3.6.17

Machado de Assis (Capitu)





Capitu, alheia a ambos, fitava agora a outra borda da mesa; mas, dizendo-lhe eu que, na beleza, os olhos de Ezequiel saíam aos da mãe, Capitu sorriu, abanando a cabeça com um ar que nunca achei em mulher alguma, provavelmente porque não gostei tanto das outras.
As pessoas valem o que vale a afeição da gente, e é daí que mestre Povo tirou aquele adágio que quem o feio ama bonito lhe parece.
Capitu tinha meia dúzia de gestos únicos na Terra.
 Aquele entrou-me pela alma dentro. 
Assim fica explicado que eu corresse à minha esposa e amiga e lhe enchesse a cara de beijos; mas este outro incidente não é radicalmente necessário à compreensão do capítulo passado e dos futuros; fiquemos nos olhos de Ezequiel.


MACHADO DE ASSIS
Dom Casmurro
(1900)

.

2.6.17

Hugo Vera Miranda (A morte não será o final)





LA MUERTE NO SERÁ EL FINAL



Amo la flor más bella.
Estoy borracho de amor.
Inundado.
Escribiré todas mis endechas para ella.
Asaltaré un Banco.
Ganaré el Nobel.
Me prostituiré.
Podré matar.
Seré más alto.
Ganaré los 100 metros planos.
Dormiré bajo los puentes.
Renunciaré a mi falsa modestia.
Haré canciones.
Me presentaré ante las Cortes y pediré la renuncia del Rey.
Comandaré ejércitos poderosos.
Sólo por ti dulce caramelo de mi corazón.
Ya sé que me estoy poniendo cursi.
Todo el mundo me lo dice.
Y no me contengo.
No puedo parar.
Hablo y hablo de ti.
No puedo parar.
Te veo por todas partes.
Ya no sólo en las latitas de café.
Sino que también en el cielo de Patagonia.
Mi corazón a punto de estallar.
Te amo con frenesí inaudito.
Con este mi amor maldito.
Con mi amor acelerado.
Con mi amor violento.
Todo el entorno tiene tu rostro.
Todas las canciones románticas buenas o malas, hablan de ti.
Imagínate que hasta escucho a Arjona.
Estoy borracho de amor por ti.
Amor de mi corazón.
La flor más bella.
La única flor.
Moriré pronunciando tu santo nombre.
Y no será en vano.
La muerte no será el final.
No será el final de mi amor por ti.


Hugo Vera Miranda

[Inmaculada decepcion]




Amo a mais bela flor.
Estou bêbedo de amor.
Inundado.
Escreverei as minhas endechas todas para ela.
Assaltarei um banco.
Ganharei o Nobel.
Vou-me prostituir.
Poderei mesmo matar.
Serei mais alto.
Ganharei os 100m planos.
Dormirei debaixo da ponte.
Renunciarei à minha falsa modéstia.
Farei canções.
Apresentar-me-ei nas Cortes a pedir a renúncia do Rei.
Comandarei exércitos poderosos.
Só por ti rebuçado do meu coração.
Já sei que estou a ficar piroso,
toda a gente mo diz,
mas é mais forte do que eu.
Não consigo parar,
falo de ti e volto a falar.
não consigo parar.
Vejo-te em todo o lado,
já não é só nas latas de café,
mas até nos céus da Patagónia.
Tenho o coração a rebentar,
amo-te com frenesi inaudito,
com este amor maldito
com este amor acelerado,
com meu amor violento.
Tudo em redor tem o teu rosto,
todas as canções românticas falam de ti, boas ou más,
imagina que até oiço a Arjona.
Estou bêbedo de amor por ti,
amor do meu coração,
flor mais linda,
a única flor.
Hei-de morrer com teu nome nos lábios
e não será em vão,
que a morte não será o fim,
o fim do meu amor por ti.

(Trad. A.M.)

.

1.6.17

Hugo Mujica (Em plena noite)





EN PLENA NOCHE



También en plena noche
la nieve
se derrite blanca

y la lluvia
cae
sin perder su transparencia.

Es ella, la noche,
la que nos libra de los reflejos,

la que nos expande
las pupilas.

