4.11.19

Uberto Stabile (Exigências da idade)





EXIGENCIAS DE LA EDAD


Dicen que lo último que se pierde es la esperanza,
 pero si ya has perdido el sentido del humor,
 ¿de qué te sirve la esperanza?
 Te doblo la edad
 duermo la mitad de horas que tu
 fumo tres veces más
 gano cada día la paciencia que tu pierdes a diario,
 y aún piensas que somos almas gemelas.
 Después del amor siempre llega el sueño
 y mientras tu roncas yo devoro cigarrillos,
 tu ansiedad tiene un límite
 la mía un final.
 Cuando pierdas el sueño
descubrirás que el amor es siempre
 otra cosa,
 lo que para ti es un mito
 para mi es sólo una leyenda.
 Es la edad la que no perdona
 no admite créditos, devoluciones ni transferencias,
 podemos compartir una vida
 pero de la muerte nos tendremos que reír a solas.


Uberto Stabile




Dizem que a última coisa a perder-se é a esperança,
mas se tiveres perdido o sentido de humor,
de que te serve a esperança?
Tenho o dobro da idade
durmo metade de ti
fumo o triplo
ganho dia a dia a paciência que tu perdes,
e ainda dizes que somos almas gémeas.
Após o amor vem sempre o sono
e enquanto tu roncas eu devoro cigarros,
a tua ansiedade tem um limite
a minha tem um termo.
Quando perderes o sono
verás que o amor é sempre outra coisa,
o que é para ti um mito
para mim é só uma lenda.
É a idade que não perdoa
não admite créditos, devoluções, nem transferências,
podemos partilhar a vida
mas da morte temos de nos rir a sós.


(Trad. A.M.)

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2.11.19

Tom Maver (Voltei a casa hoje)





Hoy volví a mi casa
como si fuera el sitio
más lejano del mundo.

Por las calles de todos los días
por primera vez y para siempre
no sabía a dónde iba a parar
ni qué dejaba atrás.

Estaba cruzando el desierto
de las cosas, que de tan conocidas
se vuelven invisibles o infinitas
a la mirada del recién llegado.

Fue el viaje más largo de mi vida
y no puedo decir con certeza a dónde llegué
ni quién era el extraño que entraba conmigo.


Tom Maver




Voltei a casa hoje
como se fosse o lugar
mais distante do mundo.

Pelas ruas de todos os dias
pela vez primeira
não sabia para onde ia
nem o que deixava para trás.

Atravessava o deserto
das coisas, que se tornam
de tão conhecidas invisíveis ou infinitas
aos olhos de quem chega.

Foi a viagem mais longa da minha vida
e não posso dizer com certeza
onde é que cheguei nem quem era
o estranho que entrava comigo.

(Trad. A.M.)


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1.11.19

João de Mancelos (Alguns outros)





ALGUNS OUTROS, PENSANDO EM AL BERTO



alguns lambem as feridas,
outros amam a céu aberto.

alguns vão, de braço dado com o vento,
outros vivem nos quartos alugados
da esperança.

alguns adormecem, em línguas de fogo,
outros dançam à noite
com estranhas. `

alguns escrevem para lembrar ítaca,
outros esqueceram o mapa de si.
alguns ficam.

os melhores partem.
batendo em corações de lata,
e bebendo a noite em cada beijo.


João de Mancelos

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30.10.19

Susana March (Amor)





AMOR


Me dolerás todavía muchas veces.
Iré apartando sueños
y tú estarás al fondo de todos mis paisajes.
Tú con tu misterio y tu extraña victoria.

Amor, ¿quién te ha dado esa fuerza de pájaro,
esa libre arrogancia
de mirar las estrellas por encima del hombro?
¿Quién eres que destruyes
mi corazón y puedo, sin embargo, existir?
¿Se vive en la muerte? … ¿Se vive
con el alma en desorden y la carne
desmoronándose en el vacío?

Nunca te tuve miedo
y, sin embargo, ahora te rehuyo
porque eres como un dios que me hace daño
cada vez que me mira.

Abandonaré todo lo que me estorba,
todo lo que dificulta la huida
y escaparé por la noche adelante,
temerosa de ti, temerosa
de esta grandeza que intuyo,
de este fulgor, de este cielo
que palpita en tus manos abiertas.
Me dolerás muchas veces
y cada vez me extasiaré  en mi daño.


Susana March





Vais doer-me ainda muitas vezes.
Eu irei separando sonhos
e tu estarás no fundo das minhas paisagens,
tu com teu mistério, tua estranha vitória.

Quem te deu, amor, essa força de pássaro,
essa livre arrogância
de contemplar as estrelas por cima do ombro?
Quem és tu, que me desfazes o coração,
podendo eu todavia existir?
Será que se vive na morte? Vive-se
com a alma em desordem e a carne
a desmoronar-se no vazio?

Nunca tive medo
e, não obstante, agora fujo de ti
por seres como um deus que me faz mal
de cada vez que me olha.

Tudo o que me tolhe deixarei,
tudo o que me estorva a fuga,
e escaparei pela noite fora,
temerosa de ti, temerosa
desta grandeza que intuo,
deste fulgor, deste céu
que te palpita nas mãos abertas.
Vais doer-me ainda muitas vezes
e de cada vez hei-de extasiar-me com meu mal.

(Trad. A.M.)


