13.2.24

Alfonso Brezmes (Autobiografia)




AUTOBIOGRAFIA

 

Venho de um lugar
que me persegue;
vou para um lugar
que me foge.

Entre um e outro aconteço:
este espaço entre parênteses,
estes pontos suspensos
na neve
das folhas de um livro
que se apaga ao escrever-se.

Traços de alguém
que diz que sou eu.


ALFONSO BREZMES
Don de Lenguas
(2015)

(Trad. A.M.)

.

12.2.24

Aldo Luis Novelli (O oleiro-II)



 

EL ALFARERO-II 

(7)

contemplar el cielo
mientras las manos construyen
nuestro hogar de barro. 

acariciar a la amada
con manos de agua de luna
en el cuenco de su cuerpo. 

formar los hijos
con manos rugosas
colmadas de ternura de arcilla. 

donarles nuestra agua de sol
todos los días de la vida
hasta el momento final
de regresar a la tierra. 

ellos seguirán el camino
con un sol en la espalda.
 

Aldo Luis Novelli 

[Marcelo Leites]

  

(7)

Contemplar o céu
enquanto as mãos constroem
a nossa casa de barro.
 

Acariciar a amada
com mãos de água de lua
na concha do seu corpo.
 

Formar os filhos
com mãos rugosas
cheias de ternura de argila.

Dar-lhes da nossa água de sol
todos os dias da vida
até ao momento final
de regressar à terra. 

Eles continuarão o caminho
com um sol pelas costas.
 

(Trad. A.M.)

 .

10.2.24

Patrizia Cavalli (Se sou capaz de perdoar)




Se posso perdonare, allora devo
riuscire a perdonare anche me stessa
e smetterla di starmi a giudicare
per come sono o come dovrei essere.
Qui non si tratta di consapevolezza
ma è la superbia che mi tiene stretta
in una stolta morsa che mi danna.
Eccomi infatti qui dannata a chiedermi
che cosa fare per essere perfetta.

Tenersi all’apparenza, forse descrivere
soltanto cose in mutua tenerezza.

 Patrizia Cavalli

[Interno poesia]

 

 

Se sou capaz de perdoar, então devia
perdoar a mim própria
e deixar de estar sempre a julgar
como é que sou ou como é que devia ser.
Não se trata aqui de consciência,
é antes a soberba que me aperreia
num torno estúpido que me atormenta.
Eis-me aqui condenada a interrogar-me
o que fazer para ser perfeita.

Ficar-me pela aparência, quiçá descrever
apenas as coisas com ternura.


(Trad. A.M.)

.

8.2.24

Eduardo Galeano (Fogueiras)

 



FUEGOS


Cada persona brilla con luz propia
entre todas las demás.
No hay dos fuegos iguales.
Hay fuegos grandes y fuegos chicos
y fuegos de todos los colores.
Hay gente de fuego sereno, que ni se entera del viento,
y hay gente de fuego loco, que llena el aire de chispas.
Algunos fuegos, fuegos bobos,
no alumbran ni queman;
pero arden la vida con tantas ganas
que no se puede mirarlos sin parpadear,
y quien se acerca, se enciende.


Eduardo Galeano

[La ceniza]

 


Cada pessoa brilha com luz própria
entre todas as mais.
Não há duas chamas iguais,
há chamas grandes e chamas pequenas
e chamas de todas as cores.
Há gente de chama serena, que nem dá conta do vento,
e gente de chama louca, que deita chispas à volta.
Certas chamas, chamas tolas
não alumiam nem queimam;
mas ardem com tanta gana
que não se podem olhar sem pestanejar,
e quem se chegar muito, pega fogo.


(Trad. A.M.)

.

7.2.24

Virgilio Piñera (Ilha)




ISLA

 

Aunque estoy a punto de renacer,
no lo proclamaré a los cuatro vientos
ni me sentiré un elegido:
sólo me tocó en suerte,
y lo acepto porque no está en mi mano
negarme, y sería por otra parte una descortesía
que un hombre distinguido jamás haría.
Se me ha anunciado que mañana,
a las siete y seis minutos de la tarde,
me convertiré en una isla,
isla como suelen ser las islas.
Mis piernas se irán haciendo tierra y mar,
y poco a poco, igual que un andante chopiniano,
empezarán a salirme árboles en los brazos,
rosas en los ojos y arena en el pecho.
En la boca las palabras morirán
para que el viento a su deseo pueda ulular.
Después, tendido como suelen hacer las islas,
miraré fijamente al horizonte,
veré salir el sol, la luna,
y lejos ya de la inquietud,
diré muy bajito:
¿así que era verdad?


