14.7.23

Billy Collins (Introdução à poesia)





INTRODUCTION TO POETRY

 

I ask them to take a poem
and hold it up to the light
like a color slide

or press an ear against its hive.

I say drop a mouse into a poem
and watch him probe his way out,

or walk inside the poem's room
and feel the walls for a light switch.

I want them to waterski
across the surface of a poem
waving at the author's name on the shore.

But all they want to do
is tie the poem to a chair with rope
and torture a confession out of it.

They begin beating it with a hose
to find out what it really means.

Billy Collins

 

Peço-lhes para pegarem num poema
e o segurarem à luz
como um slide colorido 

ou encostarem o ouvido à sua colmeia. 

Digo-lhes soltem um rato num poema
e vejam-no a procurar a saída 

ou andem dentro do espaço do poema
e apalpem as paredes à procura de um interruptor. 

Quero que esquiem
na superfície de um poema
e acenem ao nome do autor na margem. 

Mas o que eles querem fazer 
é amarrar o poema a uma cadeira com uma corda
e torturando obter uma confissão. 

Começam a dar-lhe com uma mangueira
para descobrirem o que realmente quer dizer.
 

(por fjcc)

 

>>  Poetry foundation (107p) / Poem hunter (52p)
.


12.7.23

Ernesto Pérez Vallejo (Muitas vezes)




Muchas veces todavía nos duelen
aquellos trenes que pasaron de largo.
Y nos quejamos en silencio de nuestra suerte.
Otras ya en el interior del vagón
maldecimos al reloj
por haber llegado a tiempo a sus raíles.

Los que no sabemos ser felices,
lo único que necesitamos
es un culpable.

Ernesto Pérez Vallejo

 

Muitas veces ainda nos doem
aqueles trens que passaram ao largo.
E queixamo-nos da sorte, em silêncio.
Outras, já dentro do vagão,
maldizemos o relógio
por termos chegado a tempo aos carris.

Nós, que não sabemos ser felizes,
só precisamos
é de um culpado.


(Trad. A.M.)

.

11.7.23

Mario Montalbetti (Objecto e fim do poema)




OBJETO Y FIN DEL POEMA

 

Es de noche y tiene que aterrizar
antes de que se acabe el combustible.
Así terminan todos sus poemas,
tratando de expresar con un lenguaje
público un sentimiento privado.

Su ambición es el lenguaje del piloto
hablándole a los pasajeros
en medio de una situación desesperada:
parte engaño, parte esperanza, parte verdad.

Todos los poemas terminan igual.
Hechos pedazos contra un cerro obscuro
que no estaba en las cartas.

Luego hayan los restos: el fuselaje,
la cola como siempre, intacta,
el olor a cosa quemada consumida por el fuego.

Pero ninguna palabra sobrevive.

Mario Montalbetti 

 

É noite e tem de aterrar
antes de acabar o combustível.
Assim lhe terminam rodos os poemas,
tratando de expressar com uma linguagem
pública um sentimento privado.

A sua ambição é a linguagem do piloto
a falar aos passageiros
a meio de uma situação desesperada:
parte engano, parte esperança, parte verdade.

Todos os poemas terminam igual,
feitos em pedaços contra um cerro escuro
que não estava nas cartas.

Depois sobram os restos, a fuselagem,
a cauda como sempre, intacta,
o cheiro a queimado de coisa ardida.

Mas nenhuma palavra sobrevive.


(Trad. A.M.)

.

9.7.23

Manuel Alegre (As mãos)

 



AS MÃOS



Com mãos se faz a paz se faz a guerra.
Com mãos tudo se faz e se desfaz.
Com mãos se faz o poema – e são de terra.
Com mãos se faz a guerra – e são a paz.

Com mãos se rasga o mar. Com mãos se lavra.
Não são de pedras estas casas mas
de mãos. E estão no fruto e na palavra
as mãos que são o canto e são as armas.

E cravam-se no Tempo como farpas
as mãos que vês nas coisas transformadas.
Folhas que vão no vento: verdes harpas.

De mãos é cada flor cada cidade.
Ninguém pode vencer estas espadas:
nas tuas mãos começa a liberdade.


Manuel Alegre

.

