15.9.11

José Pedroni (Tu, na fábrica)






TÚ, EN LA FÁBRICA



Por la ventana abierta
ha entrado un pájaro,
y está aquí, entre máquinas,
un poquito asustado.

Por la ventana abierta
ha entrado un pájaro,
que otra cosa no eres
con tu vestido blanco.

La llama sigilosa
te sigue, por quemártelo.
Estrellas de los yunques
estallan a tu paso.
Ruedas de dientes negros
muerden tu olor a nardo.

Por la ventana abierta
ha entrado un pájaro.
Lo está diciendo el fuego
que se llenó de brazos,
y el hierro que se apura
a ponerse dorado,
y el humo que se va derecho al cielo
con tu vestido blanco.

¡Por la ventana abierta
vuelve mañana, pájaro!



JOSÉ PEDRONI
El Pan Nuestro
(1941)


[Marcelo Leites]






Pela janela aberta
entrou um pássaro,
e está aqui, entre as máquinas,
um bocadinho assustado.

Pela janela aberta
entrou um pássaro,
que outra coisa tu não és
com teu vestido branco.

A chama sigilosa
segue-te, para o queimar.
Chispas das bigornas
saltam quando passas.
Rodas dentadas de negro
mordem teu cheiro a nardo.

Pela janela aberta
entrou um pássaro.
Está a dizê-lo o fogo
que se encheu de braços,
e o ferro que se apura
a pôr-se dourado,
e o fumo que sobe direito ao céu
com teu vestido branco.

Pela janela aberta,
pássaro, volta amanhã!


(Trad. A.M.)

.

14.9.11

Maria do Rosário Pedreira (Acordo)






Acordo com o teu nome nos
meus lábios — amargo beijo


esse que o tempo dá sem
aviso a quem não esquece.



Maria do Rosário Pedreira



[Poedia]


.

13.9.11

Angel Petisme (O cão de Ulisses)






EL PERRO DE ULISES




Al regresar a Ítaca después de veinte años,
vestido con ropas de mendigo,
Ulises se enjugó una lágrima.
Argos, lleno de pulgas,
tendido en el estiércol,
alzó la cabeza y las orejas.
Fue el único que reconoció a su dueño.
Así nos pasa a los humanos
frente a la belleza, que nunca es fácil,
que nunca es benigna,
frente a la perfección camuflada y hambrienta.
Como el perro de Ulises
sólo algunos ladramos frente a ella
y movemos el rabo.
Veinte años esperando a su amo
y Argos poco después murió.


Angel Petisme






Ao regressar a Ítaca passado vinte anos,
vestido com roupas de mendigo,
Ulisses limpou uma lágrima.
Argos, cheio de pulgas,
estendido no esterco,
ergueu a cabeça e as orelhas.
Foi o único que reconheceu o dono.
Assim sucede a nós humanos,
frente à beleza, nunca fácil,
nunca benigna,
frente à perfeição camuflada e faminta.
Como o cão de Ulisses
só alguns ladramos frente a ela
e mexemos o rabo.
Vinte anos à espera do dono
e pouco depois morreu, Argos.

(Trad. A.M.)




>> Pedro Mexia - Ao contrário de Ulisses


.

12.9.11

Olhar (103)







Letra 'M'

(Mesão Frio>Mafómedes>Monte Marão)


.

José Luis Hidalgo (Mar dos teus olhos)






MAR DE TUS OJOS




Puerto de amor tus ojos,
aguas claras.

(Brisa que me querías
sobre la mar salada.
Aguas sin corazón
que me llevabais...)

Hacia el mar de tus ojos
navegará mi ansia.


José Luis Hidalgo






Porto de amor teus olhos,
águas claras.


(Brisa que me querias
sobre o mar salgado.
Águas sem coração
que me arrastáveis...)


Para o mar de teus olhos
navegará minha ânsia.


(Trad. A.M.)

.

11.9.11

Russell Edson (O chão)






THE FLOOR




The floor is something we must fight against.
Whilst seemingly mere platform for the human stance,
it is that place that men fall to.
I am not dizzy. I stand as a tower, a lighthouse;
the pale ray of my sentiency flowing from my face.

But should I go dizzy I crash down into the floor;
my face into the floor, my attention bleeding
into the cracks of the floor.

Dear horizontal place, I do not wish to be a rug.
Do not pull at the difficult head,
this teetering bulb of dread and dream.


