30.11.10

José Rentes de Carvalho (A menina Alice, do vestiário)






A Alice sorriu surpreendida, mas explicou que éramos tantos a dar-lhe chocolates e rebuçados que também já tinha dito aos outros que dali em diante preferia dinheiro.

O meu gesto, contudo, não tinha sido em vão, porque além de me beijar nos lábios – a primeira vez – sentou-se na cadeira atrás da máquina de costura, facilitando os meus manejos ao diminuir a diferença das nossas alturas.

Depois retomou o crochet, enquanto os meus dedos lhe percorriam o corpo com a sofreguidão que dá o pressentimento das grandes descobertas.

A certa altura abanou a cabeça a proibir, noutra pediu baixinho que não lhe fizesse cócegas.

Repentinamente deixou cair as agulhas e apertou-me contra si, colando a sua boca à minha noutro beijo, esse tão longo que me deixou sem ar.



- J. RENTES DE CARVALHO, Ernestina, Ed. Escritor, Lx. 2001, p. 221.

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José Agostinho Baptista (Infância)






INFÂNCIA




O vinho empurrava-os para a noite, para o
norte,
para a alquimia dos frutos ardidos.
E tu vinhas só, entre eles.
Soltando as labaredas pela aldeia dentro,
pela casa dentro.
Aldeias com abismos, com a ribeira ao fundo.


Em sobressalto,
ouvia os teus gritos.
Os cães ladravam muito alto e o
relâmpago sobre as rochas fulminava os
espelhos da noite.
Não dormia, não falava,
dobrado sobre mim mesmo como um feto,
como uma giesta quebrada pelo vento.
Podia ser dezembro
já que a geada e as laranjas se agarravam
à árvore.



JOSÉ AGOSTINHO BAPTISTA
Agora e na Hora da Nossa Morte
Assírio & Alvim
(1998)

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29.11.10

Cristina Peri Rossi (Anúncio)






ANUNCIO PUBLICITARIO



Se busca musa. Abstenerse flacas
resentidas travestidos y envidiosas.
Sueldo escaso
noches de amor intenso
y libros como hijos.



Cristina Peri Rossi



[Neorrabioso]







Musa procura-se. Abstenham-se fracas
ressentidas travestis e invejosas.
Salário baixo
noites de amor intenso
e livros como filhos.


(Trad. A.M.)

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Guerra Junqueiro (Morena)






MORENA




Não negues, confessa
que tens certa pena
que as mais raparigas
te chamem morena.

Pois eu não gostava,
parece-me a mim,
de ver o teu rosto
da cor do jasmim.

Eu não... mas enfim
é fraca a razão,
pois pouco te importa
que eu goste ou que não.

Mas olha as violetas
que, sendo umas pretas,
o cheiro que têm!
Vê lá que seria,
se Deus as fizesse
morenas também!

Tu és a mais rara
de todas as rosas;
e as coisas mais raras
são mais preciosas.

Há rosas dobradas
e há-as singelas;
mas são todas elas,
azuis, amarelas,

da cor de açucenas,
de muita outra cor;
mas, rosas morenas,
só tu, linda flor.

E olha que foram
morenas e bem
as moças mais lindas
de Jerusalém.
E a Virgem Maria
não sei... mas seria
morena também.

Moreno era Cristo.
Vê lá, depois disto,
se ainda tens pena
que as mais raparigas
te chamem morena!




GUERRA JUNQUEIRO
A Musa em Férias
(1879)




>>  DGLB (bio+biblio)  /  Casa F.Pessoa (11p+bio)  /  Arlindo Correia (7p - A velhice...)  /  Um buraco na sombra (5p)  /  Projecto Vercial (5p)


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28.11.10

Ver (62)








Ponte da Barca




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Claudio Rodríguez (Contemplação viva-II)






II

Hay quien toca el mantel, mas no la mesa;
el vaso, mas no el agua.
Quien pisa muchas tierras,
nunca la suya.
Pero ante esta mirada que ha pasado
y que me ha herido bien con su limpia quietud,
con tanta sencillez emocionada
que me deja y me da
alegría y asombro,
y, sobre todo, realidad,
quedo vencido y veo, veo, y sé
lo que se espera, que es lo que se sueña.


Lástima de saber en estos ojos
tan pasajeros, en vez de en los labios,
porque los labios roban
y los ojos imploran.


Se fue.


Cuando todo se vaya, cuando yo me haya ido
quedará esta mirada
que pidió, y dio, sin tiempo.



CLAUDIO RODRÍGUEZ
El vuelo de la celebración
(1976)


[Cómo cantaba mayo]






Há quem toque na toalha, não na mesa,
no copo, mas não na água.
Quem pise muitas terras,
jamais a sua.
Mas perante este olhar que passou
e fundo me feriu com sua limpa quietude
com tal singeleza emocionada
que me deixa e me dá
alegria e assombro
e sobretudo realidade,
fico-me vencido e vejo, vejo e sei.
o que se espera, que é aquilo que se sonha.


