9.9.16

Vitorino Nemésio (Na Urzelina)





Os primeiros dias do desterro de Margarida correram suaves na Urzelina.

Bem na Urzelina, não.

A casa do capitão José Urbanino – como a conheciam ainda – ficava um pouco retirada da linha da povoação, apontando com os telhados baixos e longos, com a sua eira e o engenho, na direcção da “Serra” – a Serra vaga e toda lombar de São Jorge, mãe de milhares de vacas que parecem encarregadas de berrar de dor por ela e de milhões de vitelas enterradas no seu seio de fogo, virgens do garfo do gourmet.



VITORINO NEMÉSIO
Mau Tempo no Canal
(Pastoral)

.

Jorge Luis Borges (Os Borges)

 




LOS BORGES



Nada o muy poco sé de mis mayores
Portugueses, los Borges: vaga gente
que prosigue en mi carne, oscuramente,
sus hábitos, rigores y temores.

Tenues como si nunca hubieran sido
y ajenos a los trámites del arte,
indescifrablemente forman parte
del tiempo, de la tierra y del olvido.

Mejor así. Cumplida la faena,
son Portugal, son la famosa gente
que forzó las murallas del Oriente

y se dio al mar y al otro mar de arena.
Son el rey que en el místico desierto
se perdió y el que jura que no ha muerto.


JORGE LUIS BORGES
El Hacedor
(1960)



Nada ou muito pouco sei de meus maiores
portugueses, os Borges, vaga gente
que prossegue em minha carne, obscuramente,
seus hábitos, seus rigores e seus temores.

Ténues como se nunca tivessem sido
e alheios aos trâmites da arte,
indecifravelmente fazem parte
do tempo, da terra e do olvido.

Antes assim. Cumprida a ideia,
são Portugal, a famosa gente
que forçou as muralhas do Oriente

e se deu ao mar e a outro mar de areia.
São o rei que no místico deserto se perdeu,
aquele que jura que não morreu.



(Trad. A.M.)

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8.9.16

Gonçalo M. Tavares (Água)





A ÁGUA



No café trazem-me um copo com água
como se ele resolvesse todos os meus problemas.
É ridículo — penso — não há saída.
No entanto, depois de beber a água
fico sem sede.
E a sensação exclusiva do organismo
acalma-me por momentos.
Como eles sabem de filosofia — penso —
e regresso, logo a seguir, à angústia.


Gonçalo M. Tavares


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7.9.16

Joan Margarit (Discurso do método)





DISCURSO DEL MÉTODO



De niño ya buscaba las ventanas
para poder huir con la mirada.
Desde entonces, si entro en un lugar,
miro con atención dónde dejo el abrigo
y dónde está la puerta de salida.
Libertad, para mí, quiere decir huida.
Hay muchas puertas en el mundo.
Incluso el sexo, en caso de emergencia,
puede serlo, aunque todas van cerrándose
y, para huir, muy pronto quedarán
tan solo las ventanas de la infancia.
De par en par abiertas para poder saltar.

Joan Margarit





Já em menino buscava as janelas
para poder fugir com o olhar.
Desde então, ao entrar num lugar,
olho com atenção onde deixo o abrigo
e onde fica a porta de saída.
Liberdade, para mim, quer dizer fuga.
Há muitas portas no mundo.
Mesmo o sexo, em caso de emergência,
pode sê-lo, embora todas se vão fechando
e, para fugir, depressa fiquem
somente as janelas da infância.
Abertas de par em par para poder saltar.

(Trad. A.M.)


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6.9.16

Vitorino Nemésio (Ao poente)





Ao poente estendia-se a terra lambida e negra que o grande respiradoiro de repente aberto na ilha amontoara ali – a Queimada – com um ar de capuz de penitente envolvido num crime fantástico, e que por isso mesmo o povo chama nas ilhas “mistério”, pois todas elas são dadas a esse fadário telúrico que não teve Abel nem Caim.

