21.4.08

António Reis (Sei)








Sei
ao chegar a casa
qual de nós
voltou primeiro do emprego
.
.
.
Tu
se o ar é fresco
.
.
.
eu
se deixo de respirar
subitamente

.

ANTÓNIO REIS
- Novos Poemas Quotidianos,
Porto [1959].





Fonte: António Reis
.
.
Consultar: Wikipedia
.
.

18.4.08

Olhar (21)











Córdova

(Espanha)

.

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Raul Brandão (Amargor)






O que sei de belo, de grande ou de útil, aprendi-o nesse tempo: o que sei das árvores, da ternura, da dor e do assombro, tudo me vem desse tempo…

Depois não aprendi coisa que valha.

Confusão, balbúrdia e mais nada.

Vacuidade e mais nada.

Figuras equívocas ou, com raras excepções, sentimentos baços.

Amargor e mais nada.

.

- RAUL BRANDÃO, Memórias, I, prefácio.
.
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15.4.08

José Bergamín (Água solo es el mar)





AGUA sólo es el mar; agua es el río,
Agua el torrente, y agua el arroyuelo.
Pero la voz que en ellos habla y canta
No es del agua, es del viento.


Agua es la blanda nieve silenciosa
Y el mundo bloque de cristal de hielo.
Pero no es agua, es luz la voz que calla
Maravillosamente en su silencio.


Agua es la nube oscura y silenciosa,
Errante prisionera de los cielos.
Pero su sombra, andando por la tierra
Y el mar, no es agua, es sueño.


José Bergamín





Água apenas é o mar, água o rio,
Água a torrente e o arroio.
Mas a voz que neles canta
Não é da água, é do vento.


Água a branda neve silenciosa
E o mundo bloco de cristal de gelo.
Mas não é água, é luz a voz que cala
Maravilhosamente em seu silêncio.


Água a nuvem escura e silenciosa,
Errante prisioneira dos céus.
Mas sua sombra, andando por terra
E mar, não é água, é sonho.


(Trad. A.M.)

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Vitorino Nemésio (A concha)






A CONCHA




A minha casa é concha. Como os bichos
Segreguei-a de mim com paciência:
Fachada de marés, a sonho e lixos,
O horto e os muros só areia e ausência.


Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda, vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.


E telhados de vidro, e escadarias
Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!
Lareira aberta ao vento, as salas frias.


A minha casa. . . Mas é outra a história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.



Vitorino Nemésio




Fonte: Jornal de Poesia

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Antes, aqui: Loa / Um verso

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10.4.08

Miguel Torga (Bambas e destravadas)





(Bambas e destravadas...)




E voltava à certeza anterior.

Infelizmente, as pálpebras, desanimadas das miragens sucessivas, recusavam-se a permanecer abertas.

Semelhantes a janelas de guilhotina, bambas e destravadas nas corrediças, mal se descuidava, fechavam-se obstinadas.

Num arrepio tímido, o resto do corpo acompanhava aquele desertar, e pedia em todas as posições o repouso da enxerga habitual.



- MIGUEL TORGA, Vindima, XXXIV, in medio.

Um verso (43)

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Um verso de Manoel de Barros
(de “O Guardador de Águas”):




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Poeta é um ente que lambe as palavras e depois se alucina.
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7.4.08

Mário Quintana (Poeminha do contra)





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POEMINHA DO CONTRA







Todos esses que aí estão
atravancando meu caminho,
eles passarão...
eu passarinho!





Mário Quintana
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Olhar (20)



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La Alhambra

Granada

(Espanha)





4.4.08

Alberto Pimenta (Sugestão)





SUGESTÃO




já tentaste praticar o bem
fazendo mal?
.
.
já tentaste praticar o mal
fazendo bem?
.
.
já tentaste praticar o bem
fazendo bem?
.
.
já tentaste praticar o mal
fazendo mal?
.
.
já tentaste praticar o bem
não fazendo nada?
.
.
já tentaste praticar o mal
fazendo tudo?
.
.
já tentaste praticar tudo
não fazendo nada?
.
.
e o contrário, já tentaste?
já?
.
.
seja qual for a tua resposta,
não sei que te diga.




Alberto Pimenta
.
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2.4.08

Raul Brandão (A que se reduz a vida?)





