7.9.20

Sara Mesa (Caem as horas)






Caen las horas como gotas de aceite,
pesadas, lentas, doradas, tibias.
El aire está inflamado de plegarias,
de cánticos oscuros y enigmáticos.
Yo sé que algo sucede.
Debe de ser que es jueves y algo pasa los jueves.
Debe de ser que es lunes y algo pasa los lunes.
Debe de ser que es sábado y algo pasa los sábados.
¿Por qué no quedan huellas de mis pies
en este asfalto ardiente?
Debe de ser que no peso bastante.
Debe de ser que está lejos la arena.
Debe de ser que el tiempo pasa lento
y aún no te he encontrado.

Se suceden las horas como un hondo rosario,
como un rosario en sombras.
Yo debería pensar ahora en otras luces,
nadar con otros peces.
Aquí estoy resguardada.
La lluvia no me moja.
Mis párpados se cierran sin asombro.

El tiempo pasa lento;
no duele, no me toca.


Sara Mesa




Caem as horas como gotas de óleo,
pesadas, lentas, douradas, mornas.
O ambiente está inflamado de orações,
de cânticos enigmáticos.
Algo se passa, eu bem sei.
Há-de ser por ser quinta-feira e algo acontece às quintas.
Ou então é segunda e algo acontece às segundas.
Ou sábado e algo acontece aos sábados.
Porque não me ficam as marcas dos pés neste asfalto ardente?
Deve ser de não pesar o bastante,
deve ser de a areia estar longe,
deve ser de o tempo passar devagar
e eu não te ter ainda encontrado.

Sucedem-se as horas como um longo rosário,
como um rosário sombrio.
Eu devia pensar agora em outras luzes,
nadar com outros peixes.
Aqui eu estou resguardada,
a chuva não me molha,
os olhos cerram-se-me sem espanto.

O tempo passa devagar
- não dói, não me toca,

(Trad. A.M.)

.

5.9.20

Giuseppe Ungaretti (Eterno)





ETERNO



Tra un fiore colto e l’altro donato
l’inesprimibile nulla


Giuseppe Ungaretti




Entre uma flor colhida e outra oferecida
o nada indizível

(Trad. A.M.)

.

3.9.20

Juan Manuel Bonet (Taberna cubista)




BODEGÓN CUBISTA



Quatro botellas, un periódico de la noche,
unas sombras chinescas, un bote de píldoras
adelgazantes, un ticket de tranvía, el recibo
de la luz, un invitación a la ópera,
el informe de un espía:
sólo faltan, para que este bodegón
pueda adejetivarse de praguense,
la sombra de un cúpula
y un poco de espuma de cerveza.


Juan Manuel Bonet




Quatro garrafas, um jornal vespertino,
algumas sombras chinesas, um frasco de pílulas
de emagrecer, um bilhete de eléctrico, o recibo
da luz, um convite para a ópera,
o relatório de um espião:
falta só, para a taberna se
poder dizer praguense,
a sombra de uma cúpula
e um pouco de espuma de cerveja.

(Trad. A.M.)

.

2.9.20

Raúl Nieto de la Torre (Poste de luz)





POSTE DE LUZ



Nada en el mundo me interesa más que ese poste de luz.
No cabe en mi mirada:
debo mover el cuello para ver su punto más alto
como si una montaña se hubiera adelgazado
hasta el límite de madera de ese poste
sin el cual no habría límite: miraría
hacia ninguna parte, solo,
esperando encontrarme a un ciclista, a un paseante,
a un perro en busca de una perra.
Ese poste me libra de esperar.
Como la muerte.
Diréis no puede amarlo
porque no cabe en su mirada de hombre
y diréis la verdad: no lo amo.
Diréis no puede hacerle compañía
porque hablan dos idiomas diferentes
y diréis la verdad: no me hace compañía.
Ese poste me libra de correr.
Su verticalidad es como el horizonte
incrustado en la tierra.
Su color es oscuro.
Y sus cables, que parten, con la curva del tiempo,
hacia otro poste, apenas me distraen
de mi dulce tarea:
estoy empezando a verlo florecer.


Raúl Nieto de la Torre





Nada no mundo me interessa mais
do que esse poste da luz.
Não me cabe no olhar,
tenho de levantar o pescoço para o ver no mais alto
como se uma montanha se estreitasse
até ao limite de madeira desse poste,
sem o qual não haveria limite: olharia
para lado nenhum, sozinho,
esperando encontrar um ciclista, um transeunte,
um cão em busca de uma cadela.
Este poste livra-me de esperar.
Como a morte.
Direis vós, não podes amá-lo,
pois que não cabe no teu olhar,
e é verdade: não o amo.
Direis ainda,
não podes fazer-lhe companhia,
já que falais os dois línguas diferentes,
e é verdade também: companhia não me faz.
Este poste, o que faz, livra-me de correr.
A sua verticalidade é assim como o horizonte, incrustado na terra.
Cor escura,
e seus cabos, que partem, com a curva do tempo,
para o poste vizinho, mal me distraem da minha ocupação pessoal:
estou a começar a vê-lo dar flor.

(Trad. A.M.)

.

31.8.20

Patrizia Cavalli (Caem-me as noites no rosto)





Addosso al viso mi cadono le notti
e anche i giorni mi cadono sul viso.
Io li vedo come si accavallano
formando geografie disordinate:
il loro peso non è sempre uguale,
a volte cadono dall’alto e fanno buche,
altre volte si appoggiano soltanto
lasciando un ricordo un po’ in penombra.
Geometra perito io li misuro
li conto e li divido
in anni e stagioni, in mesi e settimane.
Ma veramente aspetto
in segretezza di distrarmi
nella confusione, perdere i calcoli,
uscire di prigione,
ricevere la grazia di una nuova faccia.


Patrizia Cavalli




Caem-me as noites no rosto
e também os dias,
e eu vejo como se amontoam
e formam desordenadas geografias:
não é sempre igual seu peso,
umas vezes caem de alto e fazem uma cova,
outras vezes mal pousam,
deixando apenas uma leve recordação.
E eu como geómetra tiro-lhes as medidas,
conto-as e divido-as
em anos e estações, em meses e semanas.
Mas na verdade espero secretamente
distrair-me na confusão, perder os cálculos,
sair da prisão,
receber a graça de um novo rosto.

(Trad. A.M.)

.

29.8.20

Víctor Botas (Foste-te)




FOSTE-TE


Foste-te
quando eu mais precisava dos teus braços.
Porque me abandonaste precisamente então?
Porquê naquele momento decisivo?
Sei
que ninguém escolhe o quando de sua morte,
e que ninguém conhece os modos e lugares de morrer.
Mas tu... Tu devias ter feito um esforço!
Ter sobrevivido,
em vez de te entregares varado ao primeiro golpe,
à primeira carga.

Porque é que te foste, avô? Bem compreendo
que não me hás-de escutar,
que teus olhos, tua boca, tua palavra,
já não existem,
que apenas uma lembrança te constrói
boiando nos abismos da minha mente.

Assim é. Assim, mas apesar disso...
aí te vão meus versos, as estrofes
que dão vida ao poema congregadas
com palavras por meus dedos,
embalando um coração que não te olvida.

Porque te foste, avô, quando eu mais precisava,
quando mais requeria teu conselho,
teu ânimo firme, teu impulso generoso?

Passam os anos,
os dias como folhas vão caindo
de um outono lentíssimo... para me levar até ti.
Pois eu não sei esquecer-te,
porque não sei o que é o esquecimento.
Ah, se tu pudesses escutar! Ah, se pudesses!
(Mas escutas-me porventura. É tudo tão complexo...)