Lo que busca con su bastón
el ciego es la luz, no el camino.


Hugo Mujica





Também em plena noite
a neve
se derrete branca

e a chuva
cai
sem perder a transparência.

É ela, a noite,
que nos livra dos reflexos,

que nos expande
as pupilas.

O que busca o cego,
com seu bastão,
 é a luz, não o caminho.


(Trad. A.M.)

.

30.5.17

Homero Aridjis (Autoretrato aos 13 anos)





AUTORRETRATO A LOS 13 AÑOS



Sobreviviente de mí mismo,
el pelo largo,
me siento en la silla del peluquero.
En un caballete está el espejo,
atrás de mí las casas,
más allá el cerro.
Los resortes del sillón pican la espalda.
Sobre el descansapiés miro las lenguas
de mis zapatos viejos.

Chon me hace la raya con el peine,
a tijeretazos avanza sobre mi cabeza
echando mechones sobre el empedrado.
Moscas sin vanidad se asolean en las piedras,
o se pegan a la frente de Chon.
Él las ahuyenta moviendo las orejas.
El peluquero me muestra su obra maestra:
un corte de pelo perfectamente redondo.
En el espejo de mano
miro en el cerro el sol que se pone.
"Cantaré la luz", me digo,
sintiéndome ya poeta.


Homero Aridjis




Sobrevivente de mim mesmo,
cabelo comprido,
sento-me na cadeira do barbeiro.
Num cavalete está o espelho,
as casas atrás de mim,
o cerro mais além.
As molas da cadeira picam-me nas costas,
sobre o descanso dos pés observo
as línguas dos meus sapatos velhos.
Chon faz-me o risco com o pente
e avança-me na cabeça às tesouradas
atirando os pelos para o chão empedrado.
Moscas sem vaidade apanham sol sobre as pedras
ou colam-se à testa de Chon,
que as afugenta abanando as orelhas.
O barbeiro mostra-me a sua obra-prima,
um corte de cabelo redondíssimo.
No espelho de mão
olho o sol que se põe no cerro.
"Cantarei a luz", digo para mim mesmo,
a sentir-me já poeta.

(Trad. A.M.)


.

28.5.17

Machado de Assis (D. Sancha)




D. Sancha, peço-lhe que não leia este livro; ou, se o houver lido até aqui, abandone o resto. Basta fechá-lo; melhor será queimá-lo, para lhe não dar tentação e abri-lo outra vez.
Se, apesar do aviso, quiser ir até o fim, a culpa é sua; não respondo pelo mal que receber.
O que já lhe tiver feito, contando os gestos daquele sábado, esse acabou, uma vez que os acontecimentos, e eu com eles, desmentimos a minha ilusão; mas o que agora a alcançar, esse é indelével.
Não, amiga minha, não leia mais.
Vá envelhecendo, sem marido nem filha, que eu faço a mesma coisa, e é ainda o melhor que se pode fazer depois da mocidade.
Um dia, iremos daqui até à porta do Céu, onde nos encontraremos renovados, como as plantas novas, come piante novelle
Rinovellate di novelle fronde.
O resto em Dante.



MACHADO DE ASSIS
Dom Casmurro
(1900)

.

27.5.17

Gonzalo Fragui (De como os antigos amores)





DE CÓMO LOS ANTIGUOS AMORES HACEN PLANES PARA MUDARSE



Quienes más sufren
cuando un nuevo amor nos abandona
son los antiguos amores

Ellas nos ven llegar desde lejos
después de una larga ausencia
nos miran sospechosamente
nos olfatean

Ellas dicen
¡Ay, poeta, de qué nueva batalla vendrás!
Yo sólo les muestro mi silencio como trofeo de guerra

A pesar de sus ironías
ellas entienden
Una me indica posiciones de tai-chi para el bazo
Otra me proporciona en la boca
pequeñas porciones de un té negro como de alacranes
Otra me aplica quemaduras en plexo solar y en las manos
con un extraño cigarro chino
Otra me acuesta en su sofá y me recorre con sus cristales
Otra me pide que respire profundo, hasta acá abajo, más abajo,
y no faltará quien me ofrezca una oración o una cerveza

Poco a poco voy saliendo a flote

Entonces ellas
hacen planes para mudarse de habitación
de trabajo
de ciudad
de planeta
lo antes posible
No quisieran verme llegar de nuevo
como perro alcanzado.


