1.12.13
António Franco Alexandre (Terceiras moradas)
TERCEIRAS MORADAS (2)
Hoje que me sinto
perfeitamente morto,
seria o bom momento de romper
a membrana celeste, implacável de azul,
sair, independente, para o lugar de pensamentos
lúcidos, quase reais! mas
fico preso à gangrena, o precioso
lugar dos músculos na carne,
e a memória do prazer mistura-se ao redondo
fio do horizonte;
não estou, afinal, senão vazio de todos os corpos,
apenas alheado das maquinações e dos
encontros. Deixo ficar a paisagem como está,
quando não olho é que as árvores se iluminam por dentro.
António Franco Alexandre
[Luz & sombra]
.
30.11.13
Uberto Stabile (Diz Gillespie)
DICE GILLESPIE
Dice Gillespie que la muerte no es lo peor
que no es el dolor la mejor escuela
ni el hambre nos convierte en campeones.
Dice Gillespie
que no son más fuertes quienes más pueden
que los son quienes más resisten
quienes de la derrota levantan caricias.
Dice Gillespie
que lo más peligroso nunca es el peligro
que lo más peligroso es la seguridad
con la que eludimos siempre el mismo peligro.
Dice Gillespie
que no es un hombre acabado
que es sólo un hombre que está acabando
que nunca el final sustituye al fin,
porque en realidad
dice Gillespie
que le dijo Parker
que le contó Cortázar
que en lugar de hacer el amor
ya va siendo hora
que el amor nos haga.
UBERTO STABILE
Los días contados
(2000)
Diz Gillespie que a morte não é o pior
que não é a dor a melhor escola
nem a fome nos converte em campeões.
Diz Gillespie
que os mais fortes não são os que mais podem
mas sim os que mais resistem
os que da derrota tiram carícias.
Diz Gillespie
que o mais perigoso nunca é o perigo
que o mais perigoso é a segurança
com que iludimos sempre o mesmo perigo.
Diz Gillespie
que homem acabado não é
que é só um homem que está acabando
que nunca o final substitui o fim,
porque na verdade
diz Gillespie
que lhe disse Parker
que lhe contou Cortázar
que em vez de fazer amor
vai sendo já tempo
que o amor nos faça.
(Trad. A.M.)
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29.11.13
Nuno Camarneiro (O sentido da vida)
O problema é desenhar a vida em forma de montanha, dar um cume à vida e querer atingi-lo como se o seu sentido dependesse desse acto.
O sentido da vida, a existir, há-de ser como o sentido de uma montanha, e não muda por lhe chegarmos ao topo ou nos perdermos pelas encostas.
Penso assim porque fiquei a meio, pior ainda, porque fiquei a escassos metros do topo.
Mas o problema de atingir um objectivo é decidir o que fazer depois de o atingir, e em nada é diferente a minha situação por o não ter atingido.
Com que devo preocupar-me agora, que não tenho nada com que me preocupar?
- NUNO CAMARNEIRO, Debaixo de algum céu, 2013 (Bernardino).
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Raúl Sánchez (Exílio involuntário)
EXILIO INVOLUNTARIO
Lo mismo que un alcohólico no deja
jamás de ser alcohólico aunque lleve
semanas, meses, años, lustros, décadas
sin que sus labios prueben la bebida;
y sabe que su vicio es un desierto
que necesita de una sola gota
para regenerarse - abarrotado
de plantas venenosas y parásitos;
me basta a mí - y sin duda te aprovechas
de mi debilidad - una mirada
tuya un poco más larga de la cuenta,
esa forma de andar, dos, tres palabras
para olvidar mis firmes juramentos;
por eso me resigno a tu memoria
desde este infausto exilio involuntario.
Raúl Sánchez
Tal como um alcoólico jamais
deixa de ser alcoólico, mesmo que
por semanas, meses ou anos
seus lábios não toquem na bebida;
e sabe que o vício é um deserto
que precisa apenas de uma gota
para se regenerar - abarrotado
de parasitas e plantas venenosas;
a mim – e tu exploras-me a fraqueza –
basta-me um olhar dos teus
um pouco mais longo do que a conta,
essa forma de andar, duas ou três palavras,
para esquecer meus firmes juramentos;
por isso me resigno a recordar-te
aqui, no meu infausto exílio involuntário.
(Trad. A.M.)
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28.11.13
Affonso Romano de Sant'Anna (Silêncio amoroso-2)
SILÊNCIO AMOROSO – 2
Preciso do teu silêncio
cúmplice
sobre minhas falhas.
Não fale.
Um sopro, a menor vogal
pode me desamparar.
E se eu abrir a boca
minha alma vai rachar.
O silêncio, aprendo,
pode construir. É um modo
denso/tenso
- de coexistir.
Calar, às vezes,
é fina forma de amar.