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29.10.19

Susana Benet (Névoa)




NIEBLA


Llegan las sombras.
El jardín se ha apagado en un instante.
Inmóviles las hojas en sus ramas
se sumergen en la extraña quietud
de los troncos dormidos, en el súbito
silencio de las aves. Tiene el aire
color de despedida, nada suena
ni tiembla ni se ondula, todo flota
en la bruma estancada del ocaso.
No hay luz en las ventanas ni una voz
que traspase la grávida penumbra.
Hay figuras que avanzan y se pierden
en la niebla. Hay muertos que caminan.


Susana Benet




Chegam as sombras
e o jardim apaga-se num instante.
As folhas imóveis nos ramos
mergulham na estranha quietude
dos troncos adormecidos, no súbito 
silêncio das aves. Tinge o ar
a cor da despedida, nada soa
nem estremece, nem ondula, tudo bóia
na bruma estancada do ocaso.
Não há luz nas janelas, nem uma voz
que trespasse a grávida penumbra.
Há figuras que avançam e se perdem
na névoa. Há mortos que caminham.


(Trad. A.M.)

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27.10.19

Antonio Cicero (O fim da vida)





O FIM DA VIDA



Conhece da humana lida
a sorte:
o único fim da vida
é a morte
e não há, depois da morte
mais nada.
Eis o que torna esta vida
sagrada:
ela é tudo e o resto, nada.


Antonio Cicero

[Acontecimentos]

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25.10.19

Raúl Gustavo Aguirre (És, agora és)





Eres, ahora eres, nostalgia de lo ido,
ausencia de la ausencia, olvido del olvido.
Te busco en otros seres: eres, ahora eres,
aquello que no eres.

¿Te he de encontrar un día? No hay día por delante.
Sólo esta noche, con el agravante
de la continuidad en la pregunta.

Estamos atrapados. La eternidad se agota.
La recta infinitud está doblada y rota.
Eres, ahora eres, toda la nada junta.


Raúl Gustavo Aguirre




És, agora és, saudade do já vivido,
ausência da ausência, olvido do olvido.
Busco-te em outros seres: és, agora és,
aquilo que já não és.

Encontrar-te-ei algum dia? Não há dia por diante,
só esta noite, com a agravante
de se repetir a pergunta.

Estamos apanhados. A eternidade esgotada.
A recta infinitude rompida e rasgada.
És, agora és, nada vezes nada.

(Trad. A.M.)

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24.10.19

Carlos Salem (Testamento de dúvidas)





TESTAMENTO DE DUDAS



¿Que será de estos textos míos, tan ajenos,
el día que ya no esté para nombrarlos?
¿Quién recogerá del suelo los versos
cuando se deshoje el tiempo que me toca?

¿Calcularán mis descendientes unos improbables beneficios,
o negarán toda relación con este trilero de poemas
que sólo quiso meter la mano y la palabra bajo las faldas de la vida?
(y alguna vez lo hizo)

¿Disputarán mis amantes la provocación de una estrofa,
olvidando que amar es repetirse a uno mismo?
¿Organizarán un congreso de despechos y perdones
con los pechos al aire y las copas y las piernas en alto?
¿Lamentarán haber entregado sus favores a un autor
más preocupado del misterio de unas ingles
que del devenir de los mercados?

Por suerte no lo sabré. Por eso escribo. Por eso amo.
   (...)

Carlos Salem

[El huevo izquierdo]





O que será destes meus escritos, tão alheios,
no dia em que eu já cá não esteja para os nomear?
Quem apanhará do chão os versos
quando se desfolhar o tempo que me cabe?

Farão contas meus herdeiros de alguns improváveis benefícios,
ou negarão qualquer relação com este batoteiro de poemas
que quis só meter a mão e a palavra por baixo das saias da vida
(e conseguiu às vezes)?

Disputarão meus amores a provocação de uma estrofe,
esquecendo que amar não é mais do que repetir-se a si mesmo?
Organizarão um congresso de despeitas e perdões
com o peito ao vento e copos e pernas ao alto?
Lamentarão ter concedido seus favores a um autor
mais interessado no mistério de certas virilhas
do que no futuro dos mercados?

Não chegarei a sabê-lo, felizmente.
Por isso escrevo.
Por isso amo.

(Trad. A.M.)

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22.10.19

Gil T. Sousa (Aguarela)





AGUARELA



a beleza da árvore
que finge seguir o vento
quando ele passa

e os muros caiados
que guardam o sol
para quando nos falta

a água fresca
a respiração da janela larga
sobre o campo

e este caminho
que cresce tanto
até ser estrada

as mãos ainda abertas
para os frutos
e para as flores

os pássaros e o mundo
o tempo a rasgar-se
no corpo

no meu, no teu corpo


Gil T. Sousa

[Canal de poesia]

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21.10.19

Silvina Ocampo (Pressentimento)





PRESENTIMIENTO



Durante muchos días me seguiste.
En el canto del pájaro, en las sombras,
en las modulaciones del espacio:
aprendí a conocerte.
Yo sentía tu luz atravesarme
como una flecha de oro envenenada.
Te desobedecía arrepentida.
Me hablabas en secreto.
En los espejos rotos, en la tinta
azul de los cuadernos que dejabas
sobre la mesa de mi dormitorio.
Yo temblaba al mirarte, yo temblaba
como tiemblan las ramas reflejadas
en el agua movida por el viento.
Ahora que conozco tus señales,
tu piel y tus orejas, tu semblante,
no trataré de desobedecerte,
y me arrodillaré frente a tu imagen,
implacable sibila que me sigues.


