31.8.10

Alda Merini (Tu não sabes)






TU NON SAI



Tu non sai: ci sono betulle che di notte levano le loro radici, e tu non crederesti mai che di notte gli alberi camminano o diventano sogni.

Pensa che in un albero c'è un violino d'amore.
Pensa che un albero canta e ride.
Pensa che un albero sta in un crepaccio e poi diventa vita.

Te l'ho già detto: i poeti non si redimono, vanno lasciati volare tra gli alberi come usignoli pronti a morire.



Alda Merini






Tu não sabes, há bétulas que arrancam as raízes à noite, enquanto as árvores caminham e viram sonhos.

Pensa que na árvore há um violino de amor.
A árvore ri-se e canta.
A árvore mora numa fenda e depois torna-se vida.

Já te disse, os poetas não se redimem, deixa-os voar pelas árvores como rouxinóis prestes a morrer.


(Trad. A.M.)

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30.8.10

César Vallejo (Massa)






MASA





Al fin de la batalla,
y muerto el combatiente, vino hacia él un hombre
y le dijo: "¡No mueras, te amo tanto!"
Pero el cadáver ¡ay! siguió muriendo.
Se le acercaron dos y repitiéronle:
"¡No nos dejes! ¡Valor! ¡Vuelve a la vida!"
Pero el cadáver ¡ay! siguió muriendo.
Acudieron a él veinte, cien, mil, quinientos mil,
clamando "¡Tanto amor y no poder nada contra la muerte!"
Pero el cadáver ¡ay! siguió muriendo.
Le rodearon millones de individuos,
con un ruego común: "¡Quédate hermano!"
Pero el cadáver ¡ay! siguió muriendo.
Entonces todos los hombres de la tierra
le rodearon; les vio el cadáver triste, emocionado;
incorporóse lentamente,
abrazó al primer hombre; echóse a andar...



César Vallejo







No fim da batalha,
morto o combatente, apareceu-lhe um homem
dizendo: “Não morras, amo-te tanto!”
Mas o cadáver, ai, lá ia morrendo.
Então vieram dois e repetiram:
“Não nos deixes, coragem, volta para a vida!”
Mas o cadáver, ai, lá ia morrendo.
Acudiram então vinte, cem, mil, quinhentos mil,
clamando: “Tanto amor e nada poder contra a morte!”
Mas o cadáver, ai, lá ia morrendo.
Então rodearam-no todos os homens da terra;
olhou-os o cadáver triste, emocionado;
pôs-se em pé lentamente,
abraçou o primeiro homem; e pôs-se a andar...


(Trad. A.M.)

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29.8.10

Lawrence Durrell (Apontamentos paisagísticos)






Apontamentos paisagísticos...

Prolongados acordes de cor.

A luz a filtrar-se através da nuvem perfumada que afoga os limoeiros.

No ar, em suspensão, a poeirada vermelha dos tijolos e o relento do asfalto ardente, regado mas logo seco.

Pequenas nuvens húmidas rasando a terra, sem contudo se desfazerem em chuva.

Sobre um fundo vermelho baço, pinceladas verdes, lilases, e reflexos carminados sobre as águas.

No Verão, a humidade do mar põe um brilho luminoso na atmosfera.

Uma capa viscosa cobre todas as coisas.

Depois, no Outono, o ar seco e vibrante, uma electricidade estática e ácida que inflama a pele sob as ténues roupas.

A carne acordada ensaia as suas forças nas grades que a encarceram.




- LAWRENCE DURRELL, Justine (1.ª parte), trad. Daniel Gonçalves.



(Dedicado a  Justine)


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Alberto de Serpa (Tédio)






TÉDIO




Há instantes tão longos,
há horas tão monótonas,
há dias tão pesados,
que perdoamos à vida
só porque vai passando...


Alberto de Serpa




>>  As Tormentas (5p)  /  Infopedia



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28.8.10

Aldo Luis Novelli (Mátria)






MATRIA




la conocí una lejana mañana
que flameaban banderas.


hablamos en bares y bodegones
durante un tiempo rojo.


una noche en una calle oscura
le acaricié los senos.


nos amamos una tarde
cerca del basural
mientras sus hijos buscaban comida.


sigo enamorado de sus despojos.



Aldo Luis Novelli







conheci-a uma manhã distante
em que chamejavam bandeiras.


falámos em tascas e bares
por algum tempo vermelho.


uma noite numa rua escura
acariciei-lhe os seios.


amámo-nos uma tarde
ao pé da lixeira
enquanto os filhos buscavam comida.


‘inda estou enamorado de seus despojos.



(Trad. A.M.)

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A.M.Pires Cabral (Recado aos corvos)






RECADO AOS CORVOS





Levai tudo:
o brilho fácil das pratas,
o acre toque das sedas.


Deixai só a incombustível
memória das labaredas.



A. M. Pires Cabral

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27.8.10

Vinicius de Moraes (Soneto a quatro mãos)







SONETO A QUATRO MÃOS

                       (com Paulo Mendes Campos)



Tudo de amor que existe em mim foi dado.
Tudo que fala em mim de amor foi dito.
Do nada em mim o amor fez o infinito
Que por muito tornou-me escravizado.


