30.5.08

Raul Brandão (Esta mão)


















(Esta mão...)








Detesto a acção.

A acção mete-me medo.

De dia podo as minhas árvores, à noite sonho.

Sinto Deus - toco-o.

Deus é muito mais simples do que imaginas.

Rodeia-me - não o sei explicar.

Terra, mortos, uma poeira de mortos que se ergue em tempestades, e esta mão que me prende e sustenta e que tanta força tem…




- RAUL BRANDÃO, Memórias, I, prefácio.


28.5.08

Fernando Assis Pacheco (Este ministro)







(Um Assis bissexto, à moda do próprio...)





Este ministro é um mentiroso
que agonia quando ele discursa
e se fosse só isso: bale sem jeito
às meias horas seguidas – e não pára!




bem-aventurados os duros de ouvido
a quem o céu abrirá as portas
desliguem p.f. o microfone
ou então tirem o país da ficha




Fernando Assis Pacheco


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26.5.08

Mario Benedetti (No te salves)




NO TE SALVES


No te quedes inmóvil
al borde del camino,
no congeles el júbilo,
no quieras con desgana,
no te salves ahora
ni nunca.
No te salves.

No te llenes de calma,
no reserves del mundo
sólo un rincón tranquilo,
no dejes caer los párpados
pesados como juicios,
no te quedes sin labios,
no te duermas sin sueño,
no te pienses sin sangre,
no te juzgues sin tiempo.

Pero si,
pese a todo,
no puedes evitarlo;
y congelas el júbilo,
y quieres con desgana,
y te salvas ahora,
y te llenas de calma,
y reservas del mundo,
sólo un rincón tranquilo,
y dejas caer los párpados
pesados como juicios,
y te secas sin labios,
y te duermes sin sueño,
y te piensas sin sangre,
y te juzgas sin tiempo,
y te quedas inmóvil
al borde del camino,
y te salvas;
entonces
no te quedes conmigo.

Mario Benedetti


Fonte: EPDLP


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24.5.08

Olhar (24)









Campos de Ançã

Coimbra

(aliás, Cantanhede)

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António Reis (Depois das 7)

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Depois das 7
as montras são mais íntimas



A vergonha de não comprar
não existe
e a tristeza de não ter
é só nossa



E a luz torna mais belo
e mais útil
cada objecto



ANTÓNIO REIS
Poemas Quotidianos, Porto [1957]

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22.5.08

Mário Quintana (O silêncio)





Silêncio-1 (Eugénio A.)




Silêncio-2 (M.Quintana)







O SILÊNCIO






Há um grande silêncio que está sempre à escuta...
E a gente se põe a dizer inquietantemente
qualquer coisa, qualquer coisa, seja o que for,
desde a corriqueira dúvida sobre se chove ou não chove hoje
até tua dúvida metafísica, Hamleto!
E, por todo o sempre, enquanto a gente fala, fala, fala
o silêncio escuta...e cala.




Mário Quintana


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20.5.08

Francisco Brines (Aquele verão)






AQUEL VERANO DE MI JUVENTUD



Y qué es lo que quedó de aquel viejo verano
en las costas de Grecia?
¿Qué resta en mí del único verano de mi vida?
Si pudiera elegir de todo lo vivido
algún lugar, y el tiempo que lo ata,
su milagrosa compañía me arrastra allí,
en donde ser feliz era la natural razón de estar con vida.

Perdura la experiencia, como un cuarto cerrado de la infancia;
no queda ya el recuerdo de días sucesivos
en esta sucesión mediocre de los años.
Hoy vivo esta carencia,
y apuro del engaño algún rescate
que me permita aún mirar el mundo
con amor necesario;
y así saberme digno del sueño de la vida.

De cuanto fue ventura, de aquel sitio de dicha,
saqueo avaramente
siempre una misma imagen:
sus cabellos movidos por el aire,
y la mirada fija dentro del mar.
Tan sólo ese momento indiferente.
Sellada en él, la vida.

