3.7.06

Bernardim Ribeiro (Écloga de Jano e Franco)













ÉCLOGA DE JANO E FRANCO
(Excerto)






Dizem que havia um pastor
antre Tejo e Odiana,
que era perdido de amor
per üa moça Joana.
Joana patas guardava
pela ribeira do Tejo,
seu pai acerca morava
e o pastor, de Alentejo
era, e Jano se chamava.


Quando as fomes grandes foram,
que Alentejo foi perdido,
da aldeia que chamam o Terrão
foi este pastor fugido.
Levava um pouco de gado,
que lhe ficou doutro muito
que lhe morreu de cansado;
que Alentejo era enxuito
d'água e mui seco de prado.


Toda terra foi perdida;
no campo do Tejo só
achava o gado guarida:
ver Alentejo era um dó!
E Jano, pera salvar
o gado que lhe ficou,
foi esta terra buscar;
e, se um cuidado levou,
outro foi ele lá achar.


O dia que ali chegou
com seu gado e com seu fato,
com tudo se agasalhou
em üa bicada de um mato.
E levando-o a pascer,
o outro dia, à ribeira,
Joana acertou de ir ver,
que se andava pela beira
do Tejo a flores colher.


Vestido branco trazia,
um pouco afrontada andava;
fermosa bem parecia
aos olhos de quem na olhava.
Jano, em vendo-a, foi pasmado;
mas, por ver que ela fazia,
escondeu-se antre um prado:
Joana flores colhia,
Jano colhia cuidado.
(…)


Bernardim Ribeiro


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1.7.06

Fernando Assis Pacheco (Chula das fogueiras)






CHULA DAS FOGUEIRAS




Passarei por ti na Visconde da Luz
Passarás por mim na Alexandre Herculano
passaremos um pelo outro distraídos e parvos
na Rua Olímpio Nicolau Rui Femandes


tu fanê eu gato-pingando no meu casibeque velho
vasculhando a Sereia mas sem nunca nos vermos


o teu suspiro sacudirá as águas
acenderei um cigarro pensando que estou triste


é notável tudo isto o amor do amor
em rosa e oiro. E não há cura



Fernando Assis Pacheco

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28.6.06

Um verso (16)

















Um verso de Sophia
(Meditação do Duque de Gandia):




“Nunca mais servirei senhor que possa morrer”.




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Jorge de Sena (Conheço o sal)





Conheço o sal da tua pele seca
depois que o estio se volveu inverno
da carne repousada em suor nocturno.


Conheço o sal do leite que bebemos
quando das bocas se estreitavam lábios
e o coração no sexo palpitava.


Conheço o sal dos teus cabelos negros
ou louros ou cinzentos que se enrolam
neste dormir de brilhos azulados.


Conheço o sal que resta em minhas mãos
como nas praias o perfume fica
quando a maré desceu e se retrai.


Conheço o sal da tua boca, o sal
da tua língua, o sal de teus mamilos,
e o da cintura se encurvando de ancas.


A todo o sal conheço que é só teu,
ou é de mim em ti, ou é de ti em mim,
um cristalino pó de amantes enlaçados.



Jorge de Sena


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23.6.06

Tomaz de Figueiredo (Pulou do quente)





Pulou do quente ainda com estrelas e quase nem molhou a ponta do nariz, engoliu uma água de unto e tragou um dedal de aguardente, descompôs a mulher, à pressa, por lhe questionar e chorar a côdea do cão, e, mal que apresilhado o cinto e embandoleirada a escopeta, ala, que se faz tarde, baforando fumaças e respiração pelo nevoeiro, como se fosse a arder.

Cara de múmia, enxuta, de peliças enfoladas para o vazio de dentes, ainda por cima pelo tabaco de cinquenta anos, logo apagado se o não puxasse, Manuel Félix todo ele era seco: mãos de santo de aldeia, só tendões e osso, tostadas, quadris por onde o cós das calças fugia, esbarrigando a camisa de tomentos, canelas a que umas polainas ressecas e sem boleio davam o ar das pernas de pau levadas a Santo Amaro, de promessa, por coxos sarados.

Como se afiada em rebolo, dir-se-ia quebra-vento apropositado a cana do nariz, e não seriam as costeletas, de ralas, tojo molarinho, que o tolheriam de papar léguas em cima de léguas, tanto como nem os setenta anos, cumpridos em Janeiro, mês dos gatos, que têm sete fôlegos.



TOMAZ DE FIGUEIREDO, “Drama”, em Tiros de Espingarda (Verbo, 1984)

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22.6.06

Jorge Luís Borges (E aprende-se)







Depois de algum tempo,
aprende-se a subtil diferença
entre tomar uma mão
e aprisionar uma alma,
e aprende-se
que o amor não significa deitar-se
e uma companhia não significa segurança
e começamos a aprender…
Que os beijos não são contratos
e os presentes não são promessas
e começamos a aceitar as nossas derrotas
de cabeça erguida e de olhos abertos
e aprendemos a construir
os nossos caminhos no hoje,
porque o terreno do amanhã
é demasiado inseguro para planos…
e os futuros ficam-se pela metade.
E depois de algum tempo
aprende-se que se for de mais
até o calorzito do sol queima.
Daí que plantemos o nosso próprio jardim
e decoremos a própria alma,
em vez de esperar que alguém nos traga flores.
E aprendemos que realmente podemos aguentar,
que realmente somos fortes,
que valemos realmente,
e aprendemos, aprendemos…
e com cada dia aprendemos.



Jorge Luís Borges


Original: Aguarelas-de-Turner
(Trad. A.M.)
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19.6.06

Fernando Assis Pacheco (Canção do ano 86)





CANÇÃO DO ANO 86




Agora quando volto
quando é raro voltar e sempre por um dia
estou à minha espera na ponte de Santa Clara
com um ramo de rosas que levanto
à aproximação do carro
saudando-te caro Fernando Assis Pacheco
filho pródigo destes quintais floridos


quando acontece que volto
que assim volto por pouquíssimo tempo dou comigo
na berma da EN 1 a olhar à esquerda o Vale do Inferno
hoje estragado por um sacana qualquer dum engenheiro
dizendo adeus adeus Fernando Assis Pacheco
menino antigamente sem cuidado


se é que volto intimado pela agenda
do jornal em Condeixa já inquieto espreito
a ver se vens dos lados de Pombal
oitavo duma fila atrás dum camião
coçando a barba gesto bem teu
com que disfarças o nervoso e a pressa


volto sem querer quando decerto
mais não queria voltar
encasacado anónimo de olho circunvago
Leiria num relance prego no fundo
apetecia parar ao pé de ti Fernando Assis Pacheco
cálido aceno do que morreu
conversarmos os dois sobre esse século esses
cafés com quatro mesas e matraquilhos na cave a cheirar a bolor
essas aulas a que faltávamos no último período para empatar cinco a cinco com
os varões todos torcidos
consta que desde então não fazes mais do que perder



Fernando Assis Pacheco

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Claribel Alegria (Cada vez)











CADA VEZ






Cada vez que te amo
vida y muerte
están presentes:
amanecer
y noche
paraíso
sepulcro.