A que se reduz afinal a vida?

A um momento de ternura e mais nada…

De tudo o que se passou comigo só conservo a memória intacta de dois ou três rápidos minutos.

Esses sim!

Teimam, reluzem lá no fundo e inebriam-me, como um pouco de água fria embacia o copo.

Só de pequeno retenho impressões tão nítidas como na primeira hora: ouço hoje como ontem os passos de meu pai quando chegava a casa; vejo sempre diante dos meus olhos a mancha azul ferrete das hidrângeas que enchiam o canteiro da parede.

O resto esvai-se como fumo.

Até as figuras dos mortos, por mais esforços que faça, cada vez se afastam mais de mim…



- RAUL BRANDÃO, Memórias, I, prefácio.
.
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Fernando Pessoa (Liberdade)






LIBERDADE





Ai que prazer
não cumprir um dever.
Ter um livro para ler
e não o fazer!
Ler é maçada,
estudar é nada.
O sol doira sem literatura.
O rio corre bem ou mal,
sem edição original.
E a brisa, essa, de tão naturalmente matinal
como tem tempo, não tem pressa...


Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.


Quanto melhor é quando há bruma.
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!


Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol que peca
Só quando, em vez de criar, seca.


E mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças,
Nem consta que tivesse biblioteca...



Fernando Pessoa
.
.

31.3.08

António Botto (Se fosses luz)






Se fosses luz serias a mais bela
de quantas há no mundo: - a luz do dia!
- Bendito seja o teu sorriso
que desata a inspiração
da minha fantasia!


Se fosses flor serias o perfume
concentrado e divino que perturba
o sentir de quem nasce para amar!
- Se desejo o teu corpo
é porque tenho dentro de mim
a sede e a vibração de te beijar!


Se fosses água - música da terra,
serias água pura e sempre calma!
- Mas de tudo que possas ser na vida,
só quero, meu amor, que sejas alma!



António Botto




Antes, aqui: Anda, vem / Nunca te foram (+sinopse)

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Mario Benedetti (Táctica e estratégia)





TÁCTICA E ESTRATEGIA
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.
.
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Mi táctica es
mirarte
aprender como sos
quererte como sos
.
.
.
.
mi táctica es
hablarte
y escucharte
construir con palabras
un puente indestructible
.
.
.
.
mi táctica es
quedarme en tu recuerdo
no sé cómo ni sé
con qué pretexto
pero quedarme en vos
.
.
.
.
mi táctica es ser franco
y saber que sos franca
y que no nos vendamos
simulacros
para que entre los dos
no haya telón
ni abismos
.
.
.
.
mi estrategia es
en cambio
más profunda y más
simple
mi estrategia es
que un día cualquiera
no sé cómo ni sé
con qué pretexto
por fin me necesites.



Mario Benedetti
.
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.
.
Fonte: EPDLP
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28.3.08

Miguel Torga (Depois de ceia)


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(Depois da ceia...)
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.
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Depois da ceia, o pessoal, extenuado, esfarrapado e imundo, cabeceava pelos cantos, ainda à espera de mais trabalho.
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Ganho o dia aos cestos, era preciso ganhar a noite no lagar, num chouto que a princípio dava gosto e alegria, e se prolongava numa tortura desesperante.
.
O sono parava os nervos e os músculos, e a vontade tinha de protestar, de combater, de movimentar à sobreposse as articulações, mais perras que dobradiças enferrujadas.
.
Ás tantas, erguer uma perna tornava-se um sacrifício.
.
O resto do corpo quase que desanimava perante a obstinada renúncia daquela parcela amortecida, inerte e pesada na espessura do mosto.
.
Mas tudo na vida acaba, e a penitência não fugia à regra.
.
Medida no relógio do Jacinto, com rigor de quem pesa oiro, a hora almejada de despegar chegava finalmente.
.
E, num automatismo resignado, lá iam procurar na palha forças para o dia seguinte.