Francisco Brines



E que é que ficou daquele verão antigo
nas costas da Grécia?
Que resta em mim do único verão da minha vida?
Se eu pudesse escolher de quanto vivi
algum lugar e o tempo que o prende,
a sua milagrosa companhia é para ali que me arrasta,
onde ser feliz era a natural razão de estar com vida.

Perdura a experiência, como um quarto fechado da infância;
não resta já a lembrança de dias sucessivos
nesta sucessão medíocre dos anos.
Hoje vivo esta carência,
e apuro do engano algum resgate
que me permita olhar ainda o mundo
com amor necessário;
e assim saber-me digno do sonho da vida.

De quanto foi ventura, desse lugar de fortuna,
saco avaramente
sempre uma mesma imagem:
seus cabelos movidos pelo vento
e o olhar fixo dentro do mar.
Apenas esse momento indiferente.
Selada nele, a vida.


(Trad. A.M.)



Fontes: A-media-voz (40p) / Arte-poetica (10p) / Cervantes (bio+8p)







Raul Brandão (Cada dia entendo menos)


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(Cada dia entendo menos...)
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Não entendo nada da vida.

Cada dia que avança entendo menos da vida.

Contudo, há horas, as horas perdidas - e só essas - que queria tornar a viver e a perder.

Deus, a vida, os grandes problemas, não são os filósofos que os resolvem, são os pobres vivendo.

O resto é engenho e mais nada.

As coisas belas resumem-se a meia dúzia: o tecto que me cobre, o lume que me aquece, o pão que como, a estopa e a luz.



- RAUL BRANDÃO, Memórias, I, prefácio.
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19.5.08

Graça Pires (Por caminhos de sul)







POR CAMINHOS DE SUL






Por caminhos de sul, a noite adquire a tonalidade do mar.
Pressinto o hálito das manhãs claras e tenho, no sangue,
um caos incendiado, como se fora terra exposta ao sol
do meio-dia. São horas de reinventar os aromas
que me anunciam um trajecto de espanto.



Procuro a cor da noite nos teus olhos, como quem lambe
a lua, devagar. Depois, digo barco, digo mastro,
digo quilha e somos ilha propícia a navegar.



Graça Pires
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Fontes: Ortografia do olhar (blogue da autora) / nEscritas / Lugardaspalavras (24p)




Antes, aqui: À boca das areias
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16.5.08

Manuel Alegre (País de muito mar)












País - 1 (Jorge de Sena)


País - 2 (A. O'Neill)


País - 3 (Jorge de Sena)


País - 4 (A. O'Neill)


País -5 (Ruy Belo)



País -6 (M. Alegre)









PAÍS DE MUITO MAR





Somos um país pequeno e pobre e que não tem
senão o mar
muito passado e muita História e cada vez menos
memória
país que já não sabe quem é quem
país de tantos tão pequenos
país a passar
para o outro lado de si mesmo e para a margem
onde já não quer chegar. País de muito mar
e pouca viagem.




Manuel Alegre








José António Almeida (Neptuno)







NEPTUNO





À entrada deixa-se a roupa num cabide.
depois avança-se por um corredor estreito,
com uma toalha à volta da cintura,
até à sala de estar do deus dos mares,
onde entre nuvens de vapor cada um sonha
sozinho ou com a ajuda de um companheiro.





JOSÉ ANTÓNIO ALMEIDA
O Rei de Sodoma
(Lisboa, Presença, 1993)





Antes, aqui: As Iris


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13.5.08

António Ramos Rosa (Para um amigo)








PARA UM AMIGO TENHO SEMPRE UM RELÓGIO




Para um amigo tenho sempre um relógio
esquecido em qualquer fundo de algibeira.
Mas esse relógio não marca o tempo inútil.
São restos de tabaco e de ternura rápida.
É um arco-íris de sombra, quente e trémulo.
É um copo de vinho com o meu sangue e o sol.