Claribel Alegria



BIOGRAFIA
Poeta centroamericana nacida en Estelí, Nicaragua, en 1924.
Desde muy niña se trasladó y vivió con su familia en El Salvador y en 1943 viajó a EE.UU. donde obtuvo el título en Filosofía y Letras por la Universidad George Washington.
Después de residir por varios años en EE.UU., contrajo matrimonio y viajó por diferentes países, regresando a Nicaragua en 1985 para servir de baluarte en la reconstrucción de su país.
Ha publicado una veintena de libros de poesía y narrativa así como muchos testimonios históricos.
Es además traductora de algunos poetas norteamericanos y autora de la publicación «Nuevas voces de Norteamérica».
En 1978 obtuvo el premio Casa de las Américas por Sobrevivo, y en el año 2000, el Premio de Poesía de Autores Independientes.
De su obra, se destacan además, Anillo de Silencio, Vigilias, Umbrales, Fuga de Canto Grande, La mujer del río y su última producción, Saudade.



Fonte / Mais poemas

Muitos poemas mais

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12.6.06

António Franco Alexandre (É mais fácil de longe imaginar)






É mais fácil de longe imaginar
o que seria ter-te aqui presente
do que seria ter-te e não saber
com que forma de corpo receber-te.
Talvez um amplo véu oriental
ou o brilho mental de uma armadura
me deixassem arder sem ser molesto
no lume horizontal de uma figura.
Se te vejo, já está o meu desejo,
enquanto estavas longe, satisfeito;
no teu olhar encontro tudo quanto
à altura de amor é mais perfeito.
E no entanto, perto, fico incerto
se não é melhor bem o que imagino.



ANTÓNIO FRANCO ALEXANDRE
Duende
(2002)



BIOGRAFIA
António Franco Alexandre nasceu em 1944, em Viseu, onde viveu até ir para Toulouse (França), estudar Matemática, aí vivendo até 1969.
Partiu depois para Harvard para continuar a estudar Matemática.
Regressou em 1971 a França, desta vez Paris.
Em 1975, com um doutoramento em Matemática, voltou a Portugal e foi convidado para leccionar Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
Estreou-se como poeta ainda na década de sessenta, mas foi sobretudo a partir da publicação de "Sem Palavras nem Coisas" (1974) que a sua obra se afirmou, com um «discurso centralmente inovador», segundo Joaquim Manuel Magalhães, numa poesia que cruza diversas referências culturais.
Considerado por Óscar Lopes a melhor revelação poética dos anos oitenta, António Franco Alexandre surpreende por uma ostensiva negação dos valores lógicos do discurso: não se trata nem do não-sentido surrealista que encontra a sua ordem na própria desordem do inconsciente, nem do nonsense que procura pelo absurdo colocar em causa a possibilidade de comunicação da linguagem delida pelo seu uso quotidiano; mas, como propõe Óscar Lopes, de um “pré-sentido, ou pré-percepção, um breve indício de sentido”, que confere a impressão de “uma poesia do subliminar, mas de um subliminar que todavia acede à palavra, como configuração semi-inteligível e todavia flagrante”.
Em 1996 reuniu toda a sua poesia (com excepção do primeiro livro, "Distância") no volume "Poemas", e em 1999 publicou "Quatro Caprichos", ao qual foi atribuído o Prémio APE de Poesia 1999.
Franco Alexandre, que na poesia portuguesa contemporânea não se sabe situar – "Não sei quem é a minha família, não sei se existe..." – continua a tomar como influência maior os grandes textos bíblicos.
Foi para os poder ler que esteve diversas vezes em Jerusalém a estudar hebraico. "É uma cultura que hoje quase desconhecemos...", diz ele.
Obras: "A Distância" (1969), "Dos Jogos de Inverno", "Sem Palavras Nem Coisas" (1974), "Os Objectos Principais" (1979), "Visitação" (1982), "A Pequena Face" (1983), "As Moradas 1&2" (1987), "Oásis" (1992), "Poemas" (1996), "Les Objets Principaux" (1996), "Quatro Capricho" (1999).



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Um verso (15)






Um verso de Ruy Belo
(com dois de bónus):




Este céu passará e então
teu riso descerá dos montes pelos rios
até desaguar no nosso coração

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9.6.06

Jaime Sabines (Codiciada, proibida)





CODICIADA, PROHIBIDA....




Codiciada, prohibida,
cercana estás, a un paso, hechicera.
Te ofreces con los ojos al que pasa,
al que te mira, madura, derramante,
al que pide tu cuerpo como una tumba.
Joven maligna, virgen,
encendida, cerrada,
te estoy viendo y amando,
tu sangre alborotada,
tu cabeza girando y ascendiendo,
tu cuerpo horizontal sobre las uvas y el humo.
Eres perfecta, deseada.
Te amo a ti y a tu madre cuando estáis juntas.
Ella es hermosa todavía y tiene
lo que tú no sabes.
No sé a quién prefiero
cuando te arregla el vestido
y te suelta para que busques el amor.


Jaime Sabines





Cobiçada, proibida,
próxima estás, a um passo, feiticeira.
Te ofereces com os olhos a quem passa,
a quem te olha, madura, derramante,
a quem pede o teu corpo como uma tumba.
Jovem maligna, virgem,
acesa, fechada,
te estou vendo e amando,
teu sangue alvoroçado,
a cabeça girando e subindo,
o corpo horizontal sobre as uvas e o fumo.
És perfeita, desejada.
Te amo a ti como a tua mãe, quando estais juntas.
Ela é ainda formosa e tem
o que tu não sabes.
Não sei mesmo qual prefiro,
quando ela te ajeita o vestido
e te solta para que vás em busca do amor.


(Trad. A.M.)

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7.6.06

Aquilino Ribeiro (Da neve)





A neve dava-nos a honra de nos visitar amiúde.

Muitas vezes, estávamos nós dobrados para os compêndios, sob o olhar de cérbero do Saraiva, e caíam inesperadamente dois flocos.

Vinham com requebro preguiçoso zebrando o ar plúmbeo, encostados à vidraça, dir-se-ia a espreitar-nos: estais lá?

E escapuliam-se para as couves galegas, que medravam em baixo para o consuetudinário caldinho verde da ceia, orelhudas como as melhores cerebrações da comunidade.

