PARRA, Josefa
PARRA, Nicanor
PARRADO, Luís Filipe
PARREÑO, José María
PAVESE, Cesare
PAZ, Octavio
PEDREIRA, Maria do Rosário
PEDRONI, José
PEIXOTO, José Luís
PÉREZ CABAÑA, Rosario
PÉREZ CAÑAMARES, Ana
PÉREZ MONTALBÁN, Isabel
PÉREZ MORTE, Antonio
PÉREZ-SAUQUILLO, Vanesa
PÉREZ VALLEJO, Ernesto
PERI ROSSI, Cristina
PESSANHA, Camilo
PESSOA, Fernando
PESSOA, Fernando (A.Caeiro)
PESSOA, Fernando (A.Campos)
PESSOA, Fernando (R.Reis)
PETISME, Ángel
PIMENTA, Alberto
PINA, Manuel António
PIQUERO, José Luis
PIRES, Graça
PITTA, Eduardo
PIZARNIK, Alejandra
PLATH, Sylvia
PRADO, Adélia
PRÉVERT, Jacques
QUART, Pere
QUINTANA, Mário
RAMOS, Manuel Silva
RAMOS, Pepe
RAMOS SIGNES, Rogelio
RANGEL, Violeta C.
RASCÓN, Patricio
RÉGIO, José
REIS, António
REYES, Miriam
RIBEIRO, Aquilino
RIBEIRO, Bernardim
RIECHMANN, Jorge
RITSOS, Yannis
RODRÍGUEZ, Claudio
RODRÍGUEZ, Josep M.
RODRÍGUEZ, Lucas
ROJAS, Gonzalo
ROJAS HERAZO, Héctor
ROMERO, Kutxi
ROSA, António Ramos
ROSENBERG, Mirta
ROSSETTI, Ana
RUSHIN, Kate
SABINES, Jaime
SAFO
SALEM, Carlos
SALINAS, Pedro
SALVAGO, Javier
SAMPAIO, Jaime Salazar
SÁNCHEZ, Raúl
SÁNCHEZ CARRÓN, Irene
SÁNCHEZ ROSILLO, Eloy
SANT’ANNA, Affonso Romano
SANTOS, José Carlos Ary
SANZ, María
SARA, Ibne
SENA, Jorge
SERPA, Alberto
SEXTON, Anne
SEVILLA, Pedro
SICILIA, Javier
SILVA, José Mário
SILVA, José Miguel
SIMÓN, César
SIMONOV, Konstantin
STABILE, Uberto
STRAND, Mark
TAGORE, Rabindranath
TALENS, Jenaro
TAMEN, Pedro
TAVARES, Gonçalo M.
TEILLIER, Jorge
THEOBALDY, Jürgen
TORGA, Miguel
TRAMÓN, Marcos
UÁZIR, Abdalá Ibne
UGIDOS, Silvia
URONDO, Francisco
VALDÉS, Zoé
VALENTE, José Ángel
VALÉRY, Paul
VALLEJO, César
VALLVEY, Ángela
VALVERDE, Álvaro
VARELA, Blanca
VAZ, Eva
VEGA, Alberto
VERDE, Cesário
VICENTE, Gil
VILA-MATAS, Enrique
VILARIÑO, Idea
VILLENA, Luis Antonio
VITALE, Ida
WANG, Berna
WILLIAMS, W. C.
WITTNER, Laura
WOLFE, Roger
YEATS, W.B.
YOURCENAR, Marguerite
ZAÍD, Gabriel
ZINK, Rui
ZONTA, José María
ZUÑIGA, José Luis

.

30.12.13

Ernesto Pérez Vallejo (Usava saia de balão)





Llevaba falda de vuelo
aunque era yo el que volaba,
nada me hubiera gustado tanto en ese momento
como aterrizar entre sus muslos,
incluso más que un chocolate de coco.

Ha descruzado las piernas
y Sharon Stone se ha convertido
en actriz secundaria de mis fantasías húmedas.
Creo que se llama Laura,
si me vuelve la voz le pregunto.
Lo prometo.

Ernesto Pérez Vallejo

[Voces del extremo]



Usava saia de balão
mas era eu quem voava,
e nada amaria tanto então
como aterrar nas suas carnes,
nem mesmo chocolate de coco.
Ela descruzou as pernas
e Sharon Stone converteu-se em
actriz secundária das minhas fantasias molhadas.
Creio que se chama Laura,
se a voz me voltar pergunto-lhe.
Prometo.