Tão pródigo de amor fiquei coitado
Tão fácil para amar fiquei proscrito.
Cada voto que fiz ergueu-se em grito
Contra o meu próprio dar demasiado.


Tenho dado de amor mais que coubesse
Nesse meu pobre coração humano
Desse eterno amor meu antes não desse.


Pois se por tanto dar me fiz engano
Melhor fora que desse e recebesse
Para viver da vida o amor sem dano.



Vinicius de Moraes

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Juan Luis Panero (Ofício de suicidas)






OFICIO DE SUICIDAS




Pocas las palabras, pequeños sus designios,
nombrando siempre realidades banales,
triviales signos, hechos consumados,
y, en el fondo, sórdida presencia de la muerte.
Oficio melancólico, construir estas jaulas,
estas escasas lápidas del tiempo que nos pasa,
oficio de suicidas, intentar retener
la huella de la luz en sílabas de sombra.



Juan Luis Panero






Poucas as palavras, pequenos seus desígnios,
nomeando sempre realidades banais.
triviais signos, factos consumados
e, no fundo, sórdida presença da morte.
Ofício melancólico, construir estas jaulas,
estas escassas lápides do tempo que nos passa,
ofício de suicidas, procurar reter
o rasto da luz em sílabas de sombra.


(Trad. A.M.)

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26.8.10

Paul Eluard (A amada)






L’AMOUREUSE




Elle est debout sur mes paupières
Et ses cheveux sont dans les miens.
Elle a la forme de mes mains,
Elle a la couleur de mes yeux,
Elle s’engloutit dans mon ombre
Comme une pierre sur le ciel.


Elle a toujours les yeux ouverts
Et ne me laisse pas dormir.
Ses rêves en pleine lumière
Font s’évaporer les soleils,
Me font rire, pleurer et rire,
Parler sans avoir rien à dire.


Paul Eluard





Ela está de pé nas minhas pálpebras
e tem os cabelos nos meus.
Ela tem a forma de minhas mãos,
assim como a cor dos meus olhos,
e mergulha na minha sombra
como uma pedra no céu.


Ele está sempre de olhos abertos
e não me deixa dormir.
Seus sonhos à luz do dia
fazem evaporar o sol,
fazem-me rir, chorar e rir,
falar sem nada ter a dizer.


(Trad. A.M.)



Outras versões: Lugares Mal Situados (A.Ramos Rosa)  /  Rev. Zunai (Priscila Manhães)


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José Rodrigues Miguéis (O Callante)






Violento e esforçado, quando se irritava, o Callante perdia a tramontana e tornava-se uma fera.

Era então que o seu torso possante e felpudo, os braços longos e arqueados, as mãos grossas e engelhadas, a queixada tremenda com os dentes pequenos e aguçados, lhe davam a aparência dum gorila enfurecido.

Só então ele parecia esquecer momentaneamente o dinheiro e os bens terrenos, e o rancor triunfava nele da avareza – nisso, ao menos, honra lhe seja feita!

Um dia, cansada, uma vaca de trabalho recusou obedecer-lhe: espancou-a.

O animal rebelou-se: cego de raiva, o Callante trespassou-a com o aguilhão.

De outra vez, meteu-se-lhe em cabeça jungir ao arado um touro de cobertura que lhe tinha custado um saco de duros: o bicho resistiu, quis escorná-lo.

O velho agarrou-o pelos chifres, e sozinhos frente a frente, no lusco-fusco do amanhecer, travaram combate em pleno campo, entre os cerros nus, como num circo romano, deserto!

O homem venceu, o auroch deu em terra com o espinhaço fracturado, e foi preciso acabá-lo e sangrá-lo ali mesmo.



- JOSÉ RODRIGUES MIGUÉIS, A Escola do Paraíso (11-“Toma lá cinco réis”), 1960.

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25.8.10

Vicente Huidobro (Éramos os eleitos do sol)






Éramos los elegidos del sol
Y no nos dimos cuenta
Fuimos los elegidos de la más alta estrella
Y no supimos responder a su regalo
Angustia de impotencia
El agua nos amaba
La tierra nos amaba
Las selvas eran nuestras
El éxtasis era nuestro espacio propio
Tu mirada era el universo frente a frente
Tu belleza era el sonido del amanecer
La primavera amada por los árboles
Ahora somos una tristeza contagiosa
Una muerte antes de tiempo
El alma que no sabe en qué sitio se encuentra
El invierno en los huesos sin un relámpago
Y todo esto porque tú no supiste lo que es la eternidad
Ni comprendiste el alma de mi alma en su barco de tinieblas
En su trono de águila herida de infinito


Vicente Huidobro



[Marcelo Leites]






Éramos os eleitos do sol
E nem demos conta
Fomos eleitos da mais alta estrela
E não soubemos corresponder ao seu presente
Angústia de impotência
A água nos amava
A terra nos amava
As selvas eram nossas
O êxtase era o nosso espaço próprio
Teu olhar o universo frente a frente
Tua beleza o som do amanhecer
A Primavera amada pelas árvores
Agora somos uma tristeza contagiosa
Uma morte antes de tempo
A alma que não sabe em que lugar se encontra
O Inverno nos ossos sem um relâmpago
E tudo isto porque tu não soubeste o que é a eternidade
Nem compreendeste a alma da minha alma em seu barco de névoa
Em seu trono de águia ferida de infinito


(Trad. A.M.)