Figuravam de batedores.

Atrás daqueles rompia o pelotão.

E a breve trecho o céu tornava-se uma toalha turca, agitada ao arfar do vento, uma hora, duas horas, todo o dia, toda a noite, uma semana inteira com um ritmo para a eternidade.

Contra os peitoris a massa branca acumulava-se, fazia regueifas, enfuscava as vidraças.

Para lá do tapume lívido das janelas represava-se um oceano opaco, zinco em fusão.

Olhávamos de dentro para fora como se nos abafasse uma redoma.

De tempos a tempos, o Saraiva não resistia à tentação de chegar à janela em arrastados passos a gozar o espectáculo do grande mausoléu branco que sepultava o mundo.

Um mais gaiato atrevia-se a ir espreitar, ronceirinho, à sua ilharga.

E, encorajados pelo exemplo, lá iam todos.

Uma vez na vida, o Saraiva tinha de ser benévolo.



- AQUILINO RIBEIRO, Uma luz ao longe, IV.

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2.6.06

Fernando Assis Pacheco (Campo de Ourique, Lisboa)






CAMPO DE OURIQUE, LISBOA: LITANIA PARA OS DIAS VELOZES




Perdizes em A-do-Pinto ao pé de Serpa — para outros
braçadas de crawl como se despe a camisa do tédio — para outros
e passa tanto tempo num minuto


o jackpot erótico não dura sempre
crescem as filhas meio palmo em cada Verão
serei avô com dignidade? ou o chato do costume?
e passa tanto tempo num minuto


o meu voto é útil — dizem os oradores procurando-me na sala
estou enlatado entre uma dama e um guarda-costas
desejaria falar sobre as minorias de um
e passa tanto tempo


restam-me duas assoalhadas no fundo do poço?


faço versos para retardar o acidente coronário
podia fazer ginástica de manutenção que era o mesmo
disse de vez: ao diabo nome nos índices remissivos!
escrevam teses sobre a prenhez do referente
deixem-me olhar a chuva deixem-me
palitar os dentes - ut supra
não acerto com o Zeitgeist é escusado (e é inútil)
e passa tanto tempo num minuto



Fernando Assis Pacheco

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José António Almeida (As íris)





AS IRIS




Os corpos gémeos, peito a peito, num abraço
estreitámos a noite inteira sobre a cama:
no dia seguinte de manhã é que observei
que ele tinha os olhos cada um de sua cor.



JOSÉ ANTÓNIO ALMEIDA
O Rei de Sodoma
Lisboa, Presença
(1993)


Outro poema: A vila de Cuba em verso livre

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29.5.06

António Botto (Nunca te foram)





Nunca te foram ao cu
Nem nas perninhas, aposto!
Mas um homem como tu,
Lavadinho, todo nu, gosto!


Sem ter pentelho nenhum
com certeza, não desgosto,
Até gosto!
Mas... gosto mais de fedelhos.


Vou-lhes ao cu
Dou-lhes conselhos,
Enfim… gosto.


António Botto


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Aqui, também

E aqui

Ali

E ali também


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26.5.06

Mário Quintana (Bilhete)





BILHETE




Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda...


Mário Quintana





Biografia

Mario Miranda Quintana nasceu em Alegrete, em 30 de julho de 1906.
Tem na simplicidade um método e isso a faz despreocupado em relação à crítica, faz poesia porque "sente necessidade", segundo suas próprias palavras, e nelas encontramos uma desconcertante capacidade de síntese, elemento poético surpresa com que conquista a memória de seus leitores.
Em 1928 ingressou no jornal O Estado do Rio Grande.
Após ter participado da Revolução de 1930, mudou-se para o Rio de Janeiro, retornando em 1936 para a Livraria do Globo, em Porto Alegre, onde trabalhou sob a direção de Erico Verissimo.
Traduziu Charles Morgan, Rosamond Lehman, Lin Yutang, Proust, Voltaire, Virginia Woolf, Papini, Maupassant.
Em sua poesia há um constante travo de pessimismo e muito de ternura por um mundo que, parece, lhe é adverso.
Morre em 5-Maio-1994.



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25.5.06

Aquilino Ribeiro (Curtiam um taró)






Quando voltava costas, os epicuristas metiam-se de novo na cama a gozar mais uns minutinhos de vale-de-lençóis.

A mil metros de altitude, não era sem custo, ainda no Verão, que nos decidíamos a deixar o quente.

O ar cortava.

Batiam os picotos da serra todas as auras do céu, sem uma árvore, pode-se dizer, que lhes quebrasse o gume.

Na mata que se avistava ao longe, os pinheiros pareciam pasmados.

Os pássaros, se queriam empoleirar-se para cantar, tinham que fazê-lo em cima dos penedos.

As manhãs, que por uma disposição benigna refloriam indefectivelmente divinais e brancas como açucenas sobre um ermo assim escalvado, ressudavam uma digna algidez polar a qualquer altura do ano.

Não obstante os coturnos de grossa lã caseira e a fatiota de surrobeco ou saragoça, na sala do estudo as dentuças tilintavam como matracas.

Alguns alunos, conquistados ao cheviote das terras urbanizadas, curtiam um taró que lhes punha a penugem do rosto mais crespa que palha de arame.



- AQUILINO RIBEIRO, Uma luz ao longe, IV.

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22.5.06

Mário Rui de Oliveira (Lamento pela morte de S.João da Cruz)





LAMENTO PELA MORTE DE S. JOÃO DA CRUZ



Marcham
silenciosas
pelo fim da tarde
as últimas palavras
do amor



Mário Rui de Oliveira

Mais poemas



19.5.06

Fernando Assis Pacheco (A filha)






A FILHA




Ajudai-me a cantar a filha.
Preciso de cantar
esta alegria simples que se abate
sobre uns ombros mesquinhos.
És tu a baga vermelha;
e vou até ao fim da vida
sorvendo o teu sumo;
e quando tantas voltas
me ainda faltam
chegas tu para arrancar
de vez algumas torvas raízes
presas ao coração.


Agosto não me diz nada.
Luanda é uma luz de pedra.
E quanto aos versos
há-de vir outro tempo
certamente mais feliz, mais
limpo do que este
na Rua Bocage entre duras
acácias da Câmara.
Preciso de cantar a filha.


Ajudai-me a cantar
os baços, incertos olhos.
A mão direita apertada.
A nenhuma aflição
do seu peito manso.
Coisas que não entendo;
pergunto e não entendo,
sequer ouvia alguém.
Ajudai-me que estou
sentado e só, aflito
num banco da Restinga.


Luanda é a noite
despojada de estrelas.
Não merece esta filha.



