16.12.23

Manuel Resende (Na auto-estrada)




NA AUTO-ESTRADA

 

Ainda posso perceber 
esses miúdos nos viadutos 
que atiram pedras aos carros da auto-estrada. 
É um gesto eficaz 
que matou alguns caixeiros-viajantes, 
e até famílias inteiras, 
é pura malvadez 
e o mundo precisa de pureza. 

Mas como se justificam esses que nos acenam 
com alegria ao passarmos? 


Manuel Resende

 .

14.12.23

Mario Benedetti (Como vai ser teu dia?)




CÓMO VA A SER TU DÍA HOY?

 

Esta mañana desperté emocionado 
con todas las cosas que tengo que hacer
antes que el reloj sonara.

Tengo responsabilidades que cumplir hoy. Soy importante.
Mi trabajo es escoger qué clase de día voy a tener.

Hoy puedo quejarme porque el día está lluvioso
o puedo dar gracias porque las plantas están siendo regadas.

Hoy me puedo sentir triste porque no tengo más dinero
o puedo estar contento porque mis finanzas me empujan
a planear mis compras con inteligencia.

Hoy puedo quejarme de mi salud
o puedo regocijarme de que estoy vivo.

Hoy puedo lamentarme de todo
lo que mis padres no me dieron mientras estaba creciendo
o puedo sentirme agradecido de que me permitieran haber nacido.

Hoy puedo llorar porque las rosas tienen espinas
o puedo celebrar que las espinas tienen rosas.

Hoy puedo autocompadecerme por no tener muchos amigos
o puedo emocionarme
y embarcarme en la aventura de descubrir nuevas relaciones.

Hoy puedo quejarme porque tengo que ir a trabajar
o puedo gritar de alegría porque tengo un trabajo.

Hoy puedo quejarme porque tengo que ir a la escuela
o puedo abrir mi mente enérgicamente
y llenarla con nuevos y ricos conocimientos.

Hoy puedo murmurar amargamente
porque tengo que hacer las labores del hogar
o puedo sentirme honrado
 porque tengo un techo para mi mente y cuerpo.

Hoy el día se presenta ante mí esperando a que yo le dé forma
y aquí estoy, soy el escultor.

Lo que suceda hoy depende de mí. Yo debo escoger qué tipo de día voy a tener.

Que tengas un gran día… a menos que tengas otros planes….

 
Mario Benedetti 


Hoje acordei, antes de o relógio tocar,
cheio de emoção
com tudo o que tenho para fazer.

Tenho responsabilidades a cumprir, sou muito importante.
Minha tarefa é escolher que espécie de dia vou ter.

Hoje posso queixar-me de estar a chover
ou posso dar graças por as plantas estarem a ser regadas.

Hoje posso sentir-me triste por não ter mais dinheiro
ou posso estar contente por as minhas finanças me obrigarem
a fazer as compras com inteligência.

Hoje posso queixar-me da saúde
ou posso regozijar-me de ainda estar vivo.

Hoje posso lamentar-me de tudo
o que os pais não me deram na infância
ou posso estar grato de me terem feito nascer.

Hoje posso chorar de as rosas terem espinhos
ou posso celebrar os espinhos terem rosas.

Hoje posso ter pena de mim por ter poucos amigos
ou posso emocionar-me
e entrar na aventura de fazer novas relações.

Hoje posso queixar-me de ter que ir trabalhar
ou posso gritar de alegria porque tenho trabalho

Hoje posso queixar-me por ter de ir para a escola
ou posso abrir a mente e enchê-la de novos e ricos conhecimentos.

Hoje posso murmurar amargamente
por ter de fazer os trabalhos da casa
ou posso sentir-me honrado
por ter um tecto para o corpo e espírito.

Hoje tenho o dia pela frente à espera que eu lhe dê forma
e cá estou eu, o escultor.

O que hoje acontecer depende de mim.
Eu é que tenho de escolher que tipo de dia vou ter.

Que tenhas um grande dia!...
A menos que tenhas outros planos…


(Trad. A.M.)

.