Desgosto de saber nestes olhos
tão passageiros, e não nos lábios,
porque os lábios roubam
e os olhos imploram.


Foi-se.


Quando tudo se for, quando eu me for também,
ficará este olhar
que pediu, e deu, sem tempo.



(Trad. A.M.)


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27.11.10

Raymond Carver (Último fragmento)






LATE FRAGMENT




And did you get what
you wanted from this life, even so?
I did.
And what did you want?
To call myself beloved, to feel myself
beloved on the earth.


Raymond Carver







E conseguiste o que
querias da vida, afinal?
Consegui.
E querias o quê?
Poder dizer que me amaram,
sentir-me amado
cá neste mundo.


(Trad. A.M.)

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João Cabral de Melo Neto (O sertanejo falando)






O SERTANEJO FALANDO





A fala a nível do sertanejo engana:
as palavras dele vêm, como rebuçadas
(palavras confeito, pílula), na glace
de uma entonação lisa, de adocicada.
Enquanto que sob ela, dura e endurece
o caroço de pedra, a amêndoa pétrea,
dessa árvore pedrenta (o sertanejo)
incapaz de não se expressar em pedra.



Daí porque o sertanejo fala pouco:
as palavras de pedra ulceram a boca
e no idioma pedra se fala doloroso;
o natural desse idioma fala à força.
Daí também porque ele fala devagar:
tem de pegar as palavras com cuidado,
confeitá-la na língua, rebuçá-las;
pois toma tempo todo esse trabalho.




João Cabral de Melo Neto


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26.11.10

Paz Hernández (Quinze)






QUINCE




Ahora
que tengo quince de nuevo
y toda la vida por delante


Ahora
que el tiempo me respeta
y se desmaya la luz cuando te beso


Ahora
que yo niña
y tu cuento


Ahora
que si te marchas
te olvido


Ahora
que tengo quince
amor


Dejame esconderme en tus brazos
solo hasta que pase la tormenta.



Paz Hernández



[El blog de Calipso]






Agora
que tenho quinze anos de novo
e a vida toda pela frente


Agora
que o tempo me respeita
e a luz desmaia quando te beijo


Agora
que eu menina
e tu conto


Agora
que te esqueço
se te vais


Agora
que tenho quinze
amor


Deixa-me esconder nos teus braços
só até passar a tormenta.



(Trad. A.M.)


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Fernando Pessoa / A. Caeiro (Sou um guardador de rebanhos)






Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.


Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.


Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto,
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.
   (...)


(O guardador de rebanhos)



Alberto Caeiro


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25.11.10

Cecília Meireles (Canção do amor-perfeito)






CANÇÃO DO AMOR-PERFEITO




O tempo seca a beleza.
seca o amor, seca as palavras.
Deixa tudo solto, leve,
desunido para sempre
como as areias nas águas.


O tempo seca a saudade,
seca as lembranças e as lágrimas.
Deixa algum retrato, apenas,
vagando seco e vazio
como estas conchas das praias.


O tempo seca o desejo
e suas velhas batalhas.
Seca o frágil arabesco,
vestígio do musgo humano,
na densa turfa mortuária.


Esperarei pelo tempo
com suas conquistas áridas.
Esperarei que te seque,
não na terra, Amor-Perfeito,
num tempo depois das almas.



Cecília Meireles


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Claribel Alegria (Não pode comigo)






No puede conmigo
la tristeza
la arrastro hacia la vida
y se evapora.


Claribel Alegria





Não pode comigo
a tristeza
arrasto-a para a vida
e ela evapora-se.


(Trad. A.M.)

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24.11.10

Aquilino Ribeiro (Duas cordas de penhascal)






Os seus olhos corriam os quatro pontos a estudar as paredes aéreas do cativeiro.

Duas cordas de penhascal, alterosas e brutas, com nozelhões de penedia solta, vinham desde a serra da Lapa serpenteando com o rio, alargavam-se diante do ermitério, dando lugar a uma balsa frutenegra, e difundiam-se em informes espinhaços para os lados de Vale de Ferreira.

A todo o pano do horizonte, só luzia rocha, ora compacta e escura como bronze, ora esparsa e furta-cores, pinhas e cactos de infernal flora.

Meia dúzia de árvores solitárias e esguedelhadas na pequena veiga, em frente, meia dúzia de casebres, que dali pareciam em sua traça cúbica e telha-vã esborrachados contra o solo, à beira de um caminho de cabras, e nesgas argênteas da água perfaziam a paisagem viva, fechada naquele caixilho de pesadelo.

O sol desprendera-se da névoa e sob a luz doirada, a todo o longo, a pedra negra, a pedra branca, a pedra verdete cantavam.

E era uma canção de lobos, corporizada, entre céu e terra.



- AQUILINO RIBEIRO, O homem que matou o diabo, Bertrand, 1985, pp. 36-7.


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Camilo Pessanha (Violoncelo)






VIOLONCELO




Chorai arcadas
Do violoncelo,
Convulsionadas,
Pontes aladas
De pesadelo...