Virgilio Piñera

 

Estando embora a ponto de renascer,
não vou gritá-lo aos quatro ventos
nem me sentirei um eleito:
só me tocou em sorte,
e eu aceito porque negar-me
não está na minha mão, e seria
por outro lado uma descortesia
que um homem distinto jamais faria.
Dizem-me que amanhã,
às sete e seis da tarde,
me convertirei em ilha,
uma ilha como soem ser as ilhas.
Minhas pernas se irão fazendo terra e mar,
e pouco a pouco, tal um andante chopiniano,
começarão a sair-me árvores nos braços,
rosas nos olhos e areia no peito.
Na boca morrerão as palavras
para que o vento possa ulular à vontade.
Depois, estendido como usam fazer as ilhas,
fitarei o horizonte,
verei nascer o sol, a lua,
e longe já de inquietação,
direi muito baixinho:
então era verdade?


(Trad. A.M.)

.

5.2.24

Miguel Martins (Nem umas palavras)




(4)                                       

Nem umas palavras de despedida
nem “adeus”
Será que depois nos encontramos
na terra linda onde são as coisas que não são
sem medo do fim?
Já moras, Pai, com o teu Cristo
o Cristo que nos salvou a todos
por termos alguém como tu.
Nunca te disse bem quanto te amava
como te amo muito dentro de mim
na terra linda onde são as coisas que não são
com tanto medo de as perder.
Estar a fazer a barba, cair
e partir para o outro lado
sem dizer tudo o que é preciso.
Ou como tu ficar assim à espera
suspenso de nada
à porta de Deus como um pedinte
pedinte de Deus
que só nos pediste que fôssemos melhores
e talvez por isso nos dás ainda mais uns minutos
da tua eternidade.
Vai agora, parte por favor
vai viver com as estrelas e com a alma das flores.
Sei que todos os dias continuarás a madrugar
para colher os odores mais puros.
Já não são precisos sacrifícios
aí é tudo dado num natal perpétuo e permanente.
Até nós te nos vamos dar
como tu te nos deste, como te entregaste cada dia
de manhã à noite

a Mãe
a Paula
o Ricardo
e eu
(por outra ordem espero que não esta
que eu não aguento mais)
vamos voltar a tocar-te o cabelo
o cabelo mais lindo que conheço
e a beijar-te
(como é possível que beijos tão a medo
como os teus quisessem sempre dizer tanto?).

E olha que se eu aí chegar
a essa terra que não mereço
é mesmo só por ti
é para te ver e ficar espantado
como só nos espantamos com os anjos.
Adeus Pai
tem calma.
Eu pensarei em ti todos os dias.

MIGUEL MARTINS
Seis poemas para uma morte
(1995)

 .

3.2.24

Vicente Muñoz Alvarez (O tempo dos assassinos)




EL TIEMPO DE LOS ASESINOS 

 

llega un punto 

en nuestras vidas

en que las circunstancias
nos fuerzan definitivamente
a rebelarnos 

a posicionarnos
no ser cómplices
a jugar fuerte
a gritar claro 

cuando
la mentira
la farsa del sistema
es ya evidente 

los poemas 

en lugar
de en trincheiras 

deberían
convertirse
en bombas

Vicente Muñoz Álvarez

[Mi vida en la penumbra]

 

 Chega-se a um ponto

na vida

em que as circunstâncias
nos obrigam
a revoltar-nos

a tomar posição
a não ser cúmplices
a jogar forte
a gritar claro

quando
a mentira
a farsa do sistema
é já evidente

os poemas

em vez de
trincheiras

deviam
converter-se
em bombas


(Trad. A.M.)

.

2.2.24

Valeria Pariso (Volto ao pátio)




Vuelvo al patio y recojo
los pétalos caídos de los geranios rojos.
Hubo viento.
Yo amo al viento por sus alas.
No puedo tirar a la basura
las flores que cayeron.
Las pongo entonces
con ternura infinita sobre
mi mano abierta.
Las acomodo con formita
de sol y siguen rojas.
Soy una mujer triste
con un jardín en la mano.
 