13.12.23

Lauren Mendinueta (A torre de marfim)


 

LA TORRE DE MARFIL

 

El mundo es una torre de marfil, en vano
busco una puerta en sus paredes curvas.
Parezco una actriz representando a un borracho,
camino tratando de hacer una línea recta,
nunca eses. No soy una profesional
de la actuación, ni siquiera me lo parezco,
pero caminaré tratando de hacer una línea recta.

A veces me siento frente al ordenador y busco
toda clase de cosas, desde zapatos hasta amor.
Y sí, todo lo encuentro allí, porque el mundo es una torre
y estoy atrapada con todo lo demás, es inevitable.
Cuando me miro al espejo me sorprende lo común
que parece mi rostro, y me digo:
es bueno ser tan común, no te asustes.

Vuelvo a sentarme frente al ordenador y encuentro
las mismas cosas, todo, todo, hasta el amor.
Y allí mismo, tecleando,
trato de comprender
por qué me siento libre en la jaula del pájaro.

Lauren Mendinueta

[LALT]

 


O mundo é uma torre de marfim, busco
uma porta em vão nas suas paredes curvas.
Pareço uma actriz a representar um borracho,
caminho procurando fazê-lo a direito, 
não aos esses. Não sou uma profissional da coisa,
nem sequer o pareço,
mas vou caminhar tentando fazê-lo a direito.

Às vezes sento-me ao computador e busco
toda a sorte de coisas, desde sapatos até amor.
E sim, encontro tudo ali, porque o mundo é uma torre
e estou agarrada a tudo o resto, é inevitável.
Quando me miro ao espelho, admira-me o comum
que parece o meu rosto, e digo para mim mesma:
é bom ser tão comum, não te assustes.

Volto a sentar-me ao computador e encontro 
as mesmas coisas, tudo, tudo, até o amor.
E ali mesmo, teclando,
procuro compreender 
porque me sinto livre na jaula do pássaro.

(Trad. A.M.)

 .

11.12.23

Manuel Alegre (Coimbra)

 



COIMBRA

 

De Coimbra, fica um rio e uma saudade
cavaleiros andantes, dulcineias
De Coimbra, fica a breve eternidade
do Mondego, a correr em nossas veias

De Coimbra, fica o sonho, fica a graça
Antero de revolta, capa à solta
De Coimbra, fica um tempo que não passa
neste passar de um tempo que não volta

 

Manuel Alegre

 .

9.12.23

Mariano Peyrou (A ordem)




EL ORDEN

 

Este inevitable vacío
de las cosas, su falta
de relación con nuestras expectativas
y la esperanza con que las
definimos, no es un vacío
pasivo; susurra, reclama que
la piedra siga siendo piedra,
que lo vertical, lo instantáneo,
siga incidiendo sin violencia 
sobre lo horizontal. Lo permanente,
entonces, resistirá con la paciencia
propia de lo ajeno, de lo que ya
no importa, explicándonos de nuevo
las primeras lecciones para que no
olvidemos más que el agua
es la piedra más dura.

 
Mariano Peyrou 

 

Este inevitável vazio
das coisas, sua falta
de relação com nossas expectativas
e a esperança com que as
definimos, não é um vazio
passivo; sussurra, reclama que
a pedra continue a ser pedra,
que o vertical, o instantâneo,
continue a incidir sem violência 
no horizontal. O permanente,
então, resistirá com a paciência
própria do alheio, do que já
não importa, explicando-nos de novo
as primeiras lições para que não
olvidemos mais que a água
é a pedra mais dura.


(Trad. A.M.)

 .


8.12.23

Mariana Finochietto (Curiosos)

 



Curiosos
los días del amor,
cuando las horas se sostienen
de un cielo que después
caerá
a pedazos.


Mariana Finochietto

[Emma Gunst]

 

 

Curiosos
os dias do amor,
quando as horas se suspendem
de um céu que depois
cairá
aos bocados.


(Trad. A.M.)

.