>>  Vicente Huidobro (tudo+algo)  /  Amediavoz (46p)  /  Poesi.as (33p)

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Sophia de Mello Breyner Andresen (25-Abril)






25-ABRIL





Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo



SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN
O Nome das Coisas
(1977)

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24.8.10

Ver (54)







-Imagens retiradas-


República Checa

(Moravian fields)





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Juan Gelman (Todo dia vivi com tua ausência)






TODO EL DÍA VIVÍ CON TU AUSENCIA





todo el día viví con tu ausencia mejor dicho
todo el día viví de tu ausencia ya que los
terremotos
otros desastres internacionales
no me distrajeron de ti


yo soy un hombre mundial me interesa
la revolución en Pakistán la falta
de revolución en el Yorkshire donde
una vez vi que lloraban
de hambre o de rabia nomás


¿cómo es posible entonces que
entre las tempestades o sus calmas
que vienen a ser lo mismo desde
cierto punto de vista yo


no haya olvidado tu valor la
suave apariencia que adquirís y todo
sea como tu olor después de haber amado
antes de haber amado sea como tu olor?



Juan Gelman







todo o dia vivi com tua ausência melhor dizendo
todo o dia vivi da tua ausência já que os
terramotos
e outros desastres internacionais
não me distraíram de ti


eu sou um homem do mundo interessa-me
a revolução no Paquistão a falta
de revolução no Yorkshire onde
vi uma vez gente a chorar
de fome ou de raiva nem mais


como é então possível
entre as tempestades ou calmarias
que vêm a dar no mesmo em
certo ponto de vista eu


não esquecer a tua firmeza
a aparência suave que tens
e tudo ser como o teu cheiro depois de amar
em vez de amar ser como o teu cheiro?


(Trad. A.M.)

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23.8.10

Um verso (84)







Um verso de Nicanor
(pouca Parra, muita uva):





Fornicar é um acto literário




Nicanor Parra


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Rui Pires Cabral (Amigos perdidos)






AMIGOS PERDIDOS




Os amigos levados pela vida
são os mais difíceis de aplacar, os mais
tiranos. Bárbaros de um país desconhecido,
bebem à taça os venenos do silêncio e crescem
desmedidamente na distância, desentendidos
da nossa solidão. E pensar que já fomos
irmãos de armas, que desenterrámos tesouros
nas mesmas ilhas, nos livros
mais inóspitos. Como são as coisas.
Terá sido tudo em vão? Dir-se-ia
que estávamos predestinados às mesmas
canções, a uma espécie mais certa de amor.
Pois sim. Nem sequer compreendemos
o que nos aconteceu.



RUI PIRES CABRAL
Praças e Quintais
Averno, 2003


[Lugares Mal Situados]

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22.8.10

Uberto Stabile (Velhos e malditos)






VIEJOS Y MALDITOS





a quienes no creemos en la verdad
nos da por inventarla
y por ello nos llaman malditos,
pero la verdad es sólo una cuestión de tiempo
y por mucho que nos quieran maquillar la edad
tarde o temprano los años delatan
feroces
el engaño de nuestras pequeñas transgresiones.



Uberto Stabile






a nós que não cremos na verdade
dá-nos para inventá-la
e por isso nos chamam malditos,
mas a verdade é uma questão de tempo
e por muito que a idade nos maquilhem
os anos tarde ou cedo nos denunciam
ferozes
o engano das pequenas transgressões.


(Trad. A.M.)



>>  UbertoStabile (blogue)  /  Riepa (bio+biblio)  /  Desenredos (5p)

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Ferreira Gullar (Primeiros anos)






PRIMEIROS ANOS




Para uma vida de merda
nasci em 1930
na rua dos prazeres


Nas tábuas velhas do assoalho
por onde me arrastei
conheci baratas, formigas carregando espadas
caranguejeiras
que nada me ensinaram
exceto o terror


Em frente ao muro negro no quintal
as galinhas ciscavam, o girassol
gritava asfixiado
longe longe do mar
(longe do amor)


E no entanto o mar jazia perto
detrás de mirantes e palmeiras
embrulhado em seu barulho azul


E as tardes sonoras
rolavam
sobre nossos telhados
sobre nossas vidas.
Do meu quarto
ouvia o século XX
farfalhando nas árvores lá fora.


Depois me suspenderam pela gola
me esfregaram na lama
me chutaram os colhões
e me soltaram zonzo
em plena capital do país
sem ter sequer uma arma na mão.