Silvina Ocampo




Durante muitos dias me seguiste.
No canto do pássaro, nas sombras,
nas modulações do espaço:
aprendi a conhecer-te.
Sentia a tua luz a trespassar-me
como uma flecha de ouro envenenada.
Desobedecia-te contrafeita.
Murmuravas-me em segredo.
Nos espelhos quebrados, na tinta
azul dos cadernos que deixavas
sobre a mesa do meu quarto.
Estremecia ao ver-te, estremecia
como estremecem os galhos reflectidos
na água movida pelo vento.
Agora que conheço os teus sinais,
tua pele, tuas orelhas, teu semblante,
não intentarei desobedecer-te,
e venerarei a tua imagem,
implacável sibila que me segues.


(Trad. J.E.Simões)

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19.10.19

Rosario Castellanos (Agonia além do muro)





AGONIA FUERA DEL MURO



Miro las herramientas,
el mundo que los hombres hacen, donde se afanan,
sudan, paren, cohabitan.

El cuerpo de los hombres, prensado por los días,
su noche de ronquido y de zarpazo
y las encrucijadas en que se reconocen.

Hay ceguera y el hambre los alumbra
y la necesidad, más dura que metales.

Sin orgullo (¿qué es el orgullo? ¿Una vértebra
que todavía la especie no produce?)
los hombres roban, mienten,
como animal de presa olfatean,
devoran y disputan a otro la carroña.

Y cuando bailan, cuando se deslizan
o cuando burlan una ley o cuando
se envilecen, sonríen,
entornan levemente los párpados, contemplan
el vacío que se abre en sus entrañas
y se entregan a un éxtasis vegetal, inhumano.

Yo soy de alguna orilla, de otra parte,
soy de los que no saben ni arrebatar ni dar,
gente a quien compartir es imposible.

No te acerques a mí, hombre que haces el mundo,
déjame, no es preciso que me mates.
Yo soy de los que mueren solos, de los que mueren
de algo peor que vergüenza.

Yo muero de mirarte y no entender.


Rosario Castellanos

[Emma Gunst]




Olho as ferramentas,
o mundo que os homens fazem, em que se empenham,
suam, parem, coabitam.

O corpo dos homens, esmagado pelos dias,
sua noite de ronco e patada
e as encruzilhadas em que se reconhecem.

Há cegueira e a fome ilumina-os
e a necessidade, mais dura do que metal.

Sem orgulho (orgulho o que é? uma vértebra
que a espécie ainda não produz?)
os homens roubam, mentem,
farejam como predadores,
devoram e disputam ao outro a carniça.

E quando bailam, ou escorregam
ou fintam a lei, ou quando
se fazem ruins, sorriem,
abrem os olhos levemente, contemplam
o vazio a abrir-se-lhes nas entranhas
e dão-se a um êxtase vegetal, inumano.

Eu sou de alguma beira, de outra parte,
sou dos que não sabem dar nem tomar,
para quem partilhar não é possível.

Não te chegues a mim, homem que fazes o mundo,
deixa-me, não é preciso matares-me.
Eu sou daqueles que morrem sozinhos,
de algo pior que a vergonha.

Eu morro de te olhar e não entender.


(Trad. A.M.)

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17.10.19

Fernando Pessoa (Dai-me rosas e lírios)





Dai-me rosas e lírios,
Dai-me flores, muitas flores
Quaisquer flores, logo que sejam muitas...
Não, nem sequer muitas flores, falai-me apenas
Em me dardes muitas flores,
Nem isso... Escutai-me apenas pacientemente quando vos peço
Que me deis flores...
Sejam essas as flores que me deis...

Ah, a minha tristeza dos barcos que passam no rio,
Sob o céu cheio de sol!
A minha agonia da realidade lúcida!
Desejo de chorar absolutamente como uma criança
Com a cabeça encostada aos braços cruzados em cima da mesa,
E a vida sentida como uma brisa que me roçasse o pescoço,
Estando eu a chorar naquela posição.

O homem que apara o lápis à janela do escritório
Chama pela minha atenção com as mãos do seu gesto banal.
Haver lápis e aparar lápis e gente que os apara à janela, é tão estranho!
É tão fantástico que estas coisas sejam reais!
Olho para ele até esquecer o sol e o céu.
E a realidade do mundo faz-me dor de cabeça.

A flor caída no chão.
A flor murcha (rosa branca amarelecendo)
Caída no chão...
Qual é o sentido da vida?


Fernando Pessoa

[Arquivo Pessoa]

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16.10.19

Roque Dalton (Altas horas da noite)





ALTA HORA DE LA NOCHE



Cuando sepas que he muerto no pronuncies mi nombre
porque se detendrá la muerte y el reposo.

Tu voz, que es la campana de los cinco sentidos,
sería el tenue faro buscado por mi niebla.

Cuando sepas que he muerto di sílabas extrañas.
Pronuncia flor, abeja, lágrima, pan, tormenta.

No dejes que tus labios hallen mis once letras.
Tengo sueño, he amado, he ganado el silencio.

No pronuncies mi nombre cuando sepas que he muerto
desde la oscura tierra vendría por tu voz.

No pronuncies mi nombre, no pronuncies mi nombre,
cuando sepas que he muerto no pronuncies mi nombre.


Roque Dalton

[Desde la ciudad sin cines]




Quando souberes que morri não digas o meu nome
porque a morte se deterá e o repouso.

Tua voz, campainha dos cinco sentidos,
ténue farol buscado por minha névoa.

Quando souberes que morri, diz sílabas estranhas,
diz flor, abelha, lágrima, tormenta, pão.

Não deixes os lábios acharem minhas onze letras,
tenho sono, amei, ganhei direito ao silêncio.

Não digas o meu nome, não digas o meu nome,
quando souberes que morri não digas o meu nome.