(Trad. A.M.)

.

29.12.13

Gonçalo M. Tavares (Mistério)





MISTÉRIO



Nem sempre o Mistério
está fora do alcance da mão, como
o país estrangeiro. Por vezes ele viaja para cá,
encosta-se às decisões materiais de
um dia vulgar;
e surge, súbita e absurdamente,
no meio de uma acção do quotidiano.
Descuidados, nessa altura, chamamos ao mistério erro,
e rapidamente o eliminamos.


Gonçalo M. Tavares


[O poema que hoje partilharia]

.

28.12.13

Eloy Sánchez Rosillo (A viagem)





EL VIAJE



Saber que estás ahí, mientras trabajo
en el cuarto de al lado, mientras busco
a solas el poema, me estimula,
me da ilusión y fuerza y esperanza.

Yo me voy a mis sueños y me adentro
por inciertas regiones en las que nunca estuve.
No admite compañía esta aventura:
es preciso estar solo para hallar lo que importa.

Me pierdo en ocasiones, pero a veces encuentro
extrañas maravillas que nadie ha visto antes.
Por favor, no te vayas y espera mi regreso;
tu serás cuando vuelva, la primera en mirarlas.

Eloy Sánchez Rosillo



Saber-te aí, enquanto trabalho
no quarto ao lado e busco
a sós o poema, estimula-me,
encanta-me, dá-me força e esperança.

Eu vou para meus sonhos e penetro
incertas regiões em que nunca estive.
Não admite companhia esta aventura,
há que estar só para achar aquilo que importa.

Perco-me às vezes, mas outras vezes encontro
estranhas maravilhas que ninguém topou antes.
Por favor, não te vás, espera que eu volte;
tu serás, quando eu voltar, a primeira a contemplá-las.

(Trad. A.M.)

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27.12.13

Francisco Alvim (Viúva)





VIÚVA


Luís me amava muito
muito mesmo
apesar de suas amantes
foi por isso que nunca me separei


Francisco Alvim


[Antonio Cicero]


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26.12.13

José María Zonta (Eu vou fazer-me o favor)





Me voy a hacer el favor de amarte
yo
que nunca me traté con amabilidad
que no me quejé si las botas me apretaban
ni protesté por los millones de desayunos fríos

a partir de ahora
me haré el dulce regalo de besarte

tal vez eso no signifique
que duelan menos las palabras que duelen

ni dejar de cortarme al afeitarme el alma

no importa

yo con mis favores me alcanzo
me pongo una mano en el hombro
un abrigo si llueve
y me ofrezco así a los demás

sin el apoyo del gobierno
pero con el aplauso de las flores

voy a hacerme el favor
de bajar del tren
encender el fuego
y amarte.


José María Zonta

[A quien corresponda]



Eu vou fazer-me o favor de te amar
eu
que nunca fui bom para mim mesmo
que não me queixei de as botas me apertarem
nem reclamei de mil almoços frios
doravante far-me-ei
o presente de te beijar
embora tal não queira dizer
que doam menos as palavras que doem
ou que me não corte ao fazer a barba da alma
não importa
eu cá me entendo com meus favores
passo-me a mão pelo ombro
um abrigo caso chova
e assim me ofereço aos outros
sem ajuda do governo
mas com o aplauso das flores
vou fazer-me o favor
de descer do comboio
acender a fogueira
e amar-te.

(Trad. A.M.)

.

25.12.13

Ferreira Gullar (Falar)





FALAR



A poesia é, de fato, o fruto
de um silêncio que sou eu, sois vós,
por isso tenho que baixar a voz
porque, se falo alto, não me escuto.

A poesia é, na verdade, uma
fala ao revés da fala,
como um silêncio que o poeta exuma
do pó, a voz que jaz embaixo
do falar e no falar se cala.
Por isso o poeta tem que falar baixo
baixo quase sem fala em suma
mesmo que não se ouça coisa alguma.


Ferrreira Gullar

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24.12.13

David González (Tinta)





TINTA



Mi otro abuelo
estuvo preso en Oviedo.
En la cárcel provincial.
Después de la guerra.

Todas las mañanas
colgaban una lista
en la puerta de entrada de la cárcel.
En esa lista estaban escritos
los nombres y los apellidos
de todas las personas
a las que el día anterior
habían puesto contra el paredón
o dado muerte
mediante garrote vil.

