8.7.13

José Luís Peixoto (Os instantes)





OS INSTANTES



devagar, o tempo transforma tudo em tempo.
o ódio transforma-se em tempo, o amor
transforma-se em tempo, a dor transforma-se
em tempo.

os assuntos que julgámos mais profundos,
mais impossíveis, mais permanentes e imutáveis,
transformam-se devagar em tempo.

por si só, o tempo não é nada.
a idade de nada é nada.
a eternidade não existe.
no entanto, a eternidade existe.

os instantes dos teus olhos parados sobre mim eram eternos.
os instantes do teu sorriso eram eternos.
os instantes do teu corpo de luz eram eternos.

foste eterna até ao fim.

José Luís Peixoto


[Abro páginas]

.

7.7.13

Manuel Moya (Não os homens)





NO LOS HOMBRES 

                       (A mi padre, a quien tanto esperaba cada tarde de mi infancia)


No los hombres
que vuelven de Hispania o de Cartago
cegados por el mirto o por el oro,
no aquéllos, cuyos torsos
perturban los jardines,
no los estrelleros, los escribas
ni el vencedor de Farsalia;
desde luego no los príncipes
ni el gladiador
que volvíó a eludir la muerte,
no el impúdico tribuno, ni el hebreo
tonante, inexpresivo,
al que temí menos por su sangre
que por su misterio,
no ninguno de los dioses
que dicen verdaderos
a quienes en su temor y en su codicia
tantos se encomiendan,
sino ver a mi padre
entrando solo en la ciudad
herido y sin escudo,
deslumbrante.


MANUEL MOYA
Taller de máscaras
(2001)



Não os homens
que voltam de Hispania ou Cartago
cegos do mirto ou do ouro,
não esses, cujos torsos
perturbam os jardins,
não os astrólogos, os escribas,
nem o vencedor de Farsalia;
não os príncipes desde logo,
nem o gladiador
que voltou a iludir a morte,
não o tribuno impúdico, nem o hebreu
trovejante, salamurdo,
que menos por seu sangue temi que pelo mistério,
não, nenhum desses deuses
que dizem verdadeiros
e a quem tantos se encomendam
em seu temor e cobiça,
apenas ver meu pai
entrar sozinho na cidade
ferido e sem escudo,
deslumbrante.

(Trad. A.M.)

.

6.7.13

Ver (140)



 

 
 
Bela Vista>Barqueiros>Mesão Frio


Maravilhas de Portugal
Roteiro do Douro
Descobrir Portugal
Regressar às origens

.



Gabriel Celaya (O que mora em mim)





QUIEN ME HABITA


                              Car je ‘est’ un autre
                                   (Rimbaud)



¡Qué extraño es verme aquí sentado,
y cerrar los ojos, y abrirlos, y mirar,
y oír como una lejana catarata que la vida se derrumba,
y cerrar los ojos, y abrirlos, y mirar!  

¡Qué extraño es verme aquí sentado!
¡Qué extraño verme como una planta que respira,
y sentir en el pecho un pájaro encerrado,
y un denso empuje que se abre paso difícilmente por mis venas!  

¡Qué extraño verme aquí sentado,
y agarrarme una mano con la otra,
y tocarme, y sonreír, y decir en voz alta
mi propio nombre tan falto de sentido!  

¡Oh, qué extraño, qué horriblemente extraño!
La sorpresa hace mudo mi espanto.
Hay un desconocido que me habita
y habla como si no fuera yo mismo.


Gabriel Celaya




Que estranho ver-me aqui sentado,
e fechar os olhos, e abri-los, e olhar,
e ouvir a vida a ruir qual distante catarata,
e fechar os olhos, e abri-los, e olhar!

Que estranho ver-me aqui sentado,
estranho ver-me qual planta que respira,
e sentir no peito um pássaro cativo, uma garra
a abrir caminho, a custo, nas minhas veias.

Que estranho ver-me aqui sentado,
e agarrar uma mão com a outra,
e tocar-me, e sorrir, e dizer em voz alta
meu nome próprio tão falho de sentido!

Oh que estranho, que horrivelmente estranho!
A surpresa emudece meu espanto,
haver um desconhecido que me habita
e falar como se não fosse eu mesmo.


(Trad. A.M.)

.

5.7.13

Jorge de Sena (Como queiras, Amor)





Como queiras, Amor, como tu queiras,
Entregue a ti, a tudo me abandono,
seguro e certo, num terror tranquilo,
A tudo quanto espero e quanto temo,
entregue a ti, Amor, eu me dedico.

Nada há que eu não conheça, que eu não saiba,
e nada, não, ainda há por que eu não espere
como de quem ser vida é ter destino.

As pequeninas coisas da maldade, a fria
tão tenebrosa divisão do medo
em que os homens se mordem com rosnidos
de mal contente crueldade imunda,
eu sei quanto me aguarda, me deseja,
e sei até quanto ela a mim me atrai.

Como queiras, Amor, como tu queiras.
de frágil que és não poderás salvar-me,
Tua nobreza, essa ternura tépida
quais olhos marejados, carne entreaberta,
será só escárnio, ou, pior, um vão sorriso
em lábios que se fecham como olhares de raiva.
Não poderás salvar-me, nem salvar-te.
Apenas como queiras ficaremos vivos.

Será mais duro que morrer, talvez
Entregue a ti, porém, eu me dedico
àquele amor por qual fui homem, posse
e uma tão extrema sujeição de tudo.

Como queiras, Amor, como tu queiras.


Jorge de Sena

.

4.7.13

Felipe Benítez Reyes (Arte menor)





ARTE MENOR




1
Su boca es como un verso.
Es de música y viene
desde el recuerdo.

2
Es falso que el recuerdo
sea la vida.
La vida es otra cosa
más retorcida.

3
En la calle del Olvido
me prometía
una noche a su vera.
Aún espero ese día.

4
La niña del joyero
no se desnuda
si a traducir a César
no se le ayuda.
La tarde aquella
La guerra de las Galias
libré con ella.