(Trad. A.M.)

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14.10.19

Roger Wolfe (A invenção)





EL INVENTO



Organizas las palabras, las pones
una encima de otra, una debajo de otra,
una detrás de otra, como en una desenfrenada orgía
en la que por fin fornicas con quien quieres.
Por un momento tienes
al mundo por el cuello. Por un
momento. Es maravilloso.
Éste es el invento.
El invento.


Roger Wolfe




Organizas as palavras, põe-las
uma por cima de outra, uma por baixo de outra,
uma por trás de outra, como orgia desenfreada
em que por fim fornicas com quem queres.
Por um momento tens
o mundo pelo galete. Por
um momento. É maravilhoso.
Esta é a invenção.
A invenção.


(Trad. A.M.)

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13.10.19

Margaret Atwood (Noite alta)




LATE NIGHT



Late night and rain wakes me, a downpour,
wind thrashing in the leaves, huge
ears, huge feathers,
like some chased animal, a giant
dog or wild boar. Thunder & shivering
windows; from the tin roof
the rush of water.

I lie askew under the net,
tangled in damp cloth, salt in my hair.
When this clears there will be fireflies
& stars, brighter than anywhere,
which I could contemplate at times
of panic. Lightyears, think of it.

Screw poetry, it's you I want,
your taste, rain
on you, mouth on your skin.


Margaret Atwood

[Exceptindreams]




Noite alta acordo com a chuva, uma bátega,
o vento açoitando a folhagem, orelhas
enormes, enormes cabelos,
como animal perseguido, um cão gigante
ou porco selvagem. Trovões, e as janelas
a estremecer; do telhado de zinco
um dilúvio.

Estou na cama, por baixo da rede, deitada de lado,
enrolada numa manta, o cabelo cheio de sal.
Quando passar o temporal haverá pirilampos
e estrelas, mais brilhantes que alhures,
onde eu podia olhá-las em tempos de pânico.
Anos-luz, imagine-se.

Que se lixe a poesia, é a ti que eu quero,
o teu sabor, a chuva
em ti, minha boca em tua pele.

(Trad. A.M.)
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11.10.19

Rogelio Guedea (Sol de outra herança)





SOL DE OTRA HEREDAD



estoy en la entrada del centro comercial
al que solíamos venir los domingos
mientras escribo este poema sin destino,
este poema que cae de mi mano como las hojas
de los árboles abatidos por la lluvia,
miro entrar y salir a gente que no conozco,
es gente del país extranjero, tan desconocidos que entran
o salen, cada cual en su mundo de ipods y emepetrés,
y resulta que nadie se da cuenta que estoy
pensando en ti, en nuestros hijos que disfrutaban la sección
de juguetes o películas infantiles, mientras tú aprovechabas
para perderte entre blusas azules o vestidos de verano,
y yo – nunca lo supiste porque procuraba que nadie lo notara –
los observaba desde un rincón o esquina, una rendija
entre los anaqueles y el cielo, y me llenaba con la dicha de verlos felices,
ajenos a mis preocupaciones de empleado universitario,
o ciudadano de a pie, o, acaso, y tan solo, hombre triste,
uno más entre los hombres tristes que alguna vez, como ahora,
esperan verte salir o entrar al centro comercial
como lo solíamos hacer los domingos de cualquiera día,
y entonces, sin que te des cuenta, seguirte hasta la sección
de damas, y ahí contemplar la absoluta redondez
de tu blancura, todo eso sin adelantar mi mano para tocarte
un hombro, tu cuello o pelo, y luego decirte
–decirte arteramente– todo eso que mis
noches empiezan a contarme de ti.


Rogelio Guedea




estou à entrada do centro comercial
onde costumávamos vir ao domingo
enquanto escrevo este poema sem destino,
este poema que me cai da mão como as folhas
das árvores abatidas pela chuva,
observo pessoas que não conheço a entrar e a sair,
são pessoas do estrangeiro, desconhecidos que entram
ou saem, cada qual no seu mundo de Ipods e MP3,
e ninguém nota que eu estou
a pensar em ti, nos nossos filhos que entravam
na secção de brinquedos ou filmes infantis,
enquanto tu aproveitavas
para te perder no meio de blusas azuis ou vestidos de verão,
e eu – sem que soubesses, porque procurava escondê-lo –
os observava de um canto ou esquina, uma fresta
entra as estantes e o céu, e consolava-me
de os ver felizes,
alheios às minhas preocupações de funcionário,
de vulgar cidadão, ou talvez tão só de homem triste,
um mais entre outros homens tristes que às vezes, como agora,
esperam ver-te saindo ou entrando no centro comercial
como nós costumávamos ao domingo,
e então, sem dares conta, seguir-te até à secção
de mulher, contemplando ali o redondo absoluto
da tua brancura, isto sem estender a mão para te tocar
no ombro, pescoço, cabelo, e depois dizer-te
– dizer-te, matreiro – aquilo tudo que as noites
começam a contar-me de ti.

(Trad. A.M.)

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9.10.19

Octavio Paz (Aqui)





AQUÍ



Mis pasos en esta calle
resuenan
     en otra calle
donde
     oigo mis pasos
pasar en esta calle
     donde
sólo es real la niebla

Octavio Paz




Meus passos nesta rua
ressoam
      em outra rua
onde
      oiço meus passos
passar nesta rua
      onde
só é real a névoa

(Trad. A.M.)