7.7.23

Eloy Sánchez Rosillo (Cheguei, quando)




Llegué cuando acababa de morir,
y era un misterio
ver tan de cerca la muerte
en aquel cuerpo amado.
Aún conservaba
el calor de la vida,
y puse yo mis labios
sobre su rostro inmóvil.
Al besarla,
pude atisbar en ella
y escuchar todavía
unas puertas cerrándose,
y un viento que de súbito arrasaba
la casa de amor y no sé que despojos
de mi niñez remota.

Eloy Sánchez Rosillo

[Sureando]

 

Cheguei, quando acabava de morrer
e era um mistério
ver tão de perto a morte
naquele corpo amado.
Conservava ainda
o calor da vida
e eu pus os lábios
no seu rosto imóvel.
Ao beijá-la,
pude vislumbrar nela
e escutar ainda
umas portas a fechar-se,
e um vento de repente arrasando
a casa de amor e não sei que despojos
da minha infância remota.


(Trad. A.M.)

.

6.7.23

José María Zonta (Não entres como turista)




No entres como turista en el corazón de una mujer

haciendo fotos
dejando latas de cerveza
buscando sólo catedrales inmensas
y estatuas transparentes

con la mochila llena de mapas
y haciendo comidas rápidas

hay un país
siete ciudades
una cordillera y un invierno
en el corazón de mujer

no bebas sólo un vaso de mar allí

no entres en avión
toma el tren de media luna

no reveles allí tus fotos en una hora

si no hace demasiado frío entra desnudo

no lleves paraguas

y sobre todo no tales árboles en el corazón de una mujer

no acostumbran volver a crecer.
 

José María Zonta

 

Não entres como turista no coração de uma mulher

a bater fotos
a deixar latas de cerveja
buscando só imensas catedrais
e estátuas transparentes

com a mochila cheia de mapas
e fazendo refeições ligeiras

há um país
sete cidades
uma cordilheira e um inverno
no coração duma mulher

não bebas aí só um copo de mar

não entres no avião
toma o comboio da meia-lua

não reveles ali tuas fotos na hora

entra nu se não fizer muito frio

não leves chapéu-de-chuva

e sobretudo não cortes árvores no coração duma mulher

não costumam voltar a crescer.


(Trad. A.M.)

.

4.7.23

Luís Veiga Leitão (A manhã é uma concha)




A manhã é uma concha de água azul,
onde o sol mergulha e flutua. 

 

Luís Veiga Leitão

.

2.7.23

Efraín Huerta (Machadiana)




MACHADIANA 

 

La
Primavera
Se ha
Venido

        Nadie
        Sabe
        Como
        Ha
        Sido

Efraín Huerta 

 

A Primavera
chegou

    Ninguém
    sabe
    como
    foi


(Trad. A.M.)

.

1.7.23

Antonio Gala (Passa-me hoje o amor)




Hoy me pasa el amor de parte a parte.
Temo encontrarte y no reconocerte.
Temo extender la mano y no tocarte.
Temo girar los ojos y no verte.
Temo gritar tu nombre y no nombrarte...
Temo estar caminando por la muerte.

Antonio Gala



Passa-me hoje o amor de parte a parte, 
temo encontrar-te e não te reconhecer,
estender a mão e não te tocar,
voltar os olhos e não te ver,
gritar teu nome e não te nomear.
Temo estar caminhando pela morte.

(Trad. A.M.)

 .

29.6.23

Eduardo Guerra Carneiro (Prefácio a uma homenagem)

 



PREFÁCIO A UMA HOMENAGEM A CESÁRIO VERDE



As clarabóias deste lado da cidade acendem-se mais cedo,
sinal que alguém projecta o fogo sobre o bairro
incendiando casas, talvez certas pessoas, as ruas
mais estreitas junto ao Tejo. Em manhãs como esta o sol
entra na mesa e pára junto às teclas. Parece um sorriso;
diria mesmo uma ternura. Poucos são os Palácios, mas imenso
é o espaço. E as águas, no rio e junto às teclas, acendem-se
com o fogo de outras clarabóias.

Depois são as luzes, as indústrias, o último petroleiro.
Descansam moradores em casas altas
enquanto se ergue a cidade nocturna de bares e liamba
e cresce um ou outro clandestino. É tempo de sair
por entre a névoa; rondar as esquinas; sorrir à puta;
apertar o copo; sentir o suor da cidade, corpo a tremer
de frio e febre neste tempo de amoníaco e éter
com ambulâncias lentas a caminho da morgue.