5
Se quitaba las medias
mientras decía
que su novio era alférez
de Infantería.

6
Olvera de atardecida.
Por sus calles vagan galgos
como fantasmas. Y la vida
tiene un algo de galgo
fantasmal, crepuscular,
en la Olvera atardecida.

7
En el amor vale menos
el presente que el pasado,
y el mismo amor pesa menos
que los celos.

8
Pero valen
más que el pasado y los celos,
pesan más que el mismo amor,
las noches en el recuerdo.

9
Calle del Conde Negro,
fui sin navaja.
Me asaltaron los otros.
Perdí la plata.

10
La miraba en el bar
y me miraba
con ojos que decían
«No me haces falta»

Porque es artista
y además tiene un novio
surrealista.



FELIPE BENITEZ REYES
Vidas improbables
("Miguel Fonseca, poeta tradicional")




1
Sua boca é como um verso.
É de música e vem
lá do fundo da lembrança.

2
É falso que recordar seja viver.
Viver é outra coisa, mais a doer.

3
Na rua do Esquecimento prometia
uma noite a seu lado.
Ainda espero esse dia.

4
A filha do joalheiro não se despe
se a não ajudam a traduzir César.
Nessa tarde, entrei com ela na guerra das Gálias.

5
Tirava as meias enquanto dizia
que o noivo era alferes de Infantaria.

6
Olvera entardecida,
por suas ruas vagam galgos
como fantasmas. E algo
a vida tem de galgo
fantasmal, crepuscular,
na Olvera entardecida.

7
No amor vale menos
o presente que o passado,
e o mesmo amor pesa menos
do que o ciúme.

8
Mas mais que ciúme e passado
e mais do que o próprio amor
valem as noites na lembrança.

9
Na rua do Conde Negro
apanhei-me sem navalha.
Assaltaram-me os ladrões,
perdi o dinheiro todo.

9
Olhei para ela no bar
e ela olhou para mim
com uns olhos que diziam
‘Não sinto falta de ti’

Porque é artista
e além disso tem noivo,
um surrealista.


(Trad. A.M.)

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3.7.13

Rui Zink (Violência psicológica)





Para usar de violência psicológica era preciso prática.

Oriundo do futebol, a única coisa que Paulo Gomes conhecia que tivesse como adjectivo o 'psicológica' era a 'chicotada psicológica', uma corruptela do termo, porque consistia simplesmente no despedimento de um treinador e contratação de outro, gerando assim matéria-prima para alguns dias de jornalismo desportivo...


- RUI ZINK, O suplente (2000), V,4.

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Federico García Lorca (Pronuncio teu nome)





Yo pronuncio tu nombre
en las noches oscuras,
cuando vienen los astros
a beber en la luna
y duermen los ramajes
de las frondas ocultas.
Y yo me siento hueco
de pasión y de música.
Loco reloj que canta
muertas horas antiguas.


Yo pronuncio tu nombre,
en esta noche oscura,
y tu nombre me suena
más lejano que nunca.
Más lejano que todas las estrellas
y más doliente que la mansa lluvia.


¿Te querré como entonces
alguna vez? ¿Qué culpa
tiene mi corazón?
Si la niebla se esfuma,
¿qué otra pasión me espera?
¿Será tranquila y pura?
¡¡Si mis dedos pudieran
deshojar a la luna!!


Federico García Lorca


[Na rua de cima]





Eu pronuncio teu nome
nas noites escuras,
quando chegam os astros
para beber na lua
e adormecem os ramos
das frondes ocultas.
E eu sinto-me vazio
de paixão e de música.
Louco relógio cantando
mortas horas antigas.


Eu pronuncio teu nome,
nesta noite escura,
e teu nome me soa
mais distante que nunca.
Mais distante que as estrelas,
mais dolente que a mansa chuva.


Querer-te-ei como então
algum dia? Que culpa
tem meu coração?
Se a névoa se esfuma,
que outra paixão me espera?
Será tranquila e pura?
Pudessem meus dedos
desfolhar a lua!



(Trad. A.M.)

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2.7.13

António Barahona (Auto-retrato)





AUTO-RETRATO



Apenas um homem
com febre de versos:
minha sã imagem
nua até aos ossos.


António Barahona



[Hospedaria Camões]


.

1.7.13

Federico Díaz-Granados (Inutilidade do ofício)





INUTILIDAD DEL OFICIO



Cuánto se ha sacrificado para escribir estas líneas
cuántos pesares y melancolías
para asumir con dignidad la ruina y el abandono
y sobrevivir a la tragedia.

Y siempre habrá poesía
pero volveremos a las mismas y repetidas palabras
todos los temas están dichos
y habrá que repetir en cada verso
ritmos ya entonados, amores y muertes ya cantados.

Cuánto sacrificio para escribir algunas palabras de basura
cuántos sismos interiores.
Para que no las lean, se burlen o no aplaudan en un recinto.


Federico Díaz-Granados


[Punto de partida]




Quanto foi sacrificado para escrever estas linhas
quantos pesares e melancolias
para assumir com dignidade a ruína e o abandono
e sobreviver à tragédia.

E poesia sempre haverá
mas voltaremos às mesmas palavras repetidas
todos os temas estão gastos
e há que repetir em cada verso
ritmos já entoados, mortes e amores já cantados.

Quanto sacrifício para escrever algumas palavras de lixo
quantos sismos interiores.
Para ninguém as ler ou ser seduzido, nem aplaudir.


(Trad. A.M.)

.

29.6.13

Camilo Castelo Branco (Negociara a filha)





Negociara a filha com o Zeferino como tinha negociado com o Tarraxa a vaca amarela na feira dos 13.