A Morte te fez em pedaços,
te arrancou os ouvidos pela raiz
- és agora como um deus, distante e surdo.

Por isso, quase rezando,
palavras que se enlaçam e desagregam,
hoje a ti, meu pai, ofereço este poema,
nascido da brasa que a tua lembrança acende,
de todo o amor que tu me deste,
do tão só que eu ando, dos silêncios
que me foram dia a dia coroando
com seu ramo de dor, de dúvida, de esperança.


Víctor Botas

(Trad. A.M.)

.

28.8.20

Benjamín Prado (Nunca é tarde)





Nunca es tarde para empezar de cero,
para quemar los barcos,
para que alguien te diga:
–Yo solo puedo estar contigo o contra mí.

Nunca es tarde para cortar la cuerda,
para volver a echar las campanas al vuelo,
para beber de esa agua que no ibas a beber.

Nunca es tarde para romper con todo,
para dejar de ser un hombre que no pueda
permitirse un pasado.

Y además
es tan fácil:
llega María, acaba el invierno, sale el sol,
la nieve llora lágrimas de gigante vencido
y de pronto la puerta no es un error del muro
y la calma no es cal viva en el alma
y mis llaves no cierran y abren una prisión.

Es así, tan sencillo de explicar: –Ya no es tarde,
y si antes escribía para poder vivir,
    ahora
           quiero vivir
                     para contarlo.


BENJAMÍN PRADO
Ya no es tarde
(2014)

[Un poema cada dia]



Nunca é tarde para começar do zero,
para queimar os barcos,
para alguém te dizer:
- Eu só posso estar contigo ou contra mim.

Nunca é tarde para cortar a corda,
para voltar a deitar foguetes,
para beber daquela água que não ias beber.

Nunca é tarde para romper com tudo,
para deixar de ser
um homem sem passado.

E depois
é tão fácil,
vem a Maria, acaba o inverno, o sol aparece,
a neve chora lágrimas de gigante vencido
e de repente a porta não é já um erro do muro
e a calma não é cal viva da alma
e minhas chaves não abrem nem fecham uma prisão.

É assim, tão simples de explicar: - Já não é tarde,
e se dantes eu escrevia para poder viver,
    agora
           quero viver
                        para depois o contar.

(Trad. A.M.)

.

26.8.20

Pedro da Silveira (Poema a Camilo Pessanha)





POEMA A CAMILO PESSANHA



Em Macau à procura de Camilo Pessanha
onde foi a casa do poeta
agora é um pátio de escola em que brincam crianças
e tem à frente um baloiço
e lá atrás duas árvores.
Na esquina da rua com o seu nome
um mendigo serrazina a sua viola
e o som alonga-se chorado,
chora e perde-se devagar
nas outras ruas que levam
à Travessa do Pagode,
à porta da loja onde ainda o espera
o amigo antiquário Ah-Men.
Já ninguém sabe o destino
do cachimbo com que inventava
paraísos e princesas
ou sereias, com seus cantos,
músicas e campos de liliáceas,
cores de mil maravilhas
ao mundo que bem sabia
que era mais o daquele mendigo
àquela esquina para a Sam Má-lô
e a sua viola chorando
pela moeda de meia pataca
que também eu me esqueci de deitar
na tigela que tinha ao lado.


Pedro da Silveira

[Nenotavaiconta]

.

24.8.20

Octavio Paz (Corpo à vista)





CUERPO A LA VISTA



Y las sombras se abrieron otra vez y mostraron un cuerpo:
tu pelo, otoño espeso, caída de agua solar,
tu boca y la blanca disciplina de sus dientes caníbales, prisioneros en llamas,
tu piel de pan apenas dorado y tus ojos de azúcar quemada,
sitios en donde el tiempo no transcurre,
valles que solo mis labios conocen,
desfiladero de la luna que asciende a tu garganta entre tus senos,
cascada petrificada de la nuca,
alta meseta de tu vientre,
playa sin fin de tu costado.

Tus ojos son los ojos fijos del tigre
y un minuto después son los ojos húmedos del perro.

Siempre hay abejas en tu pelo.

Tu espalda fluye tranquila bajo mis ojos
como la espalda del río a la luz del incendio.

Aguas dormidas golpean día y noche tu cintura de arcilla
y en tus costas, inmensas como los arenales de la luna,
el viento sopla por mi boca y su largo quejido cubre con sus dos alas grises
la noche de los cuerpos,
como la sombra del águila la soledad del páramo.

Las uñas de los dedos de tus pies están hechas del cristal del verano.

Entre tus piernas hay un pozo de agua dormida,
bahía donde el mar de noche se aquieta, negro caballo de espuma,
cueva al pie de la montaña que esconde un tesoro,
boca del horno donde se hacen las hostias,
sonrientes labios entreabiertos y atroces,
nupcias de la luz y la sombra, de lo visible y lo invisible
(allí espera la carne su resurrección y el día de la vida perdurable).

Patria de sangre,
única tierra que conozco y me conoce,
única patria en la que creo,
única puerta al infinito.


OCTAVIO PAZ
Semillas para un himno
(1954)

[Un poema cada dia]




E as sombras abriram outra vez e mostraram um corpo
- teu cabelo, outono espesso, queda de água solar,
tua boca e a branca disciplina de seus dentes canibais, prisioneiros em chamas,
tua pele de pão mal dourado e teus olhos de caramelo,
lugares onde o tempo não corre,
vales que só meus lábios conhecem,
desfiladeiro lunar que te sobe à garganta pelos seios,
cascata petrificada da nuca,
alta meseta de teu ventre,
praia sem fim do teu flanco.

Teus olhos os olhos fitos do tigre,
logo a seguir os olhos húmidos do cão.

Há sempre abelhas no teu cabelo.

Tranquilas fluem tuas costas ante meus olhos como as costas do rio à luz do incêndio.

Águas adormecidas batem dia e noite na tua cinta de argila
e nas tuas costas, imensas como os areais da lua,
o vento sopra por minha boca e seu queixume cobre com suas asas a noite dos corpos,
como a sombra da águia a solidão dos campos.

As unhas dos dedos de teus pés são feitas do cristal do verão.

Entre as pernas tens um poço de água adormecida,
baía onde o mar se aquieta de noite,
cavalo negro de espuma,
gruta do sopé da montanha que esconde um tesouro,
boca do forno onde se fazem as hóstias,
lábios sorrindo entreabertos e atrozes,
núpcias da luz e da sombra, do visível e invisível,
ali espera a carne a ressurreição e o dia da vida eterna.

Pátria de sangue,
única terra que eu conheço e me conhece,
única pátria em que creio,
única porta abrindo para o infinito.

(Trad. A.M.)

.

23.8.20

Manuel Rico (Aquele Junho maldito)





AQUEL JUNIO MALDITO



Fue una primavera mejor de lo esperado.
Muchos años después, quizá una eternidad
más tarde de tu sueño
—roto, como la juventud, por tiempos de ceniza—
volvió la claridad: Madrid era una fiesta.
Otra vez era abril y era en mil novecientos
setenta y nueve: yo te supe, padre,
redimido, cercano a la quimera
que fermentó en tu noche de terror y de frío.

Fue un abril diferente sin embargo.
Las esquinas ardían de palabras
ocultas desde antiguo en desvanes en sombra.
Bebiste de su luz. No estabas solo.
Contigo la bebimos los más jóvenes.
Tu mirada de asombro aún puedo contemplarla
en esa latitud, que a la muerte traiciona,
de la fotografía:
la tengo frente a mí.
Es un dolor de piedra contra la madrugada.