ANTÓNIO RAMOS ROSA
Viagem Através duma Nebulosa (1960)





Fontes: As Tormentas (24p) / nEscritas (Página Web / bio+32p+linques) / Lidia Aparício (17p) / Porto de Abrigo (13p) / Poesias e Prosas (14p) / Um buraco na sombra (16p) / Lugar das Palavras (18p) / TriploV (33p+3ensaios)
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Olhar (23)







Sete Cidades

Ponta da Madrugada

Furnas

(S. Miguel)

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10.5.08

Jaime Sabines (Dona Luz-4)





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IV

Creo que estuvo en la tierra algunos años.
Creo que yo también estuve en la tierra.
Cuál es esa frontera?, qué es lo que ahora nos separa?, nos separa realmente?
A veces creo escucharla: tú eres el fantasma, tú la sombra.
Sueña que vives, hijo, porque es hermoso el sueño de la vida.



JAIME SABINES
Maltiempo (1972)
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8.5.08

Raul Brandão (Sem tecto entre ruínas)





(Sem tecto, entre ruínas…)





A aquiescência, o sorriso: pois sim… pois sim… - a necessidade de transigir, o preceito, a lei, fizeram de mim este ser inútil, que não sabe viver e que já agora não pode viver.

Não grito de desespero porque nem de desespero sou capaz.

A vida antiga tinha raízes, talvez a vida futura as venha a ter.

A nossa época é horrível porque já não cremos - e não cremos ainda.

O passado desapareceu, do futuro nem alicerces existem.

E aqui estamos nós, sem tecto, entre ruínas, à espera…



- RAUL BRANDÃO, Memórias, I, prefácio.
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Natália Correia (A defesa do poeta)





A DEFESA DO POETA
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Sehores jurados sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto


Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim


Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes


Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei


Senhores professores que pusestes
a prémio minha rara edição
de raptar-me em crianças que salvo
do incêndio da vossa lição


Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis


Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além


Senhores três quatro cinco e sete
que medo vos pôs na ordem ?
que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem ?


Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa


Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever
ó subalimentados do sonho !
a poesia é para comer.



Natália Correia
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Lugares: DGLB (bio+biblio+antologia+linques) / Poesiaseprosas (12p) / As Tormentas (35p) / Lidia Aparício (12p) / nEscritas (8p) / Um-buraco-na-sombra (14p+bio)

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6.5.08

Al Berto (Recado)









RECADO




ouve-me
que o dia te seja limpo e
a cada esquina de luz possas recolher
alimento suficiente para a tua morte


vai até onde ninguém te possa falar
ou reconhecer - vai por esse campo
de crateras extintas - vai por essa porta
de água tão vasta quanto a noite


deixa a árvore das cassiopeias cobrir-te
e as loucas aveias que o ácido enferrujou
erguerem-se na vertigem do voo - deixa
que o outono traga os pássaros e as abelhas
para pernoitarem na doçura
do teu breve coração - ouve-me


que o dia te seja limpo
e para lá da pele constrói o arco de sal
a morada eterna - o mar por onde fugirá
o etéreo visitante desta noite


não esqueças o navio carregado de lumes
de desejos em poeira - não esqueças o ouro
o marfim - os sessenta comprimidos letais
ao pequeno-almoço



AL BERTO, Horto de Incêndio


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Miguel Torga (Um véu gelado de desdém)





(Um véu gelado de desdém...)
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De um lado e doutro, nas vinhas, os ranchos de vindimadores interrompiam o trabalho e os descantes, e ficavam descobertos e silenciosos a homenagear a morte que passava.
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Apesar do sol aberto que cobria tudo, era ela, afinal, a grande rainha da terra.
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Do caixão branco, solene e fechado, a sua sombra invisível mas pesada estendia-se sobre as encostas como um véu gelado de desdém.
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O sonho impenitente das rogas trazia dos altos o colorido frémito das romarias e dos arraiais.
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Mas a gravidade daquela asa negra, a arrastar para o limbo do esquecimento as ilusões e as desilusões, é que fascinava verdadeiramente as almas.