- MIGUEL TORGA, Vindima, XXXIV, princípio.
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Jorge de Sena (Morra o bispo)






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MORRA O BISPO E MORRA O PAPA





Morra o bispo e morra o papa
maila sua clerezia.
Ai rosas de leite e sangue.
que só a terra bebia!
Morram frades, morram freiras.
maila sua virgaria.
Ai rosas de sangue e leite.
que só a terra bebia!
Morra o rei e morra o conde.
maila toda fidalguia.
Ai rosas de leite e sangue.
que só a terra bebia!
Morram meirinho e carrasco.
maila má judicaria.
Ai rosas de sangue e leite.
que só a terra bebia!
Morra quem compra e quem vende,
maila toda a usuraria.
Ai rosas de leite e sangue.
que só a terra bebia!
Morram pais e morram filhos.
maila toda filharia.
Ai rosas de sangue e leite.
que só a terra bebia!
Morram marido e mulher.
maila casamentaria.
Ai rosas de leite e sangue,
que só a terra bebia!
Morra amigo, morra amante.
mailo amor que se perdia.
Ai rosas de sangue e leite,
que só a terra bebia!
Morra tudo, minha gente.
vivam povo e rebeldia.
Ai rosas de leite e sangue.
que só a terra bebia!




JORGE DE SENA
Visão perpétua (1964)
.
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25.3.08

Jaime Sabines (Dona Luz-1)


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DOÑA LUZ



I

Acabo de desenterrar a mi madre, muerta hace tiempo.
Y lo que desenterré fue una caja de rosas:
frescas, fragantes, como si hubiesen estado en un invernadero.
Qué raro es todo esto!



JAIME SABINES
Maltiempo (1972)
.
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23.3.08

Olhar (19)









"Sol na portela é noite"...

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Felgueiras (aliás, Beirós)

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Eduardo Pitta (Gosto da claridade)





Gosto da claridade penumbrosa
de adolescentes indecisos.


Gosto deles assim lentos
inaptos, vorazes, sedentos
do labor meticuloso e da
antiquíssima sabedoria de outras mãos.


Anjos devastados, senhores do caos,
é para longe que partem.


O primeiro dos vinhos, bebido
da ânfora para a boca, alerta-os —

regressam agora às palavras e
aos gestos de antigamente.


Cumprem-se no jogo.
E ninguém suspeita de nada.



Eduardo Pitta



Fonte: Eduardo-Pitta

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21.3.08

Raul Brandão (Não me arrependo)







Se tivesse de recomeçar a vida, recomeçava-a com os mesmos erros e paixões.

Não me arrependo, nunca me arrependi.

Perdia outras tantas horas diante do que é eterno, embebido ainda neste sonho puído.

Não me habituo: não posso ver uma árvore sem espanto, e acabo desconhecendo a vida e titubeando como comecei a vida.

Ignoro tudo, acho tudo esplêndido, até as coisas vulgares: extraio ternura de uma pedra.

Não sei - nem me importo - se creio na imortalidade da alma, mas do fundo do meu ser agradeço a Deus ter-me deixado assistir um momento a este espectáculo desabalado da vida.

Isso me basta.

Isso me enche: levo-o para a cova, para remoer durante séculos e séculos até ao juízo final.



- RAUL BRANDÃO, Memórias, I, prefácio.



Consultar: Vidas-lusófonas (perfil) / DGLB (bio+biblio+linques)

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Albano Martins (Entras)






Entras
em mim descalça, vulnerável
como um alvo próximo, ferida
nos joelhos e nas coxas. Pelo tacto
nos conhecemos, é essa luz
oblíqua que nos cega. E te pertenço
e me pertences como
a lâmina
à bainha, a chama
ao pavio.



Albano Martins


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18.3.08

Claribel Alegria (Pequena morte)






PEQUEÑA MUERTE


.
.
Fue una pequeña muerte
tu partida.
Una muerte pequeña que me crece
cuando imagino
a veces que estás cerca
y me obstino en dar vueltas
por las calles
y regreso a mi casa
con la lluvia
cayendo y me asalta tu voz
en la noche
sin horas.


Claribel Alegria







Foi uma pequena morte
a tua partida.
Uma morte pequena que me cresce
quando imagino
por vezes que estás perto
e me obstino em dar voltas
pelas ruas
e regresso a casa
com a chuva
caindo e me assalta a tua voz
na noite
sem horas.