6.12.23

Manuel de Freitas (Becherovka)




BECHEROVKA 

 

Norueguesa, alta, de um moreno
duvidoso que sorria muito.
Pedia-me insistentemente para não estar
triste como deveras estava.
E pagou-me, creio, o último copo,
antes de me perguntar "o que fazia". 

Escrever, sobre a morte, não é
exactamente uma profissão.
Mas foi a resposta que lhe dei,
enquanto um guardanapo qualquer
abreviava, só para ela, a minha "obra". 

Nunca saberei se percebeu a letra,
se comprou os livros, se chegou
a ouvir o que em péssimo francês
lhe tentei dizer nessa noite, a mais perdida. 

Os versos são quase sempre isto: um modo
inaceitável de dizer que não tocámos o corpo
que esteve, por uma vez, tão próximo
de nós – e que nem um nome breve nos deixou.

 
Manuel de Freitas 

[Hospedaria Camões]

 .

4.12.23

María Zambrano (Alma minha, ou um luzeiro)




Mi alma o un lucero?
Qué oscura galería me espera,
por qué agujeros he de deslizarme,
qué laberinto me está ya preparado,
qué cepo, qué cadenas, qué grillos,
qué humo siniestro ha de envolverme, 

qué paredes de niebla me dislocan.
Y no podré llorar. ¿Dónde están las manos 
que recogen el llanto?, la mano, la caricia.
Atrás queda el misterio.
Despierta. Todo está ahí de nuevo. No hay secreto.

María Zambrano

 

 

Alma minha, ou um luzeiro?
Que escura galeria me espera, 
por que buracos hei-de passar,
que labirinto me está preparado,
que cepo, que correntes, que grilhões,
que fumo sinistro me há-de envolver,
que paredes de névoa me empurram?
E sem chorar, que não posso. Onde as mãos 
que recolhem o pranto, a mão, a carícia?
Para trás fica o mistério.
Desperta. Está tudo aí de novo. Não há segredo.

(Trad. A.M.)

 .


3.12.23

María Laura Decésare (Deixa-me ser)

 



DÉJAME SER 

 

Dicen que un pájaro 
vuela porque es lo único 
que sabe hacer 
y hoy quisiera ser como él
volar hasta la copa del árbol 
para observar desde lo alto
la belleza
que hemos perdido.
 

María Laura Decésare 

[Otra Iglesia]

 

  

Dizem que um pássaro
voa porque não sabe
fazer outra coisa
e eu hoje queria ser como ele
voar até à copa da árvore 
para obsevar lá do alto 
a beleza
que perdemos.
 

(Trad. A.M.)

.

 


1.12.23

Luís Veiga Leitão (O sábio das coisas simples)




O sábio das coisas simples 
olhou em torno e disse: 
não há profundidade 
sem superfície 



Luís Veiga Leitão

.

29.11.23

Osvaldo Picardo (À pesca, com meu pai)

 


DE PESCA CON MI PADRE

 

Cae el anzuelo en el tiempo, a su tiempo.
Algunos peces morderán.
Salpicarán sus colores.
Veré en mis manos la desesperación:
sus ojos tan distintos e iguales como mundos acabados.

Cae el anzuelo y se lo olvida
largamente.
Algo podrido en el aire. Podrido
de algas, orines presurosos
y mejillones al sol.
Cruelmente afilado en el tiempo,
en la tanza tendida sobre el mar oscuro.

Siempre veníamos acá con mi padre.
En la barranca abandonada del kaiser
para mirar un instante, de pie, desde ahí,
las arenas gruesas de la playa
y el derrumbre encrespado de las olas.
Bajábamos con los pies desnudos
y el corazón apretado contra el mediodía.
La dirección del viento, las babas del diablo
y el revés del agua él sabía. Yo no.

Cae adentro y lejos, el anzuelo.
No hay otra manera
para que la carnada dé con la hoya escondida.
No es cuestión de tirar por tirar.
Hay que mirar
mirar la bajamar volviendo y ver entre
las rocas las plomadas oxidadas,
los collares de nylon: fracasos reconocibles,
propios.