Eis um caso esquisito de aldeia que pela torpeza parece acontecido numa cidade culta.

Conversou-se este diálogo debaixo de um castanheiro frondoso, com um pavilhão de folhagem gorjeado de pássaros, com uns tons de luz esverdeada, na doce placidez crepuscular de uma tarde de Agosto, entre dois homens de tamancos, arremangados, com os peitos cabeludos a negrejar de entre os peitilhos da camisa surrada de suor e poeira, brutos no gesto e na frase.



- CAMILO CASTELO BRANCO, A Brasileira de Prazins, I.

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Eugenio Montejo (Dura menos um homem)

 


Dura menos un hombre que una vela
pero la tierra prefiere su lumbre
para seguir el paso de los astros.
Dura menos que un árbol,
que una piedra,
se anochece ante el viento más leve,
con un soplo se apaga.
Dura menos un pájaro,
que un pez fuera del agua,
casi no tiene tiempo de nacer,
da unas vueltas al sol y se borra
entre las sombras de las horas
hasta que sus huesos en el polvo
se mezclan con el viento,
y sin embargo, cuando parte
siempre deja la tierra más clara.


Eugenio Montejo



Dura menos um homem que uma vela
mas a terra prefere seu lume
para seguir a passagem dos astros.
Dura menos que uma pedra,
uma árvore,
e se anoitece ante o vento mais leve
com um sopro se apaga.
Dura menos um pássaro
que um peixe fora de água,
mal tem tempo de nascer,
dá algumas voltas ao sol
e apaga-se na sombra das horas
até seus ossos no pó
com o vento se misturarem,
e quando parte, contudo,
deixa sempre a terra mais clara.

(Trad. A.M.)

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28.6.13

Miguel Torga (Panorama)





PANORAMA



Pátria vista da fraga onde nasci.
Que infinito silêncio circular!
De cada ponto cardeal assoma
A mesma expressão muda.
É de agora ou de sempre esta paisagem
Sem palavras
Sem gritos,
Sem o eco sequer de uma praga incontida?
Ah! Portugal calado!
Ah! povo amordaçado
Por não sei que mordaça consentida!


Miguel Torga


[Fel de cão]

.

27.6.13

Enrique García-Máiquez (Daí a poesia)





POR ESO LA POESÍA



La novela lo malo es lo que exige:
requiere un adulterio, asesinatos,
viajes larguísimos, curiosas coincidencias,
y un sinfín de avatares.
Los cuentos son más cortos
pero tienden a hacer de sus protagonistas
insectos esquemáticos, clavarlos
con su alfiler a un corcho y colocarles
ingeniosas cartelas.
En cambio, la poesía lo da todo
sin pedir casi nada. Es increíble
lo poco que hace falta en un poema.
Que estemos juntos, por ejemplo,
en una tarde tonta, igual que tantas,
y que digas de pronto:
"Qué suerte estar contigo", y que yo piense:
"Oírtelo decir es un milagro".

Enrique García-Máiquez




O mau do romance é aquilo que exige,
um adultério, assassinatos,
longas viagens, coincidências estranhas
e um sem fim de avatares.
Os contos são mais curtos
mas tendem a fazer dos protagonistas
insectos esquemáticos, a espetá-los
com seu alfinete em curiosos cartões.
Em troca, a poesia dá-nos tudo
sem pedir quase nada. É incrível
o pouco que é preciso num poema.
Estarmos juntos, por exemplo,
numa tarde à toa, igual às outras,
e tu dizeres de repente:
“Que sorte estar aqui contigo”, e eu pensar:
“É um milagre ouvir-te dizer isso”.

(Trad. A.M.)


.

26.6.13

Ver (139)







Sete Cidades
(S.Miguel)


Descobrir Portugal
(1)



Maravilhas de Portugal
(2-3)


.

Jacob Iglesias (Nota)





NOTA



Olvidarme
de ese poema memorable que comenzaría
“Unos mentirosos de nacimiento buscando
ansiosamente verdades. Eso es lo que somos.”
Escribir algo
sobre esta tarde de domingo sin ambulancias,
ni rastro de aburrimiento,
ni la televisión de los vecinos de arriba
a todo volumen.
Sólo el zumbido tenue del frigorífico,
un libro y, por primera vez desde hace meses,
el sol palpando cada objeto
de la habitación, reconociéndolo
como las manos de un ciego.
Ha sonado el timbre.
Seguro que ya es ella.

Jacob Iglesias


[Sombras en el adarve]



Esquecer-me daquele
poema memorável que começaria assim:
“Mentirosos de nação em busca ansiosa
de verdades, eis o que somos”.
Escrever algo sobre
esta tarde de domingo sem ambulâncias,
nem traço de tédio,
nem sequer a TV dos vizinhos de cima
no som máximo.
Só o zumbido ténue do frigo,
um livro e, primeira vez há meses,
o sol palpando cada objecto
da casa, a reconhecê-lo
como as mãos de um cego.
Tocou a campainha,
é ela, de certeza.

(Trad. A.M.)



>>  Mistycalle (nota mínima) / Europa press (prémio)

.

25.6.13

João de Deus (Miséria)





MISÉRIA



Era já noite cerrada,
Diz o filho: "Oh minha mãe,
Debaixo daquela arcada
Passava-se a noite bem!"

A cega, que todo o dia
Tinha levado a andar,
A tais palavras do guia
Sentiu-se reanimar.

Mas saltam dois cães de gado,
Que eram como dois leões:
Tinha-os à porta o morgado
Para o guardar dos ladrões.

Tornam os pobres à estrada,
E aonde haviam de ir dar?
Ao palácio da tapada
Onde el-rei ia caçar.

À ceguinha meia morta
Torna o filho: "Oh minha mãe,
Ali no vão de uma porta
Passava-se a noite bem!"