Valeria Pariso

  

Volto ao pátio e apanho
as pétalas caídas dos gerânios roxos.
Foi o vento.
Que eu amo por mor das asas.
Não posso deitar fora
as flores que pego do chão.
Então ponho-as
com infinita ternura
na palma da mão aberta.
Ajeito-as em vaso de sol
para manterem a cor.
Sou uma mulher triste
com um jardim na palma da mão.
 

(Trad. A.M.)

.


31.1.24

Linda Pastan (Poema de amor outra vez)




LOVE POEM AGAIN

 

there are times when
anything feels
like a love poem 

standing on line at the post office
for instance
waiting to lick 

a stamp
I will buy with
the last loose

change in my pocket
(my own dna
anointing 

the envelope)
so I can send you
this message

Linda Pastan


 

há alturas em que
tudo parece ser
um poema de amor 

estar na fila do correio
por exemplo
à espera de lamber

um selo
que vou comprar com
os últimos miúdos 

no meu porta-moedas
(o meu próprio adn
a ungir 

o envelope)
para poder mandar-te
esta mensagem


(Trad. fjcc)

.

29.1.24

Roger Wolfe (O trabalho sujo)




EL TRABAJO SUCIO

 

He vuelto a la poesía.
a la que siempre
me ha gustado:
la poesía elegíaca, narrativa,
de reflexión profunda y medidas dosis de ensimismamiento.
Leo a Parcerisas, a Joan Margarit.
Releo a Juan Luis Panero,
a Cesare Pavese y a Cernuda.
Descubro los poemas amorosos
de Abelardo Linares. Me deslumbro.
Son una maravilla.
Buena parte de mi propia
poesía no es así, lo sé.
Pero uno no siempre escribe
lo que le gusta leer.
Uno no escribe necesariamente
lo que quiere, sino lo que debe escribir.
Uno mira alrededor y se da cuenta
de que hay montañas de ropa sin lavar.
El trabajo sucio.
Alguien -como dice
mi amigo Iribarren- lo tiene que hacer.

 

Roger Wolfe

[Sombras de la mente]

 

Voltei à poesia,
à que sempre gostei:
a poesia elegíaca, narrativa,
de reflexão profunda
e limitadas doses de introspecção.
Leio Parcerisas, Joan Margarit.
Releio Juan Luis Panero,
Cesare Pavese e Cernuda.
Descubro os poemas amorosos
de Abelardo Linares. Deslumbro-me.
São uma maravilha.
Boa parte da minha própria
poesia não é assim, bem sei.
Mas uma pessoa nem sempre escreve
o que gosta de ler.
Não escreve necessariamente
o que quer, mas o que tem de escrever.
Olha em volta e dá-se conta
de que há montes de roupa por lavar.
O trabalho sujo.
Alguém - como diz
o meu amigo Iribarren - 
alguém tem de o fazer.

(Trad. A.M.)

 .

28.1.24

Rocío Wittib (O pássaro rasga o horizonte)




el pájaro descose el horizonte
vuelve cielo al mar
y mar al viento 

no conoce las palabras
ni siquiera la libertad

solo sabe que volar es mover el mundo
y vuela
 

 Rocío Wittib

  

o pássaro rasga o horizonte
torna céu o mar
e mar o vento 

não conhece as palavras
nem a liberdade sequer 

sabe só que voar é mover o mundo
e voa
 

(Trad. A.M.)

 .

26.1.24

Mary Oliver (Alguém)




Alguém que em tempos amei
ofereceu-me uma caixa
cheia de escuridão.

E eu levei anos até perceber
que isto, também,
era um presente.


Mary Oliver

(Trad. A.M.)

.

24.1.24

Rocío Acebal Doval (Se um dia acordasse)




SI UN DÍA DESPERTARA SIN PALABRAS 

 

Si un día despertara sin palabras,
moriría de hambre o de tristeza.

No tengo nada más: la inútil vocación
de pensar y explicar lo que he pensado.


Rocío Acebal Doval

[Zenda]

 

 

Se um dia acordasse sem palavras,
morria de fome ou de tristeza.

Não tenho nada mais, só esta inútil vocação
de pensar e explicar o que penso.


(Trad. A.M.)

.