El mar, siempre distinto -decía- 
no devuelve lo que se lleva.
Y siempre el aire olía así
entre una alegría de espinas y escamas.
Con él.
 

Osvaldo Picardo 

 

Cai o anzol no tempo, a seu tempo,
alguns peixes hão-de morder,
salpicados com suas cores.
E eu verei o desespero nas minhas mãos,
seus olhos tão iguais e diferentes
como mundos extintos.

Cai o anzol e esquecemo-lo 
longamente.
E no vento paira algo de apodrecido,
de algas, ouriços pressurosos
e mexilhões ao sol,
cruamente aguçado no tempo,
no fio de seda estendido sobre o escuro mar.

Vínhamos aqui sempre com meu pai,
primeiro na barraca abandonada do kaiser
para daí olhar em pé
as areias grossas da praia
e o ondular encrespado das vagas.
Descíamos então de pés nus
e o coração apertado contra o meio-dia.
A direção do vento, as babas do diabo 
e o revés da água, ele conhecia, eu não.

Cai dentro e distante, o anzol,
não há outro modo
para o isco penetrar na fossa submersa.
Não se trata de puxar por puxar,
Há que observar
,
observar a maré a vazar novamente e ver
entre as rochas as chumbadas oxidadas,
as cintas de nylon: fracassos próprios,
reconhecíveis.

O mar, diferente sempre – dizia –
não devolve aquilo que leva.
E o ar cheirava assim sempre,
numa alegria de espinhas e escamas.
Com ele.


(Trad. A.M.).


28.11.23

Manuel Vilas (Cocaína)




COCAINA 

 

Luz de la ciudad, te bebemos de noche.
 

Hacemos el amor tan cerca de la cocina,
es tan pequeño este piso,
que llega el olor de las tuberías como un olor de santidad
pegajoso y sucio,
sintético y torcido,
demasiado calor,
por todo tu cuerpo con tatuajes y escamas.
 

Luz de la ciudad, eres blanca como el sol.
 

Conozco gente de cincuenta y cinco años
que ocupa puestos importantes bajo las luces de la ciudad,
que hablan un español inmaculado,
que tienen el poder y la dicha social,
pero que no hacen el amor como tú y yo lo hacemos,
-si es que es amor y no mentira-
con esos gritos arrancados
-si es que son gritos y no ficciones-
a la piel, a la lengua, al ácido
de las enigmáticas baldosas del suelo,
que apenas aman así, a la manera nuestra
-rabia y poco futuro, ira y poca compasión-
y yo no entiendo que la vida sea otra cosa
que las blancas cabelleras
de tu carne hipócrita y regiamente desnuda
como si sonasen los himnos nacionales de Francia y Alemania,
de Rusia y España, de Suecia y Finlandia,
no en mitad de una Olimpiada,
sino en mitad de los extrarradios industriales.
 

Luz de la ciudad, te bebemos de noche.
 

A veces no nos dormimos en la madrugada y pensamos en Marte
y pensamos en las cenizas de los crematorios ascendiendo
-cuerpos carbonizados, gente que nació para decorar el cielo-
buscando su tumba en el aire contaminado
-el aire pleno de cenizas humanas que vienen de la tierra,
culos y lenguas, fémures y sacros, hígados y simiente-
siete horas seguidas mirando el plafón dorado allá en el techo
de un dormitorio traspasado por ruidos
de coches viejos y lejanos,
de puertas de vecinos que se abren;
y miramos una ventana,
presintiendo a través de las rendijas
la fuerza de las grúas que crean la vida y la historia.
 

Luz de la ciudad, te bebo desnudo.
 

Cuando tenga setenta años y ya no pueda,
ábreme en canal,
y tira mi corazón a los perros.
Y tú come con ellos,
pelea con ellos para que te dejen morder,
muérdelo como tú sabes,
perra,
mi corazón.
 

Te quiero.
 

Te quiero tanto.
 

Te quiero,
como los dinosaurios quieren la luz de las estrellas para beberla de noche,
como los leones en África devoran cebras con los riñones plenos de basura,
como los blancos comen negros con el corazón pleno de ilusiones blancas.
 