(Trad. A.M.)
.
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Miguel Torga (Dezoito asas rumorosas)






(Dezoito asas rumorosas...)
.
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O primeiro bando de perdizes roncou, e tirou-lhe duas.

No meio do silêncio contido, que a cada momento ameaçava romper-se, o cão parado, a espingarda em meia pontaria, os pés fincados no chão mas tensos como molas, uma gota misteriosa caiu no copo e fê-lo transbordar.

Dezoito asas rumorosas ergueram-se do carqueijal, o Nilo saltou, os tiros partiram, e resultou daquela explosão de força o aniquilamento inevitável de dois seres.

Tudo certo e perfeito.

O catastrófico, o absurdo, fora a continuação da inércia.

A verdadeira morte seria a vida parada, cada respiração a encolher-se, cautelosa.

Assim é que o caçador se sentiria criminoso, o perdigueiro fera, as perdizes vítimas.



- MIGUEL TORGA, Vindima, XIV, princípio.
.
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16.3.08

Bertolt Brecht (Do rio)






Do rio que tudo arrasta se
diz que é violento
Mas ninguém diz violentas as
margens que o comprimem



Bertolt Brecht







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13.3.08

Um verso (42)
















Um verso de Casimiro B.
(mas tem mais…):






O amor é antes de mais um desejo,que nunca se esgota.







Fonte: Sítio-of.
.

Pedro Mexia (Aprendizagem)






APRENDIZAGEM
(decalque de e. e. cummings)





o eclesiastes disse-

-lhe:ele não podia
acreditar (nietzche

disse-lhe;ele
não queria acreditar
nisso)cesare

pavese
certamente disse-
-lhe,e jacques
(sim

senhora)
brel
e até
(acredite
ou
não)você
lhe disse: eu disse-
-lhe;nós dissemos-lhe
(ele não acreditou, não
senhor)foi preciso
que o céu lhe caísse
muito justa-

mente
em cima da cabeça:para dizer-

-lhe

.
.
.
[n. do a.: “a partir da versão portuguesa do poema ‘plato told’ por Jorge Fazenda Lourenço”]




PEDRO MEXIA
Avalanche, edições Quasi (2001)
.

10.3.08

León Felipe (Sé todos los cuentos)








SÉ TODOS LOS CUENTOS





Yo no sé muchas cosas, es verdad.
Digo tan sólo lo que he visto.
Y he visto:
Que la cuna del hombre la mecen con cuentos,
que los gritos de angustia del hombre los ahogan
con cuentos,
que el llanto del hombre lo taponan con cuentos,
que los huesos del hombre los entierran con cuentos,
y que el miedo del hombre...
ha inventado todos los cuentos.
Yo no sé muchas cosas, es verdad,
pero me han dormido con todos los cuentos...
y sé todos los cuentos.





León Felipe





Eu não sei muitas coisas, é verdade.
Falo apenas daquilo que vi.
E eis o que vi:
que o berço do homem embalam-no com cantigas,
que os gritos de angústia do homem afogam-nos
com cantigas,
que o pranto do homem tampam-no com cantigas,
que os ossos do homem enterrram-nos com cantigas,
e que o medo do homem…
inventou as cantigas todas.
Eu cá não sei muitas coisas, é verdade,
mas adormeceram-me com todas as cantigas…
e conheço as cantigas todas.


(Trad. A.M.)
.
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Fontes: Wikipedia / Cervantes (Español del êxodo e del llanto - 1939) /Tinet (19p) / EPDLP (bio+2p+audio) / A-media-voz (27p) / Poesi.as (18p) / Portal-de-poesia (linques)

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3.3.08

Rabindranath Tagore (Se não falas)






Se não falas, vou encher o meu coração
Com o teu silêncio, e aguentá-lo.
Ficarei quieto, esperando, como a noite
Em sua vigília estrelada,
Com a cabeça pacientemente inclinada.




A manhã certamente virá,
A escuridão se dissipará, e a tua voz
Se derramará em torrentes douradas por todo o céu.




Então as tuas palavras voarão
Em canções de cada ninho dos meus pássaros,
E as tuas melodias brotarão
Em flores por todos os recantos da minha floresta.



