30.5.24

Mary Oliver (O que eu sei fazer)




WHAT I CAN DO

 

The television has two instruments that control it.
I get confused.
The washer asks me, do you want regular or delicate?
Honestly, I just want clean.
Everything is like that.
I won’t even mention cell phones.

I can turn on the light of the lamp beside my chair
Where a book is waiting, but that’s about it.

Oh yes, and I can strike a match and make fire.

Mary Oliver



A televisão tem dois comandos
e eu fico confusa.
A máquina de lavar pergunta-me, é roupa normal ou delicada?
Francamente, roupa limpa é o que eu quero.
E é tudo assim,
já nem falo dos telemóveis.

Eu sei ligar a luz da lâmpada ao lado da cadeira,
onde um livro me espera, mas é tudo.

Ah sim, e sei riscar um fósforo e fazer lume.

(Trad. A.M.)

 .

28.5.24

Jesús Beades (Non nobis)




NON NOBIS



Y ahora que tu esfuerzo se ve recompensado
con un hermoso premio en la Ciudad de Soria,
y por fin has oído, un momento, la Gloria
(ese rumor de aplausos), y te ves publicado,
y alguien que no conoces reseña tus poemas
en páginas leídas por la gran minoría,
te citan en lecturas, y ves, de pronto, un día
que tus amadas líneas se estudian por morfemas
en la Universidad. Ahora, piensa un poco:
recuerda que eres polvo y el polvo que levantas
cuando caes al suelo. También que no son santas
ninguna de tus obras, y que sería un loco
pensamiento el orgullo. Y medita un segundo
que el Premio que tú esperas tampoco es de este mundo.
 

Jesús Beades 

 

E agora que teu esforço se vê recompensado
com um belo prémio na cidade de Sória,
e ouviste por fim, um instante, a Glória
(esse rumor de aplausos), e te vês publicado,
e alguém que não conheces resenha teus poemas
em páginas lidas pela grande minoria,
e te citam em leituras, e vês, de repente, um dia,
que tuas amadas linhas se estudam por morfemas
na Universidade… Agora, pensa um pouco,
lembra-te que és pó e o pó que levantas
quando cais ao chão. Também que não são santas
tuas obras, e que o orgulho seria
um pensamento tolo. Pondera um instante
que o prémio que esperas não é deste mundo tão pouco.


(Trad. A.M.)

.

27.5.24

Javier Salvago (Tédio)



TEDIO


Está detrás de todo, en el fondo de todo,
estropeándolo y manchándolo todo con sus
torpes manos.
Como una araña gigante e invisible que al menor
descuido te atrapa en su viscosa tela, vive
siempre al acecho.
Si te ve feliz, te pone trampas.
Si te ve luchar, te sonríe con malicia y te pregunta:
¿Para qué?
Aparece en cualquier momento y en cualquier
lugar.
Llega con su mirada vacía, con sus palabras vacías,
con su vacía existencia, y trata de seducirte y
de convencerte de que nada, absolutamente
nada merece la pena.

Lo grave es que casi siempre lo consigue.

Javier Salvago

 

Está por trás de tudo, no fundo de tudo,
estropiando e manchando tudo
com suas mãos desajeitadas.
Como uma aranha gigante, invisível, que ao menor
descuido te apanha na teia viscosa,
está sempre à espreita.
Se te vê feliz, põe- te armadilhas.
Se te vê lutar, sorri-te maliciosa e pergunta:
Para quê?
Aparece em qualquer momento, em qualquer
lugar.
Chega de olhar vazio, com suas palavras vazias.
sua vazia existência, e trata de seduzir-te,
de convencer-te de que nada, absolutamente
nada merece a pena.

O mal é que o consegue quase sempre.

(Trad. A.M.)

.

25.5.24

Mario de Andrade (Quando eu morrer)




Quando eu morrer quero ficar,
Não contem aos meus inimigos,
Sepultado em minha cidade,
Saudade.

Meus pés enterrem na rua Aurora,
No Paissandu deixem meu sexo,
Na Lopes Chaves a cabeça
Esqueçam.

No Pátio do Colégio afundem
O meu coração paulistano:
Um coração vivo e um defunto
Bem juntos.

Escondam no Correio o ouvido
Direito, o esquerdo nos Telégrafos,
Quero saber da vida alheia,
Sereia.

O nariz guardem nos rosais,
A língua no alto do Ipiranga
Para cantar a liberdade.
Saudade...