23.1.24

Roberto Juarroz (A cilada de estar só)




(101)

La trampa de estar solo
no se abre en la trampa mayor de estar con otro
ni tampoco en la trampa del cero,
sino en la montaña de reflejos que danzan
o en la última luz sobre una vida
enceguecida de ocasos.

El hombre es la oración de dios
o dios es la oración del hombre
Demos las gracias entonces a lo que no existe,
por nuestra inexistencia que existe
Y después,
abramos o cerremos del todo
la puerta de la trampa.


Roberto Juarroz


[Poesia del mondongo]

 

 

A cilada de estar só
não se abre na cilada maior de estar com outro
nem sequer na cilada do zero,
mas no monte de reflexos que dançam
ou na luz última sobre uma vida
enceguecida de ocasos.

O homem é a oração de deus
ou deus é a oração do homem
Demos então graças ao que não existe,
por nossa inexistência que existe
E depois,
abramos ou fechemos de todo
a porta da cilada


(Trad. A.M.)

.

21.1.24

Mario Quintana (Era um lugar)




ERA UM LUGAR 

 

Era um lugar em que Deus ainda acreditava na gente...
Verdade
que se ia à missa quase só para namorar
mas tão inocentemente
que não passava de um jeito, um tanto diferente, de rezar
enquanto, do púlpito, o padre clamava possesso
        contra pecados enormes.
Meu Deus. até o Diabo envergonhava-se.
Afinal de contas, não se estava em nenhuma
        Babilônia...
Era, tão só, uma cidade pequena,
com seus pequenos vícios e suas pequenas virtudes:
um verdadeiro descanso para a milícia dos Anjos
com suas espadas de fogo.
        - um amor!
Agora, aquela antiga cidadezinha está dormindo para sempre
em sua redoma azul, em um dos museus do Céu.

 

Mario Quintana

.

19.1.24

Roberto Fernández Retamar (Epitáfio de um invasor)




EPITAFIO DE UN INVASOR

 

Tu bisabuelo cabalgó por Texas,
Violó mexicanas trigueñas y robó caballos
Hasta que se casó con Mary Stonehill y fundó un hogar
De muebles de roble y God Bless Our Home.
Tu abuelo desembarcó en Santiago de Cuba,
Vio hundirse la Escuadra española, y llevó al hogar
El vaho del ron y una oscura nostalgia de mulatas.
Tu padre, hombre de paz,
Sólo pagó el sueldo de doce muchachos en Guatemala.
Fiel a los tuyos,
Te dispusiste a invadir a Cuba, en el otoño de 1962.

Hoy sirves de abono a las ceibas.


Roberto Fernández Retamar

 

 

Teu bisavô cavalgou pelo Texas.
violou mexicanas trigueiras e roubou cavalos,
até que se casou com Mary Stonehill e montou casa,
com móveis de carvalho e God Bless Our Home.
Teu avô desembarcou em Santiago de Cuba,
viu afundar a Esquadra espanhola, e levou para casa
o bafo do rum e uma grande saudade de mulatas.
Teu pai, homem de paz,
só pagou o soldo de doze mancebos na Guatemala.
Fiel aos teus,
tu alinhaste em invadir Cuba, no Outono de 1962.

Hoje serves de estrume às ceibas.


(Trad. A.M.)

.

18.1.24

Piedad Bonnett (O nó)




EL NUDO 

 

Cómo desatar este nudo, me digo,
y en él concentro la mirada como para que arda.
Lo que en mis ojos late no es fuego, sin embargo, 
sino impotencia: 
esa parálisis
que nace del temor a la derrota. 

Un nudo pareciera provenir del azar, ser inocente
de la tensión que encierra. Pero engaña.
(No hay nudo sin proceso,
sin movimiento previo, sin lazadas)


Podría deshacerlo
si supiera por donde comenzar o hubiera un método
para desenredar esta maraña.
Pero dentro del nudo hay un silencio,
un ensimismamiento, 
la trabazón perversa que nos mueve
de querer desistir
a la esperanza.
 

Piedad Bonnett 

[Revista Turia] 

 

Como desatar este nó, pergunto-me,
e fito nele o olhar como para que arda.
O que me palpita nos olhos, contudo,
não é fogo, mas impotência:
aquela paralisia
que nasce do temor à derrota. 

Um nó dir-se-ia provir do acaso, ser inocente 
da tensão que encerra. Mas engana.
(Não há nó sem processo,
sem movimento prévio, sem laçadas). 