De que esvoaçam,
Brancos, os arcos...
Por baixo passam,
Se despedaçam,
No rio os barcos.


Fundas, soluçam
Caudais de choro...
Que ruínas, (ouçam)!
Se se debruçam,
Que sorvedouro!...


Trémulos astros...
Solidões lacustres...
- Lemes e mastros...
E os alabastros
Dos balaústres!


Urnas quebradas!
Blocos de gelo...
- Chorai, arcadas,
Despedaçadas,
Do violoncelo.



Camilo Pessanha

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23.11.10

José Luis Piquero (Mau)





MALO




Yo soy malo. ¿Recuerdas cuando Gina
me lo llamaba -Malo-, no con esa
complicidad coqueta tras mi típica broma
cruel a costa de alguien, sino en serio
y con la gravedad de lo que es cierto
y muy triste (ya estábamos
a punto de dejarlo).


Es curioso: de niños somos malos
sin más; después ser malo
se llena de matices: eres cínico
(malo), rebelde (malo), contestón
(malo).
Llegas a adulto y las palabras
recuperan su antigua contundencia:
te miran con sorpresa y rebuscado
espanto y ¡Tú eres malo!, dice alguien
resumiéndolo todo, tus traiciones
cotidianas, tus infidelidades,
tu vicio: causar daño.
                           Vicios: Bichos.
Ninguna casa está libre de bichos.


En cada grieta, bajo tu colchón.
Huyen de ti, te pican, te dan miedo.
Se alimentan de ti.



José Luis Piquero






Eu sou mau. Lembras-te quando Gina
mo chamava –Mau - não com essa
cumplicidade coquete face à minha típica
brincadeira cruel à custa de alguém, mas a sério,
com a gravidade do que é certo
e muito triste (estávamos quase
a deixá-lo).


É curioso, em crianças somos maus
sem mais; depois, ser mau
carrega-se de matizes, és cínico
(mau), rebelde (mau), repontão
(mau).
Chegamos a adulto e as palavras
recuperam a sua antiga contundência,
olham-nos com surpresa e rebuscado
espanto e – Tu és mau! diz alguém,
resumindo tudo, nossas traições
quotidianas, nossas infidelidades,
nosso vício: causar dano.
                                  Vícios, bichos.
Nenhuma casa está livre de bichos.


Em cada fresta, debaixo do colchão,
fogem de nós, mordem-nos, metem-nos medo.
Alimentam-se de nós.


(Trad. A.M.)

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22.11.10

Ver (61)








(Flickr)


[Paz Hernández]


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Anne Sexton (Fantasmas)






GHOSTS



Some ghosts are women,
neither abstract nor pale,
their breasts as limp as killed fish.
Not witches, but ghosts
who come, moving their useless arms
like forsaken servants.


Not all ghosts are women,
I have seen others;
fat, white-bellied men,
wearing their genitals like old rags.
Not devils, but ghosts.
This one thumps barefoot, lurching
above my bed.


But that isn’t all.
Some ghosts are children.
Not angels, but ghosts;
curling like pink tea cups
on any pillow, or kicking,
showing their innocent bottoms, wailing
for Lucifer.


Anne Sexton


[Balconcillos]





Alguns fantasmas são mulheres,
nem pálidas nem abstractas,
de peitos flácidos como peixes mortos.
Não bruxas, mas fantasmas
esbracejando sem tino,
como serviçais desamparados.


Nem todos os fantasmas são mulheres,
vi outros;
homens gordos, de ventre alvo,
mostrando os genitais como trapos velhos.
Não demónios, mas fantasmas.
Este aqui vem descalço contra a minha cama
e fica a balançar por cima.


Mas não é tudo.
Alguns fantasmas são crianças.
Não anjos, mas fantasmas;
enrolam-se como chávenas cor de rosa
em qualquer almofada, ou reclamam,
virando o traseiro inocente, chorando
por Lucifer.



(Trad. A.M.)




>>  Poem Hunter (190p+bio)  /  Poetry Foundation (20p+bio)  /  Balconcillos (21p-bilingue (ingl.cast.)  / 
Wikipedia


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21.11.10

Miguel d'Ors (Pequeno testamento)







PEQUEÑO TESTAMENTO




Os dejo el río Almofrey, dormido entre zarzas con mirlos,
las hayas de Zuriza, el azul guaraní de las orquídeas,
los rinocerontes, que son como carros de combate,
los flamencos como claves de sol de la corriente,
las avispas, esos tigres condensados,
las fresas vagabundas, los farallones de Maine, el Annapurna,
las cataratas del Niágara con su pose de rubia platino,
los edelweiss prohibidos de Ordesa, las hormigas minuciosas,
la Vía Láctea y los ruyseñores conplidos.


Os dejo las autopistas
que exhalan el verano en la hora despoblada de la siesta,
el Cántico espiritual, los goles de Pelé,
la catedral de Chartres y los trigos ojivales,
los aleluya de oro de los Uffizi,
el Taj Mahal temblando en un estanque,
los autobuses que se bambolean en Sao Paulo y en Mombasa
con racimos de negros y animales felices.