- Se os cães deixarem... (diz ela,
A triste num riso amargo),
Com efeito a sentinela:
- "Quem vem lá?... Passe de largo!"

Então ceguinha e filhinho,
Vendo a sua esperança vã,
Deitaram-se no caminho
Até romper a manhã!...


João de Deus

.

24.6.13

Eloy Sánchez Rosillo (Madrigal)





MADRIGAL



Has abierto mi libro y vas, despacio,
con atención, leyéndolo. Tus ojos
se detienen ahora ante esta página.
Empiezas a leer y te das cuenta
muy pronto de que en ella hablo de ti.
Para advertirlo, como yo esperaba,
no necesitas ver tu nombre impreso
en el papel, porque de sobra sabes
que a ti sola te canto. En ti, mi voz
tiene su origen y su cumplimiento,
su razón de existir: al celebrarte,
hallo dichosa ocupación y soy
fiel al destino que me justifica.

Eloy Sánchez Rosillo


[Noctambulario]




Abriste o meu livro e vais lendo,
devagar, com atenção. Os teus olhos
detêm-se agora nesta página.
Começas a ler e depressa te dás conta
que nela eu falo de ti.
Para o veres, como eu esperava,
não precisaste de ver o teu nome estampado
no papel, porque sabes de sobra
que és a única que canto. Em ti tem
minha voz sua origem e cumprimento,
sua razão de existir: celebrar-te,
eis minha ditosa ocupação, fiel
como sou ao destino que me justifica.

(Trad. A.M.)

.

23.6.13

Rui Zink (Negócios com Deus)




Em miúdo, Paulo Gomes fazia negociatas com Deus.

Se o pai não lhe desse uma sova por não ir a horas para a mesa, prometia a Deus que lhe oferecia cinco tostões.

A proposta aumentava substancialmente (para vinte e cinco tostões), se estivesse em causa um pecado maior, tipo problemas na escola, notas ou o pai não descobrir que fumara uma beata do chão.

Todavia, se uma vez ou outra Deus cumpria a sua parte do contrato, já Paulo Gomes acabava invariavelmente por retirar a sua oferta, esquecendo-se de ir pagar o milagre.


- RUI ZINK, O suplente (2000), I,18.

.

Eduardo Mitre (Prólogo ao presente)





PRÓLOGO AL PRESENTE



Abre los ojos. Despierta.
El Paraíso está aquí,
de vuelta.
Con todos y todo
en la luz pasajera.

Es (no hay otro) esta tierra:
mesa de encuentros,
cuna de ausencias.

El Paraíso está aquí,
a la espera. Abre tus ojos
que abren sus puertas.

Despierta. Está aquí.
No es la dicha.
Es la presencia.


Eduardo Mitre




Abre os olhos. Desperta.
O Paraíso está aqui,
de volta.
Com tudo e todos
na luz passageira.

É (não há outro) na terra:
mesa de encontros,
berço de ausências.

O Paraíso está aqui,
à espera. Abre os teus olhos
que lhe abrem as portas.

Desperta. Está aqui.
Não é a ventura,
é a presença.


(Trad. A.M.)

.

22.6.13

Jaime Salazar Sampaio (Insónia)

                                                        (Homenagem à fonte)



INSÓNIA



ficou da infância a febre
de correr parado
pelas estradas

podes chamar-lhe versos
são viagens

ficou na infância a fisga
de arremessar ao vento

podes chamar-lhe versos
são pedradas


Jaime Salazar Sampaio



[RMMV]

.

21.6.13

Eduardo Llanos (Testamento do pater familias)





TESTAMENTO DEL PATER FAMILIAS



Yo, Anastasio Rencoret Iriarte, natural de aqueste reyno de Chile,
hijo lejítimo del mui mucho amor de entrambos mis santos padres,
estando enfermo en cama de la enfermedad que Dios nuestro Señor
se ha servido en darme,
i creyendo como firmemente creo en el Alto i Divino Misterio
de la Santísima Trinidad i Padre e hijo i Espíritu Santo,
tres personas distintas i un solo Dios verdadero,
i en todos los demás misterios i artículos de fe que tiene, cree y confiesa
nuestra Santa Madre Iglesia Católica Apostólica Romana,
bajo cuya fe i creencia he vivido i espero vivir i morir,
temiéndome ahora de la muerte, que es natural a toda humana criatura,
envío mi alma al cielo, de donde me fue dada,
i el cuerpo a la tierra, donde fue criado,
i vengo en testar mis bienes, modestísimos
comparados con el reyno de Dios, nuestro Amo i Señor.
A ti, primogénito mío, traspaso los yacimientos de oro i plata,
i encomiéndote brindar trabajo a los menesterosos mineros
i a la vez dar ocasión a sus mujeres i proles
para que así puedan cumplir el mandato divino
de ganar cada uno su pan con el sudor de la frente.
Mas cuida, hijo, no holgarte mui a menudo con las mozas,
ni menos con una sola, pues siempre se ceba quien se amanceba.
A ti, hija querida, légote las tres viñas del Sur,
no sea que te sorprenda sin dote la edad de merecer.
A ti, fiel i dócil esposa, dejo aquesta hacienda entera,
incluyendo animales, inquilinos i el polvo de mis huesos.
Por último, queden a mi contador i albacea todos mis pañuelos i polainas
i esa Biblia empastada en que cada noche yo nutría mi fervor
i cuya lectura le enseñará a no codiciar bienes ajenos
i sí a juntar tesoros en el cielo, de donde le será dado por añadidura lo demás.
Os encarezco observancia estricta a las reglas que siempre prediqué i practiqué,
para así allegar más honor a nuestra estirpe i a nuestro Padre Común,
a cuya diestra os esperaré, enternecido i anhelante.