Podia desfazê-lo
se soubesse por onde começar ou houvesse um meio
para desenredar esta maranha.
Mas por dentro do nó há um silêncio,
um ensimesmamento,
a ligação perversa que nos leva
da desistência 
à esperança.

(Trad. A.M.)


.

16.1.24

Mário de Andrade (Ode ao burguês)




ODE AO BURGUÊS 

 

Eu insulto o burguês! O burguês-níquel,
o burguês-burguês!
A digestão bem-feita de São Paulo!
O homem-curva! o homem-nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!

Eu insulto as aristocracias cautelosas!
Os barões lampiões! os condes Joões! os duques zurros!
que vivem dentro de muros sem pulos;
e gemem sangues de alguns mil-réis fracos
para dizerem que as filhas da senhora falam o francês
e tocam os "Printemps" com as unhas!

Eu insulto o burguês-funesto!
O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!
Fora os que algarismam os amanhãs!
Olha a vida dos nossos setembros!
Fará Sol? Choverá? Arlequinal!
Mas à chuva dos rosais
o èxtase fará sempre Sol!

Morte à gordura!
Morte às adiposidades cerebrais!
Morte ao burguês-mensal!
ao burguês-cinema! ao burguês-tílburi!
Padaria Suissa! Morte viva ao Adriano!
"— Ai, filha, que te darei pelos teus anos?
— Um colar... — Conto e quinhentos!!!
Mas nós morremos de fome!"

Come! Come-te a ti mesmo, oh gelatina pasma!
Oh! purée de batatas morais!
Oh! cabelos nas ventas! oh! carecas!
Ódio aos temperamentos regulares!
Ódio aos relógios musculares! Morte à infâmia!
Ódio à soma! Ódio aos secos e molhados!
Ódio aos sem desfalecimentos nem arrependimentos,
sempiternamente as mesmices convencionais!
De mãos nas costas! Marco eu o compasso! Eia!
Dois a dois! Primeira posição! Marcha!
Todos para a Central do meu rancor inebriante
Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio!
Morte ao burguês de giolhos,
cheirando religião e que não crê em Deus!
Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico!
Ódio fundamento, sem perdão!

Fora! Fu! Fora o bom burgês!...

Mário de Andrade

 .

14.1.24

Pablo Neruda (Teus pés)




TUS PIES

 

Cuando no puedo mirar tu cara
miro tus pies.

Tus pies de hueso arqueado,
tus pequeños pies duros.

Yo sé que te sostienen,
y que tu dulce peso
sobre ellos se levanta.

Tu cintura y tus pechos,
la duplicada púrpura de tus pezones,
la caja de tus ojos que recién han volado,
tu ancha boca de fruta,
tu cabellera roja,
pequeña torre mía.

Pero no amo tus pies
sino porque anduvieron
sobre la tierra y sobre
el viento y sobre el água,
hasta que me encontraron.


Pablo Neruda

 

 

Quando não posso olhar teu rosto,
eu olho os teus pés.

Teus pés de osso arqueado,
teus pequenos pés duros.

Eu sei que te sustentam
e que teu doce peso
sobre eles se levanta.

Tua cinta e teus seios,
a duplicada púrpura dos teus mamilos,
a caixa dos teus olhos
que há pouco levantaram voo,
a larga boca de fruta,
tua rubra cabeleira,
pequena torre minha.

Mas se eu amo os teus pés
é só porque andaram
por sobre a terra e sobre
o vento e sobre a água,
até que me encontraram.

 
(Trad. A.M.)

.

13.1.24

Pablo Albornoz (Sem dar conta)




sin darse cuenta
la paloma picotea
su propia muerte


Pablo Albornoz




sem dar conta
a pomba pica
a sua morte

(Trad. A.M.)


.

11.1.24

José Carlos Ary dos Santos (Kyrie)




KYRIE

 

Em nome dos que choram,
dos que sofrem,
dos que acendem na noite o facho da revolta
e que de noite morrem,
com a esperança nos olhos e arames em volta.
Em nome dos que sonham com palavras
de amor e paz que nunca foram ditas.
Em nome dos que rezam em silêncio
e falam em silêncio
e estendem em silêncio as duas mãos aflitas.
Em nome dos que pedem em segredo
a esmola que os humilha e destrói
e devoram as lágrimas e o medo
quando a fome lhes dói.
Em nome dos que dormem ao relento
numa cama de chuva com lençóis de vento
o sono da miséria, terrível e profundo.
Em nome dos teus filhos que esqueceste,
Filho de Deus que nunca mais nasceste,
volta outra vez ao mundo!
 