Gonzalo Fragui

[Emma Gunst]




Quem mais sofre
quando um novo amor nos deixa
são os antigos amores

Vêem-nos chegar de longe
após uma longa ausência
olham-nos com suspeita
cheiram-nos

Então dizem
Ai, poeta, de que batalha virás!
E eu mostro-lhes só o meu silêncio como troféu de guerra

Elas entendem
apesar das suas ironias
Uma indica-me posições de tai-chi para o baço
Outra dá-me na boca
umas colheres de um chá negro com sabor a lacrau
Outra aplica-me queimaduras no plexo solar e nas mãos
com um estranho charuto chinês
Outra deita-me no sofá e percorre-me com as lentes
Outra diz-me que respire fundo, até cá baixo, mais abaixo,
e não faltará quem me ofereça uma oração, uma cerveja

Pouco a pouco vou vindo à tona

Então elas fazem planos para mudar de quarto
de emprego
de cidade
de planeta
quanto antes
Não estão para me ver voltar novamente
como um cachorro abandonado.


(Trad. A.M.)

.

26.5.17

Vicente Gaos (À tristeza)





A LA TRISTEZA



Si no fuera por ti...
si no fuera por ti, que cada tarde
tuyo me haces cuando el sol declina,
cuando todo es tan bello porque es triste,
y hundes más mis raíces
de hombre en la tierra... de hombre inmensamente
solo bajo el poniente en que Dios huye.
¿Qué sería de todo, qué sería
de nosotros? Ah, nunca
nunca hubiéramos visto
el secreto misterio de las cosas.

Oh, tú, tristeza, madre
de toda la hermosura que ha creado
el hombre en el dolor que da tu mano
con su dulce castigo...
No te apartes de mí, ven cada día
a hacerme triste, a hacerme hombre, hijo tuyo...
Visítame.


Vicente Gaos





Se não fosse por ti...
se não fosse por ti, que todas as tardes
me fazes teu quando o sol se põe,
quando tudo é tão belo por ser triste,
e mais me afundas na terra
as raízes de homem, tão só
ao sol poente em que Deus se escapa.
O que seria de tudo, o que seria
de nós? Nunca jamais veríamos
o secreto mistério das coisas.


Oh, tu, tristeza, mãe da beleza toda
criada pelo homem na dor nascida
da tua mão de castigo...
Não te apartes de mim, vem cada dia
entristecer-me, fazer-me homem e fillho teu...
Visita-me.


(Trad. A.M.)




>>  A media voz (24p) / Wikipedia 

.

25.5.17

Machado de Assis (A rabeca)





Perto de casa, havia um barbeiro, que me conhecia de vista, amava a rabeca e não tocava inteiramente mal.
Na ocasião em que ia passando, executava não sei que peça.
Parei na calçada a ouvi-lo (tudo são pretextos a um coração agoniado), ele viu-me, e continuou a tocar.
Não atendeu a um freguês, e logo a outro, que ali foram, a despeito da hora e de ser domingo, confiar-lhe as caras à navalha.
Perdeu-os sem perder uma nota; ia tocando para mim.
Esta consideração fez-me chegar francamente à porta da loja, voltado para ele.
Ao fundo, levantando a cortina de chita que fechava o interior da casa, vi apontar uma moça trigueira, vestido claro, flor no cabelo.
Era a mulher dele; creio que me descobriu de dentro, e veio agradecer-me com a presença o favor que eu fazia ao marido.
Se me não engano, chegou a dizê-lo com os olhos. 
Quanto ao marido, tocava agora com mais calor; sem ver a mulher, sem ver fregueses, grudava a face no instrumento, passava a alma ao arco, e tocava, tocava...


MACHADO DE ASSIS
Dom Casmurro
(1900)

.