Os olhos lá no Jaraguá
Assistirão ao que há de vir,
O joelho na Universidade,
Saudade...

As mãos atirem por aí,
Que desvivam como viveram,
As tripas atirem pro Diabo,
Que o espírito será de Deus.
Adeus.


Mário de Andrade

 .

23.5.24

Santiago Sylvester (Litania da ordem natural)




LETANÍA DEL ORDEN NATURAL

 

En el planeta Tierra y por ahora
el sol es sólo uno y hay millones de mariposas:
la naturaleza sabe lo que hace.
Hay una muerte por cada ser vivo
y las cosas caen de arriba hacia abajo:
la naturaleza sabe lo que hace.
Las horas empiezan y terminan,
el verde abunda en el campo: pasto, ramas, hojas;
y la acequia va siempre en bajada:
la naturaleza sabe lo que hace.

Imagine lo contrario: muchos soles 
y una sóla mariposa, el paisaje al rojo vivo
o las cosas cayendo en cualquier dirección,
y entenderá el alivio del que dijo “mejor es lo que sucede”
cuando vio que llovía sensatamente en Maimará. 

La naturaleza sabe lo que hace, y nosotros 
nos protegemos de incendios, plagas, terremotos, 
sobrellevamos derrumbes
y las rutas que más usamos son las cibernéticas.
Necesitamos ser cuerpo
pero la naturaleza tiene otros proyectos,
y nos hicimos tenaces en la resistencia.
La naturaleza sabe lo que hace,
nosotros también.

Santiago Sylvester

 

No planeta Terra e por agora
o sol é só um e há milhões de mariposas:
a natureza sabe o que faz.
Há uma morte por cada ser vivo
e as coisas caem de cima para baixo:
a natureza sabe o que faz.
As horas começam e terminam,
o verde abunda nos campos: pasto, ramos, folhas;
e a regueira é sempre a descer:
a natureza sabe o que faz.

Imagine-se o contrário, muitos sóis
e uma só mariposa, a paisagem de vermelho vivo
ou as coisas a cair em qualquer direcção,
já se vê o alívio daquele que disse ‘o melhor é o que acontece’
quando viu que chovia sensatamente em Maimará.

A natureza sabe o que faz, e nós protegemo-nos
de incêndios, pragas, terramotos,
suportamos desmoronamentos
e as ruas que mais usamos são as cibernéticas.
Necessitamos de ser corpo
mas a natureza tem outros projectos,
e fizemo-nos tenazes na resistência.
A natureza sabe o que faz,
nós também.


(Trad. A.M.)


>>  Crear en Salamanca (12p) / Otra iglesia (muitos p) / Isliada (7p) / El desaguadero (6p)

.

22.5.24

Chantal Maillard (Intervalo)




INTERVALO

 

Entre uma imagem tua
e outra imagem de ti
o mundo fica parado.
Em suspenso. E minha vida
é esse pássaro colado ao cabo
de alta tensão,
depois da descarga.


Chantal Maillard

(Trad. A.M.)

.

20.5.24

Mário Cesariny (O Raul Leal era)



O Raul Leal era
o único verdadeiro doido do "Orpheu".
Ninguém lhe invejasse aquela luxúria de fera?
Invejava-a eu.

Três fortunas gastou, outras três deu
ao que da vida não se espera
e à que na morte recebeu.
O Raul Leal era
o único não-heterónimo meu.

Eu nos Jerónimos ele na vala comum
que lhe vestiu o nome e o disfarce
(Dizem que está em Benfica) ambos somos um
dos extremos do mal a continuar-se.

Não deixou versos? Deixei-os eu,
infelizmente, a quem mos deu.
O Almada? O Santa-Ritta? O Amadeo?
Tretas da arte e da era. O Raul era
Orpheu.

 

Mário Cesariny

[Escritas]

 .

18.5.24

Blanca Varela (Justiça)

 



JUSTIÇA

 

Chegou o pássaro
e devorou o verme
veio o homem
e devorou o pássaro
veio o verme
e devorou o homem


Blanca Varela

(Trad. A.M.)

.

17.5.24

Javier Egea (Carta)




CARTA

 

Entonces era triste, muy triste estar sin ti.

Pero las cosas sucedieron como tú bien conoces:
que estaba el mar vacío, los teléfonos secos,
que nos fuimos muriendo sobre aquella distancia.