Mas huyeron los días de aquella primavera
hasta estancar la luz en un junio maldito.
Fue en la noche, cuando huelen
las madreselvas y los amantes buscan
la oscuridad del descampado, las viejas estaciones solitarias
y el verano prepara su cielo más estricto.

El aire, en un instante, mudó en nieve. Y el abismo
se apropió de tu voz y la hizo suya.
La primera conciencia de la muerte
vino, padre, a traición, a visitarme,
y volvieron el frío y la ceniza,
y viajaste a esa patria
donde las flores muertas nos hablan del vacío.

Han pasado los años, muchos años.
Todavía huelo los algodones
y el aire absorto de la madrugada,
y escucho todavía tu voz quebrada y última, esa voz
que me arrancaba el mundo
que los dos levantamos contra la soledad, contra el silencio
de los días difíciles, que me entregaba
una orfandad adulta tan de pronto,
un desierto de sueños, el llanto seco
frente al absurdo.

Pero hoy, padre, regresas. Sin avisarme, abriendo el toldo
de esta noche penúltima del año,
como si nada hubiera ocurrido entre nosotros, como
si en este tiempo interminable
se hubiera convertido mi orfandad
en un lugar soñado.

Manuel Rico

[Trianarts]



Foi uma primavera melhor do que se esperava.
Muitos anos depois, talvez uma eternidade depois do teu sonho
- desfeito, como a juventude, por tempos de cinza -
a claridade voltou, Madrid era uma festa.
Era Abril de novo, em 1979, e eu soube-te, pai,
redimido, próximo da quimera
que fermentou na tua noite de terror e de frio.

Foi um Abril diferente, contudo.
As esquinas ardiam de palavras ocultas
há muito em desvãos de sombra.
Bebeste-lhe a luz, não estavas só,
nós bebemo-la contigo, os mais jovens.
Teu olhar assombrado posso ainda contemplá-lo
nessa pose, que trai a morte,
da fotografia: tenho-a à minha frente.
É uma dor de pedra contra a madrugada.

Mas os dias dessa primavera fugiram
até a luz estancar num Junho maldito.
Era de noite, quando cheiram as madressilvas
e os amantes buscam o escuro do descampado,
as velhas estações solitárias,
e o verão prepara seu céu particular.

O ar, num instante, mudou para neve. E o abismo
apropriou-se da tua voz e fê-la sua.
A primeira consciência da morte
veio então, pai, visitar-me, à traição,
e voltaram o frio e a cinza,
e tu foste em viagem a essa pátria
onde as flores mortas nos falam do vazio.

Os anos passaram, muitos anos,
ainda cheiro os algodões
e o ar absorto da madrugada.
e escuto ainda tua voz quebrada e derradeira, essa voz
que me arrancava o mundo
que ambos erguemos contra a solidão,
contra o silêncio dos dias difíceis,
que me entregava uma orfandade adulta tão de repente,
um deserto de sonhos, o pranto seco
ante o absurdo.

Mas hoje voltas, pai. Sem avisar, abrindo o pano
desta penúltima noite do ano,
como se nada tivesse ocorrido entre nós,
como se neste tempo interminável
minha orfandade se tivesse convertido
num lugar sonhado.

(Trad. A.M.)

.

21.8.20

Luís Miguel Nava (No fogo da memória)

 



NO FOGO DA MEMÓRIA  



Começa-se o silêncio a desenhar
nos interstícios da carne, a que se prendem
imagens que no fogo
lento da memória se apuraram
de dia para dia e que o passado
nos serve agora como uma iguaria.


Luís Miguel Nava


.


19.8.20

Gioconda Belli (Não me arrependo de nada)





No me arrepiento de nada.
Desde la mujer que soy, a veces me da por contemplar
aquellas que pude haber sido;
las mujeres primorosas, hacendosas, buenas esposas, dechado de virtudes,
que deseara mi madre.
No sé por qué la vida entera he pasado rebelándome contra ellas.
Odio sus amenazas en mi cuerpo.
La culpa que sus vidas impecables, por extraño maleficio, me inspiran.
Reniego de sus buenos oficios; de los llantos a escondidas del esposo,
del pudor de su desnudez
bajo la planchada y almidonada ropa interior.
Estas mujeres, sin embargo, me miran desde el interior de los espejos,
levantan su dedo acusador y, a veces, cedo a sus miradas de reproche y quiero
ganarme la aceptación universal, ser la "niña buena",
la "mujer decente" la Gioconda irreprochable.
Sacarme diez en conducta con el partido, el estado, las amistades, mi familia,
mis hijos y todos los demás seres que abundantes pueblan este mundo nuestro.
En esta contradicción inevitable entre lo que debió haber sido y lo que es,
he librado numerosas batallas mortales, batallas a mordiscos de ellas contra mí
-ellas habitando en mí queriendo ser yo misma-
transgrediendo maternos mandamientos, desgarro adolorida y a trompicones a
las mujeres internas que, desde la infancia, me retuercen los ojos porque no
quepo en el molde perfecto de sus sueños, porque me atrevo a ser esta loca,
falible, tierna y vulnerable, que se enamora como alma en pena de causas
justas, hombres hermosos, y palabras juguetonas.
Porque, de adulta, me atreví a vivir la niñez vedada,
e hice el amor sobre escritorios - en horas de oficina - y rompí lazos inviolables
y me atreví a gozar el cuerpo sano y sinuoso con que los genes de todos mis
ancestros me dotaron.
No culpo a nadie.
Más bien les agradezco los dones.
No me arrepiento de nada, como dijo la Edith Piaf.
Pero en los pozos oscuros en que me hundo, cuando, en las mañanas, no más
abrir los ojos, siento las lágrimas pujando; veo a esas otras mujeres esperando
en el vestíbulo, blandiendo condenas contra mi felicidad.
Impertérritas niñas buenas me circundan y danzan sus canciones infantiles
contra mí contra esta mujer hecha y derecha, plena.
Esta mujer de pechos en pecho y caderas anchas que, por mi madre y contra
ella, me gusta ser.


Gioconda Belli

[Emma Gunst]




Não me arrependo de nada.
Às vezes, da mulher que sou dá-me para contemplar
aquelas que podia ter sido;
as mulheres primorosas, abonadas, boas esposas, modelo de virtudes,
que minha mãe sonhava.
Não sei porquê, passei toda a vida a rebelar-me contra elas.
Odeio-lhes a ameaça no meu corpo.
A culpa que me inspiram, por estranho malefício, suas vidas impecáveis.
Renego seus bons ofícios, o choro às escondidas do marido,
o pudor de sua nudez
debaixo da roupa interior passada e engomada.
Estas mulheres, porém, olham-me de dentro do espelho,
erguem o dedo acusador e eu, às vezes, cedo aos seus olhares de censura
e proponho-me ganhar universal aceitação, ser a ‘menina boazinha’,
a mulher decente, a Gioconda sem mancha.
Tirar dez dias para o partido, o Estado, os amigos, a família,
os filhos e demais seres que povoam este nosso mundo.
Nesta contradição inevitável entre o que devia ter sido e aquilo que é
travei muitas batalhas de morte,
batalhas de morder, elas contra mim
– elas habitando em mim, a quererem ser eu mesma –
transgredindo os mandamentos maternos,
desfeita dorida e aos tropeções
às mulheres interiores que me reviram os olhos, desde a infância, porque
não caibo no molde perfeito dos seus sonhos, porque me atrevo a ser esta louca,
falível, terna e vulnerável, que se apaixona como alma penada de causas
justas, homens belos e palavras brincalhonas.
Porque, já adulta, ousei viver a infância vedada
e fiz amor em cima de secretárias – nas horas de expediente – e quebrei laços invioláveis
e atrevi-me a gozar o corpo sadio e sinuoso com que me dotaram
os genes dos antepassados.
Não culpo ninguém.
Agradeço antes os dons.
Não me arrependo de nada, como disse Edith Piaf.
Mas no poço escuro em que me afundo, de manhã, logo ao abrir os olhos,
sinto as lágrimas empurrar;
vejo essas outras mulheres à espera
no vestíbulo, a brandir sentenças contra a minha felicidade.
Impassíveis meninas boazinhas cercam-me e dançam suas canções infantis
contra mim contra esta mulher feita e direita, plena.
Esta mulher de peito feito e ancas largas que gosto de ser,
por minha mãe e contra ela.