A vegetação, porém, começava a ganhar o duelo travado há mais de um século entre aquele borralho negro e as forças escondidas no chão; e a urzela, o pinheiro, a ruivinha que pinta os queijos e as saias, o incenseiro da florinha cerosa e de baga melada vestiam de folhas e de pássaros a desesperada solidão.



VITORINO NEMÉSIO
Mau Tempo no Canal
(Pastoral)

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Javier Salvago (Divino tesouro)





DIVINO TESORO



La juventud pasó.
Bien está lo que acaba.
No volvería a ser joven
ni aunque me lo pagaran.

¿Echar a andar de nuevo
por la senda trillada
de los sueños ilusos
y las verdades vagas?

¿Empezar otra vez
con las viejas batallas
y sus viejas heridas?
¿Volver a las andadas,

a la noche, al infierno,
al gusto por la mala
vida? ¿Hacer de todo,
lo que es comedia, un drama?

¿Volver a alimentarme
de mitos y falacias,
de modas y movidas,
de palabras gastadas?

¿Llevar sobre los hombros
la fastidiosa carga
de ser interesante,
original?... ¡Qué lata!

¿Confiar, como ayer,
en la vana esperanza
de que todo será
mejor en el mañana?

¿Tener toda la vida
por delante —tan larga—
con lo que uno ha pasado
para ir medio pasándola?

La juventud se fue.
Bien está lo que acaba.
No volveré a ser joven,
a Dios gracias.


Javier Salvago




A juventude passou.
Bem está aquilo que acaba.
Eu não voltaria a ser jovem
mesmo que me pagassem.

Pôr-me a andar de novo
pelo caminho trilhado
dos sonhos ilusórios
e das vagas verdades?

Começar outra vez
com as velhas batalhas
e suas velhas feridas?
Voltar às aventuras,

à noite, ao inferno,
ao gosto da má
vida? Fazer um drama,
de tudo o que é comédia?

Voltar a alimentar-me
de mitos e falácias,
de modas e movidas,
de palavras desgastadas?

Carregar aos ombros
a fastidiosa carga
de ser interessante,
original?... Que lata!

Confiar, como ontem,
na vã esperança
de que tudo será
melhor amanhã?

Ter toda a vida
pela frente - tão longa -
com o que já passamos
para ir aguentando?

A juventude foi-se.
Bem está aquilo que acaba.
Eu é que não volto a ser jovem,
graças a Deus.

(Trad. A.M.)


> Outra versão: Do trapézio (L.P.)

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5.9.16

Gil T. Sousa (Grandes navios)





(22)


grandes navios
no horizonte


e
nenhum mar
por perto!





GIL T. SOUSA
Falso Lugar
(2004)

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4.9.16

Jaime Sabines (Não é que eu morra de amor)





NO ES QUE MUERA DE AMOR, MUERO DE TI.
Muero de ti, amor, de amor de ti,
de urgencia mía de mi piel de ti,
de mi alma de ti y de mi boca
y del insoportabie que yo soy sin ti.

Muero de ti y de mí, muero de ambos,
de nosotros, de ese,
desgarrado, partido,
me muero, te muero, lo morimos.

Morimos en mi cuarto en que estoy solo,
en mi cama en que faltas,
en la calle donde mi brazo va vacío,
en el cine y los parques, los tranvías,
los lugares donde mi hombro acostumbra tu cabeza
y mi mano tu mano
y todo yo te sé como yo mismo.
   (…)

 





NÃO É QUE EU MORRA DE AMOR, MORRO É DE TI.
Morro de ti, amor, de amor de ti,
de urgência minha da minha pele de ti,
da minha alma de ti e da boca
e do insuportável que eu sou sem ti.

Morro de ti e de mim, morro de ambos,
de nós dois e daquele,
partido, rasgado,
morro-me e morro-te, morremos.