Affonso Romano de Sant’Anna
.
27.11.13
Rosalía de Castro (Hora após hora)
Hora tras hora, día tras día,
Entre el cielo y la tierra que quedan
Eternos vigías,
Como torrente que se despeña
Pasa la vida.
Devolvedle a la flor su perfume
Después de marchita;
De las ondas que besan la playa
Y que una tras otra besándola expiran
Recoged los rumores, las quejas,
Y en planchas de bronce grabad su armonía.
Tiempos que fueron, llantos y risas,
Negros tormentos, dulces mentiras,
¡Ay!, ¿en dónde su rastro dejaron,
En dónde, alma mía?
Rosalía de Castro
[Mi manera de estar solo]
Hora após hora, dia após dia,
entre céu e terra, eternos vigias,
é a vida que passa,
como torrente imparável.
Devolva-se à flor seu perfume
depois de murcha;
às ondas que beijam a praia
e que se enrolam uma após outra
tomem-se queixas e rumores,
gravando-as em tábuas de bronze.
O tempo passado, os prantos e risos,
negros tormentos, doces mentiras,
ai, onde é que deixaram o rasto,
onde é que foi, alma minha?
(Trad. A.M.)
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26.11.13
Rui Zink (Preconceitos)
Sim, eu tinha preconceitos.
Ainda os tenho.
E depois?
Sempre me pareceu exagerado esse medo dos preconceitos, dos estereótipos, das ideias feitas.
Um preconceito é um conceito pré-fabricado, já pronto-a-vestir, mastigado, uma espécie de hambúrguer mental.
Pode não fazer lá muito bem mas, por vezes, é a única tábua a que nós podemos agarrar.
E já dei por mim a pensar, com alguma melancolia, que a primeira vítima do preconceito é, pobrezinho, o próprio preconceito.
Enfim, conversa para outra altura.
- RUI ZINK, A espera, 2007.
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25.11.13
Carlos de Oliveira (Viandante)
O VIANDANTE
Trago notícias da fome
que corre nos campos tristes:
soltou-se a fúria do vento
e tu, miséria, persistes.
Tristes notícias vos dou:
caíram espigas da haste,
foi-se o galope do vento
e tu, miséria, ficaste.
Foi-se a noite, foi-se o dia
fugiu a cor às estrelas:
e, estrela nos campos tristes,
só tu, miséria, nos velas.
Carlos de Oliveira
[Antonio Cicero]
.
24.11.13
Raúl Gómez Jattín (Deslumbramento do desejo)
DESLUMBRAMIENTO POR EL DESEO
Instantáneo relámpago
tu aparición.
Te asomas súbitamente
en un vértigo de fuego y música
por donde desapareces.
Deslumbras mis ojos
y quedas en el aire.
Raúl Gómez Jattín
Instantâneo relâmpago
tua aparição.
Apareces subitamente
numa vertigem de música e fogo
por onde desapareces.
Deslumbras meus olhos
e permaneces no ar.
(Trad. A.M.)
>> A media voz (14p) / Grandes poetas (12p) / Arquitrave (7p) / Casa de poesia Silva (5p) / Wikipedia
.
23.11.13
Zoé Valdés (Loucura e escolha)
LOCURA E ELECCIÓN
De todas las muertes uno elige la suya
la de la mano incógnita
que ya jugó a alcanzar en la carrera infantil
de policías y ladrones
uno se apodera de la que te lanzará sobre un charco
debajo de las ruedas
robas la bala de oro la manzana envenenada
el gen cáncer el gen bacilo de Koch
el gen interminable que te persigue desde los ancestros
el encomendado para asesinar
La vida te la endosan
la muerte
uno tiene la sensación de elegirla
con fineza reflexiva
titubeando si no habrá otra mejor
más colorida más a la moda
el traje ilícito del sida
y registras en la prensa con confiada ufanía
ninguna se parece a tu carácter
todas son terquedad por nada
ni la muerte chic de los grandes atentados
ni los terremotos después del almuerzo
mucho menos el suicidio o el infarto indecoroso
tampoco aquellas donde se pretende dejar herencias
de todas las muertes uno selecciona con pulcritud
y a veces hasta con al irreverente certeza de aquel refrán
El hueso que está p'a uno no hay perro que se lo lleve
Zoé Valdés
[Estación Quilmes]
De todas as mortes cada um escolhe a sua
a da mão incógnita
que já brincou a agarrar nas corridas infantis
de polícias e ladrões
cada um se apodera da que o lançará para um charco
por baixo das rodas
furtas a bala de ouro a maçã envenenada
o gene câncer o gene bacilo de Koch
o gene interminável que te persegue desde os avós
o encomendado para matar
A vida é-nos passada
a morte
temos a sensação de escolhê-la
com aguda reflexão
titubeando se não haverá outra melhor
mais colorida mais na moda
o traje ilícito da sida
e vemos na imprensa ufanos e confiantes
nenhuma nos vai a carácter
todas são teimosia por nada
nem a morte chique dos grandes atentados
nem os terramotos depois de almoço
muito menos o suicídio o enfarte indecoroso
tão pouco as outras em que se quer deixar herança
de todas as mortes cada um escolhe com muito cuidado
e às vezes com a certeza do conhecido refrão
O osso marcado para nós não há cachorro que o leve
(Trad. A.M.)