Eduardo Llanos



Eu, Anastasio Rencoret Iriarte, natural deste reino do Chile,
filho legítimo do mui muito amor de meus santos pais,
estando enfermo no leito da enfermidade que Deus Nosso Senhor
foi servido outorgar-me,
e crendo como creio firmemente no Alto e Divino Mistério
da Santíssima Trindade, Pai-Filho-Espírito Santo,
três pessoas distintas e um só Deus verdadeiro,
e em todos os mais mistérios da nossa Santa Mãe Igreja Católica, Apostólica, Romana,
em cuja fé e crença vivi, assim como espero viver e morrer,
temendo a hora da morte, natural em toda a humana criatura,
encomendo minha alma ao céu, que ma deu,
e à terra o corpo, que nela se criou,
vindo assim testar meus bens,
bem modestos se comparados aos do Reino de Deus, Nosso Amo e Senhor.
A ti, primogénito, lego as jazidas de oiro e prata,
com encargo de dar trabalho aos operosos mineiros, a bem das famílias,
para cumprirem o divino mandamento de ganhar o pão com o suor do rosto.
Mas cuida, meu filho, de não folgar das moças em demasia,
nem mesmo uma só, pois sempre se ceba quem se amanceba.
A ti, filha querida, deixo-te as três vinha do Sul,
não vá apanhar-te sem dote a idade de merecer.
A ti, esposa fiel e dócil, lego esta mesma fazenda inteira,
incluindo semoventes, inquilinos e bem assim o pó dos meus ossos.
Por último, todos os meus lenços e polainas
ficam para o testamenteiro e cabeça-de-casal,
assim como a Bíblia encadernada em que eu cevava o meu fervor,
a qual lhe ensinará a não cobiçar o alheio e a juntar tesouros no céu,
donde lhe virá por acrescento tudo o mais.
Recomendo-vos a estrita observância das regras
que eu mesmo sempre prediquei e pus em prática,
para assim acrescentar mais honra a nossa estirpe e a nosso Pai Comum,
à mão direita do qual vos esperarei, enternecido e anelante.

(Trad. A.M.)

.

20.6.13

Ver (138)





Doiro (2) x Tejo (1)


[Regressar às origens]

.

Manuel Moya / Violeta (In memoriam M.R.)





IN MEMORIAM M. R.



¿Joderte? ¿Para qué? Eres ya un muerto,
una piltrafa y tú lo sabes. ¿Si quiero más?
No, no quiero más, estoy cascada.
Hablabas de la muerte
de los dos, pero cariño, yo estoy viva,
podrida pero viva,
el muerto lo eres tú
y así le sirvas de papeo
a sus caniches.

Sólo quisiera que la vida
fuese tan justa con vosotros
como justos habéis sido conmigo,
pero no, el rencor mío
no es tan grande ni tan ciego:
me conformo, pues, con la mitad,
con la mitad, ¡mirad qué poco!


Violeta C. Rangel




Foder-te? Para quê? Estás morto já,
um caco, e sabes disso. Se quero mais?
Não, não quero mais, estou partida.
Falavas da morte
de nós dois, mas querido, eu estou viva,
podre mas viva,
o morto és tu
e assim sirvas de comida
aos cães.

Só queria que a vida
fosse tão justa convosco
como vós tendes sido comigo,
mas não, não é o rancor meu
tão grande nem tão cego:
conformo-me, pois, com metade,
com metade, vêde que pouco.


(Trad. A.M.)

.

19.6.13

Inês Dias (Requiem por um pássaro)





REQUIEM POR UM PÁSSARO E UM AUTOCARRO PERDIDO



Mais um dia
em forma de pássaro morto.
Uma amálgama ainda quente
da manhã que nasce, espécie de beleza
desmanchada a que nem o nosso olhar
consegue servir de pietà. O vento
teima em agitar uma ou outra pena,
mas não há golpe de asa que o arranque
agora ao asfalto negro.


Partilhamos, no fundo, a impotência:
o destino que o esmagou
é o mesmo que esperamos para
embarcar sem surpresas, sem direito a atrasos.
A essa indiferença cansada prefiro
a do outro pássaro que, lá muito em cima,
hoje ainda mais, refaz a traços negros
a vida. É por esses instantes
de voo que aceito continuar a perder.


Inês Dias


[Luz & sombra]


.



18.6.13

Victor Botas (Horacio, I, XI)





HORACIO I, XI (GLOSA)



No es solución, amigo Horacio, eso
(tan sobadito ya) del carpe diem,
y después que te quiten
lo bailao. Créeme, no es una
solución.
A no ser, por supuesto, que se trate
tan sólo de olvidarse de ese ciego
futuro que ahí está,
esperando a la vuelta de la esquina.


Víctor Botas



Não é solução, Horácio amigo, essa
(tão batida) do carpe diem,
e depois que te tirem
o bailado. Acredita-me,
não é a solução.
A menos, claro, que se trate
de esquecer apenas o futuro
cego que está aí, à espera,
ao virar da esquina.


(Trad. A.M.)

.

17.6.13

Camilo Castelo Branco (D. Andresa)





D. Andresa era senhora ajuizada, muito séria, educada no convento de Vairão; tinha missa em casa, e escrevia cartas a diversas freiras, pondo sempre no alto do papel: Jesus, Maria, José.

Andava nos trinta e cinco anos, muito linfática e um grande horror aos vícios da carne.

O mano Adolfo conhecia-lhe a índole.

Não podia esperar dela aplauso, nem sequer condescendência, e muito menos auxílio à sua afeição a mulher casada.

Andresa concordava com o irmão na formosura de Honorata; mas observava com um risinho malicioso que o não chamara para saber se a sua amiga era bonita ou feia; mas sim para aconselhá-la e dirigi-la na separação do marido por justiça.