Antes ainda das luzes, quando, à maneira de Cesário,
o fumo se eleva no espaço, o recorte das fachadas
é mais nítido, o vermelho de Lisboa é mais intenso,
podemos imaginar escadas cansadas da madeira,
fogões acesos nas cozinhas,
crianças já com sono,
etc, etc...


Eduardo Guerra Carneiro

.

27.6.23

Efi Cubero (Onde abolir o limite)




¿Dónde abolir el límite y desdoblar honduras
lo mismo que la estrella que ha muerto y sin embargo
alumbra nuestro insomnio en las noches de cuarzo
dando cuenta del sueño que vivimos
conscientes de que todo nos ignora
ya que formamos parte de lo perecedero,
del frágil equilibrio de la perpetuidad:
de esta elegía?

Efi Cubero 

 

Onde abolir o limite e desdobrar o fundo 
tal como a estrela que morreu e todavia
nos ilumina a insónia nas noites de quartzo,
dando conta do sonho que vivemos
conscientes de que tudo nos ignora,
já que fazemos parte do perecível,
do frágil equilíbrio do perpétuo:
desta elegia?

(Trad. A.M.)

 .

26.6.23

Eduardo Dalter (Há um momento)




Hay un momento en que antes de ir,
de volver, el ave, o pájaro extraño
−formas humanas de este vuelo−
mira ensimismado su plumaje;
hay un momento, o borde o filo,
en que calla, calla, y canta al fin
unas pocas notas ásperas.


Eduardo Dalter
 

 

Há um momento em que antes de ir,
de voltar, a ave, ou estranho pássaro
- formas humanas deste voo -
olha ensimesmado a plumagem;
há um momento, ou margem ou fio,
em que cala, cala, e depois canta
umas poucas de notas ásperas.


(Trad. A.M.)

.

24.6.23

Luís Filipe Castro Mendes (A misericórdia dos mercados)




A MISERICÓRDIA DOS MERCADOS

 

Nós vivemos da misericórdia dos mercados.
Não fazemos falta.
O capital regula-se a si próprio e as leis
são meras consequências lógicas
dessa regulação,
tão sublime que alguns vêem nela o dedo de Deus.
Enganam-se.
Os mercados são simultaneamente o criador
e a própria criação.
Nós é que não fazemos falta.

Luís Filipe Castro Mendes

.

22.6.23

Eduardo Chirinos (Derrota do Outono)




DERROTA DEL OTOÑO

 

Aquí no es bienvenido el otoño.
                                                       Nadie lo espera
a la orilla de ningún río melancólico
que esconda en su cauce los secretos del mundo.
El otoño reina en otras latitudes.
Allá lejos, donde los ciclos se cumplen, allá lejos
donde envejecen y renuevan las metáforas.

(El sol se hunde en un verdoso charco
donde flota, solitaria, una hoja de laurel).

Pero esta tarde no ha llovido. Las hojas
se aferran a sus ramas,
heroicamente luchan contra el viento
y en la noche celebran la derrota del otoño.

No saben que las hojas que caen son las escritas
y el árbol un seco y callado poema sin estrías.
 

Eduardo Chirinos

  

 

 Aqui não é bem-vindo o Outono.
                              Ninguém o espera
na margem de nenhum rio melancólico
escondendo no leito os segredos do mundo.
O Outono reina em outras latitudes.
Lá longe, onde se cumprem os ciclos, lá longe
onde as metáforas envelhecem e se renovam.

(O sol afunda-se num charco esverdeado
onde bóia, solitária, uma folha de louro).

Mas esta tarde não choveu. As folhas
agarram-se aos ramos,
lutam heroicamente contra o vento,
celebram de noite a derrota do Outono.

Não sabem que as folhas que caem são as escritas,
sendo a árvore um seco e calado poema sem estrias.


(Trad. A.M.)

.

21.6.23

Gonzalo Rojas (Os letrados)




LOS LETRADOS

 

Lo prostituyen todo
con su ánimo gastado en circunloquios.
Lo explican todo. Monologan
como máquinas llenas de aceite.
Lo manchan todo con su baba metafísica.