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8.10.19

Manoel de Barros (Sem título)





SEM TÍTULO



Sei que fazer o inconexo aclara as loucuras.
Sou formado em desencontros.
A sensatez me absurda.
Os delírios verbais me terapeutam.
Posso dar alegria ao esgoto (palavra aceita tudo).
(E sei de Baudelaire que passou muitos meses tenso
porque não encontrava um título para os seus poemas.
Um título que harmonizasse os seus conflitos. Até que
apareceu 'Flores do Mal'. A beleza e a dor. Essa antítese
o acalmou.)

As antíteses congraçam.


Manoel de Barros

[Acontecimentos]

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6.10.19

Fabián Casas (Advertência)





ADVERTÊNCIA



A poesia
quando não dá no alvo
gera ressentimento.
Nunca dá no alvo.


Fabián Casas

(Trad. A.M.)

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4.10.19

Montserrat Álvarez (Alta suciedade)




ALTA SUCIEDAD



En estas negras calles se trasnocha
y se bebe aguardiente con las putas
No me baño hace meses
Sé que carezco de principios
y que frecuento los abismos
mientras vosotros yacéis
en limpios, decentes lechos,
entre lujosas sábanas, con la conciencia recta
Pero más celeste es mi corazón que el vuestro
En mi alma llevo versos, y no estiércol


Montserrat Álvarez




Tresnoita-se por estas ruas escuras
e bebe-se aguardente com as putas
Banho não vejo há meses
Sei que não tenho princípios
e frequento os abismos
enquanto vós todos jazeis
em limpos, decentes leitos,
entre lençóis de luxo, com a consciência direita
Mas mais celeste é meu coração que o vosso
Na alma eu tenho versos, não esterco

(Trad. A.M.)

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3.10.19

Luciano de Giovanni (O paraíso)




(XX)


Penso
che il paradiso
sia ciascuno di noi
quando dimentica
il suo nome

Luciano de Giovanni




O paraíso
eu acho que
é cada qual
depois de esquecer
seu nome

(Trad. A.M.)

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1.10.19

Miriam Reyes (A dureza do todo)





La dureza del todo resulta
de la dureza de las partes.

Parece compacta la tierra
bajo nuestros pies.

Debajo de la tierra: roca.
Dentro de la tierra: roca.

Y aún así raíces insectos.


Miriam Reyes




A dureza do todo resulta
da dureza das partes.

Parece compacta a terra
sob os nossos pés.

Por baixo da terra, rocha.
Dentro da terra, rocha.

E mesmo assim raízes insectos.

(Trad. A.M.)

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30.9.19

Meira Delmar (Reminiscência)





REMINISCENCIA



Un breve instante se cruzaron
tu mirada y la mía.
Y supe de repente
—no sé si tú también—
que en un tiempo
sin años ni relojes,
otro tiempo,
tus ojos y mis ojos
se habían encontrado,
y esto de ahora
no era más que un eco,
la ola que regresa,
atravesando mares,
hasta la antigua orilla.

Meira Delmar

[Sureando]




Um breve instante se cruzaram
o teu olhar e o meu.
E eu soube de repente
- não sei se tu também -
que em um tempo
sem anos nem relógios,
outro tempo,
teus olhos e meus olhos
se haviam encontrado,
e isto de agora
não era mais do que um eco
a onda que regressa,
atravessando o mar,
à antiga beira.

(Trad. A.M.)

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28.9.19

António Cabral (Arte poética)




ARTE POÉTICA



Palavra que não se invente
não é quente.

Palavra que não tem dente
não é gente.

Flor que (fruti) fique no ramo
todo o ano

e o vergue para o chão
ao alcance da mão


ANTÓNIO CABRAL
Entre o azul e a circunstância
(1983)



>>  Antonio Cabral (sítio of.) / Projecto Vercial (bio-biblio) / Wikipedia

.

27.9.19

Juan Manuel Villalba (Estado de contas)





ESTADO DE CUENTAS



Es mejor confesar el gran vacío
que soy, formular una promesa que asuste
porque pueda cumplirse alguna vez,
y asomarme a la vida
con un gesto de firme indiferencia,
o de virtud perdida, o de sarcasmo
ante el abismo que me engulle.

Es mejor no saber nada ante el río
del desorden: la bestia cotidiana
que mata igual que besa. Y saberse miserable,
puro, como ese ciego que perdido
avanza a duras penas bajo el sol.

Juan Manuel Villalba

[Facebook]




É melhor confessar o grande vazio
que sou, fazer uma promessa que assuste
porque talvez possa cumprir-se,
e fazer-me à vida
com um gesto de firme indiferença,
ou de virtude perdida, ou sarcasmo
ante o abismo que me engole.

É melhor não saber nada ante o rio
da desordem, a besta quotidiana
que mata assim como beija. E saber-me mísero,
puro, como aquele cego que perdido
avança a duras penas aob o sol.

(Trad. A.M.)

.

25.9.19

Rocío Wittib (Às vezes, perdiam-se barcos)





a veces en el horizonte se perdían barcos
que no habían partido de ningún puerto
y yo preguntaba si eso era como haberte conocido
antes de encontrarte
antes de tu nombre
antes aún de la palabra antes


Rocío Wittib




às vezes perdiam-se barcos no horizonte
que não tinham partido de nenhum porto
e eu perguntava se tal era como ter-te conhecido
antes de te encontrar
antes de teres nome
antes mesmo da palavra antes

(Trad. A.M.)

.