- CAMILO CASTELO BRANCO, A Brasileira de Prazins, IV.

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Manuel Moya (Canção do Tejo)





CANCIÓN DEL TAJO



Me quiero navegable como el Tajo
y que un hato de lucios o de tencas
salten por mi vientre.
En invierno quiero dar calor a una comarca
y en verano arrancar el escalofrío de un niño.
Me quiero navegable
y que los barcos crujan en mis huesos
y bailen las muchachas
al compás de una orquesta,
que los viejos pesquen en mi orilla
y no falte al arenero su jornal, su vaso de alma.
Me quiero navegable y ser por un momento
reflejo de esos pájaros
que cruzan volando el continente,
nubes a quienes nada importa
quedarse en el camino
o deshacerse como uva en el lagar del cielo.
Me quiero navegable y estar pasando a veces
y cantar a mi modo
canciones muy sencillas y tristes.

Manuel Moya



Navegável me quero como o Tejo
e que um monte de lúcios ou tencas
me saltem por cima do ventre.
No Inverno quero dar calor ao concelho
e arrancar no Verão o calafrio de alguém.
Navegável me quero
e que os barcos me ranjam nos ossos
e bailem cachopas ao compasso da orquestra,
que os velhos pesquem na margem
e ao areeiro não falte o jornal nem o copo.
Navegável me quero, ser por instantes
reflexo dos pássaros que voam cruzando o céu,
nuvens a quem nada importa
ficar pelo caminho
ou desfazer-se quais uvas no lagar do céu.
Navegável me quero, passar por passar
e cantar a meu modo
cantigas muito simples e tristes.

(Trad. A.M.)



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Heterónimos: Umar Abass / Violeta C. Rangel

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16.6.13

Gonçalo M. Tavares (O sol)





O SOL



Na infância o sol era um companheiro mais alto,
que aparecera primeiro no campo de futebol, e aí, parado,
guardava as costas da baliza e a erva que se tornava quente.
Como se o sol fosse de facto um instrumento de cozinha,
aperfeiçoado, antigo, mas instrumento, matéria
que os meninos agarravam com os dedos e cuja
intensidade podiam por vontade própria regular.
Por exemplo: quando a luz era excessiva
os dedos protegiam os olhos. Outras vezes
o corpo parecia a conclusão
natural, instintiva, do calor que vinha de cima:
Recebíamos o sol como o ponto final recebe
uma frase. Fazia mais sol quando eu tinha seis anos
(quem o fazia?) ou com o tempo e o tédio
me fui distraindo?

Gonçalo M. Tavares


[Minerva]


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15.6.13

Mirta Rosenberg (Elegia)





UNA ELEGÍA



En la época de mi madre
las mujeres eran probables.
Mi madre se sentaba junto a mi abuela
y las dos eran completamente de carne y hueso.

Yo soy apenas una secuela estable
de aquel exceso de realidad.

Y en la ansiedad del pasado indefinido,
en el aspecto durativo de elegir,
escribo ahora: una elegía.

En la época de mi madre
las mujeres eran perdurables,
completamente hueso y carne.
Mi madre se ponía el collar
de plata y de turquesas
que mi padre le había traído de Suecia
y se sentaba a la mesa como una especia exótica,
para que todo se volviera más grande que la vida,
y cualquier ficción fuera posible.

En la época de mi madre, las mujeres
eran un quid: mi madre nos contó
a mi hermano y a mí: ‘cuando salía de la escuela,
iba a buscar a mi padre al trabajo,
en Santa Fe, y los compañeros le decían es un biscuit,
tu hija es un biscuit, y nunca supe qué querían decir,
qué era un biscuit’, un bizcocho estando muy enferma,
una porcelana exquisita todavía para nosotros,
y mi hermano apurándola: ‘¿Y?’

No sé qué es un biscuit, ¿una especia exótica,
algo de todos modos, especial? Igual
andaba delicadamente por la casa, rozando los ochenta
como se roza una herida
con una gasa.

En la época de mi madre
las mujeres eran muy visibles.
Mi madre se miraba en los espejos
y yo no llegaba a abarcar
su imagen con mis ojos. Me excedía,
la intuía a lo lejos como algo que se añora.

Como ahora,
una elegía.

A la criatura adorable
fijada en lo remoto de la foto,
que ya a los ocho años parecía
más grande que la vida: te extraño,
aunque no te conocía. Eso fue antes
que a mí me dieras vida
en un tamaño apenas natural.

Igual,
una elegía.

Y a la otra de la foto que espero
conservar, la mujer bella que sostiene
el libro ante la hija de un año
en el engaño de la lectura:
te quiero por lo que dura, y es suficiente
leer en el presente, aunque se haya apagado
tu estrella.

Por ella,
una elegía.

Ahora soy la fotografía
y vos el líquido revelador. Tu muerte
me convierte en yo: como una ciencia aplicada
soy la causa y el efecto,
el ensayo y el error, este vacío
de la nada que golpea el corazón
como cáscara vacía.

Una elegía,
cada vez con más razón.


Mirta Rosenberg



No tempo da minha mãe
as mulheres eram prováveis.
Minha mãe sentava-se junto da minha avó
e as duas eram totalmente de carne e osso.

Eu sou apenas uma sequela estável
desse excesso de realidade.

E na ansiedade do indefinido passado,
no aspecto duradouro de eleger,
escrevo agora: uma elegia.

No tempo da minha mãe
as mulheres eram perduráveis,
totalmente osso e carne.
Minha mãe punha o colar
de prata e turquesas
que meu pai lhe trouxera da Suécia
e sentava-se à mesa como uma espécie exótica,
para que tudo se tornasse maior do que a vida
e se fizesse possível qualquer ficção.