Después no quedó nada ni nadie y comprendimos:
se volvió el mundo raro como una piel vencida.

Tú no fuiste posible, ni siquiera existías.

Sin embargo esta noche qué triste en el insomnio,
qué amargo estar sin ti.

Javier Egea

[Trianarts]

 

Era triste então, muito triste estar sem ti.

Mas as coisas aconteceram como tu bem sabes,
estava a maré vaza, os telefones secos,
fomos morrendo com aquela distância.

Depois não ficou nada nem ninguém e compreendemos,
 o mundo tornou-se estranho como uma pele vencida.

Tu não foste possível, nem sequer existias.

Contudo esta noite que triste na insónia,
que amargo estar sem ti.

(Trad. A.M.)

 .

15.5.24

Sebastião da Gama (Louvor da poesia)




LOUVOR DA POESIA 

 

Dá-se aos que têm sede,
não exige pureza.
Ah!, se fôssemos puros,
p'ra melhor merecê-la... 

Sabe a terra, a montanhas,
caules tenros, raízes,
e no entanto desce
da floresta dos mitos. 

Água tão generosa
como a que a gente bebe,
fuja dela Narciso
e quem não tenha sede.
 

Sebastião da Gama

 .

13.5.24

Manuel Moya (Andaluzia)




ANDALUCÍA 

 

No sé si tengo patria, de verdad que no lo sé,
pero siento que si yo tuviera patria
sería esta luz,
estos castaños, estas encinas, este calabobo
que besa hoy la tierra,
pero yo no tengo patria,
porque mi patria son los hombres
que labraron estos cerros,
los que plantaron estos árboles,
los que fueron a la siega, los que majaron el gazpacho
bajo la bendita sombra del olivo
y encalaron sus casas
e hirieron con su voz rasgada las lentas noches del invierno,
los que llevaron sus bueyes hasta el agua,
los del cucharro y el mancaje,
los de la luna tatuada entre sus cejas.

Mi patria, si es que tengo patria,
es mi padre dejándose la vida sobre el surco,
las manos de mi madre sacando agua del pozo,
ésa es y fue siempre mi patria,
la que hunde sus rodillas en el tiempo,
la de la luz por siempre hambrienta,
la vencida siempre, la mil veces humillada,
la siempre renacida, la que en la luz
labra su sino y su bandera.
 

Manuel Moya

  

Não sei se tenho pátria, de verdade não sei,
mas sinto que se tivesse pátria, seria esta luz,
estes castanheiros e azinheiras,
esta chuva molha-tolos
que beija hoje a terra,
mas eu não tenho pátria
porque a minha pátria são os homens
que lavraram estes cerros,
os que plantaram estas árvores,
os que foram à segada, os que manjaram o gaspacho
à sombra bendita da oliveira
e caiaram as casas
e feriram com sua voz rasgada as lentas noites de inverno,
os que levaram os bois a beber,
os da lua tatuada na testa.

Minha pátria, se é que tenho pátria,
é meu pai largando a vida sobre a seita,
as mãos de meu pai a tirar água do poço,
essa é e foi sempre a minha pátria,
a que afunda os joelhos no tempo,
a da luz faminta para sempre,
a sempre vencida, mil vezes humilhada.
a sempre renascida, a que na luz
lavra sua sina e bandeira.

(Trad. A.M.)

.

12.5.24

Isabel Fraire (Escrever)




Escrever     centenas de vezes        o mesmo poema

                   com palavras diferentes

                  esse é o destino do poeta

 

 

Isabel Fraire

(Trad. A.M.)

.

 

10.5.24

Manuel Silva-Terra (Outono)




OUTONO 

 

como a tantas outras árvores
ao diospireiro caem as folhas


ficam os ramos despidos
com os frutos pendentes
e redondos
pingando mel


Manuel Silva-Terra

[Sobre o lado esquerdo]

 .

8.5.24

Luis Eduardo Aute (Branco e negro)




BLANCO Y NEGRO

 

Lo blanco es blanco
y lo negro es negro;
no hay grises
que valgan por medio.

Luis Eduardo Aute

[La ceniza] 

 

O branco é branco
e o negro é negro
- não há cinzentos
pelo meio, que valham.


(Trad. A.M.)


>>  Pucelarte (9p) / Fausto Marcelo (13p) / Trianarts (8p) / Wikipedia

.