- MIGUEL TORGA, Vindima, LII, in medio.
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4.5.08

Jaime Sabines (Dona Luz-3)






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III



En la fotografía conserva para siempre el mismo rostro.

Las fotografias son injustas,
terriblemente limitadas, esclavas de un instante perpetuamente quieto.

Una fotografia
es como una estatua: copia del engaño, consuelo del tiempo.

Cada vez que veo la fotografía me digo: no es ella.

Ella es mucho más.

Así, todas las cosas me la recuerdan para decirme que ella es muchas cosas más.



JAIME SABINES
Maltiempo (1972)

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Pedro Mexia (Decalque)





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DECALQUE




Cheio de imaginação segunda-feira punha as figuras
num dado mundo. E a cada
momento a escolha
transformava tudo num cinema.
Bastava raspar no papel
transparente
que no fim sobrava inútil.
Nada a fazer dessa memória.
O mundo é um lugar incerto
e as figuras
já foram todas riscadas.




PEDRO MEXIA
Em Memória (2000)


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2.5.08

Fernando Pessoa / A. Campos (Adiamento)








ADIAMENTO





Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjectividade objectiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um eléctrico...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...




Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje, qual é o espectáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espectáculo...
Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...



O porvir...
Sim, o porvir...



Álvaro de Campos
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1.5.08

Olhar (22)








Doiro

(Anreade/Resende)

Frente-a-Tormes

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Eugénio de Andrade (O silêncio)






O SILÊNCIO



Quando a ternura
parece já do seu ofício fatigada,
e o sono, a mais incerta barca,
inda demora,
quando azuis irrompem
os teus olhos
e procuram
nos meus navegação segura,
é que eu te falo das palavras
desamparadas e desertas,
pelo silêncio fascinadas.


EUGÉNIO DE ANDRADE
Obscuro Domínio


[Fundação Eugénio A.]

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27.4.08

Raul Brandão (A inutilidade da vida)








Hoje acordei com este grito. Eu não soube fazer uso da vida!

O que me pesa é a inutilidade da vida.

Agarro-me a um sonho; desfaz-se-me nas mãos; agarro-me a uma mentira e sempre a mesma voz me repete:
- É inútil! Inútil!




- RAUL BRANDÃO, Memórias, I, prefácio.


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Nuno Júdice (Carpe diem)





CARPE DIEM




Confias no incerto amanhã? Entregas
às sombras do acaso a resposta inadiável?
Aceitas que a diurna inquietação da alma
substitua o riso claro de um corpo
que te exige o prazer? Fogem-te, por entre os dedos,
os instantes; e nos lábios dessa que amaste
morre um fim de frase, deixando a dúvida
definitiva. Um nome inútil persegue a tua memória,
para que o roubes ao sono dos sentidos. Porém,
nenhum rosto lhe dá a forma que desejarias;
e abraças a própria figura do vazio. Então,
por que esperas para sair ao encontro da vida,
do sopro quente da primavera, das margens
visíveis do humano? "Não", dizes, "nada me obrigará
à renúncia de mim próprio -- nem esse olhar
que me oferece o leito profundo da sua imagem!"
Louco, ignora que o destino, por vezes,
se confunde com a brevidade do verso.



Nuno Júdice
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25.4.08

Vicente Aleixandre (Unas pocas palabras)








UNAS POCAS PALABRAS





Unas pocas palabras en tu oído diría.
Poca es la fe de un hombre incierto.
Vivir mucho es oscuro, y de pronto saber no es conocerse.
Pero aún así diría. Pues mis ojos repiten lo que copian:
tu belleza, tu nombre, el son del río, el bosque,
el alma a solas.