Morremos em meu quarto onde estou só,
na minha cama onde faltas,
na rua onde meu braço vai vazio,
no cinema e nos parques, nos eléctricos,
nos lugares onde meu ombro te ampara a cabeça
e minha mão tua mão
e todo eu te sei como eu mesmo.
   (...)

(Trad. A.M.)


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3.9.16

Jaime Gil de Biedma (Nem que seja um instante)





AUNQUE SEA UN INSTANTE



Aunque sea un instante, deseamos
descansar. Soñamos con dejarnos.
No sé, pero en cualquier lugar
con tal de que la vida deponga sus espinas.
Un instante, tal vez. Y nos volvemos
atrás, hacia el pasado engañoso cerrándose
sobre el mismo temor actual, que día a día
entonces también conocimos.
Se olvida
pronto, se olvida el sudor tantas noches,
la nerviosa ansiedad que amarga el mejor logro
llevándonos a él de antemano rendidos
sin más que ese vacío de llegar,
la indiferencia extraña de lo que ya está hecho.
Así que a cada vez que este temor,
el eterno temor que tiene nuestro rostro
nos asalta, gritamos invocando el pasado
–invocando un pasado que jamás existió–
para creer al menos que de verdad vivimos
y que la vida es más que esta pausa inmensa,
vertiginosa,
cuando la propia vocación, aquello
sobre lo cual fundamos un día nuestro ser,
el nombre que le dimos a nuestra dignidad
vemos que no era más
que un desolador deseo de esconderse.


Jaime Gil de Biedma

[Algun día]




Nem que seja um instante, queremos
descansar. Sonhamos com deixar-nos.
Não sei, mas em qualquer lugar
contanto que a vida perca os espinhos.
Um instante, talvez. E viramo-nos
para trás, para o passado enganoso a fechar-se
sobre o mesmo temor actual, que então
conhecemos também dia a dia.
Esquecemos
depressa, esquecemos o suor tantas noites,
a ansiedade nervosa que anula o maior êxito
levando-nos a ele rendidos de antemão
sem mais que o vazio de chegar,
a indiferença estranha daquilo que está já feito.
Daí que, de cada vez que nos assalta este temor,
o eterno temor que ostentamos no rosto,
gritamos invocando o passado
– esse passado que jamais existiu –
para crer ao menos que na verdade vivemos
e que a vida é mais do que esta pausa imensa,
vertiginosa,
quando a própria vocação, isso
sobre que fundámos um dia nosso ser,
o nome que demos à nossa dignidade,
vemos que mais não era afinal
do que um desolado desejo de esconder.

(Trad. A.M.)



> Outra versão: Meia-noite todo dia (m.a.domingos)


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2.9.16

Fernando Pessoa / A. Campos (Estou cansado)





ESTOU CANSADO



Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto —
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo...
E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente; eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.


Álvaro de Campos


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1.9.16

Irene Sánchez Carrón (Silhueta na janela)





SILUETA DETRÁS DE UNA VENTANA




Que no sepa la rosa que la miras
ni sepa nunca el agua de tu sed.

Que las nubes
no se sientan flotar
en el azul profundo de tus sueños.

Que nunca sepa el mar
que palpita tu ser al ritmo de las olas.

La montaña,
que no te oiga suspirar sobre su pecho.

El bosque,
que ignore que podría extraviarte.

Que no sepa la tierra cómo mirar
sus frutas más sabrosas
y festejen tus ojos su belleza
sin que ella lo sepa.



Irene Sánchez Carrón






Que não saiba a rosa que a contemplas
nem saiba a água de tua sede.

Que as nuvens
não se sintam boiar
no azul profundo de teus sonhos.

Que não saiba jamais o mar
que teu ser palpita ao ritmo das ondas.

A montanha,
que não te ouça suspirar em seu peito.

O bosque,
que ignore que podia extraviar-te.

Que não saiba a terra como olhar
seus frutos mais saborosos
e festejem teus olhos sua beleza
sem que ela saiba.



(Trad. A.M.)