Luz de la ciudad, eres mi novia, mi espejo y mi alegría.
 

Me paso las noches gritando.
Contra la oscuridad, contra la luna,
gritando.
Desnúdate, perra,
gritos en mitad de la madrugada,
en mitad de las escaleras de los pisos baratísimos:
exaltación, demasiada exaltación.
 

Todo está blanco.
 

Desnúdate, perra. ¿Tiemblas? ¿Te asusto?
 

Luz de la ciudad, te bebemos de noche.
 

Luz de la ciudad, que también ilumina
a los perros,
a los negros,
a los niños,
a los santos,
a los resucitados,
a los ancianos,
a los pobres,
a los asesinos,
y a las mujeres,
 a las iniluminables mujeres.
 

Luz de la ciudad, te bebemos de noche.
 

Luz de la ciudad sobre tu cabello de ceniza Sulamita.
 

Tengo muchas ganas esta noche.
Te mataré. Te lo daré. Te daré eso.
Nos casaremos. Te lo daré, lo juro.
 

Te quiero.

 

Manuel Vilas

[Revista Turia]


 

 

 Luz da cidade, bebemos-te de noite.
 

Fazemos amor tão perto da cozinha,
é tão pequeno este andar,
que nos vem o cheiro das tubagens como um cheiro de santidade,
sujo e peganhento,
sintético e retorcido,
calor de mais,
por todo o teu corpo com escamas e tatuagens.
 

Luz da cidade, branca como o sol.
 

Conheço pessoas de cinquenta e cinco anos
ocupando lugares importantes sob as luzes da cidade,
que falam um espanhol imaculado,
que têm poder e posição social,
mas não fazem amor como eu e como tu
- se é que é amor e não mentira -
aos gritos
- se é que são gritos e não ficções -
arrancados à pele, à língua, ao ácido
dos mosaicos do piso,
que mal amam assim, ao nosso modo
- raiva e pouco futuro, ira e não compaixão -
e eu não entendo que a vida seja outra para além das brancas cabeleiras
de tua carne hipócrita e nua
como se tocassem os hinos nacionais de França e Alemanha,
de Rússia e Espanha, de Suécia e Finlândia,
não a meio dos Jogos Olímpicos,
mas a meio dos extra-rádios industriais.
 

Luz da cidade, bebemos-te de noite.
 

Às vezes não dormimos, de madrugada,
e pensamos em Marte
e nas cinzas dos crematórios subindo
- corpos carbonizados, gente que nasceu para decorar o céu -
a buscar o sepulcro no ar contaminado
- o ar carregado de cinzas humanas que vêm da terra,
línguas e cus, sacros e fémures, fígados e semente -
sete horas seguidas olhando a luz dourada no tecto
de um quarto trespassado por ruídos de carros velhos e distantes,
de portas de vizinhos que se abrem;
e olhamos uma janela,
pressentindo pelas frestas
a força das gruas que criam a vida e a história.
 

Luz da cidade, bebo-te desnudo.
 

Quando eu tiver setenta anos e já não puder,
abre-me o peito
e atira meu coração aos cães.
E come com eles também,
bulha com eles para te deixarem morder,
morde-o como tu sabes,
cachorra,
meu coração.
 

Amo-te.
 

Amo-te tanto.
 

Amo-te,
como amam os dinossauros a luz das estrelas para a beberem de noite,
como os leões em África devoram zebras com os rins cheios de lixo,
como os brancos comem os negros com o coração cheio de brancas ilusões.
 

 Luz da cidade, minha noiva, meu espelho, minha alegria.
 

Passo as noites a gritar.
Contra o escuro, contra a lua, gritando.
Despe-te, cachorra,
gritos a meio da madrugada,
a meio das escadas dos andares baratíssimos:
exaltação, demasiada exaltação.
 

Tudo está branco.
 

Despe-te, cachorra. Estás a tremer? Com medo de mim?
 

Luz da cidade, bebemos-te de noite.
 