Rabindranath Tagore




Fontes: Starnews (bio+10p) / Cuidar-do-ser (6p) / Nobel (bio) / Toshiko (10p) / Wikipedia / Indolink (20p)


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1.3.08

Adélia Prado (Corridinho)






CORRIDINHO





O amor quer abraçar e não pode.
A multidão em volta,
com seus olhos cediços,
põe caco de vidro no muro
para o amor desistir.
O amor usa o correio,
o correio trapaceia,
a carta não chega,
o amor fica sem saber se é ou não é.
O amor pega o cavalo,
desembarca do trem,
chega na porta cansado
de tanto caminhar a pé.
Fala a palavra açucena,
pede água, bebe café,
dorme na sua presença,
chupa bala de hortelã.
Tudo manha, truque, engenho:
é descuidar, o amor te pega,
te come, te molha todo.
Mas água o amor não é.





Adélia Prado


Fonte: Releituras
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Miguel Torga (Um trilo de flauta)






(Um trilo de flauta...)




Um trilo de flauta, débil e puro, chegou-lhe então do alto, num prelúdio. Impreciso e tímido, hesitava como se receasse saltar os valeiros.

Que gelo vinha do passado, e que doce calor havia naquela hora! A mãe, seca e convencional; o pai, irrascível e grosseiro; o irmão, desconsolado e bisonho. Neste areal, ela, a crescer desiludida. E de repente o deserto transfigurava-se, e os sentidos descobriam nele, repassada de frescura, uma planície de promissão!

Sem pensar que ia colhê-lo, caminhou hipnotizada ao encontro do som.

Vazio de ternura e amor, o corpo pedia-lhe a sua parte no banquete do mundo; a intimidade duma presença querida, o aconchego dum lar feliz…

Alta e acariciadora, a voz da flauta chamava.


- MIGUEL TORGA, Vindima, XIII, in medio.


27.2.08

Olhar (17)









Albergaria da Serra

(Freita)

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Ruy Belo (O Portugal futuro)



(Foto)




O PORTUGAL FUTURO





o portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro





Ruy Belo
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25.2.08

Eugénio de Andrade (O sal da língua)






O SAL DA LÍNGUA

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Escuta, escuta: tenho ainda
uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém - mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?
Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco
mais. Palavras que te quero confiar.
Para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.
Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua.

.
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EUGÉNIO DE ANDRADE
O sal da língua



Fonte: Fundação Eugénio A.
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24.2.08

Jaime Sabines (Algo sobre a morte do velho Sabines)




(Algo sobre a morte do velho Sabines…)


PRIMERA PARTE


I

Déjame reposar,
aflojar los músculos del corazón
y poner a dormitar el alma
para poder hablar,
para poder recordar estos días,
los más largos del tiempo.

Convalecemos de la angustia apenas
y estamos débiles, asustadizos,
despertando dos o tres veces de nuestro escaso sueño
para verte en la noche y saber que respiras.
Necesitamos despertar para estar más despiertos
en esta pesadilla llena de gentes y de ruídos.

Tu eres el tronco invulnerable y nosotros las ramas,
por eso es que este hachazo nos sacude.
Nunca frente a tu muerte nos paramos
a pensar en la muerte,
ni te hemos visto nunca sino como la fuerza y la alegría.

No lo sabemos bien, pero de pronto llega
un incesante aviso,
una escapada espada de la boca de Dios
que cae y cae y cae lentamente.
Y he aquí que temblamos de miedo,
que nos ahoga el llanto contenido,
que nos aprieta la garganta el miedo.
Nos echamos a andar y no paramos
de andar jamás, después de medianoche,
en ese pasillo del sanatorio silencioso
donde hay una enfermera despierta de ángel.
Esperar que murieras era morir despacio,
estar goteando del tubo de la muerte,
morir poco, a pedazos.

No ha habido hora más larga que cuando no dormías,
ni túnel más espeso de horror y de miseria
que el que llenaban tus lamentos,
tu pobre cuerpo herido.


Jaime Sabines

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21.2.08

W. B. Yeats (Se eu tivesse)








SE EU TIVESSE...





Se eu tivesse as sedas bordadas do céu,
com bainhas de luz de ouro e de prata,
as sedas azuis e sombrias e escuras,
da noite e da luz e da meia-luz,


deitava-as todas aos teus pés.