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31.8.16

Raduan Nassar (Puta)





E eu me queimando disse 'puta' que foi uma explosão na boca e minha mão voando outra explosão na cara dela, e não era a bofetada generosa parte de um ritual, eu agora combinava intenxionalmente a palma co'as armas repressivas do seu arsenal (seria sim no esporro e na porrada!), por isso tornei a dizer 'puta' e tornei a voar a mão, e vi sua pele cor-de-rosa manchar-se de vermelho, e de repente o rosto todo ser tomado por um formigueiro, seus olhos ficaram molhados, eu fiquei atento, meus olhos em brasa na cara dela, ela sem se mexer amparada pelo carrro, eu já recuperado no aço da coluna, ela mantendo com volúpia o recuo lascivo da bofetada, cristalizando com talento um sistema complexo de gestos, o corpo torcido, a cabeça jogada de lado, os cabelos turvos, transtornados, fruindo, quase até ao orgasmo, o drama sensual da própria postura...


RADUAN NASSAR
Um copo de cólera
(1978)

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Gabriel Celaya (Biografia)






BIOGRAFÍA*



No cojas la cuchara con la mano izquierda.
No pongas los codos en la mesa.
Dobla bien la servilleta.
Eso, para empezar.

Extraiga la raíz cuadrada de tres mil trescientos trece.
¿Dónde está Tanganika? ¿Qué año nació Cervantes?
Le pondré un cero en conducta si habla con su compañero.
Eso, para seguir.

¿Le parece a usted correcto que un ingeniero haga versos?
La cultura es un adorno y el negocio es el negocio.
Si sigues con esa chica te cerraremos las puertas.
Eso, para vivir.

No seas tan loco. Sé educado. Sé correcto.
No bebas. No fumes. No tosas. No respires.
¡Ay, sí, no respirar! Dar el no a todos los nos.
Y descansar: morir.


Gabriel Celaya





Não pegues na colher com a mão esquerda.
Não ponhas os cotovelos na mesa.
Dobra bem o guardanapo.
Isto, para começar.

Extraia a raiz quadrada de três mil trezentos e treze.
Onde é o Tanganica? Em que ano nasceu Cervantes?
Dou-lhe um zero em comportamento se falar com o seu colega.
Isto, para continuar.

Parece-lhe bem um engenheiro fazer versos?
A cultura é um adorno e o negócio é negócio.
Se continuas com essa moça fechamos-te a porta.
Isto, para viver.

Não sejas tão louco. Sê educado. Correcto.
Não bebas. Não fumes. Não tussas. Não respires.
Ai, sim, não respirar! Dizer não a todos os nãos.
E descansar: morrer.


(Trad. A.M.)

__________________

> Outra versão: Luz & sombra (José Bento)

*Há outro poema de Celaya, com o mesmo título (aqui publicado):
Rua das Pretas


.

30.8.16

Dinis Moura (Testamento)






TESTAMENTO 



aos vermes 
este corpo inóspito 

à ciência 
este coração de carne 
húmus e sentimento 
este dilacerado e desiludido 
órgão devoto do amor



Dinis Moura

.

29.8.16

Juan José Saer (Aos pecados capitais)





A LOS PECADOS CAPITALES



Por nuestra fantasía, nos liberan
de la materia pura, pero caemos en la red
de la esperanza. Pecados, vicios, y hasta
las débiles virtudes, nos separan
del cuerpo único del caos,
nos arrancan
de la madera y de los mares.
Guardianes en el umbral de la nada.


Juan José Saer




Por nossa fantasia, libertam-nos
da matéria pura, mas vamos cair na rede
da esperança. Pecados, vícios, até
as débeis virtudes, apartam-nos
do corpo único do caos,
arrancam-nos
da madeira e dos mares.
Guardiães na soleira do nada.

(Trad. A.M.)



>>  Poetas siglo XXI (12p) / Facebook (8p) / Escritores (bio+linques) / Wikipedia


 .