24.5.17

Gloria Fuertes (Vê lá, que maluquice)





Ya ves qué tontería, 
me gusta escribir tu nombre, 
llenar papeles con tu nombre, 
llenar el aire con tu nombre; 
decir a los niños tu nombre 
escribir a mi padre muerto 
y contarle que te llamas así. 
Me creo que siempre que lo digo me oyes. 
Me creo que da buena suerte: 
Voy por las calles tan contenta
y no llevo encima nada más que tu nombre.


Gloria Fuertes





Vê lá que maluquice,
gosto de te escrever o nome,
encher o papel com teu nome,
incendiar o ar com teu nome;
dizer às crianças teu nome
escrever a meu pai falecido
e contar-lhe que te chamas assim.
Creio aliás que me ouves, sempre que o digo.
Acho que me dá sorte,
vou tão contente pela rua fora
sem nada por cima, só com teu nome.


(Trad. A.M.)

.

23.5.17

Gloria Bosch (Com a alma pela gorja)





CON EL ALMA AL CUELLO



Con el alma al cuello anduve mucho tiempo
en la cuerda floja
buscando el equilibrio de un trapecista
descifrando en el mapa de otros cuerpos
las huellas borrosas de mi propia historia.
Con el alma al vuelo
busqué la compañía de los espejos
el agua tibia que me saciara
de una sed antigua de querencias y deseos.
Superviviente de algún naufragio
no opté por la fuga ni el suicidio
dejé pasar las hojas del calendario
sanando heridas, corazón en mano.
Me mueve la fe de que estoy viva
llego a fin de mes sin red y con tropiezos
los tigres me saludan y me he hecho amiga
de las magas y los titiriteros.
Aunque la vida me ha dado algún zarpazo
esquivo el látigo de los malos momentos
y doy volteretas sobre la lona
si las palabras acuden a mi encuentro.
Mi vicio es escribir a ras de suelo.


Gloria Bosch





Com a alma pela gorja andei muito tempo
na corda bamba
tentando o equilíbrio do trapezista
decifrando no mapa de outros corpos
o rasto da minha própria história.
Com a alma a voar
busquei a companhia dos espelhos
a água fresca para saciar
uma sede antiga de paixão e desejos.
Sobrevivente de naufrágio
não escolhi a fuga nem a morte,
deixei virar as folhas do calendário,
sarar as feridas, de coração nas mãos.
Move-me a fé de estar viva,
chego sem rede ao fim do mês, aos tropeções,
os tigres saudam-me, fiz-me amiga
das magas e dos saltimbancos.
Certo que a vida me fez algumas feridas,
mas fujo ao látego dos maus momentos
e dou cambalhotas na lona
se as palavras vêm ao meu encontro.
Meu vício é escrever ao rés do solo.


(Trad. A.M.)

.

22.5.17

Machado de Assis (Casada)





A alegria com que pôs o seu chapéu de casada, e o ar de casada com que me deu a mão para entrar e sair do carro, e o braço para andar na rua, tudo me mostrou que a causa da impaciência de Capitu eram os sinais exteriores do novo estado.
Não lhe bastava ser casada entre quatro paredes e algumas árvores; precisava do resto do mundo também.
E quando eu me vi embaixo, pisando as ruas com ela, parando, olhando, falando, senti a mesma coisa.
Inventava passeios para que me vissem, me confirmassem e me invejassem.
Na rua, muitos voltavam a cabeça curiosos, outros paravam, alguns perguntavam: "Quem são?" e um sabido explicava: "Este é o Doutor Santiago, que casou há dias com aquela moça, D. Capitolina, depois de uma longa paixão de crianças; moram na Glória, as famílias residem em Mata-cavalos." E ambos os dois: "É uma mocetona!"


MACHADO DE ASSIS
Dom Casmurro
(1900)

.

21.5.17

Gisela Galimi (Estação)








El invierno termina algún día incierto.
Ni antes ni después
que finalice el frío.
No importa como lo llames,
ni la fecha que dicte el almanaque.
El invierno es invierno.
Las muchachas podrán ignorarlo
y vestir primavera en septiembre,
enamoradas de las quimeras.
Pero una mujer ya tiene su experiencia.
Todo llega a su debido tiempo.