Todo para vosotros, hijos míos.
Suerte de haber tenido un padre rico.



Miguel d’Ors







Deixo-vos o rio Almofrey, adormecido entre sarças e melros,
as faias de Zuriza, o azul guarani das orquídeas,
os rinocerontes, que são como carros de combate,
os flamingos claves de sol da corrente,
as vespas, esses tigres condensados,
as fresas vagabundas, os farilhões do Maine, o Annapurna,
as cataratas do Niágara na sua pose de loira platinada,
os edelweiss proibidos de Ordesa, as formigas minuciosas,
a Via Láctea e os cumpridos rouxinóis.


Deixo-vos as autopistas
que exalam o verão à hora despovoada da sesta,
o Cântico espiritual, os golos de Pelé,
a catedral de Chartres e os trigos ogivais,
os aleluia de ouro dos Uffizi,
o Taj Mahal a tremular num tanque,
os autocarros bamboleando-se em S.Paulo e Mombaça
com cachos de negros e animais felizes.


É tudo para vós, meus filhos.
Sorte vossa ter um pai rico.



(Trad. A.M.)

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Mark Strand (Chegar a isto)






COMING TO THIS



We have done what we wanted.
We have discarded dreams, preferring the heavy industry
of each other, and we have welcomed grief
and called ruin the impossible habit to break.


And now we are here.
The dinner is ready and we cannot eat.
The meat sits in the white lake of its dish.
The wine waits.


Coming to this
has its rewards: nothing is promised, nothing is taken away.
We have no heart or saving grace,
no place to go, no reason to remain.



Mark Strand





Fizemos o que muito bem entendemos,
descartámos os sonhos, preferindo a indústria pesada
de cada um, abrimos as portas à dor
e ao hábito impossível de quebrar chamámos ruína.


Agora cá estamos,
o jantar está na mesa e não podemos comer.
A carne está nesse lago branco do prato,
o vinho espera.


Chegar a isto
tem a sua vantagem, nada nos prometem, nada nos tiram,
não há para onde ir, nem há por que ficar.


(Trad. A.M.)

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20.11.10

Alexandre O'Neill (Poesia e propaganda)






POESIA E PROPAGANDA




Hei-de mandar arrastar com muito orgulho,
pelo pequeno avião da propaganda
e no céu inocente de Lisboa,
um dos meus versos, um dos meus
mais sonoros e compridos versos:

E será um verso de amor...



Alexandre O'Neill


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Ana Pérez Cañamares (Vinte de Novembro)






VEINTE DE NOVIEMBRE




Te fuiste a morir en la misma fecha
que aquel que te había jodido la vida;
nada personal por su parte:
te la jodió a ti como a tantos otros.


En el momento me pareció una coincidencia
con más mala leche que otra cosa:
una ironía fúnebre,
una carcajada de la calavera.
Pero luego pensé que tú reirías la última,
que noviembre sería el mes de las madres
que guardan la ternura y la dignidad
en un cofre rodeado de pinos y regatos;
no el mes de los que se van entre tubos,
ajenos a la muerte como estuvieron ajenos a la vida,
y que yacen incorruptos admirando
la solidez del mármol.


Una última cosa, madre:
sé por ti que hay ideas que atentan contra el corazón.
Dicho de otro modo:
tener corazón no permite tener ciertas ideas.
Y ninguna otra vida
ninguna otra muerte
me convencerá de lo contrario.



Ana Pérez Cañamares


[Al otro lado del mundo]







Foste morrer logo na mesma data
que aquele que te lixou a vida;
nada de pessoal da parte dele,
lixou-ta a ti como a tantos outros.


Na hora pareceu-me uma coincidência
mais infausta do que outra coisa,
uma fúnebre ironia,
uma gargalhada da caveira.
Mas depois pensei que tu ririas por último,
que Novembro seria o mês das mães
que guardam ternura e dignidade
num cofre rodeado de pinheiros e regatos,
não o mês dos que se vão entre tubos,
alheios à morte como alheios foram à vida,
jazendo incorruptos a admirar
a solidez do mármore.


Mais uma coisa, minha mãe:
por ti sei que há ideias que atentam contra o coração.
Dito de outro modo:
ter coração não permite ter certas ideias.
E nenhuma outra vida
como nenhuma outra morte
me convencerá do contrário.



(Trad. A.M.)


>>  El alma disponible (YouTube)



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19.11.10

Alda Merini (Os versos são poeira fechada)






I versi sono polvere chiusa
di un mio tormento d'amore,
ma fuori l'aria è corretta,
mutevole e dolce ed il sole
ti parla di care promesse,
così quando scrivo
chino il capo nella polvere
e anelo il vento, il sole,
e la mia pelle di donna
contro la pelle di un uomo.


Alda Merini






Os versos são poeira fechada
de um tormento meu de amor,
mas fora está-se bem,
o ar é instável e doce e o sol
fala de promessas caras,
assim quando escrevo
afundo a cabeça na poeira
e desejo o vento, o sol,
e a minha pele de mulher
contra a pele de um homem.