Ferreira Gullar

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21.8.10

Rui Knopfli (Rua de Coolela)






RUA DE COOLELA




No ângulo extremo da Ponta Vermelha,
lá onde a ruína do farol é sentinela decrépita,
traçado linear pendendo para a incerteza
da barreira sujeita aos caprichos das enxurradas
de verão. Sentado no degrau, diante


do eucalipto gigantesco a interditar o horizonte.
O quintal barricado do Hugh Lemay,
agente transitário e (secreto) de Sua Majestade.
Que conste, pelos seus bons ofícios, as frotas
nazi e italiana sofriam pesadas baixas


ao largo da costa. Havia também
Marina, filha mais velha do pianista
do casino, pernas magras enfeitiçando,
qual deusa na selva dos comic books,
o meu desejo obscuro. Em redor habitações


modestas de pequenos funcionários e da tropa
pequena, a cumplicidade dos companheiros
partilhando amizade nos esconderijos
da exaurida e obsoleta Carreira de Tiro,
fascínio misterioso e intrigante,


oculto na densa camuflagem do baldio,
velha fortaleza a recato de olhares indiscretos:
um mundo tecido de fantasia a encobrir
a exígua, quase anónima, rua que conduziria,
afinal, ao curso errado de meus dias.



Rui Knopfli



[Silva]


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Juan Antonio González Iglesias (Outubro, mês sem deuses)






OCTUBRE, MES SIN DIOSES




Los japoneses piensan que éste es el mes-sin-dioses.
Lo celebran así. No aliteran octubre
con oro desprendido de los árboles frágiles,
ni con revoluciones que cambiaron la historia.
Octubre como tregua. Como ausencia de todo
lo que excede los límites. Así para nosotros
sea: liberación. Porque ya no se exhiben
los implacables dioses desnudos del verano,
los demasiados dioses, y falta todavía
mucho para que nazca el niño del invierno,
y más allá no alcanza la vista, desde este
mes de distancias, mes de lejanías,
imperfecto, logrado, fortuito. Que así
sea para nosotros. Sin los ocho millones
de dioses que se esconden en la ciudad o el bosque,
las escalas coinciden con nuestras estaturas.
Dejémonos llevar por los presentimientos.
Escribamos las cosas con las letras minúsculas.
Celebremos octubre por su ausencia de dioses.
Disfrutemos su nombre porque sólo es un número
de una serie truncada. Y olvidada. Es octubre.
Tenemos treinta días sólo para nosotros.



J. A. González Iglesias








Os japoneses pensam que este é o mês-sem-deuses.
Como tal o celebram. Não ligam Outubro
com ouro desprendido das árvores frágeis,
nem com revoluções que mudaram a história.
Outubro como trégua. Como ausência de tudo
o que excede os limites. Como quem diz para nós:
libertação. Porque não se exibem já
os implacáveis deuses nus do Verão,
os demasiados deuses, e falta ainda
muito para nascer a criança do Inverno,
e mais além não alcança a vista, deste
mês de distâncias, de lonjuras,
imperfeito, logrado, fortuito. Assim
seja para nós. Sem os oito milhões
de deuses que se escondem na cidade ou no bosque,
a escala condiz com a nossa estatura.
Deixemo-nos levar pelo pressentimento.
Escrevamos tudo com minúsculas.
Celebremos Outubro pela ausência de deuses.
Desfrutemos-lhe o nome, um número apenas
de uma série truncada. E esquecida. É Outubro.
Trinta dias só para nós.


(Trad. A.M.)

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20.8.10

Olhar (80)








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Nuno Júdice (Recitação, no espelho definitivo)






RECITAÇÃO, NO ESPELHO DEFINITIVO





Eu tinha começado por repetir tudo o que já sabia.
O processo não é novo e a sua eficácia depende
do grau de desenvolvimento da consciência
que quem escreve tem de si próprio. Se eu me perguntasse
“conheço-me”, e a seguir respondesse afirmativamente, estaria
perto desse estado.
Mas não me perguntei nada,
e antes disso não tinha qualquer resposta.
Vi então que os meus gestos eram a repetição mecânica deles próprios.
Mas, enquanto se sucediam, algo instalava uma diferente disposição
dos seus elementos verbais (ainda que subjectivos), insinuando uma nova
época de Prosa. E a compreensão geral surgiu.
Era tempo para que ela se formasse no interior do cérebro,
o envolvesse (“tentacularmente”).
Daí para a frente tive tudo nas mãos. As mãos faziam
com que eu escrevesse, davam-me de comer, vestiam-me,
dispunham os diversos elementos sobre um tabuleiro abstracto
- que alguém disse ser “eu próprio”.
E é por isso que já não digo nada. É por isso que estou aqui,
sem me mexer, de pé e batido pelo vento,
de mãos nos bolsos e sem dizer nada.




NUNO JÚDICE
As Inumeráveis Águas
(1974)

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19.8.10

Rogelio Ramos Signes (Pequenos-almoços e pontes)






DESAYUNOS Y PUENTES




Tal vez el mundo del futuro
se olvide de los puentes,
Tal vez los puentes del pasado
dejen de tener sentido
en el mundo del futuro.
Todo será levitación entonces.
Santos de cabotaje oficiarán de cadetes
llevando y trayendo anclas de este suburbio:
remedios, libros, llaves, desayunos-
No aquellos desayunos que te hacían feliz,
por supuesto,
Ese café en la cama,
sazonado de besos y lágrimas,
no tendrá lugar en el mundo del futuro.