Luz da cidade, que também ilumina
os cães,
os negros,
as crianças,
os ressuscitados.
os anciãos
os pobres,
os assassinos,
e as mulheres
as inilumináveis mulheres.
 

Luz da cidade, bebemos-te de noite.
 

Luz da cidade sobre teu cabelo de cinza Sulamita.
 

Tenho muita vontade esta noite.
Vou-te matar. Vou-to dar. Vou-te dar aquilo.
Casamo-nos. Vou-to dar, juro.
 

Amo-te.


(Trad. A.M.)

.

26.11.23

Luís Filipe Castro Mendes (Acordar)




ACORDAR

 

Estranho as manhãs:
saímos do sono e do sonho para entrar num mundo
estrangeiro e diverso,
feito de ângulos rectos e de névoa densa.

Só o costume nos vai convencendo devagar
que esta é a realidade.
Pode ser.


Luis Filipe Castro Mendes

 .

24.11.23

Manuel Rico (Neve e penumbra)

 



Penumbra y nieve.
Trazo de tinta
sobre la luz
produce noche
e incertidumbre.

Produce abismos,
tierra de sombra.

Sueño la nieve
y en su reverso
lo oscuro busca
refugio y senda.

La vida en muerte.
La muerte en vida.

Manuel Rico

[Trianarts]

 

Neve e penumbra.
Traço de tinta
sobre a luz
gera noite 
e incerteza.

Gera abismos
terra de sombra.

Sonho a neve
e no reverso
o escuro busca
caminho e refúgio.

A vida na morte
a morte em vida.

 

(Trad. A.M.)

 .

23.11.23

Lauren Mendinueta (Assim passam os anos)

 



ASÍ PASAN LOS AÑOS

 

Pasan los años,
y aunque la vida me acusa de inmovilidad,
también yo he viajado.
Como una partícula de polvo 
he revoloteado por la casa y me he prendido a los libros.
Como un insecto he reposado a la orilla de las acequias,
o simplemente he sido una mujer que de tarde en tarde
ha mirado hacia el mar
buscando barcos olvidados por la neblina
y que vuelven a la memoria,
sin esperanza distinta de la muerte.

Lauren Mendinueta

[LALT]



Passam os anos,
e embora a vida me acuse de imobilidade,
também eu tenho viajado.
Como partícula de pó
revoluteei pela casa e prendi-me nos livros.
Como um insecto repousei na borda das levadas,
ou fui simplesmente uma mulher
olhando para o mar de tarde em tarde,
em busca de barcos esquecidos na neblina
e que voltam à lembrança,
sem esperança diferente da morte.

(Trad. A.M.)


>>  Poesia em si mesma/2007/PDF / LALT (5p)

 .

21.11.23

Louise Glück (Gretel na escuridão)

 



GRETEL NA ESCURIDÃO 

 

Este é o mundo que desejávamos.
Todos os que nos queriam mortos
estão mortos. Ouço o grito da bruxa
a rasgar o luar através de uma mortalha
de açúcar: Deus recompensa.
A língua dela desfaz-se em gás. … 

 Agora, longe de braços de mulheres
e memória de mulheres, na cabana do nosso pai
dormimos, nunca temos fome.
Por que não esqueço?
O meu pai tranca a porta, tranca o mal
fora desta casa, e passaram anos. 

Ninguém se lembra. Até tu, meu irmão,
nas tardes de estio olhas para mim como se
quisesses partir,
como se nunca tivesse acontecido.
Mas eu matei por ti. Vejo pinheiros armados,
as agulhas daquele forno dardejante – 

De noite volto-me para ti, para me abraçares
mas não estás lá.
Estarei sozinha? Há espiões
a sibilar no silêncio, Hansel,
ainda lá estamos e é real, real,
aquela floresta negra e o fogo ao rubro.
 

Louise Glück

(Trad. Inês Dias) 

[Arquivo de cabeceira] 

.

19.11.23

Manuel Moya / Xi Shuao (Encosta abaixo)




PENDIENTE ABAJO

 

Resbalo sobre ti como piedra en el agua,
para luego hundirme, hundirme
hasta aparecer en tus ojos,
en tu temblor de juncia
rodando veloz por la pendiente del sueño.