Yo los quisiera ver en los mares del sur
una noche de viento real, con la cabeza
vaciada en frío, oliendo
la soledad del mundo,
sin luna,
sin explicación posible,
fumando en el terror del desamparo.

Gonzalo Rojas

[Prosa caótica]



Prostituem tudo
com seu ânimo gasto em circunlóquios.
Explicam tudo. Monologam
como máquinas cheias de óleo.
Mancham tudo com sua baba metafísica.

Eu queria-os ver nos mares do sul
uma noite de vento mesmo, com a cabeça 
esvaziada em frio, a cheirar
a solidão do mundo,
sem lua,
sem explicação possível,
a fumar no terror do desamparo.

(Trad. A.M.)

 .

19.6.23

José Alberto Oliveira (Aguaceiro)




AGUACEIRO

 

Um aguaceiro em início
de tarde de Fevereiro,
a descoberto, na rua,
com rima incluída;
nem melancolia, nem tédio,
sobrevivem à trepidação
da chuva.

José Alberto Oliveira

 .

17.6.23

David Mayor (Bairro)




BARRIO

 

De la mano de mi madre
- con ese andar hasta el fin del mundo.

Memoria de calles sin asfaltar.
Tebeos en blanco y negro.
El ruido de los trenes de fondo llegando al Portillo.

Mi madre y todo su amor.
La vida en las manos
cuando Zaragoza era un barrio de mi barrio
y cada día una parada de autobús enseñaba
a estar solo y mirar
el espectáculo siempre formidable de lo que pasa a tu lado:
carteras a la espalda y perros lobo,
árboles recién plantados y el olor
del gasoil, niños con jerséis de cuello
vuelto y adultos vestidos como gigantes.

Una aurora que llegaba en los ojos de los míos,
en el tiempo que por entonces empezaba.
Todas las ventanas abiertas
para que entrara luz.


David Mayor

 


Pela mão de minha mãe
- com aquele andar até ao fim do mundo.

Lembrança de ruas de terra batida,
bandas desenhadas a preto e branco,
o ruído dos comboios a chegar a Portillo.

Minha mãe com todo o seu amor.
A vida nas mãos
quando Saragoça era um bairro do meu bairro
e cada dia uma paragem de autocarro ensinava
a estar sozinho e a olhar para
o espectáculo sempre novo daquilo que acontece a teu lado:
carteiras a tiracolo e cães-lobo,
árvores plantadas há pouco e o cheiro
do gasóleo, crianças com camisolas de gola alta
e adultos vestidos como gigantes.

Uma aurora que se anunciava nos olhos dos meus
no tempo que então começava.
As janelas todas abertas
para entrar a luz.


(Trad. A.M.)

.

16.6.23

David González (O quebra-mar)




EL ROMPEOLAS     

 

mi padre
se levanta temprano cada mañana
para ir a nadar
para ir a nadar
a la piscina municipal en invierno
y a la del mar cantábrico en verano 

él se cree que así
me comenta mi madre, escéptica
no se va a morir nunca 

desde la ventana del estudio
donde me encierro a escribir
desde por la mañana temprano
y durante las cuatro estaciones
puedo ver la playa de mi padre
la arena que está pisando
y si tuviese a mano unos prismáticos
y forzara un poco la vista
podría, incluso, verle a él 

hace tiempo, años, que no le veo
ni hablo con él
ni siquiera por teléfono 

pero cuando luego
retiro mi frente del cristal
y acerco la silla
apoyo los codos sobre la mesa
y empiezo a escribir
lo hago con la confianza
y seguridad
del que se sabe
con las espaldas protegidas: 

su padre está ahí afuera,
nadando

y no se va a morir nunca.
 

David González

 

  

meu pai
levanta cedo todos os dias
para ir nadar
para ir nadar
no Inverno na piscina municipal
no Verão na do mar cantábrico 

ele julga que assim
diz-me, céptica, a minha mãe
não vai morrer nunca 

da janela do escritório
onde me meto a escrever
desde manhã cedo
e durante as quatro estações
eu consigo ver a praia do meu pai
e se tivesse uns binóculos
e forçasse um pouco a vista
podia mesmo vê-lo a ele 

há tempo, anos, que o não vejo
nem falo com ele
nem sequer por telefone 

mas depois quando
afasto a testa do vidro
e aproximo a cadeira
e começo a escrever
com os cotovelos na mesa
faço-o com a segurança
e confiança
de quem sabe que tem
as costas quentes: 

o teu pai está lá fora,
a nadar 

e não vai morrer nunca.
 