(Trad. A.M.)

.

18.8.20

Francisca Aguirre (Não vos confundais)





NO OS CONFUNDÁIS



Y cuando ya no quede nada
yo siempre tendré
el recuerdo de lo que no se cumplió.
Cuando me miren con áspera piedad
yo siempre tendré
lo que la vida no pudo ofrecerme.
Creedme:
todo lo que pensáis que fue
destrozo y pérdida
no ha sido más que conjetura.
Y cuando ya no quede nada
siempre tendré lo que me fue negado.
No os confundáis:
con lo que nunca tuve
puedo llenar el mundo palmo a palmo.
Tanto miedo tenéis
que no habéis advertido
la riqueza que se oculta en la pérdida.
Desdichados,
poca ganancia es la vuestra
si nunca habéis perdido nada.
Yo sí he perdido:
yo tengo, como el náufrago,
toda la tierra esperándome.

Francisca Aguirre

[Life vest under your seat]




E quando não restar mais nada
eu terei sempre a lembrança
daquilo que não se cumpriu.
Quando me olharem com falsa piedade
eu terei sempre
o que a vida não pôde dar-me.
Crêde-me,
tudo quanto pensais
que foi perda e destroço
não mais foi que conjectura.
E quando não restar já nada
eu terei sempre
aquilo que me foi negado.
Não vos confundais,
com aquilo que nunca tive
eu posso encher este mundo
palmo a palmo.
Tanto medo tendes, que não reparais
na riqueza por trás da perda.
Ó infortunados,
pouca ganância é a vossa
se nunca perdestes nada.
Eu sim, que perdi,
eu tenho, assim como o náufrago,
toda a terra à minha espera.

(Trad. A.M.)

.

16.8.20

Fernando Pessoa (Anti-gazetilha)





ANTI-GAZETILHA



No comboio descendente
Vinha tudo à gargalhada,
Uns por verem rir os outros
E os outros sem ser por nada
— No comboio descendente
De Queluz à Cruz Quebrada...

No comboio descendente
Vinham todos à janela,
Uns calados para os outros
E os outros a dar-lhes trela
— No comboio descendente
Da Cruz Quebrada a Palmela...

No comboio descendente
Mas que grande reinação:
Uns dormindo, outros com sono,
E os outros nem sim nem não
— No comboio descendente
De Palmela a Portimão...


Fernando Pessoa

.

14.8.20

Federico García Lorca (Seis cordas)




LAS SEIS CUERDAS



La guitarra,
hace llorar a los sueños.
El sollozo de las almas
perdidas,
se escapa por su boca
redonda.
Y como la tarantula
teje una grande estrella
para cazar suspiros,
que flotan en su negro
aljibe de madera.


Federico García Lorca




A guitarra
põe a chorar os sonhos.
O soluço
das almas perdidas
escapa-lhe da boca
redonda.
E tece, como a tarântula,
uma grande estrela
para apanhar suspiros,
que vogam em seu negro
poço de madeira.

(Trad. A.M.)


> Outra versão: Luz & sombra (J.E.Simões)

.

13.8.20

Federico Díaz-Granados (Pastelaria Metropol)





PASTELERÍA METROPOL



Miro en la vitrina
el reflejo de mi cuerpo
sobre el vidrio
y me veo gordo, cansado, sobre aquellos pasteles de vainilla.

Y pienso en los amigos que no volví a ver
¿y qué sabían ellos de este corazón caduco
donde no cabe ni un centímetro del mundo?

Y cuando no te reconoces en los pasos del hijo, ni en el espejo
harto de esquivar malos presagios
viendo de lejos el esplendor de las pérdidas
lo indescifrable y lo desconocido.

Callo: mi silencio alcanza ese cuerpo que no entiendo,
desmancho mi corazón de su último incendio.

Y sigo extranjero en ese vidrio,
gordo y cansado
y atrás de mí
algunas sombras, gestos de abuelos y tíos muertos
sobre los pasteles de vainilla.


Federico Díaz-Granados




Olho na montra o meu reflexo
no vidro
e vejo-me gordo, cansado, sobre esses pastéis de baunilha.

E penso nos amigos que não voltei a ver
e que sabiam eles deste coração caduco
onde não cabe nem um centímetro do mundo?

E não te reconheces nos passos do filho, nem no espelho
farto de desviar maus presságios
vendo de longe o esplendor das perdas
o indecifrável e o desconhecido.

Calo-me e o silêncio alcança esse corpo que não entendo,
desmanchando meu coração do último incêndio.

E continuo estranho nesse vidro,
gordo e cansado
e atrás de mim
sombras, gestos de avós e tios mortos
sobre os pastéis de baunilha.


(Trad. A.M.)

.

11.8.20

Fernando Assis Pacheco (Poeta no supermercado)





POETA NO SUPERMERCADO


1
Indignar-me é o meu signo diário.
Abrir janelas. Caminhar sobre espadas.
Parar a meio de uma página,
erguer-me da cadeira, indignar-me
é o meu signo diário.

Há países em que se espera
que o homem deixe crescer as patas
da frente, e coma erva, e leve
uma canga minhota como os bois.
E há os poetas que perdoam. Desliza
o mundo, sempre estão bem com ele.
Ou não se apercebem: tanta coisa
para olhar em tão pouco tempo,
a vida tão fugaz, e tanta morte...
Mas a comida esbarra contra os dentes,
digo-vos que um dia acabareis tremendo,
teimar, correr, suar, quebrar os vidros
(indignar-me) é o meu signo diário.

2
Um homem tem que viver,
e tu vê lá não te fiques
- um homem tem que viver
com um pé na Primavera.
Tem que viver
cheio de luz. Saber
um dia com uma saudade burra
dizer adeus a tudo isto.
Um homem (um barco) até ao fim da noite
cantará coisas, irá nadando
por dentro da sua alegria.

Cheio de luz - como um sol.
Beberá na boca da amada.
Fará um filho.
Versos.
Será assaltado pelo mundo.
Caminhará no meio dos desastres,
no meio de mistérios e imprecisões.
Engolirá fogo.

Palavra, um homem tem que ser
prodigioso.
Porque é arriscado ser-se um homem.
É tão difícil, é
(com a precariedade de todos os nomes)
o começo apenas.


FERNANDO ASSIS PACHECO
Cuidar dos Vivos
(1963)

.

9.8.20

Manuel Rico (Terra antiga)




ANTIGUA TERRA



En la región perdida que llamamos infancia,
en ese territorio que viejas lluvias hunden
en vagos claroscuros, dicen que desde siempre
nos aguarda, con ropa de domingo,
una diosa cruel a quien llamamos
dicha o felicidad, qué importa el nombre.