Xi Shuao Quan

  

Resvalo sobre ti como pedra na água,
para depois afundar-me, ir ao fundo
até aparecer em teus olhos,
em teu tremor de junça
rebolando veloz pela encosta do sonho.


(Trad. A.M.)

.

18.11.23

Luis García Montero (Conversa com Enrique Morente)

 

CONVERSACIÓN CON ENRIQUE MORENTE 
 

Tu me oyes, Enrique,
nese mundo vuestro del enigma
y de la soledad.

Aquí,
mientras pasa el verano
con su rumor de estrellas,
y las olas meditan,
y la luna es más tibia
pensada sobre el mar de las preguntas,
y los sueños insisten en descifrar la noche,
hay una copa tuya
y una silla que espera
en las mesas calladas de la aurora. 

Allí,
en ese mundo vuestro,
quizás haya un lugar donde poder sentarse
para escuchar contigo,
para vivir contigo las reuniones
secretas de la muerte.

Y tal vez haya copas y palabras
y vino derramado en los manteles,
y un recuerdo lejano de nosotros,
el eco de la vida. 

Así,
el tiempo con su niebla y con sus emociones
devuelve el corazón a su pasado.
Estamos todos juntos. Las ausencias
son otra forma de seguir presentes,
en una realidad que no es tan sólo
a llama de un recuerdo,
sino la vida misma,
lo que va con nosotros, porque es nuestro,
cuando todo se pierde,
aquello que nos hace
como la luz al día
y la sombra a la noche. 

Ahora
los dos somos amigos del naufragio
y el mar puede reunirnos
para seguir hablando en dos orillas.
Es un destino propio de los seres mortales
negarse a que la muerte interrumpa una cita.
 

 Luis García Montero 

[Revista Turia] 

 

Tu estás-me a ouvir, Enrique,
nesse vosso mundo do enigma
e da solidão. 

Aqui,
enquanto o verão passa
com seu rumor de estrelas,
e as ondas meditam,
e a lua é mais fraca
suspensa no mar das perguntas,
e os sonhos teimam em decifrar a noite,
há um copo teu
e uma cadeira à espera
nas mesas caladas da aurora. 

Aí, nesse mundo vosso,
há talvez um lugar para sentar
para ficar a ouvir contigo,
para contigo viver as reuniões secretas da morte.
E talvez haja copos e palavras
e vinho derramado nas toalhas,
e uma lembrança longínqua de nós,
o eco da vida. 

Assim,
com sua névoa e suas emoções devolve o tempo
o coração a seu passado.
Estamos todos juntos. As ausências
são outra forma de presença,
num mundo que não é apenas
a chama de uma lembrança,
mas a vida mesma,
o que vai connosco, porque é nosso,
quando tudo o mais se perde,
aquilo que nos faz
como a luz ao dia,
como a sombra à noite. 

Agora
somos ambos amigos do naufrágio
e o mar pode juntar-nos
para conversarmos em duas margens.
É um destino próprio dos seres mortais,
não deixar a morte interromper um encontro.
 

(Trad. A.M.)

 

.

16.11.23

Francisco Duarte Mangas (O que bebem os rios)




O que bebem os rios
quando têm sede: o sono
dos peixes, 
a sombra dos salgueiros
ou a seiva do estio?


Francisco Duarte Mangas

.

14.11.23

Leopoldo Castilla (Pássaro)




UN PÁJARO


Para descreer de los pájaros
debes primero tocar un pájaro 

su sonido
es más pájaro que él
pero su ficción más verdadera:
hizo un cuerpo 

un instante 

tócalo:
lo que llamamos nunca
es la primera superficie.
 

Leopoldo Castilla 

 

Para descrer dos pássaros
deves primeiro tocar um pássaro

seu som
é mais pássaro que ele
mas sua ficção mais verdadeira:
fez um corpo

um instante

toca-o:
o que chamamos nunca
é a primeira superfície.


(Trad. A.M.)

.