Rogelio Ramos Signes




[Marcelo Leites]







Talvez o mundo futuro
se esqueça das pontes,
Talvez as pontes do passado
deixem de ter sentido
no mundo futuro.
Tudo será então levitação.
Santos de cabotagem servirão de paquetes
levando e trazendo âncoras deste subúrbio,
remédios, livros, chaves, pequenos-almoços –
Não esses pequenos-almoços que te faziam feliz,
já se vê,
Aquele café na cama,
sazonado de beijos e lágrimas,
não terá lugar no mundo futuro.


(Trad. A.M.)





>>  Poeticas (6p+nota)  /  Poetas del Mundo (3p)  /  Cid Tucuman (entrevista)

 .
 

Raymond Carver (Termópilas)






TERMÓPILAS



De regresso ao hotel, ao ver como solta e escova
o cabelo castanho junto à janela, perdida em seus pensamentos,
com o olhar noutro lado, lembro-me por algum motivo daqueles
Lacedemónios de Heródoto, que tinham por dever
defender as Portas contra o exército dos Persas.
E defenderam-nas. Durante quatro dias. Antes, porém,
perante a incredulidade do próprio Xerxes, os soldados gregos
sentaram-se descontraídos por fora do muro de troncos,
as armas empilhadas, penteando
e repenteando os longos cabelos, como se fosse
apenas outro dia mais de campanha.
Quando Xerxes quis saber o significado daquela exibição,
disseram-lhe Vão perder a vida estes homens,
por isso querem a cabeça a parecer bem.
Ela pousa a escova de cabo de osso e chega-se
mais ainda à janela e à luz declinante da tarde.
Alguma coisa, um movimento, um rugido, vem de baixo
e atrai-lhe a atenção. Um olhar, e distrai-se.



Raymond Carver


(Trad. A.M.)



[Noctambulario]


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18.8.10

José Rodrigues Miguéis (Brincar no sótão)






Que menino se recusou já a brincar num sótão, a inventar inexistência?

Está-se fora do mundo, numa torre inacessível, as pessoas crescidas ficam longe, com as suas ocupações, ideias, hábitos incompreensíveis.

Aqui é o reino da fantasia, da realidade indescoberta.

Vêem-se as traves e as telhas do avesso, com teias de aranha, e há umas lucarnas pequeninas, muito engraçadas, viradas para o céu azul, o sol, o silêncio, às vezes o pio dum pássaro, uma paz de eternidade.

Assim, no cheiro de palha, de mofo e clandestinidade, de pó e madeira tostada de sol, entre murmúrios de palavras proibidas, gestos rituais de descobrimento, e acres emanações de suor infantil, pode-se ser feliz ou infeliz à vontade, e, apesar da carne ainda insensível, ir aprendendo os segredos do ser, que exalta e que dói.



- JOSÉ RODRIGUES MIGUÉIS, A Escola do Paraíso (18-Um drama sob o Terror), 1960.

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Eliseo Diego (Imaginemos um tempo)






IMAGINEMOS UN TIEMPO




Imaginemos un tiempo en que me haya alejado tanto
que los hijos de mis hijos y sus hijos
y los hijos de éstos a su vez
no vean en mí sino un extraño,
peor aún, en que no sea
ni siquiera un nombre, sino alguien
como ese vecino que vive a dos adustas puertas
y a quien jamás encontraremos en ninguna parte,
a no ser como el incierto esbozo de una espalda. Sí,
alguien tan lejano, tan inerme
como ese pobre curioso que se asomó a la verja
la tarde —o quizás la noche— en que las esclavas
iniciaron las lamentaciones por la muerte del pobre Séneca
mientras aullaba el perro de la cuadra.


No sabemos cómo será el sol entonces
pero sin duda
que ha de lucirles tan natural, tan sol como el de ahora,
y que aun será más cálido
puesto que al fin de cuentas el nuestro se habrá ocultado
definitivamente entre las húmedas páginas
de algún vago texto de historia. Y entonces
ese desconocido mío que imagino
tan lejos se llevará mi mano a su frente
tal como lo hago yo ahora, consolándole
no sabemos a quién qué oscuro pensamiento.



Eliseo Diego



[Marcelo Leites]






Imaginemos um tempo em que eu esteja tão longe
que os filhos de meus filhos e seus filhos
e os filhos destes por seu turno
em mim não vejam senão um estranho,
menos ainda, sequer um nome, mas alguém
como este vizinho que vive a dois passos
e que jamais veremos em nenhum lado,
a não ser como incerto esboço de umas costas. Sim,
alguém tão longe, tão inerme
como esse pobre curioso que assomou à cancela
no dia – quiçá na noite – em que as escravas
começaram a carpir a morte de Séneca
enquanto o cão da vizinhança se punha a uivar.


Não sabemos como será então o sol
mas sem dúvida
há-de alumiá-los tão natural, tão sol como o de agora,
e até mais quente
porque no fim de contas o nosso estará oculto
para sempre nas páginas húmidas
de um vago texto de história. E então
esse meu desconhecido que imagino
tão longe levará minha mão à sua fronte
tal como eu faço agora, consolando
não sabemos quem ou que obscuro pensamento.