(Trad. A.M.)




>>  Lugares Mal Situados (outra versão)

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18.11.10

Alberto de Serpa (Interior)






INTERIOR




Uma névoa densa do fumo dos cigarros.
As carambolas regulares no bilhar de pano desbotado e gasto.
O bater do dominó nos mármores fendidos.
O tinir dos copos esvaziados sem prazer.
Um fado, mais reles pelo cansaço do rádio,
pára nos ouvidos e não chega às almas...


O Senhor Conde arruinado conta as suas aventuras de Lisboa
numa voz arrastada de velhice e saudade,
uma luz a brilhar no fundo dos olhos mortiços...
Nas caras espantadas dos moços atentos
há um rubor de sentidos excitados...
Um schiu, às vezes, impaciente e áspero...


A um canto, onde se vão juntar todas as sombras,
um homem olha em frente, alheado, sem ver...
Um copo em meio, esquecido...
Os olhos fecham-se, feridos pelo fumo, pela luz,
e os corpos encolhem-se friorentos, cansados...


Alberto de Serpa


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César Vallejo (Cuida-te, Espanha)




XIV


¡Cuídate, España, de tu propia España!
¡Cuídate de la hoz sin el martillo,
cuídate del martillo sin la hoz!
¡Cuídate de la víctima apesar suyo,
del verdugo apesar suyo
y del indiferente apesar suyo!
¡Cuídate del que, antes de que cante el gallo,
negárate tres veces,
y del que te negó, después, tres veces!
¡Cuídate de las calaveras sin las tibias,
y de las tibias sin las calaberas!
¡Cuídate de los nuevos poderosos!
¡Cuídate del que come tus cadáveres,
del que devora muertos a tus vivos!
¡Cuídate del leal ciento por ciento!
¡Cuídate del cielo más acá del aire
y cuídate del aire más allá del cielo!
¡Cuídate de los que te aman!
¡Cuídate de tus héroes!
¡Cuídate de tus muertos!
¡Cuídate de la República!
¡Cuídate del futuro!…


César Vallejo





Cuida-te, Espanha, de tua própria Espanha!
Cuida-te da noz sem martelo,
cuida-te do martelo sem noz!
Cuida-te da vítima apesar dela,
do verdugo apesar dele
e do indiferente apesar dele!
Cuida-te desse que, antes de o galo cantar,
há-de negar-te três vezes, e também
do que te negou, depois, três vezes!
Cuida-te das caveiras sem tíbias
e bem assim das tíbias sem caveiras!
Cuida-te dos novos poderosos!
Cuida-te do que come teus cadáveres,
do que devora mortos teus vivos!
Cuida-te do leal cem por cento!
Cuida-te do céu aquém do ar,
assim como do ar além do céu!
Cuida-te dos que te amam!
E dos teus heróis!
E dos teus mortos!
Cuida-te da República!
E do futuro!...



(Trad. A.M.)

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17.11.10

Albano Martins (Assim são as algas)






ASSIM SÃO AS ALGAS




Das palavras
que aprendeste
só uma
não tem tradução.
Quando traduzes
o amor, tu sabes
que é já outro o seu nome.
Assim são as algas
quando apodrecem.



ALBANO MARTINS
Escrito a Vermelho
(1999)



[Luz & sombra]


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José Rentes de Carvalho (Ala que se faz tarde)






As mulheres baixaram os olhos a temer o que iria sair e porque não demorava a ser horas de ir para a cama, pegaram de novo na renda.

Como num prólogo, ou a dar-se coragem, o rapaz tossiu a raspar o gogo, escarrou para o lume, acariciou o cão que se lhe tinha deitado aos pés e, por fim, sem as encarar, gritou-lhes que dali em diante não contassem com ele para a lavoura.

Chamassem jeireiros, dessem as terras de meias ou deixassem-nas ao abandono, o que quisessem, ele é que não lhes voltava a tocar.

Nem nas bestas.

Nem no raio que partisse tudo.

A mãe e a prima podiam ir também, podiam ficar, como lhes desse na gana, ele é que não aguentava nem mais um dia; ficassem a saber que voltava para o Porto.

Ala que se faz tarde, nunca mais o apanhavam naquele estupor de buraco.




- J. RENTES DE CARVALHO, Ernestina, Ed. Escritor, Lx. 2001, p. 94.

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16.11.10

Celso Emilio Ferreiro (O profeta)






O PROFETA



Pouco antes de morrer
dixo-lhe ao povo:

Deus che dea ira
que paciência tens de avondo.


Celso Emilio Ferreiro






Pouco antes de morrer
disse ele ao povo:

Deus te dê ira,
que paciência tens cabonde.



(Trad. A.M.)

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A.M.Pires Cabral (Os ciganos)






OS CIGANOS




Dizem que vêm da Europa Central. Eu vejo-os vir
dos lados de Grijó em lassa caravana.