Russell Edson






O chão é algo contra que temos de lutar.
Embora pareça uma mera plataforma para a humana postura,
é aquele lugar para que os homens caem.
Eu não me sinto enjoado, ergo-me como uma torre, ou um farol,
o raio pálido dos meus sentidos a irradiar-me da face.

Mas se me enjoasse, caía redondo no chão,
a cara contra o solo, a atenção sangrando
pelas fendas do chão.

Caríssimo lugar horizontal, carpete eu não quero ser,
deixa a cabecinha difícil,
este bolbo oscilante de temor e de sonho.


(Trad. A.M.)

.

10.9.11

Jaime Sabines (Pétalas queimadas)






PÉTALOS QUEMADOS



Pétalos quemados,
viejo aroma que vuelve de repente,
un rostro amado, solo, entre las sombras,
algún cadaver de uno levantándose
del polvo, de alguna abandonada soledad
que estaba aquí en nosotros:
esta tarde tan triste, tan triste, tan triste.

Si te sacas los ojos y los lavas
en el agua purísima del llanto
¿por qué no el corazón
ponerlo al aire, al sol, un rato?


Jaime Sabines



[Poli del Amor]





Pétalas queimadas,
odor antigo que volta de repente,
um rosto amado, só, entre sombras,
um cadáver de alguém a erguer-se
do pó, de uma solidão abandonada
que estava em nós aqui,
esta tarde tão triste, tão triste, tão triste.

Se arrancamos os olhos e os lavamos
na água puríssima do pranto,
por que não o coração
pô-lo ao ar, um bocado, ao sol?


(Trad. A.M.)

.

9.9.11

José Rentes de Carvalho (Caminho pela cidade)






Caminho pela cidade com um sentimento de desconforto, pois sem ser nela totalmente um estranho, também lhe não pertenço.

Sou o passante que deambula pelo cenário da sua juventude e revê com outros olhos os lugares que a marcaram, despertando negrumes, surpreso ao dar-me conta de como foram profundas mas inúteis as dores de então, passageiras as alegrias, paralisantes aqueles sonhos em que as dimensões do mundo eram constantes e harmoniosas.

Terei de facto sido assim?

Melancólico, deixo que o passado desfile em cenas que não são de vida vivida, mas painéis desbotados num panorama de artifício.

Não me interessam as ruas, as gentes, as casas, as vibrações do dia soalheiro.

Vou ensimesmado, descobrindo que nem a experiência dos anos me ajudará a conciliar as vozes desencontradas que dentro de mim ora animam a agir, ora me censuram os actos, as palavras, os desejos.

Que me culpam por não ser capaz de duma vez para sempre sacudir os entraves da memória, me acusam de fraqueza por retornar aos lugares onde sofri com um impulso tão irreprimível como o que dizem que leva os assassinos a rever o lugar onde, ao matar, também de certo modo morrem.


- J. RENTES DE CARVALHO, La Coca, Quetzal (2011), p. 33.


.

José Luis Zúñiga (Carpe diem)






CARPE DIEM




Precisamente ahora
estoy trazando el rumbo de mi vida.
Ahora, cuando me estalla en la cabeza
toda la petulancia de saberme
vivido siempre atado y bien atado.
Sentado aquí, el gesto adormecido
frente a la taza blanca en que aún humea
esa infusión que tomo cada tarde,
trazo rumbos y escalas.
¡Ay, vana pretensión del astrolabio!
Precisamente ahora
pienso romper los mapas de mi vida.



José Luis Zúñiga






Agora precisamente
estou a traçar o rumo da minha vida.
Agora, que me estoira na cabeça
a petulância de me saber
vivido sempre atado e bem atado.
Sentado aqui, o gesto adormecido
diante da chávena branca onde fumega
a infusão que tomo todas as tardes,
traço rumos e escalas.
Ah, vã pretensão do astrolábio!
Precisamente agora
penso rasgar os mapas da minha vida.


(Trad. A.M.)



>>  Yo Zúñiga (blogue) / Las afinidades electivas (4p)
       M. 4.4.2011

.