.
22.11.13
Rui Zink (Querer pelos dois)
Ela não queria ofender-me, simplesmente não estava disponível.
Ah, sim, claro, se eu insistisse muito ela faria amor comigo, percebi naquele sorriso, e até se entregaria q.b. sem problema.
Mas era preciso eu querer pelos dois.
Então, sim, talvez ela se convencesse.
E talvez se entregasse - até muito mais do que eu desejaria.
Porque era também isso que eu lia no seu sorriso.
- RUI ZINK, A espera, 2007.
.
Albano Martins (Talvez)
TALVEZ
Sim, dizias tu, mas em seguida
corrigiste: talvez. Esta
é a única palavra
que não tem casa. Que mora
no intervalo
entre o som e o silêncio.
Albano Martins
[E um lugar ao sul]
.
21.11.13
Pedro Sevilla (Éramos violentos)
ÉRAMOS VIOLENTOS
Éramos violentos y algo tristes.
El paraíso entonces
era besar tus labios,
ir contigo a los muros donde en tiempos de paz
se abrazan las parejas
como si cachearan al amor.
Era el setenta y siete.
Tenías veinte años y un temblor en el pecho
de palomas miedosas que acostumbraron pronto
a probar la ternura de mis manos.
Éramos violentos: agentes de uniforme
saqueaban las aulas en busca de octavillas,
de libros prohibidos;
no comprendieron nunca que en los parques de octubre,
besándonos los labios,
fuimos más inquietantes, mucho más peligrosos
que gritando en las calles mientras nos perseguían.
Tenías veinte años:
Recuerdo que en un muro,
bajo la sangre quieta de unas siglas,
hicimos el amor en pie de guerra.
Pedro Sevilla
Éramos violentos e algo tristes.
O paraíso por então
era beijar teus lábios,
ir contigo aos sítios onde em tempo de paz
se abraçavam os pares
como se revistassem o amor.
Estávamos em setenta e sete.
Tu tinhas vinte anos e uma tremura no peito
de pombas medrosas que cedo se acostumaram
à ternura das minhas mãos.
Éramos violentos, agentes fardados
invadiam as aulas em busca de panfletos
ou de livros proibidos;
não perceberam nunca que nesses parques de Outubro,
a beijar-nos nos lábios,
éramos mais inquietantes, muito mais perigosos
do que aos gritos na rua enquanto nos perseguiam.
Tinhas vinte anos,
lembro-me de ao pé dum muro,
sob o sangue sereno de algumas siglas,
fazermos amor em pé de guerra.
(Trad. A.M.)
.
20.11.13
Nuno Camarneiro (O dia encheu)
O ar encheu-se de neblina e o que ainda se vê fora é desfocado e incerto, um barco lá longe, um casal que regressa do paredão, um cão perdido na praia.
O dia vai cegando devagar para que os olhos se habituem ao negro, as janelas acendem-se a confirmar gente e sente-se o silêncio por dentro, como coisa antiga da infância, como noite de meninos, o medo do escuro e os cheiros da casa.
O cheiro a lenha que arde, o cheiro a sopa, o cheiro da família.
- NUNO CAMARNEIRO, Debaixo de algum céu, 2013 (Narrador).
.
Carlos Salem (Cavalgamos)
CABALGAMOS
Sabes
que los perros de la memoria
muerden
pero ya
casi
no ladran.
El porvenir nunca viene
-que ya lo advirtió don ángel-
pero vienes tú
derritiendo aceras
licuando soledades.
Los perros huelen mi sangre
como yo huelo tu carne
con hocico de mastín
con el rabo desafiante.
Y no hay futuro/
ni presente/
ni pasado/
pero hay aquí/ ahora/
tú/
yo/
y un domingo que se abre.
El mañana es el placebo
que se inyectan los cobardes
y en este cuarto anochece
siempre a las seis de la tarde.
Los perros
hoy
aúllan para nadie.
El sol, cabreado,
busca a la luna
en vano.
Está desnuda en mi cama.
Carlos Salem
Os cães da memória
sabes
mordem
mas já
quase
não ladram.
O porvir não vem nunca
– advertiu-o don ángel –
mas vens tu
derreter calçadas
arrasar solidões.
Os cães cheiram-me o sangue
como eu faço com tua carne
com focinho de mastim
com o rabo em desafio.