(Trad. A.M.)

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17.8.10

Mário Cesariny (Faz-me o favor)






Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!
Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvi-lo já.


É ouvi-lo melhor
Do que o dirias
O que és não vem à flor
Das caras e dos dias.


Tu és melhor — muito melhor! —
Do que tu.
Não digas nada. Sê
Alma do corpo nu
Que do espelho se vê.



Mário Cesariny

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Fernando Assis Pacheco (F.A.P. fecit)






F.A.P. FECIT




Este livro é teu que me aturaste
desvairos saüdades amorios
desde o primeiro mal cozinhado verso
ó cúmplice
um que me lê com respeito e vagar
a quem devo chamar prestante amigo
neste mundo de tanta cabronada

o livro é o que é nenhum enleio
nenhuma assinatura a baixo preço
não estou nessa tal lista e tem também
a confissão banal dos mil cagaços
de morrer (dores intercostais músculos
caindo na barriga da perna)
como se eu fosse à noite um filho terno
e teu, leitor, que o não desamparaste



Peçam grandiloqüência a outros
acho-a pulha no estado actual da economia



E não sublinhem o que não escrevi



A ti compadre irmão saúdo e já termino
com só o fósforo duma estrela
na lixa do fim da tarde




Fernando Assis Pacheco



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16.8.10

Karmelo C. Iribarren (As mulheres)






LAS MUJERES




No sé qué tienen, además
de lo que tienen,
pero sin duda es mágico.
Capaces,
con un mínimo gesto,
de hacerte desear
no haber nacido nunca
en un instante
y que al siguiente
te arrojes a sus pies, pasan
siempre de largo.
Sus miradas
desarman.
Sus caricias
te pueden reducir
a un pobre imbécil.


Son como el alumbrado de la vida.


Las mujeres. Lo máximo.



KARMELO C. IRIBARREN
Serie B
(1998)







Não sei que têm, além
do que têm,
mas é magia sem dúvida.
Capazes,
com um gesto mínimo,
de te fazerem desejar
nunca ter nascido
e a seguir atirar-te a seus pés,
passam sempre de largo.
Seus olhares
desarmam.
Suas carícias
fazem de ti
um pobre imbecil.


São como que a luz da vida.


As mulheres. O máximo.



(Trad. A.M.)




>>  Poetas Vascos (20p+nota+linques)  /  Cátedra M.Delibes (5p+linques)  /  Wikipedia


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Manuel Alegre (E alegre se fez triste)






E ALEGRE SE FEZ TRISTE





Aquela clara madrugada que
viu lágrimas correrem no teu rosto
e alegre se fez triste como se
chovesse de repente em pleno Agosto.


Ela só viu meus dedos nos teus dedos
meu nome no teu nome. E demorados
viu nossos olhos juntos nos segredos
que em silêncio dissemos separados.


A clara madrugada em que parti.
Só ela viu teu rosto olhando a estrada
por onde um automóvel se afastava.


E viu que a pátria estava toda em ti.
E ouviu dizer-me adeus: essa palavra
que fez tão triste a clara madrugada.



MANUEL ALEGRE
O canto e as armas
(1967)

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15.8.10

Manoel de Barros (Arte de infantilizar formigas)






ARTE DE INFANTILIZAR FORMIGAS – 3




À mesa o doutor perorou: Vocês é que são felizes
porque moram neste Empíreo.
Meu pai cuspiu o empíreo de lado.
O doutor falava bobagens conspícuas.
Mano Preto aproveitou: Grilo é um ser imprestável
para o silêncio.
Mano Preto não tinha entidade pessoal, só coisal.
(Seria um defeito de Deus?)
A gente falava bobagens de à brinca, mas o doutor
falava de à vera.
O pai desbrincou de nós:
Só o obscuro nos cintila.
Bugrinha boquiabriu-se.



MANOEL DE BARROS
Compêndio para uso dos pássaros
(Poesia reunida 1937-2004)
Quasi Edições, 2007

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Josefa Parra (Do tacto)






DEL TACTO




Acércate despacio a mis dominios;
que tus dedos tanteen el espacio
ciegamente, la oscuridad que envuelve
mi cuerpo; que construyan un camino
y lleguen hasta mí a través del velo
espeso y taciturno de las sombras.
Sálvame con la luz que hay en tus dedos
si me tocan, conjura la desidia,
enciéndeme o abrásame en el tacto
esplendoroso y claro de tus manos.
Como las mariposas de la noche,
hacia la llama iré que tú convocas,
que prefiero quemarme a estar a oscuras.


Josefa Parra Ramos








Chega-te devagar aos meus domínios;
que teus dedos tacteiem o espaço
cegamente, a escuridão que envolve
meu corpo; que abram um caminho
e cheguem até mim através do véu
espesso e taciturno das sombras.
Salva-me com a luz que há em teus dedos
ao tocar-me, conjura a desídia,
acende-me ou abrasa-me no tacto
esplendoroso e claro de tuas mãos.
Como a borboleta nocturna,
lançar-me-ei à chama que tu convocas,
antes queimar-me que estar às escuras.