8.9.11

Ruy Belo (Do sono da desperta Grécia)






DO SONO DA DESPERTA GRÉCIA





Nenhuma voz em esparta nem no oriente
se dirigira ainda aos homens do futuro
quando da acrópole de atenas péricles hierático
falou: «ainda que o declínio das coisas
todas humanas ameace sabei vós ó vindouros
que nós aqui erguemos a mais célebre e feliz cidade»
Eram palavras novas sob a mesma
abóbada celeste outrora aberta em estrelas
sobre a cabeça do emissário de argos
que aguardava o sinal da rendição de tróia
e sobre o dramaturgo sófocles roubando
aos dias desse tempo intemporais conflitos
chegados até nós na força do teatro
Apoiada na sua longilínea lança
a deusa atenas pensa ainda para nós
Pela primeira vez o homem se interroga
sem livro algum sagrado sobre a sua inteligência
e a tragédia a arte o pensamento
desvendam o destino a divindade o universo
Em busca da verdade o homem chega
às noções de justiça e liberdade
Após quatro milénios de uma sujeição servil
o homem olha os deuses face a face
e desafia o força do tirano
E nós ainda hoje nos interrogamos
a interrogação define a nossa livre condição
O desafio de antígona e de prometeu
é hoje ainda o nosso desafio
embora com um rio o tempo haja corrido
«Diz em lacedemónia ó estrangeiro
que morremos aqui para servir a lei»
«E se esta noite é uma noite do destino
bendita seja ela pois é condição da aurora»
Palavras seculares vivas ainda agora
Uma grécia secreta dorme em cada coração
na noite que precede a inevitável manhã


RUY BELO
Transporte no tempo
(1973)


[O poema que hoje partilharia]

.

7.9.11

Eloy Sánchez Rosillo (Deixai-me aqui)






DEJADME AQUÍ




Dejadme aquí, sumido en la penumbra
de esta habitación en la que tantas horas de mi vida
transcurrieron.
Es tarde ya. La noche se aproxima
y hoy - no sé por qué - más que otras veces necesito
quedarme solo y recordar muy lentamente
algunas cosas del pasado,
ciertas historias ya casi perdidas,
mientras el sol se aleja y la ciudad va hundiéndose
en la sombra.



Eloy Sánchez Rosillo





Deixai-me aqui, sumido na penumbra
deste quarto em que passaram
tantas horas da minha vida.
É tarde já. A noite aproxima-se
e hoje – não sei por quê – mais que
doutras vezes necessito
ficar só e recordar muito
detidamente
algumas coisas do passado,
certas histórias já quase perdidas,
enquanto se afasta o sol e a cidade
vai-se afundando
na sombra.


(Trad. A.M.)

.

6.9.11

Rui Knopfli (Posteridade)






POSTERIDADE





Um dia eu, que passei metade
da vida voando como passageiro,
tomarei lugar na carlinga
de um monomotor ligeiro
e subirei alto, bem alto,
até desaparecer para além
da última nuvem. Os jornais dirão:
Cansado da terra poeta
fugiu para o céu. E não
voltarei de facto. Serei lembrado
instantes por minha família,
meus amigos, alguma mulher
que amei verdadeiramente
e meus trinta leitores. Então
meu nome começará aparecendo
nas selectas e, para tédio
de mestres e meninos, far-se-ão
edições escolares de meus livros.
Nessa altura estarei esquecido.



Rui Knopfli


[Modo de usar]


.

David González (Ninguém com esse nome)






NADIE CON ESE NOMBRE




este es mi hijo

le decías a las camareras
de los chigres en los que parabas.

este es mi hijo

le decías a tus amigos y conocidos,

este es mi hijo

y en algunas ocasiones añadías:

bueno, hijo mío no sé si lo es,
lo único que os puedo decir seguro
es que nació en casa


este es mi hijo

estabas orgulloso de mí,
ahora lo sé,
muy orgulloso,

pero nunca pronunciaste mi nombre de pila,

padre,

nunca lo pronunciaste.

me llamo david.
david gonzález.



David González





este é o meu filho

dizias tu às empregadas
das locandas em que paravas

este é o meu filho

dizias aos teus amigos e conhecidos,

este é o meu filho

e acrescentavas em algumas ocasiões:

bem, filho meu não sei se é,
o que posso dizer com certeza
é que nasceu lá em casa


este é o meu filho

tinhas orgulho de mim,
sei agora,
muito orgulho,

mas jamais pronunciaste o meu nome de baptismo,

pai,

nunca o pronunciaste.

eu chamo-me david,
david gonzález.


(Trad. A.M.)

.

5.9.11

Carlos Drummond de Andrade (A flor e a náusea)






A FLOR E A NÁUSEA




Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?
Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.
Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.
Uma flor nasceu na rua!
Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
E soletram o mundo, sabendo que o perdem.
Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.
Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.
Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.


Carlos Drummond de Andrade


[Poemblog]



>>  Lembrando Jorge Espina   
       - ele sabe porquê.

.

4.9.11

Angel González (Certas tardes)






ALGUNAS TARDES





Una tristeza insólita
me invade algunas tardes.
La de hoy es una de ellas.