E não há futuro/
nem presente/
nem passado/
mas há aqui/ agora/
tu/
eu/
e um domingo a abrir.
O amanhã é o placebo
que metem na veia os cobardes
e neste quarto anoitece
sempre às seis e meia da tarde.
Hoje
os cães
uivam a ninguém.
O sol, irritado,
busca a lua
em vão.
Está nua na minha cama.
(Trad. A.M.)
.
19.11.13
Alberto de Lacerda (Princípio de Novembro)
PRINCÍPIO DE NOVEMBRO
Luz estranha
Durante um momento interminável
nenhuma folha cai
O olhar treme
A cor é uma vertigem
ALBERTO DE LACERDA
Átrio
IN-CM (1997)
.
18.11.13
Cysko Muñoz (Las manos de mi padre)
LAS MANOS DE MI PADRE
Las manos de mi padre
están hechas
de tierra seca
y agua de acequia.
De puño de azada
y manojo de esparto
de un millón de surcos
de barro
secándose al sol.
Las manos de mi padre
nacieron viejas
cultivadas entre
fanegas de injusticia
y de miseria,
pero siempre supieron
plantarle cara a las lágrimas
con un golpe en la mesa.
Las manos de mi padre
no tienen destino en las líneas,
nunca existió el futuro
para quien lo ha de pelear
cada día...
Y aún así
las manos de mi padre
siempre huelen a
tomillo en el monte
y a frío en el alba
y siempre tienen
trigo en las palmas
y siempre bailan
con un fandango
de voz antigua y quebrada.
Por eso no entiendo que hoy,
en la comodidad distraída
de esta gran ciudad,
cuando la tierra hace
tiempo que yace olvidada
- pero sus dedos aun son
ramas de olivo -
que hoy, haya reconocido
de repente sus manos
en el contorno de mis nudillos.
Las manos de mi padre están en mi.
Cysko Muñoz
[La putta poesía]
As mãos de meu pai
são feitas
de terra seca
e água de levada.
Com punhos de enxada
e de molhos de esparto
com mil sulcos de lama
a secar ao sol.
As mãos de meu pai
nasceram velhas
por entre fanegas
de injustiça e miséria,
mas souberam sempre
fazer frente às lágrimas
com um murro na mesa.
As mãos de meu pai
não têm o destino nas linhas,
nem o futuro existe
para quem tem de o conquistar
todos os dias...
E mesmo assim
as mãos de meu pai
cheiram a tomilho do monte
e ao frio da aurora
e têm sempre
trigo nas palmas
e bailam o fandango
de voz antiga e quebrada.
Por isso não entendo que hoje,
na comodidade distraída
desta grande cidade
quando a terra há muito
que jaz esquecida
- mas os dedos são ainda
ramos de oliveira -
que hoje reconhecesse
as suas mãos, de repente,
no contorno dos meus dedos.
As mãos de meu pai são as minhas.
(Trad. A.M.)
>> La putta poesía (blogue p) / Facebook
.
17.11.13
Rui Zink (Silêncio)
Naquela época eu tinha medo do silêncio e não percebia que não havia mal nenhum em ficar em silêncio a meio de uma conversa, ou mesmo não haver conversa entre duas pessoas que vão lado a lado.
O silêncio é como o mar.
Envolve-nos e pode submergir-nos, se não soubermos lidar com ele, mas pode também embalar-nos, se perdermos o medo e nos deixarmos ir.
Em ambos, mar e silêncio, nada pior do que esbracejar de pânico.
- RUI ZINK, A espera, 2007.
.
Chantal Maillard (Fez-se noite ao meio-dia)
Se hizo de noche al mediodía.
No pude respirar.
Tanto metal entre la carne,
aquel sabor a cieno
y sobre todo
el corazón oblicuo, sí, eso es,
el corazón oblicuo.
Como las tejas de un tejado,
resbalando.
El viento arriba
(había viento, sí, un viento suave).
Pero ya terminó. Una sombra
no hace la noche entera.
Volvamos cada uno a lo que nos distingue:
esa historia concreta, personal
que nos mantiene a salvo -mientras tanto.
Una sombra no hace la noche entera
-¿o sí la hace?
Chantal Maillard
Fez-se noite ao meio-dia
e eu não respirava.
Tanto metal na carne,
aquele sabor a lodo
e sobretudo
o coração oblíquo, é isso, sim,
o coração oblíquo.
Como as telhas de um telhado,
a resvalar.
O vento em cima
(havia vento, sim, um vento suave).
Mas já acabou. Uma sombra
não faz a noite toda.
Voltemos cada um ao que nos distingue,
uma história concreta, pessoal,
que nos mantém a salvo - por enquanto.
Uma sombra não faz a noite toda
- ou faz?
.
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