Gisela Galimi




Termina o Inverno em dia incerto,
nem antes nem depois
de se acabar o frio.
Não importa o nome
nem a data indicada pelo almanaque.
O Inverno é o Inverno.
Poderão ignorá-lo as moças
e vestir de Primavera em Setembro,
enamoradas de quimeras.
Mas uma mulher tem já a sua experiência,
tudo vem com o tempo.


(Trad. A.M.)

.

20.5.17

Gioconda Belli (Pirilampos)





LUCIÉRNAGAS



A las cinco de la tarde
cuando el resplandor se queda sin brillo
y el jardín se sumerge en el último hervor dorado del día
oigo el grupo bullicioso de niños
que salen a cazar luciérnagas.

Corriendo sobre el pasto
se dispersan entre los arbustos,
gritan su excitación, palpan su deslumbre
se arma un círculo alrededor de la pequeña
que muestra la encendida cuenca de sus manos
titilando.

Antiguo oficio humano
este de querer atrapar la luz.

¿Te acuerdas de la última vez que creímos poder iluminar la noche?

El tiempo nos ha vaciado de fulgor.
Pero la oscuridad
sigue poblada de luciérnagas.


Gioconda Belli

[Apología de la luz]




Ao fim da tarde
quando a luz amortece
e o jardim mergulha nas últimas ondas
de oiro do dia
chega-me o bulício das crianças
à caça de pirilampos.

Correndo na relva
espalham-se nos arbustos,
gritam de excitação, deslumbrados,
e fazem roda em torno da pequena
a mostrar a concha acesa
das mãos cintilando.

Humano ofício antigo
este de querer agarrar a luz.

Lembras-te da última vez em que julgámos
poder iluminar a noite?

O tempo tirou-nos o fulgor.
Mas a escuridão
continua cheia de pirilampos.

(Trad. A.M.)

____________________

Pirilampos:
Fernando Assis Pacheco - Apanhador de pirilampos
A.M.Pires Cabral - Pirilampos-I

.

18.5.17

Gina Saraceni (Devolveu ao mar)





Le devolvió
las piedras al mar,

las piedras guardadas por años
en frascos de mermelada.

Fue el vacío
lo que queda
en su lugar.

Igual que un abandono:
dura todavía.


Gina Saraceni





Devolveu
ao mar as pedras,

guardadas anos e anos
em frascos de marmelada.

No lugar delas
foi o vazio
o que ficou.

Tal como um abandono,
ainda dura.


(Trad. A.M.)

  .

17.5.17

Gabriel Celaya (A poesia é uma arma)





LA POESÍA ES UN ARMA CARGADA DE FUTURO



Cuando ya nada se espera personalmente exaltante,
mas se palpita y se sigue más acá de la conciencia,
fieramente existiendo, ciegamente afirmando,
como un pulso que golpea las tinieblas,

cuando se miran de frente
los vertiginosos ojos claros de la muerte,
se dicen las verdades:
las bárbaras, terribles, amorosas crueldades.

Se dicen los poemas
que ensanchan los pulmones de cuantos, asfixiados,
piden ser, piden ritmo,
piden ley para aquello que sienten excesivo.

Con la velocidad del instinto,
con el rayo del prodigio,
como mágica evidencia, lo real se nos convierte
en lo idéntico a sí mismo.

Poesía para el pobre, poesía necesaria
como el pan de cada día,
como el aire que exigimos trece veces por minuto,
para ser y en tanto somos dar un sí que glorifica.

Porque vivimos a golpes, porque apenas si nos dejan
decir que somos quien somos,
nuestros cantares no pueden ser sin pecado un adorno.
Estamos tocando el fondo.

Maldigo la poesía concebida como un lujo
cultural por los neutrales
que, lavándose las manos, se desentienden y evaden.
Maldigo la poesía de quien no toma partido hasta mancharse.

Hago mías las faltas. Siento en mí a cuantos sufren
y canto respirando.
Canto, y canto, y cantando más allá de mis penas
personales, me ensancho.

Quisiera daros vida, provocar nuevos actos,
y calculo por eso con técnica qué puedo.
Me siento un ingeniero del verso y un obrero
que trabaja con otros a España en sus aceros.

Tal es mi poesía: poesía-herramienta
a la vez que latido de lo unánime y ciego.
Tal es, arma cargada de futuro expansivo
con que te apunto al pecho.