J.C. ARY DOS SANTOS
A liturgia do sangue
(1963) 

[Canal de poesia]

 .

9.1.24

Osvaldo Picardo (O ignorante)




EL IGNORANTE 

 

Nunca sabremos realmente por qué
hemos vivido. No alcanzan las palabras. 

Sobre el mismo mar se levanta el sol.
Ante el mismo mar
un mediodía, alguien se para en la costa
y mira. Sólo eso y nada dice. ¿Qué espera ver? 

Mirar no es ver sólo esto que se muestra,
ni siquiera lo que existe. Las olas hablan
de regresos largamente olvidados,
a veces sin que nadie haya partido.

Una gaviota y un poste de luz parecen
ser el centro del universo. A su alrededor
la circunferencia de tu ignorancia
es como ese pescador y su caña,
una eternidad demasiado larga. 

Hubo muchas veces en que creíste
haber nacido para algo. Fue esa fe
la que te empujó a decisiones definitivas.
Pero el resto lo decidió 

un puro instinto de felicidad
acontecido para ser superado.


OSVALDO PICARDO
Pasiones de la línea
(2008)

 

Nunca realmente saberemos por que
é que vivemos. As palavras não dão…

Sobre o próprio mar se levanta o sol.
Frente ao mesmo mar
ao meio dia, alguém se detém na costa
e observa. Apenas isso, sem dizer nada. 
O que espera ver?

Olhar não é ver só aquilo que se mostra,
nem sequer aquilo que existe. As ondas
falam de regressos longamente esquecidos,
às vezes sem ninguém ter partido sequer.

Uma gaivota e um poste da luz parecem
ser o centro do universo. Em redor
a circunferência da tua ignorância
é como esse pescador com sua cana,
uma eternidade demasiado longa.

Muitas vezes houve que julgaste
ter nascido para algo. Tal fé
te levou a decisões definitivas.
Mas o resto decidiu-o

um puro instinto de felicidade
acontecido para ser ultrapassado.


(Trad. A.M.)

.

8.1.24

Óscar Hahn (Os fantasmas de Lisboa)




LOS FANTASMAS DE LISBOA



Dónde estará el pasado que tuvimos
el pasado que tuve entre tus brazos
En la calle resuenan nuestros pasos
pero no estamos: nos desvanecimos

Dónde estarán los besos que nos dimos
la tristeza tan dulce de los fados
tus promesas tus llantos mis enfados
nuestros cuerpos que un día compartimos

Asustados los nuevos ocupantes
de nuestro cuarto en el hotel escuchan
la risa de personas que se duchan

Como los personajes de Pessoa
somos almas sin cuerpo: dos amantes
que penan en las noches de Lisboa


Óscar Hahn

  

Onde estará o passado que foi nosso
o passado que foi meu nos teus braços
Ressoam na rua nossos passos
mas não estamos já, desvanecemos

Onde estarão os beijos que nos demos
a tão doce tristeza do fado
tuas promessas e prantos meu enfado
nossos corpos que um dia partilhámos

Assustados os novos clientes
do nosso quarto do hotel
escutam o riso de pessoas no banho

Almas sem corpo, nós, como personagens
de Pessoa, dois amantes penando
pelas noites de Lisboa.


(Trad. A.M.)

.

6.1.24

Linda Pastan (Notas)




MARKS 

 

My husband gives me an A
for last night's supper,
an incomplete for my ironing,
a B plus in bed.
My son says I am average,
an average mother, but if
I put my mind to it
I could improve.
My daughter believes
in Pass/Fail and tells me
I pass. Wait 'til they learn
I'm dropping out.
 

Linda Pastan 

 

O meu marido atribui-me um A
pelo jantar de ontem à noite,
um incompleto pelo passar a ferro,
um B+ na cama.
O meu filho diz que estou na média,
uma mãe mediana, mas que
podia melhorar
se me esforçasse
A minha filha acredita
em Passar/Reprovar e diz-me
que passo. Esperem até eles saberem

que vou desistir.

(Trad. fjcc)


>>  All poetry (27p) / Poem hunter (26p) / Poetry.us (7p) / Wikipedia

 .