Debaixo da carroça trota a coelheira,
aproveitando a sombra débil e ambulante.
Sentado na boleia, as rédeas na mão morena
descuidadas, um homem cisma, confia
do caminho ao macho lento a decisão.
Outros homens a pé e mulheres novas
entretêm de riso a caminhada espessa.
Logo após, sobre os burros, os pertences.
Alguns velhos também, já cansados de tudo,
tiram partido do precário trote. As crianças
de peito sugam em sonolenta teima
as elásticas tetas sacudidas, mas alvas e redondas.
Os mais velhitos caminham repartidos
em pequenas e lúdicas manadas, dando
às hortas laterais breves saltos furtivos.


Toda esta gente é morena e tem fala cantada,
levanta para mim doces olhos castanhos.
Dizem que vêm
da Europa Central, de uma raça sem chão,
e aqui procura, de insultos rodeada,
cumprir a sua luta, seu degredo
e sua primitiva vocação.


Dizem que os ciganos desenterram animais defuntos
de alguma enfermidade menos limpa
e neles cravam dentes de fome milenária.
Dizem que as mulheres estão na intimidade
das estrelas e a troco de uns mil-réis
lêem nas mãos destinos coloridos.


Dizem que roubam quintais e assaltam capoeiras,
e os aldeões, em pânico secreto,
os expulsam com voz impiedosa e decidida mão
das cercanias do seu chão governado.
Dizem que enganam os incautos campónios
em negócios sempre escuros de animais,
em que fazem passar por uma estampa
o mais escalavrado e cego dos cavalos.
Dizem que na vila, ao desfazer das feiras,
têm por costume, depois de embriagados,
trocar com as bengalas possantes e vistosas
pancadaria rija, de que morrem.
Dizem que vivem estranhos dramas passionais.
Dizem que não têm deus e que se casam
lançando ao ar jubilosos chapéus.


Dizem tudo isso dos ciganos. Eu não sei.
Vejo-os vir dos lados de Grijó
e estão todos de frente para mim
e parecem-me gente – nada mais.




A.M. Pires Cabral


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15.11.10

Jorge de Sena (Post scriptum)






POST-SCRIPTUM




Não sou daqueles cujos ossos se guardam,
nem sou sequer dos que os vindouros lamentam
não hajam sido guardados a tempo de ser ossos.


Igualmente não sou dos que serão estandartes
em lutas de sangue ou de palavras,
por uns odiado quanto me amem outros.


Não sou sequer dos que são voz de encanto,
ciciando na penumbra ao jovem solitário,
a beleza vaga que em seus sonhos houver.


Nem serei ao menos consolação dos tristes,
dos humilhados, dos que fervem raivas
de uma vida inteira a pouco e pouco traída.


Não, não serei nada do que fica ou serve,
e morrerei, quando morrer, comigo.


Só muito a medo, a horas mortas, me lerá,
de todos e de si se disfarçando,
curioso, aquel' que aceita suspeitar
quanto mesmo a poesia ainda é disfarce da vida.



JORGE DE SENA
As Evidências
(1955)

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Carlos Marzal (Credo quia absurdum)






CREDO QUIA ABSURDUM




Se não desse vertigens a fundura,
se à alma aventureira não infundisse
um frio sideral,
se não nos debitasse
os insólitos dracmas dos sonhos,
se não negasse nosso nome,
não haveria para quê
nem para tanto.


Esta infracção ao bom-senso
este imprudente amor desventurado
são nossa glória.


Se não houvesse perder, não haveria triunfo.
Toda a paixão se impõe com sua chama,
qualquer enfermidade dá em íntima.


Alteza incompreensível,
é escura tua púrpura.
Não chegámos aqui para entender-te.


Bailo sobre brasas, porque é triste.
Porque é tarde e ocaso, estou de parabéns.
Deixei-me fugir de mim por não haver fundo.
Por ser inútil, canto.
Por ser absurdo, creio.





(Trad. A.M.)

14.11.10

Alberto Pimenta (Porco trágico-I)






PORCO TRÁGICO- I




conheço um poeta
que diz que não sabe se a fome dos outros
é fome de comer
ou se é só fome de sobremesa alheia.


a mim o que me espanta
não é a sua ignorância:
pois estou habituado a que os poetas saibam muito de si
e pouco ou nada dos outros.


o que me espanta
é a distinção que ele faz:
como se a fome da sobremesa alheia
não fosse
fome de comer
também.



Alberto Pimenta



[Tulisses]


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António Osório (Eugénio de Andrade)






EUGÉNIO DE ANDRADE




O que de seu tem,
o que tem de mais belo
é grego ou toscano.


A mesma forma
infrangível
de receber as nuvens,
alegria
de estar na terra lavrada,
de tê-la entre mãos
friável,
de encontrar um corpo na noite.


O mesmo gosto de água soterrada,
a mesma paixão pela vida.


Obstinada.



António Osório



[Silva]


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13.11.10

José Luis Piquero (Mensagem aos adolescentes)






MENSAJE A LOS ADOLESCENTES


Esto no debéis intentar repetirlo en casa, niños.