Fernando Assis Pacheco

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17.5.06

Eugénio de Andrade (Adeus)






ADEUS




Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.


Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.


Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.


Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.


Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.


Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.


Adeus.



EUGÉNIO DE ANDRADE
Os amantes sem dinheiro

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14.5.06

Maria do Rosário Pedreira (Não adormeças)






NÃO ADORMEÇAS




Não adormeças: o vento ainda assobia no meu quarto
e a luz é fraca e treme e eu tenho medo
das sombras que desfilam pelas paredes como fantasmas
da casa e de tudo aquilo com que sonhes.


Não adormeças já. Diz-me outra vez do rio que palpitava
no coração da aldeia onde nasceste, da roupa que vinha
a cheirar a sonho e a musgo e ao trevo que nunca foi
de quatro folhas; e das ervas mais húmidas e chãs
com que em casa se cozinhavam perfumes que ainda hoje
te mordem os gestos e as palavras.


O meu corpo gela à míngua dos teus dedos, o sol vai
demorar-se a regressar. Há tempo para uma história
que eu não saiba e eu juro que, se não adormeceres,
serei tão leve que não hei-de pesar-te nunca na memória,
como na minha pesará para sempre a pedra do teu sono
se agora apenas me olhares de longe e adormeceres.



Maria do Rosário Pedreira



11.5.06

Aquilino Ribeiro (O prefeito Saraiva)










(Ao descoser do povo...)











Ao descoser do povo, o Sr. Saraiva deitou olhos amorosos para a tapadinha de regadio e bouça, e carpiu-se.

A garotada não deixava coalhar dois pinhões naqueles seus pinheiros mansos.

O pior é que, a botar abaixo as pinhas, faziam o calcadoiro de cem potros no picadeiro.

Num raio de muitos metros não se salvava uma espiga.

A sua vontade era empalar ali um malandro — e de olhos muito fitos no Loio, a exemplificar, levava a mão à bunda, em seguida à boca — como se faz aos gaios nos campos de milho.

O natural do prefeito era macambúzio e não tardou que mergulhasse no pélago limoso de suas cogitações, trupe-trupe, escarrapachado na burrica.

Quando tornei a olhar para ele, ia esbagoando o rosário e bichanava, tocados os seus lábios do deslize imperceptível dos padre-nossos.

Dali em fora, sempre a subir, via-se uma aguilhada de semeadura por dez de fragoedo e baldio.

As messes começavam a apendoar, para não desmentirem o ditado: Em Março bota o centeio o plumaço, em Abril o penduril; com Junho, foicinha em punho.

Mais bonito que a folha, mostrava-se ainda o maninho, picado das primeiras lantejoilas dos tojos e com as giestas a derreterem-se em maias argênteas e amarelas, e era pena que não as houvesse vermelhas.

Mas pela terra alastrava o verde, o verde dos esplêndidos matizes, entre diáfano nos bosques e encarniçado no mato galego, e polifonicamente luxurioso.

E, onde as águas não cantavam, sussurravam, levadas numa ladainha de brancura, de socalco para socalco.



- AQUILINO RIBEIRO, Uma luz ao longe (abertura).

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9.5.06

Jaime Sabines (Pensando bem)





PENSÁNDOLO BIEN




Me dicen que debo hacer ejercicios para adelgazar,
que alrededor de los 50 son muy peligrosos la grasa y el cigarro,
que hay que conservar la figura y dar la batalla al tiempo, a la vejez.


Expertos bien intencionados y médicos amigos me recomiendan
dietas y sistemas para prolongar la vida unos años más.
Lo agradezco de todo corazón, pero me río de tan vanas recetas
 y tan escaso afán.
(La muerte también ríe de todas estas cosas.)


La única recomendación que considero seriamente es la de buscar
mujer joven para la cama, porque a estas alturas, la juventud sólo
puede llegarnos por contagio.



Jaime Sabines






Dizem-me que faça exercício para emagrecer,
que à volta dos 50 a gordura e o cigarro são muito perigosos,
que é preciso manter a linha e lutar contra o tempo e a velhice.


Peritos bem intencionados e médicos amigos recomendam-me
dietas e esquemas para prolongar a vida alguns anos mais.


Agradeço de todo o coração, mas rio-me de receitas tão vãs
e tão inútil afã.
(E a morte ri-se também de tudo isso.)


A única recomendação que encaro seriamente é a de buscar
mulher jovem para a cama, porque nestas alturas da vida
a juventude já só por contágio.



(Trad. A. M.)


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7.5.06

Fernando Assis Pacheco (Animais de fogo)





ANIMAIS DE FOGO (*)




Um dia
o homem é posto à prova, interrogado
pelas areias moventes;
desaba sobre ele a tempestade
que o quer afogar.
Cautela com os animais de fogo!


Passou o tempo da viola.
Também não aceito cantar as Índias
mentirosas. Segue carta
explicando como a paz começa.


Há sempre um barco para embarcar,
um pé de videira para a sede.
No ano mais desabrigado da minha vida
não posso deixar que a tristeza
sujeite estes versos. Não quero deixar.


Eu estou quase a nascer outra vez
após alguns tropeços e febres malignas,
estou na margem florida do meu continente.


Não posso, não quero, não me vou deixar
transformar num poeta azedo.



Fernando Assis Pacheco




(*) Há uma outra versão primitiva, em "Cuidar dos Vivos" (1963).


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6.5.06

Miguel Torga (Bucólica)

                                              




BUCÓLICA




A vida é feita de nadas:
De grandes serras paradas
À espera de movimento;
De searas onduladas
Pelo vento;


De casas de moradia
Caídas e com sinais
De ninhos que outrora havia
Nos beirais;


De poeira;
De sombra de uma figueira;
De ver esta maravilha:
Meu Pai a erguer uma videira
Como uma mãe que faz a trança à filha.


Miguel Torga


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4.5.06

Gabriel Celaya (Biografia)






BIOGRAFÍA




La vida que murmura. La vida abierta.
La vida sonriente y siempre inquieta.
La vida que huye volviendo la cabeza,
tentadora o quizá, sólo niña traviesa.
La vida sin más. La vida ciega
que quiere ser vivida sin mayores consecuencias,
sin hacer aspavientos, sin históricas histerias,
sin dolores trascendentes ni alegrías triunfales,
ligera, sólo ligera, sencillamente bella
o lo que así solemos llamar en la tierra.


GABRIEL CELAYA
Penúltimos poemas
(1982)






A vida que murmura. A vida aberta.
A vida sorridente e sempre inquieta.
A vida que foge, virando a cabeça,
tentadora ou, talvez, apenas miúda travessa.
A vida sem mais. A vida cega,
que quer ser vivida sem maiores consequências,
sem espaventos, sem históricas histerias,
sem dores transcendentes nem alegrias triunfais,
ligeira, apenas ligeira, simplesmente bela
ou lá como soi dizer-se na terra.