Imagínate a tu abuela,
me decía mi padre,
sin saber leer ni escribir,
conmigo en brazos,
preguntando a gritos
a las otras mujeres
si tu abuelo
se había convertido

en tinta.

David González

[Crepusculario siglo XXI]



Meu outro avô
esteve preso em Oviedo,
na cadeia regional,
depois da guerra.

Todos os dias
punham uma lista
na porta da cadeia.
Com os nomes e apelidos
daqueles que no dia anterior
tinham sido fuzilados contra o muro
ou estrangulados no garrote.

Imagina a tua avó,
dizia meu pai,
sem saber ler nem escrever,
comigo ao colo,
perguntando aos gritos
às outras mulheres
se o teu avô
se tinha convertido

em tinta.


(Trad. A.M.)

.

23.12.13

Eugénio de Andrade (Casa na chuva)





CASA NA CHUVA



A chuva, outra vez sobre as oliveiras.
Não sei por que voltou esta tarde
se minha mãe já se foi embora,
já não vem à varanda para a ver cair,
já não levanta os olhos da costura
para perguntar: Ouves?
Oiço, mãe, é outra vez a chuva,
a chuva sobre o teu rosto.

Eugénio de Andrade


[Instituto Camões]

22.12.13

Homero Aridjis (As palavras não dizem)





LAS PALABRAS NO DICEN 



Las palabras no dicen lo que dice un cuerpo
subiendo la colina al anochecer
las palabras no dicen lo que dice un colibrí
en el aire al mediodía
las palabras no dicen lo que dice un perro
esperando a su amo que nunca volverá
las palabras no dicen lo que dice el paso de la mujer
y el movimiento en el árbol de la mañana
las palabras no dicen lo que siente un fresno
al ser fulminado por un rayo
las palabras no dicen la sensación de nacer
de amar y de morir
las palabras son las sombras atadas a los pies de un hombre
que avanza demasiado rápido entre la multitud
son párpados de sueño con que el hombre cubre
el amor que no alcanza a comprender.

Homero Aridjis


As palavras não dizem o que diz um corpo
subindo a colina ao anoitecer
as palavras não dizem o que diz um colibri
no ar ao meio-dia
as palavras não dizem o que diz um cão
esperando o dono que jamais voltará
as palavras não dizem o que diz a mulher a passar
ou o mexer da árvore da manhã
as palavras não dizem o que sente um freixo
ao ser fulminado por um raio
as palavras não dizem a sensação de nascer
de amar de morrer
as palavras são sombras atadas aos pés de um homem
que avança depressa demais por entre a multidão
são pálpebras de sono com que o homem tapa
o amor que não consegue compreender.

(Trad. A.M.)

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21.12.13

Luiza Neto Jorge (Encantatória)





ENCANTATÓRIA



Custa é saber
como se invoca o ser
que assiste à escrita,
como se afina a má-
quina que a dita,
como no cárcere
nu se evita,
emparedado, a lá-
grima soltar.

Custa é saber
como se emenda morte,
ou se a desvia,
como a tecla certa arreda
do branco suporte
a porcaria.

Luiza Neto Jorge


[Meia-noite todo o dia]


.

20.12.13

Cysko Muñoz (A palavra precisa)





LA PALABRA PRECISA



Después de enviarle
más de cien poemas
me escribe y me dice
que esos no son
los poemas que ella quiere,
que no son certeras
que no son precisas
las palabras.

Me dice
que la palabra precisa
nace en el valle
escala montañas
se alza
y su eco
llega hasta el mar.

Que la palabra precisa
desciende las playas
remonta mareas
alcanza los barcos
y los lleva hasta puerto
deshace los nudos
amordaza sirenas
y los piratas riendo
no pueden
dejar de brindar.

Que la palabra precisa
se eleva a los cielos
y atrapa huracanes,
que acalla tormentas
pero acompaña a la lluvia
en su viaje hasta el suelo.
Que la palabra precisa
riega los campos
alimenta la tierra
y endulza los frutos.

Que la palabra precisa
en el corazón de los hombres
es la luz que prende
y calienta las almas,
que es el antídoto
de la soledad certera,
que abriga los cuerpos
que eleva el poema
que seca la lágrima
y evidencia la piedra
para no volver a tropezar.