28.8.16

Raduan Nassar (Sua jornalistinha de merda)





Mesmo assim estufei um pouco o peito e dei dois passos na direcção dela, e ela deve ter notado alguma solenidade nesse meu avanço, era inteligente a jovenzinha, e versátil a filha-da-puta, eu só sei que ela de repente levou as mãos na cintura, mudou a cara em dois olhos de desafio, os dois cantos da boca sarcásticos, além de esbanjar a quinquilharia de outros trejeitos, mas nem era preciso tanto, eu nessa altura já não podia mais conter o arranco 'você aí, você aí' eu disparei de supetão 'você aí, sua jornalistinha de merda'...


RADUAN NASSAR
Um copo de cólera
(1978)

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Alfonsina Storni (Casas enfiladas)





CASAS ENFILADAS



Casas enfiladas,
casas enfiladas,
casas enfiladas.
Cuadrados, cuadrados,
cuadrados.
Casas enfiladas.

La gente ya tiene el alma cuadrada
ideas en fila
y ángulo en la espalda.
Yo mismo he vertido ayer una lágrima
Díos mío... cuadrada.


Alfonsina Storni

[Trilce]




Casas enfiladas,
casas enfiladas,
casas enfiladas.
Quadrados, quadrados,
quadrados.
Casas enfiladas.

As pessoas já têm a alma quadrada
ideias em fila
e ângulo nas costas.
Até eu verti ontem uma lágrima
Deus meu... quadrada.


(Trad. A.M.)

.

27.8.16

Bocage (Camões, grande Camões)






Camões, grande Camões, quão semelhante
Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!
Igual causa nos fez, perdendo o Tejo,
Arrostar co'o sacrílego gigante;

Como tu, junto ao Ganges sussurrante,
Da penúria cruel no horror me vejo;
Como tu, gostos vãos, que em vão desejo,
Também carpindo estou, saudoso amante.

Ludíbrio, como tu, da Sorte dura
Meu fim demando ao Céu, pela certeza
De que só terei paz na sepultura.

Modelo meu tu és, mas... oh, tristeza!...
Se te imito nos transes da Ventura,
Não te imito nos dons da Natureza. 



Bocage

.

26.8.16

Felipe Benítez Reyes (Uma forma de eternidade)





UNA FORMA DE ETERNIDAD



Pero ¿el miedo era esto?
No los amenazantes
fantasmas del pensamiento y la conciencia.
No los largos pasillos de hospitales
con tubos fluorescentes día y noche.
Ni siquiera el temblor de irrealidad
que se queda en el alma si recuerdas.

El miedo, al parecer, es sosegado:

te llega cuando cierras la ventana
y comprendes que todo cuanto miras
es lo mismo que ayer, y que lo mismo
volverá a ser mañana y para siempre.


Felipe Benítez Reyes

[Apología de la luz]





Então, era isto o medo?
Não os fantasmas horríveis
do pensamento e da consciência.
Não os compridos corredores de hospital
com tubos fluorescentes dia e noite.
Nem sequer o tremor de irrealidade
que deixa na alma o recordar.

O medo, pelos vistos, é sereno,

vem-nos ao fechar a janela
e ao vermos que tudo o que olhamos
é o mesmo de ontem e será
o mesmo amanhã e para sempre.

(Trad. A.M.)

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25.8.16

Raduan Nassar (Você vira um fascista)





E foi então que ela, com a mão ainda na maçaneta, deglutindo o grão perfeito do meu chamariz, e desenterrando circunstancialmente uns ares de gente séria (ela sabia representar o seu papel), entrou de novo espontaneamente em cena, me dizendo com bastante equilíbrio 'eu não entendo como você se transforma, de repente você vira um fascista' e ela falou isso de um jeito mais ou menos grave, na linha recta do comentário objectivo, só entortando, um tantinho mais, as pontas sempre curvas da boca, desenhando enfim na mímica o que a coisa tinha de repulsivo...


RADUAN NASSAR
Um copo de cólera
(1978)

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