Mantienes la conciencia de haber sido inquilino
de tan huidiza estancia porque a veces,
cuando el presente aplica sus decretos,
la memoria te vence y te convocan
presencias de aquel tiempo,
rostros que te dejaron
inerme ante el empuje de los años.

Y siempre, cuando intentas
conjurar la orfandad y los reclamas
no tardan en huir al refugio que habita
entre los pliegues de la inexistencia.

Manuel Rico



Na terra perdida que chamamos infância,
nesse território que velhas chuvas fundem
em vagos claro-escuros, dizem que desde sempre
nos aguarda, com roupa de domingo,
uma deusa cruel chamada ventura ou felicidade,
o nome não importa.

Guardas a consciência de ter sido inquilino
dessa fugidia estância, porque às vezes,
quando o presente impõe seus decretos,
a memória vence-te e chamam-te
presenças daquele tempo,
rostos que te deixaram inerme
face ao empurrão dos anos.

E sempre, quando os reclamas
e tentas conjurar a orfandade,
logo eles fogem para o refúgio
que mora nas dobras da inexistência.

(Trad. A.M.)


>>  PoemasPoetas (6p) / Al margen (blogue/2007-19) / Letras viajeras (outro blogue) / Wikipedia

.

8.8.20

Fabián Casas (Depois de longa viagem)





DESPUÉS DE LARGO VIAJE



Me siento en el balcón a mirar la noche.
Mi madre me decía que no valía la pena
estar abatido.
Movete, hacé algo, me gritaba.
Pero yo nunca fui muy dotado para ser feliz.
Mi madre y yo éramos diferentes
y jamás llegamos a comprendernos.
Sin embargo, hay algo que quisiera contar:
a veces, cuando la extraño mucho,
abro el ropero donde están sus vestidos
y como si llegara a un lugar
después de largo viaje
me meto adentro.
Parece absurdo: pero a oscuras y con ese olor
tengo la certeza de que nada nos separa.

Fabián Casas




Sento-me à varanda a contemplar a noite.
Minha mãe dizia que não me valia a pena
estar abatido,
mexe-te, gritava, faz alguma coisa.
Mas eu nunca tive muita queda para ser feliz,
minha mãe e eu éramos diferentes
e jamais conseguimos entender-nos.
Porém, há algo que queria contar aqui,
às vezes, quando tenho muitas saudades,
abro o roupeiro dos vestidos dela
e meto-me lá dentro,
como se chegasse a um lugar
após uma longa viagem.
Parece absurdo, mas no escuro e com aquele cheiro
estou certo de que nada nos separa.

(Trad. A.M.)

.

6.8.20

Eugenio Montale (Pequeno testamento)





PICCOLO TESTAMENTO



Questo che a notte balugina
nella calotta del mio pensiero,
traccia madreperlacea di lumaca
o smeriglio di vetro calpestato,
non è lume di chiesa o d'officina
che alimenti
chierico rosso, o nero.
Solo quest'iride posso
lasciarti a testimonianza
d'una fede che fu combattuta,
d'una speranza che bruciò più lenta
di un duro ceppo nel focolare.
Conservane la cipria nello specchietto
quando spenta ogni lampada
la sardana si farà infernale
e un ombroso Lucifero scenderà su una prora
del Tamigi, dell'Hudson, della Senna
scuotendo l'ali di bitume semi-
mozze dalla fatica, a dirti: è l'ora.
Non è un'eredità, un portafortuna
che può reggere all'urto dei monsoni
sul fil di ragno della memoria,
ma una storia non dura che nella cenere
e persistenza è solo l'estinzione.
Giusto era il segno: chi l'ha ravvisato
non può fallire nel ritrovarti.
Ognuno riconosce i suoi: l'orgoglio
non era fuga, l'umiltà non era
vile, il tenue bagliore strofinato
laggiù non era quello di un fiammifero.

Eugenio Montale




O que cintila à noite
por dentro do meu pensamento,
rasto brilhante de lesma
ou restos de vidro pisado,
não é chama de igreja ou de estúdio
que alimente
clérigo negro ou encarnado.
Só estas cores te posso deixar
em testemunho de uma fé inquieta,
de uma esperança que ardeu mais lenta
do que um duro tronco na lareira.
Guarda o pó de arroz no seu lugar,
quando se apagarem as luzes
a dança vai tornar-se infernal
e um Lúcifer sombrio descerá numa barca
do Tamisa, do Hudson ou do Sena,
batendo as asas de cera
quase a cair da fadiga, a dizer-te: é hora.
Não é uma herança, um amuleto
que pode resistir ao abalo das monções
na teia da memória,
já que uma história não dura senão na cinza
e o que persiste é só a extinção.
Todos reconhecem os seus: o orgulho
não era fuga, não era vil
a humildade, nem era sequer de um fósforo
o ténue clarão riscado lá em baixo.

(Trad. A.M.)

.

4.8.20

Eugenio Montejo (A vela)




LA VELA



Escribo al lado de esta vela,
de esta vela que tiembla.
Le queda llama, pero tiembla,
cree, como yo, que ya no cree,
que alumbra sola frente al universo.
Despacio cae la indescifrable noche
con sus astros girando.
La vela erguida, contra el mundo, arde,
y en mi cuaderno lenta se derrama
su luz atea.
Estamos solos uno frente al otro,
ella con su temblor y yo, mirándola,
mientras en derredor, junto a su lumbre,
van y vienen los vuelos planetarios
de pequeños insectos que dan vueltas,
la errante lucha de una galaxia mínima
que quizá gira porque cree, porque no cree,
que gira porque gira…

Eugenio Montejo

[Life vest under your seat]




Escrevo ao lado desta vela,
desta vela que tremula.
Chama tem, mas tremula,
crendo, tal como eu, que já não crê,
que dá luz sozinha ante o universo.
Cai devagar a indecifrável noite
com seus astros girando.
A vela erguida, contra o mundo, arde,
e lenta se derrama em meu caderno
sua luz ateia.
Estamos sós um diante do outro,
ela com seu tremor, eu a olhá-la,
enquanto em redor, junto à chama,
vão e vêm os voos planetários
de mil insectos que volteiam,
errante luta de uma galáxia mínima
que gira talvez porque crê, porque não crê,
que gira porque gira, simplesmente...

(Trad. A.M.)

.

3.8.20

Estela Figueroa (A enamorada do muro)





I

La enamorada del muro
no sabe cómo es el muro.
Pero seguro siente su humedad
cuando ha llovido.
Su aridez
en tiempo seco.
La enamorada del muro
depende del muro.
A él se aferra.
Si el muro cae
ella se desparrama
como una cabellera sin cabeza.
A veces es tímida
y cubre sólo la base
como una mujer arrodillada
que abrazara las piernas de un hombre.
Y a veces —qué deseo
y qué orgullo caben en ella—
cubre no sólo el muro
sino toda la casa.


II

Todo amor nace
a partir de una pequeña confusión.
Nadie puede decir con certeza
si es el muro el que sostiene a su enamorada
o es la enamorada
la que sostiene al muro.
Y todo amor crece
a partir de pequeñas carencias:
la enamorada del muro no florece.
Tampoco el muro.