No tempo da minha mãe, as mulheres
eram um quid: minha mãe contou-nos
a meu irmão e a mim: “quando saía da escola,
ia buscar meu pai ao emprego,
em Santa Fe, e os colegas diziam-lhe é um biscuit,
a tua filha é um biscuit, e nunca soube o que queriam dizer,
que era um biscuit”, um biscoito estando doente,
uma porcelana distinta ainda para nós,
e meu irmão sondando-a: “E depois”?

Não sei o que é um biscuit, uma espécie exótica,
algo assim de todo o modo, especial? Andava à mesma
levemente por casa, já a roçar os oitenta
como se roça uma ferida
com gaze.

No tempo da minha mãe
as mulheres eram muito visíveis.
Minha mãe a mirar-se no espelho
e eu não lhe abarcava a imagem
com os olhos. Excedia-me,
intuía-a de longe como algo saudoso.

Como agora,
uma elegia.

À criatura adorável
imobilizada na foto remota,
que já parecia com oito anos
maior do que a vida: sinto-te a falta,
não te conhecia bem. Isso antes
de me dares vida a mim
quase em tamanho natural.

Também,
uma elegia.

E à outra da foto que espero
conservar, a mulher bela segurando
o livro para a filha de um ano
na ilusão da leitura:
amo-te pelo que dura, e basta
ler no presente, embora a tua estrela
se tenha apagado.

Por ela,
uma elegia.

Agora eu sou a fotografia
e tu o líquido revelador. Tua morte
converte-me em eu: como ciência aplicada
sou a causa e o efeito,
o ensaio e o erro, este vazio
do nada que agride o coração
como casca vazia.

Uma elegia,
cada vez com mais razão.


(Trad. A.M.)


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14.6.13

Rui Zink (O futebol)





Beleza de linguagem, o futebol.

Pobreza de universo, possibilidades limitadas (vitória, empate ou derrota), mas uma beleza de linguagem.

Esférico, bola, redondinha, relvado, gramado, verde manto, tapete, palco glorioso, terreno, zona, território, fora de jogo, grande penalidade, admoestação verbal, castigo injusto, falta cometida.

Uma linguagem simultaneamente poética, judicial, bíblica.

Entre os guerreiros e a selvajaria, um frágil juiz de calções - grande autoridade, a de um juiz em calções - e os seus dois auxiliares, meirinhos que, de bandeira em punho, assinalavam quem cometeu a falta, de quem era a bola, se o ataque era feito dentro dos trâmites legais de posicionamento.


- RUI ZINK, O suplente (2000), I,10.

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Valeria Pariso (Isto sim, é um problema)





Esto sí es un problema:
me leo
y advierto
que todo él
negado, saqueado de mi mente, vaciado de mi sangre,
se instaló silenciosamente
en el túnel carpeano de mi mano derecha.
Y se escribió.

Valeria Pariso


[Tanto te quería]



Isto sim, é um problema,
leio-me
e dou conta
que todo ele,
negado, saqueado da minha mente,
esvaziado do meu sangue,
instalou-se em silêncio
no túnel cárpico da minha mão direita.
E escreve-se.

(Trad. A.M.)

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13.6.13

Geraldino Brasil (Cada momento está numa bolha de ar)





CADA MOMENTO ESTÁ NUMA BOLHA DE AR



Quando pode ser a última vez,
olha-se com olho de máquina fotográfica
querendo guardar tudo,
                              nada perder.
Cada momento está numa bolha de ar.
As coisas do mundo,
                              quando eu era novo as olhei com a indiferença
                              de quem passa e amanhã voltará.


Geraldino Brasil

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12.6.13

Roger Wolfe (Democracia)





DEMOCRACIA



Otra maldita tarde
de domingo, una de esas
tardes que algún día escogeré
para colgarme
del último clavo ardiendo
de mi angustia.
En la calle
familias con niños,
padres y madres
sonrosadamente satisfechos
de su recién cumplido
deber electoral;
gente encorvada sobre radios
que escupen datos, porcentajes
en los bancos.
Corderos de camino al matadero
dándole a escoger el arma
al matarife.


Roger Wolfe



Outra maldita tarde
de domingo, uma destas
tardes que escolherei
um dia para me pendurar
do último prego a arder
da minha angústia.
Na rua
famílias com crianças,
pais e mães
muito satisfeitos
de seu recém-cumprido
dever eleitoral;
gente dobrada sobre rádios
que cospem dados, percentagens
em bancos.
Carneiros a caminho do matadouro
dando a arma a escolher
ao carniceiro.


(Trad. A.M.)


> Outras versões: O melhor amigo / Bizarrias e minudências (Ricardo Marques)

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11.6.13

Ver (137)


 



Alqueva
Pinhão
Pitões das Júnias


[Maravilhas de Portugal]

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Roberto Juarroz (Buscar uma coisa)





Buscar una cosa
es siempre encontrar otra.
Así, para hallar algo,
hay que buscar lo que no es.

Buscar al pájaro para encontrar a la rosa,
buscar el amor para hallar el exilio,
buscar la nada para descubrir un hombre,
ir hacia atrás para ir hacia delante.

La clave del camino,
más que en sus bifurcaciones,
su sospechoso comienzo
o su dudoso final,
está en el cáustico humor
de su doble sentido.
Siempre se llega,
pero a otra parte.

Todo pasa.
Pero a la inversa.


Roberto Juarroz



Buscar uma coisa
é sempre encontrar uma outra.
Assim, para achar algo,
há que buscar o que não é.

Buscar o pássaro para encontrar a rosa,
buscar o amor para achar o exílio,
buscar o nada para descobrir um homem,
ir para trás para ir para a frente.

A chave do caminho,
mais do que na encruzilhada,
seu suspeito começo
ou seu duvidoso final,
está no cáustico humor
do seu duplo sentido.
Sempre se chega,
mas a um outro lugar.

Tudo acontece.
Mas ao contrário.