(Trad. A.M.)



Biografía
Rafael Múgica, nombre real del poeta español, nació en Hernani, Guipúzcoa en 1911.
Presionado por su padre, se radicó en Madrid donde inició sus estudios de Ingeniería y trabajó por un tiempo en la empresa familiar.
Conoció allí a los poetas del 27 y a otros intelectuales que lo inclinaron hacia el campo de la literatura, dedicándose desde entonces por entero a la poesía.
En 1947 fundó en San Sebastián, con su inseparable Amparo Gastón, la colección de poesía «Norte».
Obtuvo en 1956 el Premio de la Crítica por su libro «De claro en claro», al que siguieron entre otros, «Plural» 1935, «Cantos Íberos» 1955, «Casi en prosa» 1972, «Buenos días, buenas noches» 1976 y «Penúltimos poemas» en 1982.
En 1986 recibió el Premio Nacional de las Letras Españolas.
Falleció en 1991.



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Biografia / Outros poemas

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2.5.06

Um verso (14)






Um verso de Cesário
(Verde, dois, bem medidos):





“Teus olhos dizem mais
que muitas bibiotecas”.


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28.4.06

Cecília Meireles (Retrato)





RETRATO



Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.


Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.


Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida
a minha face?



Cecília Meireles






Biografia

Cecília Benevides de Carvalho Meireles nasceu a 7 de novembro de 1901, no Rio de Janeiro.
Órfã de pai e mãe desde os três anos de idade foi criada pela avó materna.
Em 1917 forma-se na Escola Normal do Rio, dedicando-se ao magistério primário.
A partir da década de 30, leciona literatura brasileira em várias universidades.
Estudou canto e violino.
Empenhou-se na renovação da Educação, tendo organizado a primeira biblioteca infantil do país. Publicou seu primeiro livro em 1919, "Espectros", de tendência parnasiana.
A partir de 1922, passou a integrar a corrente espiritualista, ala católica do movimento modernista, e que teria na revista Festa (fundada em 1927) seu principal veículo de expressão. Em 1935, o suicídio do marido força-a a ampliar suas atividades de professora e jornalista, para educar as filhas.
Alcança a maturidade como poeta em 1938 com a publicação de "Viagem", premiado pela Academia Brasileira de Letras.
Casada novamente, inicia-se um período de intensa atividade profissional e literária, e de freqüentes viagens ao exterior, o que se refletiria em obras como "Doze Noturnos de Holanda" e "Poemas Escritos na Índia".
Em 1953, após anos de minuciosa pesquisa histórica, publica o "Romanceiro da Inconfidência". Cecília Meireles morreu a 9 de novembro de 1964, no Rio de Janeiro.
No ano seguinte, a ABL concede-lhe postumamente o prémio Machado de Assis, pelo conjunto de sua obra.



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Outros poemas

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27.4.06

Aquilino Ribeiro (Aquela luzinha)















Luzinha-1 (Jorge de Sena)

Luzinha-2 (Assis Pacheco)



Luzinha-3 (Aquilino)...




E eis que, divagando, pareceu-me ver cintilar em frente de mim.

O que quer que era tremeluzia e apagava-se, tremeluzia e apagava-se como um fiapo de penugem branca boiando ao sopro do vento.

Sim, de quando em quando, sempre que depois de fechar os olhos os abria para varrer da retina a visão obsessa, reaparecia o ludibriante alvor.

E não me dominei: pus o Gasco no chão e fui direito, rastejando, ao sinal prodigioso.

Graças, minha boa Senhora da Lapa, era um fio de luz, delgado como retrós, que se filtrava entre a linha da abóbada e o cume do entulho!

Como podia ser não a haver eu encontrado antes?!

Sem me demorar grandes segundos a reflectir no enigma, para cuja decifração muito devia ter contribuído o Sol, alumiando daquele lado no seu discurso para o meio-dia, tratámos de nos safar dali.

Havia encontrado o meu símbolo.

Aquela luzinha, assim flébil e celestial, ficou-me com efeito de emblema na vida.

Nas horas de maior negrume, quando era para desesperar de todo, surgia-me imprevistamente no báratro dos meus cuidados.

Pequenina, bruxuleante, vinda de longe, crescia, e iluminava-me o caminho.

Filha da própria ralé, providência de infelizes e aflitos, nunca por nunca deixou de raiar.

Creio que ela existe igualmente para todos os humanos, e não deve ser outro o fanal que os guiou através das convulsões físicas e sociais do mundo.

A questão para o indivíduo é ter olhos que a descubram.



- AQUILINO RIBEIRO, Uma Luz ao Longe, XI, in fine.

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24.4.06

Um verso (13)

















Um verso de Eugénio
(Deus lhe fale na alma):




“Com palavras amo”.



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Fernando Assis Pacheco (Apanhador de pirilampos)

                 






APANHADOR DE PIRILAMPOS




A poluição dos escapes
os herbicidas
foram-vos empurrando
para fora
do Pinheiro Manso


antiga minha luz
particular
em noites doces
procuro-vos
e nada encontro
senão lixo
entre as folhas


fazeis-me
tanta falta
neste mundo escuro



Fernando Assis Pacheco

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21.4.06

Mário Cesariny (Poema)





POEMA




Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura


Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco



Mário Cesariny


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18.4.06

Jorge de Sena (Uma pequenina luz)






UMA PEQUENINA LUZ




Uma pequenina luz bruxuleante
Não na distância brilhando no extremo da estrada
Aqui no meio de nós e a multidão em volta
Une toute petite lumière
Just a little light
Una picolla... em todas as línguas do mundo
Uma pequena luz bruxuleante
Brilhando incerta mas brilhando
Aqui no meio de nós
Entre o bafo quente da multidão
A ventania dos cerros e a brisa dos mares
E o sopro azedo dos que a não vêem
Só a adivinham e raivosamente assopram.
Uma pequenina luz
Que vacila exacta
Que bruxuleia firme
Que não ilumina apenas brilha
Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.
Muda como a exactidão como a firmeza
Como a justiça.
Brilhando indefectível.
Silenciosa não crepita
Não consome não custa dinheiro.
Não é ela que custa dinheiro.
Não aquece também os que de frio se juntam.
Não ilumina também os rostos que se curvam.
Apenas brilha bruxuleia ondeia
Indefectível próxima dourada.
Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.
Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.
Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.
Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.
Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não: brilha.
Uma pequenina luz bruxuleante e muda
Como a exactidão como a firmeza
Como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância. Aqui
No meio de nós.
Brilha.