(Trad. A.M.)

.

14.6.23

Jorge Sousa Braga (As árvores e os livros)



AS ÁRVORES E OS LIVROS    

 

As árvores como os livros têm folhas
e margens lisas ou recortadas,
e capas (isto é, copas) e capítulos
de flores e letras de oiro nas lombadas. 

E são histórias de reis, histórias de fadas,
as mais fantásticas aventuras,
que se podem ler nas suas páginas,
no pecíolo, no limbo, nas nervuras.  

As florestas são imensas bibliotecas,
e até há florestas especializadas,
com faias, bétulas e um letreiro
a dizer: «Floresta das zonas temperadas».  

É evidente que não podes plantar
no teu quarto, plátanos ou azinheiras.
Para começar a construir uma biblioteca,
basta um vaso de sardinheiras.
 

Jorge Sousa Braga

 .

12.6.23

Darío Jaramillo Agudelo (Esse outro que mora em mim)



 

Ese otro que también me habita,
acaso propietario, invasor quizás o exiliado 

en este cuerpo ajeno o de ambos,
ese otro a quien temo e ignoro, felino o ángel,
ese otro que está solo siempre que estoy solo, ave o demonio
esa sombra de piedra que ha crecido en mi adentro y en mi afuera,
eco o palabra, esa voz que responde cuando me preguntan algo,
el dueño de mi embrollo, el pesimista y el melancólico y el
                                                             inmotivadamente alegre,
ese otro,
también te ama.

 
Darío Jaramillo Agudelo 

 

Esse outro que mora em mim,
talvez proprietário, invasor quiçá ou exilado
neste corpo alheio ou de ambos,
esse outro que eu temo e ignoro, felino ou anjo,
esse outro que está só se eu estou só, ave ou diabo,
essa sombra de pedra que me cresceu dentro e fora,
eco ou palavra, essa voz que responde
quando me interrogam a mim,
o dono da minha embrulhada, o pessimista, o melancólico, o
                                       injustificadamente alegre,
esse outro,
também te ama.

(Trad. A.M.)

 .


11.6.23

Cristina Peri Rossi (Todo poeta sabe)




(Ill)
 
Todo poeta sabe 
que se encuentra al final
de una tradición
y no al comienzo
por Io cual cada palabra que usa
revierte,
como las aguas de un océano inacabable,
a mares anteriores 
                                 -llenos de islas y de pelicanos,
                                 de plantas acuáticas y corales-
del mismo modo que un filamento delicado
tejido por una araña
reconstruye partes de una cosmogonía antigua
y lanza hilos de seda hacia sistemas futuros,
llenos de peces dorados y de arenas grises.

 
 Cristina Peri Rossi

[Marcelo Leites]

 


Todo poeta sabe que se encontra no fim
e não no início
de uma tradição,
pelo que cada palavra que usa
remonta,
como as águas de um oceano interminável.
a mares anteriores
               - cheios de ilhas e de pelicanos,
               de corais e plantas aquáticas -
assim como um filamento delicado
tecido pela aranha
reconstrói peças de uma cosmogonia antiga,
e lança fios de seda para sistemas futuros,
cheios de peixes dourados, de cinzentas areias.


(Trad. A.M.)

.

9.6.23

Joaquim Namorado (Milagre)




MILAGRE

 

Onde o santo punha o pé nasciam rosas

… e o povo lamentava
que não fizesse o mesmo com batatas.

 

Joaquim Namorado

 .

7.6.23

Manuel Moya / Xi Shuao (Céu aceso)




CIELO ENCENDIDO

 

Entonces me alzaba al escuchar
el sonido de unos pasos sobre el pasto,
o el lejano ladrido de un perro.
Cualquier cosa me encendía,
cualquier cosa me cegaba.
Ahora espero que al despertar
me sorprenda el silencio del humo
o la palidez de la escarcha al pie de los castaños.
No me conmueven ya
ni los ríos tumultuosos ni los remotos países
donde las mujeres bailan hasta el alba,
sino la sencillez de un cielo rielado de nubes,
el vuelo de la alondra de regreso a su nido,
o la franca alegría de un hombre
cuando ligero camina a sus asuntos.