Todo lo vio y lo tienen. Eso dicen los ojos.
A quien los ve responden. Pero nunca preguntan.
Porque si sucesivamente van tomando
de la luz el color, del oro el cieno
y de todo el sabor el pozo lúcido,
no desconocen besos, ni rumores, ni aromas;
han visto árboles grandes, murmullos silenciosos,
hogueras apagadas, ascuas, venas, ceniza,
y el mar, el mar al fondo, con sus lentas espinas,
restos de cuerpos bellos, que las playas devuelven.



Unas pocas palabras, mientras alguien callase;
las del viento en las hojas, mientras beso tus labios.
Unas claras palabras, mientras duermo en tu seno.
Suena el agua en la piedra. Mientras, quieto,
estoy muerto.




Vicente Aleixandre (*)
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Fontes: Poesi-as (74p) / A-media-voz (33p) / A-media-voz-2 (10p) / Los-poetas (36p+bio) / Club-Cultura (sítio of./obra toda)
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(*) N. 26.4.1898 (Sevilha)
.... Prémio Nobel Lit. (1977)

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23.4.08

Miguel Torga (Toupeiras)





Animados da mesma violência, vinham à tona o ódio, o amor e a compaixão.
Toscos e limitados às paredes do seu pequeno mundo, sem cultura e sem horizontes, arrancavam da alma, indiscriminadamente, pedras preciosas e seixos.
Instintivos e contraditórios, estavam longe ainda de acertar o passo das paixões no caminho da livre dignidade que de longe lhes acenava.
Animais domesticados há muitos mil anos, tomavam por condição um jugo que um gesto quebraria.
O senhor tinha-lhes desonrado as mulheres no passado, e agora podiam-no esbofetear e defender a honra.
Mas não eram capazes de alargar a todos os recantos da sujeição as conquistas que faziam.
Toupeiras acostumadas à escuridão, postas à luz do sol, só muito devagar conseguiam abrir os olhos e ver.



- MIGUEL TORGA, Vindima, XLIX, in medio.


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Jaime Sabines (Dona Luz-2)





DOÑA LUZ
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II

Es muy raro que yo también tuviese una madre.
A veces pienso que la soñé demasiado,
la soñé tanto que la hice.
Casi todas las madres son criaturas de nuestros sueños.


JAIME SABINES
Maltiempo (1972)
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21.4.08

António Reis (Sei)








Sei
ao chegar a casa
qual de nós
voltou primeiro do emprego
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Tu
se o ar é fresco
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eu
se deixo de respirar
subitamente

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ANTÓNIO REIS
- Novos Poemas Quotidianos,
Porto [1959].





Fonte: António Reis
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Consultar: Wikipedia
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18.4.08

Olhar (21)











Córdova

(Espanha)

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Raul Brandão (Amargor)






O que sei de belo, de grande ou de útil, aprendi-o nesse tempo: o que sei das árvores, da ternura, da dor e do assombro, tudo me vem desse tempo…

Depois não aprendi coisa que valha.

Confusão, balbúrdia e mais nada.

Vacuidade e mais nada.

Figuras equívocas ou, com raras excepções, sentimentos baços.

Amargor e mais nada.

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- RAUL BRANDÃO, Memórias, I, prefácio.
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15.4.08

José Bergamín (Água solo es el mar)





AGUA sólo es el mar; agua es el río,
Agua el torrente, y agua el arroyuelo.
Pero la voz que en ellos habla y canta
No es del agua, es del viento.


Agua es la blanda nieve silenciosa
Y el mundo bloque de cristal de hielo.
Pero no es agua, es luz la voz que calla
Maravillosamente en su silencio.


Agua es la nube oscura y silenciosa,
Errante prisionera de los cielos.
Pero su sombra, andando por la tierra
Y el mar, no es agua, es sueño.


José Bergamín





Água apenas é o mar, água o rio,
Água a torrente e o arroio.
Mas a voz que neles canta
Não é da água, é do vento.