Que la palabra precisa
es la esparraguera
donde yace mi padre.
Que la palabra precisa
son sus cenizas cuidando
del bosque.
Que la palabra precisa
mantiene el recuerdo
y aviva la llama
y me convierte de nuevo en un niño
que juega feliz a sus pies.

Que la palabra precisa
nos da la mano
y nos lleva.
Que nos envuelve en caricias
y nos arranca los miedos,
que en el camino
nos infunde el aliento
y nos reconcilia
para poder mirar atrás.

Me escribe y me dice
que los poemas que le envío
no son los poemas que ella quiere.
Que no son certeros los versos
que no la hacen volar.
Que ella solo ama
la palabra precisa.

Y yo me arranco el cabello
levanto el asfalto
incendio colegios
desnudo las calles
arraso los parques
destripo el pasado
buscando unos versos
que la hagan temblar.

Y yo
atravieso el insomnio
y busco la llave.

Y yo me vuelvo loco
a la caza certera
de la palabra precisa
que le haga saber que nadie
la amará nunca
como ya he empezado
a amarla yo.

Cysko Muñoz



Depois de lhe mandar
mais de cem poemas
ela escreve-me e diz-me
que não são aqueles
os poemas que quer
que não são as certas
as palavras
nem são exactas.

Diz-me
que a palavra exacta
nasce no vale
escala montanhas
eleva-se
e o seu eco
chega até ao mar.

Que a palavra exacta
desce às praias
sobe marés
alcança os barcos
e condu-los a porto
desata os nós
amordaça sereias
e os piratas rindo
não param de brindar.

Que a palavra exacta
se ergue aos céus
apanha furacões
acalma tormentas
mas segue a chuva
a descer até ao chão.
Que a palavra exacta
rega os campos
alimenta a terra
e adoça os frutos.

Que a palavra exacta
no coração dos homens
é a luz que prende
e aquece as almas,
que é o antídoto
da certa solidão,
que abriga os corpos
que eleva o poema
que seca a lágrima
e põe a pedra à vista
para se não tropeçar.

Que a palavra exacta
é o canteiro de espargos
onde jaz o meu pai.
Que a palavra exacta
são as cinzas dele
adubando o bosque.
Que a palavra exacta
mantém a lembrança
e aviva a chama
e faz-me novamente menino
brincando a seus pés.

Que a palavra exacta
nos dá a mão
e nos leva.
Que com carícias nos prende
e nos tira os medos,
que nos alenta para o caminho
e nos reconcilia
para olharmos para trás.

Escreve-me e diz-me
que os poemas que lhe envio
não são aqueles que ela quer.
Que não são os certos os versos
que não a fazem voar.
Que ela ama apenas
a palavra exacta.

E eu arranco os cabelos
levanto o asfalto
incendeio colégios
desnudo ruas e praças
arraso os parques
estripo o passado
em busca de versos
que a façam estremecer.

E eu
atravesso a insónia
à procura da chave.

E eu endoideço
à caça da palavra exacta
que lhe faça saber
que ninguém a amará nunca
como eu comecei a amá-la já.

(Trad. A.M.)

.

19.12.13

Carlos Drummond de Andrade (Confissão)





CONFISSÃO



Não amei bastante meu semelhante,
não catei o verme nem curei a sarna.
Só proferi algumas palavras,
melodiosas, tarde, ao voltar da festa.


Dei sem dar e beijei sem beijo.
(Cego é talvez quem esconde os olhos
embaixo do catre.) E na meia-luz
tesouros fanam-se, os mais excelentes.


Do que restou, como compor um homem
e tudo o que ele implica de suave,
de concordâncias vegetais, murmúrios
de riso, entrega, amor e piedade?


Não amei bastante sequer a mim mesmo,
contudo próximo. Não amei ninguém.
Salvo aquele pássaro – vinha azul e doido –
que se esfacelou na asa do avião.


Carlos Drummond de Andrade

[Poesia cronica]

.

18.12.13

Antonio Pérez Morte (E agora?)





Y AHORA QUÉ?



¿Y ahora qué, lector?
Solos tu y yo,
desconocidos.
Unidos por un libro
en el que no sé qué buscas,
en el que yo ando perdido.

Antonio Pérez Morte

[Sureando]



E agora, leitor?
Sós, tu e eu,
desconhecidos.
Unidos por um livro
onde não sei o que procuras,
e onde eu ando perdido.

(Trad. A.M.)

.