(Trad. A.M.)

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10.6.13

Pedro Mexia (Matéria)





MATÉRIA



O contrário da matéria
não é o espírito.
O contrário da matéria
não é a anti-matéria.
O contrário da matéria
é o olhar.


Pedro Mexia


[O meu instante]


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9.6.13

Olga Orozco (As mortes)





LAS MUERTES



He aquí unos muertos cuyos huesos no blanqueará la lluvia,
lápidas donde nunca ha resonado el golpe tormentoso
de la piel del lagarto,
inscripciones que nadie recorrerá encendiendo la luz
de alguna lágrima;
arena sin pisadas en todas las memorias.
Son los muertos sin flores.
No nos legaron cartas, ni alianzas, ni retratos.
Ningún trofeo heroico atestigua la gloria o el oprobio.
Sus vidas se cumplieron sin honor en la tierra,
mas su destino fue fulmíneo como un tajo;
porque no conocieron ni el sueño ni la paz en los
infames lechos vendidos por la dicha,
porque sólo acataron una ley más ardiente que la ávida
gota de salmuera.
Esa y no cualquier otra.
Esa y ninguna otra.
Por eso es que sus muertes son los exasperados rostros
de nuestra vida.

Olga Orozco



Eis alguns mortos cujos ossos a chuva não lavará,
lápides onde jamais ressoou o golpe
da pele do lagarto,
inscrições que ninguém há-de ver
acendendo a luz de uma lágrima;
areia sem pegadas na lembrança da gente.
Mortos sem flores.
Não há cartas, nem alianças, nem retratos.
Nenhum troféu heróico atesta glória ou opróbio.
Suas vidas cumpriram-se sem honra na terra,
mas seu destino fulminante como um corte;
porque não conheceram sonho nem paz
no leito infame da ventura,
porque uma só lei acataram mais ardente
que a gota ávida de salmoura.
Essa e não outra.
Essa e nenhuma outra.
Por isso mesmo suas mortes são os exasperados rostos
de nossa vida.

(Trad. A.M.)

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8.6.13

Camilo Castelo Branco (A tia Águeda)





A tia Águeda, a viúva do major, tinha pouco.

Desde 1828 até 1833 gastara seis mil cruzados em festejar os natalícios e as vitórias do Sr. D. Miguel com banquetes e iluminações que duravam três noites, num delírio de bombas reais e foguetes de lágrimas, com adega franca.

Mandava cantar Te-Deum na igreja de Alvações assim que no pais vinhateiro soava a notícia de alguma vitória do exército fiel.

Ora, os realistas, a contar por cada Te-Deum de Alvações, entravam no Porto às quinzenas para saírem por uma barreira e voltarem logo pela outra.

D. Águeda começava a desconfiar que o Deus de Afonso Henriques voltara a casaca.



- CAMILO CASTELO BRANCO, A Brasileira de Prazins, X.

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Pepe Ramos (Coleccionador de tentativas)





EL COLECCIONISTA DE TENTATIVAS



Vuelves de suicidarte una vez más.

Traes sepultado bajo la lengua
el cuerpo de un Cristo cuya cruz
es un neón verde
y su génesis genérico.

Huye del delirio, aún estás a tiempo:
vuelve al cauce plácido de la cordura.
Déjanos las gestas psicóticas
a los crónicos,
danos la paz.

¿Buscas la ascensión
o te conformas solo con la baja?

Por mucho que te empeñes
—Lázaro autolesivo—
fingir un suicidio no es resucitar.


Pepe Ramos



Vens de suicidar-te mais uma vez.

Tens sepultado por baixo da língua
o corpo de um Cristo cuja cruz
é um néon verde
e sua genérica génese.

Foge ao delírio, estás ainda a tempo,
volta ao leito plácido da razão.
Deixa as gestas psicóticas
para os crónicos,
dá-nos a paz.

Buscas a ascensão
ou só te serve a descida?

Por muito que te empenhes
– Lázaro auto-lesivo –
simular um suicídio
não é bem ressuscitar.

(Trad. A.M.)

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6.6.13

Pedro Andreu (Advertências)





ADVERTENCIAS



No vengas otra vez con tus historias
tan siglo diecinueve de tristezas.
No jures y perjures que perdiste
tu zapato en mi casa, Cenicienta,
pues bien sabes que perdiste otras cosas:
la cabeza tal vez, algo de pasta, un par de bragas
que voy probando a todas
las que prueban mi cama
sin dar con la que vuela.
Que ni yo soy azul ni tú princesa,
así que apaga y vámonos, y vuelve
a ser mi perra callejera, mi musa en celo,
mi luna de dormir la borrachera,
mi billete de avión a la locura,
mi Blancanieves puta y harapienta,
mi vino y la resaca; el frío y mis palabras.

Y déjate de cuentos y dame mucho sexo
y poco poquito poco
abominable falso esclavo imbécil
desvergonzado amor.

Pedro Andreu


[El baul de calzas largas]




Não me venhas cá com tuas histórias
tão século dezanove de tristezas.
Não jures nem perjures que perdeste
o sapato em minha casa, Cinzenta,
pois bem sabes que outras coisas perdeste,
a cabeça talvez, algum creme,
um par de cuecas
que vou experimentando em todas
quantas experimentam a minha cama
sem dar com aquela que voa.
Nem eu sou azul nem tu princesa,
apaga portanto a luz e vamos embora,
volta a ser a minha cadela vadia, minha musa de cio,
minha lua de dormir a borracheira,
meu bilhete para a loucura,
minha Branca-de-Neve puta e farrapona,
meu vinho mais a ressaca, o frio e minhas palavras.

E deixa-te de histórias, dá-me sexo muito
e pouco pouquinho pouco
abominável falso escravo imbecil
desavergonhado amor.

(Trad. A.M.)

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