Estela Figueroa

[El poeta ocasional]




I

A enamorada do muro
não sabe como o muro é.
Mas sente-lhe de certeza a humidade
quando chove.
E a aridez
no tempo seco.
A enamorada do muro
do muro depende.
A ele se agarra.
Se o muro cai
ela espalha-se
como uma cabeleira sem cabeça.
Às vezes é tímida
e cobre apenas a base
como uma mulher ajoelhada
que abraçasse as pernas de um homem.
Outras vezes - que desejo
e que orgulho alberga no peito -
cobre não só o muro
mas também a casa toda.


II

Todo amor nasce
de uma ligeira confusão.
Ninguém pode dizer ao certo
se é o muro que sustenta a enamorada
ou se é esta
que sustenta o muro.
E todo amor cresce também
a partir de pequenas carências:
a enamorada do muro não floresce,
o muro também não.


(Trad. A.M.)

.

1.8.20

Eugénio de Andrade (Mar de Setembro)





MAR DE SETEMBRO



Tudo era claro:
céu, lábios, areias.
O mar estava perto,
fremente de espumas.
Corpos ou ondas:
iam, vinham, iam,
dóceis, leves - só
ritmo e brancura.
Felizes, cantam;
serenos, dormem;
despertos, amam,
exaltam o silêncio.
Tudo era claro,
jovem, alado.
O mar estava perto.
Puríssimo. Doirado.


Eugénio de Andrade

[Acontecimentos]

-

30.7.20

Benjamín Prado (Aicebergue)




ICEBERG



Entra al poema,
lávate en su agua clara,
pisa su limo

y oye mi historia.
Olvida lo que sabes,
ve lo invisible

y húndete en mí.
Verás la parte oculta
del iceberg.

Verás tu miedo,
verás tus ilusiones
desde mis ojos.

Verás tu cara
esculpida en el hielo,
hecha de arena.

Así es la vida:
lo que es falso es la luz,
lo conocido.

Así es la vida:
la verdad nos espera
bajo las olas.


Benjamín Prado



Entra no poema,
lava-te na água clara,
pisa-lhe o chão

e escuta minha história.
Esquece o que sabes,
vê o invisível

e afunda-te em mim.
Verás a parte oculta
do aicebergue.

Verás teu medo,
e as tuas ilusões
com meus olhos.

Verás tua cara
esculpida no gelo,
feita de areia.

Assim é a vida,
o que é falso é a luz,
o conhecido.

Assim é a luz,
a verdade nos espera,
por baixo das ondas.

(Trad. A.M.)


>>  A media voz (18p) / La poesia alcanza (4p) / Wikipedia

.

29.7.20

Ernesto Pérez Vallejo (Sede)





SED



Cuando acepté que el alcohol no era sinónimo de olvido
empecé a beber sin tener excusas.
La gente no me miraba bien.

Los mismos con los que compartí algún brindis
para maldecir una cintura, o unas caderas, o un buen culo,
me dieron la espalda.

Los que te han visto siempre triste
no aceptan tu "felicidad"
si no se consideran culpables.
Como si la tristeza al ser mutua
en lugar de aumentar, restara.

Para sentarse en aquella barra
debías tener al menos dos motivos
y uno a la fuerza tenía que ser el nombre de una mujer.
Si eran dos los nombres
la resaca era espantosa.

Decía lucía, la camarera,
"Si un amor se va antes de tiempo
el desamor se queda para siempre"
También decía,
"Hay gente que lleva tanto tiempo sola,
que confunde soledad con amor propio".

En aquel tiempo yo tenía motivos
y tenía nombres
y nostalgia
y hasta amigos.
Creo que nunca estuve tan solo.

De vuelta a casa le preguntaba a las farolas por mi hogar
pero aquellas putas luces me llevaban a casa
y jamás a tus piernas.

Nunca hubo una resaca peor que despertar sin ti.
Y si perdí el equilibrio era más por ausencia de tus manos
que por el borde de las copas.

Ahora me siento y bebo sin más,
no es una cuestión de nostalgia,
ni siquiera de tristeza,
ni de tu nombre,
ni de esas putas luces,
es simplemente que respecto a olvidar
yo a diferencia del resto
ya me he dado por vencido.


Ernesto Pérez Vallejo

[Los lunes que te debo]




Quando assentei que o álcool não significava esquecimento
comecei a beber sem desculpas.
E as pessoas não me encaravam bem.

Aqueles com quem partilhara algum brinde
a maldizer uma cinta, umas ancas, um belo rabo,
viraram-me as costas.

Os que te viram sempre triste
não aceitam a tua 'felicidade'
se não se considerarem responsáveis.
Como se a tristeza por ser mútua
diminuísse em vez de aumentar.

Para sentar àquele balcão
eram precisos dois motivos pelo menos,
sendo um por força um nome de mulher.
Com dois nomes então
a ressaca era espantosa.

Dizia Lucía, a empregada,
'Se um amor se vai antes de tempo
o desamor fica para todo o sempre'.
E dizia igualmente,
'Há pessoas sozinhas há tanto tempo
que já confundem solidão com amor próprio'.

Nesse tempo eu tinha motivos
e tinha nomes
e saudade
e até amigos.
Creio que nunca estive tão só.

No regresso a casa perguntava o caminho aos candeeiros
mas aqueles filhos da mãe ensinavam-me para casa,
nunca para os teus braços.

A pior ressaca era acordar sem ti
e o equilíbrio, se o perdi, foi mais por falta das tuas mãos
do que pelo excesso de copos.

Agora sento-me e bebo sem mais,
não é por questão de saudade,
nem de tristeza tão pouco,
nem do teu nome,
nem dessas malditas luzes,
é simplesmente porque quanto a esquecer
diferentemente do resto
eu já me dei por vencido.


(Trad. A.M.)

.

27.7.20

Francisco Duarte Mangas (Pirilampo)





PIRILAMPO



Uma faúlha de Sol
a esvoaçar na noite

não conheço paixão
mais luminosa


Francisco Duarte Mangas

.

25.7.20

Eloy Sánchez Rosillo (Celebração e despedida)





CELEBRACIÓN Y DESPEDIDA



¿Aún podré celebrarte,
esbelta luz de marzo, ahora que estás
a punto de partir quién sabe adónde?
Me he mantenido atento cada día
de tu fugaz estancia en este círculo
de tierra, mar y cielo
que mi mirada abarca
a tu ser y a tus actos, conmovido
y de veras atónito
por la forma que tienes de hacer tanto
fingiendo no hacer nada,
con despreocupación adolescente.
Brotaste en un descuido del invierno,
cuando éste, extenuado y en las últimas,
se afanaba no obstante en cavilar
postreras inclemencias.
Y te vi entonces frágil, quebradiza,
como si fueras de cristal muy fino,
amenazada tras tu advenimiento
por retazos de lluvia
y por los malos modos
del viento despechado. Pero no
pudo nada ni nadie con el ímpetu
juvenil que traías, y bien pronto
te afirmaste en tu gracia, y al crecer
llegaste a ser aquí dueña del mundo,
origen del jilguero.
Y hoy, ya al final, te muestras
con primor femenino en el cuidado
de recoger tus cosas para irte.
Cuánta melancolía
-que a la vez no me impide estar alegre-
tengo en el pecho esta mañana última.
Vas pasando despacio frente a mí,
y sonríes mirándome a los ojos
con pudor y descaro
de muchacha que sabe su irresistible hechizo.