Jorge de Sena


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12.4.06

Fernando Assis Pacheco (A bela do bairro)





A BELA DO BAIRRO




Ela era muito bonita e benza-a Deus
muito puta que era sempre à espera
dos pagantes à janela do rés-do-chão
mas eu teso e pior que isso néscio desses amores
tenho o quê? quinze anos
tenho o quê uns olhos com que a vejo
que se debruçava mostrando os peitos
que a amei como se ama unicamente
uma vez um colo branco e até as jóias
que ela punha eram luzentes semelhando estrelas
eu bato o passeio à hora certa e amo-a
de cabelo solto e tudo não parece
senão o céu afinal um pechisbeque


ainda agora as minhas narinas fremem
turva-se o coração desmantelado
amando-a amei-a tanto e sem vergonha
oh pecar assim de jaquetão sport e um cigarro
nos queixos a admiração que eu fazia
entre a malta não é para esquecer nem lá ao fundo
como então puxo as abas da farpela
lentamente caminho para ela
a chuva cai miúda
e benza-a Deus que bonita e que puta
e que desvelos a gente
gastava em frente do amor



Fernando Assis Pacheco


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11.4.06

Um verso (12)









Um verso de Nemésio
(este também tem muitos):




“O tempo gasta a minha voz como se fosse o seu pão”.


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Clarice Lispector (Mas há a vida)






Mas há a vida
que é para ser
intensamente vivida, há o amor.


Que tem que ser vivido
até a última gota.
Sem nenhum medo.
Não mata.


Clarice Lispector



Biografia:

Clarice Lispector nasceu em Tchetchenillk - Ucrânia, no ano de 1925.
Os Lispector emigraram da Rússia para o Brasil no ano seguinte, tendo parado na Ucrânia somente para ter a filha Clarice, que nunca mais voltaria à pequena aldeia em que nascera. Fixaram-se em Recife, onde a escritora passou a infância.
Órfã de mãe aos 12 anos mudou-se com a família para o Rio de Janeiro.
Começou a escrever contos logo que foi alfabetizada.
Entre muitas leituras, ingressou no curso de direito, formou-se e começou a colaborar em jornais cariocas.
Casou-se com um colega de faculdade em 1943.
No ano seguinte publicava sua primeira obra: Perto do coração selvagem, iniciado cerca de dois anos antes.
A moça de 19 anos assistiu à perplexidade nos leitores e na crítica e a repercussão de um estilo "muito diferente" para a época.
Seguindo o marido, diplomata de carreira, viveu fora do Brasil por quinze anos, onde se dedicava exclusivamente a escrever.
Separada do marido e de volta ao Brasil, passou a morar no Rio de Janeiro.
Em novembro de 1977 soube que sofria de câncer generalizado.
No mês seguinte, na véspera de seu aniversário, morria em plena atividade literária e gozando do prestígio de ser uma das mais importantes vozes da literatura brasileira.



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Mais poemas / Critica / Bio-bibliografia

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7.4.06

Eugénio de Andrade (Eros)

                                 



EROS



Nunca o Verão se demorara
assim nos lábios
e na água
- como podíamos morrer,
tão próximos
e nus e inocentes?


EUGÉNIO DE ANDRADE
Mar de Setembro

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5.4.06

Mario Benedetti (Desde los afectos)






DESDE LOS AFECTOS




Cómo hacerte saber que siempre hay tiempo?
Que uno tiene que buscarlo y dárselo...
Que nadie establece normas, salvo la vida...
Que la vida sin ciertas normas pierde formas...
Que la forma no se pierde con abrirnos...
Que abrirnos no es amar indiscriminadamente...
Que no está prohibido amar...
Que también se puede odiar...
Que la agresión porque sí, hiere mucho...
Que las heridas se cierran...
Que las puertas no deben cerrarse...
Que la mayor puerta es el afecto...
Que los afectos, nos definen...
Que definirse no es remar contra la corriente...
Que no cuanto más fuerte se hace el trazo, más se dibuja...
Que negar palabras, es abrir distancias...
Que encontrarse es muy hermoso...
Que el sexo forma parte de lo hermoso de la vida...
Que la vida parte del sexo...
Que el por qué de los niños, tiene su por qué...
Que querer saber de alguien, no es sólo curiosidad...
Que saber todo de todos, es curiosidad malsana...
Que nunca está de más agradecer...
Que autodeterminación no es hacer las cosas solo...
Que nadie quiere estar solo...
Que para no estar solo hay que dar...
Que para dar, debemos recibir antes...
Que para que nos den también hay que saber pedir...
Que saber pedir no es regalarse...
Que regalarse en definitiva no es quererse...
Que para que nos quieran debemos demostrar qué somos...
Que para que alguien sea, hay que ayudarlo...
Que ayudar es poder alentar y apoyar...
Que adular no es apoyar...
Que adular es tan pernicioso como dar vuelta la cara...
Que las cosas cara a cara son honestas...
Que nadie es honesto porque no robe...
Que cuando no hay placer en las cosas no se está viviendo...
Que para sentir la vida hay que olvidarse que existe la muerte...
Que se puede estar muerto en vida..
Que se siente con el cuerpo y la mente...
Que con los oídos se escucha...
Que cuesta ser sensible y no herirse...
Que herirse no es desangrarse...
Que para no ser heridos levantamos muros...
Que sería mejor construir puentes...
Que sobre ellos se van a la otra orilla y nadie vuelve...
Que volver no implica retroceder...
Que retroceder también puede ser avanzar...
Que no por mucho avanzar se amanece más cerca del sol...
Cómo hacerte saber que nadie establece normas, salvo la vida?


Mario Benedetti



Biografía

Poeta y novelista uruguayo nacido en 1920 en Paso de Los Toros.
Recibió la formación primaria y secundaria en Montevideo y a los dieciocho años se trasladó a Buenos Aires donde residió por varios años.
En 1945 formó parte del famoso semanario «Marcha» donde se formó como periodista, colaborando allí hasta 1974.
Ocupó el cargo de director del Departamento de Literatura Hispanoamericana en la Facultad de Humanidades y Ciencias de la Universidad de Montevideo.
Desde 1983 se radicó en España donde permanece la mayor parte del año.
Obtuvo el VIII Premio Reina Sofía de Poesía y recibió el título de Doctor Honoris Causa por la Universidad de Alicante.
Su vasta producción literaria abarca todos los géneros, incluyendo famosas letras de canciones, cuentos y ensayos, traducidos en su mayoría a varios idiomas.
De su extensa obra se encuentran entre otros, la novela «Gracias por el fuego», «El olvido está lleno de memoria», y los poemarios, «Inventario Uno», «Inventario Dos» e «Inventario Tres».