4.1.24

Miquel Martí i Pol (Coisas)




COISAS

 

Desse Verão quero só recordar
o olhar cúmplice
da vizinha que apanhava sol
despida e sorriu com agrado
ao dar conta de que eu a contemplava,
 e esse instante fugaz, irrepetível,
de total quietude, em que o mundo ficou
deserto de si mesmo e era um vidro
transparente e a seguir de novo compacto.
O Verão não será outra coisa,
quero dizer, esse Verão, e se alguém me vier
com as mil bagatelas inefáveis
que compõem os dias e  as noites,
eu direi apenas: - Não me lembro.


Miquel Martí i Pol

(Trad. A.M.)

.

3.1.24

Miguel Veyrat (Ah, foras tu possível)




AH, SI FUERAS tú posible todavía!
Si pudieras pronunciar 
de nuevo tu palabra 
en un momento sin tiempo
y hacer como aquél día primero,
que todo fuera posible: 
Como regresar cantando 
a casa. Yo inventaría 
entonces para ti 
un alfabeto nuevo,  
donde amar consistiera
en pronunciar lentamente esa palabra, 
con todas sus letras 
y  tu propio acento, a toda hora 
y en un lugar sin fecha 
que fuese meta y partida —y 
regreso a cada paso, al mismo tiempo.

Miguel Veyrat

 

Ah, foras tu possível ainda!
Puderas pronunciar 
de novo tua palavra
num momento sem tempo 
e fazer como naquele dia primeiro
que tudo fosse possível:
Como regressar cantando
a casa. Eu inventaria 
então para ti
um alfabeto novo,
onde amar consistisse
em pronunciar essa palavra
com todas as letras
e teu próprio acento, a toda a hora
e num lugar sem data
que fosse meta e partida - e 
regresso a cada passo, ao mesmo tempo.

(Trad. A.M.)

 .

1.1.24

Mário Cesariny (Autografia)




AUTOGRAFIA

 

sou um homem
um poeta
uma máquina de passar vidro colorido
um copo uma pedra
uma pedra configurada
um avião que sobe levando-te nos seus braços
que atravessam agora o último glaciar da terra 

o meu nome está farto de ser escrito na lista dos tiranos: condenado
à morte!
os dias e as noites deste século têm gritado tanto no meu peito que
existe nele uma árvore miraculada
tenho um pé que já deu a volta ao mundo
e a família na rua
um é loiro
outro moreno
e nunca se encontrarão
conheço a tua voz como os meus dedos
(antes de conhecer-te já eu te ia beijar a tua casa)
tenho um sol sobre a pleura
e toda a água do mar à minha espera
quando amo imito o movimento das marés
e os assassínios mais vulgares do ano
sou, por fora de mim, a minha gabardina
e eu o pico Everest
posso ser visto à noite na companhia de gente altamente suspeita
e nunca de dia a teus pés florindo a tua boca
porque tu és o dia porque tu és
a terra onde eu há milhares de anos vivo a parábola
do rei morto, do vento e da primavera
Quanto ao de toda a gente - tenho visto qualquer coisa
Viagens a Paris - já se arranjaram algumas.
Enlaces e divórcios de ocasião - não foram poucos.
Conversas com meteoros internacionais - também, já por cá
passaram.
Eu sou, no sentido mais enérgico da palavra
uma carruagem de propulsão por hálito
os amigos que tive as mulheres que assombrei as ruas por onde
passei uma só vez
tudo isso vive em mim para uma história
de sentido ainda oculto
magnifica irreal
como uma povoação abandonada aos lobos
lapidar e seca
como uma linha-férrea ultrajada pelo tempo
é por isso que eu trago um certo peso extinto
nas costas
a servir de combustível
e é por isso que eu acho que as paisagens ainda hão-de vir a ser
escrupulosamente electrocutadas vivas
para não termos de atirá-las semi-mortas à linha
E para dizer-te tudo
dir-te-ei que aos meus vinte e cinco anos de existência solar estou
em franca ascensão para ti O Magnifico
na cama no espaço duma pedra em Lisboa-Os-Sustos
e que o homem-expedição de que não há notícias nos jornais
nem
lágrimas à porta das famílias
sou eu meu bem sou eu
partido de manhã encontrado perdido entre
lagos de incêndio e o teu retrato grande!


Mário Cesariny

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