Niños, probad a hacerlo en casa
y sabréis lo que es bueno sin que os lo cuente nadie.
Recordad que no hay nada que vuestros padres puedan enseñaros.
Ellos no son vosotros.


Acostaos, bebed.
Hace siglos que están ocurriendo estas cosas
y nadie ha demostrado
que sean mucho peores que una guerra.
Existe un paraíso tras esa raya blanca.


Cuanto hace daño y no hacéis,
niños, lo estáis cambiando por la serenidad.
¿Os han hablado de ella? ¿Sabe alguno a qué sabe?


Si ignoráis quiénes sois evitad el rodeo
de averiguarlo uniéndoos a los demás. Una plaza en el grupo
es un puesto en el mundo;
ahora bien,
niños,
que levante la mano el que quiera morirse siendo útil y sensato.
Tenéis razón: no es nada divertido.


Por lo demás, sé que no sois felices,
a lo mejor pensábais que todo el mundo os odia. Pues es cierto,
pero sobran motivos: sois jóvenes y estúpidos
y no tenéis derecho
a todo ese futuro que vais a malgastar (como nosotros).


Entonces, ¿estáis solos? Así es.


Aprended a ser libres, no esquivéis la mentira;
sabréis por experiencia que es más sólida que una verdad pactada.


Y sobre todo,
niños,
no creáis
que la vida merece la pena de vivirse
sólo porque lo juren desde siempre los peores cabrones.



José Luis Piquero





Crianças, experimentai fazê-lo em casa
e sabereis como é bom sem ninguém vos contar.
Recordai que não há nada que vos possam ensinar vossos pais.
Eles não são vós.


Deitai-vos, bebei.
Há séculos que estas coisas acontecem
e ninguém demonstrou até agora
que sejam muito piores que a guerra.
Há um paraíso para lá dessa linha branca.


Tudo o que faz mal e vós não fazeis,
crianças, estai-lo trocando pela serenidade.
Falaram-vos dela? Algum de vós sabe a que sabe?


Se ignorais quem sois, evitai o rodeio
de averiguá-lo, juntai-vos aos outros. Um lugar no grupo
é um posto no mundo;
ora bem,
crianças,
erga lá a mão o que queira morrer sendo útil e sensato.
Lá está, não é nada divertido.


Quanto ao resto, eu sei que não sois felizes,
quando menos pensáveis que todo o mundo vos odeia.
Pois é certo, mas não faltam motivos, sois jovens e
estúpidos e não tendes direito
a todo esse futuro que ides desperdiçar (como nós, aliás).


Estais sós, é isso? Com efeito.


Aprendei a ser livres, da mentira não fujais;
sabereis por experiência que é mais sólida
que qualquer verdade pactuada.


E sobretudo,
meus lindos,
não deveis crer
que a vida vale a pena vivê-la
só por tal jurarem desde sempre os maiores cabrões.



(Trad. A.M.)



>>  José Luis Piquero (20p+bio+blogue)  /  Afinidades electivas (3p)  /  Portal de poesia (Monstruos perfectos-1992-96)


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José Gomes Ferreira (Na morte de Manuela Porto)






(Na morte de Manuela Porto)*




Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos
do mesmo sol a fingir de novo todas as manhãs,
convocaríamos os amigos mais íntimos com um cartão
de convite para o ritual do Grande Desfazer:

“Fulano de tal comunica ao mundo que vai transformar-se
em nuvem hoje, às 9 horas. Traje de passeio”.

E então, solenemente, com passos de reter tempo,
fatos escuros, olhos de lua de cerimónia,
viríamos todos assistir à despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio. “Adeus! Adeus!”
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes...
(primeiro, os olhos... em seguida , os lábios... depois os cabelos...)
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se em fumo...
tão leve... tão subtil... tão pólen...
como aquela nuvem além (vêem?)
- nesta tarde de outono ainda tocada por um vento
de lábios azuis...



José Gomes Ferreira



(*)  Infopedia

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12.11.10

Mário de Sá Carneiro (De repente a minha vida)






De repente a minha vida
sumiu-se pela valeta...
Melhor deixá-la esquecida
no fundo duma gaveta...


(Se eu apagasse as lanternas
para que ninguém mais me visse,
e a minha vida fugisse
com o rabinho entre as pernas?...)




Mário de Sá Carneiro


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Blas de Otero (No princípio)






EN EL PRINCIPIO




Si he perdido la vida, el tiempo, todo
lo que tiré, como un anillo, al agua,
si he perdido la voz en la maleza,
me queda la palabra.


Si he sufrido la sed, el hambre, todo
lo que era mío y resultó ser nada,
si he segado las sombras en silencio,
me queda la palabra.


Si abrí los labios para ver el rostro
puro y terrible de mi patria,
si abrí los labios hasta desgarrármelos,
me queda la palabra.


Blas de Otero






Se perdi a vida, o tempo, tudo
o que atirei, como um anel, à água,
se perdi a voz na maleza,
resta-me a palavra.