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Outros poemas

3.4.06

Fernando Assis Pacheco (Aconselho-vos o amor)





ACONSELHO-VOS O AMOR



Aconselho-vos o amor:
o equilíbrio dos contrários.
Aconselho-vos o amor cheio de força;
os moinhos girando ao vento desbridado.
Aconselho-vos a liberdade
do amor (que logo passa
— vão dizer-vos que não —
para os gestos diários).


ACONSELHO-VOS A LUTA.



Fernando Assis Pacheco


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30.3.06

Um verso (11)


























Um verso de Mário de Andrade
(poeta de muitos Brasis – S.Paulo, 1917):




“Há uma gota de sangue em cada poema”.

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29.3.06

Delmira Agustini (Mis amores)

                              




MIS AMORES




Hoy han vuelto.
Por todos los senderos de la noche han venido
a llorar en mi lecho.
¡Fueron tantos, son tantos!
Yo no sé cuáles viven, yo no sé cuál ha muerto.
Me lloraré yo misma para llorarlos todos.
La noche bebe el llanto como un pañuelo negro.
Hay cabezas doradas a sol, como maduras...
Hay cabezas tocadas de sombra y de misterio,
cabezas coronadas de una espina invisible,
cabezas que son rosa, la rosa del ensueño,
cabezas que se doblan en cojines de abismo,
cabezas que quisieran descansar en el cielo,
algunas que no alcanzan a oler a primavera,
y muchas que trascienden a las flores de invierno.
Todas esas cabezas me duelen como llagas...
me duelen como muertos...


¡Ah...! y los ojos...
los ojos me duelen más: ¡son dobles..!
Indefinidos, verdes, grises, azules, negros,
abrasan si fulguran,
son caricias, dolor, constelación, infierno.
Sobre toda su luz, sobre todas sus llamas,
se iluminó mi alma y se templó mi cuerpo.
Ellos me dieron sed de todas esas bocas...
de todas esas bocas que florecen mi lecho:
vasos rojos o pálidos de miel o de amargura
con lises de armonía o rosas de silencio,
de todos esos vasos donde bebí la vida,
de todas esos vasos donde la muerte bebo...
El jardín de sus bocas, venenoso, embriagante,
en donde respiraban "sus almas" y "sus cuerpos".
Humedecido en lágrimas
han rodeado mi lecho...


Y las manos, las manos colmadas de destinos,
secretas y alhajadas de anillos de misterio...
Hay manos que nacieron con guantes de caricia,
manos que están colmadas de la flor del deseo,
manos en que se siente un puñal nunca visto,
manos en que se ve un intangible cetro;
pálidas o morenas, voluptuosas o fuertes,
en todas, todas ellas, puede engarzar un sueño.
Con tristeza de almas se doblegan los cuerpos,
sin velos, santamente vestidos de deseo.
Imanes de mis brazos, panales de mi entraña
como invisible abismo se inclinan en mi lecho...
¡Ah, entre todas las manos, yo he buscado tus manos!
Tu boca entre las bocas, tu cuerpo entre los cuerpos,
de todas las cabezas yo quiero tu cabeza,
de todos esos ojos, ¡tus ojos sólo quiero!
Tú eres el más triste, por ser el más querido,
tú has llegado el primero por venir de más lejos...
¡Ah, la cabeza oscura que no he tocado nunca
y las pupilas claras que miré tanto tiempo!
Las ojeras que ahondamos la tarde y yo inconscientes,
la palidez extraña que doblé sin saberlo,
ven a mí: mente a mente;
ven a mí: cuerpo a cuerpo.
Tú me dirás que has hecho de mi primer suspiro...
Tú me dirás que has hecho del sueño de aquel beso...
Me dirás si lloraste cuando te dejé solo...
¡Y me dirás si has muerto...!


Si has muerto,
mi pena enlutará la alcoba lentamente,
y estrecharé tu sombra hasta apagar mi cuerpo.
Y en el silencio ahondado de tinieblas,
y en la tiniebla ahondada de silencio,
nos velará llorando, llorando hasta morirse
nuestro hijo: el recuerdo.


DELMIRA AGUSTINI
- Obras completas. Tomo I.
El rosario de Eros
(1924)



Biografía

Poeta uruguaya nacida en Montevideo en 1886, en el seno de una familia burguesa descendiente de alemanes, franceses y porteños.
Desde muy corta edad incursionó en el campo poético publicando su primer poemario, «El libro blanco» en 1907. Luego aparecieron «Cantos de la mañana» en 1910 y «Los cálices vacíos».
Mujer de gran sensibilidad y sensualismo, asombró a Montevideo y Buenos Aires con sus libros de versos.
Contrajo matrimonio en 1913.
Su matrimonio fracasó a los dos meses, y un año después, en 1914, murió asesinada por su marido quien se suicidó después.
Después de su muerte se publicaron dos composiciones más: «El rosario de Eros» y «La alborada».



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Outros poemas

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27.3.06

Jorge Luis Borges (Dezassete haicai)

                                       




DEZASSETE HAICAI



1
Algo me disseram
a tarde e a montanha.
Já me passou.


2
A vasta noite
não é agora mais
que uma fragrância.


3
É ou não é
o sonho que olvidei
antes da alba?


4
Calam-se as cordas.
A música sabia
o que eu sinto.


5
Hoje não me alegra
a amendoeira do passal.
Lembra-me de ti.


6
Obscuramente,
livros, lâminas, chaves
seguem o meu fado.


7
Desde então
não mais mexi as peças
no tabuleiro.


8
No deserto
acontece a aurora.
Alguém o sabe.


9
A espada ociosa
sonha com as batalhas.
Meu sonho é outro.


10
O homem morreu.
A barba não sabe.
Crescem as unhas.


11
Esta é a mão
que às vezes passava
no teu cabelo.


12
Sob o beiral
o espelho copia
apenas a lua.


13
Com a lua
a sombra estendida
é uma só.


14
É um império
essa luz que se apaga
ou uma candeia?


15
A lua nova,
também ela a olha
de outro porto.


16
Trinado ao longe.
Mal sabe o rouxinol
que te consola.


17
A velha mão
vai traçando versos
para o esquecimento.



Jorge Luis Borges

(Trad. A.M.)
Original: Catedral


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22.3.06

Um verso (10)






Um verso de Camões
(ah! Mas esse tem mil e um):



“Vinde cá, meu tão certo secretário”.



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Jacques Prévert (Bairro livre)






BAIRRO LIVRE




Meti o bivaque na gaiola
e saí com um pássaro na cabeça


Então não se faz a continência
perguntou o comandante


Não
não se faz a continência
respondeu o pássaro


Ah bom
desculpe julgava que se fazia a continência
disse o comandante


Ora essa
disse o pássaro
toda a gente se pode enganar



Jacques Prévert
(Trad. E.Andrade, adapt.)