No es una poesía gota a gota pensada.
No es un bello producto. No es un fruto perfecto.
Es algo como el aire que todos respiramos
y es el canto que espacia cuanto dentro llevamos.

Son palabras que todos repetimos sintiendo
como nuestras, y vuelan. Son más que lo mentado.
Son lo más necesario: lo que no tiene nombre.
Son gritos en el cielo; y en la tierra, son actos.


Gabriel Celaya





Quando já nada se espera de pessoalmente exaltante,
mas se palpita e se continua para cá da consciência,
ferozmente existindo, cegamente afirmando,
como um pulso que lateja nas trevas,

quando se olham de frente
os claros olhos vertiginosos da morte,
dizem-se as verdades:
as bárbaras, terríveis, amorosas crueldades.

Dizem-se os poemas
que dilatam os pulmões de quantos, asfixiados,
pedem ser, pedem ritmo,
pedem lei para o que sentem excessivo.

Com a velocidade do instinto,
com o raio do prodígio,
como mágica evidência, converte-se o real
no idêntico a si mesmo.

poesia para o pobre, poesia necessária
como o pão de cada dia,
como o ar que exigimos treze vezes por minuto,
para ser e enquanto somos dizer um sim que glorifica.

Porque vivemos de vez em quando, porque mal nos deixam
dizer que somos quem somos,
nossos cantos não podem sem pecado ser um ornamento.
Estamos a tocar o fundo.

Maldigo a poesia concebida como um luxo
cultural pelos neutrais
que lavando as mãos, se desinteressam e evadem.
Maldigo a poesia de quem não toma partido até manchar-se.

Faço minhas as faltas. Sinto em mim quantos sofrem
e canto ao respirar.
Canto, canto, e a cantar para além de minhas mágoas
pessoais, fico maior.

Quisera dar-vos vida, provocar novos actos,
e calculo por isso com técnica,que venço.
Sinto-me um engenheiro do verso e um operário
que com outros trabalha Espanha nos seus aços.

Assim é a minha poesia: poesia-ferramenta
e ao mesmo tempo pulsação do unânime e cego.
Assim é, arma carregada de futuro expansivo
com que aponto ao peito.

Não é uma poesia gota a gota pensada.
Nem um belo produto. Nem um fruto perfeito.
É algo como o ar que todos respiramos
e é o canto que difunde o que dentro levamos.

São palavras que todos repetimos sentindo
como nossas, e voam. São mais que o que elas dizem.

São o mais necessário: o que possui um nome.
São gritos no céu, e, na terra, são actos.


(Trad. José Bento)

___________________

Paco Ibañez (YouTube)
(Aditado ‘gritos’ no último verso, conforme o original). A.M.

.

16.5.17

Machado de Assis (Promessas espirituais)





Capitu, que estava na alcova, gostou de ver a minha entrada, os meus gestos, palavras e lágrimas, segundo me disse depois; mas não suspeitou naturalmente todas as causas da minha aflição.
Entrando no meu quarto, pensei em dizer tudo a minha mãe, logo que ela ficasse boa, mas esta idéia não me mordia, era uma veleidade pura, uma ação que eu não faria nunca, por mais que o pecado me doesse.
Então, levado do remorso, usei ainda uma vez do meu velho meio das promessas espirituais, e pedi a Deus que me perdoasse e salvasse a vida de minha mãe, e eu lhe rezaria dois mil padre-nossos.
Padre que me lês, perdoa este recurso; foi a última vez que o empreguei.
A crise em que me achava, não menos que o costume e a fé, explica tudo. Eram mais dois mil; onde iam os antigos?
Não paguei uns nem outros, mas saindo de almas cândidas e verdadeiras tais promessas são como a moeda fiduciária, — ainda que o devedor as não pague, valem a soma que dizem. 


MACHADO DE ASSIS
Dom Casmurro
(1900)

.