Se sofri sede, fome, tudo
quanto era meu e deu em nada,
se cortei as sombras em silêncio,
resta-me a palavra.


Se abri os lábios para ver o rosto
puro e terrível da pátria,
se abri os lábios até racharem,
resta-me a palavra.


(Trad. A.M.)


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11.11.10

Ver (60)







[La Toscana]


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Mário Quintana (Caminho)






CAMINHO




Era um caminho que de tão velho, minha filha,
já nem mais sabia aonde ia...
Era um caminho
velhinho,
perdido...
Não havia traços
de passos no dia
em que por acaso o descobri:
pedras e urzes iam cobrindo tudo.
O caminho agonizava, morria
sozinho...
Eu vi...
Porque são os passos que fazem os caminhos!



Mario Quintana


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10.11.10

Antonio Orihuela (Uma ideia de liberdade)







UNA IDEA DE LIBERTAD




Cuando más cogido por los huevos me tienen,
busco la ventana por donde se ve más lejos
y me quedo allí
con la nariz aplastada
esperando siempre
unos pájaros
que nadie ha visto
que sé existen,
pero que no vienen.


Antonio Orihuela



[Entre nómadas]





Quando mais preso me têm pelos tomates,
busco a janela por onde se vê mais longe
e ali me fico,
nariz esmagado,
esperando sempre
alguns pássaros
que ninguém viu
que sei que existem,
mas que não vêm.


(Trad. A.M.)

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José Rentes de Carvalho (Óleo de fígado de bacalhau)






A garrafa de óleo de fígado de bacalhau acendeu vívida a recordação e instintivamente afastei-me da mesa, mas nessa noite e daí em diante a minha resistência seria vã.

Unidos como nunca os tinha visto, meu pai sentou-se na cadeira e, segurando-me os braços atrás das costas, prendeu-me as pernas entre as suas para evitar que esperneasse; minha mãe puxou-me a cabeça para trás, apertou-me o nariz, meteu-me a colher entre os dentes e, lentamente, lentamente, deixou escorrer aquela peçonha.

Reviraram-se-me as entranhas, mas eles continuavam a segurar-me e de nada valeu o choro; aquilo era para meu bem, ia crescer e ficar um homenzarrão.



- J. RENTES DE CARVALHO, Ernestina, Ed. Escritor, Lx. 2001, p. 145.

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9.11.10

Sophia de Mello Breyner Andresen (As pessoas sensíveis)






AS PESSOAS SENSÍVEIS




As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas


O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
Porque cheira a pobre cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra


«Ganharás o pão com o suor do teu rosto»
Assim nos foi imposto
E não:
«Com o suor dos outros ganharás o pão»


Ó vendilhões do templo
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheiros de devoção e de proveito


Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem



Sophia de Mello Breyner Andresen




[O café dos loucos]


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Antonio Machado (Nunca me interessou a glória)






Nunca perseguí la gloria
ni dejar en la memoria
de los hombres mi canción;
yo amo los mundos sutiles,
ingrávidos y gentiles
como pompas de jabón.
Me gusta verlos pintarse
de sol y grana, volar
bajo el cielo azul, temblar
súbitamente y quebrarse.


Antonio Machado





Nunca me interessou a glória
nem deixar na memória
dos homens minha canção;
amo é os mundos subtis,
imponderáveis e gentis
como bolas de sabão.
Gosto de vê-los pintar
de sol e de roxo, voar
no céu azul, abanar
de repente e estoirar.


(Trad. A.M.)

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8.11.10

Manuel Bandeira (Auto-retrato)





AUTO-RETRATO




Provinciano que nunca soube
Escolher bem uma gravata;
Pernambucano a quem repugna
A faca do pernambucano;
Poeta ruim na arte da prosa
Envelheceu na infância da arte,
E até mesmo escrevendo crônicas
Ficou cronista de província;
Arquiteto falhado, músico
Falhado (engoliu um dia
Um piano, mas o teclado
Ficou de fora); sem família,
Religião ou filosofia;
Mal tendo a inquietação de espírito
Que vem do sobrenatural,
E em matéria de profissão
Um tísico profissional.



Manuel Bandeira

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Margaret Atwood (Preparativos)






PROVISIONS




What should we have taken
with us? We never could decide
on that; or what to wear,
or at what time of
year we should make the journey


So here we are in thin
raincoats and rubber boots


On the disastrous ice, the wind rising


Nothing in our pockets


But a pencil stub, two oranges
Four Toronto streetcar tickets


and an elastic band holding a bundle
of small white filing cards
printed with important facts.



Margaret Atwood







O que é que devíamos ter trazido?
Nunca chegámos a resolver isso,
ou o que usar
ou em que altura do ano
devíamos fazer a viagem


Cá estamos por isso de
gabardinas ligeiras e calçado de borracha


Um gelo desgraçado, o vento a levantar


E nada nos bolsos


Só um toco de lápis, duas laranjas
quatro bilhetes de eléctrico de Toronto


e um elástico com um maço
de fichas brancas
impressas com factos importantes.



(Trad. A.M.)

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