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20.3.06

Adolfo Casais Monteiro (A tua morte em mim)






A TUA MORTE EM MIM
(excerto)




A tua morte é sempre nova em mim.
Não amadurece. Não tem fim.
Se ergo os olhos dum livro, de repente
tu morreste.
Acordo, e tu morreste.
Sempre, cada dia, cada instante,
a tua morte é nova em mim,
sempre impossível.


E assim, até à noite final
irás morrendo a cada instante
da vida que ficou fingindo vida.
Redescubro a tua morte como outros
redescobrem o amor,
porque em cada lugar, cada momento,
tu estás viva.


Viverei até à hora derradeira a tua morte.
Aos goles, lentos goles. Como se fosse
cada vez um veneno novo.
Não é tanto a saudade que dói, mas o remorso.
O remorso de todo o perdido em nossa vida,
coisas de antes e depois, coisas de nunca,
palavras mudas para sempre, um gesto
que sem remédio jamais teve destino,
o olhar que procura e nunca tem resposta.


O único presente verdadeiro é teres partido.



Adolfo Casais Monteiro



Bio-bibliografia

Mais poemas

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16.3.06

Um verso (9)






Um verso de David
(vá lá, dois, Mourão F., já se vê):





“Quem foi que à tua pele conferiu esse papel
de mais que tua pele ser pele da minha pele?”

.

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Vitorino Nemésio (Loa)





LOA




Meu Menino Jesus dos triguenhos no prato,
Não enxugues a tua lágrima de vidro,
Não apagues a tua estrela de prata suspensa no quarto ainda morno,
Não deixes envelhecer os velhos tios de retábulo
Ajoelhados em torno:
Deixa estar as palhinhas urinadas no estábulo,
Que a chuva cheira bem e o pão tufa no forno.
Dorme, Menino Jesus, aquele milho amarelo
Que o Joaquim Pacheco secou na escuridão do seu muro,
E manda um navio de nevoeiro
Ao poeta que embarcou no FunchalDeixando o lenço de sua mãe molhado no último adeus.
Anda, Menino Jesus, e não me queiras mal
Se eu te disser que assim é que te sinto Deus.
Manda o navio de nevoeiro
Pela primeira vaga que vires redonda e rebentada:
Tua mão outra vez a atira contra a noite,
Como se não tivesse batido nessa grande praia parada.
E deixa as minhas faltas à missa,
Esquece os pontos fracos da minha velha teologia,
E o orgulho, a razão, o materialismo passageiro…
Mandes tu pelo mar o navio de nevoeiro!



VITORINO NEMÉSIO
O Bicho Harmonioso
(1938)

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12.3.06

Jaime Sabines (Diz Rubén)





DICE RUBÉN




Dice Rubén que quiere la eternidad, que pelea
por esa memoria de los hombres para un siglo,
o dos, o veinte. Y yo pienso que esa eternidad no es más
que una prolongación, menguada y pobre, de nuestra existencia.


Hay que estar frente a un muro.
Y hay que saber que entre nuestros puños que golpean
y el lugar del golpe, allí está la eternidad.


Creer en la supervivencia del alma,
o en la memoria de los hombres,
es lo mismo que creer en Dios,
es lo mismo que cargar su tabla mucho antes del naufragio.



Jaime Sabines





Diz Rubén que quer a eternidade, que luta
por essa memória dos homens de um século,
de dois, ou de vinte. E eu penso que essa eternidade não é mais
do que um prolongamento, curto e pobre, da nossa existência.


Viremo-nos para uma parede.
E saibamos que ali, entre o punho que golpeia
e o lugar do impacto, ali é que é a eternidade.


Crer na imortalidade da alma,
ou na memória dos homens,
é igual a crer em Deus, é o mesmo que
carregar a tábua muito antes do naufrágio.



(Trad. A.M.)



Biografía

Poeta y ensayista mexicano nacido en Tuxtla Gutiérrez en 1926.
Se radicó en Ciudad de México desde 1949 cuando inició sus estudios de Filosofía y Letras. Aunque escribió sus primeros poemas antes de los dieciocho años, fue allí en la universidad donde publicó «Horal» a la edad de veintitrés años.
Un recuento de sus poemas fue publicado por la UNAM en 1962.
En 1965 tras su visita a Cuba para servir como jurado del Premio Casa de las Américas, sufrió un gran desencanto con las tendencias izquierdistas, sentimiento que dejó plasmado en su libro «Yuria» publicado en 1967.
Su obra tiene un marcado acento informal que lo convierte en un poeta de todos los tiempos.
Su prosa vehemente y su verso sentido y sensual, nos hacen viajar por un mundo de realidades vividas.En 1985, recibió el Premio Nacional de Ciencias y Artes.
En 1986, con motivo de sus sesenta años, fue homenajeado por la UNAM y el INBA.
Ese mismo año el Gobierno del Estado de Tabasco le entregó el Premio Juchimán de Plata.
En 1991, el Consejo Consultivo le otorgó la Presea Ciudad de México y en 1994 el Senado de la República lo condecoró con la medalla Belisario Domínguez.
Por su libro «Pieces of Shadow» («Fragmentos de sombra»), antología de su poesía traducida al inglés y editada en edición bilingüe, obtuvo el Premio Mazatlán de Literatura 1996.
Tras una larga enfermedad falleció en Ciudad de México en 1999.



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Fonte (biografia) / Mais poemas

Aqui, antes

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10.3.06

Fernando Assis Pacheco (Respiração assistida)

                                            





RESPIRAÇÃO ASSISTIDA




Eu vi a morte
de noite - névoa branca -
entre os frascos do soro
rondar a minha cama


era um trasgo
e como tal metera-se
pelas frinchas; noutra versão
coando-se através
dos nós da madeira
ou noutra ainda
imitando à perfeição
o gorgolejar da água
nos ralos: eu tremia
covardemente enquanto
ela raspava a parede
com unhas muito lentas


eu vi? ouvi a morte?
com toda a probabilidade
e por instantes era ela - luz negra -
tentando cegar-me


Pardilhó, 7/9-VII1-94
Lisboa, 27-XI-95


FERNANDO ASSIS PACHECO
Respiração Assistida


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9.3.06

Gil Vicente (A caça de amor é de altanaria)






Halcón que se atreve
con garza guerrera,
peligros espera.


Halcón que se vuela
con garza a porfía
cazarla quería
y no la recela.
Mas quien no se vela
de garza guerrera,
peligros espera.


La caza de amor
es de altanería:
trabajos de día,
de noche dolor.
Halcón cazador
con garza tan fiera,
peligros espera.



Gil Vicente


.