Para vosotros el placer de las estrellas fugaces.
Dejadme aquí, frente al cielo encendido.


Xi Shuao Quan

 

 

Então erguia-me ao escutar
o som de passos no pasto,
ou o ladrar de um cão ao longe.
Qualquer coisa me acendia,
qualquer coisa me cegava.
Agora espero que ao despertar
me surpreenda o silêncio do fumo
ou a palidez do orvalho ao pé dos castanheiros.
Não me comovem já
nem os rios caudalosos nem os remotos países
onde as mulheres bailam até de manhã,
mas a singeleza de um céu cintilante de nuvens,
o voo da andorinha voltando ao ninho,
ou a franca alegria de um homem
caminhando ligeiro a tratar de seus assuntos.

Guardai para vós o prazer das estrelas fugazes,
a mim deixai-me aqui, diante do céu aceso.


(Trad. A.M.)

.

6.6.23

José A. Ramírez Lozano (O silêncio)




EL SILENCIO

 

El silencio abastece
la soledad y da en las sombras
de comer a los peces.

Él nos guarda la casa
como el polvo, con esa
oscura mansedumbre
de la misericordia,
y vigila el olvido,
la virtud del aceite,
el filo de los verbos
con que nos castigamos.

El silencio se busca
para hacerse más hondo
en los desfiladeros del susurro,
en la desolación, allá
donde tampoco alcanzan las palabras
y el amor se cobija del acecho
de las profanaciones.

José A. Ramírez Lozano

[Trianarts]



O silêncio abastece a solidão 
e dá de comer aos peixes
na sombra.

Guarda-nos a casa,
tal como o pó,
tão manso 
como a misericórdia,
e vigia o olvido,
a virtude do óleo,
o fio dos verbos
com que nos castigamos.

Busca-se o silêncio 
para se fazer mais fundo
nos desfiladeiros do sussurro,
na desolação, lá
onde não chegam as palavras
e o amor se abriga das profanações.

(Trad. A.M.)

 .

4.6.23

Mário Dionísio (Arte poética)



ARTE POÉTICA

 

A poesia não está nas olheiras imorais de Ofélia
nem no jardim dos lilases.
A poesia está na vida,
nas artérias imensas cheias de gente em todos os sentidos,
nos ascensores constantes,
na bicha de automóveis rápidos de todos os feitios e de todas as cores,
nas máquinas da fábrica e nos operários da fábrica
e no fumo da fábrica.
A poesia está no grito do rapaz apregoando jornais,
no vaivém de milhões de pessoas conversando ou prague­jando ou rindo.
Está no riso da loira da tabacaria,
vendendo um maço de tabaco e uma caixa de fósforos.
Está nos pulmões de aço cortando o espaço e o mar.
A poesia está na doca,
nos braços negros dos carregadores de carvão,
no beijo que se trocou no minuto entre o trabalho e o jantar
— e só durou esse minuto.
A poesia está em tudo quanto vive, em todo o movimento,
nas rodas do comboio a caminho, a caminho, a caminho
de terras sempre mais longe,
nas mãos sem luvas que se estendem para seios sem véus,
na angústia da vida.
A poesia está na luta dos homens,
está nos olhos abertos para amanhã.
 

Mário Dionísio

.

2.6.23

Claudio Bertoni (Magrinha)




FLAQUITA

 

Eres la estufa
más poderosa
de la tierra
Estás
en Barcelona
 
-a 18 mil kms
de distancia-
 
Y todavía
me calientas

Claudio Bertoni

 

 

Tu és o aquecedor
mais potente
da terra
Estás em Barcelona

- a 18.000 Km
de distância –

E ainda
me aqueces


(Trad. A.M.)

.

1.6.23

Chantal Maillard (Desejei, em tempos)




Deseé alguna vez que un poeta me amase.