7.5.24

Hilario Barrero (Caçador furtivo)




CAZADOR FURTIVO



El silbido de plomo se dirige hacia él
y al penetrar en el firme dintel de su equilibrio
el vuelo se le olvida, la sangre se le espesa,
un chasquido le enturbia la mirada
y siente, en el rincón de las entrañas,
la pesadez amarga de la pólvora.
Sin aire que alimente sus cimientos,
el maderaje de su esqueleto en llamas,
se desploma como una flor cortada por un niño.


Hilario Barrero

 

O silvo de chumbo vai direito a ele
e ao penetrar no firme dintel do seu equilíbrio
esquece-lhe o voo, o sangue espessa-se,
um estampido turva-lhe o olhar
e sente, nas entranhas,
o peso amargo da pólvora.
Sem ar que o sustente,
o madeirame do esqueleto a arder,
despenha-se como uma flor ceifada da planta.


(Trad. A.M.)

.

5.5.24

Manuel Resende (Uma palavra)




UMA PALAVRA

 

Longe de mim querer corromper a juventude,
é um trabalho que sobreleva as
minhas capacidades.
Antes cicuta.
Mas tenho que explicar o sentido
da palavra “desesperança”.

É uma esperança negativa.
A gente senta-se num cais
e deixa o sol trabalhar.
O sol minúsculo, isto é, o calor na pele.
Chamo a isto a experiência mínima.

Feito isto:
Venha de lá então
essa catástrofe.

Manuel Resende

[Poemário]

 .

3.5.24

Graciela Perosio (No seco das palavras)




en la sequedad de las palabras claras
gotea
fuego incesante

aves migratorias reparten
un cielo de preguntas
por el mundo

el desierto de hojas blancas
mujer
es tu cobijo

ésta es tu casa
 

Graciela Perosio

 

 

no seco das palavras claras
goteja
fogo incessante

aves migratórias repartem
um céu de perguntas
pelo mundo

o deserto de folhas brancas
mulher
é teu abrigo

esta é tua casa

 

(Trad. A.M.)

 .

2.5.24

Gloria Fuertes (Lamento na montanha)

 



LAMENTO EN LA MONTAÑA

 

Aún te veo, río de mi vida,
con los ojos que miran las montañas.

Yo era una montaña con almendros
montaña solitaria.
Y viniste alegre con tu canto
y me besaste toda con tu agua.
Me dejaste inquietud para la noche
y el alma enamorada.

Aún te veo, río de mi vida,
en la curva lejana,
te vas cantando más entre los chopos,
te vas cantando más que en tu llegada.
Y yo,
paralítica montaña;
inmóvil te recuerdo,
enferma de volcanes, alocada,
espero tu regreso, río loco,
que pasaste besando
mi cuerpo de montaña.
Tuviste que seguir tu destino de río,
y yo el mío triste de tierra amontonada.

Me dice el viento que vas al mar,
Te sigo río mío, con los ojos,
Te sigo río mío con los ojos,
ya que no puedo seguirte con las plantas.
Soñé… te quedarías a mi lado,
como un lago sin cisnes,
para siempre,
acunando mi ansia.
Qué locura más loca
enamorarse de un río una montaña!

 

Gloria Fuertes

[Life vest under your seat]

  

Ainda te vejo, rio da minha vida,
com os olhos com que miram as montanhas.

Eu era uma montanha de amendoeiras,
solitária montanha,
e vieste tu com teu canto alegre
e toda me beijaste com tua água,
deixando-me inquieta para a noite
e de alma enamorada.

Ainda te vejo, rio da minha vida,
na curva longínqua,
lá vais a cantar por entre os choupos,
lá vais cantando mais do que à chegada.
E eu,
paralítica montanha,
imóvel te recordo,
enferma de vulcões, aloucada,
espero o teu regresso, rio louco,
que aqui passaste beijando
meu corpo de montanha,
tu seguindo teu destino de rio,
eu meu fado triste de terra amontoada.

Diz-me o vento que vais para o mar
e eu sigo-te, rio meu, com os olhos,
sigo-te, rio meu, com os olhos,
já que não posso seguir-te com os pés.
Sonhei... ficarias a meu lado,
como um lago sem cisnes,
para sempre,
embalando minha ânsia.
Que loucura mais louca,
enamorar-se de um rio uma montanha!


(Trad. A.M.)

.