17.12.13

António José Forte (Excepto tu, meu amor)





EXCEPTO TU MEU AMOR EXCEPTO TU



MEU AMOR
minha aranha mágica agarrada ao meu peito
cravando as patas aceradas no meu sexo
e a boca na minha boca
conto pelos teus cabelos os anos em que fui criança
marco-os com alfinetes de ouro numa almofada branca
um ano dois anos um século
agora um alfinete na garganta deste pássaro
tão próximo e tão vivo
outro alfinete o último o maior
no meu próprio plexo

MEU AMOR
conto pelos teus cabelos os dias e as noites
e a distância que vai da terra à minha infância
e nenhum avião ainda percorreu
conto as cidades e os povos os vivos e os mortos
e ainda ficam cabelos por contar
anos e anos ficarão por contar

DEFENDE-ME ATÉ QUE EU CONTE
O TEU ÚLTIMO CABELO


António José Forte

[Canal de poesia]

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16.12.13

Antonio Orihuela (A poesia é um incêndio)






La poesía es un incendio,
por eso no da para vivir
da para arder,

no escribas,
arde con ella.


Antonio Orihuela


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15.12.13

Manuel Silva Ramos (Nem tudo era tristeza)





Mas nem tudo era tristeza.

As excursões a Espanha promovidas pelo Mário Alves Pimpão adocicavam estes tempos de grilhões de todo o género e formavam uma volante alforria.

No capítulo seguinte, onde há um sonho comum de duas pessoas que se amam, eu falo disso, dessas camionetas de carreira com quarenta lugares que desafiavam a tristeza portuguesa com as luminárias do enjoo que chamavam pelo gregório e pelo estrondo da peidaria.

Espero que aqui os mais sérios capitulem.


- MANUEL DA SILVA RAMOS, Pai, levanta-te, vem fazer-me um fato de canela!, 2013 (O conto do vigário com brasão).

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Ángel González (Estampa de Inverno)





ESTAMPA DE INVIERNO



Mientras yo en mi yacija como es debido yazgo
arropado en las mantas y las evocaciones
de días más luminosos y clementes,
por no sé qué resquicio de mi ventana entra
un cuchillo de frío,
un gris galgo de frío
que se afana en mis huesos con furia roedora.

No es de ahora, ese frío.
Viene desde muy lejos:
de otras calles vacías y lluviosas,
de remotas estancias en penumbra
pobladas sólo por suspiros,
de sótanos sombríos
en cuyos muros reverbera el miedo.

(En lugar distante,
trizó una bala
el luminoso espejo de aquel sueño,
y alguien gritaba aquí, a tu lado.
Amanecía.)

No.
No está desajustada la ventana;
la que está desquiciada es mi memoria.


Ángel González

[Escomberoides]



Estirado na enxerga como se impõe
abafado nas mantas e evocações
de dias mais clementes e luminosos,
por alguma talisga da janela
entra
um punhal de frio
um cão cinzento de frio
que se me agarra aos ossos
com fúria roedora.

Não é de agora, esse frio.
Vem de muito longe,
de outras ruas vazias e chuvosas,
de remotas paragens de sombra
povoadas só por suspiros,
de caves sombrias
onde o medo bate nas paredes.

(Em lugar distante,
uma bala estilhaçou
o claro espelho desse sonho,
e alguém gritava aqui, a teu lado.
E amanhecia).

Não.
A janela não está estragada,
o que está avariado é a minha memória.


(Trad. A.M.)

.

14.12.13

António Ramos Rosa (Onde a poesia se exibe)





Onde a poesia se exibe como um espectáculo espectacular
não é poesia
onde a audácia do poema não é única
não é poesia
onde a poesia não é inocência de natureza fluvial
não é poesia
onde a poesia não é escandalosamente pura
não é poesia
onde a poesia não é filha do deserto nem da sede
não é poesia
onde a poesia não é presença viva que nasce da solidão e da ausência
não é poesia
onde a poesia não se oferece no seu abandono
não é poesia
onde a poesia não é poesia
não é poesia

António Ramos Rosa


[Antologia do esquecimento]

.

13.12.13

Ana Pérez Cañamares (País)





PAÍS



Dormimos espalda contra espalda
respetando cada uno
la tierra de los sueños del otro.
Al despertar nos citamos
en el puesto fronterizo.
Allí aprendemos entre brumas
que dos exiliados hacen un país.