21.9.19

Roberto Juarroz (A mão estende-se)




La mano se extiende,
pero a mitad de camino
la detiene una imagen.
Y se marcha entonces con ella,
no para poseerla
sino tan sólo para entrar en su juego.
La mano ha comenzado a enamorarse en el camino
y así la posesión y el don se le escapan.
La mano ha cambiado su destino
por un vuelo que no es el vuelo del pájaro,
sino un abandono a las mareas que no tienen costa
o a los desequilibrios de una sabiduría diferente.
La mano ha renunciado a su objeto
y ha adquirido el valor de su distracción.
La mano ha renunciado a salvarse.

Roberto Juarroz



A mão estende-se,
mas a meio do caminho
uma imagem a detém.
E com ela se vai,
não para a possuir
mas só para entrar no jogo.
A mão apaixonou-se no caminho
e assim fogem-lhe o dom e a posse.
A mão trocou o seu destino
por um voo que não é voo de pássaro,
mas um abandono às marés sem costa
ou aos desequilíbrios de uma sabedoria outra.
A mão renunciou a seu objecto,
adquirindo o valor de sua distracção.
A mão renunciou a salvar-se.

(Trad. A.M.)

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20.9.19

Roberto Bolaño (Passeias solitário)





Ahora paseas solitario por los muelles
de Barcelona
Fumas un cigarrillo negro y por
un momento crees que sería bueno
que lloviese
Dinero no te conceden los dioses
mas sí caprichos extraños
Mira hacia arriba:
está lloviendo

Roberto Bolaño




Passeias solitário pelos molhes
de Barcelona
Fumas um cigarro negro e achas
por um momento que seria bom
que chovesse
Dinheiro não te dão os deuses
só estranhos caprichos
Olha para o ar:
está a chover

(Trad. A.M.)

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18.9.19

Louise Glück (Viúvas)





WIDOWS



My mother's playing cards with my aunt,
Spite and Malice, the family pastime, the game
my grandmother taught all her daughters.

Midsummer: too hot to go out.
Today, my aunt's ahead; she's getting the good cards.
My mother's dragging, having trouble with her concentration.
She can't get used to her own bed this summer.
She had no trouble last summer,
getting used to the floor. She learned to sleep there
to be near my father.
He was dying; he got a special bed.

My aunt doesn't give an inch, doesn't make
allowance for my mother's weariness.
It's how they were raised: you show respect by fighting.
To let up insults the opponent.

Each player has one pile to the left, five cards in the hand.
It's good to stay inside on days like this,
to stay where it's cool.
And this is better than other games, better than solitaire.

My grandmother thought ahead; she prepared her daughters.
They have cards; they have each other.
They don't need any more companionship.

All afternoon the game goes on but the sun doesn't move.
It just keeps beating down, turning the grass yellow.
That's how it must seem to my mother.
And then, suddenly, something is over.

My aunt's been at it longer; maybe that's why she's playing better.
Her cards evaporate: that's what you want, that's the object: in the end,
the one who has nothing wins.


Louise Glück

[Sibilas y pitias]




Estão a jogar às cartas, minha mãe e minha tia,
Rancor e Malícia, o passatempo da família, o jogo
que minha avó ensinou às filhas.

No pino do Verão, muito calor para sair de casa.
A minha tia está na mó de cima, hoje, com sorte nas cartas,
minha mãe um pouco arrastada, com falta de concentração,
ainda não se habituou à cama nesta época.
No ano passado não teve problema
sequer em habituar-se ao sobrado, aprendendo a dormir
no chão para ficar ao pé do meu pai.
Que estava a morrer, numa cama especial.

A minha tia não desarma, nem perdoa sequer
ao cansaço da irmã.
Foram criadas assim, brigar é mostrar respeito,
deixar correr é um insulto para o adversário.

Cada jogadora tem um monte do lado esquerdo, com cinco cartas na mão.
Sabe bem ficar em casa, por causa do fresco,
em dias assim.
E este jogo é melhor do que outros, o solitário por exemplo.

A minha avó pensou bem, soube preparar as filhas,
têm as cartas, têm-se uma à outra,
não precisam de mais companhia.

O jogo dura a tarde toda, mas o sol nem se mexe,
continuando a castigar, até secar a relva.
Assim deve ter visto a minha mãe
e, então, de repente, algo se acaba.

A minha tia está mais batida, talvez por isso joga melhor.
As cartas evaporaram-se-lhe, é o que se pretende, é esse o fito:
no final, quem não tiver nada é que ganha.


(Trad. A.M.)

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16.9.19

Raúl Nieto de la Torre (Se não te conhecesse)





SI NO TE HUBIERA CONOCIDO



Cuando llegue la gran pregunta
o nos salga de dentro, acuérdate
de que un día
elegimos ser libres y amarnos.

Acuérdate de eso –te digo–
porque los restos...
porque las cáscaras vacías...
porque qué otra cosa no arrojar a este pozo
enfrente del que vamos desnudándonos.

Qué ansiedad la del hombre
que se mira en la nada
y encuentra en ella su reflejo.


Raúl Nieto de la Torre




Quando vier a grande questão
ou nos saltar cá de dentro,
lembra-te que um dia
escolhemos ser livres e amar-nos.

Lembra-te disso – digo-te eu –
porque os restos...
as cascas...
que outra coisa não atirar a este poço
junto ao qual nos vamos desnudando.

Que ânsia a do homem
que se mira no nada
e nele encontra seu reflexo.

(Trad. A.M.)

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15.9.19

Raúl Gustavo Aguirre (Reúno teus rostos)





Yo reúno tus rostros tus gestos tus palabras
vivo de tus imágenes como el agua del cielo
yo te devuelvo al sol a las glicinas
al reino tuyo a tu calor
yo te desato de la noche que te olvida
te devuelvo a los días más bellos de la tierra
esta tierra que quiere ser parecida a ti
y que te necesita para maravillarme.