30.4.24

Manuel António Pina (Talvez de noite-2)




TALVEZ DE NOITE (2)



Em breve partirei de novo
e caminharei por desertos e por desastres
e por leituras exasperadas e citações,
entre palavras, sem ninguém real que me espere e me abra a porta.

O jantar arrefecerá na mesa,
os meus livros desesperarão
e não haverá sentido que os conforte
e o meu nome, se tiver um nome, não me responderá.

E no entanto um fio de tempo ou um fio de sangue,
ou então algo ainda menos palpável,
o que partiu e o que ficou regressando um ao outro
por galerias intermináveis e sonhos desfigurados,
ausentes um do outro, desaparecendo um no outro
como se esgota a água no fundo de um poço.


Manuel António Pina

[Luz & sombra]

 .

28.4.24

Francisco Caro (A poesia ou nada)




LA POESÍA O NADA

 

Vemos el sol caer, convengo
contigo en que la vida es caminar
cegados laberintos
o soledades agrias

escríbela,
me dices,
sálvate del secreto de vivir, escupe todo.


Francisco Caro

 

Vemos o sol cair, e convimos 
ambos que a vida é caminhar,
labirintos cegos
amargas solidões

Escreve-a,
dizes-me,
salva-te do segredo de viver,
cospe tudo.


(Trad. A-M-)

.

27.4.24

Luís Filipe Castro Mendes (Anunciação)

 



ANUNCIAÇÃO 

 

Não fujo ao poema.
Espero-o com a alegria de quem caminha
sobre brasas e destroços
e dele espero a música, toda a música
que não sei dar nem receber. 

Antes de fechar as contas, digo eu,
espero o poema
como um riso atrás da cortina
da vida.

 

LUÍS FILIPE CASTRO MENDES
 A Misericórdia dos Mercados
Assírio & Alvim (2014)

 

[Poema possivel]

 

.

25.4.24

Antonio Orihuela (Coimbra)

 



COIMBRA

 

El único lugar de Portugal donde aún suena
Grândola, Vila Morena
es en Beco da Carqueija.

Hace cuarenta y cinco años de aquel 25 de abril,
suficientes para que el fascismo
se haya comido todos los claveles.

Antonio Orihuela



Num só lugar de Portugal se ouve ainda
Grândola, Vila Morena
-
é no Beco da Carqueija.

Quarenta e cinco anos do 25 Abril,
suficientes para o fascismo
lhe comer os cravos todos.

(Trad. A.M.)

 .

23.4.24

Álvaro Cunqueiro (Luz molhada)




Luz mojada le llegaba del mar.
¡Qué claro el tiempo
para verla en la playa
con presencia de cosa!
¡Qué sencilla la tarde
para besarla en el pelo
con caricia animal y pura!
¡Luz mojada de sus ojos
llevaba el mar!


Álvaro Cunqueiro



Luz molhada lhe vinha do mar.
Que tempo claro
para a ver na praia
com presença de coisa!
Que simples a tarde
para a beijar no cabelo
carícia pura e animal!
Luz molhada de seus olhos
vestia o mar!


(Trad. A.M.)

.

22.4.24

Francisco Umbral (Filho)




Filho, salto que o dia dá
para outro dia.
Pimpinela,
sapatela,
pirete no ar
para outro ar.
Por ti andam as semanas
ao pé coxinho,
sem nunca pisar o risco.
Quem pisa o risco pisa medalha.
Quando o mundo não sabe
que passo dar,
e está tudo em suspenso,
como que travado,
saltas tu a pés juntos,
por sobre a levada,
e o dia volta a correr,
claro na tua água.


Francisco Umbral

(Trad. A.M.)

.

20.4.24

Louise Glück (Paisagem)




LANDSCAPE

 

Time passed, turning everything to ice.
Under the ice, the future stirred.
If you fell into it, you died.

It was a time
of waiting, of suspended action.

I lived in the present, which was
that part of the future you could see.
The past floated above my head,
like the sun and moon, visible but never reachable.

It was a time
governed by contradictions, as in
I felt nothing and
I was afraid.

Winter emptied the trees, filled them again with snow.
Because I couldn’t feel, snow fell, the lake froze over.
Because I was afraid, I didn't move;
my breath was white, a description of silence.

Time passed, and some of it became this.
And some of it simply evaporated;
you could see it float above the white trees
forming particles of ice.

All your life, you wait for the propitious time.
Then the propitious time
reveals itself as action taken.