15.5.17

Francisco Urondo (Bem-fazer)





BENEFACCION



Piedad para los equivocados, para
los que apuraron el paso y los torpes
de lentitud. Para los que hablaron bajo tortura
o presión de cualquier tipo, para los que supieron
callar a tiempo o no pudieron mover
un dedo; perdón por los desaires con que me trata
la suerte; por titubeos y balbuceos. Perdón
por el campo que crece en estos espacios de la época
trabajosa, soberbia. Perdón
por dejarse acunar entre huesos
y tierras, sabihondos y suicidas, ardores
y ocasos, imaginaciones perdidas y penumbras.


Francisco Urondo




Piedade para os equivocados, para
os que apuraram o passo e os canhestros
de lentidão. Para os que falaram sob tortura
ou pressão de qualquer tipo, para os que souberam
calar a tempo ou não puderam
mexer um dedo; perdão pelos meus desaires da sorte;
por indecisões e balbuceios. Perdão
pelo campo que cresce na época trabalhosa, soberba.
Perdão por adormecer em meio de ossos
e terras, sabichões e suicidas, ardores
e ocasos, imaginações perdidas e sombras.

(Trad. A.M.)

.

14.5.17

Francisco J. Picón (O infinito cabe)





EL INFINITO CABE EN UNA HOJA DE PAPEL



Un cuaderno vacío,
huérfano de letras e ideas,
reclama la atención
de un poeta que lo adopte
en un rincón de la memoria

El duende, tutelador
de musas sin dueño,
agoniza en la trastienda
de las prisas,
arropado por telarañas
de vergüenza y estrés

Un lápiz diminuto,
abandonado en el asilo
de la rutina,
pide un minuto de gloria
en busca de la suerte
en el carboncillo del tiempo

El aprendiz de poeta,
abrigado de dudas y miserias,
inicia la aventura
de las hojas en blanco,
alumbrando un verso neonato
en el paritorio de los sueños

Y el cuaderno,
otrora vacío y triste,
abandona el umbral
de la soledad,
acompañado de rimas,
misterios y métrica…


Francisco J. Picón

[La locura de los cuerdos]




Um caderno vazio,
órfão de letras e de ideias,
reclama a atenção
de um poeta que o adopte
num recanto da memória

O duende, patrono
de musas sem dono,
agoniza na traseira
das pressas,
vestido com teias
de fadiga e vergonha

Um lápis diminuto,
esquecido no asilo
da rotina,
pede um instante de glória
na busca da sorte
no carvão do tempo

O aprendiz de poeta,
isento de dúvidas e misérias,
começa a aventura
das folhas em branco,
alumbrando um verso recém-nascido
na sala de partos dos sonhos

E o caderno,
em tempos vazio e triste,
deixa o umbral da solidão,
acompanhado de rimas,
métrica e mistérios...


(Trad. A.M.)

.

12.5.17

Francisca Aguirre (E se, depois de tudo)





Y si después de todo, todo fuera,
un ir muriendo para al fin morirnos
a qué este loco empeño en convertirnos
en contables de un tiempo que no espera.

Y si resulta que lo cierto era
este sermón que viene a repetirnos
que avanza el huracán para abatirnos
y es inútil y absurda esta carrera.

Entonces, amor mío, ten sosiego,
y aprovecha esta cueva que te ofrezco
y apura el agua que yo no he bebido.

El viento nos arrastra, frío y ciego,
toma mi manta mientras yo envejezco,
amarte de otro modo no he sabido.


Francisca Aguirre






E se, depois de tudo, tudo fosse
um ir morrendo para no fim se morrer,
para quê este louco afã de nos fazermos
medidores de um tempo que não espera?

E se o certo afinal
era este sermão a dizer-nos
que vem aí o furacão a abater-nos,
sendo inútil e absurda esta corrida?

Então, amor meu, tem calma,
aproveita esta gruta que eu te ofereço,
acaba a água que eu não bebi.

O vento arrasta-nos, cego e frio,
pega a minha manta enquanto eu envelheço,
amar-te de outro modo eu não soube.


(Trad. A.M.)

.

11.5.17

Flor Codagnone (Vou ter medo)





Voy a tener miedo.
Te voy a pedir que me abraces.
El vestido puede arrancarse.
La piel, no.


Flor Codagnone




Vou ter medo.
Vou-te pedir que me abraces.
Que o vestido pode arrancar-se,
a pele não.

(Trad. A.M.)


.