En el sombrío cuarto de estar
triste,
permanezco a la espera
de que la luna certifique la defunción del día.

Este es por fin el cuarto
menguante de una luna llena
de macilenta luz
que me confirma lo que yo esperaba:
el día
que tanto me dolía ya se ha muerto.
Y la noche es el sueño: al fin, la nada.


Ángel González


[Escomberoides]





Uma tristeza insólita
me invade algumas tardes.
Esta de hoje é uma delas.

No sombrio quarto de estar
triste,
permaneço à espera
que a lua certifique a defunção do dia.

Este é por fim o quarto
minguante de uma lua cheia
de macilenta luz
que me confirma o que eu esperava:
o dia
que tanto me doía está morto.
E a noite é o sonho: enfim, o nada.


(Trad. A.M.)

.

Aquilino Ribeiro (Os longes esfarelavam-se)






Os longes esfarelavam-se num luaceiro grisalho, como de moinha ao vento; mas, a todo o largo da mirada, a terra descobria-se com os mouchões das leiras a reluzir prateados ao luar e os regos coalhados de tinta negra.

Nas leiras onduladas de morro para morro, o centeal dormia debaixo do codo, a meio as pedras intonsas e impressionantes como cabeças mortas saindo debaixo dum lençol.

As giestas projectavam uma sombra muito escura, o que o levou a notar que a sombra que o seu vulto também projectava era tão retinta e desengonçada como se levasse um fantasma à mão direita.

Não se enxergava vivalma nem de homem, nem de bicho, nem de ser nado que fosse.

Mas, pela lua que caminhava sempre, o sete-estrelo muito rútilo, a rija imobilidade da planície, sentia-se a terra presa a amarras que não quebram nem se rendem.


- AQUILINO RIBEIRO, Terras do Demo, 1.ª parte, V.

.

3.9.11

Ana Pérez Cañamares (Mi casa)






MI CASA



Mi casa tiene treinta metros cuadrados.
Vivimos en ella dos adultos,
una adolescente
y una gata anciana.

Mi casa es digna.

Si es de dignidad de lo que hablamos
mi casa es digna.

Mi casa es tan digna
como las chabolas de latas
como las casas barco
como las tiendas de refugiados.

Más dignas todas ellas
que la del especulador
la del director de periódico
la del dueño del banco.

Si es de dignidad de lo que hablamos:

La justicia de las palabras
- la belleza de la exactitud -
aún nos pertenece.



ANA PÉREZ CAÑAMARES
Alfabeto de cicatrices
(2010)







Minha casa tem trinta metros quadrados.
Vivemos nela dois adultos,
uma adolescente
e uma gata velha.

Minha casa é digna.

Se de dignidade falamos
minha casa é digna.

Minha casa é tão digna
como as do bairro da lata
como as casas barco
ou as tendas de refugiados.

Mais dignas todas elas
do que a do especulador
do director de jornal
ou do dono do banco.

Se é de dignidade que falamos:

A justiça das palavras
– a beleza da exactidão –
ainda nos pertence.


(Trad. A.M.)

.

2.9.11

Um verso (98)






Um verso de Amadeu Baptista
(viva lá, Praia da Granja):




Guardo no coração uma voz que vai de lugar em lugar




Amadeu Baptista

.

Manuel Moya / Violeta (Poética)






POÉTICA





Sólo el rencor. Si quemo un barco
otro barco me espera. Si salvo un hoyo
otro hoyo, descomunal, encuentro. Sólo el rencor.
Si me ladran los ojos, si en el acto acabo
a cien rehenes, si le meto fuego al edificio,
agradézcanlo al rencor, o ¿acaso puedes tú,
querido, reprochármelo?



Violeta C. Rangel






Só o rancor. Se queimo um barco
outro barco me espera. Se salto um buraco
outro maior encontro. Só o rancor.
Se os olhos me ladram, se acabo no acto
com cem reféns, se ponho fogo à casa,
agradeçam-no ao rancor, ou acaso podes tu,
querido, censurar-mo?


(Trad. A.M.)

.


1.9.11

Fernando Pessoa / R. Reis (Não sei se é amor que tens)






Não sei se é amor que tens, ou amor que finges,
o que me dás. Dás-mo. Tanto me basta.
          Já que o não sou por tempo,
           seja eu jovem por erro.
Pouco os deuses nos dão, e o pouco é falso.
Porém, se o dão, falso que seja, a dádiva
           é verdadeira. Aceito,
           cerro olhos: é bastante.
          Que mais quero?



Ricardo Reis

.