I watched the past move, a line of clouds moving
from left to right or right to left,
depending on the wind. Some days

there was no wind. The clouds seemed
to stay where they were,
like a painting of the sea, more still than real.

Some days the lake was a sheet of glass.
Under the glass, the future made
demure, inviting sounds;
you had to tense yourself so as not to listen.

Time passed; you got to see a piece of it.
The years it took with it were years of winter;
they would not be missed. Some days

there were no clouds, as though
the sources of the past had vanished. The world

was bleached, like a negative; the light passed
directly through it. Then
the image faded.

Above the world
there was only blue, blue everywhere.


Louise Glück

[The Threepenny Review]

 

 

O tempo passou, transformou tudo em gelo.
Sob o gelo, o futuro bulia.
Se caísses lá dentro, morrias.

Era um tempo
de espera, de acção suspensa.

Eu vivia no presente, que era
a parte do futuro que podíamos ver.
O passado pairava sobre a minha cabeça,
como o sol e a lua, visível mas inalcançável.

Era um tempo
governado por contradições, como
Não sentia nada e
tinha medo.

O inverno esvaziou as árvores, voltou a enchê-las de neve.
Como eu nada sentisse, a neve caiu, o lago gelou.
Como se eu tivesse medo, permaneci imóvel;
o meu bafo era branco, uma descrição do silêncio.

O tempo passou, e uma parte dele tornou-se isto.
E outra parte evaporou-se simplesmente;
podíamos vê-la a pairar sobre as árvores brancas,
formava partículas de gelo.

Esperas a vida inteira pelo momento oportuno.
Depois o momento oportuno
revela-se acção consumada.

Eu via mover-se o passado, uma fila de nuvens a avançar
da esquerda para a direita ou da direita para a esquerda,
consoante o vento. Por vezes

não havia vento. As nuvens pareciam
ficar onde estavam,
como uma pintura do mar, mais imóveis do que reais.

Por vezes o lago era um lençol de vidro.
Sob o vidro, o futuro murmurava,
modesto, convidativo:
tinhas de te concentrar para o não ouvires.

O tempo passou; chegaste a ver parte dele.
Os anos que levou eram anos de inverno;
ninguém lhes sentiria a falta. Por vezes

não havia nuvens, como se
as fontes do passado tivessem desaparecido. O mundo

perdera a cor, como um negativo; a luz atravessava-o
de lado a lado. Depois
a imagem apagava-se.

Por cima do mundo
só havia azul, azul em toda a parte

(Trad. Rui Pires Cabral)

 .

18.4.24

Fernando Luis Chivite (Poema da louca juventude)




POEMA DE LA LOCA JUVENTUD


Yo también lo quería. Yo también. 

Encontré algunas cosas, vislumbré
por supuesto algunas otras:
supe algo.

También me quedé quieto: casi
completamente quieto: loco
y solo.

Tenía una camisa azul claro gastada:
recuerdo aquel verano
con aquella camisa.

Yo también lo buscaba. Me gustaba la vida.
Si quería morir no era sólo
por ella.

 
Fernando Luis Chivite

 

Eu também o queria, também eu. 

Encontrei umas coisas, vislumbrei
já se vê algumas outras,
alguma coisa eu soube. 

Também eu fiquei quieto, quase
quieto de todo,
louco e só. 

Tinha uma camisa azul já gasta,
recordo aquele Verão
com essa camisa. 

Também eu o buscava, gostava da vida.
Queria morrer? Não era só
 por ela.
 

(Trad. A.M.).

17.4.24

Carlos Martínez Aguirre (O fantasma de um átomo)


 

EL FANTASMA DE UN ÁTOMO DE URANIO XX
EVOCA SU RUPTURA SENTIMENTAL

 

 

Tú te alejaste de mí…
y yo arrasé Nagasaky.


Carlos Martínez Aguirre

 

.

15.4.24

Linda Pastan (Casei contigo)



I MARRIED YOU 

 

I married you
for all the wrong reasons,
charmed by your
dangerous family history,
by the innocent muscles, bulging
like hidden weapons
under your shirt,
by your naive ties, the colors
of painted scraps of sunset.
I was charmed too
by your assumptions
about me: my serenity—
that mirror waiting to be cracked,
my flashy acrobatics with knives
in the kitchen.
How wrong we both were
about each other,
and how happy we have been.
 