Água a branda neve silenciosa
E o mundo bloco de cristal de gelo.
Mas não é água, é luz a voz que cala
Maravilhosamente em seu silêncio.


Água a nuvem escura e silenciosa,
Errante prisioneira dos céus.
Mas sua sombra, andando por terra
E mar, não é água, é sonho.


(Trad. A.M.)

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Vitorino Nemésio (A concha)






A CONCHA




A minha casa é concha. Como os bichos
Segreguei-a de mim com paciência:
Fachada de marés, a sonho e lixos,
O horto e os muros só areia e ausência.


Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda, vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.


E telhados de vidro, e escadarias
Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!
Lareira aberta ao vento, as salas frias.


A minha casa. . . Mas é outra a história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.



Vitorino Nemésio




Fonte: Jornal de Poesia

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Antes, aqui: Loa / Um verso

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10.4.08

Miguel Torga (Bambas e destravadas)





(Bambas e destravadas...)




E voltava à certeza anterior.

Infelizmente, as pálpebras, desanimadas das miragens sucessivas, recusavam-se a permanecer abertas.

Semelhantes a janelas de guilhotina, bambas e destravadas nas corrediças, mal se descuidava, fechavam-se obstinadas.

Num arrepio tímido, o resto do corpo acompanhava aquele desertar, e pedia em todas as posições o repouso da enxerga habitual.



- MIGUEL TORGA, Vindima, XXXIV, in medio.

Um verso (43)

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Um verso de Manoel de Barros
(de “O Guardador de Águas”):




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Poeta é um ente que lambe as palavras e depois se alucina.
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7.4.08

Mário Quintana (Poeminha do contra)





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POEMINHA DO CONTRA







Todos esses que aí estão
atravancando meu caminho,
eles passarão...
eu passarinho!





Mário Quintana
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Olhar (20)



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La Alhambra

Granada

(Espanha)





4.4.08

Alberto Pimenta (Sugestão)





SUGESTÃO




já tentaste praticar o bem
fazendo mal?
.
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já tentaste praticar o mal
fazendo bem?
.
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já tentaste praticar o bem
fazendo bem?
.
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já tentaste praticar o mal
fazendo mal?
.
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já tentaste praticar o bem
não fazendo nada?
.
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já tentaste praticar o mal
fazendo tudo?
.
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já tentaste praticar tudo
não fazendo nada?
.
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e o contrário, já tentaste?
já?
.
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seja qual for a tua resposta,
não sei que te diga.




Alberto Pimenta
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2.4.08

Raul Brandão (A que se reduz a vida?)





A que se reduz afinal a vida?

A um momento de ternura e mais nada…

De tudo o que se passou comigo só conservo a memória intacta de dois ou três rápidos minutos.

Esses sim!

Teimam, reluzem lá no fundo e inebriam-me, como um pouco de água fria embacia o copo.

Só de pequeno retenho impressões tão nítidas como na primeira hora: ouço hoje como ontem os passos de meu pai quando chegava a casa; vejo sempre diante dos meus olhos a mancha azul ferrete das hidrângeas que enchiam o canteiro da parede.

O resto esvai-se como fumo.

Até as figuras dos mortos, por mais esforços que faça, cada vez se afastam mais de mim…



- RAUL BRANDÃO, Memórias, I, prefácio.
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Fernando Pessoa (Liberdade)






LIBERDADE





Ai que prazer
não cumprir um dever.
Ter um livro para ler
e não o fazer!
Ler é maçada,
estudar é nada.
O sol doira sem literatura.
O rio corre bem ou mal,
sem edição original.
E a brisa, essa, de tão naturalmente matinal
como tem tempo, não tem pressa...


Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.


Quanto melhor é quando há bruma.
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!


Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol que peca
Só quando, em vez de criar, seca.


E mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças,
Nem consta que tivesse biblioteca...



Fernando Pessoa
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