Eloy Sánchez Rosillo



Ainda poderei festejar-te,
esbelta luz de Março, agora que estás
quase a partir sabe-se lá para onde?
Mantive-me atento, cada dia
da tua fugaz temporada nesta roda
de terra, mar e céu abrangida por meus olhos,
a teu ser e teus actos, comovido
e deveras atónito
pelo modo teu de fazer tanto
fingindo não fazer nada,
com despreocupação adolescente.
Brotaste num descuido do Inverno,
quando ele, cansado e já nas últimas,
se afadigava em cavilar
inclemências para o futuro.
E vi-te então, frágil, estaladiça,
como se fosses de fino vidro,
ameaçada à chegada por bátegas de chuva
e pelos maus modos do vento despeitado.
Mas nada pôde nem ninguém
contra teu ímpeto juvenil, e logo
te firmaste em tua graça,
chegando aqui a ser dona do mundo,
matriz do pintassilgo.
E hoje, no fim já, exibes
teu primor feminino no modo
de pegar na trouxa e partir.
Quanta melancolia
- e apesar disso a alegria -
no meu peito nesta manhã derradeira.
Passas devagar diante de mim,
sorris a olhar-me nos olhos
com o descaramento e pudor
de quem sabe do seu irresistível feitiço.

(Trad. A.M.)

.

24.7.20

Efraín Huerta (Ternura)





TERNURA



Lo que más breve sea:
la paloma, la flor,
la luna en las pupilas;
lo que tenga la nota más suave:
el ala con la rosa,
los ojos de la estrella;
lo tierno, lo sencillo,
lo que al mirarse tiembla,
lo que se toca y salva
como salvan los ángeles,
como salva el verano
a las almas impuras;
lo que nos da ventura e igualdad
y hace que nuestra vida
tenga el mismo sabor
del cielo y la montaña.
Eso que si se besa purifica.
Eso, amiga: tus manos.


Efraín Huerta




O que houver de mais breve,
a pomba, a flor,
a lua nas pupilas;
o que se tiver de mais suave,
a asa com a rosa,
os olhos da estrela;
o tenro, o simples,
o que estremece ao mirar-se,
o que se toca e nos salva
como salvam os anjos,
tal como o Verão
salva as almas impuras;
o que nos dá ventura, igualdade,
e faz que a vida
tenha o mesmo sabor
que o céu e a montanha.
Isso que purifica, se o beijamos.
Isso, amiga: tuas mãos.

(Trad. A.M.)

.

22.7.20

Eucanaã Ferraz (Verde-claro)





VERDE-CLARO



Coroa, manto, brasão
e cetro, pousa.
Minúsculo,
só, nenhum exército.
Seu domínio: o ar,
onde governa em silêncio.
Não sei que nome tem,
insigne inseto,
senhor de toda beleza.
Chamem-no alteza.


Eucanaã Ferraz

.

20.7.20

Eduardo Llanos (Despedida com paráfrase)





DESPEDIDA CON PARÁFRASIS DE ERNESTO CARDENAL



Esta será mi venganza:
un día llegará a tus manos
cierto libro de poemas del cual seré autor
y buscarás alguno inspirado por ti,
sin encontrar ninguno, absolutamente ninguno,
salvo éste.

Eduardo Llanos




Esta será a minha vingança:
um dia irá parar-te às mãos
um certo livro de poemas de minha autoria
e ao procurares um inspirado por ti
não hás-de achar nenhum, absolutamente nenhum,
salvo este.

(Trad. A.M.)

.

19.7.20

Joaquín Antonio Peñalosa (Testamento da avó)




TESTAMENTO DE LA ABUELA



Arrímense, hijos,
junten también a los niños,
ay, este nublado de ojos,
quiero sentir cerca su resuello.
Pobres fueron mis abuelos
y más pobres mis padres
y ustedes más
y así hasta el fin de los siglos.

Les dejo la selva que nos sustenta
y la caída de agua,
nunca se negó a llenar los cántaros.
A ti, como mayor, te entrego la família
no desgrane la granada su roja pedrería
y a ti, Juan, te doy la ceiba
cuelga ahí tu hamaca
cuando llegue el perro del mal
de la canícula.
A las niñas les entrego las mariposas
para que jueguen a “hilitos, hilitos de oro”,
les dejo a mi paisano el río,
mi hermano el río,
me quería, me retrataba, ondulaba mi cabellera.
Las palomas son para Lupe,
lindas como trocitos de luna,
rondaban mi cama por las tardes
nunca supe si para arrullarme
o no querían que me durmiera.

El azul no hace ruido cuando amanece,
ni ustedes ahora que me entierren,
no lleven guitarras ni desperdicien las lágrimas,
guárdenlas para cuando el amor se vaya.
Todos nos vamos, todos,
cuando los huesos se enfrían.
La muerte, el entierro,
son cosas de la vida.


Joaquín Antonio Peñalosa



Chegai-vos aqui, filhos,
juntai a canalha também,
ai, esta névoa nos olhos,
quero sentir-vos o bafo de perto.
Pobres foram meus avós
e mais pobres meus pais
e vós mais ainda,
e assim até ao fim dos séculos.

Deixo-vos a selva que nos sustenta
e a queda de água,
que jamais se negou a encher os cântaros.
A ti, como mais velho, entrego a família,
não desgrane a romã sua pedraria encarnada,
e a ti, Juan, deixo-te a ceiba,
prende lá a tua rede
quando vier esse cão do calor.
Para as meninas vão as mariposas
para se entreterem a brincar,
e para meus patrícios é o rio,
meu irmão rio,
que me queria e me punha anéis na cabeleira.
As pombas são para Lupe,
lindas como pedacinhos de lua,
que me rondavam a cama de tarde
nunca soube se para me arrular
ou para não me deixar dormir.

O azul não faz ruído a amanhecer,
nem vós também a enterrar-me,
não leveis guitarras nem desperdiceis as lágrimas,
guardai-as para quando o amor se for.
Todos temos de ir, todos,
quando os ossos arrefecem.
A morte, o enterro,
são coisas da vida.

(Trad. A.M.)

.

17.7.20

António Ramos Rosa (As palavras)





AS PALAVRAS



Adiro a uma nova terra adiro a um novo corpo
As palavras identificam-se com o asfalto negro
o tropel das nuvens
a espessura azul das árvores acesas pelos faróis
o rumor verde
As palavras saem de um ferida exangue
de teclas de metal fresco
de caminhos e sombras
da vertigem de ser só um deserto
de armas de gume branco
Há palavras carregadas de noite e de ombros surdos
e há palavras como giestas vivas
Matrizes primordiais matéria habitada
forma indizível num rectângulo de argila
quem alimenta este silêncio senão o gosto de
colocar pedra sobre pedra até á oblíqua exactidão?
As palavras vêm de lugares fragmentários
de uma disseminação de iniciais
de magmas respirados
de odor de gérmen de olhos
As palavras podem formar uma escrita nativa
de corpos claros
Que são as palavras? Imprecisas armas
em praias concêntricas
torres de sílex e de cal
aves insólitas
As palavras são travessias brancas faces
giratórias
elas permitem a ascensão das formas
elevam-se estrato após estrato
ou voam em diagonal
até à cúpula diáfana
As palavras são por vezes um clarão no dia calcinado
Que enfrentam as palavras? O espelho
da noite a sua impossível
elipse
Saem da noite despedaçadas feridas
e são signos do acaso pedras de sol e sal
a da sua língua nascem estrelas trituradas


António Ramos Rosa

.

15.7.20

Eduardo Dalter (Deixa entrar a luz)





Dejá que entre la luz,
dejala que entre,

que se acomode,
que abra su valija;

no vayás a echarla;
dale de comer;

dejá que ande por la casa.