Linda Pastan

 

Casei contigo
pelas razões erradas,
encantada com a tua
perigosa história familiar,
os músculos inocentes, salientes
como armas escondidas
sob a tua camisa,
as tuas gravatas ingénuas, das cores
de bocados pintados de pôr do sol.
Fui também atraída
pelas tuas suposições
sobre mim: a minha serenidade –
aquele espelho à espera de ser quebrado,
as minhas acrobacias exageradas com facas
na cozinha.
Que errados estávamos ambos
sobre o outro

e que felizes temos sido.

(Trad. fjcc)

 .

13.4.24

Felipe Benítez Reyes (A situação)




LA SITUACIÓN

 

En todo pensamiento se esconde una tiniebla,
como en toda emoción una sombra de duda.
En todas las verdades hay un mármol que tiembla
y en todas las mentiras un fuego de penumbra.

De lo poco que somos, gran parte es de un fantasma.
Nuestro deseo gobierna su industria de espejismos.
La memoria más nuestra también es de la nada.
La conciencia, en secreto, blande un puñal en vilo.

El pasado divaga entre estatuas de humo.
El presente parece una ilusión en fuga.
Allá en el porvenir hay siempre algún reducto
en que ensoñar la trama de estos sueños a oscuras.

La noche está callada como el eco del miedo.
Las sílabas se juntan en busca de un sentido.
Nuestra historia la escribe con su cálamo el viento.
Y este huir de nosotros, del tiempo y del destino…

Felipe Benítez Reyes

 

 

Em todo o pensamento há uma treva,
como em qualquer emoção uma dúvida.
Nas verdades há um mármore que estremece
e nas mentiras um fogo de penumbra.

Do pouco que somos, grande parte é fantasma.
O desejo gere sua indústria de miragens.
A memória mais nossa é também a do nada.
A consciência, em segredo, brande um punhal indeciso.

O passado divaga entre estátuas de fumo.
O presente semelha uma ilusão em fuga.
Lá no porvir há sempre um reduto
em que sonhar a trama dos sonhos escuros.

A noite cala-se como o eco do medo.
As sílabas juntam-se em busca de um sentido.
A nossa história o vento a escreve com sua pena.
E a nossa fuga de nós mesmos, do tempo e do destino…


(Trad. A.M.)

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12.4.24

Francisco Caro (A que lugar voltar)




A QUÉ LUGAR VOLVER

 

Entiendo que algún día me dijeses:
tus poemas
hablan de finitudes 

pasado el cruce del amor
–respondería–
apenas si la vida
ofrece otros caminos 

tan de la misma
materia nunca penetrada
son tiempo y poesia
que nadie aún
ha logrado saberlos, separarlos.


Francisco Caro

 

 

Entendo que um dia me dissesses,
teus poemas
falam de finitudes

Passada a encruzilhada do amor
não oferece a vida
quase outros caminhos

Tão da mesma
matéria jamais penetrada
são tempo e poesia
que ninguém ainda
logrou sabê-los, separá-los.


(Trad. A.M.)



>>  Mientras la luz (blogue/ muitos p) /  Crear en Salamanca (7p) / Zenda (5p) / Wikipedia

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10.4.24

Jorge Sousa Braga (Magnólias)




MAGNÓLIAS

 

Esqueceram-se das folhas,
tão grande era a pressa
de florirem.


Jorge de Sousa Braga

 .

8.4.24

Federico Gallego Rípoll (Final)




FINAL

 

La vida es un regalo que agradezco
hoy. Toda la vida es hoy. Tus ojos
y mis ojos. El punto en que se dieron
es hoy. Y hasta dónde se lleguen y de donde
regresen, es hoy. 

Toda la vida es hoy, y me parece
suficiente el haber vivido tanto
si en este hoy de hoy cabe tu lúcida
mirada sobre mí, y es el futuro
un hoy perpetuamente tuyo.

 Dame ahora
la dicha de morir, hoy que no tengo
ni pasado, ni miedo.

Federico Gallego Ripoll

 


A vida é um presente que eu agradeço
hoje. Toda a vida é hoje. Teus olhos
e meus olhos. O ponto em que se deram
é hoje. E até onde chegarem e de onde
voltarem, é hoje.

Toda a vida é hoje, e parece-me
bastante o ter vivido tanto
se neste hoje de hoje cabe o teu lúcido
olhar sobre mim, e o futuro é
um hoje perpetuamente teu.

Dá-me agora já
a dita de morrer, hoje, que não tenho
nem medo, nem passado.

(Trad. A.M.)