Ahora duelen sus poemas en mi cuerpo‚
algo de mí que en él se reconoce hasta quebrar la imagen
de todo lo que fui.
Ahora deseo que me amase tanto que dejara de amarme
y sus palabras fuesen nieve
que el sol de junio fundiese entre mis pechos‚
allí donde su aliento insiste en acallar
esta tristeza antigua que siempre me acompaña.

Chantal Maillard

 

 

Desejei, em tempos, que um poeta me amasse.

Agora seus poemas doem-me no corpo,
algo de mim que nele se reconhece até se quebrar a imagem
de tudo aquilo que eu fui.
Agora queria que me amasse tanto que deixasse de me amar
e suas palavras fossem neve
que o sol de Junho derretesse no meu peito,
ali onde seu hálito teima em aplacar
esta tristeza antiga que sempre me acompanha.


(Trad. A.M.)

 .

30.5.23

João de Mancelos (Zero decibéis)




ZERO DECIBÉIS 

 

um punhado de silêncio 
- nada acaricia mais
a nudez do verão:
nem verbos, nem poemas.

quietude é um sorriso
ou a erva,
quando a chuva despe a terra
e tu desistes dos sapatos
e corres.

corres para melhor escutar
o silêncio que pulsa em ti. 

João de Mancelos

 .

28.5.23

César Cantoni (À moda de W.C. Williams)




A LA MANERA DE WILLIAM CARLOS WILLIAMS

 

Sólo quiero que sepas
que si detuve mi marcha
ante tu puerta,

y no seguí de largo,
y no crucé la calle,
y no doblé en la esquina,

no fue porque olvidé
donde vive
el jardinero

(al que buscaba
para podar
la ligustrina),

sino porque tus ojos
me distrajeron
del camino.

 
César Cantoni

 

 

Eu só quero que saibas
que se parei
à frente da tua porta

e não passei ao largo,
e não atravessei a rua,
e não dobrei na esquina,

não foi por ter esquecido
onde é que vive
o jardineiro

(que procurava
para me podar
a ligustrina),

mas porque os teus olhos
me fizeram distrair
do caminho.


(Trad. A.M.)

.

27.5.23

Manuel Moya / Xi Shuao (Barco)




BARCO

 

Como un barco que se alejara río abajo
cargado de maduros, olorosos frutos,
así abandonáis mi ciudad bellísima,
la de plateadas cúpulas.


Xi Shuao Quan



Como um barco que se afastasse rio abaixo,
carregando maduros, olorosos frutos,
assim deixais minha cidade belíssima,
a de prateadas cúpulas.


(Trad. A.M.)

_________________

- Manuel Moya, o grande poeta e excelentíssimo escritor de Fuenteheridos (Huelva), vai somando obras e heterónimos: Violeta C. Rangel, Umar Abass, Xi Shuao Quan.

.

25.5.23

Valerio Magrelli (Desliza a caneta)




SCIVOLA LA PENNA

 

 verso l’inguine della pagina,
e in silenzio si raccoglie la scrittura.
Questo foglio ha i confini geometrici
di uno stato africano, in cui dispongo
i filari paralleli delle dune.
Ormai sto disegnando
mentre racconto ciò
che raccontando si profila.
È come se una nube
arrivasse ad avere
forma di nube.

Valerio Magrelli

 

Desliza a caneta
para a fímbria da página
e em silêncio se recolhe a escrita.
Esta folha tem os limites exactos
de um estado africano, onde disponho
a formação paralela das dunas.
Agora eu desenho
enquanto conto aquilo
que contando se figura.
É como se uma nuvem
chegasse a ter
forma de nuvem.

(Trad. A.M.)

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23.5.23

Cecilia Casanova (Verão)




VERANO

 

Hagamos cuenta
que el invierno
jamás podrá alcanzarnos
Aunque te confieso
que me habría encantado
oír otra lluvia contigo


Cecilia Casanova

 

 

Façamos de conta
que o inverno
nunca mais nos apanha
Embora, confesso,
bem gostasse de ouvir
outra vez a chuva contigo


(Trad. A.M.)