Raúl Gustavo Aguirre




Reúno teus rostos gestos palavras
vivo da tua imagem como a água do céu
devolvo-te ao sol às glicínias
a teu reino a teu calor
desato-te da noite que te olvida
devolvo-te aos dias mais belos da terra
esta terra que quer parecer-se contigo
e precisa de ti para me maravilhar.

(Trad. A.M.)


13.9.19

José Paulo Paes (Acima de qualquer suspeita)





ACIMA DE QUALQUER SUSPEITA



a poesia está morta

mas juro que não fui eu

eu até que tentei fazer o melhor que podia para salvá-la

imitei diligentemente augusto dos anjos paulo torres car-
los drummond de andrade manuel bandeira murilo
mendes vladimir maiakóvski joão cabral de melo neto
paul éluard oswald de andrade guillaume apollinaire
sosígenes costa bertolt brecht augusto de campos

não adiantou nada

em desespero de causa cheguei a imitar um certo (ou
incerto) josé paulo paes poeta de ribeirãozinho estrada
de ferro araraquarense

porém ribeirãozinho mudou de nome a estrada de ferro
araraquarense foi extinta e josé paulo paes parece
nunca ter existido

nem eu


José Paulo Paes

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11.9.19

Raúl Gómez Jattín (O deus que adora)




EL DIOS QUE ADORA



Son un dios en mi pueblo y mi valle
No porque me adoren Sino porque yo lo hago
Porque me inclino ante quien me regala
unas granadillas o una sonrisa de su heredad
O porque voy donde sus habitantes recios
a mendigar una moneda o una camisa y me la dan
Porque vigilo el cielo con ojos de gavilán
y lo nombro en mis versos Porque soy solo
Porque dormí siete meses en una mecedora
y cinco en las aceras de una ciudad
Porque a la riqueza miro de perfil
mas no con odio Porque amo a quien ama
Porque sé cultivar naranjos y vegetales
aún en la canícula Porque tengo un compadre
a quien le bauticé todos los hijos y el matrimonio
Porque no soy bueno de una manera conocida
Porque amo los pájaros y la lluvia y su intemperie
que me lava el alma Porque nací en mayo
Porque mi madre me abandonó cuando
precisamente
más la necesitaba Porque cuando estoy enfermo
voy al hospital de caridad Porque sobre todo
respeto solo al que lo hace conmigo Al que trabaja
cada día un pan amargo y solitario y disputado
como estos versos míos que le robo a la muerte.

Raúl Gómez Jattín




Sou um deus na minha terra
Não porque me adorem Mas porque o faço eu
Porque me inclino diante de quem me oferece umas romãs
Ou porque vou mendigar uma moeda ou uma camisa
aos meus conterrâneos e eles dão-me
Porque vigio o céu com olhos de gavião
e o nomeio em meus versos Porque sou sozinho
Porque dormi sete meses numa cadeira de baloiço
e cinco nos passeios de uma cidade
Porque a riqueza olho-a de lado
mas não com ódio Porque amo quem ama
Porque sei cultivar laranjeiras e vegetais
mesmo na canícula Porque tenho um compadre
a quem baptizei os filhos todos, além do casamento
Porque não sou bom de um modo conhecido
Porque amo os pássaros e a chuva e a intempérie
que me lava a alma Porque nasci em Maio
Porque minha mãe deixou-me quando precisamente
mais a carecia Porque quando estou doente
vou ao hospital de caridade Porque sobretudo
respeito só quem me respeita a mim
E a quem trabalha todos os dias
um pão amargo e solitário e disputado
como estes versos meus que eu roubo à morte.

(Trad. A.M.)

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10.9.19

Fabián Casas (Às escuras, sem chaves)





SIN LLAVES Y A OSCURAS



Era uno de esos días en que todo sale bien.
Había limpiado la casa y escrito
dos o tres poemas que me gustaban.
No pedía más.

Entonces salí al pasillo para tirar la basura
y detrás de mí, por una correntada,
la puerta se cerró.
Quedé sin llaves y a oscuras
sintiendo las voces de mis vecinos
a través de sus puertas.
Es transitorio, me dije;
pero así también podría ser la muerte:
un pasillo oscuro,
una puerta cerrada con la llave adentro
la basura en la mano.


Fabián Casas




Era um dia desses em que tudo sai bem,
tinha limpado a casa, escrevera
dois ou três poemas a gosto.
Não pedia mais.

Então saí pelo corredor para pôr o lixo
e atrás de mim, com uma rabanada de vento,
a porta fechou-se.
Fiquei sem chaves e às escuras,
sentindo as vozes dos vizinhos
para lá das portas.
É transitório, lembrei-me,
mas a morte também podia ser assim:
um corredor escuro,
uma porta fechada com a chave por dentro,
o lixo na mão.

(Trad. A.M.)



>>  Crónica (10p) / Circulo de poesia (5p) / El placard (5p) / Wikipedia

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8.9.19

José Miguel Silva (Às vezes trazes para casa uma tristeza)





Às vezes trazes para casa uma tristeza
velha, feita de cansaços que apenas supõe
quem tem o privilégio de te amar.
Despes o casaco, apertas contra o rosto a Mia,
a tua mão procura às cegas o meu ombro,
e nas tuas pestanas descidas leio um apelo
a que nem sempre sou capaz de responder.
A tua indefensão ocupa o seu lugar à mesa,
quase sem ânimo para segurar o garfo.