(Trad. A.M.)



>>  A media voz (28p)  /  Cátedra M.Delibes (3p+bio+biblio)


 
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14.8.10

Luís Miguel Nava (Não muita vez)






NÃO MUITA VEZ




Não muita vez nos vemos, mas, se poucos
amigos há para falar
dos quais me sirvo de relâmpagos, de todos
é ele o que melhor vai com a minha fome.


Os dedos com que me tocou
persistem sob a pele, onde a memória os move.
Tacteiam, impolutos. Tantas vezes
o suor os traz consigo na memória, que não tenho
na pele poro através
do qual eles não procurem
sair quando transpiro.
A pele é o espelho da memória.



Luís Miguel Nava




[Lugares Mal Situados]

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Um verso (83)







A verdade é um erro colectivo





Nicanor Parra

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13.8.10

José María Fonollosa (Avenue of the Americas)






AVENUE OF THE AMERICAS




Que con ella no iría más le dije.
(Ella anduvo a mi lado hasta mi cuarto).


Que no la abrazaría más le dije.
(Ella puso mis brazos a su espalda).


Que no la escucharía más le dije.
(Sus palabras vertía ella en mi boca).


Que no haría el amor a ella le dije.
Y ahora está descansando sobre mi hombro.



José María Fonollosa








Que não iria mais com ela disse-lhe
(Ela caminhou a meu lado para o meu quarto).


Que não mais a abraçaria disse-lhe.
(Ela pôs os meus braços à sua volta).


Que não a escutaria mais disse-lhe.
(Suas palavras vertia ela em minha boca).


Que não faria amor com ela disse-lhe.
E agora está a descansar no meu ombro.



(Trad. A.M.)

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Olhar (79)









Serra de Ancares

(Espanha)

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12.8.10

José Mário Silva (Alexandria e o resto)






ALEXANDRIA E O RESTO




Nenhum fogo
é igual a outro fogo;
só as cinzas são as
mesmas.



JOSÉ MÁRIO SILVA
Nuvens & Labirintos
Gótica
(2001)



[Poesia Incompleta]


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José Corredor-Matheos (Como poderei pagar-te?)






CÓMO PODRÉ PAGARTE




¿Cómo podré pagarte
que me hayas hecho ver
la irrealidad de todo,
la vanidad de todo?
¿Cuánto daría yo
por oír en tu voz
que la nada es el fruto
de tu meditación,
que después de la muerte
hay la nada
o la misericordia?
Tus palabras me llegan
con sabor a tu voz
y me parece verte
con un vaso en la mano,
que levantas
hacia ese firmamento
resultado tan sólo
de la imaginación.
Si es que eres tú, Omar,
arráncame una a una
las certezas.
Que quede tan desnudo
como las claras dunas
del desierto.
Omar Jayyam, brindemos,
porque aunque todo sea
viento, espejismo, sueño,
quiero seguir oyendo
tus palabras,
contemplar tu figura
de apagada ceniza
y beber en silencio
el vino de tu cáliz.



José Corredor-Matheos







Como poderei pagar-te
por me fazeres ver
a irrealidade de tudo,
a vaidade de tudo?
Quanto daria eu
por ouvir da tua voz
que o nada é fruto
da tua meditação,
que depois da morte
existe o nada
ou a misericórdia?
Chegam-me tuas palavras
com sabor à tua voz
e parece-me ver-te
de copo na mão,
que levantas
para o firmamento
resultado apenas
da imaginação.
Se é que és tu, Omar,
arranca-me as certezas
uma a uma.
Que fique tão nu
como as claras dunas
do deserto.
Omar Jayyam, brindemos,
porque mesmo que tudo seja
vento, miragem, sonho,
quero continuar a ouvir
tuas palavras,
contemplar teu perfil
de cinza apagada
e beber em silêncio
o vinho do teu cálice.


(Trad. A.M.)



>>  A media voz (21p)  /  Um buraco na sombra (16p)  /  Wikipedia


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11.8.10

José Agostinho Baptista (Madeira)






MADEIRA




Quero beijar os teus lábios de pedra,
a água azul e profunda onde os teus
seios sem mácula se unem às minhas
mãos,
quero fundir-me em ti,
minha doce amante do desejo antigo,
quero mergulhar nos cabelos húmidos das
tuas raízes,
quero subir lentamente o teu corpo frio,
fendido,
quero fazer em ti,
nos teus jardins inclinados,
um país de filhos belos, de animais de
silêncio e bondade,
quero regressar a ti,
ao mistério das levadas, das falésias,
dos ventos que batem nos pássaros de aço
e nas tuas tranças,
quero que me toques amorosamente com
os teus dedos esguios,
com as tuas canas doces,
quero o mel, a estrelícia, o pão escuro sobre
as mesas de toalhas loucas bordadas pelas
mulheres de outrora,
senhoras nossas das dores e do entardecer,
quero levar-te comigo para além, para
sempre,
quero que deixes em mim o fruto das tuas
árvores da alegria,
todos os sinais da ternura que o tempo não
consumiu,
minha eterna amante junto ao mar,
quero morrer em ti,
e em ti nascer de novo.