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22.5.23

Carlos Sahagún (Noite cerrada)




NOCHE CERRADA

 

Fue en la infancia, a la vera de los caminos, en el humo perdido
de los barcos que se alejaron.
Con ellos se marchaba mi corazón, con rumbo cierto
de eternidad. Y más allá, donde nuestra mirada no llegaba,
por pequeña o por triste, algo nos sostenía.
Dios, el abuelo de los niños, repartiendo
las gaviotas por el azul sin límites, estaba con nosotros
de sol a sol, como los viejos labradores,
y dejaba su mano cansada en nuestros hombros.
Por qué pensar en cosas tristes. Mis padres
volvían del trabajo con ira, se vivía mal en casa,
eran tiempos difíciles y oscuros.
Y, sin embargo, vi palomas, estoy cierto, tuve apego a las
atareadas de mi madre,
directamente conocí la vida
como algo, más o menos alegre, que no tenía final.
Yo siempre tuve un alma navegante
y una gran esperanza.
Desde el punto de vista de aquel niño
todo era claro y mañanero, quiero decir, todo era
mentira, puro engaño. Tú no estabas allí,
ni aquí, a la vera de los caminos, ni en el humo perdido
de los barcos. Un muchacho lloraba
frente al acantilado, bajo la dura enseña
de la noche sin Dios.

Carlos Sahagún

 

 

Foi na infância, à beira dos caminhos, no fumo perdido
dos barcos a afastar-se.
Com eles ia meu coração, com rumo certo
de eternidade. E mais além, onde o olhar não chegava,
por pequeno ou por triste, algo nos sustinha.
Deus, o avô das crianças, repartindo as gaivotas
no azul sem limites, estava connosco
de sol a sol, como os velhos agricultores,
e punha-nos no ombro sua mão cansada.
Para quê pensar em coisas tristes? Meus pais
voltavam do trabalho maldispostos, vivia-se mal em casa,
eram tempos negros e difíceis.
E todavia vi pombas, estou certo,
seguia a lida de minha mãe,
conheci a vida como algo,
mais ou menos alegre, que não tinha fim.
Eu tive sempre uma alma errante
e uma grande esperança.
Do ponto de vista desse menino
tudo era claro e matinal, ou seja, tudo era
mentira, engano puro. Tu não estavas lá,
nem aqui, à beira dos caminhos, nem no fumo perdido
dos barcos. Um moço chorava,
diante da falésia, sob o estandarte
da noite sem Deus.


(Trad. A.M.)

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20.5.23

Giuseppe Ungaretti (Soldados)




SOLDATI

 

Si sta come
d’autumno
sugli alberi
le foglie


Giuseppe Ungaretti

 

 

Estamos como
no outono
as folhas
nas árvores

(Trad. A.M.)

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18.5.23

Carina Sedevich (Algumas lâminas)




Unas láminas de sarro se desprenden
y golpean las paredes de mi jarra.
Pienso en brillantes filamentos de mica
ocultos en la arena de los ríos.
Pienso en las mangas mojadas
que los poetas chinos
prefieren nombrar para no hablar
de sus lágrimas.

Carina Sedevich



Algumas lâminas de sarro desprendem-se
e batem nas paredes da jarra.
E eu penso em filamentos brilhantes de mica
ocultos na areia dos rios.
Penso nas mangas molhadas
que os poetas chineses
preferem nomear para não falarem
das suas lágrimas.

(Trad. A.M.)

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17.5.23

Berna Wang (Despedida-IV)



 

DESPEDIDA-IV

 

Aún tuve suerte:
al menos amaste mi cuerpo,
aunque fuera con la desesperanza
de la última oportunidad.
Aún tuviste suerte:
al menos amé tu cuerpo,
aunque fuera con la ingenuidad
de la primera vez.

 
Berna Wang 

 

Ainda tive sorte,
ao menos amaste meu corpo,
com o desespero embora
da última ocasião.
Ainda tiveste sorte,
ao menos amei teu corpo,
com a ingenuidade embora
da primeira vez.
 

(Trad. A.M.)

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15.5.23

Francisco Duarte Mangas (Notícia breve)




NOTÍCIA BREVE

 

vai construir-se uma 
fábrica para lavagem 
(a seco), desintoxica-
ção e apuro das pala-
vras ainda possíveis.


Francisco Duarte Mangas

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13.5.23

Benjamín Prado (Instruções para te não sentir a falta)




Instruções para te não sentir a falta:

Penso na coisa mais linda
que me disseste.
E em que era mentira.


Benjamín Prado

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