Ana Pérez Cañamares



Dormimos costas com costas
respeitando cada um
a terra dos sonhos do outro.
Encontramo-nos ao despertar
no posto da fronteira.
E entre brumas aí aprendemos
que dois exilados fazem um país.

(Trad. A.M.)

.

12.12.13

Ana Luísa Amaral (Estragas-me a paz)





Estragas-me a paz
e eu preciso das minhas solidões,
de bocados mentais sem ti.

Começo a ser doença obsessiva
ao repetir-me por poemas isto:
as tuas invasões à minha paz.
(Podia até em jeito original
pôr aqui umas notas sobre ti:
cf., vide: textos tal e tal)
Mas é que a minha paz fica toda
estragada quando te penso amor.
   (...)

Ana Luísa Amaral

.

11.12.13

José María Zonta (O poeta é sempre do contra)





El poeta es siempre un opositor
un disidente
es alguien fuera de tiempo, disfrazado
fuera de juego
¿ves esos muchachos en la esquina?
el poeta es el de pantalón de cuadros
con aire de necesitar trabajo
y no haber comido
el poeta es una lupa
buscando insignificancias que sostienen la vida
si no tienen todavía un blanco
no esperen más, disparen al poeta
es un reclamo, un reproche entre la gente
el poeta es un sietemesino
dosis de infortunio en medio de la felicidad
es una exclusión
hacen falta poetas para que haya últimos de la clase
él está atento a otras señales
es lo íntimo de lo público, el poeta es un acusador
tiene una campana en su pecho
para encontrarlo cuando se pierde
el poeta recibe telegrama que comunica
su derrota inevitable
pero se levanta
mira de frente y combate.

José María Zonta



O poeta é sempre do contra
é um dissidente
alguém fora do tempo, fora de jogo
vês esses moços na esquina?
o poeta é o de calças aos quadrados
com ar de faminto e desempregado
o poeta é uma lupa
buscando insignificâncias que sustentam a vida
se precisais de um alvo
aqui está ele, apontai ao poeta
ele é um cartaz, uma censura entre as pessoas
o poeta é um fingidor
ilha de infortúnio no mar da felicidade
é uma exclusão
são precisos poetas para haver últimos da escala
ele está atento a outros sinais
é o íntimo do público, o poeta é um acusador
tem uma campainha no peito
para o encontrarem caso se perca
o poeta recebe telegrama comunicando
sua derrota inevitável
mas levanta-se
olha em frente e vai à luta.

(Trad. A.M.)



>>  Arte poetica (anto/20p) / Poeta Zonta (blogue descont./muitos p.) / Riesp (7p) / Ed. Costa Rica (nota)

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10.12.13

Luís Amaro (Lápide)





LÁPIDE



Procuro teu rosto
nos confins da memória.

Palavras que um dia
ouvi, ou sonhei,
súbito iluminam
minha solidão.
Com elas componho
o segredo oculto
do nosso destino.
Com elas invento
e reconstituo
teu perfil de névoa,
tua voz ausente
e sempre guardada
no meu coração.
Fluis, permaneces
à flor dos dias
que correm sem nome:
O tempo desgasta
o sonho submerso
na noite, minha alma
sem luz... e a viver.
Por ínvios caminhos
me perco, à procura
de ti, que passaste
um dia, cruzando
o céu sem estrelas
nem amanhecer.

Passaste e perduras
nesse breve instante
longínquo e tão perto.
Não sei onde paira
teu perfil de névoa,
tua voz ausente,
velada, indecisa...
Mas da luz que doira
as coisas em volta
ressurges, e inundas
a vida de esperança,
ó rosto impalpável,
ó voz pressentida
lá no mais secreto
da alma, do ser.


Luís Amaro



>>  nEscritas (2p) / B.Nacional (perfil>expo) / Colóquio (auto>bio>biblio) / Da literatura (nota E.Pitta)


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9.12.13

Roger Wolfe (Não há tempo para perder o sono)





YA NO QUEDA TIEMPO
PARA PERDER EL SUEÑO


Ha sido dicho
en numerosas ocasiones
que el poeta escribe
para un futuro
que no va a conocer.
Y al paso que vamos,
no sólo el poeta.

Roger Wolfe



Foi dito
em muitas ocasiões
que o poeta escreve
para um futuro
que não conhecerá.
E no passo que vamos,
não só o poeta.

(Trad. A.M.)

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