Eduardo Dalter




Deixa entrar a luz,
deixa-a entrar,

que se acomode,
que abra a mala;

dá-lhe de comer,
não a ponhas fora;

deixa-a andar pela casa.

(Trad. A.M.)

.

14.7.20

Eduardo Chirinos (Antes de dormir)





ANTES DE DORMIR



Es tarde, pero quisiera decir algo.
                                         Esa
música tardía, esos ecos que rebotan
en las piedras y crean silencios. No
no es eso exactamente:
                                      entre eco
y eco hay una música y en ella
un ladrido, un dolor, un golpe seco.

La palabra
que alguna vez borramos
vuelve a su lugar.
                           Como la música
tardía, como el silencio.

Pero no es eso tampoco. Escribir:
callar: cerrar los ojos. Ecos
que rebotan en las piedras y de nuevo
el ladrido, el dolor, el golpe seco.

No sé cómo explicarlo.

Pero es tarde
y en verdad no quiero decir nada.


Eduardo Chirinos




É tarde, mas queria dizer uma coisa.
                                                 Essa
música tardia, esses ecos que batem
nas pedras e criam silêncios. Não,
não é bem isso:
                               entre eco
e eco há uma música e aí
um pulsar, uma dor, um golpe seco.

A palavra
que uma vez apagamos
volta ao seu lugar.
Como a música
tardia, como o silêncio.

Mas não é isso também. Escrever,
calar, fechar os olhos. Ecos
que batem nas pedras e de novo
o latido, a dor, o golpe seco.

Não sei como explicar.

Mas é tarde
e na verdade eu não quero dizer nada.

(Trad. A.M.)

.

12.7.20

António Cabral (A Régua)




A RÉGUA



A Régua
assemelha-se
       a um pensamento
com
       suces-
              sivas ideias
prestes a entrarem
nos lábios
do rio.


ANTÓNIO CABRAL
Os Homens Cantam a Nordeste
(1967)

.

10.7.20

David González (Julian Key)





JULIAN KEY



a los 16
aprendí a hacer
el nudo de la corbata
rebobinando
una y otra vez
en una cinta vhs
una escena
de richard gere
en el papel de
julian key
en american gigolo

sin embargo
ni sé
ni supe nunca
hacer felices
lo que se dice felices
a ninguna de las mujeres
que dejaron sus vidas
en mi corazón

y a fecha de hoy
casi 46
no sé ya
ni cómo se hace

el nudo de la corbata


David González

[La manera de recogerse el pelo]




aos 16
aprendi a fazer
o nó da gravata
rebobinando
uma e outra vez
numa fita vhs
uma cena
de richard gere
no papel de
julian key
em ‘american gigolo’

contudo
não sei
nem soube nunca
fazer felizes
o que se diz felizes
nenhuma das mulheres
que me deixaram marca
no coração

e à data de hoje
quase 46
não sei já
sequer como se faz

o nó da gravata


(Trad. A.M.)

.

9.7.20

Darío Jaramillo Agudelo (Atordoado e confuso)





(5)

Atolondrado y confuso,
demasiado lleno de ruidos,
sin centro ni reposo,
desconectado del otro lado de la piel,
aturdido por el interminable crujir de este corazón
- tierra cuarteada, ceniza gris en el pecho -
así pasan estas noches de calor y duermevela,
estas noches en que no estoy contigo.


Darío Jaramillo Agudelo




Atordoado e confuso,
cheio de mais de ruídos,
sem norte nem repouso,
desligado do outro lado da pele,
aturdido pelo estalar interminável do coração
- terra quartejada, pote de cinza do peito -
assim passo essas noites de calor e de insónia,
essas noites que não passo contigo.

(Trad. A.M.)

.

7.7.20

António Barahona (Poética da transcriação)





POÉTICA DA TRANSCRIAÇÃO



Transcriar: decalcar até ao osso
o corpo do poema bem-amado,
até ao mais profundo do seu espírito
oculto em cada eco que soletro
Transportar o poema com seu pêso,
suas plumas de jaspe bem esculpido,
dormir com ele ao lado em qualquer sítio
até tornar o sono em som desperto
Reescrever mil vezes o mesmo verso
De rima pobre, rico d’universo
em nobre melopeia ritual
Recuperar mil vezes o espontâneo
verso, dado por Deus e rasurado
até fazer buracos no papel


António Barahona

.

5.7.20

Cristina Peri Rossi (Humildade II)





HUMILDAD II



Un niño de seis años
observa atentamente
los cinco mil libros
de mi biblioteca
y me pregunta,
muy interesado,
si yo los he escrito todos.
Le contesto sinceramente que no,
sólo una ínfima parte.
Entonces, pierde todo interés
y se va a jugar con el ordenador.
Tiene razón:
¿cómo podría sentirme orgullosa
de tan poca cosa?


Cristina Peri Rossi

[Neorrabioso]





Um menino de seis anos
observa atentamente
os cinco mil livros
da minha biblioteca
e pergunta-me,
muito interessado,
se os escrevi todos.
Respondo sinceramente que não,
só uma ínfima parte.
Então, perde o interesse todo
e vai brincar com o computador.
Tem muita razão:
como podia eu sentir-me orgulhosa
de tão pouca coisa?


(Trad. A.M.)

.

4.7.20

Claudio Bertoni (Para uma jovem amiga)





PARA UNA JOVEN AMIGA QUE INTENTÓ QUITARSE LA VIDA



Me gustaría ser un nido si fueras un pájaro
me gustaría ser una bufanda si fueras un cuello y tuvieras frío
si fueras música yo sería un oído
si fueras agua yo sería un vaso
si fueras luz yo sería un ojo
si fueras pie yo sería un calcetín
si fueras el mar yo sería una playa
y si fueras todavía el mar yo sería un pez
y nadaría por ti
y si fueras el mar yo sería sal
y si yo fuera sal
tú serías una lechuga
una palta o al menos un huevo frito
y si tú fueras un huevo frito
yo sería un pedazo de pan
y si yo fuera un pedazo de pan
tú serías mantequilla o mermelada
y si tú fueras mermelada
yo sería el durazno de la mermelada
y si yo fuera un durazno
tú serías un árbol
y si tú fueras un árbol
yo sería tu savia y correría
por los brazos como sangre
y si yo fuera sangre
viviría en tu corazón.


Claudio Bertoni

[Marcelo Leites]




Eu gostava de ser um ninho se tu fosses um pássaro
gostava de ser um cachecol se tu fosses um pescoço e tivesses frio
se fosses música eu seria um ouvido
se fosses água eu seria um copo
se fosses luz eu seria um olho
se fosses pé eu seria uma peúga
se fosses o mar eu seria uma praia
e se fosses o mar outra vez eu seria um peixe
e nadaria por ti fora
e se fosses o mar eu seria sal
e se eu fosse sal
tu serias uma alface um abacate
ou ao menos um ovo estrelado
e se fosses um ovo estrelado
eu seria um bocado de pão
e se eu fosse um bocado de pão
tu serias manteiga ou marmelada
e se tu fosses marmelada
eu seria o marmelo da marmelada
e se eu fosse um marmelo
tu serias uma árvore
e se tu fosses árvore
eu seria a tua seiva e correria
por teus braços como sangue
e se eu fosse sangue
moraria em teu coração.

(Trad. A.M.)

.

2.7.20

Maria Esther Maciel (Ofício)





OFÍCIO



Escrever
a água
da palavra mar
o vôo
da palavra ave
o rio
da palavra margem
o olho
da palavra imagem
o oco
da palavra nada.


Maria Esther Maciel

.