Eu tento animar-te com as últimas desgraças
do mundo, dou-te um resumo do telejornal,
faço-te notar que a sopa está quente, vou
depressa ao café comprar-te chocolates,
mergulho-os em vinagre, uno as gatas
pela cauda e digo-te: anda ver como termina
um casamento, deixo cair na sanita o comando
do vídeo, ameaço convidar-te para o meu funeral.

Tantas faço que consigo, finalmente,
transformar em zanga a tristeza que trazias.
E enquanto tu me chamas inútil, e palerma,
eu sorrio interiormente, noto com agrado
a contracção no teu pescoço, sou eu próprio
quem te guia até às facas na gaveta, e nem sequer
me desvio quando vejo a garrafa de Favaios
a voar na direcção desta minha tão salobre,
tão esperta cabeça, filha do ardil e da penúria.


José Miguel Silva

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6.9.19

Raúl Ferruz (Interrupções)





INTERRUPCIONES



qué es lo que más me gusta de la vida.
la vida, en sí misma, supongo.
los cubitos en el vaso de café, irisado
a contraluz. el sexo. el cáncer en los
niños. reconocer un olor de la infancia.
la forma de algunos pétalos. las
muertes súbitas. los magos malos. la
ausencia de aire en el espacio
exterior. la crueldad innata. los
nombres rayados en las mesas de
madera. la perfección de la envidia.
acercar una boca a una boca. escribir
alma sin entender qué es el alma. lo
edificante de la decepción. el olor de la
sangre vaginal en las manos.
contemplar una burbuja de aceite
aislada en agua hirviendo. los
escritores que se adelantan a la
muerte. la vaga intención de la religión
por convencernos de algo. la tristeza
de los ventrílocuos. la hipotermia en un
cuerpo con sabor salitre. mi miedo
absoluto a cualquier forma humana.
las margaritas. las habitaciones en las
que nadie debería atreverse a
pernoctar en el hotel de tu cabeza.
fingir que escribir puede servir de algo.
dejarse caer. asumir el dolor, la
pérdida, y la derrota. el agüjero
del subconsciente. qué es lo que
más me gusta de la vida. la vida, en sí
misma, supongo. con su sucesión de
microorgasmos y violaciones. que en
ningún caso son tan importantes. sólo
interrupciones.


Raul Ferruz





o que é que eu mais gosto da vida.
da vida, em si mesma, acho eu.
dos cubinhos no copo de café, irisado
em contra-luz. do sexo. do cancro nas
crianças. de reconhecer um cheiro da infância.
da forma de algumas pétalas. das
mortes súbitas. dos mágicos maus. da
ausência de ar no espaço
exterior. da crueldade inata. dos
nomes riscados nas mesas de
madeira. da perfeição da inveja.
de chegar uma boca a uma boca. de
escrever alma sem entender o que é alma.
do edificante da decepção. do cheiro do
sangue vaginal nas mãos.
de contemplar uma borbulha de azeite
isolada na água a ferver. os escritores
que se adiantam à morte. a vaga intenção
da religião de nos convencer de algo. a tristeza
dos ventríloquos. a hipotermia num
corpo com sabor a salitre. o meu medo
absoluto a qualquer forma humana.
as margaridas. os quartos
em que ninguém devia atrever-se
a pernoitar no hotel da tua cabeça.
fingir que escrever pode servir para algo.
deixar-se cair. assumir a dor, a perda
e a derrota. o buraco do subconsciente.
o que é que mais gosto na vida. a vida,
em si mesma, suponho. com sua sucessão
de micro-orgasmos e violações. que
não são importantes em nenhum caso. apenas
interrupções.

(Trad. A.M.)

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5.9.19

Rafael Cadenas (Disjuntiva)





DISJUNCTIVA



Yo quería escribir
un poema,
luego tuve la intención
de no tener intención
y el poema se quedó allí
detenido,
atrapado,
carbonizado entre la chispa
de las dos intenciones
y aquí
lo dejo.


Rafael Cadenas




Eu queria escrever
um poema,
depois tive a intenção
de não ter intenção
e o poema ali ficou
detido,
apanhado,
carbonizado entre a chispa
das duas intenções
e aqui
assim
o deixo.

(Trad. A.M.)

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1.9.19

Piedad Bonnett (Os estudantes)





LOS ESTUDIANTES



Los saludables, los briosos estudiantes de espléndidas sonrisas
y mejillas felposas, los que encienden un sueño en otro sueño
y respiran su aire como recién nacidos,
los que buscan rincones para mejor amarse
y dulcemente eternos juegan ruleta rusa,
los estudiantes ávidos y locos y fervientes,
los de los tiernos cuellos listos frente a la espada,
las muchachas que exhiben sus muslos soleados
sus pechos, sus ombligos
perfectos e inocentes como oscuras corolas,
qué se hacen
mañana qué se hicieron
qué agujero
ayer se los tragó
bajo qué piel
callosa, triste, mustia
sobreviven.


Piedad Bonnett

[Noctambulario]





Os saudáveis, briosos estudantes de sorriso esplêndido
e faces macias, os que acendem um sonho em outro sonho
e respiram seu ar como recém-nascidos,
os que buscam recantos para melhor se amar
e docemente eternos jogam roleta russa,
os estudantes ávidos e loucos e ferventes,
os de tenro pescoço oferecido à espada,
as moças que exibem suas carnes curtidas de sol,
seus seios, umbigos perfeitos
e inocentes como escuras corolas,
o que fazem
amanhã o que é que fizeram
que abismo
ontem os tragou
sob que pele
calosa, triste, murcha
sobrevivem.

(Trad. A.M.)

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