JOSÉ AGOSTINHO BAPTISTA
Anjos Caídos
Assírio & Alvim
(2003)

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10.8.10

João Miguel Fernandes Jorge (Coimbra)






COIMBRA




Já não tenho mais nada
a ouvir da cidade. Nem
sequer o silêncio que
esconde a torre.


Um estudante ao canto da rua
vela parte do rosto. Tanto
negro.
Um cão mija-lhe nas pernas, não
por engano, mas por caridade.
Confunde-o
nas fotocópias do seu saber.


Em Santa Cruz
ficou o primeiro rei
o tão velho mundo
as pequenas praças
a tempestade invade-nos
um requiem
uma cadência.



João Miguel Fernandes Jorge


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Jorge Riechmann (Um bom verso)






Un buen verso
no sacia el hambre.


Un buen verso
no construye un jardín.


Un buen verso
no derriba al tirano.


Un verso
en el mejor de los casos consigue
cortarte la respiración
(la digestión casi nunca)


y su ritmo insinúa otro ritmo posible
para tu sangre y para los planetas.



Jorge Riechmann




[El alma disponible]





Um bom verso
não mata a fome.


Um bom verso
não faz um jardim.


Um bom verso
não derruba o tirano.


Um verso
no melhor dos casos é capaz
de nos cortar a respiração
(a digestão quase nunca)


seu ritmo insinuando outro ritmo possível
para o nosso sangue e para os planetas.



(Trad. A.M.)



>>  Amediavoz (43p)  /  Cervantes (antologia+perfil+biblio)  /  Poesia-inter.net (58p)  /  Wikipedia



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9.8.10

Hilda Hilst (Árias pequenas. Para bandolim)






ÁRIAS PEQUENAS. PARA BANDOLIM




Antes que o mundo acabe, Túlio,
Deita-te e prova
Esse milagre do gosto
Que se fez na minha boca
Enquanto o mundo grita
Belicoso. E ao meu lado
Te fazes árabe, me faço israelita
E nos cobrimos de beijos
E de flores

Antes que o mundo se acabe
Antes que acabe em nós
Nosso desejo.



Hilda Hilst


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José Rodrigues Miguéis (O vento mia e rabeia)






O vento mia e rabeia no telhado, abala a casa, parece que leva tudo pelos ares, engolfa-se a espaços pela chaminé abaixo, espevita o lume onde a chaleira canta, vai fazer oscilar a chama do candeeiro de petróleo e arranca-lhe um veuzinho de fumo negro.

Algures, uma porta mal engonçada bate no trinco, enfurecida, como se quisesse libertar-se e partir com o vento à grande aventura.

Na mansarda, de outro modo silenciosa, paira uma inquietação.

Só ali na cozinha brilha a luz amarela e tranquila, que o abajur de papelão concentra na mesa e na tábua de engomar.

Ao lado, pelo respiradouro em ogiva do ferro, espreita um lume quase branco, de inferno em miniatura, que espalha o aroma e o calor reconfortantes do sobro queimado.



- JOSÉ RODRIGUES MIGUÉIS, A Escola do Paraíso (1- O gato preto), 1960.


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8.8.10

José Ángel Barrueco (Assuntos próprios)






ASUNTOS PROPIOS




lo cierto es que mis hermanos y yo
no soportamos a nuestro progenitor

pero tampoco toleramos que alguien
ajeno lo insulte y se meta con él

los problemas familiares
los resolvemos entre nosotros

nadie nos ayudó entonces a odiarlo
y no queremos que nadie nos ayude ahora.



José Ángel Barrueco







certo é que eu e meus irmãos
não suportamos o nosso progenitor

mas tão pouco toleramos que alguém
o insulte de fora ou se meta com ele

os problemas familiares
resolvemo-los entre nós

ninguém nos ajudou em tempos a odiá-lo
e ninguém nos vai ajudar agora


(Trad. A.M.)

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7.8.10

Herberto Helder (Minha cabeça estremece)






Minha cabeça estremece com todo o esquecimento.
Eu procuro dizer como tudo é outra coisa.
Falo, penso.
Sonho sobre os tremendos ossos dos pés.
É sempre outra coisa, uma
só coisa coberta de nomes.
E a morte passa de boca em boca
com a leve saliva,
com o terror que há sempre
no fundo informulado de uma vida.
Sei que os campos imaginam as suas
próprias rosas.
As pessoas imaginam os seus próprios campos
de rosas. E às vezes estou na frente dos campos
como se morresse;
outras, como se agora somente
eu pudesse acordar.


Por vezes tudo se ilumina.
Por vezes canta e sangra.
Eu digo que ninguém se perdoa no tempo.
Que a loucura tem espinhos como uma garganta.
Eu digo: roda ao longe o outono,
e o que é o outono?
As pálpebras batem contra o grande dia masculino
do pensamento.


Deito coisas vivas e mortas no espírito da obra.
Minha vida extasia-se como uma câmara de tochas.


- Era uma casa - como direi? - absoluta.
   (…)



Herberto Helder

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