Mas eu sou pobre e só tenho os meus sonhos.
Deitei-os todos aos teus pés.
Pisa com cuidado,
é nos meus sonhos que estás a pisar.



W. B. Yeats
(trad. Miguel Esteves Cardoso)




Lugares: Alguma-poesia (bio+2p) / Poets.org (13p) / Arlindo Correia (3+1p) / Wikipedia / Online.Lit. (ficção+teatro+contos+pp. muitos) / Poetry-archive (pp. muitos) / Sítio oficial (tudo+algo)


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19.2.08

José Emílio Pacheco (Miseria de la poesía)





MISERIA DE LA POESÍA






Me pregunto qué puedo hacer contigo
Ahora que han pasado tantos años,
Cayeron los imperios,
La creciente arrasó con los jardines,
Se borraron las fotos
Y en los sitios sagrados del amor
Se levantan comercios y oficinas
(con nombres en inglés naturalmente).




Me pregunto qué puedo hacer contigo
Y hago un pseudo poema
Que tú nunca leerás
- o si lo lees,
En vez de una punzada de nostalgia,
Provocará tu sonrisita crítica.



José Emílio Pacheco







Pergunto-me que posso fazer contigo
agora, tantos anos passados,
caíram os impérios,
a maré arrasou os jardins,
apagaram-se as fotos
e nos lugares sagrados do amor
erguem-se lojas e escritórios
(com nomes ingleses, naturalmente).




Pergunto-me que posso fazer contigo
e faço um pseudo poema
que tu nunca lerás
- ou, se leres,
em vez de uma ponta de saudade,
despertará o teu risinho crítico.


(Trad. A.M.)



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Miguel Torga (Dormiam como lages)






No retalho da encosta vindimada o luar avolumava a tristeza das videiras sem uvas.

As vides erguiam para o céu as varas vazias, desfolhadas, como num protesto.

A terra pisada e babada de sumo tinha também um ar violado e descomposto.

Ao lado do talhão que se seguia, inteiro, túmido e fechado, quase todo de bastardo com bagos unidos e perfumados, o que fora colhido parecia um bocado maldito do mundo, por onde a desgraça passara.

À medida que as navalhas avançavam, as vinhas iam perdendo a graça, a força e a virgindade.

E com esta desolação morria também um pouco da alegria dos vindimadores, que chegavam da Montanha sem sono, a cantar e a dançar, e que agora dormiam como lajes.



- MIGUEL TORGA, Vindima, VI, princípio.
.
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17.2.08

Mário Cesariny (Discurso - XVII)





DISCURSO SOBRE A REABILITAÇÃO DO REAL QUOTIDIANO (xvii)





eu em 1951 apanhando (discretamente) uma beata
(valiosa)
num café da baixa por ser incapaz coitados deles
de escrever os meus versos sem realizar de facto
neles, e à volta sua, a minha própria unidade
- fumar, quere-se dizer.




esta, que não é brilhante, é que ninguém esperava
ver num livro de versos. Pois é verdade. Denota
a minha essencial falta de higiene (não de tabaco)
e uma ausência de escrúpulo (não de dinheiro)
notável.



o Armando, que escreve à minha frente
o seu dele poema, fuma também.
fumamos como perdidos escrevemos perdidamente
e nenhuma posição no mundo (me parece) é mais alta
mais espantosa e violenta incompatível e recon-
fortável
do que esta de nada dar pelo tabaco dos outros
(excepto coisas como vergonha, naturalmente,
e mortalhas)




(que se saiba) é esta a primeira vez
que um poeta escreve tão baixo (ao nível das priscas
dos outros)
aqui, e em parte mais nenhuma, é que cintila o tal
condicionalismo
de que há tanto se fala e se dispõe
discretamente (como quem as apanha).




sirva tudo de lição aos presentes e futuros
nas taménidas (várias) da poesia local.
Antes andar por aí relativamente farto
antes para tabaco que para cesariny
(mário) de vasconcelos.




MÁRIO CESARINY
manual de prestidigitação
assírio e alvim (1981)
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13.2.08

Um verso (41)


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Um verso de J.L. Panero
(filho de Panero, irmão de Panero):



Resgatando palavras, pequenas ilhas de lucidez ou ternura.



Juan Luis Panero
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