> Outra versão: Do trapézio (L. Parrado)

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7.4.24

Federico García Lorca (Nana)




NANA

 

Duérmete, niñito mío,
que tu madre no está en casa;
que se la llevó la Virgen
de compañera a su casa.


Federico García Lorca

 

 

Dorme, dorme, meu menino,
tua mãe não está em casa;
foi a Virgem que a levou
de companhia para casa.


(Trad. A.M.)

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5.4.24

Joaquim Namorado (O que é, era)




O QUE É, ERA 

 

Quando Cristóvão Colombo
descobriu a América
a América estava lá;
o sangue já circulava
 antes de descrever Harvey a sua circulação;
a gente respirava sem saber
que respirar é uma oxidação:
Tudo existe.
O que se inventa é a descrição.
 

Joaquim Namorado

 .              

3.4.24

Álvaro Cunqueiro (Do outro lado me disseram)




Al otro lado me dijeron
los viejos se van convirtiendo en árboles
viejos también sin hojas en el lado del sol
aguardando sin saber qué, mudos.

Pero súbitamente un árbol cualquiera
siente subir dentro de él la savia de un sueño
al borde de la muerte ya, pero todavía
tibio como la leche de la madre.

El sueño va subiendo por las venas del árbol
una vida entera que pasa
hasta hacerse pájaro en una rama
un pájaro que recuerda, canta y se marcha
poco antes de que todos los árboles mueran.

Si yo me hago árbol viejo al otro lado del río
y me toca ser el árbol que recuerda y sueña
puedes estar bien segura que soñaré contigo

con tus ojos grises como el alba
y con tu sonrisa
con la cual se vistieron los labios de los rosales
en los días mas felices.

Álvaro Cunqueiro

 

Do outro lado me disseram
os velhos vão-se fazendo em árvores
velhos também sem folhas no lado do sol
aguardando sem saber quê, mudos.

Mas de repente uma árvore qualquer
sente subir por dentro a seiva dum sonho
à beira da morte já, mas ainda
morno como o leite materno.

O sonho vai subindo pelas veias da árvore
uma vida inteira que passa
até fazer-se pássaro num ramo
um pássaro que recorda, canta e vai-se embora
antes pouco de morrerem as árvores todas.

Faça-me eu árvore velha do outro lado do rio
e toque-me ser a árvore que sonha e recorda
podes estar certa que sonharei contigo

com teus olhos cinza como a aurora e com teu sorriso
que vestiu os lábios das roseiras
nos dias mais felizes.


(Trad. A.M.)



>>  A media voz (40p) / Blogpoemas (36p) / Cervantes-1 (bio/biblio) / Cervantes-2 (sítio)

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2.4.24

Fabio Morábito (Mudança)




MUDANZA

 

A fuerza de mudarme
he aprendido a no pegar
los muebles a los muros,
a no clavar muy hondo,
a atornillar sólo lo justo.
He aprendido a respetar las huellas
de los viejos inquilinos:
un clavo, una moldura,
una pequeña ménsula,
que dejó en su lugar
aunque me estorben.
Algunas manchas las heredo
sin limpiarlas,
entro en la nueva casa
tratando de entender,
es más,
viendo por dónde habré de irme.
Dejo que la mudanza
se disuelva como una fiebre,
como una costra que se cae,
no quiero hacer ruido.
Porque los viejos inquilinos
nunca mueren.
Cuando nos vamos,
cuando dejamos otra vez
los muros como los tuvimos,
siempre queda algún clavo de ellos
en un rincón
o un estropicio
que no supimos resolver.


Fabio Morábito

 
 

À força de me  mudar
aprendi a não encostar
os móveis às paredes,
a não espetar muito fundo,
a apertar só o indicado.
Aprendi a respeitar as marcas
dos inquilinos antigos,
um prego, uma moldura,
um suporte, que deixo no lugar,
mesmo que me estorvem.
Algumas manchas herdo-as
sem limpar,
entro na casa nova
cuidando de entender,
mais mesmo,
vendo por onde um dia hei-de ir-me embora.
Deixo a mudança
dissolver-se como uma febre,
como uma crosta que cai,
não quero fazer barulho.
Porque os inquilinos antigos
nunca morrem.
Quando nós vamos embora,
quando deixamos de novo
as paredes como as recebemos,
fica sempre algum prego
num canto,
ou algum estrago
que não soubemos resolver.


(Trad. A.M.)

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